CAPITULO VIII.

De varias castas de assucar, que separadamente se encaixão: marcas das

caixas, e sua conducção ao trapiche.

Antes de marcar as caixas, he necessario fallar de varias castas de

assucar, que separadamente se encaixão; porque tambem nesta droga ha

sua nobreza, ha casta vil, ha mistura. Ha primeiramente assucar branco,

e mascavado; o branco toma este nome da côr que tem, e muito se louva,

e estima no assucar, mais admiravel, por quanto se lhe communica do

barro. O mascavado de côr parda he o que se tira do fundo das fôrmas, a

que chamão pés, ou cabuchos. Do branco ha fino, ha redondo, e ha baixo,

e todos são assucares machos. O fino he mais alvo, mais fechado, e de

maior peso, e tal he ordinariamente a primeira parte, que chamão cara

da fôrma. O redondo he algum tanto menos alvo, e menos fechado, e tal

he commummente o da segunda parte da fôrma: e digo commummente; porque

não he esta regra infallivel, podendo acontecer, que a cara de algumas

fôrmas seja menos alva, e menos fechada, que a segunda parte da outra

fôrma. O baixo he ainda menos alvo, e quasi trigueiro na côr: e ainda

que seja bem fechado e forte, comtudo por ter menos alvura, chama-se

baixo, ou inferior.

Além destas tres castas de branco, ha outro, que chamão branco batido

feito do mel, que escorreu das fôrmas do macho na casa de purgar,

cozido, e batido outra vez; e sahe ás vezes tão alvo e forte, como

o macho. E assim como ha mascavado macho, que he o pé das fôrmas do

branco batido. O que pinga das fôrmas do macho, quando se purga,

chama-se mel, e o que escorre do batido branco, chama-se remel. Do

mel huns fazem aguardente estillando-o: outros o tornão a cozer, para

fazerem batidos, e outros o vendem a panellas aos que o estillão, ou

cozem: e o mesmo digo do remel.

Vista a diversidade dos assucares, segue-se fallar das marcas, que

se hão de pôr com a mesma distincção nas caixas. Marcão-se as caixas

com ferro ardente, ou com tinta: e tres são as marcas que hade levar

cada caixa, a saber; a das arrobas, a do engenho, e a do senhor, ou

mercador, por cuja conta se embarca. A marca de fogo do numero das

arrobas se põe em cima na cabeça da caixa, junto ao tampo, começando do

canto da banda direita, de tal sorte que abarque juntamente a cabeça da

caixa, e o tampo. E isto se faz para que, se depois abrirem a caixa, se

conheça mais facilmente pelas partes da marca, que estão na cabeça, e

não correspondem ás outras partes, que estão na borda do tampo.

A marca do engenho, tambem de fogo, se põe na mesma testa da caixa,

junto ao fundo, no canto da banda direita; para que se possão averiguar

as faltas, que poderião haver no encaixamento do assucar. Porque assim

como ás vezes nas pipas de breu, que vem de Portugal, se achão pedras

breadas, e nas peças de pano de linho fino por fóra, no meio se acha

pano de estopa, ou menor numero de varas, que as que apontão na face

da peça: assim se poderião marcar nas caixas menos arrobas das que se

apontão na marca; e, no meio da caixa, assucar mascavado por branco,

como tem já acontecido por culpa de algum caixeiro infiel.

A marca do senhor do assucar, ou do mercador, por cuja conta se

embarca, se fôr de fogo, se põe no meio da dita testa da caixa, e, se

não fôr de fogo, põe-se no mesmo lugar com tinta o seu nome; o qual se

poderá tirar com huma enxó, quando se vender a caixa a outro mercador,

pondo na dita parte o nome de quem a comprou.

Leva a marca do branco macho hum só B., o branco batido dous B. B., o

mascavado macho hum M., o mascavado batido hum M., e hum B. A marca

_verbi gratiâ_ do engenho de Sergipe do Conde leva hum S., da Pitanga

hum P. E., a marca _verbi gratiâ_ do Collegio da Companhia de Jezus

leva huma cruz dentro de hum circulo desta figura [**imagem 🕀].

Nos engenhos á beira-mar, levão-se as caixas ao porto desta sorte. Com

rodos e espeques, passão huma a traz de outra da casa da caixaria para

huma carreta, feita para isso mesmo mais baixa; e sobre esta se leva

cada caixa até ao porto, puxando pelas cordas os negros de quem a manda

embarcar por sua conta.

Dos engenhos pela terra dentro, vem cada caixa sobre hum carro com

tres, ou quatro juntas de bois, conforme as lamas, que hão de vencer:

e nisto custa caro o descuido; porque por não as trazerem no tempo do

verão, depois no inverno estafão-se, e matão-se os bois.

Do porto passa sobre taboas grossas a pique para o barco; e, ao entrar,

hão de ter mão nella com socairo, para que não caia de pancada, e

padeça algum detrimento. No barco se hão de arrumar as caixas muito

bem, para que vão seguras, nem se mettão mais, antes menos, das que o

barco póde receber, e levar: e seja forte, e bem velejado, e com arrais

pratico das corôas, e pedras, e com marinheiros não aturdisados de

aguardente, sahindo com bom tempo e maré.

Do engenho até o trapiche, ou até a náo em que se embarca, paga cada

caixa, que vem por mar, huma pataca de frete. Ao entrar, e sahir do

trapiche, meia pataca. No primeiro mez, quer começado só, quer acabado,

ainda que não fossem mais do que dous dias, paga dous vintens: nos

outros mezes seguintes, hum vintem cada mez. E se o trapicheiro, ou o

caixeiro do trapiche vender por commissão do dono algum assucar, ganha

huma pataca por cada caixa.

E com isto temos levado o assucar do cannaveal, aonde nasce, até

aos portos do Brazil, donde navega para Portugal, para se repartir

por muitas cidades da Europa. Falta agora dizer alguma cousa dos

preços antigos, e modernos delle, e das causas, porque são hoje tão

excessivos.

Cultura e opulencia do Brasil por suas drogas e minas · 第 85 / 131 题