Na quarta-feira santa, entra um rapazito no portal; bate as palmas—_sou

eu!—faz favor?_—e entrega uma perfumada caixinha, toda alegre e catita,

oiro e setim azul, recheada de amendoas e confeitos.

No fundo espreguiça-se sorrateiramente uma carta.

Rubôr ás faces, noventa pulsações por minuto, leitura tremula, arfar de

seios, um suspiro, dois suspiros.

Lê-se, relê-se e torna-se a relêr a carta.

Trabalha o ferro de frisar com mais cuidado, estuda-se uma prega mais

graciosa para a mantilha, flor ao peito para o que der e vier, e—entra a

_comadre_ na egreja.

Quando abre o livro das orações, já não atina com o _Padre-Nosso_ nem

com a _Ave-Maria_. Com os olhos da imaginação, só vê e lê os caracteres

seguintes:

_Minha senhora._

_Vel-a e amal-a, foi obra d’um momento. Quiz a fagueira sorte escolher-me

para compadre de Vocellencia. Bemdita seja ella que me aproximou de quem,

ha muito tempo, é o enlevo dos meus olhos, a alegria da minha alma, a

ventura do meu coração. Tomo a ousadia de offerecer a Vocellencia as

amendoas «inclusas». Desculpará Vocellencia. Na minha terra fazem-nas

muito bem feitas. Doces d’ovos e amendoas são as especialidades. Se o

Papá e a Mamã gostarem, eu mando vir mais. É bom comer poucas, porque são

muito indigestas e fazem dôres de barriga. Serei correspondido n’este meu

amor? Oh ceos! Quanto anhelo sabel-o! De Vocellencia_

_até á morte_

_V._

* * * * *

Durante as _licções_, n’aquelles intervallos em que o Albino canta o seu

_macarronico_, o Padre Alexandre gargareja o melhor e o mais brunido do

seu latim e os outros padrecas se revezam, previamente annunciados pelo

rapaz sacrista que, de saiote vermelho, vae apagando, um a um, os treze

tocos da girandola—compadre e comadre libram as suas almas pelas naves

d’um mystico arroubo, ebrios de felicidade, de esperanças risonhas, e

dulcificados fartamente com amendoas de Tuy e rebuçados de avenca.

Á noite, na visita ás casas do Senhor, o compadre acompanha a comadre.

Atraz, cochicham o futuro sogro e a futura sogra. As beatas, ao longe,

segredam mais um casamento... Compadre e comadre já se tratam por tu.

Fica combinado o _gargarejo_.

—_Amo-te_—_boas noites_—_até amanhã_.

Domingo de Paschoa.

Baile na Assembléa.

A _comadre_, quando alguem a pede para dançar _de roda_, está sempre

compromettida. Só dança com o _compadre_.

_Compadre_ escolhe os melhores doces para a _comadre_; rodeia de

attenções a Mamã da dita _comadre_; entretem o cavaco com o Papá da dita

_comadre_; é _vis-à-vis_ do Mano da dita _comadre_.

As amigas da _comadre_, quando o _compadre_ está em pé, arranjam-lhe logo

um logar ao pé da _comadre_.

—_Comadrinha vae, compadrinho vem._

No fim da noite, entram já na conversa as roupas de linho, de panno cru,

as caçarolas, as panellas.

Lá ao longe, muito ao longe, sempre em nuvens côr de rosa, a fugitiva

miragem d’um cavalheiro, irreprehensivelmente encasacado, gravata e luvas

brancas,—curvado em graciosa mesura perante o Papá e a Mamã.

Um pedido—um _sim, Papá!_—uma lagrima da Mamã—um _ai!_ e um fanico.

Dois mezes depois, Padre Magalhães dá o nó; e o mesmo raio do sol, que

em Abril nos despertava, penetra indiscretamente na alcova nupcial e

segreda-nos ao ouvido:

_forte lôrpa!_

Annos passados, quando compadre e comadre teem quatro filhas casadoiras,

são elles que reclamam a eleição.

Cada _palmito_ que sai de casa é um anzol.

Para o Velloso—oh Paes de familia!—só a _coca_ ou o botirão.

* * * * *

Gentis senhoras da Coroada!

Por piedade! Acabae com este tributo mais violento e mais horrivel do que

o tributo de sete mancebos e sete donzellas que, outr’ora, Athenas pagava

a Creta.

Por piedade, senhoras!

Arrebataes, annualmente, lá para cima, a melhoria dos mancebos, a nata

da mocidade, a fina essencia da juventude, que depois abandonaes a

essas ruas—obesos, gordurosos, crivados de callos, _paterfamilias_ de

_cache-nez_, lenço tabaqueiro e barretinho d’algodão.

D’aqui a pouco não ha um rapaz solteiro em Valença; e como as

estatisticas demonstram que, para cada mancebo casadoiro ha, entre nós,

vinte damas em disponibilidade, attentae que não é risonho o vosso

futuro, porque está provado á evidencia, que os rapazes de fóra sabem

escapar á magia dos vossos palmitos.

Vêde o Velloso, o Leopoldo, o Gomes da Artilheria, o Prado, o dr. Brandão.

Transijamos, pois, gentis damas:

Nós estamos promptos a enviar annualmente para a Coroada, quarenta

arrobas de amendoas e quarenta dictas de rebuçados dos melhores e dos

mais ricos que tenham o Có-Có, e o Telmo Parada.

Outrosim nos compromettemos ao pagamento d’um tributo annual de tres

mancebos casadoiros, que vos serão entregues no domingo de Ramos, ao meio

dia, em frente das _Alminhas_, com os respectivos bahus de roupa branca:

camisas, ceroilas, piugas, barretinhos de dormir, pannos da barba.

Para o pagamento d’este tributo organizaremos um gremio, como o dos

negociantes, na distribuição da decima.

Os tres desgraçados serão indicados pela sorte. Irão esses para as negras

penas do matrimonio, mas, ao menos, os restantes poderão em todo o anno

andar satisfeitos, alegres, livres de melancholias e de... _palmitos_.

Sou casado tres vezes, senhoras! O Magalhães que o diga...

E tanto ás defunctas consortes, como á companheira actual, quem me

prendeu foi a vossa eleição.

Por isso, quando agora vejo um palmito é o mesmo que vêr o diabo.

Em nome da mocidade, protesto contra a

=eleição das comadres!=

XXIV

Ultimas palavras

Na vida social, uma povoação possue a complexidade do organismo d’um

individuo. Pode estudar-se physiologicamente e psychologicamente.

Tem sentimentos, expansões, dôres, coleras, alegrias; tem orgãos,

musculos, enfermidades e lesões; periodos de vigor, de engrandecimento e

de decadencia.

Athenas foi a alma da civilização hellenica; Sparta teve a musculatura

dos fortes na hegemonia das cidades gregas; Roma cingiu o mundo com os

seus braços de ferro; na gloria dos seus triumphos e das suas conquistas

teve a vertigem da sensualidade e do prazer; libertinou-se, effeminou-se

e apodreceu na enxurrada das sargetas.

Paris ri; e Londres, embrutecida com o _gin_, com as _fresh-girls_ e

com os deboches de Cleveland-Street, offerece o nojento bandulho ao

facalhão de Jack, ou escouceia no _match-box_ do Pelican Club, em que

dois homens se esborracham a sôco, com grande gaudio d’isso que é a

quinta essencia da pelintrice, do egoismo, da ambição, do orgulho, da

_pataqueirice_ réles da viella e que nas altas espheras do _High-life_,

em _Leicester Square_, no _Regent’s Park_ ou no _Covent Garden_ se

intitula pomposamente—um _lord_!

* * * * *

Appliquemos aqui, aquella conhecida theoria de Broca sobre a relação

entre o volume cerebral e a intelligencia.

O volume do cerebro pode, segundo o eminente sabio, indicar maior ou

menor desenvolvimento intellectual.

Ora, o que é o cerebro?

É a parte pensante do organismo.

N’este individuo social—uma povoação—onde o devemos procurar?

Na sua parte illustrada; nos filhos que se distinguem pelas

manifestações da sua actividade mental, e, assim, poderemos dizer que

o numero d’elles está para a consideração e importancia intellectual

do individuo—povoação—como o volume do cerebro está para o

individuo—homem.—Tanto maior, quanto mais illustrada, tanto menor quanto

menos culta.

E admittido isto, desassombradamente podemos affirmar que nenhuma outra

povoação do paiz, com egual numero de habitantes—nas cathedras do

Ensino superior, nas elevadas posições do Exercito, nos altos cargos da

Magistratura, na Classe medica, na Advocacia, no Commercio e frequentando

ainda os cursos superiores—tenha numero egual, que não superior, de

filhos, e tão, que não mais, distinctos.

Mas, honrosa como é esta superioridade tambem ignobil e infamante é a

indolencia a que nos entregamos, com que abandonamos os nossos direitos

politicos, com que ficamos de bocca aberta e mãos nos bolsos, na triste

impassibilidade do fackir, assistindo, impotentes como um eunucho, a

essa activa evolução que impulsa as mais insignificantes povoações,

transformando-as com os benesses das modernas instituições e levando-lhes

as arterias á hematose dos grandes centros civilizados.

O titulo de _burgo podre_, com que realmente este concelho é mencionado

em Lisboa, deve ser para nós mais degradante do que a marca a fogo do

grilheta e do forçado.

Tempo é de nos libertarmos d’essa tristissima condição de barregan, em

eterna dependencia de qualquer tia, velhaca e rufiona que á nossa custa

encha a pança e o _pé de meia_.

Na choldra da prostituição politica do nosso paiz ha circulos que

necessitam de caricias e de namoro; ha circulos fieis, ainda que

rarissimos; ha-os de pernas abertas para quem mais der, e ha-os

_pataqueiros_ destinados a desvirgar os meninos lisboetas, ou a entregar

o corpo ao primeiro pandego, que lá de Bijagóz ou de Paio Pires, se

lembre de passar por elles, fazendo caminho para ir ajudar a embolar os

toiros no curro de S. Bento.

Esta é a nossa triste condição.

* * * * *

Ha seis ou oito annos que n’este _burgo podre_ se manifestaram uns debeis

symptomas de vigorização politica. Regosijei.

Pareceu-me que ainda poderia ver Valença como as outras terras; á mesa

do orçamento, com o seu logar marcado e o seu talher, e não como então

estava: debaixo do banco, apanhando de quando em quando o osso esfolado e

o pontapé do _gajo_ que a levara pela trela do voto.

Vans esperanças! Antes o Passado. Appareceu effectivamente a Politica,

mas esfomeada, esqueletica, larvada, com manhas de gato lambareiro e

caricias de cadella aluada.

Anichou-se por ahi, comendo á _tripa-forra_ e passando o tempo ao sol, de

barriga para o ar e carcela desapertada.

Tem dichotes de histrião e insultos de fadista. É insupportavelmente

porca: onde toca deixa baba; onde poisa deixa excremento. Quando fala não

deita perdigotos, deita escarros; quando escreve não o faz com tinta, mas

com pus.

Se graceja causa nauseas, se chora provoca o pontapé.

Examinada physiologicamente encontramos-lhe deficiencia de orgãos. É

impotente e a impotencia organica reflecte-se na alma, porque não tem

enthusiasmos, nem aspirações, nem... vergonha.

Conjuga só um verbo:—comer; só conhece um pronome:—nós.

Muda de patrão de tres em tres annos. Pouco se importa com isso. Se elle

a trata mal, agacha-se, servil e humilde; se a trata bem, esfarrapa-lhe

uma cannela ou levanta a perna e... molha-o.

* * * * *

Um ataque de epilepsia politica agita actualmente os magnates eleitoraes.

Está no chôco novo deputado...

Indigitam-se dois filhos da terra como candidatos.

A rua de S. João torce o nariz...

Esta rua de S. João representa os mesmos _chimpanzés_ que, em tempos,

rejeitaram o sr. dr. Illidio Ayres para facultativo do Hospital e o sr.

dr. José Vieira para medico da Camara.

Para que V. Ex.ª conheça bem a gente que o rodeia, sr. dr. Pestana,

aconselho-o a que peça pormenores ácerca das discussões que o seu nome

provocou nos _centros_.

_Arrufos, gréves, amuos, etc._

Diz V. Ex.ª que o Zinão é _politico_ e _má-lingua_.

Contra a primeira accusação protesto respeitosamente, e rogo a V. Ex.ª

que faça melhor conceito do meu caracter.

Emquanto á segunda, direi a V. Ex.ª que tem mais a recear da _boa-lingua_

e da _fidelidade_ dos seus _pseudo-partidarios_, do que da critica

zinoica.

Eu defendi sempre a candidatura d’um filho da terra, emquanto que os seus

_amigos_... Informe-se, informe-se V. Ex.ª, porque talvez isso lhe seja

proveitoso.

* * * * *

Os trabalhos eleitoraes teem peripecias engraçadissimas que davam para

novo volume de _Sinapismos_.

Abstenho-me, porém, de explorar esse inexgotavel filão de ridiculos,

existente na massa cerebral—grude de sapateiro e pura secreção de

rins—dos nossos politiqueiros.

Tenho na minha frente dois filhos de Valença. Não sei, nem quero saber

qual d’elles tem mais probabilidades de vencer.

Oxalá que todas as difficuldades desappareçam; que todas as indisposições

terminem, que todos os esforços se reunam e que esta terra possa,

finalmente, ter em S. Bento um representante util e proveitoso, como deve

ser qualquer dos seus filhos.

Seja qual fôr o vencedor e a opinião politica que perfilhe, eu saúdo

n’elle o valenciano que recebe o mandato dos seus patricios, e oxalá

que a eleição de 30 de março de 1890 seja o inicio d’uma politica

digna, purificada de trampolinices, de arruaças, de _borralhadas da

Santa_,—independente de histriões e de tartufos, que até á data teem

manchado a consideração d’esta terra com o infamissimo labéo de

=burgo podre!=

Eis o que para Valença deseja o _má-lingua_ do

_Zinão_.

NOTAS

[1] Este artigo foi publicado, quando a Junta de Saude inventou o

Microbio de 1889.

[2] Este _digo_ não é consequencia d’uma simples abstracção do meu

espirito. Originou-se no tratamento, ha dias applicado no posto de

desinfecção do Caes, onde os viandantes eram considerados parreiras

phyloxeradas e polvilhados com enxofre... a folle de sopro.

É economico e não faz bem nem mal.

Antes pelo contrario...

[3] Isto é francez e do mais decente.

[4] Com esta classificação é que foi ás nuvens o sr. dr. Pacheco. Nunca o

vi tão zangado, a não ser quando aquelle barqueiro de Vigo lhe respondeu

á lettra...

[5] Salvo seja.

[6] Para partos era o melhor clinico que cá havia. As senhoras viam-lhe a

barriga e... suppunham logo simultaneidade de soffrimento.

[7] Justininho.—Desculpa se foi tolice. Faz como o sr. Illydio

Dias:—declaração nos jornaes. Eu cá não me zango.

[8] A metrificação é livre, como a setta no ar.

N’estas coisas de versos, sigo a opinião do Capitão-mór da _Morgadinha_:

o papel é para se escrever e não para se estragar com versos de quatro

syllabas.

[9] O que arde cura, diz o _Pimpão_ e confirma a sagrada Escriptura.

[10] Podemos fallar á vontade, que isto é grego para o sr. Joaquim...

[11] Do natural.

[12] Copia do natural. Recommendo aos leitores que tomem um bocado d’ar;

especialmente aos que soffrem d’asthma.

[13] Ortographia sonica.

[14] Historico.

[15] Um bocado de latim, no meio d’estas coisas, faz sempre bom effeito,

porque dá á gente um tom de sabio. Se foi asneira Vossa Excellencia

desculpará... Do que me ficou do Conego Vaz, foi o melhor que pude

arranjar. Vossa Excellencia tem cara de quem sabe muito latim.

[16] Historico. Anno de Nosso Senhor Jesus Christo 1886.

[17] Para vergonha nossa, direi que tão bello regulamento é o que ainda

vigora n’esta terra. Em leis civilisadas, ou Valença, ou as terras do

Kalakana...

[18] Esmiuço, aqui, materia conhecida, para boa comprehensão d’alguns,

menos versados em Sciencias naturaes. Em questões de tanta magnitude,

toda a clareza é pouca.

[19] Nem tudo se póde dizer claramente. Ha sempre quem dê mau sentido ás

coisas...

[20] A camara, n’essa occasião, era composta dos srs. Zagallo, Vieira,

José Seixas, J. Lopes, Albino, J. Narciso e do orador.

[21] Peço attenção para a redacção das propostas.

[22] Ao verificar a impressão d’estas propostas vejo, com desgosto, que

os typographos espalharam por ahi, sem nexo nem intenção, bastantes

pontos, compromettedores para a candidez e honestidade de costumes

d’alguns Cavalheiros. Ahi fica a declaração para os salvar da intenção

criminosa.

São coisas que succedem...

[23] Sinto que as acanhadas dimensões d’este volume me não permitiam

incluir um artigo, que esbocei, ácerca da origem do Patriarcha. Tem por

titulo: _Aventuras do Patriarcha dos Gandricos e do seu amigo Gargalinho,

em Paris da França_. É um estudo realista. Faço, porém, obra para dois

tostões...

[24] Não vá este artigo fundamentar suspeitas, ácerca das crenças

do auctor. Zinão respeita a Religião e perfilha o que ella tem de

sensato; mas só a admitte no Templo—depois de varrido de hypocritas, de

traficantes, de escorropicha-galhetas e de icha-corvos—com um Evangelho e

um Sacerdocio: a Caridade.

[25] Depois do que expuz, acerca do _elogio-mutuo_, n’estas paginas, onde

manuseio ridiculos, poderá alguem attribuir-me intenções provocadoras da

tal _convenção_, com a referencia que ahi faço a um homem, que, entre nós

destramente maneja a penna.

Declaro que, n’estas e n’outras referencias, digo o que penso e o que

sinto; sem pretenções a adulador, independente de preconceitos, de

considerações pessoaes e das imposições dogmaticas com que, por ahi, se

celebra e incensa muita _coisa_ vulgar e ôca.

Não preparo o exito dos _Sinapismos_ com a offerta de exemplares ás

redacções, ou aos amigos, que as frequentam, com aquelles galanteadores

e irresistiveis offerecimentos de: _ao distinctissimo escriptor_, _ao

precioso estylista_, _etc._, com que se arma ao reclamo,—porque d’este

não necessito.

Não viso á honra de ser considerado entre os litteratos, e por isso

occulto o meu nome; não escrevo por especulação, e por isso offereço aos

pobres qualquer producto do meu trabalho.

Dos defeitos da obra, que são muitos, salvo-me com este desinteresse e

com esta independencia de opinião.

Não me dotou Deus com _feitio_ para incensar vulgaridades pretenciosas,

nem tambem com orgulho e vaidade para repudiar, ou amesquinhar meritos.

Entre a Critica e a minha individualidade está essa mascara:—Zinão. Se

aquella me fôr hostil, respeital-a-hei no que tiver de sensato; se me fôr

favoravel, francamente, não lh’o agradecerei, porque não peço elogios.

Que este livro proporcione a quem o ler alguns minutos de distracção; que

essa distracção valha _uns tostões_ e que d’esses tostões possa apartar

_uns cobres_, que mitiguem alguma dôr—eis o que ambiciono d’este ignorado

laboratorio, onde preparo os _Sinapismos_.

[26] Não posso ficar calado perante um tão extraordinario acontecimento,

como esse que o sr. Joaquim debate na imprensa, com as suas sessenta

epistolas. Altero, pois, a ordem dos capitulos, que já estavam no prelo,

para não perder a opportunidade d’estas linhas coordenadas á pressa,

entre as espiraes azuladas de dois _Princezas_, de seis ao vintem.

[27]

Isto sem pimenta não tem graça.

Foi só uma pitadinha...

[28] Este _Marilio dos bosques_ já deu _sorte_ com os _Sinapismos_.

D’estes é que eu queria mais...

Uma pergunta: se Cuvier agora trabalhasse na sua zooclassificação, onde

incluiria o Marilio?

Oh Marilio!—tu respondeste com um peccado ao entregador dos

_Sinapismos_...

Approxima-te.

Vira-te para cá...

Agora para lá

Pôe-te de _banda_...

..................

........... olha! Vae-te embora.

[29] Já publicado.

[30] Cumpre-me declarar, para respeitabilidade das instituições de

segurança publica da nossa terra, que o sr. Sampaio não exercia,

n’aquella epocha, as funcções de Commissario das Policias.

[31] Consta-me que este cão foi depois resgatado pelo sr. dr. Pestana.

Sua ex.ª está aqui e póde dizel-o...

[32] São indigestos estes periodos. Talvez, até, que Vossa Excellencia,

approximando a pituitaria, sinta os vestigios do mau halito, que essa

casquilha matrona, D. Politica, exhalava, quando a auscultei para

conhecer as causas da atonia que a consome.

No entanto, queira Vossa Excellencia lêr. Talvez que, com estes

sinapismos, a creatura melhore e lhe suba a côr ao rosto, indicio de...

saude.

Se Vossa Excellencia tal perceber, pôde haver cura.

Eu (aqui á puridade) duvido.

[33] Vejam-se os acontecimentos politicos de 21 de Outubro e 3 de

Novembro e todos os outros d’esta especie.

[34] No tocante a corpo commercial ou Valença, ou... Manchester.

[35] Especializo estes cavalheiros porque são os mais calorosos n’esta

questão.

[36] Agua vae...

[37] Classificando politicamente estes dois cavalheiros, declaro, para

facilidade das futuras investigações historicas, que me refiro ao

momento actual, e que faço obra pelo que ouço dizer e não pelas suas

consciencias, que são inaccessiveis.

[38] _Portugal contemporaneo_, do sr. Oliveira Martins.

[39] Alludo á infamissima vingança que, ha annos, se perpetrou na

habitação d’um cidadão, alli para os lados da Ponte.

[40] Estava a publicação n’estas alturas, quando em Valença se resolveu a

_Questão da Musica_, nas condições que eu previ.

A _rusga_ foi, porém, tão desenfreada e, sobretudo, d’uma tal

inopportunidade que não merece _sinapismo_: merece ventosa.

[41] Estes F. ou C. são—já se vê—epicenos.

[42] _Stratego_—posto militar, com honras de general. O _Archontado_

era um dos poderes do Estado. Tinha nove membros; o terceiro, que

commandava o exercito, chamava-se _Polemarcho_, mas, além d’este, havia

os polemarchos inferiores, que tinham o posto inferior aos _strategos_.

_Areopago_ era um tribunal civil, que eu aqui compararei—por exemplo—á

nossa Excellentissima Camara.

Intitulava-se o _Senado do Areopago_.

_Eponymo_—era o mais graduado dos _archontes_ e, portanto, o chefe do

partido, digo, do Estado.

[43] _Ostracismo_—era a condemnação ao exilio... equivalente ás actuaes

transferencias.

[44] Aproximadamente 20 de Outubro e 3 de Novembro, pela nossa divisão do

anno.

[45] Estas camisas só eram usadas pelos fanaticos religiosos, porque

arrancavam o coiro e... o cabello.

[46] _Prytamos_—cidadãos poderosos.

[47] Este nome é derivado d’um verbo: _cambronnear_, que teve uma leve

referencia em Waterloo. Vem do sanskrito e conjuga-se: eu cambronneio, tu

cambronneias, etc. Indica uma funcção organica.

[48] Os _thetas_ constituiam a classe mais inferior dos cidadãos

athenienses.

[49] Não pude comprehender no texto se aquelle possessivo _seus_ se

refere á cidade, se a Pericles.

[50] _Eupatridas_—Proprietarios.

[51] Kshatrias:—guerreiros da antiga India.

[52] Sudras:—escravos.

[53] Dmoes:—escravos para o serviço domestico.

[54] Talentos:—moeda grega de valor variavel.

[55] Coisa de tres kilometros...

[56] Recordo aos meus leitores que este Pericles foi o iniciador, por

suggestão, da eschola prudhommica.

[57] Segundo as theorias recentemente apresentadas por philantropicos

e honradissimos Cresus, o dever dinheiro é _coisa_ pouco escorreita de

dignidade. A honradez não gasta da mesma tinta com que se acceita uma

lettra. Um titulo de divida—documento d’uma transacção—é assim como a

_marca a fogo_ que nas ancas do potro indica o nome do creador. O potro

vende-se, recebe-se o dinheiro, mas o creador quando o encontra diz

sempre: _aquelle é dos meus_.

[58] Por decencia vejo-me obrigado a _inglezar_ esta e outras phrases.

Saiba, porém, o leitor que todas ellas, significando as mais abjectas

phantasias de Lord Deboche, foram publicadas nas columnas da _Pall Mall

Gazette_, em quatro numeros de julho de 1885.

[59] Só para bebedeiras não chegam cinco libras diarias a qualquer

d’esses animaes. O duque de Edimburgo, por exemplo, exgotta ao jantar

quatro garrafas de champagne e dois litros de cognac.

[60] Pag. 155.

[61] Direi, de passagem, que isto nem sempre succede. Notam-se, ás vezes,

umas anomalias, uns desvios da força nervosa que partindo do cerebro,

vae actuar n’outros musculos, produzindo manifestações de sentimentos

oppostos aos que nos impressionaram.

Por exemplo:

Quando vamos ao theatro e ouvimos o sr. Sampaio _jeremiando_ o seu papel

n’aquelle plangente e lugubre rhythmo d’uma _licção_ de _quarta-feira de

trevas_ e vemos que elle tenta reproduzir com o rosto, com o gesto, com

os olhos, as amarguras da sua alma atribulada por esta ou por aquella

situação dramatica—nós não choramos; rimos e rimos a valer, com tanto

mais furor, quanto mais afflictiva é a attitude do sr. Balagota.

Outro exemplo:

Quando o sr. Joaquim, depois de ler os _Sinapismos_, solta umas

casquinadas de riso tirante a verdadeiro e lhe ouvimos dizer que sim,

que o Zinão tem muita graça e desde que elle, Zinão, anda na rua, elle,

sr. Joaquim, põe mais uma tranca na porta, a gente—em vez de rebolar

no chão aos tombos com riso provocado por tão espirituosa facecia—fica

muito séria, e até sente o quer que seja que instinctivamente vae

enfiando em cada mão o dedo _mata-parasitas_ entre o _fura-bolos_ e

o _maior-de-todos_, n’aquella posição com que o meu amigo M. Silva

se previne cautelosamente contra os numerosos _amigos_ que no dia da

Cruz—uma vez por anno, felizmente—lhe vão festejar a garrafeira.

Spencer explica isto na sua _Physiologie du rire_:

Sinapismos · 第 16 / 17 段