Quem rouba é ladrão; e para nivelar a condição criminosa e as

responsabilidades do _barbaças_ e do _marau transferidor_, egualmente

perigosos na sociedade em que vivemos, apresento o seguinte additamento

ao Codigo penal:

Artigo tantos:

=Todo o homem de bem tem a liberdade de correr a pontapé pelas ruas de

Valença, o sevandija que, directa ou indirectamente, influa em qualquer

transferencia.=

§ unico:

=Fica revogada toda a legislação em contrario.=

10-2-90.

_Zinão_.

XX

A questão ingleza

(NOTAS SOLTAS)

Alem-mar scintilla na escuridão a iris do abutre.

O leopardo rugiu, saltou, e cravou as garras ensanguentadas no velho

Portugal.

Este enorme gigante que teve no encephalo, como cellulas, os craneos

de Camões, de Gama e de Cabral; que teve por apophyses as columnas

de Hercules, os rochedos do Bojador, do Boa-Esperança, do Razalgate

e do Comorim; por articulações Angola, Moçambique, Mascate, Ormuz,

Diu, Calicut, Malacca; por veias os filões preciosos de Sofala, de

Minas e Cyaté, do Pegu e de Narsinga; por arterias o Tejo e o Zaire, o

Quanza e o Limpopo, o Zambeze e o Mandovi, o Ganges e o Amazonas; por

cabellos os cedros seculares do Novo Mundo; por musculos os braços de

mil heroes; por thorax a amplidão de todos os céos; por limite visual

a linha de todos os horisontes; por fronteira o circulo de todos os

quadrantes; por dominio a vastidão de todos os mares; por fanal a luz

de todas as constellações—esse colosso que teve por servos o Çamorim e

os rajahs da India, por thesoiro os abysmos aquaticos de Borneo e de

Ceylão; por sonhos os mythos do Preste-Joham; por pesadelos as tragedias

de Alcacer-Kibir e de Tanger; e que pela rigidez do seu braço, pela

heroicidade do seu valor, conseguiu a crystallização de todas as chimeras

e a realidade de todas as phantasias—eil-o ahi, prostrado, corroido

pelo fanatismo religioso que ha quatro seculos lhe ulcerou os membros,

enfraquecido pelos caprichos de monarchas perdularios, aviltado pela

phthiriase de cortezãos servis, cancerado pela ambição insaciavel dos

aulicos traiçoeiros, decrepito, pobre, agonisante... mas não morto!

Não! Não está morta a Patria! Ha n’ella quatro milhões de cellulas; e se

muitas são inertes ou inuteis, covardes ou egoistas, existe nas restantes

força viva sufficiente para transmittir á musculatura do heroe decrepito

a energia das grandes crises e o arrojo dos antigos feitos.

* * * * *

N’essa cloaca—a côrte ingleza—escoante de todas as sargetas, deposito de

todas as fezes, sumidoiro de todas as immundicies que podem existir na

alma humana, as ambições e a perfidia actuaram como acidos d’uma pilha

sobre o metal—oiro—dos nossos terrenos da Mashona.

Como reophoro transmissor d’essa electricidade cupida, partiu de

Londres—polo negativo—o _ultimatum_ de Salisbury e tocou no coração da

Patria.

Immediatamente, outra electricidade se desenvolveu com os elementos

positivos da Justiça e do Direito n’essa enorme pilha—a alma

portugueza—que já actuou em todo o Universo com a intensidade das mais

arrojadas emprezas e com a força dos mais generosos heroismos.

E então, ao contacto d’esse novo fluido, de que n’um bello impulso

de ardente enthusiasmo a Academia foi conductor, todos os membros do

decrepito colosso se agitaram convulsivamente. Ergueu-se o heroe, d’um

arranco, e magestoso de altivez, fremente de indignação—d’ahi, do

promontorio de Sagres, d’onde avassallára o Mundo, arremessou para lá da

Mancha o escarro do desprezo, unico desforço que a dignidade permitte ás

affrontas d’um villão.

Cartel de desafio não se manda a representantes de _lords_. Bright era

_quaker_; Crawfurd, provavelmente, é castrado; condições diversas, mas

eguaes na intenção—livrar decentemente as regiões trazeiras da bota d’um

portuguez.

* * * * *

A excitação da colera e a allucinação do perigo teem por vezes

prejudicado a imponencia da nossa attitude perante essa malta de

esbodegados borrachões, paus-de-virar tripas encasacados, feitos de

esperma de lupanar e de muco leucorrheico, que constituem na sua abjecta

individualidade de _lords_ a canalha servil da côrte ingleza.

_Morra a Inglaterra!_ bradamos.

Não! Não se levantam gritos de exterminio contra uma nação inteira. Entre

quarenta milhões de habitantes ha, tambem, opprimidos e oppressores.

A podridão e a villania condensam-se nas altas espheras do _high-life_,

nos palacios da City, nos corredores de Windsor Castle, no _royal box_ de

Covent Garden, no Pelican Club, no Devonshire Club, no Turf-Club, onde

impera, infrene, El-Rei Deboche.

Cá em baixo, labuta e moireja um povo trabalhador e geme um mundo de

parias. Nos bairros immundos de Londres, no West-End, no White-Chapel,

dormem ao ralento, esfarrapados e nús, centenares de velhos e de creanças.

Agonizando pelas esquinas e escabujando nos monturos, morrem annualmente,

=de fome=, tres a quatro mil pessoas.

Das camadas que trabalham sahiram Shakspeare, Milton, Jenner, Newton,

Davy, Graham, Bacon, Locke, Hume, Priestley, Adam Smith, Stephenson,

Wollaston, Boyle, Shaftesbury, Harvey, Stuart Mill, Spencer.

Esses homens alguma coisa fizeram em prol da humanidade e da civilização,

e não é justo, portanto, que á sua memoria e ao seu nome lancemos o

escarro do insulto e o estigma da maldicção.

_Odio aos lords!_ deve ser o nosso grito, porque são elles, e só elles,

os nossos espoliadores.

Odio a essa aristocracia abandalhada que estrangula a Irlanda—mancha

vergonhosa da civilização europea e que os magarefes da City por vezes

transformam em sangrento açougue.

Odio a esses lacaios de libré que nas sessões da Lords’ House vemos

erectos, empertigados, orgulhosos, e á noite se curvam sobre os tapetes

do _brothel_—bestiaes, apopleticos, rubros, babados, _falling on one’s

jaws_[58] entre saias almiscaradas e amarellas com o liquido da menorrhéa.

N’esse asqueroso quadro de infamias que em 85 a _Pall Mall Gazette_

desvendou á imprensa europea ha, como actores, _lords_, só _lords_—os

mesmos canalhas de Cleveland-Street que, ha mezes, uns áltos

_personagens_ da côrte protegiam, suffocando a peso de oiro a publicidade

das suas novas torpezas. São elles e só elles que fixaram o preço de 15

a 20 libras para as _fresh-girls_—_virgo intacta_—de 13 a 14 annos, que

hoje são as 50:000 prostitutas—_black army_ dos _trottoirs_ londrinos.

São elles que para a lucta contra essas desgraçadas creanças, attrahidas

infamemente aos subterraneos de West-End, inventaram a _black-draught_ do

narcotico.

São elles que para obterem o oiro necessario ás phantasias d’uma

sensualidade bestial, constituiram a _Slaughter-House_ contra os

desgraçados filhos da Irlanda; que reunidos em _Royal Companies_

ordenaram essas medonhas carnificinas de Pendjab e dos cipayos; e que

agora, trocando em casa de Salisbury as fardas bordadas pela jaqueta de

_pick-pocket_, _chypram_ do mappa africano o oiro da Mashona.

Esses asquerosos Tartufos, occultando cynicamente nas casacas de

_congressistas_ philanthropicos e humanitarios a sua cupidez e insaciavel

ambição, propozeram, ha tempos, a Portugal e ao sultão de Zanzibar um

bloqueio na costa oriental, de Inhambane a Pembe, que impedisse—diziam—a

importação de armas aos arabes do interior, eternos traficantes de carne

humana.

O nosso governo accedeu; o bloqueio estabeleceu-se; e poucos dias

depois, o governador do Cabo enviava occultamente a Lobengula, feroz

chefe dos Matabelles, com quem os arabes se entendem, 1:000 espingardas

Martini-Henry com 300:000 cartuchos!

Odio, pois, aos _lords_!

Organize-se contra elles uma nova cruzada de exterminio, e que todo o

portuguez tenha o direito de os correr a tiro, como a animal feroz,

quando no solo honrado da Patria poisarem as suas enormes patas de tres

toesas.

São elles e só elles que nos roubam. Ahi vae a _historia do caso_

Chire-Nyassa.

Lord Fife, duque do dito Fife, é genro de Sua Alteza Real o Principe

de Walles; casou com a princeza Luiza, uma neta da _graciosa_ rainha e

imperatriz Victoria.

Lord Fife é um pobresinho de Christo; das suas propriedades de Scotland

e de outros bens de fortuna tem um rendimento aproximado a dois contos

por dia, e como a sua _Ex.ᵐᵃ Consorte_ é de egual pobreza, com mais umas

achegas, dotação, etc., nas telhas d’aquelle desgraçado casal caem umas

quarenta libras por cada hora de cada dia.

Mas succede que lá, como cá, estas coisas de nobreza custam muito

dinheiro, porque é preciso sustentar a respeitabilidade da posição

official, como diz o Albino, quando _entra nas idéas e no coração_ da

gente para dispôr os _petardos_ das suas transcendentes, nebulosas e

philosophicas reflexões sociaes.

Como o povo inglez embicou, ha tempos, com o augmento da dotação da

_Royal Family_, lord Fife, para ganhar o seu pataco, fez-se agiota,

socio commandita da firma commercial _Samuel Scott and C.º_ e director

da _British South Africa Company_, a quem uma _Royal Charter_ concedeu,

ultimamente, 400:000 milhas de terreno africano com aquella liberalidade

conhecida: _do pão do nosso compadre grossa fatia ao afilhado_.

Mas as libertinagens de West-End, do Cleveland-Street, os serviços dos

rapazinhos do telegrapho, as orgias de _champagne_, os _boat-matches_ do

Naval Club, absorvem todos os rendimentos de lord Fife e segundo consta,

ha poucos mezes, as finanças de His Lordship estavam por assim dizer:

_tem-te, não caias_[59].

A concessão feita a Lord Fife, a Lord Abercorn, a Lord Gifford (cá estão

os _lords_), organizadores da _African Company_, era tão importante que

em Londres, o _Times_ e o _Standard_, fazendo reclamo, annunciavam-na

como: _Empreza colossal_. Todavia, as acções conservavam-se na _baixa_

e Lord Fife, nominalmente um dos maiores accionistas, não arranjava com

aquelle negocio para pagar um _little boy_.

Surgiu então uma idéa salvadora. Os nossos terrenos na Mashona eram,

ha muito tempo, indicados como preciosos para explorações auriferas.

Salisbury levou _rasca na assadura_; contractou-se o patife Johnston,

compraram-se por baixo preço todas as acções da _South Company_ e no

dia seguinte rebentou o _ultimatum_. Em vinte e quatro horas, cada

acção obteve um premio de setenta libras. Cinco mil acções—trezentas e

cincoenta mil libras.

_God save the Queen!_ e vamos ás _fresh-girls_!

Odio pois aos lords! E como em Valença as manifestações patrioticas

ficaram no _projecto_ d’um telegramma a Serpa Pinto, porque se repetiu,

talvez, aquelle caso da subscripção para o _bucephalo_[60], eu proponho o

seguinte:

Que se mande a Lisboa uma commissão para escolher e contractar

nas viellas da Baixa duas duzias de _ladies_ matrafonas, das mais

abandalhadas e nojentas.

A mesma commissão contractará, tambem, dez ou doze grumetes da marinha

real ingleza. Esses grumetes serão vestidos, da cinta para cima, com o

uniforme dos boletineiros telegraphicos; da cinta para baixo, uma parra.

Matrafonas e grumetes, com seis barris de _cachaça_ de 90°, serão

envolvidos por uma forte rede de arame, á qual se atará um solido cabo de

algumas milhas.

A gente vae depois alli, a Calais, põe um pé em Douvres e atira com a

_isca_ para o Tamisa.

Fica um de nós a ter conta no cabo. Póde ser—por exemplo—o Fernando

que é o mais entendido em coisas de pesca, como o prova annualmente na

Rapozeira com os seus _botirões_. O Braga tambem póde servir, porque tem

habilidade para descobrir peixes.

O Fernando, pois, senta-se em qualquer rochedo, fuma o seu cigarro,

espalha as tristezas com o _Noticioso_, ou com as _latinhas_ do Cruz,

e quando sentir que a corda estica, signal de que o peixe _pica_, puxa

vagarosamente para terra.

A meio cabo, levanta-se e vem descendo pela costa da Mancha: Dieppe,

Havre, Cherbourg; Brest, S. Nazaire, Bordeaux; contorna o Golpho,

Bayonne, Santander; dobra o Ortegal, Corunha, Vigo, Guardia; entra no

Minho e vem subindo pela margem direita até ao _Pau-do-fio_.

A gente põe-se cá de cima, das muralhas, e recebe o cabo. Chamam-se os

paysanducos e toca a puxar.

Fóra da agua a _isca_, veremos logo, agarrados a ella, todos os _lords_

da _City_: Lord Fife, Lord Foife, Lord Fufe, Lord Craft, Lord Creft, etc.

O _lord_ é animal amphibio, organização de batrachio; resiste bem debaixo

d’agua, como se sabe.

Paysanducos continuam a puxar e vae tudo para o largo de S. João.

Os _lords_ devem apparecer esbodegados, cambaleantes, tropegos.

Vem o _Parádas_ com o _bolo municipal_ e divide-o pelos borrachões.

Duas horas depois, o Gamellas traz a carroça do lixo, carrega, e despeja

na _Sexta_.

Extincta, assim, a raça vil, a _City_ fica deserta; e como a Hygiene

recommenda a collocação das fossas longe das habitações, faremos do

_fashionable_ bairro uma sentina para uso diario.

Ao norte: Para damas.

Ao sul: Para homens.

Para fazer a limpeza e fornecer papeis, ficarão:

Mr. Jacob Bright

e

Mr. Oswald Crawfurd.

2-3-90.

XXI

A manifestação dos artistas

Em 28 de janeiro, a Direcção da Assembléa Recreativa promoveu uma

manifestação patriotica, préviamente annunciada nos jornaes da terra com

a minuciosidade espaventosa d’um programma de _S. Telmo_ ou _da Agonia_.

Não é meu intento censurar essa manifestação; mas, pelo simples facto de

ella ter sido promovida por um grupo de artistas e de homens do trabalho

não devo excluil-a do campo critico, onde com estes artigos analyso os

factos mais importantes na chronica valenciana.

A meu vêr, essa manifestação teve uma origem que a absolve plenamente

d’uns pequenos ridiculos que a amesquinharam. Originou-a um impulso de

sincero patriotismo, e basta isso para escudar os promotores d’ella

contra a rudeza da phrase com que verberei a _fantochada_ de 14.

Se essa manifestação offerece alguns lados censuraveis, se teve

peripecias irrisorias, se não me inspira hoje phrases de caloroso

applauso e de sincera adhesão, os seus promotores devem-no,

exclusivamente, ás impressões que nos seus espiritos deixou a grande

_rusga_ de 14. Aproveitaram parte do programma: musica, cortejo, vivas

arruaceiros, procissões _intra_ e _extra_-muros, etc., abandonando

deploravelmente os meios que a Razão aconselha para, em occasiões

identicas, se dar a qualquer manifestação um caracter significativo de

energia, de sensatez e—sobretudo—de utilidade.

Não me rio perante as bandeiras que n’esse cortejo distinguiram a Arte,

do Commercio, como estulta e imbecilmente o fizeram alguns dos _illustres

patriotas_, comparsas na ignobil farça dos abbades. Essas bandeiras

significam o trabalho honrado, o homem que labuta e moireja dia e noite

no sustento da familia, e que nunca serviu de lacaio a qualquer magnate

eleitoral para, á custa do Estado, coçar por ahi, nas esquinas, os

seus setenta kilos de ociosidade; significam o artista que contribue

efficazmente para a riqueza da nação; o commerciante que concorre com

uma boa parte dos seus interesses para as despezas das nossas mais

uteis instituições e não o eunucho indifferente a todos os impulsos da

Civilização e que, arrastando uma existencia ignobil, como a da lapa

eternamente presa ao rochedo, na valla commum dos inuteis desapparece,

sem ter conhecido outra energia e outras sensações além das que obteve,

comendo, bebendo e dormindo.

Passe, pois, o cortejo, porque perante elle, eu, descubrindo-me,

exclamarei tambem:

=Viva a patria!=

* * * * *

A Musica da _Santa_ veiu outra vez espancar os ares com as notas festivas

dos hymnos, bufadas para os céos da Patria com a furia d’uma orchestra de

Cafres.

É crença arraigada no espirito do povo que não póde haver solemnidade sem

gaiteiro.

Era preciso, disseram-me, estimular, avivar o espirito da nacionalidade.

Este argumento defensor dos _paus-tesos_ recorda-me as funcções luctuosas

das antigas carpideiras, nas casas minhotas.

Morria o fidalgo.

Expunha-se o cadaver na sala nobre.

As mulheres e as creanças acocoravam-se sobre os tapetes.

Em volta do caixão perfilavam-se, tristes, sombrias e sinistras, seis

mulheres recrutadas no auditorio dos Missionarios, entre as mais

hystericas e lacrimosas, quando algum dos energumenos descrevia os

horrores do caldeirão de Pero Botelho, o rechinar das carnes e os

forcados rubros de trezentos milheiros de diabos que pinchavam sobre as

cabeças chamuscadas dos condemnados.

Vinham os amigos da familia apresentar as suas condolencias.

As carpideiras irrompiam n’um chorar convulso, com todos os sons da gamma

afflictiva, com todas as notas ascendentes e descendentes d’uma suprema

dôr: suspiros, gemidos, gritos, berros—berros, gritos, gemidos, suspiros.

Os sentimentos quando se manifestam com violencia exercem uma forte acção

de communicabilidade a que nem todos são refractarios. Vêmos lagrimas

nos olhos d’uma viuva, ouvimos o casquinar de sonoras gargalhadas e

o cerebro, recebendo as impressões d’essas lagrimas e d’esses risos,

reproduz em nossa face os sentimentos que os motivaram: rimos quando os

outros riem e choramos quando os outros choram[61].

Assim, na scena das carpideiras, ellas, a familia, as visitas, os

creados, disputavam primazia em intensidade de sentimentos.

Terminada a cerimonia, os amigos compunham no rosto os traços d’uma

grande dôr; distribuiam pela familia arrochados abraços e violentos

apertos de mão, exprimindo entre soluços os desejos de se tornarem

uteis: _se fôr preciso qualquer coisa—estamos ás ordens—mandar com

franqueza—adeus—é ordem do mundo—resignação—adeus..._

Fechada a porta, fechavam-se tambem, com ella, as valvulas das glandulas

lacrimaes; e carpideiras e doridos corriam á vasta cozinha, onde

pantagruelicamente atafulhavam o bandulho com grossas postas de bacalhau

cozido, abundantemente regadas por successivos cangirões de bom e

espumante verdasco.

Batiam, de novo, á porta; tudo voltava á sala.

O morto lá estava; amarello, hirto, de mãos ceraceas cruzadas sobre o

peito, muito esticado dentro da sua _roupa preta_ perolada de _agua

benta_, exhalando fragrancias de _vinagre aromatico_, de nariz para o

ar, onde as moscas esgaravatavam com as patitas, na doida e frenetica

sensualidade das cocegas que ellas tanto appetecem, e que o finado, dias

antes, tão pertinazmente lhes recusára.

Então, a sensibilidade das carpideiras explodia pelo canal digestivo em

sonoros arrotos.

E n’essa sessão solemne que constituiu a segunda parte do programma—uma

verdadeira visita de pezames pela frieza da sala, pelo tremulo discursar

dos primeiros oradores, pela hesitação dos _mestres de cerimonia_ e pela

presença da bandeira nacional que significava os restos mortaes dos

nossos brios e das nossas glorias, tambem se ouviu—permitti que o diga,

honrados artistas—um rasoavel arroto:—aquella polka final.

* * * * *

Durante o trajecto do cortejo, a _Musica_ tocou, por vezes, hymnos

varios. Excluistes o da Restauração, que só os eunuchos da Rotina hoje

podem admittir nas suas manifestações simontadas. Devieis dispensar

tambem os outros: o da Carta e o do Rei.

O primeiro lembra a libertação da tyrannia, a emancipação dos direitos

do cidadão, a queda do absolutismo, o inicio d’uma nova era de Progresso

intellectual que devia esmigalhar as algemas de instituições odiosas e

impulsionar-nos na bemdita estrada da Civilização, livres das trevas e

dos espinhos que amarguraram os dias dos nossos antepassados.

Recorda, pois, um facto—a outorga da Carta—que trouxe jubilos, alegrias;

e não é em horas de tristeza e de desalento que n’elle devemos procurar

lenitivo.

O segundo solemnisou a coroação d’um monarcha—uma festa nacional em que

houve bailes, recepções, salvas reaes, paradas, espectaculos de gala.

Pelo anterior argumento devia ser excluido.

O _ultimatum_ inglez é, apenas, a primeira bala do assedio que essa côrte

de debochados planeou contra o nosso dominio d’alem-mar.

A espoliação de Bolama que elles tentaram em 38; a de Goa, Damão e Diu em

39; a das ilhas de Lourenço Marques em 62; a redacção da _Royal Charter_

que ultimamente concedeu a Lord Fife os terrenos a oeste de Moçambique;

a necessidade que elles teem de possuir, na costa africana oriental, um

bom porto que dê expansão ao desenvolvimento das colonias estabelecidas

no interior á sombra de perfidos protectorados; as recentes ameaças sobre

as ilhas da Madeira e sobre Lourenço Marques—revelam claramente o plano

da usurpação violenta de que mais tarde ou mais cedo, com pretexto ou sem

elle, Portugal será victima.

Os nossos terrenos africanos, se pouco teem produzido até hoje pelo

abandono a que os condemnamos, podem ser no futuro elemento valiosissimo

de riqueza e de prosperidade; e na tristissima situação em que as nossas

finanças se encontram, com o enorme desequilibrio que annualmente se

denuncia entre a receita e a despeza, quando os encargos da divida

absorvem, já, metade dos rendimentos, importantissimo é o problema

colonial, porque a solução d’elle póde evitar funestissimas perturbações,

póde evitar a ruina da Nação, e mais do que isso—a perda da sua

independencia!

E dizei-me agora, honrados artistas e commerciantes:

Se no dia trinta e um de dezembro, quando fechaes o vosso balanço annual,

reconheceis que o _passivo_ excede o _activo_—quando perante esse

_deficit_ encaraes, com olhar vacillante, o futuro, onde vêdes sombras e

não auroras—se no anno seguinte uma nova especulação, uma nova industria

vos proporcionar meios com que possaes capitalizar uns centos de mil reis

collocados depois, _á ordem_, no Roriz,—se um dia o _Primeiro de Janeiro_

vos annunciar a quebra d’aquelle banqueiro e, com ella, a perda do vosso

capital, a destruição completa dos elementos com que esperaveis viver com

abastança no futuro—acaso a vossa alma se póde regosijar com o Hymno do

Rei ou com o da Carta?

Pois as situações são as mesmas.

Vós e a Patria tendes annualmente um enorme passivo.

O capital que estava no Roriz—o vosso futuro—é o dominio d’alem-mar—o

futuro da Patria.

A noticia da fallencia é a noticia do _ultimatum_, com esta differença

apenas: uma originou-se na adversidade dos negocios, outra na ambição

d’um _lord_.

Vós sois a Patria; viveis n’ella; sois a alma e o braço d’ella.

A Patria é tudo isso que vos rodeia: familia e amigos, affectos e

carinhos; é tudo o que ha de bom, de generoso, de nobre e feliz na vossa

existencia; é a limpidez d’este formosissimo céo peninsular, a risonha

paizagem do nosso Minho, a irradiação das nossas alvoradas, o oiro dos

nossos crepusculos, o matizado dos nossos campos; é essa dulcissima

melancholia que ao _toque das trindades_ inunda a nossa alma com a toada

longinqua das canções populares, é o nobre orgulho que em vossos olhos

brilha quando escutaes a epopéa das nossas gloriosas façanhas; é essa

formosa cabeça de velho que vos sorri, é a esposa carinhosa que vela a

vossa doença, é a creança—esse pequenino sêr feito com raios de alvoradas

e crystallizações de sorrisos—a quem chamaes filho[62].

Quem offender a Patria—offende-vos.

Quem a roubar—rouba-vos.

Quem toca o hymno da Carta quando ella soffre, toca-vos o hymno do rei

quando, com a fallencia do Roriz, reconheceis perdidas e inutilizadas as

esperanças do vosso futuro.

* * * * *

Despedi, pois, os gaiteiros, amigos.

Não lhes faltará que fazer.

Ahi estão os paysanducos esperando a _borga_ das eleições. Lá estão os de

Monsão que d’elles necessitam para as farças publicas do entrudo, em que

figuram makololos e Serpa Pinto.

Uns e outros: paysanducos, makololos e santascocas provam á evidencia,

pela sua immobilidade mental, que, realmente, não havia razão para os

sabios repellirem com tanto ardor as theorias de Darwin.

Nos cerebros de todos elles, existem irrefutaveis vestigios de

hereditariedade chimpanzéca.

Distingui-vos d’elles!

* * * * *

Á sympathia que me inspira a vossa Assembléa deveis estes periodos,

onde podereis encontrar phrase aspera de sinceridade, mas não phrase

humilhante de ironia.

Sinapismos · 第 14 / 17 段