Do córte da canna, e sua condução para o engenho.
Começando o engenho a moer (o que no reconcavo da Bahia costuma ter
seu principio em Agosto) começa tambem o tempo de metter a fouce na
canna, que disso he capaz; e para bem, antes de se cortar, hade estar
dezesete, ou dezoito mezes na terra: e dahi por diante, se a muita
seca a não apertar, póde seguramente estar na mesma terra outros sete,
ou oito mezes. Tanto pois que estiver de vez, se mandará pôr nella a
fouce, tendo já certo o dia, em que se hade moer, para que não fique
depois de cortada a murchar-se no engenho, ou se não seque exposta ao
sol no porto, se este fôr distante da moenda: preferindo o lavrador,
que avisado trouxe primeiro a canna para o engenho, até se acabar
inteiramente a sua tarefa, e perdendo o vagarozo o lugar que lhe cabia,
se por seu descuido deixou passar o dia assignalado. E o senhor do
engenho he que reparte os dias, assim para moer a sua canna, como a dos
lavradores, conforme cabe a cada qual por seu turno, e manda o aviso
pelo feitor a seu tempo competente.
Quando se corta canna, se mettem doze até dezoito fouces no cannaveal,
conforme fôr a canna grande, ou pequena. E a que se manda a moer de
huma vez chama-se huma tarefa, que vem a ser vinte, e quatro carros,
tendo cada carro justa medida de oito palmos de alto, e sete de largo,
capaz de mais ou menos feixes de canna, conforme ella fôr grande ou
pequena: porque menos feixes de canna grande bastão para fazer a
tarefa; e mais hão de ser necessarios se fôr canna pequena, pois a
pequena occupa menor lugar assim no barco, como no carro; e a grande
occupa, em huma e outra parte maior espaço, pelo que tem de maior
comprimento, e grossura. Raro porém será o carro, que traga mais de
cento, e cincoenta feixes de canna: e os senhores dos partidos, pelos
córtes antecedentes sabem muito bem, quantas tarefas tem nos seus
cannaveaes.
A primeira canna, que se hade cortar he a velha, que não póde esperar:
costume que não guarda a morte, cuja fouce corta indifferentemente
moços, e velhos. E esta córte a tempo, que se não faça prejuizo á soca,
conforme as terras, mais ou menos frias, e os dias de maior ou menor
calor, e sem chuva. E disto procede não se poder cortar a canna em
humas terras depois do fim de Fevereiro; e em outras corta-se ainda em
Março, e Abril. Quanto ao córte da canna nova: se o lavrador fôr muito
ambicioso, e desejoso de fazer muito assucar, cortará tudo em huma
safra, e achar-se-ha com pouco, ou nada na outra. Por isso o córte da
nova hade ter sua conta: e se hade attentar ao futuro, conforme o que
se tem plantado, usando de huma repartição considerada, e segura, que
he o que dicta em qualquer outra obra, ou negocio a boa economia, e
prudencia.
Assim os escravos, como as escravas se occupão no córte da canna;
porém commummente os escravos cortão, e as escravas amarrão os feixes.
Consta o feixe de doze cannas: e tem por obrigação cada escravo
cortar em hum dia, sete mãos de dez feixes por cada dedo, que são
trezentos, e cincoenta feixes; e a escrava hade amarrar outros tantos
com os olhos da mesma canna: e se lhes sobejar tempo, será para o
gastarem livremente no que quizerem. O que se não concede na limpa da
canna: cujo trabalho começa desde o sol nascido, até ao sol posto:
como tambem em qualquer outra occasião, que senão dá por tarefa. E o
contar a tarefa do córte, como está dito, por mãos, e dedos, he para
se accommodar á rudeza dos escravos boçaes, que de outra sorte não
entendem, nem sabem contar.
O modo de cortar he o seguinte: pega-se com a mão esquerda em tantas
cannas, quantas póde abarcar, e com a direita armada de fouce se
lhe tira a palha, a qual depois se queima, ou pela madrugada, ou já
de noite quando acalmando o vento der para isso lugar; e serve para
fazer a terra mais fertil: logo levantando mais acima a mão esquerda,
botão-se fóra com a fouce os olhos da canna, e estes dão-se aos bois
a comer: e ultimamente tornando com a esquerda mais abaixo, corta-se
rente ao pé, e quanto a fouce fôr mais rasteira á terra, melhor. Quem
segue ao que corta (que commummente he huma escrava) ajunta as cannas
limpas, como está dito, em feixes a doze por feixe, e com os olhos
dellas os vai atando, e assim atados vão nos carros ao porto; ou se o
engenho fôr pela terra dentro, chega o carro a moenda.
A condução da canna, por terra faz-se nos carros, e para bem cada
fazenda hade ter dous; e se fôr grande, ainda mais. Por mar vem nas
barcas sem véla, com quatro varas, que servem em lugar de remos nas
mãos de outros tantos marinheiros, e o arraes, que vai ao leme: e
para isso ha mister duas barcas capazes, como as que chamão rodeiras.
O lavrador tem obrigação de cortar a canna; e de a conduzir á sua
custa até ao porto, onde o barco do senhor a recebe, e leva de graça
até a moenda por mar: pondo-a no dito barco os escravos do lavrador,
e arrumando-a no barco os marinheiros. Mas se fôr engenho pela terra
dentro, toda a condução por terra até a moenda corre por conta do dono
da canna, quer seja livremente dada, quer obrigada ao engenho.
Conduzir a canna por terra em tempos de chuvas, e lamas, he querer
matar muitos bois, particularmente se vierão de outra parte magros, e
fracos, extranhando o pasto novo, e o trabalho. O que muito mais se
hade advertir na condução das caixas, como se dirá em seu lugar. Por
isso os bois que vêem do Sertão cançados, e maltratados no caminho,
para bem não se hão de pôr no carro, senão depois de estarem pelo
menos anno, e meio no pasto novo, e de se acostumarem pouco a pouco
ao pasto novo, e de se acostumarem pouco a pouco ao trabalho mais
leve, começando pelo tempo do verão, e não do inverno, de outra sorte
succederá ver, o que se vio em hum destes annos passados em que
morrêrão só em hum engenho duzentos, e onze bois, parte nas lamas,
parte na moenda, e parte no pasto. E se moendo com agoa, usando de
barcos para a condução da canna, he necessario ter no engenho quatro,
ou cinco carros, com doze, ou quatorze juntas de bois muito fortes;
quantos haverá mister quem móe com bestas, e bois, e tem canna propria
para se conduzir de longe á moenda? Advirta-se muito nisto, para se
comprarem a tempo os bois, e taes quaes são necessarios; dando antes
oito mil réis por hum só boi manso, e redondo, do que outro tanto por
dous pequenos, e magros, que não tem força para aturarem no trabalho.