CAPITULO IV.

Como se hade haver o senhor do engenho na eleição das pessoas, e

officiaes que admittir ao seu serviço, e primeiramente da eleição do

capellão.

Se em alguma cousa mais que em outra ha de mostrar o senhor do engenho

a sua capacidade e prudencia, esta sem duvida he a boa eleição das

pessoas, e officiaes que ha de admittir ao seu serviço, para o bom

governo do engenho. Porque, sendo a eleição filha da prudencia, com

razão se arguirá de imprudente quem escolher pessoas, ou de ruim vida,

ou ineptas para o que hão de fazer. Claro está que huns, com a ruim

vida, desagradaráõ a Deos, e aos homens, e seráõ causa de muitos e

bem pesados desgostos; e outros, com a ineptidão, causaráõ damno não

ordinario á fazenda. E isto lhe poderáõ extranhar com razão, não só os

de casa, por mais chegados a queimar-se, ou a chammuscar-se com o seu

trato, mas tambem os de fóra, e principalmente os lavradores, obrigados

a experimentar sem culpa os prejuizos, que se seguem ao seu mallogrado

suor, do não saberem os officiaes o que requer o seu officio.

O primeiro que se ha de escolher com circunspecção, e informação

secreta do seu procedimento e saber, he o capellão, a quem se ha de

encommendar o ensino de tudo o que pertence á vida christã, para, desta

sorte, satisfazer á maior das obrigações que tem, a qual he doutrinar,

ou mandar doutrinar a familia e escravos, não já por hum crioulo, ou

por hum feitor, que, quando muito, poderá ensinar-lhes vocalmente as

orações, e os mandamentos da lei de Deos, e da Igreja, mas por quem

saiba explicar-lhes o que hão de crer, o que hão de obrar, e como

hão de pedir a Deos aquillo, de que necessitão. E para isso, se fôr

necessario dar ao capellão alguma cousa mais do que se costuma, entenda

que este será o melhor dinheiro que se dará em boa mão.

Tem pois o capellão obrigação de dizer missa na capella do engenho nos

Domingos, e dias santos, ficando-lhe livre a applicação das missas nos

outros dias da semana por quem quizer, salvo se se concertar de outra

sorte com o senhor da capella, recebendo estipendio proporcionado ao

trabalho. E nos mesmos Domingos, e dias santos, ou pelo menos nos

Domingos, se se admittir com esta obrigação, explicará a doutrina

christã; a saber, os principaes mysterios da Fé, e o que Deos, e a

Santa Igreja mandão que se guarde. Quão grande mal he o peccado mortal;

que pena lhe tem Deos aparelhado nesta, e na outra vida, aonde a alma

vive, e vivirá immortalmente. Que remedio nos deu Deos na encarnação,

e morte de Jesus-Christo, seu santissimo filho, para que se nos

perdoassem assim as culpas, como as penas, que pelas culpas se devem

pagar. De que modo havemos de confessar os peccados, e pedir a Deos

perdão delles, com verdadeiro arrependimento, e proposito firme de

não tornar a commettê-los, ajudados da graça divina. Em que consiste

fazer penitencia de seus peccados. Quem está no Santissimo Sacramento

do Altar; porque está ahi, e se recebe; com que disposição se ha de

receber em vida, e por viatico na doença mortal. Quanto importa ganhar

as indulgencias, para descontar o que se deve pagar no Purgatorio.

Como cada qual se ha de encommendar a Deos, para não cahir em peccado,

e offerecer-lhe pela manhã todo o trabalho do dia. Quanto são dignos

de abominação os feiticeiros, e curadores de palavras, e os que a

elles recorrem, deixando a Deos, de quem vem todo o remedio; os que

dão peçonha, ou bebidas (como dizem), para abrandar, e inclinar

vontades; os borrachos, os amancebados, os ladrões, os vingativos,

os murmuradores, e os que jurão falso, ou por malignidade, ou por

interesse, ou por respeitos humanos. E finalmente, que premio, e que

pena ha de dar Deos eternamente a cada qual, conforme obrou nesta vida.

Procurará tambem a approvação para ouvir de confissão aos seus

applicados, e para que, sendo sacerdote e ministro de Deos, lhes possa

servir frequentemente de remedio; não se contentando só com acudir

no artigo da morte aos doentes. Mas advirta, na administração deste

sacramento, que não he senhor delle, por muita autoridade que tenha;

porque, se o penitente não fôr disposto, por causa de estar amancebado,

ou andar com odio do proximo, ou por não tratar de restituir a fama, ou

a fazenda que deve, ainda que fosse o mesmo senhor do engenho, o não ha

de absolver; e nisto poderia haver, por respeito humano, grande encargo

de consciencia, e culpa bem grave.

Corre tambem por sua conta pôr a todos em paz, atalhar discordias, e

procurar que na capella, em que existe, seja Deos honrado, e a Virgem

Senhora Nossa, cantando-lhes nos Sabbados as Ladainhas, e nos mezes em

que o engenho não móe, o terço do Rosario; não consentindo risadas, nem

conversações e praticas indecentes, não só na capella, mas nem ainda

no copiar, particularmente quando se celebra o sacrificio da missa.

Advirta, além disto, de não receber noivos, nem baptizar, fóra de algum

caso de necessidade, nem desobrigar na Quaresma pessoa alguma, sem

licença _in scriptis_ do Vigario, a quem pertencer da-la; nem fazer

cousa que toque a jurisdicção dos Parochos, para que não incorra nas

penas e censuras que sobre isso são decretadas, e debalde se queixe do

seu descuido, ou ignorancia.

Finalmente faça muito por morar fóra da casa do senhor do engenho

porque assim convém a ambos; pois he sacerdote, e não criado, familiar

de Deos, e não de outro homem, nem tenha em casa escrava para seu

serviço, que não seja adiantada em idade, nem se faça mercador ao

Divino, ou ao humano, porque tudo isto muito se oppõe ao estado

clerical, que professa, e se lhe prohibe por varios Summos Pontifices.

O que se costuma dar ao capellão cada anno pelo trabalho quando tem as

missas de semana livres, são quarenta, ou cincoenta mil réis, e com

o que lhe dão os applicados, vem a fazer huma porção competente, bem

ganhada, se guardar tudo o que acima está dito. E se houver de ensinar

aos filhos do senhor do engenho, se lhe accrescentará o que fôr justo,

e correspondente ao trabalho.

No dia em que se bota a canna a moer, se o senhor do engenho não

convidar ao vigario, o capellão benzerá o engenho, e pedirá a Deos, que

dê bom rendimento, e livre aos que nelle trabalhão de todo o desastre.

E quando no fim da safra o engenho pejar, procurará que todos dêem a

Deos as graças na capella.

Cultura e opulencia do Brasil por suas drogas e minas · 第 55 / 131 题