Do engenho, ou casa de moer a canna; e como se move a moenda com agua.
Ainda que o nome de engenho comprehenda todo o edificio, com as
officinas, e casas necessarias para moer a canna, cozer, e purgar o
assucar; comtudo, tomado mais em particular, o mesmo he dizer casa do
engenho, que casa de moer a canna com o artificio, que engenhosamente
inventárão. E tendo nós já chegado a esta casa com a canna conduzida
para a moenda, daremos alguma noticia do que ella he, e do que nella
se obra, para espremer o assucar da canna; valendo-me do que vi no
engenho real de Sergipe do Conde, que entre todos os da Bahia he o
mais afamado. Levanta-se a borda do Rio sobre dezesete grandes pilares
de tijolo, largos quatro palmos, altos vinte e dous, e distantes hum
do outro quinze, huma alta, e espaçosa casa, cujo tecto coberto de
telha assenta sobre tirantes, frechaes, e vigas de páos, que chamão de
lei, que são dos mais fortes, que há no Brazil, a quem nenhuma outra
terra leva nesta parte vantagem; com duas varandas ao redor: huma para
receber canna, e lenha, e outra para guardar madeiras sobrecellentes.
E a esta chamão casa de moenda, capaz de receber commodamente quatro
tarefas de canna, sem perturbação, e embaraço dos que necessariamente
hão de lidar na dita casa, e dos que por ella passão, sendo caminho
aberto para qualquer outra officina, e particularmente para as casas
immediatamente contiguas das fornalhas, e das caldeiras; contando de
comprimento todo este edificio, cento e noventa e tres palmos, e
oitenta, e seis de largo. Móe-se nesta casa a canna com tal artificio
de eixos, e rodas, que bem merece particular reflexão, e mais distincta
noticia.
Tomão para mover a moenda do rio acima, aonde faz a sua queda natural,
a que chamão levada, que vem a ser huma porção bastante de agua do
açude, ou tanque, que para isso tem, divertida com prezas de pedra,
e tijolo, do seu curso, e levada com declinação moderada por rego
capaz, e forte nas margens, para que a agua vá unida, e melhor se
conserve; cobrando na declinação cada vez maior impeto, e força: com
seu sangrador, para a divertir, se fôr necessario, quando por razão das
chuvas, ou cheias viesse mais do que se pretende; e com outra abertura
para duas bicas, huma que leva a agua para a casa das caldeiras, e
outra que vai a refrescar o aguilhão da roda grande dentro da moenda;
servindo-se para a communicar a outro aguilhão, de huma taboa; e assim
vai a entrar no cano de páo, que chamão caliz, sustentado de pilares de
tijolo, e na parte superior descoberto, cujo extremo inclinado sobre
os cabos da roda se chama feridor; porque por elle vai a agua a ferir
os ditos cubos, donde se origina, e continua o seu moto. Assentão os
aguilhões do eixo desta roda, hum pela parte de fóra, e outro pela
parte de dentro da casa da moenda, sobre seus chumaceiros de páo,
com chapa de bronze; e a estes sustentão duas virgens, ou esteios de
fóra, e duas de dentro, com seu brinquete, que he a travessa, em que
os aguilhões se encostão. E sobre estes, como dissemos, vai sempre
cahindo huma pequena porção de agua, para os refrescar, de sorte que
pelo continuo moto não ardão, temperando-se com agua sufficientemente o
calor.
As aspas da roda larga, e grande sustentão aos arcos, ou circulos
della, e dentro apparecem os cubos, ou covas feitas no meio da roda,
e unidos hum a outro, com o fundo fechado do forro interior da mesma
roda entre os dous arcos della assegurados com muitas cavilhas de
ferro, e com suas arruellas, e chavetas mettidas, e atravessadas, para
enchavetar as pontas das cavilhas; causas de não bolirem os arcos,
nem os cubos ao cahir da agua, e de ir a roda suas voltas seguras.
Perto da roda pela banda de fóra estão dous esteios altos, e grossos,
com tres travessas, asseguradas tambem de outra parte, huma das quaes
sustenta a extremidade do caliz, duas ao feridor, e outra ao pejador do
engenho. He o pejador huma taboa, pois mais larga que a roda, de dez ou
doze palmos de comprimento, com suas bordas, semelhante á hum grande
taboleiro, debaixo do feridor, com huma cavilha chavetada, de sorte que
se possa jogar, e bolir com ella sem resistencia; e por isso se faz
o buraco da cavilha bastantemente largo, e na parte inferior tem no
lado, que se vai a encostar á parede da moenda, hum espigão de ferro,
preso tambem com huma argola de ferro, que entrando por huma abertura
pela dita parede, sua mão, ou cabo, em o qual se encavilha sobre hum
esteio, que chamão moirão á maneira de engonços, fica á disposição de
quem está na moenda o manda-la parar, ou andar como quizer, empurrando,
ou puxando pelo pejador; o qual pondo-se sobre os cubos, impede ao
feridor o dar-lhe o moto com a queda da agua; e tornando a descobrir os
cubos, torna-se a mover a roda, e com a roda a moenda. E isto he muito
necessario em qualquer desastre, que póde acontecer, para lhe acodir
de pressa, e atalhar os perigos. E chamão a esta taboa pejador; porque
tambem ao parar do engenho chamão pejar: por ventura, por se pejar hum
engenho real de ser retardado, ou impedido, ainda por hum instante; e
de não ser sempre, como he de razão, moente, e corrente. E isto quanto
á parte exterior da moenda, donde principia o seu movimento.
Entrando pois na casa interior; o modo com que se communica o moto
por suas partes á moenda, he o seguinte. O eixo da roda grande,
que como temos dito, pela parte de fóra se mette dentro da casa do
engenho, tem no seu remate interior, chegado aonde assenta o aguilhão
sobre o brinquete, e esteios, hum rodete fixo, e armado de dentes,
que o cerca: e este virado ao redor pelo caminho do dito eixo, apanha
successivamente na volta, que dá com seus dentes, outros de outra roda
superior, tambem grande, que chamão volandeira, porque o seu modo de
andar circularmente no ar sobre a moenda, se parece com o voar de hum
passaro, quando dá no ar seus rodeios. Os dentes do rodete, que eu vi,
erão trinta, e dous; e os da volandeira, cento, e doze. E porque as
aspas da volandeira passão pelo pescoço do eixo grande da moenda; por
ellas se lhe communica o impulso: e este recebido do dito eixo grande,
cercado de entrozas, e dentes, se communica tambem a dous outros eixos
menores, que tem de ambas as ilhargas, dentados, e abertos igualmente,
com suas entrozas do mesmo modo, que temos dito do grande: e com estes
dentes, e entrozas se causa o moto com que uniformemente o acompanhão.
As aspas da volandeira são oito, quatro superiores, e quatro
inferiores, e as inferiores tem suas contra-aspas para maior segurança.
Os tres eixos da moenda são tres páos redondos de corpo espherico,
alto nos menores sinaes cinco palmos e meio; e no maior, que he o do
meio, alto seis palmos, e tambem de esphera maior que os outros, que
nas ilhargas continuamente o apertão, gasta-se mais que os outros: e
por isso por boa regra os menores tem nove dentes, e o maior onze, e
só este (por fallarmos com a lingoa dos officiaes) tem seu pescoço, e
cabeça alta, conforme a altura do engenho, e commummente ao todo vém
a ter o dito eixo doze palmos de alto: cuja cabeça de dous palmos e
meio, mais delgada que o pescoço, entra por hum páo furado, que chamão
porca, sustentado de duas vigas, de quarenta e dous palmos, as quaes
assentão sobre quatro esteios altos de dezesete palmos, e grossos
quatro, com suas travessas proporcionadamente distantes. E ainda que
os outros dous eixos menores não tem pescoço, comtudo pela parte de
cima entrão quanto basta, com sua ponta, ou aguilhão, por huns páos
furados, que chamão mesas, ou gatos, com que ficão direitos, e seguros
em pé. Os corpos dos tres eixos da metade para baixo são vestidos
igualmente de chapas de ferro unidas, e pregadas com pregos feitos
para este fim com cabeça quadrada, e bem entrante, para se igualarem
com as chapas: debaixo das quaes os corpos dos eixos são torneados com
tornos de páo de lei, para que fique a madeira mais dura, e mais capaz
de resistir ao continuo aperto, que hade padecer no moer. Sobre as
chapas apparece, hum circulo, ou faixa de páo, que he contra a parte
do corpo dos mesmos eixos, despida de ferro: e logo immediatamente
se segue o circulo dos dentes de páo de lei, encaixados no eixo com
suas entrozas (que são humas cavaduras, ou vãos repartidos entre
dente, e dente) para entrarem, e sahirem dellas os dentes dos outros
eixos collateraes; que para isso são em tudo iguaes os dentes, e as
entrozas, a saber: os dentes na grossura, e na altura, e as entrozas na
largura, e profundeza do encaixamento, ou vasio, que commummente sahem
do corpo do eixo, comprimento de cinco, ou seis dedos, de largura de
huma mão, e de quatro, ou cinco dedos de costa, de fôrma quasi chata,
e nos extremos redonda. E ainda que entre dente, e dente dos eixos
menores, haja espaço medido por compasso de igual medida, que he hum
palmo grande; os do eixo maior tem de mais a mais tanto espaço, além
do palmo, quanto occuparia a grossura de huma moeda de dous cruzados:
e isto se faz, para que estejão em sua conta, e não entrem no mesmo
tempo os dentes dos eixos collateraes; mas hum se siga atraz do outro,
e desta sorte se continue em todos os tres o moto, que se pretende.
E por isso tambem os dentes, e as entrozas de hum eixo se hão de
desencontrar dos dentes, e entrozas do outro, a saber: ao dente do eixo
grande hade corresponder a entroza do pequeno; e ao dente do pequeno a
entroza do grande. São os dentes (como dizia) na parte que sahe fóra
do eixo algum tanto chatos, e no fim quasi redondos, largos quatro
ou cinco palmos, e outro tanto grossos: e então quasi outros quatro
dedos pela sua raiz do eixo, aonde se assegurão, além da parte, com
que fazem parede ás entrozas, que são na mesma conta quatro ou cinco
dedos profundas. Sobre os dentes dos eixos menores fica a terceira
parte do páo descoberta, e se remata a modo de degráos em dous circulos
menores, vestidos de duas argolas de ferro de grossura de hum dedo, e
meio, largura de tres dedos; e na ponta do páo se vara de tal sorte,
que entre nelle huma buxa quadrada de dous ou tres palmos, de sapupira
merim: a qual buxa tambem em parte se vaza, e nella se encaixa o
aguilhão de ferro, comprimento de tres palmos, grossura de hum caibro,
á força de pancadas com hum vaivem de ferro. E para melhor segurança
do aguilhão, e da buxa, se abre na cabeça dos quatro lados da buxa,
com huma palmeta de ferro, á força de pancadas de vaivem; e se lhes
mettem humas palmetas, menores de páo de lei, para não abrir. E pelo
mesmo estilo de degráos, e argolas, buxa, e aguilhão com que temos dito
se remata a parte superior dos dous eixos menores, se rematão tambem
as partes inferiores de todos tres, ajuntando de mais a cada aguilhão
seu pião de ferro, calçado de aço da grossura de huma maçã, que tambem
se encaixa pela parte superior até dous dedos dentro do aguilhão; e
pela parte inferior põe a ponta sobre outro ferro chato, que chamão
manchal, de comprimento de hum palmo, tambem calçado de aço, para que
senão fure com o continuo virar, que sobre elle faz o pião. E todos
estes tres eixos, ou corpos de moenda, aonde chega o pião ao manchal,
assentão sobre hum páo, que chamão ponte, de comprimento de quinze, ou
dezeseis palmos: e para sustentar toda a moenda forte, e segura, servem
quatro virgens, que são quatro esteios, altos da terra nove palmos, e
grossos sete, semelhantes no seu officio de suster aos que sustentão
as virgens grandes, e a porca, ou páo furado, por onde passa a ponta
do eixo grande, que sobre os outros collateraes se levanta até a dita
altura, como parte principal da moenda. Sobre estas virgens de ponta, a
ponta vão huns páos, que chamão mesas, quasi hum palmo de grossura, e
vinte de comprimento, sobre as quaes descanção as travessas, que chamão
gatos; em que se movem os eixos pela parte superior; e sobre estas vai
outro andar ao comprimento, de taboas que chamão agulhas, as quaes
servem para segurar as unhas, com que se aperta a moenda.
O lugar aonde se poem os feixes de canna, que immediatamente hade
passar para se espremer entre os eixos, são dous taboleiros, hum de
huma parte, e outro da outra, que tem seus encaixos, ou meios circulos
ao redor dos eixos da moenda, afastados delles tanto, quanto basta
para não lhes impedir suas voltas. E o estarem os taboleiros chegados
aos eixos he para que não caia a canna, ou o bagaço della perto dos
aguilhões, e retarde de algum modo aos piões; e para que se não suje o
caldo, que sahe da canna moida.