Como se hade haver o senhor do engenho na eleição das pessoas, e
officiaes que admittir ao seu serviço, e primeiramente da eleição do
capellão.
Se em alguma cousa mais que em outra ha de mostrar o senhor do engenho
a sua capacidade e prudencia, esta sem duvida he a boa eleição das
pessoas, e officiaes que ha de admittir ao seu serviço, para o bom
governo do engenho. Porque, sendo a eleição filha da prudencia, com
razão se arguirá de imprudente quem escolher pessoas, ou de ruim vida,
ou ineptas para o que hão de fazer. Claro está que huns, com a ruim
vida, desagradaráõ a Deos, e aos homens, e seráõ causa de muitos e
bem pesados desgostos; e outros, com a ineptidão, causaráõ damno não
ordinario á fazenda. E isto lhe poderáõ extranhar com razão, não só os
de casa, por mais chegados a queimar-se, ou a chammuscar-se com o seu
trato, mas tambem os de fóra, e principalmente os lavradores, obrigados
a experimentar sem culpa os prejuizos, que se seguem ao seu mallogrado
suor, do não saberem os officiaes o que requer o seu officio.
O primeiro que se ha de escolher com circunspecção, e informação
secreta do seu procedimento e saber, he o capellão, a quem se ha de
encommendar o ensino de tudo o que pertence á vida christã, para, desta
sorte, satisfazer á maior das obrigações que tem, a qual he doutrinar,
ou mandar doutrinar a familia e escravos, não já por hum crioulo, ou
por hum feitor, que, quando muito, poderá ensinar-lhes vocalmente as
orações, e os mandamentos da lei de Deos, e da Igreja, mas por quem
saiba explicar-lhes o que hão de crer, o que hão de obrar, e como
hão de pedir a Deos aquillo, de que necessitão. E para isso, se fôr
necessario dar ao capellão alguma cousa mais do que se costuma, entenda
que este será o melhor dinheiro que se dará em boa mão.
Tem pois o capellão obrigação de dizer missa na capella do engenho nos
Domingos, e dias santos, ficando-lhe livre a applicação das missas nos
outros dias da semana por quem quizer, salvo se se concertar de outra
sorte com o senhor da capella, recebendo estipendio proporcionado ao
trabalho. E nos mesmos Domingos, e dias santos, ou pelo menos nos
Domingos, se se admittir com esta obrigação, explicará a doutrina
christã; a saber, os principaes mysterios da Fé, e o que Deos, e a
Santa Igreja mandão que se guarde. Quão grande mal he o peccado mortal;
que pena lhe tem Deos aparelhado nesta, e na outra vida, aonde a alma
vive, e vivirá immortalmente. Que remedio nos deu Deos na encarnação,
e morte de Jesus-Christo, seu santissimo filho, para que se nos
perdoassem assim as culpas, como as penas, que pelas culpas se devem
pagar. De que modo havemos de confessar os peccados, e pedir a Deos
perdão delles, com verdadeiro arrependimento, e proposito firme de
não tornar a commettê-los, ajudados da graça divina. Em que consiste
fazer penitencia de seus peccados. Quem está no Santissimo Sacramento
do Altar; porque está ahi, e se recebe; com que disposição se ha de
receber em vida, e por viatico na doença mortal. Quanto importa ganhar
as indulgencias, para descontar o que se deve pagar no Purgatorio.
Como cada qual se ha de encommendar a Deos, para não cahir em peccado,
e offerecer-lhe pela manhã todo o trabalho do dia. Quanto são dignos
de abominação os feiticeiros, e curadores de palavras, e os que a
elles recorrem, deixando a Deos, de quem vem todo o remedio; os que
dão peçonha, ou bebidas (como dizem), para abrandar, e inclinar
vontades; os borrachos, os amancebados, os ladrões, os vingativos,
os murmuradores, e os que jurão falso, ou por malignidade, ou por
interesse, ou por respeitos humanos. E finalmente, que premio, e que
pena ha de dar Deos eternamente a cada qual, conforme obrou nesta vida.
Procurará tambem a approvação para ouvir de confissão aos seus
applicados, e para que, sendo sacerdote e ministro de Deos, lhes possa
servir frequentemente de remedio; não se contentando só com acudir
no artigo da morte aos doentes. Mas advirta, na administração deste
sacramento, que não he senhor delle, por muita autoridade que tenha;
porque, se o penitente não fôr disposto, por causa de estar amancebado,
ou andar com odio do proximo, ou por não tratar de restituir a fama, ou
a fazenda que deve, ainda que fosse o mesmo senhor do engenho, o não ha
de absolver; e nisto poderia haver, por respeito humano, grande encargo
de consciencia, e culpa bem grave.
Corre tambem por sua conta pôr a todos em paz, atalhar discordias, e
procurar que na capella, em que existe, seja Deos honrado, e a Virgem
Senhora Nossa, cantando-lhes nos Sabbados as Ladainhas, e nos mezes em
que o engenho não móe, o terço do Rosario; não consentindo risadas, nem
conversações e praticas indecentes, não só na capella, mas nem ainda
no copiar, particularmente quando se celebra o sacrificio da missa.
Advirta, além disto, de não receber noivos, nem baptizar, fóra de algum
caso de necessidade, nem desobrigar na Quaresma pessoa alguma, sem
licença _in scriptis_ do Vigario, a quem pertencer da-la; nem fazer
cousa que toque a jurisdicção dos Parochos, para que não incorra nas
penas e censuras que sobre isso são decretadas, e debalde se queixe do
seu descuido, ou ignorancia.
Finalmente faça muito por morar fóra da casa do senhor do engenho
porque assim convém a ambos; pois he sacerdote, e não criado, familiar
de Deos, e não de outro homem, nem tenha em casa escrava para seu
serviço, que não seja adiantada em idade, nem se faça mercador ao
Divino, ou ao humano, porque tudo isto muito se oppõe ao estado
clerical, que professa, e se lhe prohibe por varios Summos Pontifices.
O que se costuma dar ao capellão cada anno pelo trabalho quando tem as
missas de semana livres, são quarenta, ou cincoenta mil réis, e com
o que lhe dão os applicados, vem a fazer huma porção competente, bem
ganhada, se guardar tudo o que acima está dito. E se houver de ensinar
aos filhos do senhor do engenho, se lhe accrescentará o que fôr justo,
e correspondente ao trabalho.
No dia em que se bota a canna a moer, se o senhor do engenho não
convidar ao vigario, o capellão benzerá o engenho, e pedirá a Deos, que
dê bom rendimento, e livre aos que nelle trabalhão de todo o desastre.
E quando no fim da safra o engenho pejar, procurará que todos dêem a
Deos as graças na capella.