Da casa das fornalhas, seus apparelhos, e lenha, que há mister: e da
cinza, e sua decoada.
Junto á casa da moenda, que chamão casa do engenho, segue-se a casa
das fornalhas, bocas verdadeiramente tragadoras de matos, carcere de
fogo, e fumo perpetuo, e viva imagem dos vulcões, vesuvios, etnas,
e quasi disse do purgatorio, ou do inferno. Nem faltão perto destas
fornalhas seus condemnados, que são os escravos bobentos, e os que tem
corrimentos: obrigados a esta penosa assistencia para purgar com suor
violento os humores gallicos; de que tem cheios seus corpos. Têem-se
ahi tambem outros escravos facinorosos, que presos em compridas, e
grossas cadeias de ferro, pagão neste trabalhoso exercicio os repetidos
excessos da sua extraordinaria maldade com pouca, ou nenhuma esperança
da emenda para o futuro.
Nos engenhos reaes costuma haver seis fornalhas, e nellas outros tantos
escravos assistentes, que chamão mettedores de lenha. As bocas das
fornalhas são cercadas com arcos de ferro não só para que sustentem
melhor os tijolos; mas para que os mettedores no metter da lenha não
padeção algum desastre. Tem cada fornalha sobre a boca dous boeiros,
que são como duas ventas, por onde o fogo resfolega. Os pilares, que
se levantão entre huma, e outra, hão de ser muito fortes, de tijolo, e
cal: mas o corpo das fornalhas faz-se de tijolo e barro para resistir
melhor á vehemente actividade do fogo, ao qual não resistiria nem a cal
nem a pedra mais dura: e as que servem para as caldeiras, são alguma
cousa maiores, que as que servem para as taxas. O alimento do fogo he
a lenha, e só o Brazil com a immensidade dos matos, que tem, podia
fartar, como fartou por tantos annos, e fartará nos tempos vindouros,
a tantas fornalhas, quantas são as que se contão nos engenhos da
Bahia, Pernambuco, e Rio de Janeiro, que commummente moem de dia, e de
noite; seis, sete, oito, e nove mezes no anno. E para que se veja quão
abundantes são estes matos, só os de Jaguaripe bastão para dar lenha á
quantos engenhos há á beira-mar no reconcavo da Bahia: e de facto quasi
todos desta parte só se provem. Começa o cortar da lenha em Jaguaripe
nos principios de Julho; porque os engenhos começão a moer em Agosto.
Tem obrigação cada escravo de cortar, e arrumar cada dia huma medida de
lenha, alta sete palmos, e larga oito, e esta he tambem a medida de hum
carro; e de oito carros consta a tarefa. O cortar, carregar, arrumar, e
botar a lenha no barco pertence a quem a vende: o arruma-la no barco,
corre por conta dos marinheiros. Há barcos capazes de cinco tarefas, há
de quatro, ha de tres; e custa cada tarefa dous mil e quinhentos réis,
quando o senhor do engenho a manda buscar com seu barco: e se vier no
barco do vendedor, ajuntar-se-ha de mais o frete conforme a maior,
ou menor distancia do porto. Hum engenho real, que móe oito, ou nove
mezes, gasta hum anno por outro dous mil cruzados na lenha: e houve
anno, em que o engenho de Sergipe do Conde gastou mais de tres mil
cruzados, por moer mais tempo, e por custar a lenha mais cara. Vem a
lenha em barcos a véla, com quatro marinheiros, e o arraes: e para bem
o senhor do engenho hade ter dous barcos, para que, em chegando hum,
volte o outro. O melhor sortimento da lenha he aquelle, cuja metade
consta de páos grandes, e travessos, que são menores; e outra de lenha
miuda: porque a grossa serve para armar as fornalhas, e para cozer
o assucar nas taxas, onde he necessario maior fogo para se coalhar:
a mediana serve para fazer liga com a grossa; e a miuda serve para
alimpar o caldo da canna nas caldeiras; porque para se levantar bem
a escuma, demandão continuamente lavaredas de chammas. E por isso a
grossa se chama lenha de taxas, e a miuda lenha de caldeiras.
Chegada a lenha ao porto do engenho, arruma-se na sua bagaceira: e
sempre he bem, que diante, ou perto das fornalhas estejão arrumadas
cinco, ou seis tarefas de lenha. Gastão dous barcos de canna,
ordinariamente hum de lenha, se fôr lenha sortida: porque se fôr miuda,
não basta. O primeiro apparelho da lenha, para se botar fogo á fornalha
chama-se armar: e isto vém a ser, empurrar rolos, e estendê-los no
lastro (o que se faz com varas grandes que chamão trasfogueiros), e
sobre elles cruzar travessos, e lenha miuda, para que levantada chegue
mais facilmente com a chamma aos fundos das caldeiras, e taxas. E o
mettedor hade estar attento ao que lhe mandão os caldeireiros, botando
precisamente a lenha, que os de cima conhecem, e avisão ser necessaria:
assim para que não transborde o caldo, ou melado dos cobres, como para
que não falte o ferver; porque senão ferver em sua conta, não se poderá
alimpar bem da immundice, que hade vir acima, para se tirar, e escumar
das caldeiras. Porém, para as taxas quanto mais fogo melhor.
A cinza das fornalhas serve para fazer decoada: e esta para alimpar o
caldo da canna nas caldeiras, e para que saia o assucar mais forte.
Para isso arrasta-se com rodo de ferro até a boca das fornalhas pouco
a pouco a cinza, e borralho, e dahi com huma pá de ferro se tira, e se
leva sobre a mesma para o cinzeiro, que he hum tanque de tijolo, sobre
pilares de pedra, e cal, de figura quadrada, com suas paredes ao redor:
e quasi se conserva quente, e assim quente se põe nas tinas que para
isso estão levantadas da terra sobre huns esteios de tres palmos. Ahi
depois de bem caldeada, e arrumada, se lhe bota agua tirada de hum taxo
grande, que está fervendo sobre a sua proporcionada fornalha perto do
cinzeiro. E para isso serve a agua, que passa pela bica, que vai a casa
das caldeiras: e coando esta agua pela cinza, até passar pelos buracos
que tem as tinas nos fundos, cobra o nome de decoada, e vai cahir
nas fôrmas, ou vasilhas enterradas até a metade, e dahi se tira com
hum côco, e se passa em hum taxo para a casa das caldeiras, aonde se
reparte pelas fôrmas, que estão postas entre as caldeiras, e serve para
os caldeireiros ajudarem com ella ao caldo, como se dirá em seu lugar.
Hade-se porém de advertir, que nem toda a lenha he boa, para se fazer
decoada: porque nem os páos fortes, nem a lenha seca servem para
isso. E a razão he; porque os páos fortes fazem mais carvão, do que
cinza: e a lenha miuda dá pouca cinza, e sem força. A melhor he a dos
mangues brancos, e de páos molles, a saber; a de cajueiros, aroeiras,
e gamelleiras. E para se conhecer, se a decoada he perfeita, hade se
provar, tocando a lingua com huma pingadella sobre a ponta do dedo: e
se arder, será boa; se não arder, será fraca. Tambem se sobejar cinza
de hum anno para outro nas caixas, aonde a costumão guardar, antes de
se pôr nas tinas, deve-se aquentar no cinzeiro, ou misturar-se com a
primeira que se tirar das fornalhas com burralho: porque, se antes
enfraqueceu, com este beneficio torna a dobrar seu vigor.