noite, poisava no frontão municipal e perante a _illustre_, _benemerita_
e _patriotica_ Commissão manchava, abrindo um pouco as pernas, o escudo
da Patria, com o excremento e com o vomito—quando em todas as povoações
de Portugal se erguia, energico, o brado da desaffronta e, dolente, o
gemido da humilhação—das varandas d’uma casa que pertence ao Estado e
que representa, entre nós, a instituição mais nobre, porque é a fiel
depositaria das nossas glorias e dos nossos direitos—essas tres palavras
ôcas, golfadas, em comica explosão de inconcebivel calinice, sobre os
ervaçaes de Paysandu:
Viva Valença... =restaurada!=
..............................
Fumemos um cigarro para espalhar tristezas...............................
* * * * *
Continuemos.
Á frente, sempre á frente, rindo, e chorando lagrimas de pathetica
sensibilidade, um homem de cabellos brancos, agitando a bandeira da
Patria.
E ao longe, mais ao longe, para lá do Minho, essa nação cavalheiresca,
como nenhuma, quando offendem os seus brios: a patria do Cid, de Cortés,
de Pizarro e de Balboa; povo altivo que diz aos seus reis, em Aragão:
_nós, que valemos tanto como vós_; que impõe a Carlos I pela
bocca de Padilla, heroico chefe dos _cumuneros_, o codigo das suas
liberdades; que ainda, ha pouco, se convulsionava fremente e ameaçador
perante a reclamação _ingleza_ do Chanceller de ferro—povo rico de
generosos enthusiasmos e enthusiasta de generosas ideas, nosso irmão
de raça e companheiro nosso nas aventurosas emprezas d’alem mar—essa
nobilissima Hespanha, escutando, absorta e commovida, os ruidos da
bacchanal, o tumultuar da arruaça, o cornetear dos hymnos e a vozearia da
magna caterva.
E quando esse povo, pela bocca da sua Academia, do seu Exercito, da sua
Marinha, das suas Sociedades de Geographia, nos enviava calorosos brados
de affecto e nos insufflava alento e coragem—a _illustrada_, _benemerita_
e _patriotica_ Commissão promotora da _manifestação_ erguia aos ares
saudações á Hespanha e desfilava perante o representante d’aquella nação,
em marcha fandanga, ao compasso esbodegado do hymno da Restauração!
Á nota burlesca, a nota grosseira.
* * * * *
Quem hoje possue vagas noções de Historia patria, no mechanismo da sua
evolução politica, reconhece, com verdadeiro desalento, quanto tem sido
errado o plano das nossas allianças.
Desprezaram-se as affinidades da raça, a continuidade do solo, a
homogeneidade das aspirações, a reciprocidade dos interesses, a
egual fertilidade do clima, a riqueza dos productos, todas essas
especialissimas condições de independencia e de defeza que, aproveitadas
para beneficio commum em estreita alliança de dois povos—garantidas a
liberdade e a autonomia das instituições politicas de cada um—podiam
tornar a Peninsula uma facha de terreno inexpugnavel e inaccessivel ás
ambições de qualquer despota.
Com o rapido exame d’um mappa, a Natureza nos indica as vantagens d’essa
alliança com a Hespanha.
As truanescas manifestações do _Primeiro de Dezembro_ invariavelmente
ajoujadas a uma oratoria desenxabida e bolorenta, cinzelada a largos
traços pelo escopro da Rotina, mirabolante de imagens sediças colhidas
nos marneis paludosos d’um sentimentalismo piegas em materia de
patriotismo—acirrando odios contra quem respeita a nossa autonomia, acata
os nossos direitos e liberdades, e partilha, com egual dedicação, o
nectar das nossas alegrias nas grandes consagrações civicas e o fel das
nossas amarguras n’estes tristes dias de decadencia—devem banir-se para
sempre em terras, como esta, que merecem cotação intellectual superior á
de Paio Pires.
Os sessenta annos do captiveiro chocalham constantemente nos cerebros
dos gafados patriotas, para despertarem no povo o espirito da sua
nacionalidade e a altivez da sua autonomia. Mas esse periodo sumiu-se
nas brumas do Passado e pela heroicidade dos quarenta immortaes—o que
é muito discutivel—ou por circumstancias occasionaes e propicias á
nossa emancipação, ha duzentos e cincoenta annos que somos livres e
independentes, entre as demais nações da Europa.
Transmittimos aos nossos filhos esse odio á Hespanha; sobre os bancos
das praças, golfamos, em façanhuda oratoria, rancorosas recordações
dos Filippes, das luctas da Independencia, das agruras do captiveiro,
do despotismo de Olivares; e, entretanto, entra-nos John Bull em casa,
empalma-nos as mais ricas colonias, impõe-nos esses vergonhosos tratados
de 1642, 1661, 1703 (Metwen), 1810, 1842, 1878 e esse celebre tratado de
Lourenço Marques, em que os dois actuaes partidos da nossa politica teem
graves responsabilidades, um porque o redigiu, outro porque o approvou,
embora modificado.
A Hespanha subjugou-nos por 60 annos. A Inglaterra subjuga-nos ha perto
de tres seculos, dispondo da nossa Politica e absorvendo lentamente todos
os elementos da nossa riqueza e da nossa vitalidade. Com a Hespanha não
queremos relações, porque todos os nossos affectos são para a Inglaterra,
que nos acorrenta a allianças, onde ha perfidias e traições, e nos
socorre, quando lhe convém—com exercitos de bandidos que devastam e
roubam este desgraçado paiz com sofreguidão superior á do inimigo, que
nos forçou a pedir soccorro.
A Hespanha festeja e acolhe bizarramente os nossos exploradores. A
Inglaterra sorri desdenhosamente, orgulhosa de Stanley, o feroz Attila
dos sertões africanos. E quando nos vê abatidos, impotentes e pobres,
insulta-nos pelas boccas do poltrão Bright, do troca-tintas eleitoral
Salisbury e por essa horda de bandalhos, redactores do _Times_ e do
_Standart_, assalariados para abafarem as asquerosas applicações dos
_Telegraph’s boys_.
Todavia, quando Sua Alteza o Principe de Galles vem a Lisboa gastam-se
centenas de contos com a sua recepção, e quando a _graciosa_
Magestade, (que graça!) Mamã do dito Principe, solemnisa o jubileu, os
representantes do povo portuguez curvam-se, reverentes, em respeitosos
salamaleques, aos _graciosos_ pés da _graciosa_ Imperatriz das Indias!
E no _Primeiro de Dezembro_, já se vê, grossa pancadaria de gaiteiros e
um nunca acabar de foguetes com tres respostas.
O hymno da Restauração desperta antigos rancores e origina odios, que
a Hespanha não merece. Mandar tocar esse hymno, aqui, na fronteira,
exactamente na occasião em que aquella nação estremece com o insulto que
o inglez nos vibrou, não denota, sómente, grosseria, denota ignorancia.
Temos, pois, já outra nota:—a da ignorancia; e como burlesca, grosseira,
e ignorante, repetimos:
a manifestação de 14 do corrente foi =aviltante= para Valença,
porque aviltou a bandeira da Patria que, á frente, um homem de cabellos
brancos agitava.
Examinemos agora, respeitosamente, este homem.
* * * * *
Descubro-me perante elle.
Tem 74 annos.
É um espirito embalado pelas doiradas crenças da velhice, que se
assemelham ás ingenuas convicções da mocidade.
Tem enthusiasmos pueris e cultos idolatrados.
Influe a mais rigida honestidade nos actos da sua vida particular.
É um homem antigo, como diz o povo; e n’esta epocha de decadencia,
em que na alma da nação existem, narcotisados pela mais criminosa
indifferença e pelo mais repugnante egoismo, todos os sentimentos nobres
e todas as crenças sans—este homem continúa caminhando impassivel para
o occaso da vida, com os olhos fitos n’um Ideal de Honestidade e de
Convicções—especie de mytho, com que, apontando para o Passado, tentamos
hoje inocular no espirito dos nossos filhos o virus preservativo contra a
Descrença e contra o Scepticismo.
Este homem conserva ainda, immarcessivel, a pureza de todos os cultos e
de todas as tradições que seus Paes lhe legaram.
Crê na infallibilidade do Papa, na moralidade dos partidos, na
sinceridade das convicções, na respeitabilidade dos conselheiros,
na seriedade d’um _marmanjo_ sertanejo qualquer, que, sentado no
confessionario, descança, hoje, das fadigas que lhe vergam as pernas,
depois das arruaças politicas d’hontem.
Atraz das procissões sente-se feliz e orgulhoso com o seu _habito_,
marchando, altivo, ao lado do pantomimeiro, que em troca d’uma
tranquibernia eleitoral chegará a ser commendador de Malta, ou Marquez,
em dez vidas, de Paysandú, ou Chão das Pipas.
É fanaticamente liberal; quando, n’um dos artigos d’este livro, por
inoffensivo trocadilho, lhe chamei _miguelista_, teve explosões de colera
e arrancos de indignação.
Chamam-lhe: o _liberal de 34_.
Soffreu com as luctas d’essa epocha e com as seguintes.
Foi perseguido; andou a monte, passou fome e foi preso.
Respeita as instituições vigentes. Não admitte manchas na vida politica
de D. Pedro IV, o seu legitimo Rei. Desculpa as fragilidades
d’esse sebento poltrão, D. João VI. Odeia os republicanos e
ajudaria a enforcar um iberico.
Por consequencia, na sua alma existe, profundamente enraizado, o amor
da Patria; não o amor originado no funccionalismo da barriga, mas o que
parte do coração, o que é verdadeiro, intransigente e expotaneo.
Pois este homem foi ignobilmente explorado para o scenario da
_manifestação patriotica_ e, acorrentado pela Politica, exposto por essas
ruas ao mais degradante ridiculo.
Dedilharam as cordas do seu sincero patriotismo; falaram-lhe na Patria
offendida; mostraram-lhe a bandeira. Abraçou-se a ella, nervoso,
soluçando, humedecendo-a com lagrimas.
Empurraram-no para a rua.
Quando na minha frente passou o grotesco cortejo, eu já não vi o velho
respeitavel, nem o homem liberal. Vi um macaco vestido de azul e branco,
com a corôa real na cabeça, pinchando e bailando ao som dos hymnos
esmoidos pelo realejo da philarmonica africana.
De quando em quando, o realejo cessava de tocar.
Um patriota discursava á turba; outro extendia o prato e pedia a esmola
dos _vivas_.
O macaco ria, ou chorava.
—_Viva a Reliquia!_—exclamavam á frente do cortejo.
—_Viva o Relicas!_—berravam os paradas-velhas.
Do liberal de 34 a Politica acerdalada fizera aquillo: uma coisa
ridicula, comica, irrisoria, tristemente deploravel, porque tinha
cabellos brancos. Essa _coisa_ já não era a Reliquia dos homens liberaes
de 34; era uma _Reliquia_ falsificada, de contrabando, como seria o rabo
do meu gato, exposto em Santo Estevão á veneração das beatas, como uma
trança de cabello de Santa Margarida de Cortona.
Á porta do Sr. Palhares, a cabeça branca d’esse velho recebia picaresca
consagração, n’esta phantasiosa e alcoolica imagem:
—_Viva a Rosa de 74 annos, estramplantada para o nosso Jardim!_
E a caterva parada-velha repetia:
_Viva a Rosa Relicas!_
Do homem liberal ficou para Valença a: =Rosa Relicas=.
* * * * *
Este homem, lendo o que escrevo deve considerar-se offendido pela rudeza
da ironia.
Oxalá que a caterva dos falsos amigos, que o guindaram para o andor
do Ridiculo, o respeitassem como eu o respeito e venerassem, como eu
venero, a sinceridade das suas crenças!
Homem de 34!
Escuta:
A minha idade é muito inferior a metade dos teus annos. Entrei no periodo
activo da vida, quando já estavam suffocadas as agitações politicas a
que assististe. Não tenho relações intimas comtigo, mas respeito-te,
porque és dos homens que trabalharam e soffreram para eu gosar as
liberdades d’esta epocha. Não tenho a experiencia da vida que tu tens,
mas peço-te que attendas ao que te vou dizer, porque conheço, melhor do
que tu, os individuos que nos rodeiam, a natureza dos seus sentimentos
e a sinceridade das suas crenças. Quando a minha razão principiou a
funccionar, já por ahi lavrava, intensa, a immoralidade, e os homens,
pela irrefutavel logica dos factos, encarregaram-se de inutilizar no
meu espirito as illusões que tu ainda conservas, porque vives um pouco
arredado d’elles.
Escuta, pois!
Quem, como tu, soffreu as deploraveis consequencias das nossas dissenções
politicas e provou o fel d’essa malfadada epocha, em que dois partidos,
irmãos no sangue, se perseguiam com encarniçado odio, a tiro, a faca,
a cacete e a machado,—quem, como tu, avaliou os dolorosos transes e
as indescriptiveis angustias que infernaram a alma das familias e
dilaceraram os affectos d’uma povoação, constantemente sobresaltada
com a incerteza nas vidas e com a noticia das mortes,—quem conheceu os
horrores da fome, as tristezas do exilio, os negrumes do futuro,—quem viu
o corpo d’um portuguez baloiçar-se, sinistramente, na forca infamante,
e viu as costas d’um homem esfarrapadas pela chibata do corneta,—quem
teve amigos que foram assassinados a machado em Extremoz, arrastados,
semi-vivos, pelas ruas do Porto, espingardeados nas linhas e no reducto
dos Mortos, garrotados em Lisboa, fusilados em Vizeu,—quem viu cabeças,
gottejando sangue, espetadas em mastros e ouviu falar das ferocidades do
Telles-Jordão e do seu _menino_, bestiaes cerberos de S. Julião,—quem
escutou por todo esse paiz o choro afflictivo das viuvas, o soluçar
das creanças e o estertor dos moribundos entre as ruinas da Patria,
ennegrecidas pela fumarada do incendio e avermelhadas pelo sangue
fratricida,
homem de 34!
quem viu e ouviu tudo isso, nunca deve contribuir com a sua presença e
com o seu applauso para acirrar o odio dos partidos, ou para estimular
em terras pequenas, como Valença, essas divergencias de opiniões que,
levadas pela allucinação á infamia das vinganças e ao rancor das
represalias, podem preparar, no futuro, nova serie de horrores, como os
que tu viste e como os que tu soffreste.
Esses cabellos brancos nunca se devem prender ao Passado para trazerem á
terra em que vives e onde tens os teus affectos de familia, o bacamarte
assassino e o facho incendiario, em que se podem transformar esses
archotes do teu sequito de paradas-velhas. Devem prender-se ao Passado,
mas para de lá arrancarem com o vigor da experiencia: o conselho, o
ensinamento, a reflexão, que podem suffocar o ardor das paixões e
prevenir os excessos da allucinação.
Tens umas convicções partidarias; acceitas um _credo_ politico.
Respeito essas convicções e a doutrina d’esse _credo_, porque ao teu
partido deve a Patria valiosos serviços na honrosissima cruzada do seu
engrandecimento, d’onde emanam a paz e as liberdades que hoje fruimos.
Sustenta as tuas idéas politicas, mas descreve, sempre, aos homens de
todos os partidos o que foram as luctas e as agitações de 30 a 51.
Tu és honesto, crente, sincero e bom. Não manches a respeitabilidade das
tuas cans n’essas abandalhadas orgias, onde vês como principaes heroes,
_exigindo musica e borga_, ministros d’uma religião de paz, de tolerancia
e amor, afeitos ás esturdias sertanejas e acerdaladas d’uma politica de
barriga, de arroz de forno, e de chouriço com ovos.
Talvez que n’essas horas de esturdia algum pobre velho agonizasse,
pedindo, em vão, o amparo de Christo...
Como patriota, modera esses enthusiasmos, que tão violentamente agitam a
tua alma.
Crês, acaso, na intensidade d’esta explosão de colera que Lord Salisbury
provocou?
Verás como, dentro de dois mezes, não resta uma faula de todo este
incendio. Temos á porta novas eleições; o vinho das _borgas_ se
encarregará de apagar as labaredas.
Crês na efficacia dos meios, até hoje apresentados para a nossa defeza e
para a nossa desaffronta?
_Será_ mais um triste couraçado para, em frente de Belem, chorar as
nossas passadas grandezas.
Acreditas na persistencia da lucta commercial?
Dentro d’um anno, a chita e a lona virão outra vez de Manchester, porque
lá, custa cada peça menos 2 _shillings_ e 6 _pence_ do que n’outra parte.
Em mil peças, essa diferença produz cerca de seiscentos mil reis que, a
juro de 6 por cento, rendem oito libras annuaes. Ora, essa diferença,
bom homem, não se póde perder. Esta coisa de patriotismo é bonita, fica
bem a todos; inspira discursos, que põem a gente a dançar na corda bamba
do enthusiasmo, mas... alli, o meu visinho vende o metro da lona a sete
menos cinco, e a que eu tenho custou sete vintens em algures. Nós—eu, tu,
os teus amigos e os meus—vamos a quem vende mais barato. Precisamos de
economizar, porque está tudo, como sabes, pela hora da Morte.
Pensa bem e reconhecerás que, hoje, a Patria não merece essas lagrimas,
com que humedeceste a sua bandeira.
Vês este enthusiasmo na subscripção nacional?
Lembras-te do que houve na subscripção do Baquet?
Pois ninguem se lembra das victimas e ninguem conhece a applicação que
teve o dinheiro que demos.
Alegra-se a tua alma com este furor contra o inglez?
Tens visto a excitação que se levanta por esse paiz, quando algum
_sotaina_ arrebata, do seio da familia para a clausura do Recolhimento,
qualquer herdeira endinheirada?
Comicios—representações—protestos—morras ao Jesuita!—abaixo a reacção!—o
diabo!
Quinze dias depois, já ninguem fala em tal. A rhetorica entra novamente
na gaveta das coisas ricas e asseadas. Depois... Quartel general em
Abrantes.
N’esta propaganda anti-ingleza só encontras enthusiasmo sincero nas
manifestações da mocidade e na indignação dos velhos—duas epochas da
vida, que se assemelham, como sabes.
Esses que te envolveram na _manifestação patriotica_ gastaram, com a
esturdia e com as ultimas eleições, cerca de trezentos mil reis. Vae
saber quanto elles dão para o couraçado e para os torpedeiros.
Andaram comtigo em charola e adoraram-te, de joelhos e mãos postas, como
uma Reliquia dos homens liberaes.
Ataram os seus enthusiasmos aos teus cabellos brancos e elevaram, aos
céos da popularidade, o balão flammejante dos patriotismos. Curvam-se
arrebatados, extasiados, sensibilizados, perante as venerandas Reliquias
dos homens liberaes; mas—ouve lá—pergunta-lhes se alguma vez se lembraram
d’esse pobre velho de cem annos, que desembarcou no Mindello, que teve
a _Torre Espada_ e que para ahi viveu cego, decrepito e idiotado, com
tristes patacos, emquanto que muito...
—Bom homem! Dá cá outro cigarro...
* * * * *
Resumindo, meu velho, aconselho-te a que moderes esses teus enthusiasmos
patrioticos, porque excluindo, como disse, as manifestações dos novos
que ainda não roçaram as azas pela immoralidade d’estes tempos, todas
essas celeumas e gritarias não valem—crê—uma das tuas lagrimas. Isto,
emquanto a patriotismo. Ora, ácerca da Politica e dos homens que por cá
dirigem os partidos, quando elles te agarrarem nas pernas para o andor
da _fantochada_, faze-lhes como eu fiz aos paysanducos, que me quizeram
matar por causa da carta ao _Restaurador_:
_esguicha-os_.
Olha que, politicamente falando, entre Fonsecas, Vices & Abbades, ou
Moraeses, Agostinhos & Cunhas
venha o diabo e escolha.
* * * * *
Agora, dá-me a bandeira e grita commigo a esses _patriotas_, que te
querem levar para as freguezias:
=Abaixo as mascaras!=
Vae socegado para tua casa, e deixa-me com elles, porque lhes quero
dizer, ainda, duas coisas, antes que saiam da Coroada.
* * * * *
Já podemos rir, respeitabilissima Commissão _patriotica_:
Arrancadas as mascaras, _vocellencias_ ficaram o que realmente são: não
patriotas, mas politicos de gaiteiro.
Disse eu, no principio d’este artigo, que a _manifestação_, quer tivesse
o caracter politico, quer o patriotico, aviltára Valença. Demonstrei
a asserção relativa á segunda das classificações e vou evidenciar a
indignidade da primeira.
Estes _banzés_ de musicas, foguetes, vivas, archotadas, cómes-e-bebes,
brindes etc., etc., podem fazer effeito entre abbades sertanejos, dos que
não sabem verdadeiramente quaes são as leis de equilibrio que obrigam a
gente a andar com as mãos no ar, sendo a cabeça mais pesada do que os pés.
Esses regabofes trescalam, sempre, essencias do alho, do carneiro assado,
do esturro das batatas, da vinhaça, do vomito—essencias que denunciam o
suborno, a pressão, a compra de voto, a immoralidade, a inconsciencia e o
servilismo.
Os partidos compõem-se de homens, que nos actos da sua vida social, como
nos actos da sua vida particular, acertam e erram.
Por estes e por aquelles accidentes sobem ao poder e sahem d’elle. Uns
e outros decretam leis inuteis, uteis e prejudiciaes, porque infallivel
dizem que só é o Papa e, ainda assim, ha muita gente que embica com essa
infallibilidade.
O partido progressista, como o partido regenerador, tem tradições
honrosas e tem manchas; o partido regenerador, como o partido
progressista tem no seu seio homens dignos, que honram o paiz.
Quem póde, em momentos de reflexão serena, deixar de prestar homenagem de
gratidão e de respeito á memoria d’esse homem, que dedicou toda a sua
existencia ao engrandecimento da Patria e que, apesar de ter palacios em
Londres, morreu pobre e legou dividas:—Fontes Pereira de Mello?
Quem póde recusar-se a honrar o nome de Anselmo Braamcamp, o cidadão
prestante, o caracter nobilissimo, a quem o paiz tanto deve?
Os defeitos da Politica portugueza, desde 32: os arranjos, as ambições,
o desperdicio dos dinheiros publicos, o desamparo das instituições
proveitosas, o abandono da Agricultura, da Industria, das Colonias, são
communs, e d’elles teem eguaes responsabilidades todos os partidos.
Esses defeitos vem de cima e vão para cima. Apparecem nas imposições
eleitoraes, na recommendação governamental dos candidatos, na necessidade
das maiorias etc.; e nascem alli, nas pretensões do Sr. Abbade, que
precisa de livrar os mancebos X e Y do recrutamento, nas exigencias do
magnate Fulano, que pretende uma estrada para a quinta etc.
De cima vem as imposições; de baixo vão as exigencias. Ora, n’esta
permutação de generos, por conta propria, ou á commissão, ganham sempre
os de baixo e os de cima; e, sendo assim, claro é que deve haver um
terceiro para os prejuízos:—ha o Paiz.
Isto é coisa velha e sabida.
_Vocellencias_ terão a ingenuidade de suppôr que haja alguem, n’este
anno de Christo, que repute sinceras, emanadas d’uma profunda convicção
politica, essas ruidosas manifestações?
Na _fantochada_ de 14 o que se evidenciou foi isto: a explosão partidaria
de quem estava _por baixo_, a pirraça aos Moraes_es_, o nectar das
abandalhadas vinganças, os mancebos livres do recrutamento, a provocação
da _beiça_ e outros elementos que a ignorancia gera.
Quando _vocellencias_ passavam, a gente,—emfim, por delicadeza: Maria vae
com as outras—sorria e cortejava; mas cá dentro, no escaninho da nossa
razão, onde, á noite, guardamos a gravata e o Senso commum, appareciam
logo, nitidas e causticas, estas palavras:
=Que sucia de pataratas!=
* * * * *
Quando cahiu o partido regenerador, os progressistas promoveram egual
_borga_ por essas ruas; quando, ha mezes, se realisaram as eleições, P.
Alexandre atordoou os ouvidos da humanidade com bombas de dynamite.
Toda a gente se riu das _gaitadas_ especiaes que tiveram os Srs.
Agostinho, Dr. Ladislau e outros senhores evidentemente progressistas.
No coice da procissão, lá iam os nossos paradas-velhas, muito lepidos e
repontantes, nariz no ar, chinela rota e fralda de fóra.
Toda a gente se riu dos foguetes do Alexandre e, até, no cerebro
de alguem, fuzilaram, como relampagos, vividos clarões de suspeitas
exquisitas...
_Vocellencias_ apepinaram o caso, como eu apepinei, porque, emfim,
Valença não é o mesmo que Urgeira, Cerdal ou Gandra (salvo o devido
respeito a Montes Claros e ao Patriarcha).
Passam os annos, e quando eu suppunha que na mioleira de _vocellencias_
existia algo differente do que se suspeitou no cerebro alexandrino,
saltam _vocellencias_ para a rua, transformando Valença no Pandemonium de
Milton!
Esses espectaculos são frequentes nos grandes centros. Organizam-se
os cortejos nos bairros immundos, onde o _real d’agua_ obtem maior
rendimento; onde o Rosa Araujo gasta seis contos na compra de votos; onde
o Sentieiro e o Cagaçal conservam fechada e vigiada, durante os tres dias
anteriores á eleição, a turba ignara dos cidadãos (?) votantes.
Quando a onda da escoria se alastra pelas ruas centraes, ninguem que
possue senso, deixa de encarar com verdadeira repugnancia a babugem do
servilismo e da estupidez.