Quem promoveu e planeou essa arruaça de 14? A Politica _pataqueira_

que nas provincias provoca odios de familias, instiga resentimentos,

prejudica interesses, origina represalias, prepara transferencias,

requer perseguições judiciaes—emquanto que os candidatos protegidos e

combatidos riem á mesa do Matta, commentando, em tom faceto, as parvas

pretensões dos parvos magnates do circulo.

Foi essa _coisa_ amanhada com a Ignorancia e com a Velhacaria que, ha

annos, aqui inaugurou o regime das perseguições e das represalias—regime

que ao carrejão d’hontem, hoje feito _trunfo_—concede a faculdade

de exigir a transferencia d’um Juiz, se tal idea surgir nas torvas

especulações da sua gafada orientação politica.

Ha pouco tempo, censuravamos com phrases de verdadeira e justissima

indignação, a transferencia d’um funccionario publico, que lucta com

difficuldades para sustentar numerosa familia. Lá foi o desgraçado para

_cascos de rolhas_.

Existe, ainda, em nosso espirito o nojo que inspirou esse _processo de

nullidade_ tentado contra a nomeação d’um professor, por uma corporação

tão zelosa pela instrucção popular, que conserva fechada =ha cinco mezes=

a unica eschola que temos para o sexo feminino!

Tudo isso se classificou como indigno, como torpe, como vil.

Mudam as situações; mudam as cabeças e cá temos as represalias—essas

infamissimas represalias—annunciando, pela bocca dos bigorrilhas

politiqueiros, novas transferencias e novas villanias para _saldo de

contas_!

Os homens da actual Politica andam açodados em mysteriosas (?)

combinações; escoam-se nas sombras da noite, pelos becos e travessas

que conduzem ao centro (!?!); segredam, cochicham, mostram cartas e

telegrammas; sorriem, piscam os olhos, ostentando parvoamente á luz do

dia as multiplices transformações d’esse implacavel Ridiculo que os

envolve, quando a gente se lembra que são os mesmos homens do sr. Serpa e

que todos elles, de pernas para o ar, não deitam uma duzia de votos!

Em todo esse afan, em todas essas mysteriosas combinações, em todo esse

serzir de esfarrapados planos, imagina V. Ex.ª, querido leitor, que se

tratou alguma vez de melhorar as condições materiaes do concelho, de

ampliar as suas instituições, ou reorganizar a sua administração? Nem uma

palavra a tal respeito!

Estudam-se, combinam-se, discutem-se _unicamente_ os meios de obter

as transferencias de Fulanos e de Cicranos, como medida _inadiavel e

urgentissima_. Nas horas vagas d’essas nojentas lucubrações, raspam-se as

picheis e lavam-se as gamellas para a proxima bambochata eleitoral.

Ah Saltamontes e Grices dos dois partidos! Muito dinheiro podia ganhar

quem vos apresentasse no Colyseu!

A Physiologia demonstra a hereditariedade dos defeitos organicos. A

Politica d’esta terra é nojenta e a _manifestação_ de 14, como producto

d’essa Politica, apresentou-se com todos os vicios da origem.

Portanto, concluo, repetindo: essa _manifestação_, como patriotica ou

como politica,

foi =aviltante= para Valença.

* * * * *

=Nota final:=

O principal heroe da _rusga_ foi um abbade. Chapéo de fadista, casaco

de pelles, nariz de furão, ponta de cigarro na orelha—razoavel exemplar

d’esse typo muito vulgar pelo Alto Minho:—_o capador de porcos_.

Resolvo rifal-o. Bilhetes a pataco, que desde já estão á venda no

_estabelecimento_ do compadre Pedro.

Lembro a V. Ex.ª, querido leitor, que é tempo de semear as ervilhas e

convém

afugentar os pardaes.

Valença 20-1-90.

XVII

A Sociedade dos Provareis

(FRAGMENTO DA HISTORIA GREGA)

Como actualmente predomina nos espiritos illustrados uma tendencia

absoluta para a analyse e para a investigação, parece-me que não serão

aqui mal cabidas as seguintes linhas, que esclarecem, com os informes de

um historiador classico, o periodo, indubitavelmente mais interessante e

curioso, da civilização grega—o seculo de Pericles.

Na Litteratura e nas Artes estuda-se tenazmente o Passado, arrancando-se

das trevas da tradição e das brumas da lenda, as producções maravilhosas

dos grandes genios e os elementos constitutivos das grandes sociedades.

Recompõe-se a organização social da velha India; analysam-se os factores

principaes d’essa assombrosa civilização hellenica e os do immenso

poderio da antiga e soberba Roma; acompanham-se os Carthaginezes e os

Phenicios nas suas audaciosas correrias; reproduzem-se as maravilhas da

Arte arabe e investigam-se pacientemente as Sciencias, n’esse glorioso

periodo dos Omniadas, que tão brilhantes vestigios deixaram da sua

dominação na Peninsula iberica.

Assim, tudo o que actualmente póde representar para o homem illustrado,

uma reliquia dos povos e das civilizações antigas—um livro, um

pergaminho, um papyro, uma inscripção cuneiforme, um hieroglypho, uma

lasca de silex, um fragmento de bronze, o dente d’um mastodonte, o

coccyx d’um almoravide, o vomer d’um Ramsés, a tibia d’um khalifa—tem

o mesmo valor, n’este culto pela Tradição, n’esta religião do Passado,

que para o beaterio póde ter um ossinho de S. Francisco, um cabellinho

da venta de S. Pancracio, ou uma unha das onze mil Virgens, que ainda

hoje, nos grandes estabelecimentos commerciaes de reliquias sagradas e

preventivas contra bexigas, massadores e outras coisas más, obtem elevado

preço, apesar da enorme edição que se espalhou no mercado:—duzentos mil

exemplares!

Nas Academias, nas Sociedades de Geographia, de Anthropologia, de

Geologia, de Linguistica, de Numismatica, e congeneres, fundadas em todas

as capitaes e centros civilizados, já com o auxilio dos governos, já pela

iniciativa particular, organiza-se e apresenta-se ao exame do publico

uma verdadeira exposição retrospectiva da actividade e da intelligencia

do homem, desde as primeiras manifestações da sua vitalidade no globo

terraqueo, até aos nossos dias.

Claro é que Valença não podia ficar indifferente a esta nova orientação

dos espiritos cultos; e até, primeiro que n’outras terras, aqui

rapidamente se desenvolveu o gosto pelas antiguidades, o culto ás coisas

passadas, que o povo, na sua linguagem rude, pittorescamente classifica

como: _mania_ de cacos velhos.

Ha por ahi muitas collecções e muitos colleccionadores:

* * * * *

Teias de aranha, microbios, tarecos velhos e empregos, collecciona o sr.

Sampaio. O sr. Agostinho, partidos politicos e casacophones; chinós, ovos

de passarada e instrumentos de vento, o sr. Abel Seixas; o sr. Zagallo,

caixas de phosphoros, officios de despedida ao Senado e santinhos;

sermões gallegos e patacaria de D. João VI, a Assemblea; o Club, homens

pacatos da rua de S. João; commendas e pergaminhos, o sr. Verissimo de

Moraes; o sr. Leopoldo, machados de bronze, volumes do _Almocreve das

petas_ e coisas das edades paleolithica e neolithica; o sr. Palhares

collecciona moleques, macaquinhos empalhados e uma raça maldicta de

papagaios, que o diabo inventou, para estoirar a membrana do tympano á

desgraçada humanidade.

O Albininho collecciona tudo e é um colleccionador precioso, porque

commenta; preparando, assim, inexgotavel thesoiro para as investigações

historicas dos posteros.

Conserva cuidadosamente ordenadas por dia, mez, anno e seculo, atadas com

fitinha de seda verde, azul, ou branca, conforme o signatario, todas as

cartas que tem recebido, desde que traduz lettra redonda. Cada missiva

mostra, no verso, uma nota explicativa:

=14 de Outubro de 1876 (e seis)=

Fulano de tal.

Valença do Minho.

(Pede-me _sete e vinte_ emprestados. Desculpei-me, porque anda n’um

_desarranjo completo e, qualquer dia, vae de bruços_.)

* * * * *

=5 de Fevereiro de 1869 (e nove)=

F. ou C. de tal.[41]

(Pede dez tostões—Ficam-me agora a doze e cinco... Preciso de me

desforrar.)

* * * * *

=4 de Maio de 1875 (e cinco)=

Officio da Camara, convidando para a procissão de Corpus-Christi.

(Agradeci tão _graduada_ prova de _consideração official_. Estes, não

são como os da missa do Rei. Compareci, vestindo pela trigesima sexta

vez a minha casaca n.º 3. Chapeo alto n.º 7, do Roxo—Lisboa—(3$570 com

correio). Sapatos de polimento n.º 4 (5.ª prateleira, 2.ª estante, á

direita). Gravata do Blanco (12 reales e uma perra chica; setim creme,

com pintas de prata). Luvas n.º 207, do Baron.

Offereceram-me um logar graduado, ao lado do sr. Joaquim.)

* * * * *

Eu tambem tenho a mania de colleccionador. É uma coisa que não fica mal;

é da Moda e até dá um certo tom distincto.

Collecciono alfarrabios, cartas de arrhas, cartapacios, papyros,

foraes—toda essa papelada, que por ahi apparece furada pela traça,

encarquilhada pelo tempo e com a côr que teriam os rostos d’aquelles

esforçados campeões da Guia, quando batiam em retirada, acossados pelo

gentio gallego.

Esta mania fez com que, ha mezes, descobrisse uma verdadeira

preciosidade, no bazar de antiguidades do sr. Maia.

Imaginem V. Ex.ᵃˢ o meu contentamento quando alli encontrei, entre

taboadas e cartilhas, rolhas e torneiras, piões de _faniqueira grande_ e

ditos para _nicas_—um volume authentico, genuino, verdadeiro, do grande e

immortal Plutarcho!

Tremi de commoção e de respeito com tão veneranda reliquia!

Li-o, reli-o e quasi treslia com elle.

Referia-se ao seculo do glorioso Pericles, áquelle aureo periodo da

civilização de Athenas e, entre as suas paginas, fui encontrar—gratissima

surpresa!—os elementos que, com verdadeiro afan, ha muito tempo

procurava, para estabelecer as bases da historia d’essa mysteriosa

agremiação a que Pericles presidia, e que tão poderosamente influiu no

engrandecimento do povo hellenico:—a _Sociedade dos Provareis_.

Conhecendo o interesse que em Valença teem despertado os estudos, que

outros auctores apresentaram, sobre esta curiosa parte da Historia

antiga, offereço tambem o meu modesto subsidio, vertendo para a nossa

lingua alguns periodos de Plutarcho, visto que por ahi são escassamente

conhecidos os caracteres gregos.

Para os menos versados na Historia hellenica acompanharei a traducção com

notas explicativas.

Fala Plutarcho:

Os Provareis

«N’essa epocha (465 A. de C.) era Pericles o chefe do partido popular,

que se intitulára o partido regenerador dos costumes, pervertidos

durante a supremacia de Cimon Narigangorum e dos aristocratas, chamados

progressistas.

Pericles era homem de compleição robusta, largo arcaboiço, avantajado

de estatura; perspicaz, de razão escorreita, assaz prudente, sobrio de

costumes e de variadissima erudição, graças á influencia de Zenão d’Elea,

que fôra seu preceptor.

Apesar de não ser archonte, ou stratego[42], porque apenas tinha as

honras de polemarcho, impoz-se rapidamente á consideração do Archontado,

ao respeito do Areopago e ás boas graças do Eponymo Lourdes Domina.

A agudeza do seu espirito, o vasto alcance das suas ideas, a subtileza

da sua estrategia e a finura da sua diplomacia, alcançaram-lhe logo no

começo da sua interferencia no Governo... da cidade, o epitheto de

Olympico, ou Oraculus, com que o povo geralmente o nomeava.

Rodeara-se Pericles de homens illustres e poderosos, que a seu talante

dirigia, para combater o grupo, ainda predominante na politica,

dos partidarios de Cimon Narigangorum e do seu parente Thucydides

Attila—grupo que constituia o principal elemento do partido dos

eupatridas, ou progressistas, e que, por todos os meios, tentava

condemnar ao ostracismo[43] e desluzir, com protervias e calumnias, o

valente caudilho dos contrarios.

Apesar do seu engenho e do seu valor, nem sempre lhe foi favoravel a

sorte das armas. Nas luctas com esses inimigos, graves desgostos soffreu,

que profunda e dolorosamente abalaram o seu espirito e o seu esforçado

animo. Ainda hoje a Historia nos menciona a derrota de Deputarium, no

ultimo dia da segunda decada do decimo mez, e o desbarate da Camária, no

terceiro dia—da primeira decada, do mez undecimo[44], do mesmo anno da

olympiada tal—em que as tropas de Pericles abandonaram armas e bagagens,

deante do grande Narigangorum II, ex-rei da Administracónia e do

seu parente Thucydides Attila, bojudo stratego e chefe dos _registricos_,

povo contribuinte dos suburbios de Athenas, que usava das celebres

_camisas de onze váras_[45] e que, por essa circumstancia, era tratado

com toda a _consideração official_, pela gente _graduada_.

Tivera, tambem, de valer-se de toda a sua diplomacia e arte para empalmar

o pennacho, (que nos strategos do partido era distinctivo de commando) ao

archonte Judex Candidatus, homem de pequena estatura, mas de respeitavel

influencia, emquanto Pericles lhe não surripiou, por occultos meios, o

apoio e a correligionariedade do poderoso Joannus Zabumborum, sabio de

reputado merito e de grande consideração popular.

Quando Pericles principiou a exercer a sua direcção politica,

libertava-se Athenas, vagarosamente, da inercia em que até alli se

conservara, e apurava, pouco a pouco, os seus usos e costumes; mas homens

de tão superior talento, como elle, raras pessoas encontravam, na cidade,

com quem podessem conviver intimamente.

Escasseava a illustração; o povo não tinha consciencia dos seus direitos

politicos. Entre os prytamos[46] da cidade e, mesmo, entre os sacerdotes

de Zeus suscitavam-se, a miudo, questões violentas; em que do argumento

se passava á aggressão, recorrendo-se a todas as armas, incluindo as do

_apparelho roedor_.

Dava-se pouca consideração ás auctoridades encarregadas do Governo

da... cidade; censuravam-se as gratificações, que lhes eram arbitradas

em occasiões de perigo, como guerras e _epidemias_; reduziam-se _as

vias_... do accesso aos grandes strategos; preparava-se, occultamente, a

_transferencia_... ao ostracismo para os leaes conselheiros; increpava-se

officialmente, escandalosamente, a _admissão_ nas dependencias do

Governo... da cidade aos adeptos do partido popular, e nem o proprio

Pericles escapava á maledicencia da turba porque, surdamente, o povo, e

até, a maior parte dos seus adeptos e cortezãos o accusavam de ambicioso,

invejando-lhe os redditos, discutindo-lhe a rapidez e legalidade do

accesso... á chefia do partido, amesquinhando a sua illustração e

refutando a sua competencia na vasta Sciencia da lettra redonda.

Muitos dos homens illustres, que o rodeavam, soffreram as consequencias

d’essa contumaz opposição e implacavel vindicta.

Phidias Cambronneia[47] Negoptius foi retirado do Governo... da cidade;

Anaxagoras Mata Marianus foi deportado.

Abstinha-se, pois, Pericles de apparecer em publico e entretinha escassas

relações, já porque a nobreza da sua jerarchia o distanciava dos

thetas[48] e da plebe, já porque o intimo conhecimento do seu merito e

da sua importancia lhe aquilatavam de mesquinhos e ridiculos os demais

proceres do Estado.

Foi perante esta necessidade de se isolar, e para reforçar os elementos

de resistencia aos rudes ataques dos seus inimigos, que elle fundou a

Sociedade, que mais tarde o povo denominou: os _Provareis_.

Com esse grupo de fieis adeptos praticava, então, largas horas em

passeio, conferenciando demoradamente; e quando o povo folgava nos

jogos olympicos, ou pythicos, se acotovellava no Odeon para ouvir as

maravilhosas producções de Eschylo e de Sophocles, ou nos jardins

publicos para se deliciar com os harmoniosos sons das magadias, cytharas,

lyras e flautas, que compunham as orchestras d’aquelles tempos, não era

raro o vêr-se ao longe, no _cabeço d’um oiteiro_, o grupo magestoso dos

_Provareis_, que solemnes, graves, com movimentos vagarosos e isochronos,

rodeavam o grande Pericles, ouvindo-o divagar philosophicamente sobre

a miseria das coisas humanas, sobre a leviandade das gentes e sobre a

ignorancia da ignorante humanidade!

No tocante a competencia, Pericles Oraculus reunia todos os dotes

necessarios a um completo homem de Estado. Provera-o a Natureza de

extraordinaria actividade e de genio inventivo para todos os ramos da

publica administração.

Era copiosamente versado nas leis de Lycurgo, de Solon, de Pisistrato

e de Lippes, tendo particular predilecção por este ultimo legislador,

cujos regulamentos, que a plebe classificava de estupidos, a todo o

transe defendia, como indispensaveis á conservação da cidade e dos...

seus redditos[49].

Possuia, já, noções muito positivas sobre a futura Sciencia da Economia

politica. Considerando a Agricultura como fonte principal da riqueza d’um

paiz, tomara a si o desenvolvel-a, dedicando-lhe particular attenção e

cuidado.

Por isso, quando com o grupo de fieis partidarios divagava pelos

arrabaldes de Athenas, vizitava a miudo os grandes eupatridas[50]

e, para obter noções perfeitas sobre a producção dos terrenos,

influencia atmospherica e outras condições modificadoras, inspeccionava

cuidadosamente as colheitas, examinava os fructos e provava... _as aguas_.

O povo, sempre rude e sempre ignorante, d’essas _provas_ a que aquelles

homens illustres frequentemente se entregavam (mormente nas tardes do

verão) para interesse da Patria e da Agricultura que nada é, como se

sabe, sem abundantes mananciaes que refresquem o solo e possam alimentar

a planta—originou o titulo de _Sociedade dos Provareis_, com que,

d’alli em deante, designava o grupo de Pericles e seus adeptos, quando

lá ao longe, entre os atalhos das aldeias, via uma serie de pontos

negros caminhando vagarosamente, ora para o norte, ora para o sul,

como previamente o indicara a provavel condescendencia ou a natural

liberalidade dos eupatridas amigos e partidarios.

Pericles era tambem escriptor emerito e actor de talento. A fama das suas

producções chega, ainda, até nós.

Todos conhecem a _Prisão da Santa_, a _Licença Zagallica Muzical_ e a

_Batalha dos Cooperativos_—comedias de fino enredo, astucioso desenlace e

primorosa concepção.

Nas horas de descanço que lhe permittia a faina da administração

politica, ensaiava Pericles os seus adeptos _Provareis_ que depois, em

conjuncção propria e solemne, apresentava em publico, dirigindo-os mui

circumspectamente por detraz da cortina e colhendo applausos em barda.

A comedia que obteve mais exito foi a _Prisão da Santa_. Fundava-se n’uma

antiga lenda mencionada no Rig-Veda, dos hindus. Era o caso da prisão de

Brahma, ao entrar n’uma velha fortaleza, contra as disposições do codigo

de Manu, e levada depois pelos kshatrias[51] ao carcere, onde jaziam os

infimos sudras[52].

Este pueril e comico incidente, baseado n’uma simples questão de _bufo_,

ou sopro, forneceu a Pericles recursos para ruidosamente explorar a

estupidez das massas e o fanatismo do povo, que estrebuchava com

arrancos de colera, quando via o feroz Attila.

Como já n’essa epocha eu trabalhava para reunir materiaes, com que

podesse encetar os projectados estudos sobre a Historia da minha

Patria, grandes eram os desejos que nutria de poder assistir a alguma

das reuniões d’aquelles homens illustres onde, indubitavelmente, com a

lucidez de tão poderosos cerebros se deviam discutir os destinos e a

Politica da confederação athenico-cerveirensis.

Pude emfim conseguil-o, subornando os dmoes[53] do sacerdote Pinus

Abbates que, mediante vinte talentos[54], consentiram em me occultar na

adega d’uma propriedade, a doze stadios[55] ao sul de Athenas onde, como

sitio retirado e fresco, de preferencia se reuniam os _Provareis_.

Alli os ouvi; alli tive, a meio passo de distancia, todos esses

homens illustres, que tão poderosamente tinham contribuido para o

engrandecimento de Athenas e para a sua hegemonia na confederação.

Era uma tarde calmosa; reunidos no escuro subterraneo, os _Provareis_

mais uma vez estudaram as _aguas_ com abundantes e saboreadas libações.

Por largo tempo ouvi um craquejar de maxillas e um glugluar de pharynges,

indicios terriveis d’essas assombrosas devastações, que depois

inspiravam aos servos e dmoes do Abbates estas dolorosas palavras:

—_É impossivel que nas altas horas da noite, quando a pallida Phebe desce

a visitar Endymion, Hades, o deus infernal, não mande a estas paragens

uma praga de gafanhotos! Que prejuizo soffreram as nossas colheitas,

grande Zeus!_

Concluidas as _provas_, ergueu Pericles a fronte; poz o pennacho de

pennas de capão, insignia de polemarcho; afivelou a catana e as esporas;

limpou os galões brancos e, trepando a um escabello, annunciou com ar

solemne o thema da sua conferencia:

UM PROBLEMA POLITICO DA FUTURA ERA DE CHRISTO,

SECULO XIX

Amigos e Provareis[56].

É commettimento facil para espiritos medianamente esclarecidos a

resolução de problemas na Politica contemporanea. Estudando os elementos

ethnologicos, a influencia das civilizações estranhas, as aspirações

collectivas e as relações indestructiveis da Historia nos cyclos que as

suas leis estabelecem, podemos fatalmente traçar a orientação a que os

povos teem de obedecer.

Abandonarei esse campo já explorado pelo vulgo e pelos espiritos d’uma

illustração comesinha. Asphyxia o meu intellecto nos acanhados horisontes

do Presente. Anceia o meu espirito pelas luminosas regiões do Futuro, na

lidima aspiração d’uma visualidade perscrutadora do destino dos povos e

da evolução das sociedades.

Rasgar as trevas do porvir, prever as luctas e as contrariedades, guiar

a incauta Humanidade nas tortuosas sendas a que o Destino a condemna,

leval-a pela mão á beira dos abysmos para lhe bradar carinhosamente:

_não vás além!_—é a missão que a Divindade traçou ao Genio, a isto de

superior, de maravilhoso, de prophetico, que me distingue do vulgo, que

me aparta da plebe, e que dá á minha individualidade, no meio d’este

constante marulhar das paixões e da ignorancia humanas, a previdente

luz do fanal que, entre escolhos e baixios, guia o amargurado nauta nas

cerradas trevas de noite caliginosa.

Transpondo um periodo de dois mil e quatrocentos annos no futuro da

Humanidade, eu vou annunciar os perigos amontoados no horisonte dos povos

que no seculo XIX d’uma nova era hão de occupar as ignotas regiões,

que um grande mar banha e onde os phenicios já estabeleceram dominio e

poderio.

Phantasiae, amigos, que viveis commigo n’uma peninsula que, por occulta,

o phenicio denominou Spania, e que me ouvis discreteando com os homens

politicos d’esse futuro seculo:

_Aconselho a alliança das raças latinas. O horisonte da Europa annuncia

borrasca._

_Ha negrumes para o Norte. Não receeis o teutonico; temei o slavo! Haja

outro Metternich para esse inimigo commum._

_Bismarck é um imbecil. Com a sua germanisação fez-se testamenteiro de

Frederico, o Grande. Crispi é um visionario. Salisbury um bebedo. Sagasta

uma nullidade. Zé Luciano um comparsa._

_Na Politica internacional o melhor systema é o de Machiavel. Tenho-me

dado bem com elle e não quero outro._

_Quando, na conferencia de Berlim, me pediram conselho, disse e repeti:

vocês reparem no russo!_

_N’essas regiões do Norte a maré sobe e, qualquer dia, rompem-se os

diques._

_Teremos novas invasões. É a lei fatal da Historia: sangue novo para

corpo velho._

_Acautelem-se, porém, com o processo da inoculação; o russo é feroz._

_Latinos, teutonicos, toca a reunir!_

_Bismarck, deixe essas coisas d’Africa; você tem um certo fio para isto

de Politica, mas ainda está um pouco ingenuo. Appareça lá por casa, ás

noites, com o seu rapaz, com o Herbert. Jogaremos a bisca de tres e terei

occasião de lhes dar umas noções politico-sociaes mais amplas._

_Emin Pacha cahiu na ratoeira de Stanley. Já quebrou a cabeça com uma

tremenda borracheira. É o resultado das más companhias. Soffre as

consequencias da indifferença com que ouviu as minhas recommendações._

_Recebi hoje carta do general Deodoro. Eu tinha vaticinado a

transformação politica do Brazil. No organismo monarchico apodreceu mais

aquelle membro. Cortem até ao osso para que o mal não avance._

_Isto por cá, vae mal. D. Carlos escreveu-me. O rapaz anda atrapalhadote.

A Mãe telegraphou pedindo-me para lhes ir valer. Não estou para os

aturar._

_Preferiram o Barjona para a missão de Londres. Antes de partir

procurou-me e conferenciamos. É dos nossos e deve-se proteger._

_A caracteristica evidente d’esta assombrosa phase da evolução social._

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Sinapismos · 第 12 / 17 段