Do modo de moer as cannas, e de quantas pessoas necessita a moenda.
Moem-se as cannas, mettendo-se algumas dellas limpas da palha, e da
lama (que para isso, se fôr necessario, se lavão) entre dous eixos,
aonde apertadas fortemente se expremem, mettendo-se na volta, que dão
os eixos, os dentes da moenda e nas entrozas para mais as apertar e
espremer entre os corpos dos eixos chapeados, que vém unir-se nas
voltas, e depois dellas passadas, torna-se de outra parte a passar
o bagaço, para que se exprema mais, e de todo o çumo, ou licor, que
conserva. E este çumo (ao qual depois chamão caldo) cahe da moenda em
huma cocha de páo, que está deitada debaixo da ponte dos aguilhões, e
dahi corre por huma bica a hum parol mettido na terra que chamão parol
do caldo, donde se guinda com dous caldeirões, ou cubos para cima
com roda, eixo, e correntes, e vai para outro parol, que está em hum
sobradinho alto, a quem chamão guinda; e para dahi passar para a casa
das caldeiras, aonde se hade alimpar.
No espaço de vinte e quatro horas moe-se huma tarefa redonda de vinte
e cinco até trinta carros de canna; e em huma semana das que chamão
solteiras (que vem a ser, sem dia santo) chegão a moer sete tarefas,
e o rendimento competente he huma fôrma, ou pão de assucar por fouce,
a saber; quanto corta hum negro em hum dia. Nem o fazer mais assucar
depende de moer mais canna, mas de ser a canna de bom rendimento, a
saber; bem assucarada, não aguacenta, nem velha. Se metterem mais
canna, ou bagaço, do que se convém, haverá risco de quebrar o rodete,
e a moenda dará de si, e rangerá da parte de cima, e poderá ser, que
se quebre algum aguilhão. Se a agua, que move a roda, fôr muita, moerá
tanta canna, que se lhe não poderá dar vasão na casa das caldeiras,
e o caldo azedará no parol de coar, por senão poder cozer em tanta
quantidade, nem tão de pressa nas tachas. E por isso o feitor da
moenda, e o mestre do assucar hão de ver o que convém, para que se não
perca a tarefa.
O lugar de maior perigo, que ha no engenho, he o da moenda: porque
se por desgraça a escrava, que mette a canna entre os eixos, ou por
força do somno, ou por cançada, ou por qualquer outro descuido, metteu
desattentadamente a mão mais adiante do que devia; arrisca-se a passar
moida entre os eixos, se lhe não cortarem logo a mão, ou o braço
apanhado, tendo para isso junto da moenda hum facão, ou não forem tão
ligeiros em fazer parar a moenda, divertindo com o pejador a agua, que
fere os cubos da roda, de sorte, que dêem de pressa a quem padece de
algum modo o remedio. E este perigo he ainda maior no tempo da noite,
em que móe igualmente como de dia; posto que se revezem as que mettem
a canna por suas esquipações: particularmente, se as que andão nesta
occupação forem boçaes, ou acostumadas a se embriagarem.
As escravas, de que necessita a moenda, ao menos são sete ou oito, a
saber; tres para trazer a canna, huma para a metter, outra para passar
o bagaço, outra para concertar, e acender as candeias, que na moenda
são cinco, e para alimpar o cocho do caldo (a quem chamão cocheira, ou
catumbá), e os aguilhões da moenda, e refresca-los com agua para que
não ardão, servindo-se para isso do parol da agua, que tem debaixo da
rodete, tomada da que cahe no aguilhão, como tambem para lavar a canna
enlodada, e outra finalmente para botar fóra o bagaço, ou no rio, ou
na bagaceira, para se queimar a seu tempo. E se fôr necessario bota-lo
em parte mais distante, não bastará huma só escrava mas haverá mister
outra que a ajude; porque de outra sorte não se daria vazão a tempo, e
ficaria embaraçada a moenda.
Sobre o parol do caldo, que como temos dito, está mettido na terra, ha
huma guindadeira, que continuamente guinda, para cima com dous cubos
o caldo: e todas as sobreditas escravas, tem necessidade de outras
tantas, que as revezem, depois de encherem o seu tempo, que vem a ser a
ametade do dia, e a ametade da noite: e todas juntas lavão, de vinte e
quatro, em vinte e quatro horas com agua, e vasculhos de piassaba toda
a moenda. A tarefa das guindadeiras he guindar cada huma tres paroes
de caldo, quando fôr tempo, para encher as caldeiras, e logo outros
tres, succedendo desta sorte huma á outra, para que possão aturar no
trabalho. E para o bom governo da moenda, além do feitor, que attende á
tudo, neste lugar mais que em outros, parte de dia, e parte de noite,
ha hum guarda, ou vigiador da moenda: cujo officio he, attentar em
lugar do feitor, que a canna se metta, e se passe bem entre os eixos,
que se despeje, e tire o bagaço, que se refresquem, e alimpem os
aguilhões, e a ponte; succedendo algum desastre na moenda, elle he o
que logo acode, e manda parar.