Dos inimigos da canna, em quanto está no cannaveal.
As inclemencias do céo são o principal inimigo, que tem as cannas,
assim como os outros frutos, e novidades da terra, querendo Deos
com muita razão, que se armem contra nós os elementos por castigo
das nossas culpas, ou para exercicio da paciencia, ou para que nos
lembremos que elle he o autor, e o conservador de todas as cousas, e a
elle recorramos em semelhantes apertos.
Os cannaveaes nos outeiros resistem mais ás chuvas, quando são
demasiadas; porém são os primeiros a queixarem-se da sêca. Pelo
contrario as varzeas não sentem tão depressa a força do excessivo
calor; mas na abundancia das aguas chorão primeiro suas perdas. A canna
da Bahia quer agua nos mezes de Outubro, Novembro, e Dezembro, e para
a planta nova em Fevereiro, e quer tambem successivamente sol, o qual
commummente não falta, assim não faltassem nos sobreditos mezes as
chuvas. Porém o inimigo mais molesto, e mais continuo, e domestico da
canna, he o capim; pois máis, ou menos, até o fim a persegue. E por
isso tendo o plantar, e cortar seus mezes certos; o limpar obriga os
escravos dos lavradores, a irem sempre com a enxada na mão, e acabada
qualquer outra occupação fóra do cannaveal, nunca se mandão debalde
limpar. Exercicio, que deveria tambem ser continuo nos que tratão da
boa criação dos filhos, e da cultura do animo. E ainda que só este
inimigo baste por muitos, não faltão outros de não menor enfado, e
molestia. As cabras, tanto que a canna começa a apparecer fóra da
terra, logo a vão investir: os bois, e os cavallos ao principio lhe
comem os olhos, e depois a derrubão, e a pisão: os ratos, e os porcos
a roem: os ladrões a furtão a feixes; nem passa rapaz, ou caminhante,
que se não queira fartar, e desenfadar á custa de quem a plantou. E
posto que os lavradores se accommodem de qualquer modo a soffrer os
furtos pequenos dos frutos de seu suor, vêem-se ás vezes obrigados de
huma justa dôr a matar porcos, cabras, e bois, que outros não tratão de
divertir, e guardar nos pastos cercados, ou em parte mais remota, ainda
depois de rogados, e avisados que ponhão cobro neste damno: donde se
seguem queixas, inimizades, e odios, que se arrematão com mortes, ou
com sanguinolentas, e affrontosas vinganças. Por isso cada qual trate
de defender os seus cannaveaes, e de evitar occasiões de outros se
queixarem justamente do seu muito descuido, medindo os damnos alheos,
com o sentimento dos proprios.