de que nenhum de vós conhece exactamente o valor, a extensão, a situação
geographica, os limites dos terrenos que a canalha dos _lords_ nos
pretende roubar; como sinceramente creio que a mesma ignorancia existe no
espirito da maior parte dos patriotas que promoveram a grande _rusga_ de
14 e que por ahi, ainda hoje, erguem as mãos ao céo, falando de _roubos_,
de _direitos indiscutiveis_, etc., etc.
Tirae-me do grupo promotor da _fantochada_ umas tres ou quatro cabeças,
e demonios me levem se as restantes vos disserem para que lado fica a
Africa, se fica perto ou longe de Taião e se lá vivem homens civilizados
como nós, se paysanducos, se orangotangos.
Em vós, tudo desculpa essa ignorancia. Sois homens do trabalho. Quando
o dia nasce, principiaes a lucta pela vida; quando o sol se esconde,
procuraes no repoiso, vigor para a tarefa de ámanhã. Não podeis,
portanto, dispensar o tempo necessario ao estudo d’estas questões que a
Historia, a Geographia, o Direito internacional, etc., esclarecem.
Essa ignorancia existe, ainda mais profunda nas camadas populares
inferiores á vossa.
Berraes, pois, que vos roubam sem conhecerdes, quanto, o que, e onde.
Consultae a consciencia e dizei-me se isto assim não succede, e se não
consideraes censuravel que um homem nas ruas grite contra um ladrão,
ignorando os direitos que tem de o fazer e só porque ouviu as exclamações
dos outros.
* * * * *
Reconhecereis, portanto, que podia condemnar a vossa manifestação de 28,
mas se acreditaes na sinceridade d’essa sympathia que eu vos affirmei
nutrir pela _Assembléa Recreativa_, se a opinião d’um homem que se ri
dos que, n’outras espheras _mais illustradas_, fazem das luvas—uma coisa
que o meu cocheiro usa—distinctivo irrefutavel _de sentimentos dignos e
cavalheirescos_ (!) permitti que em poucas palavras vos indique a fórma
como eu entendo que vós devieis ter organizado a manifestação.
Nada de musicas; nada de procissões pelas ruas!
Um de vós pediria o theatro. Tres ou quatro iriam em commissão convidar
qualquer dos officiaes do Regimento—que os tendes ahi illustrados e
competentissimos—para uma conferencia sobre a questão do Chire-Nyassa,
em que vos expozesse claramente, perante um mappa, a situação dos nossos
dominios e a legalidade dos nossos direitos.
Para essa conferencia abririeis as portas ao povo, a esse eterno
ignorante sempre explorado, porque o não educam; e se os vossos recursos
podessem contribuir para uma verdadeira e util obra de patriotismo,
a esse mesmo official pedirieis que vos escrevesse um pequeno volume
onde, em linguagem chan, clara, perfeitamente intuitiva e ao alcance de
todas as intelligencias, se desenrolasse a historia do nosso Passado e a
historia d’essa vergonhosa alliança com a corte dos _lords_.
Distribuirieis depois, oito centos ou mil exemplares d’essa publicação
pelas freguezias do concelho, pelas escholas, pelas ruas.
E então, amigos, com os brados de cólera e com as exclamações de
desalento que a miragem das nossas gloriosas conquistas provocaria,
poderieis compôr um hymno—um verdadeiro hymno nacional, magestoso,
triumphante, imponente de enthusiasmos, arrebatador de generosos
sentimentos, palpitante de sincero, energico e irresistivel Patriotismo!
Poderieis então gritar:
=Viva a Patria!=
que eu, sobre a cabeça d’esses paysanducos que se riram de vós,
responderia com toda a energia de minha alma:
=Honra á Assembléa Recreativa!=
XXII
Carta a S. Ex.ª, o Sr. Administrador
Ex.ᵐᵒ Sr.
De caso pensado reservei para esta data, em que concluo a publicação que
tanto tem agitado o espirito dos seus excellentissimos administrados,
a manifestação dos sentimentos que agitaram a minha alma n’essa
hora solemne, em que V. Ex.ª foi chamado ás graves deliberações da
Administração concelhia.
E de caso pensado o fiz, Ex.ᵐᵒ Sr., porque necessitava que o tempo, os
factos, me fornecessem elementos com que, ao collocar a individualidade
de V. Ex.ª n’esta curiosa galeria de celebridades valencianas, podesse
fazer ao publico um pequeno discurso apologetico com phrases e linguagem
differentes ás d’essas escalrichadas apotheoses das luminarias da terra,
prenhes de _estimados cavalheiros_, de _integerrimos magistrados_, de
_robustos meninos_ e outras minhocas que o _Noticioso_ inventa para
enfeitar o anzol d’uma assignatura annual.
Hoje, porém, Ex.ᵐᵒ Sr., que tres mezes se sumiram nas voragens do
Tempo depois d’essa augusta solemnidade da _posse_, d’esse acto d’uma
respeitabilidade indiscutivel em que a imponencia das nossas instituições
civis actua sobre o espirito com a pressão de cem atmospheras—hoje, em
que a individualidade administrativa de V. Ex.ª, evidentemente se destaca
entre as auctoridades da minha terra, marchando a passo d’anjo no coice
das procissões, ao lado de Sua Excellencia o Senhor Governador Pericles
I e um pouco á frente do seu subordinado o Snr. Joaquim, muito
digno e conspicuo Substituto—digne-se V. Ex.ª permittir que eu lhe
dedique estas linhas, onde vou synthetisar a opinião que no meu espirito
existe ácerca do Senhor Administrador.
* * * * *
Percorrendo a historia dos gloriosos feitos dos antepassados de V. Ex.ª
n’essa cadeira administrativa—meditando sobre as diversas aptidões e
faculdades que nas sombras do Preterito, ainda hoje illuminam os vultos
dos prestantes e muito dignos cidadãos que eu por ahi vi atados á banda
bicolor,—comparando os feitos immorredoiros que enaltecem os annaes da
Administração valenciana—desde a _borralhada_ da Santa até ao exterminio
da Rua Verde, desde a prisão d’aquelle feroz e sanguinario Troppman
na _tomada de Barros_ até ás fornadas eleitoraes da Misericordia,—com
os actos de V. Ex.ª, eu, Ex.ᵐᵒ Sr.—com franqueza—não posso exprimir o
conceito que de V. Ex.ª formo com palavras differentes d’estas:
V. Ex.ª é o _refugo_ dos administradores!
* * * * *
E d’estas palavras escriptas com a rude sinceridade que até aqui arrepia
a linguagem dos meus escriptos, acaso poderá V. Ex.ª deduzir intenção
desdoirante das suas aptidões intellectuaes, dos seus conhecimentos
juridicos, das suas faculdades administrativas?
Se tal succede, erra o seu excellentissimo criterio.
V. Ex.ª é o _refugo_ dos administradores, porque tem uma carta de
bacharel, porque sahiu ha poucos annos da Universidade com uma educação
politico-scientifica imperfeita, rachitica, insufficiente para as
funcções do elevadissimo cargo de que está investido.
V. Ex.ª está saturado de ordenações, de codigos, de paragraphos
unicos, de disposições transitorias, de _subsidios_, de cartas de lei,
de alvarás; conhece os trabalhos e as theorias de Bentham, de Krause,
de Kant, de Grotius, de Blackstone, de Calvo, etc., etc., mas ignora
absolutamente e precisamente o que é mais essencial a um Administrador,
mercê da insufficiencia dos programmas officiaes e da falsa orientação
que na Universidade preside á incubação d’um bacharel.
A educação social do individuo deve adaptar-se ás condições e exigencias
do cargo a que se destina. Um medico aprende a curar feridas; um militar
a fazel-as; um escrivão de fazenda a tirar camisas; um boticario a
preparar tisanas; um paysanduco a contar cucharras; um _espirito-santo_ a
inspirar tolices; um Zinão a reforçar sinapismos.
Para lá da esphera profissional que a sua educação lhe circumscreve, o
individuo torna-se um ser inutil, prejudicial, incommodo.
É o que succede com V. Ex.ª
V. Ex.ª cursou todas as cadeiras exigidas no programma official d’um
bacharelado: direito romano, dito penal, dito commercial, dito civil,
dito internacional. Sahiu habilitado para tudo: para defender, accusar,
aconselhar, chicanar, fazer do direito torto e do que é torto direito, em
questões de aguas de rega, de fóros, de fallencias, de peculatos.
Para o que não sahiu habilitado é para Administrador do concelho.
Tem V. Ex.ª culpa d’isso?
Não. Tem-na quem organizou os programmas para a faculdade de Direito.
* * * * *
Na minha humilde opinião, ao curso de Direito devia accrescentar-se mais
um anno, para trabalhos praticos na cadeira de _Politica legal_.
N’esse anno, os futuros bachareis teriam de resolver, praticamente, entre
outros, os seguintes problemas:
1.º
Empalmar uma eleição
No meio da sala seria collocada a urna. Alguns alumnos representariam a
opposição. Com os restantes constituia-se a mesa: presidente, secretrios,
escrutinadores, olheiros, capatazes, abbades e caceteiros.
O examinando teria de satisfazer ás seguintes provas, sem que a opposição
percebesse a fraude.
_a_) Introduzir rapidamente na urna um maço de listas
governamentaes.
_b_) Riscar os nomes dos eleitores reconhecidamente
opposicionistas.
_c_) Incluir na _chamada_ e fazer substituir por _mirones_
todos os mortos da freguezia.
_d_) Inutilizar imperceptivelmente com borrões de tinta as
listas dos contrarios.
_e_) Entornar um tinteiro na urna, quando a eleição se
considerar perdida.
_f_) _Armar_ uma _baralha_ na egreja; derrubar mezas, cadeiras,
quebrar cabeças aos eleitores; dar, até, pancada nos santos e
fugir afinal com a urna.
_g_) _Empalmar_ uma acta. (Para esta prova o examinando poderia
consultar os tratados especiaes que, sobre tal assumpto, tem
escripto o Ex.ᵐᵒ Sr. Dr. M. Thomaz.
2.º
Uma fala aos lavradores
Antes da eleição (modelo _a_):
_Olé amigo! Toque. Dê cá um abraço.—Esta é a sua filha? Está
uma fiôr; tem juizo, rapariga!—Sabe que arranjei um subsidio
para as obras da torre? Custou, mas arranjou-se.—Você não tem
um filho no recrutamento? Recebi hoje carta de Vianna em que me
dizem que vae ser isento.—Aquella é a tal propriedade em que
esses ladrões lhe lançaram quatro pintos? Eu amanhã arranjo
isso na Fazenda; o mais que deve pagar é um pinto.—Pegue lá um
cigarro. Com franqueza; fume á vontade, que é brandinho. Não
tem lume? Metta á bocca... Prompto!—É verdade: já me esquecia.
Você é dos nossos; amanhã é a eleição. Homens honrados são do
nosso lado. Já cá o tenho na cabeceira do rol—Diabo! tenho o
seu nome na ponta da lingua...—Zé da Portella, exactamente.
Aqui tem uma lista. Mande para o diabo a outra canalha.—Adeus.
Ás ordens sempre, sempre, para o que quizer.—Dé cá outro abraço
que é de amigo. Adeus._
Depois da eleição (modelo _b_):
—_V. Ex.ª dá licença?_
—_Entre!!_
—_Louvado seja nosso..._
—_Que quer!?!_
—_Eu sou o Zé da Portella, aquelle..._
—_Venha logo, venha logo; tenho mais que fazer._
3.º
Organizar rapidamente o orçamento d’uma «borga» eleitoral, dada a
capacidade cubica das barrigas dos abbades e a permeabilidade alcoolica
dos tecidos intestinaes.
A resolução d’este problema requer os seguintes conhecimentos:
_a_) Saber o preço dos carneiros, dos _calhos_, do vinho, das
batatas, das resteas d’alhos, do pimentão, etc.
_b_) Saber applicar o ammoniaco no caso provavel d’uma
borracheira.
_c_) Saber receitar um purgante e manejar uma seringa na
delicada operação do crystel.
_d_) Saber ouvir de confissão qualquer bruto que estoire
repentinamente com a indigestão.
4.º
Redigir uma informação favoravel á imposição de qualquer transferencia,
embora ella vá lançar na miseria a familia d’um funccionario honesto.
Modelo:
_Esta transferencia torna-se necessaria e até indispensavel á
boa solução dos nossos negocios. O homem é regenerador. Diz
por ahi o diabo do Marianno. Alem d’isso, embirra com o A. Ora
este A. segura o O., que vale os seus cincoenta votos. Com o
A. não podemos contar, porque é dos amphibios e vae para quem
mais der. Por aqui já se rosna na transferencia e todos berram
que é uma infamia. O homem tem oito filhos. Que isso não influa
no animo de V. Ex.ª. Quanto mais distante fôr a sua collocação
melhor, porque mais desafogados ficamos. Espero solução rapida.
Resposta telegraphica. A victoria depende d’esta transferencia._
5.º
Conclusões varias sobre a elasticidade do Direito administrativo
_a_) F. (governamental) _tem uma burra. Só paga decima quando
fôr da opposição._
_b_) F. (gov.) _tem um rendimento collectavel de reis 100$000.
Reduz-se a 50$000._
_c_) F. (opposição) _é professor e politico contrario.
Retiradas as gratificações sob qualquer pretexto._
_d_) F. (gov.) _requer uma policia correccional contra X. Pedra
nos autos_.
_e_) F. (op.) _é filho unico e amparo da familia. Intimado para
em tres horas se apresentar á inspecção._
_f_) F. (gov.) _é forte como um toiro e robusto como um
Hercules. Entra ámanhã na inspecção. Isento por tisico._
_g_) F. (gov.) _é gallego e intrujão. Na gazeta do partido
illustre correligionario e probo cidadão._
_h_) F. (op.) _é homem de bem; eu tambem o creio... apesar de
que dizem por ahi (eu não acredito) que é ladrão e salteador de
estrada._
6.º
Dirigir nos campos da politiquice, com a aguilhada da administração, o
rebanho dos camaristas.
Este problema exige dois mezes de tirocinio com os boieiros do
Alemtejo, para se apprender a deitar o laço e a reunir á manada
qualquer boi tresmalhado.
* * * * *
Ora diga-me V. Ex.ª: n’estes tres mezes em que tem empregado a sua
actividade nas coisas da nossa administração não encontrou ainda em
equação, sobre a sua mesa de trabalho, todos esses problemas?
E resolveu-os?
Não os resolveu, porque a sua consciencia e a sua dignidade esperam,
ainda, as provas de elasticidade e de resistencia que necessitam para a
tensão das patifarias politicas.
V. Ex.ª tem feito um pessimo logar.
Nem come os _calhos_ dos abbades, nem é paysanduco, nem é _provarei_, nem
deita foguetes.
Se não fosse a luminosa e providencial influencia do seu Ex.ᵐᵒ
Substituto, homem de assaz provado engenho e competencia em assumptos de
Direito administrativo e ilhas adjacentes, V. Ex.ª envergonhava a terra,
o partido e os amigos, a cujo numero eu tenho a honra de pertencer.
V. Ex.ª não tem _feitio_ para Administrador.
Em tantos de tal (ainda V. Ex.ª não tinha na gaveta, ao lado das piugas,
a banda azul e branca) entraram no seu escriptorio os cidadãos Zé Pita,
Tóne do Logar e Manel Cancella.
Este Manel trazia uma questão com o sogro por causa das aguas da rega.
Disse da sua justiça.
V. Ex.ª ouviu, pensou e aconselhou.
Zé Pita, cidadão que tem as suas fumaças de doutor _lareiro_, metteu a
colherada no caso, muito lepido e escorreito com umas objecções ao douto
conselho de V. Ex.ª
V. Ex.ª ouviu, pensou e refutou: _artigo tantos_, _paragrapho tal_, etc.
Vae n’isto—o Tóne do Logar, _home_ de representação e de lettras gordas
na freguezia, chegou-se tambem _ao rego_ da discussão, e metteu o
bedelho, descobrindo ainda outra hypothese.
V. Ex.ª ouviu, pensou e concluiu.
Ficára o caso liquidado entre os quatro doutores, digo, entre V. Ex.ª e
os tres cidadãos.
—_Quanto é?_ perguntou Manel.
—_Dezoito vintens!_ respondeu V. Ex.ª
Ficou estarrecido o homem. Nunca imaginára pagar um conselho por mais de
tres patacos, muito especialmente agora que o João Moraes os annunciava
a _quatro menos cinco_, para quem se avençasse ao mez.
—_Sôr Doutor... talvez seja engano de Vóssoria, mas foi só um conselho..._
—_Foram tres e não um!_ respondeu V. Ex.ª com aquella cara muito
arrenegada que ás vezes tanto assusta a gente.
—_Tres, meu senhor?_
—_Você não falou?_
—_E depois não falou outro?_
—_E não falou depois outro? Tres vezes seis, dezoito._
* * * * *
Justissima era a reclamação.
Nem os sete sabios da Grecia poderiam contestar a legalidade e a
exactidão d’aquella operação arithmetica.
Este simples facto revela a rispida e austera execução que V. Ex.ª
dá aos sacratissimos principios da Justiça e da Equidade e revela,
tambem, a incompetencia de V. Ex.ª para um logar onde, tendo tres, oito,
dez ou vinte consultas diarias, nada poderá reclamar, quando venham
recommendadas por o sr. Joaquim, ou por outro qualquer confrade politico
que se lembre de fazer favores e de adquirir popularidade, á custa dos
dois contos que V. Ex.ª gastou na formatura.
Para estas coisas de Politica é preciso vêr muito ao longe, ter vista de
caçador, e V. Ex.ª mesmo como caçador, é um desastrado.
Nunca me hei-de esquecer d’aquella surriada que lhe fizeram os rapazes de
Arão, quando V. Ex.ª lá appareceu com todo o seu arsenal de guerra.
Um dia, o Rocha e o Leitão suggeriram no cerebro de V. Ex.ª as glorias de
Nemrod.
Depois de jantar, sahia V. Ex.ª com todos os petrechos de caça,
inoffensivamente mortiferos. Uma solida _escopeta_ de carregar pela
culatra; á cinta, um grandecissimo facalhão para escuchinar javalis; no
bolso direito, uma enorme navalha de furar lobos; a tiracollo, d’um lado
a cartucheira com trezentas cargas de polvora e bala; do outro lado, o
canudo de cortiça com vinte e sete furões e furoas; no bolso direito do
collete, um revolver de oito tiros; no esquerdo, um _box_ de quebrar
dentes a cães e vinte exemplares do _Noticioso_ para _necessidades
urgentes_; nos pés, aquellas grossas botas de sete solas impermeaveis,
até, no Rio Minho; aos hombros, o capindó de borracha, gemeo do outro
com que o Albino attrae a chuva por essas ruas, em dias claros e
formosissimos de Primavera; atraz de V. Ex.ª, ladrando, farejando,
saltando vallados e alçando as pernas, seguia a terrivel matilha,
recrutada na Parada-velha: podengos de todas as raças e feitios, para
coelho, para perdiz, para lobo: o _Nilo_, a _Fuinha_, o _Gigante_,—tó,
_Nero_!—volta, _Farrusca_!
Assim disposto e precavido, seguia V. Ex.ª por essas aldéas fazendo
tremer o solo, os ceos, a terra, os mares, com o aspecto apavorador da
sua ferocidade venatoria.
N’isto,—alli ao pé de Arão, um triste pintasilgo risca no ar uma curva e
vae poisar no arvoredo proximo.
A matilha _amarrou_.
V. Ex.ª toma ar, carrega a escopeta, aponta... toma outra vez ar...
desfecha e olha.
O passarito soltára uma gargalhada de escarneo e batera as azas, voando...
Quando passou sobre a cabeça de V. Ex.ª, lá do azul dos ceos cahiu uma
coisa sobre o seu excellentissimo nariz.
A qual coisa, molle, pastosa, de côr cinzenta e com o feitio retorcido
d’um S fez exclamar a um rapazinho que, de _carrapuço_ vermelho e mãos
nos bolsos, a distancia presenciava o caso:
—_Oh que grande caçador de minhocas!_
E campos fóra de Politica, Ex.ᵐᵒ Sr., quando encontro V. Ex.ª armado de
ponto em branco com a escopeta da Administração, cartucheira presa á
banda azul e branca, matilha de abbades e rafeiros,—quando verifico que
V. Ex.ª nem tem animo para disparar o bacamarte d’uma transferencia, nem
sabe empalmar uma urna, nem falsificar uma acta, nem dirigir uma borga
de _calhos_, nem descascar uma batata, nem deitar um foguete com ropia,
nem tocar n’um gaiteiro, nem mentir com cara seria, nem perseguir os
professores, nem desgraçar uma familia, nem deshonrar um funccionario,
nem amesquinhar um merito, eu, Ex.ᵐᵒ Sr., n’esta occasião em que V. Ex.ª
por ahi anda atrapalhado com a escopeta de dois canos que nas mãos lhe
metteram, para dar o primeiro tiro contra a opposição—não posso reprimir
estas palavras com que, conceituando politicamente V. Ex.ª, parodio o
rapazito d’Arão:
—Oh que grande Administrador das _duzias_!
Aos pés de V. Ex.ª, curva-se respeitosamente o
_Zinão_.
XXIII
Compadres e Comadres
Decididamente, não se póde ser rapaz solteiro em Valença.
Segundo reza a minha cartilha, os inimigos do homem são tres: mundo,
diabo e carne.
Cá na terra, os inimigos dos rapazes são tambem de tres especies: aguas
de Christello, bailes e comadres.
Todos estes inimigos teem procedencia diversa: um nasce na Assembléa,
outro fóra de Portas, outro na Coroada.
Todos teem um caminho:—o namoro.
Todos teem um fim:—o casamento.
Epilogo egual para todos:—o _conjugo vos_ do Magalhães e a Sr.ª Dona
Maria do Hospital.
* * * * *
Berra-se por ahi contra os jesuitas, contra os abusos dos regeneradores,
contra as tyrannias do João Cabral, contra tudo que póde affectar o livre
exercicio dos nossos direitos e das nossas regalias.
Ninguem se lembra de requerer uma querela contra as _comadres_ da
Coroada, que ha dezenas de annos implacavelmente lançam ao pescoço dos
nossos mais airosos jovens as gargalheiras do casamento e a colleira de
_paterfamilias_.
* * * * *
Em bella manhã de Abril entra um raio de sol na alcova; acaricia-nos o
rosto; faz-nos cocegas no bigode e diz-nos baixinho ao ouvido: _São seis
horas; levanta-te, calaceiro! Lá fóra cantam as aves, exhalam aromas as
flores; está tão bonita a campina... tão risonhos estão os prados...
tão diaphana a atmosphera e tão azul o azul dos ceos... Vem commigo. És
livre; não precisas de ajudar a lavar os pequenos. Vamos,—veste-te, que
eu espero cá fóra._
Vinte minutos depois, respiramos por esses campos o ether das madrugadas.
A nossa alma inebria-se; sentimo-nos alegres, bons, fortes e felizes,
porque somos livres. Desejavamos possuir umas botas de _sete leguas_,
como as d’aquelles contos da infancia; trepar a todos os oiteiros, subir
a todas as collinas, saltar por todas as planicies.
Phantasiamos azas como as da cotovia que se libra nos ares, cantando
hymnos de jubilo, de liberdade, de amor.
Horas depois regressamos a casa. Á entrada, a sopeira entrega-nos
mysteriosamente uma caixinha dos collarinhos, ou dos pós da gomma,
cuidadosamente atada com fita de seda azul.
Abrimos:
Dentro, muito secio e garrido, um palmito; ao lado, teso e perfilado, um
cartão de visita:
_Fulana de tal._
Desde aquelle momento, o _bacillo virgula_ do matrimonio inficiona o
nosso organismo. Perdemos a vontade de comer, damos ais, suspiramos á
lua, fazemos versos, cantamos o _choradinho_ e principiamos a cuidar nas
roupas brancas.
Se não mudamos immediatamente de terra, unico remedio efficaz, estamos
perdidos.
Que me conste, até hoje, dos atacados pela fatal molestia só resiste um—o
Velloso. Se escapa até aos quarenta, vae para o museu do Inglez.
* * * * *
Perde-se em a noite dos tempos a origem d’essa funesta cerimonia:—_a
eleição dos compadres_.
Sei que dubia é, ainda, a tradição que a localiza na Coroada; porquanto,
auctores varios e jurisconsultos sisudos estabelecem no centro da villa a
instituição de tão perfidas solemnidades.
As pandectas da Assembléa, os folios da Collegiada, os annaes da Ex.ᵐᵃ
Camara nada informam a tal respeito. Em vão os consulto em frequentes e
longas vigilias.
Esta prioridade de direitos na organização do escrutinio annual tem por
vezes suscitado controversias violentas e disputas acaloradas entre os
pacificos habitantes da rua de S. João e os da Coroada; e se não fôra a
sisudez, prudencia, diplomacia e tino politico dos conspicuos inquilinos
do Santo Precursor, certamente já teriamos a lamentar successos graves e
não pouco deploraveis acontecimentos.
No emtanto, a malquerença entre os dois povos existe e existe evidente.
Na rua de S. João, um habitante da Coroada nunca foi um cidadão da
villa:—foi, e é um _pelludo_ da aldéa; e a esta offensa responde a
Coroada affirmando a superioridade dos seus costumes e dos seus habitos,
allegando, com assaz persuasiva logica, que não tem lá, nem precisa, de
Borralhos ou de Egyptos.
A origem de tão lastimaveis dissensões está na eleição das _comadres_.
* * * * *
A epocha d’esta cerimonia não foi, como alguem poderá imaginar, fixada ao
acaso. Fixou-se traiçoeiramente para o domingo de Ramos.
Domingo de Ramos quer dizer: Semana santa e Paschoa—isto é—_soirées_ na
egreja e na Assembléa e—mais ainda—chavenas de chá sem assucar preparadas
pelo Cruz com agua do Christello.
Aos olhos incautos isto nada significa, mas significa muito para o
espirito do observador, porque lhe mostra em caminho perfeitamente livre
e desembaraçado, juncado de rosas e saturado de aromas,—a comadre e o
compadre amarrados um ao outro com as fitas de seda do palmito e da caixa
das amendoas. Vão alegres, risonhos, chilreando, sorrindo, despenhar-se
no abysmo sombrio do matrimonio, onde o Magalhães, com uma saia de mulher
aos hombros, attencioso e mitrado, lhes desfecha quatro tretas de latim.
O palmito aproxima o compadre da comadre: _agradeço a V. Ex.ª—dou-lhe os
meus sentimentos, porque foi infeliz na sorte—merecia compadre melhor, e
tal, etc._,—diz elle.
—_Oh sr. Fulano! Por quem é!... fui até a mais feliz.—Cá espero as
amendoas.—Olhe que é uma vergonha se as não dá.—Quero vêr, eu quero vêr
como se porta_—diz ella.
Ao despedir, um cumprimento demorado, um sorriso, um olhar... e compadre
e comadre trocam mentalmente, na visão doirada do futuro, o grau do
parentesco.
Magalhães surge ao longe, entre nuvens côr de rosa.
A sr.ª Dona Maria do Hospital pisca graciosamente o magano olho
esquerdo...
* * * * *