Do uso moderado do tabaco para a saude, e da demasia nociva á mesma
saude, de qualquer modo que se use delle.
Os que são demasiadamente affeiçoados ao tabaco, o chamão herva santa:
nem ha epitheto de valor que lhe não dêem, para defender o excesso
digno de reprehensão, e de nota. Homens ha, que parece não podem viver
sem este quinto elemento; cachimbando a qualquer hora em casa, e nos
cachimbos; mascando as suas folhas, usando de torcidas, e enchendo os
narizes deste pó. E esta demasia não sómente vive nos maritimos, e nos
trabalhadores de qualquer casta, forros, e escravos, os quaes estão
persuadidos, que só com o tabaco hão de ter alento, e vigor; mas tambem
em muitas pessoas nobres, e ociosas; nos soldados dentro do corpo
da guarda; e em não poucos ecclesiasticos, clerigos, e religiosos:
na opinião das quaes toda a demasia se defende, ainda quando se vê
manifestamente, que se não usa por mesinha, mas por dar gosto a
hum excessivo, e mal habituado prurito. Eu, que de nenhum modo uso
delle, ouvi dizer, que o fumo do cachimbo, bebido pela manhã em jejum
moderadamente, desseca as humidades do estomago; ajuda para a digestão,
e não menos para a evacuação ordinaria; alivia ao peito, que padece
fluxão asmatica, e diminue a dôr insuportavel dos dentes.
O masca-lo não he tão sadio: porém assim como fumado pela manhã em
jejum moderadamente, serve para dessecar a abundancia dos humores do
estomago, assim o uso immoderado o relaxa: e pela continuação obra
menos, altera o gosto; faz grave o bafo, negros os dentes, e deixa os
beiços immundos.
Usão alguns de torcidas dentro dos narizes, para purgar por esta via a
cabeça, e para divertir o estillicidio, que vai a cahir nas gengivas,
e causa dor de dentes: e postas pela manhã, e á noite, não deixão de
ser de proveito. Só se encommenda aos que usão dellas, o evitarem a
indecencia, que causa o apparecer com ellas fora dos narizes, e com
huma gota de estillicidio sempre manente, que suja a barba, e causa
nojo a quem com elles conversa.
Sendo o tabaco em pó o mais usado, he certamente o menos sadio: assim
pela demasia, com que se toma, que passa de mesinha a ser vicio;
como por impedir o mesmo costume excessivo os bons effeitos, que se
pretendem, que talvez causaria, se o uso fosse mais moderado. Deixando
pois de reparar esta viciosa superfluidade, só lembro quanto dous
summos Pontifices, Urbano VIII, e Innocencio X, extranhárão usar delle
nas igrejas, pela grande indecencia, que reparárão, e julgárão ter este
intoleravel abuso, digno de se notar, e estranhar nos seculares e mais
nos ecclesiasticos pouco acautelados, ainda quando assistem no côro aos
officios divinos; e muito mais nos religiosos, que devem dar exemplo
a todos (e maiormente nos lugares sagrados) de gravidade, e modestia.
E por isso ambos os sobreditos pontifices chegárão a prohibi-lo com
excommunhão maior: o primeiro, com hum breve de 30 de janeiro do
anno de 1642, o prohibio na igreja de S. Pedro em Roma, e no adro, e
alpendre do dito templo: o segundo com outro breve, debaixo da mesma
pena, aos 8 de janeiro de 1650, nas igrejas de todo hum arcebispado,
em que se ia introduzindo esta demasia com escandalo. E em algumas
religiões mais observantes se prohibio o uso publico do tabaco nas
igrejas, com privação de voz activa e passiva, isto he, sob pena de
não poderem ser eleitos os transgressores, nem poderem escolher a
outros para superiores, e para outros officios da ordem.