eu!—faz favor?_—e entrega uma perfumada caixinha, toda alegre e catita,
oiro e setim azul, recheada de amendoas e confeitos.
No fundo espreguiça-se sorrateiramente uma carta.
Rubôr ás faces, noventa pulsações por minuto, leitura tremula, arfar de
seios, um suspiro, dois suspiros.
Lê-se, relê-se e torna-se a relêr a carta.
Trabalha o ferro de frisar com mais cuidado, estuda-se uma prega mais
graciosa para a mantilha, flor ao peito para o que der e vier, e—entra a
_comadre_ na egreja.
Quando abre o livro das orações, já não atina com o _Padre-Nosso_ nem
com a _Ave-Maria_. Com os olhos da imaginação, só vê e lê os caracteres
seguintes:
_Minha senhora._
_Vel-a e amal-a, foi obra d’um momento. Quiz a fagueira sorte escolher-me
para compadre de Vocellencia. Bemdita seja ella que me aproximou de quem,
ha muito tempo, é o enlevo dos meus olhos, a alegria da minha alma, a
ventura do meu coração. Tomo a ousadia de offerecer a Vocellencia as
amendoas «inclusas». Desculpará Vocellencia. Na minha terra fazem-nas
muito bem feitas. Doces d’ovos e amendoas são as especialidades. Se o
Papá e a Mamã gostarem, eu mando vir mais. É bom comer poucas, porque são
muito indigestas e fazem dôres de barriga. Serei correspondido n’este meu
amor? Oh ceos! Quanto anhelo sabel-o! De Vocellencia_
_até á morte_
_V._
* * * * *
Durante as _licções_, n’aquelles intervallos em que o Albino canta o seu
_macarronico_, o Padre Alexandre gargareja o melhor e o mais brunido do
seu latim e os outros padrecas se revezam, previamente annunciados pelo
rapaz sacrista que, de saiote vermelho, vae apagando, um a um, os treze
tocos da girandola—compadre e comadre libram as suas almas pelas naves
d’um mystico arroubo, ebrios de felicidade, de esperanças risonhas, e
dulcificados fartamente com amendoas de Tuy e rebuçados de avenca.
Á noite, na visita ás casas do Senhor, o compadre acompanha a comadre.
Atraz, cochicham o futuro sogro e a futura sogra. As beatas, ao longe,
segredam mais um casamento... Compadre e comadre já se tratam por tu.
Fica combinado o _gargarejo_.
—_Amo-te_—_boas noites_—_até amanhã_.
Domingo de Paschoa.
Baile na Assembléa.
A _comadre_, quando alguem a pede para dançar _de roda_, está sempre
compromettida. Só dança com o _compadre_.
_Compadre_ escolhe os melhores doces para a _comadre_; rodeia de
attenções a Mamã da dita _comadre_; entretem o cavaco com o Papá da dita
_comadre_; é _vis-à-vis_ do Mano da dita _comadre_.
As amigas da _comadre_, quando o _compadre_ está em pé, arranjam-lhe logo
um logar ao pé da _comadre_.
—_Comadrinha vae, compadrinho vem._
No fim da noite, entram já na conversa as roupas de linho, de panno cru,
as caçarolas, as panellas.
Lá ao longe, muito ao longe, sempre em nuvens côr de rosa, a fugitiva
miragem d’um cavalheiro, irreprehensivelmente encasacado, gravata e luvas
brancas,—curvado em graciosa mesura perante o Papá e a Mamã.
Um pedido—um _sim, Papá!_—uma lagrima da Mamã—um _ai!_ e um fanico.
Dois mezes depois, Padre Magalhães dá o nó; e o mesmo raio do sol, que
em Abril nos despertava, penetra indiscretamente na alcova nupcial e
segreda-nos ao ouvido:
_forte lôrpa!_
Annos passados, quando compadre e comadre teem quatro filhas casadoiras,
são elles que reclamam a eleição.
Cada _palmito_ que sai de casa é um anzol.
Para o Velloso—oh Paes de familia!—só a _coca_ ou o botirão.
* * * * *
Gentis senhoras da Coroada!
Por piedade! Acabae com este tributo mais violento e mais horrivel do que
o tributo de sete mancebos e sete donzellas que, outr’ora, Athenas pagava
a Creta.
Por piedade, senhoras!
Arrebataes, annualmente, lá para cima, a melhoria dos mancebos, a nata
da mocidade, a fina essencia da juventude, que depois abandonaes a
essas ruas—obesos, gordurosos, crivados de callos, _paterfamilias_ de
_cache-nez_, lenço tabaqueiro e barretinho d’algodão.
D’aqui a pouco não ha um rapaz solteiro em Valença; e como as
estatisticas demonstram que, para cada mancebo casadoiro ha, entre nós,
vinte damas em disponibilidade, attentae que não é risonho o vosso
futuro, porque está provado á evidencia, que os rapazes de fóra sabem
escapar á magia dos vossos palmitos.
Vêde o Velloso, o Leopoldo, o Gomes da Artilheria, o Prado, o dr. Brandão.
Transijamos, pois, gentis damas:
Nós estamos promptos a enviar annualmente para a Coroada, quarenta
arrobas de amendoas e quarenta dictas de rebuçados dos melhores e dos
mais ricos que tenham o Có-Có, e o Telmo Parada.
Outrosim nos compromettemos ao pagamento d’um tributo annual de tres
mancebos casadoiros, que vos serão entregues no domingo de Ramos, ao meio
dia, em frente das _Alminhas_, com os respectivos bahus de roupa branca:
camisas, ceroilas, piugas, barretinhos de dormir, pannos da barba.
Para o pagamento d’este tributo organizaremos um gremio, como o dos
negociantes, na distribuição da decima.
Os tres desgraçados serão indicados pela sorte. Irão esses para as negras
penas do matrimonio, mas, ao menos, os restantes poderão em todo o anno
andar satisfeitos, alegres, livres de melancholias e de... _palmitos_.
Sou casado tres vezes, senhoras! O Magalhães que o diga...
E tanto ás defunctas consortes, como á companheira actual, quem me
prendeu foi a vossa eleição.
Por isso, quando agora vejo um palmito é o mesmo que vêr o diabo.
Em nome da mocidade, protesto contra a
=eleição das comadres!=
XXIV
Ultimas palavras
Na vida social, uma povoação possue a complexidade do organismo d’um
individuo. Pode estudar-se physiologicamente e psychologicamente.
Tem sentimentos, expansões, dôres, coleras, alegrias; tem orgãos,
musculos, enfermidades e lesões; periodos de vigor, de engrandecimento e
de decadencia.
Athenas foi a alma da civilização hellenica; Sparta teve a musculatura
dos fortes na hegemonia das cidades gregas; Roma cingiu o mundo com os
seus braços de ferro; na gloria dos seus triumphos e das suas conquistas
teve a vertigem da sensualidade e do prazer; libertinou-se, effeminou-se
e apodreceu na enxurrada das sargetas.
Paris ri; e Londres, embrutecida com o _gin_, com as _fresh-girls_ e
com os deboches de Cleveland-Street, offerece o nojento bandulho ao
facalhão de Jack, ou escouceia no _match-box_ do Pelican Club, em que
dois homens se esborracham a sôco, com grande gaudio d’isso que é a
quinta essencia da pelintrice, do egoismo, da ambição, do orgulho, da
_pataqueirice_ réles da viella e que nas altas espheras do _High-life_,
em _Leicester Square_, no _Regent’s Park_ ou no _Covent Garden_ se
intitula pomposamente—um _lord_!
* * * * *
Appliquemos aqui, aquella conhecida theoria de Broca sobre a relação
entre o volume cerebral e a intelligencia.
O volume do cerebro pode, segundo o eminente sabio, indicar maior ou
menor desenvolvimento intellectual.
Ora, o que é o cerebro?
É a parte pensante do organismo.
N’este individuo social—uma povoação—onde o devemos procurar?
Na sua parte illustrada; nos filhos que se distinguem pelas
manifestações da sua actividade mental, e, assim, poderemos dizer que
o numero d’elles está para a consideração e importancia intellectual
do individuo—povoação—como o volume do cerebro está para o
individuo—homem.—Tanto maior, quanto mais illustrada, tanto menor quanto
menos culta.
E admittido isto, desassombradamente podemos affirmar que nenhuma outra
povoação do paiz, com egual numero de habitantes—nas cathedras do
Ensino superior, nas elevadas posições do Exercito, nos altos cargos da
Magistratura, na Classe medica, na Advocacia, no Commercio e frequentando
ainda os cursos superiores—tenha numero egual, que não superior, de
filhos, e tão, que não mais, distinctos.
Mas, honrosa como é esta superioridade tambem ignobil e infamante é a
indolencia a que nos entregamos, com que abandonamos os nossos direitos
politicos, com que ficamos de bocca aberta e mãos nos bolsos, na triste
impassibilidade do fackir, assistindo, impotentes como um eunucho, a
essa activa evolução que impulsa as mais insignificantes povoações,
transformando-as com os benesses das modernas instituições e levando-lhes
as arterias á hematose dos grandes centros civilizados.
O titulo de _burgo podre_, com que realmente este concelho é mencionado
em Lisboa, deve ser para nós mais degradante do que a marca a fogo do
grilheta e do forçado.
Tempo é de nos libertarmos d’essa tristissima condição de barregan, em
eterna dependencia de qualquer tia, velhaca e rufiona que á nossa custa
encha a pança e o _pé de meia_.
Na choldra da prostituição politica do nosso paiz ha circulos que
necessitam de caricias e de namoro; ha circulos fieis, ainda que
rarissimos; ha-os de pernas abertas para quem mais der, e ha-os
_pataqueiros_ destinados a desvirgar os meninos lisboetas, ou a entregar
o corpo ao primeiro pandego, que lá de Bijagóz ou de Paio Pires, se
lembre de passar por elles, fazendo caminho para ir ajudar a embolar os
toiros no curro de S. Bento.
Esta é a nossa triste condição.
* * * * *
Ha seis ou oito annos que n’este _burgo podre_ se manifestaram uns debeis
symptomas de vigorização politica. Regosijei.
Pareceu-me que ainda poderia ver Valença como as outras terras; á mesa
do orçamento, com o seu logar marcado e o seu talher, e não como então
estava: debaixo do banco, apanhando de quando em quando o osso esfolado e
o pontapé do _gajo_ que a levara pela trela do voto.
Vans esperanças! Antes o Passado. Appareceu effectivamente a Politica,
mas esfomeada, esqueletica, larvada, com manhas de gato lambareiro e
caricias de cadella aluada.
Anichou-se por ahi, comendo á _tripa-forra_ e passando o tempo ao sol, de
barriga para o ar e carcela desapertada.
Tem dichotes de histrião e insultos de fadista. É insupportavelmente
porca: onde toca deixa baba; onde poisa deixa excremento. Quando fala não
deita perdigotos, deita escarros; quando escreve não o faz com tinta, mas
com pus.
Se graceja causa nauseas, se chora provoca o pontapé.
Examinada physiologicamente encontramos-lhe deficiencia de orgãos. É
impotente e a impotencia organica reflecte-se na alma, porque não tem
enthusiasmos, nem aspirações, nem... vergonha.
Conjuga só um verbo:—comer; só conhece um pronome:—nós.
Muda de patrão de tres em tres annos. Pouco se importa com isso. Se elle
a trata mal, agacha-se, servil e humilde; se a trata bem, esfarrapa-lhe
uma cannela ou levanta a perna e... molha-o.
* * * * *
Um ataque de epilepsia politica agita actualmente os magnates eleitoraes.
Está no chôco novo deputado...
Indigitam-se dois filhos da terra como candidatos.
A rua de S. João torce o nariz...
Esta rua de S. João representa os mesmos _chimpanzés_ que, em tempos,
rejeitaram o sr. dr. Illidio Ayres para facultativo do Hospital e o sr.
dr. José Vieira para medico da Camara.
Para que V. Ex.ª conheça bem a gente que o rodeia, sr. dr. Pestana,
aconselho-o a que peça pormenores ácerca das discussões que o seu nome
provocou nos _centros_.
_Arrufos, gréves, amuos, etc._
Diz V. Ex.ª que o Zinão é _politico_ e _má-lingua_.
Contra a primeira accusação protesto respeitosamente, e rogo a V. Ex.ª
que faça melhor conceito do meu caracter.
Emquanto á segunda, direi a V. Ex.ª que tem mais a recear da _boa-lingua_
e da _fidelidade_ dos seus _pseudo-partidarios_, do que da critica
zinoica.
Eu defendi sempre a candidatura d’um filho da terra, emquanto que os seus
_amigos_... Informe-se, informe-se V. Ex.ª, porque talvez isso lhe seja
proveitoso.
* * * * *
Os trabalhos eleitoraes teem peripecias engraçadissimas que davam para
novo volume de _Sinapismos_.
Abstenho-me, porém, de explorar esse inexgotavel filão de ridiculos,
existente na massa cerebral—grude de sapateiro e pura secreção de
rins—dos nossos politiqueiros.
Tenho na minha frente dois filhos de Valença. Não sei, nem quero saber
qual d’elles tem mais probabilidades de vencer.
Oxalá que todas as difficuldades desappareçam; que todas as indisposições
terminem, que todos os esforços se reunam e que esta terra possa,
finalmente, ter em S. Bento um representante util e proveitoso, como deve
ser qualquer dos seus filhos.
Seja qual fôr o vencedor e a opinião politica que perfilhe, eu saúdo
n’elle o valenciano que recebe o mandato dos seus patricios, e oxalá
que a eleição de 30 de março de 1890 seja o inicio d’uma politica
digna, purificada de trampolinices, de arruaças, de _borralhadas da
Santa_,—independente de histriões e de tartufos, que até á data teem
manchado a consideração d’esta terra com o infamissimo labéo de
=burgo podre!=
Eis o que para Valença deseja o _má-lingua_ do
_Zinão_.
NOTAS
[1] Este artigo foi publicado, quando a Junta de Saude inventou o
Microbio de 1889.
[2] Este _digo_ não é consequencia d’uma simples abstracção do meu
espirito. Originou-se no tratamento, ha dias applicado no posto de
desinfecção do Caes, onde os viandantes eram considerados parreiras
phyloxeradas e polvilhados com enxofre... a folle de sopro.
É economico e não faz bem nem mal.
Antes pelo contrario...
[3] Isto é francez e do mais decente.
[4] Com esta classificação é que foi ás nuvens o sr. dr. Pacheco. Nunca o
vi tão zangado, a não ser quando aquelle barqueiro de Vigo lhe respondeu
á lettra...
[5] Salvo seja.
[6] Para partos era o melhor clinico que cá havia. As senhoras viam-lhe a
barriga e... suppunham logo simultaneidade de soffrimento.
[7] Justininho.—Desculpa se foi tolice. Faz como o sr. Illydio
Dias:—declaração nos jornaes. Eu cá não me zango.
[8] A metrificação é livre, como a setta no ar.
N’estas coisas de versos, sigo a opinião do Capitão-mór da _Morgadinha_:
o papel é para se escrever e não para se estragar com versos de quatro
syllabas.
[9] O que arde cura, diz o _Pimpão_ e confirma a sagrada Escriptura.
[10] Podemos fallar á vontade, que isto é grego para o sr. Joaquim...
[11] Do natural.
[12] Copia do natural. Recommendo aos leitores que tomem um bocado d’ar;
especialmente aos que soffrem d’asthma.
[13] Ortographia sonica.
[14] Historico.
[15] Um bocado de latim, no meio d’estas coisas, faz sempre bom effeito,
porque dá á gente um tom de sabio. Se foi asneira Vossa Excellencia
desculpará... Do que me ficou do Conego Vaz, foi o melhor que pude
arranjar. Vossa Excellencia tem cara de quem sabe muito latim.
[16] Historico. Anno de Nosso Senhor Jesus Christo 1886.
[17] Para vergonha nossa, direi que tão bello regulamento é o que ainda
vigora n’esta terra. Em leis civilisadas, ou Valença, ou as terras do
Kalakana...
[18] Esmiuço, aqui, materia conhecida, para boa comprehensão d’alguns,
menos versados em Sciencias naturaes. Em questões de tanta magnitude,
toda a clareza é pouca.
[19] Nem tudo se póde dizer claramente. Ha sempre quem dê mau sentido ás
coisas...
[20] A camara, n’essa occasião, era composta dos srs. Zagallo, Vieira,
José Seixas, J. Lopes, Albino, J. Narciso e do orador.
[21] Peço attenção para a redacção das propostas.
[22] Ao verificar a impressão d’estas propostas vejo, com desgosto, que
os typographos espalharam por ahi, sem nexo nem intenção, bastantes
pontos, compromettedores para a candidez e honestidade de costumes
d’alguns Cavalheiros. Ahi fica a declaração para os salvar da intenção
criminosa.
São coisas que succedem...
[23] Sinto que as acanhadas dimensões d’este volume me não permitiam
incluir um artigo, que esbocei, ácerca da origem do Patriarcha. Tem por
titulo: _Aventuras do Patriarcha dos Gandricos e do seu amigo Gargalinho,
em Paris da França_. É um estudo realista. Faço, porém, obra para dois
tostões...
[24] Não vá este artigo fundamentar suspeitas, ácerca das crenças
do auctor. Zinão respeita a Religião e perfilha o que ella tem de
sensato; mas só a admitte no Templo—depois de varrido de hypocritas, de
traficantes, de escorropicha-galhetas e de icha-corvos—com um Evangelho e
um Sacerdocio: a Caridade.
[25] Depois do que expuz, acerca do _elogio-mutuo_, n’estas paginas, onde
manuseio ridiculos, poderá alguem attribuir-me intenções provocadoras da
tal _convenção_, com a referencia que ahi faço a um homem, que, entre nós
destramente maneja a penna.
Declaro que, n’estas e n’outras referencias, digo o que penso e o que
sinto; sem pretenções a adulador, independente de preconceitos, de
considerações pessoaes e das imposições dogmaticas com que, por ahi, se
celebra e incensa muita _coisa_ vulgar e ôca.
Não preparo o exito dos _Sinapismos_ com a offerta de exemplares ás
redacções, ou aos amigos, que as frequentam, com aquelles galanteadores
e irresistiveis offerecimentos de: _ao distinctissimo escriptor_, _ao
precioso estylista_, _etc._, com que se arma ao reclamo,—porque d’este
não necessito.
Não viso á honra de ser considerado entre os litteratos, e por isso
occulto o meu nome; não escrevo por especulação, e por isso offereço aos
pobres qualquer producto do meu trabalho.
Dos defeitos da obra, que são muitos, salvo-me com este desinteresse e
com esta independencia de opinião.
Não me dotou Deus com _feitio_ para incensar vulgaridades pretenciosas,
nem tambem com orgulho e vaidade para repudiar, ou amesquinhar meritos.
Entre a Critica e a minha individualidade está essa mascara:—Zinão. Se
aquella me fôr hostil, respeital-a-hei no que tiver de sensato; se me fôr
favoravel, francamente, não lh’o agradecerei, porque não peço elogios.
Que este livro proporcione a quem o ler alguns minutos de distracção; que
essa distracção valha _uns tostões_ e que d’esses tostões possa apartar
_uns cobres_, que mitiguem alguma dôr—eis o que ambiciono d’este ignorado
laboratorio, onde preparo os _Sinapismos_.
[26] Não posso ficar calado perante um tão extraordinario acontecimento,
como esse que o sr. Joaquim debate na imprensa, com as suas sessenta
epistolas. Altero, pois, a ordem dos capitulos, que já estavam no prelo,
para não perder a opportunidade d’estas linhas coordenadas á pressa,
entre as espiraes azuladas de dois _Princezas_, de seis ao vintem.
[27]
Isto sem pimenta não tem graça.
Foi só uma pitadinha...
[28] Este _Marilio dos bosques_ já deu _sorte_ com os _Sinapismos_.
D’estes é que eu queria mais...
Uma pergunta: se Cuvier agora trabalhasse na sua zooclassificação, onde
incluiria o Marilio?
Oh Marilio!—tu respondeste com um peccado ao entregador dos
_Sinapismos_...
Approxima-te.
Vira-te para cá...
Agora para lá
Pôe-te de _banda_...
..................
........... olha! Vae-te embora.
[29] Já publicado.
[30] Cumpre-me declarar, para respeitabilidade das instituições de
segurança publica da nossa terra, que o sr. Sampaio não exercia,
n’aquella epocha, as funcções de Commissario das Policias.
[31] Consta-me que este cão foi depois resgatado pelo sr. dr. Pestana.
Sua ex.ª está aqui e póde dizel-o...
[32] São indigestos estes periodos. Talvez, até, que Vossa Excellencia,
approximando a pituitaria, sinta os vestigios do mau halito, que essa
casquilha matrona, D. Politica, exhalava, quando a auscultei para
conhecer as causas da atonia que a consome.
No entanto, queira Vossa Excellencia lêr. Talvez que, com estes
sinapismos, a creatura melhore e lhe suba a côr ao rosto, indicio de...
saude.
Se Vossa Excellencia tal perceber, pôde haver cura.
Eu (aqui á puridade) duvido.
[33] Vejam-se os acontecimentos politicos de 21 de Outubro e 3 de
Novembro e todos os outros d’esta especie.
[34] No tocante a corpo commercial ou Valença, ou... Manchester.
[35] Especializo estes cavalheiros porque são os mais calorosos n’esta
questão.
[36] Agua vae...
[37] Classificando politicamente estes dois cavalheiros, declaro, para
facilidade das futuras investigações historicas, que me refiro ao
momento actual, e que faço obra pelo que ouço dizer e não pelas suas
consciencias, que são inaccessiveis.
[38] _Portugal contemporaneo_, do sr. Oliveira Martins.
[39] Alludo á infamissima vingança que, ha annos, se perpetrou na
habitação d’um cidadão, alli para os lados da Ponte.
[40] Estava a publicação n’estas alturas, quando em Valença se resolveu a
_Questão da Musica_, nas condições que eu previ.
A _rusga_ foi, porém, tão desenfreada e, sobretudo, d’uma tal
inopportunidade que não merece _sinapismo_: merece ventosa.
[41] Estes F. ou C. são—já se vê—epicenos.
[42] _Stratego_—posto militar, com honras de general. O _Archontado_
era um dos poderes do Estado. Tinha nove membros; o terceiro, que
commandava o exercito, chamava-se _Polemarcho_, mas, além d’este, havia
os polemarchos inferiores, que tinham o posto inferior aos _strategos_.
_Areopago_ era um tribunal civil, que eu aqui compararei—por exemplo—á
nossa Excellentissima Camara.
Intitulava-se o _Senado do Areopago_.
_Eponymo_—era o mais graduado dos _archontes_ e, portanto, o chefe do
partido, digo, do Estado.
[43] _Ostracismo_—era a condemnação ao exilio... equivalente ás actuaes
transferencias.
[44] Aproximadamente 20 de Outubro e 3 de Novembro, pela nossa divisão do
anno.
[45] Estas camisas só eram usadas pelos fanaticos religiosos, porque
arrancavam o coiro e... o cabello.
[46] _Prytamos_—cidadãos poderosos.
[47] Este nome é derivado d’um verbo: _cambronnear_, que teve uma leve
referencia em Waterloo. Vem do sanskrito e conjuga-se: eu cambronneio, tu
cambronneias, etc. Indica uma funcção organica.
[48] Os _thetas_ constituiam a classe mais inferior dos cidadãos
athenienses.
[49] Não pude comprehender no texto se aquelle possessivo _seus_ se
refere á cidade, se a Pericles.
[50] _Eupatridas_—Proprietarios.
[51] Kshatrias:—guerreiros da antiga India.
[52] Sudras:—escravos.
[53] Dmoes:—escravos para o serviço domestico.
[54] Talentos:—moeda grega de valor variavel.
[55] Coisa de tres kilometros...
[56] Recordo aos meus leitores que este Pericles foi o iniciador, por
suggestão, da eschola prudhommica.
[57] Segundo as theorias recentemente apresentadas por philantropicos
e honradissimos Cresus, o dever dinheiro é _coisa_ pouco escorreita de
dignidade. A honradez não gasta da mesma tinta com que se acceita uma
lettra. Um titulo de divida—documento d’uma transacção—é assim como a
_marca a fogo_ que nas ancas do potro indica o nome do creador. O potro
vende-se, recebe-se o dinheiro, mas o creador quando o encontra diz
sempre: _aquelle é dos meus_.
[58] Por decencia vejo-me obrigado a _inglezar_ esta e outras phrases.
Saiba, porém, o leitor que todas ellas, significando as mais abjectas
phantasias de Lord Deboche, foram publicadas nas columnas da _Pall Mall
Gazette_, em quatro numeros de julho de 1885.
[59] Só para bebedeiras não chegam cinco libras diarias a qualquer
d’esses animaes. O duque de Edimburgo, por exemplo, exgotta ao jantar
quatro garrafas de champagne e dois litros de cognac.
[60] Pag. 155.
[61] Direi, de passagem, que isto nem sempre succede. Notam-se, ás vezes,
umas anomalias, uns desvios da força nervosa que partindo do cerebro,
vae actuar n’outros musculos, produzindo manifestações de sentimentos
oppostos aos que nos impressionaram.
Por exemplo:
Quando vamos ao theatro e ouvimos o sr. Sampaio _jeremiando_ o seu papel
n’aquelle plangente e lugubre rhythmo d’uma _licção_ de _quarta-feira de
trevas_ e vemos que elle tenta reproduzir com o rosto, com o gesto, com
os olhos, as amarguras da sua alma atribulada por esta ou por aquella
situação dramatica—nós não choramos; rimos e rimos a valer, com tanto
mais furor, quanto mais afflictiva é a attitude do sr. Balagota.
Outro exemplo:
Quando o sr. Joaquim, depois de ler os _Sinapismos_, solta umas
casquinadas de riso tirante a verdadeiro e lhe ouvimos dizer que sim,
que o Zinão tem muita graça e desde que elle, Zinão, anda na rua, elle,
sr. Joaquim, põe mais uma tranca na porta, a gente—em vez de rebolar
no chão aos tombos com riso provocado por tão espirituosa facecia—fica
muito séria, e até sente o quer que seja que instinctivamente vae
enfiando em cada mão o dedo _mata-parasitas_ entre o _fura-bolos_ e
o _maior-de-todos_, n’aquella posição com que o meu amigo M. Silva
se previne cautelosamente contra os numerosos _amigos_ que no dia da
Cruz—uma vez por anno, felizmente—lhe vão festejar a garrafeira.
Spencer explica isto na sua _Physiologie du rire_: