Como se pisa o tabaco: do granido, e em pó; e como se lhe dá o cheiro.
Para se pisar o tabaco, ha de ser bem seco, ou ao sol, ou em bacias,
ou fornos de cobre, com attenção para que se não queime; e por isso se
ha de mexer continuamente: e os pilões, em que se pisa, hão de ser de
pedra marmore, com as mãos de pisar de páo. Pisado, peneira-se: e o que
estiver capaz, se tira á parte, e o mais grosso se torna a pisar, até
reduzir em pó. E este he o que commummente mais se procura, e se estima.
Do granido se usa muito em Italia: e faz-se desta sorte. Toma-se o
tabaco já feito em pó, e põe-se em hum alguidar vidrado: e bota-se-lhe
em quantidade moderada algum mel, ou calda de tabaco; e se esta fôr
muito grossa, se fará liquida com hum pouco de vinho. Depois, para que
se vá encorporando, se mexe muito bem, e mechido se levanta, e menea-se
entre as mãos como quem faz bolinhos: e, estando assim humido, se passa
por huma eropêma fina: e nesta passagem pelos boraquinhos da eropêma se
formão os granitos, como os da polvora fina, e fica o tabaco granido. E
o que não passa pela eropêma, por ser ainda grosso, torna-se a menear,
como está dito, entre as mãos, até ser capaz de passar. Passado, se
secca ao sol sem se mecher, para que não torne a amassar-se, e perca o
ser de granido.
Depois do tabaco granido estar seco, se lhe quizerem dar algum cheiro,
borrifa-se com agua cheirosa: ou põe-se no mesmo vaso, em que se
recolheu, huma vasilha inteira, ou alguma quantidade de ambar, ou de
algatia, ou de almiscar. Porém o tabaco em pó não he capaz de ser
borrifado com agua cheirosa; porque com ella se amassaria, e não
ficaria, como se pretendeu, solto em pó.
O tabaco que se pisa no Brazil, vai sem mistura, singelo, e legitimo em
tudo; e por isso tanto se estima. Mas o que se pisa em algumas partes
da Europa, vende-se tão viciado, que apenas merece o nome de tabaco,
pois com elle até as cascas de laranjas se pisão.