CAPITULO III.

Dos inimigos da canna, em quanto está no cannaveal.

As inclemencias do céo são o principal inimigo, que tem as cannas,

assim como os outros frutos, e novidades da terra, querendo Deos

com muita razão, que se armem contra nós os elementos por castigo

das nossas culpas, ou para exercicio da paciencia, ou para que nos

lembremos que elle he o autor, e o conservador de todas as cousas, e a

elle recorramos em semelhantes apertos.

Os cannaveaes nos outeiros resistem mais ás chuvas, quando são

demasiadas; porém são os primeiros a queixarem-se da sêca. Pelo

contrario as varzeas não sentem tão depressa a força do excessivo

calor; mas na abundancia das aguas chorão primeiro suas perdas. A canna

da Bahia quer agua nos mezes de Outubro, Novembro, e Dezembro, e para

a planta nova em Fevereiro, e quer tambem successivamente sol, o qual

commummente não falta, assim não faltassem nos sobreditos mezes as

chuvas. Porém o inimigo mais molesto, e mais continuo, e domestico da

canna, he o capim; pois máis, ou menos, até o fim a persegue. E por

isso tendo o plantar, e cortar seus mezes certos; o limpar obriga os

escravos dos lavradores, a irem sempre com a enxada na mão, e acabada

qualquer outra occupação fóra do cannaveal, nunca se mandão debalde

limpar. Exercicio, que deveria tambem ser continuo nos que tratão da

boa criação dos filhos, e da cultura do animo. E ainda que só este

inimigo baste por muitos, não faltão outros de não menor enfado, e

molestia. As cabras, tanto que a canna começa a apparecer fóra da

terra, logo a vão investir: os bois, e os cavallos ao principio lhe

comem os olhos, e depois a derrubão, e a pisão: os ratos, e os porcos

a roem: os ladrões a furtão a feixes; nem passa rapaz, ou caminhante,

que se não queira fartar, e desenfadar á custa de quem a plantou. E

posto que os lavradores se accommodem de qualquer modo a soffrer os

furtos pequenos dos frutos de seu suor, vêem-se ás vezes obrigados de

huma justa dôr a matar porcos, cabras, e bois, que outros não tratão de

divertir, e guardar nos pastos cercados, ou em parte mais remota, ainda

depois de rogados, e avisados que ponhão cobro neste damno: donde se

seguem queixas, inimizades, e odios, que se arrematão com mortes, ou

com sanguinolentas, e affrontosas vinganças. Por isso cada qual trate

de defender os seus cannaveaes, e de evitar occasiões de outros se

queixarem justamente do seu muito descuido, medindo os damnos alheos,

com o sentimento dos proprios.

Cultura e opulencia do Brasil por suas drogas e minas · 第 67 / 131 题