Das madeiras, de que se faz a moenda, e todo o mais madeiramento do
engenho, canôas, e barcos; e do que se costuma dar aos carpinteiros, e
outros semelhantes officiaes.
Antes de passar da moenda para as fornalhas, e casa das caldeiras:
parece-me necessario dar noticia dos páos, e madeiras, de que se faz a
moenda, e todo o mais madeiramento do engenho, que no Brazil se póde
fazer com escolha, por não haver outra parte do mundo tão rica de páos
selectos, e fortes: não se admittindo nesta fabrica páo, que não seja
de lei; porque a experiencia tem mostrado ser assim necessario. Chamão
páos de lei aos mais solidos, de maior dura, e mais aptos para serem
lavrados, e taes são os de sapucaia, e de sapupira, de sapupira-capi,
de sapupira-merim, de sapupira-acis, de vinhatico, de arco, de jetay
amarello, de jetay preto, de messetaûba, de massarandûba, páo brazil,
jacarandá, páo de oleo, e picahi, e outros semelhantes a estes. O
madeiramento da casa do engenho, casa das fornalhas, e casa das
caldeiras, e a de purgar, para bem hade ser de massarandûba; porque he
de muita dura, e serve para tudo, a saber: para tirantes, frechaes,
sobrefrechaes, tesouras, ou pernas de asna, espigões, e terças: e
desta casta de páo há em todo o reconcavo da Bahia, em toda a costa
do Brazil. Os tirantes, e frechaes grandes, valem tres, e quatro mil
réis, e ás vezes mais, conforme o seu comprimento, e grossura, assim
toscos como vém do mato, só com a primeira lavradura. Os eixos da
moenda se fazem de sapucaia, ou sapupira-cari: a ponta ou cabo do
eixo grande, de páo de arco, ou de sapupira, os dentes dos tres eixos
da moenda, do rodete, e da volandeira são de messataûba. As rodas de
agua, de páo de arco, ou de sapupira, ou de vinhatico. Os arcos do
rodete, e volandeira, e as aspas, e contra-aspas, de sapupira; as
virgens, e mais esteios, e vigas de qualquer páo de lei. Os carros de
sapupira-merim, ou de jetay, ou de sapucaia. O caliz, de vinhatico.
As canôas de vinhatico, joairana, jequitiba, utunica, e angali. As
cavernas, e braços dos barcos de sapupira, ou de ladim carvalho, ou
de sapupira-merim, a quilha de sapupira, ou de paroba: os forros, e
custados de utim, paroba, buragem, e unhuiba; os mastros de inhuibatan:
as vergas de camassari; o leme de averno, ou angeli, as curvas, e rodas
da prôa, e pôpa de sapupira, com seus coraes mettidos; as varas de
mangue branco, e os remos, de lindirana, ou de genipapo.
As caixas em que se mette o assucar de jequitiba, e camassari, e não
havendo destas duas castas de páo, quanto basta, se poderáõ valer de
burissica para fundos, e tampos. E estas taboas para as caixas vém
da serraria já serradas, e no engenho só se levantão, endireitão,
e aparão: e hão de ter nos lados, para bem, dous palmos e meio de
largo, e sete e meio, ou oito de comprido. Valia huma caixa nos annos
passados, dez, ou doze tostões, agora subírão a maior preço.
Hum eixo da moenda tosco no mato, e torado só nas pontas, ou ainda
oitavado, vale quarenta, cincoenta, e sessenta mil réis, e mais
conforme a qualidade do páo, e a necessidade, que há delle. Os que vém
de Porto Seguro, e Palippe, são somenos por serem creados em varzeas:
os melhores são os que vém de Pitanga, e da Terra Nova, acima de Santo
Amaro. Toda a moenda importa em mais de mil cruzados; além da roda
grande de agua, que por ser cheia de cavilhas, e cubos vale mais de
duzentos mil réis.
Ao carapina da moenda, se dão cinco tostões cada dia a secco: e se lhe
derem de comer, dá-se-lhe hum cruzado, e ainda mais nestes annos em
que todos os preços subírão. Quasi o mesmo se dá aos carapinas de obra
branca. Aos carapinas de barcos, e aos calafates se dão a seco sete
tostões e meio: e seis tostões, ou duas patacas, se lhes der de comer.
Hum barco velejado para carregar lenha, e caixas, custa quinhentos
mil réis: hum barco para conduzir canna, trezentos mil réis: e huma
rodeira, quatrocentos mil réis. As canôas vendem-se conforme a sua
grandeza, e qualidade do páo. Por isso sendo as de que commummente se
usa nos engenhos, humas pequenas, e outras maiores; maior, ou menor
tambem será o preço dellas, a saber; de vinte, trinta, quarenta, e
cincoenta mil réis.
Cortão-se os páos no mato com machados no decurso de todo o anno,
guardando as conjuncções da lua, a saber; tres dias antes da lua nova,
ou tres dias depois della cheia: e tirão-se do mato diversamente,
porque nas varzeas huns os vão rolando sobre estivas, outros os
arrastão a poder de escravos, que puxão: e nos outeiros, de alto a
baixo se decem com socairo; e para cima dos mesmos outeiros, tambem
se arrastão puxando. Isto se entende aonde não há lugar de usar dos
bois, por ser a paragem ou muito apique, ou muito funda, e aberta em
covões. Mas aonde podem puxar os bois, se tirão do mato com tiradeiras,
amarrando com cordas, ou com cipós, ou couros a tiradeira segurada
bem com chavelhas: e na lama em tempo de chuva, dizem que se arrastão
melhor, que em tempo de seca; porque com a chuva mais facilmente
escorregão.