E quando o nojento e sinistro abutre inglez, sulcando a escuridão da

noite, poisava no frontão municipal e perante a _illustre_, _benemerita_

e _patriotica_ Commissão manchava, abrindo um pouco as pernas, o escudo

da Patria, com o excremento e com o vomito—quando em todas as povoações

de Portugal se erguia, energico, o brado da desaffronta e, dolente, o

gemido da humilhação—das varandas d’uma casa que pertence ao Estado e

que representa, entre nós, a instituição mais nobre, porque é a fiel

depositaria das nossas glorias e dos nossos direitos—essas tres palavras

ôcas, golfadas, em comica explosão de inconcebivel calinice, sobre os

ervaçaes de Paysandu:

Viva Valença... =restaurada!=

..............................

Fumemos um cigarro para espalhar tristezas...............................

* * * * *

Continuemos.

Á frente, sempre á frente, rindo, e chorando lagrimas de pathetica

sensibilidade, um homem de cabellos brancos, agitando a bandeira da

Patria.

E ao longe, mais ao longe, para lá do Minho, essa nação cavalheiresca,

como nenhuma, quando offendem os seus brios: a patria do Cid, de Cortés,

de Pizarro e de Balboa; povo altivo que diz aos seus reis, em Aragão:

_nós, que valemos tanto como vós_; que impõe a Carlos I pela

bocca de Padilla, heroico chefe dos _cumuneros_, o codigo das suas

liberdades; que ainda, ha pouco, se convulsionava fremente e ameaçador

perante a reclamação _ingleza_ do Chanceller de ferro—povo rico de

generosos enthusiasmos e enthusiasta de generosas ideas, nosso irmão

de raça e companheiro nosso nas aventurosas emprezas d’alem mar—essa

nobilissima Hespanha, escutando, absorta e commovida, os ruidos da

bacchanal, o tumultuar da arruaça, o cornetear dos hymnos e a vozearia da

magna caterva.

E quando esse povo, pela bocca da sua Academia, do seu Exercito, da sua

Marinha, das suas Sociedades de Geographia, nos enviava calorosos brados

de affecto e nos insufflava alento e coragem—a _illustrada_, _benemerita_

e _patriotica_ Commissão promotora da _manifestação_ erguia aos ares

saudações á Hespanha e desfilava perante o representante d’aquella nação,

em marcha fandanga, ao compasso esbodegado do hymno da Restauração!

Á nota burlesca, a nota grosseira.

* * * * *

Quem hoje possue vagas noções de Historia patria, no mechanismo da sua

evolução politica, reconhece, com verdadeiro desalento, quanto tem sido

errado o plano das nossas allianças.

Desprezaram-se as affinidades da raça, a continuidade do solo, a

homogeneidade das aspirações, a reciprocidade dos interesses, a

egual fertilidade do clima, a riqueza dos productos, todas essas

especialissimas condições de independencia e de defeza que, aproveitadas

para beneficio commum em estreita alliança de dois povos—garantidas a

liberdade e a autonomia das instituições politicas de cada um—podiam

tornar a Peninsula uma facha de terreno inexpugnavel e inaccessivel ás

ambições de qualquer despota.

Com o rapido exame d’um mappa, a Natureza nos indica as vantagens d’essa

alliança com a Hespanha.

As truanescas manifestações do _Primeiro de Dezembro_ invariavelmente

ajoujadas a uma oratoria desenxabida e bolorenta, cinzelada a largos

traços pelo escopro da Rotina, mirabolante de imagens sediças colhidas

nos marneis paludosos d’um sentimentalismo piegas em materia de

patriotismo—acirrando odios contra quem respeita a nossa autonomia, acata

os nossos direitos e liberdades, e partilha, com egual dedicação, o

nectar das nossas alegrias nas grandes consagrações civicas e o fel das

nossas amarguras n’estes tristes dias de decadencia—devem banir-se para

sempre em terras, como esta, que merecem cotação intellectual superior á

de Paio Pires.

Os sessenta annos do captiveiro chocalham constantemente nos cerebros

dos gafados patriotas, para despertarem no povo o espirito da sua

nacionalidade e a altivez da sua autonomia. Mas esse periodo sumiu-se

nas brumas do Passado e pela heroicidade dos quarenta immortaes—o que

é muito discutivel—ou por circumstancias occasionaes e propicias á

nossa emancipação, ha duzentos e cincoenta annos que somos livres e

independentes, entre as demais nações da Europa.

Transmittimos aos nossos filhos esse odio á Hespanha; sobre os bancos

das praças, golfamos, em façanhuda oratoria, rancorosas recordações

dos Filippes, das luctas da Independencia, das agruras do captiveiro,

do despotismo de Olivares; e, entretanto, entra-nos John Bull em casa,

empalma-nos as mais ricas colonias, impõe-nos esses vergonhosos tratados

de 1642, 1661, 1703 (Metwen), 1810, 1842, 1878 e esse celebre tratado de

Lourenço Marques, em que os dois actuaes partidos da nossa politica teem

graves responsabilidades, um porque o redigiu, outro porque o approvou,

embora modificado.

A Hespanha subjugou-nos por 60 annos. A Inglaterra subjuga-nos ha perto

de tres seculos, dispondo da nossa Politica e absorvendo lentamente todos

os elementos da nossa riqueza e da nossa vitalidade. Com a Hespanha não

queremos relações, porque todos os nossos affectos são para a Inglaterra,

que nos acorrenta a allianças, onde ha perfidias e traições, e nos

socorre, quando lhe convém—com exercitos de bandidos que devastam e

roubam este desgraçado paiz com sofreguidão superior á do inimigo, que

nos forçou a pedir soccorro.

A Hespanha festeja e acolhe bizarramente os nossos exploradores. A

Inglaterra sorri desdenhosamente, orgulhosa de Stanley, o feroz Attila

dos sertões africanos. E quando nos vê abatidos, impotentes e pobres,

insulta-nos pelas boccas do poltrão Bright, do troca-tintas eleitoral

Salisbury e por essa horda de bandalhos, redactores do _Times_ e do

_Standart_, assalariados para abafarem as asquerosas applicações dos

_Telegraph’s boys_.

Todavia, quando Sua Alteza o Principe de Galles vem a Lisboa gastam-se

centenas de contos com a sua recepção, e quando a _graciosa_

Magestade, (que graça!) Mamã do dito Principe, solemnisa o jubileu, os

representantes do povo portuguez curvam-se, reverentes, em respeitosos

salamaleques, aos _graciosos_ pés da _graciosa_ Imperatriz das Indias!

E no _Primeiro de Dezembro_, já se vê, grossa pancadaria de gaiteiros e

um nunca acabar de foguetes com tres respostas.

O hymno da Restauração desperta antigos rancores e origina odios, que

a Hespanha não merece. Mandar tocar esse hymno, aqui, na fronteira,

exactamente na occasião em que aquella nação estremece com o insulto que

o inglez nos vibrou, não denota, sómente, grosseria, denota ignorancia.

Temos, pois, já outra nota:—a da ignorancia; e como burlesca, grosseira,

e ignorante, repetimos:

a manifestação de 14 do corrente foi =aviltante= para Valença,

porque aviltou a bandeira da Patria que, á frente, um homem de cabellos

brancos agitava.

Examinemos agora, respeitosamente, este homem.

* * * * *

Descubro-me perante elle.

Tem 74 annos.

É um espirito embalado pelas doiradas crenças da velhice, que se

assemelham ás ingenuas convicções da mocidade.

Tem enthusiasmos pueris e cultos idolatrados.

Influe a mais rigida honestidade nos actos da sua vida particular.

É um homem antigo, como diz o povo; e n’esta epocha de decadencia,

em que na alma da nação existem, narcotisados pela mais criminosa

indifferença e pelo mais repugnante egoismo, todos os sentimentos nobres

e todas as crenças sans—este homem continúa caminhando impassivel para

o occaso da vida, com os olhos fitos n’um Ideal de Honestidade e de

Convicções—especie de mytho, com que, apontando para o Passado, tentamos

hoje inocular no espirito dos nossos filhos o virus preservativo contra a

Descrença e contra o Scepticismo.

Este homem conserva ainda, immarcessivel, a pureza de todos os cultos e

de todas as tradições que seus Paes lhe legaram.

Crê na infallibilidade do Papa, na moralidade dos partidos, na

sinceridade das convicções, na respeitabilidade dos conselheiros,

na seriedade d’um _marmanjo_ sertanejo qualquer, que, sentado no

confessionario, descança, hoje, das fadigas que lhe vergam as pernas,

depois das arruaças politicas d’hontem.

Atraz das procissões sente-se feliz e orgulhoso com o seu _habito_,

marchando, altivo, ao lado do pantomimeiro, que em troca d’uma

tranquibernia eleitoral chegará a ser commendador de Malta, ou Marquez,

em dez vidas, de Paysandú, ou Chão das Pipas.

É fanaticamente liberal; quando, n’um dos artigos d’este livro, por

inoffensivo trocadilho, lhe chamei _miguelista_, teve explosões de colera

e arrancos de indignação.

Chamam-lhe: o _liberal de 34_.

Soffreu com as luctas d’essa epocha e com as seguintes.

Foi perseguido; andou a monte, passou fome e foi preso.

Respeita as instituições vigentes. Não admitte manchas na vida politica

de D. Pedro IV, o seu legitimo Rei. Desculpa as fragilidades

d’esse sebento poltrão, D. João VI. Odeia os republicanos e

ajudaria a enforcar um iberico.

Por consequencia, na sua alma existe, profundamente enraizado, o amor

da Patria; não o amor originado no funccionalismo da barriga, mas o que

parte do coração, o que é verdadeiro, intransigente e expotaneo.

Pois este homem foi ignobilmente explorado para o scenario da

_manifestação patriotica_ e, acorrentado pela Politica, exposto por essas

ruas ao mais degradante ridiculo.

Dedilharam as cordas do seu sincero patriotismo; falaram-lhe na Patria

offendida; mostraram-lhe a bandeira. Abraçou-se a ella, nervoso,

soluçando, humedecendo-a com lagrimas.

Empurraram-no para a rua.

Quando na minha frente passou o grotesco cortejo, eu já não vi o velho

respeitavel, nem o homem liberal. Vi um macaco vestido de azul e branco,

com a corôa real na cabeça, pinchando e bailando ao som dos hymnos

esmoidos pelo realejo da philarmonica africana.

De quando em quando, o realejo cessava de tocar.

Um patriota discursava á turba; outro extendia o prato e pedia a esmola

dos _vivas_.

O macaco ria, ou chorava.

—_Viva a Reliquia!_—exclamavam á frente do cortejo.

—_Viva o Relicas!_—berravam os paradas-velhas.

Do liberal de 34 a Politica acerdalada fizera aquillo: uma coisa

ridicula, comica, irrisoria, tristemente deploravel, porque tinha

cabellos brancos. Essa _coisa_ já não era a Reliquia dos homens liberaes

de 34; era uma _Reliquia_ falsificada, de contrabando, como seria o rabo

do meu gato, exposto em Santo Estevão á veneração das beatas, como uma

trança de cabello de Santa Margarida de Cortona.

Á porta do Sr. Palhares, a cabeça branca d’esse velho recebia picaresca

consagração, n’esta phantasiosa e alcoolica imagem:

—_Viva a Rosa de 74 annos, estramplantada para o nosso Jardim!_

E a caterva parada-velha repetia:

_Viva a Rosa Relicas!_

Do homem liberal ficou para Valença a: =Rosa Relicas=.

* * * * *

Este homem, lendo o que escrevo deve considerar-se offendido pela rudeza

da ironia.

Oxalá que a caterva dos falsos amigos, que o guindaram para o andor

do Ridiculo, o respeitassem como eu o respeito e venerassem, como eu

venero, a sinceridade das suas crenças!

Homem de 34!

Escuta:

A minha idade é muito inferior a metade dos teus annos. Entrei no periodo

activo da vida, quando já estavam suffocadas as agitações politicas a

que assististe. Não tenho relações intimas comtigo, mas respeito-te,

porque és dos homens que trabalharam e soffreram para eu gosar as

liberdades d’esta epocha. Não tenho a experiencia da vida que tu tens,

mas peço-te que attendas ao que te vou dizer, porque conheço, melhor do

que tu, os individuos que nos rodeiam, a natureza dos seus sentimentos

e a sinceridade das suas crenças. Quando a minha razão principiou a

funccionar, já por ahi lavrava, intensa, a immoralidade, e os homens,

pela irrefutavel logica dos factos, encarregaram-se de inutilizar no

meu espirito as illusões que tu ainda conservas, porque vives um pouco

arredado d’elles.

Escuta, pois!

Quem, como tu, soffreu as deploraveis consequencias das nossas dissenções

politicas e provou o fel d’essa malfadada epocha, em que dois partidos,

irmãos no sangue, se perseguiam com encarniçado odio, a tiro, a faca,

a cacete e a machado,—quem, como tu, avaliou os dolorosos transes e

as indescriptiveis angustias que infernaram a alma das familias e

dilaceraram os affectos d’uma povoação, constantemente sobresaltada

com a incerteza nas vidas e com a noticia das mortes,—quem conheceu os

horrores da fome, as tristezas do exilio, os negrumes do futuro,—quem viu

o corpo d’um portuguez baloiçar-se, sinistramente, na forca infamante,

e viu as costas d’um homem esfarrapadas pela chibata do corneta,—quem

teve amigos que foram assassinados a machado em Extremoz, arrastados,

semi-vivos, pelas ruas do Porto, espingardeados nas linhas e no reducto

dos Mortos, garrotados em Lisboa, fusilados em Vizeu,—quem viu cabeças,

gottejando sangue, espetadas em mastros e ouviu falar das ferocidades do

Telles-Jordão e do seu _menino_, bestiaes cerberos de S. Julião,—quem

escutou por todo esse paiz o choro afflictivo das viuvas, o soluçar

das creanças e o estertor dos moribundos entre as ruinas da Patria,

ennegrecidas pela fumarada do incendio e avermelhadas pelo sangue

fratricida,

homem de 34!

quem viu e ouviu tudo isso, nunca deve contribuir com a sua presença e

com o seu applauso para acirrar o odio dos partidos, ou para estimular

em terras pequenas, como Valença, essas divergencias de opiniões que,

levadas pela allucinação á infamia das vinganças e ao rancor das

represalias, podem preparar, no futuro, nova serie de horrores, como os

que tu viste e como os que tu soffreste.

Esses cabellos brancos nunca se devem prender ao Passado para trazerem á

terra em que vives e onde tens os teus affectos de familia, o bacamarte

assassino e o facho incendiario, em que se podem transformar esses

archotes do teu sequito de paradas-velhas. Devem prender-se ao Passado,

mas para de lá arrancarem com o vigor da experiencia: o conselho, o

ensinamento, a reflexão, que podem suffocar o ardor das paixões e

prevenir os excessos da allucinação.

Tens umas convicções partidarias; acceitas um _credo_ politico.

Respeito essas convicções e a doutrina d’esse _credo_, porque ao teu

partido deve a Patria valiosos serviços na honrosissima cruzada do seu

engrandecimento, d’onde emanam a paz e as liberdades que hoje fruimos.

Sustenta as tuas idéas politicas, mas descreve, sempre, aos homens de

todos os partidos o que foram as luctas e as agitações de 30 a 51.

Tu és honesto, crente, sincero e bom. Não manches a respeitabilidade das

tuas cans n’essas abandalhadas orgias, onde vês como principaes heroes,

_exigindo musica e borga_, ministros d’uma religião de paz, de tolerancia

e amor, afeitos ás esturdias sertanejas e acerdaladas d’uma politica de

barriga, de arroz de forno, e de chouriço com ovos.

Talvez que n’essas horas de esturdia algum pobre velho agonizasse,

pedindo, em vão, o amparo de Christo...

Como patriota, modera esses enthusiasmos, que tão violentamente agitam a

tua alma.

Crês, acaso, na intensidade d’esta explosão de colera que Lord Salisbury

provocou?

Verás como, dentro de dois mezes, não resta uma faula de todo este

incendio. Temos á porta novas eleições; o vinho das _borgas_ se

encarregará de apagar as labaredas.

Crês na efficacia dos meios, até hoje apresentados para a nossa defeza e

para a nossa desaffronta?

_Será_ mais um triste couraçado para, em frente de Belem, chorar as

nossas passadas grandezas.

Acreditas na persistencia da lucta commercial?

Dentro d’um anno, a chita e a lona virão outra vez de Manchester, porque

lá, custa cada peça menos 2 _shillings_ e 6 _pence_ do que n’outra parte.

Em mil peças, essa diferença produz cerca de seiscentos mil reis que, a

juro de 6 por cento, rendem oito libras annuaes. Ora, essa diferença,

bom homem, não se póde perder. Esta coisa de patriotismo é bonita, fica

bem a todos; inspira discursos, que põem a gente a dançar na corda bamba

do enthusiasmo, mas... alli, o meu visinho vende o metro da lona a sete

menos cinco, e a que eu tenho custou sete vintens em algures. Nós—eu, tu,

os teus amigos e os meus—vamos a quem vende mais barato. Precisamos de

economizar, porque está tudo, como sabes, pela hora da Morte.

Pensa bem e reconhecerás que, hoje, a Patria não merece essas lagrimas,

com que humedeceste a sua bandeira.

Vês este enthusiasmo na subscripção nacional?

Lembras-te do que houve na subscripção do Baquet?

Pois ninguem se lembra das victimas e ninguem conhece a applicação que

teve o dinheiro que demos.

Alegra-se a tua alma com este furor contra o inglez?

Tens visto a excitação que se levanta por esse paiz, quando algum

_sotaina_ arrebata, do seio da familia para a clausura do Recolhimento,

qualquer herdeira endinheirada?

Comicios—representações—protestos—morras ao Jesuita!—abaixo a reacção!—o

diabo!

Quinze dias depois, já ninguem fala em tal. A rhetorica entra novamente

na gaveta das coisas ricas e asseadas. Depois... Quartel general em

Abrantes.

N’esta propaganda anti-ingleza só encontras enthusiasmo sincero nas

manifestações da mocidade e na indignação dos velhos—duas epochas da

vida, que se assemelham, como sabes.

Esses que te envolveram na _manifestação patriotica_ gastaram, com a

esturdia e com as ultimas eleições, cerca de trezentos mil reis. Vae

saber quanto elles dão para o couraçado e para os torpedeiros.

Andaram comtigo em charola e adoraram-te, de joelhos e mãos postas, como

uma Reliquia dos homens liberaes.

Ataram os seus enthusiasmos aos teus cabellos brancos e elevaram, aos

céos da popularidade, o balão flammejante dos patriotismos. Curvam-se

arrebatados, extasiados, sensibilizados, perante as venerandas Reliquias

dos homens liberaes; mas—ouve lá—pergunta-lhes se alguma vez se lembraram

d’esse pobre velho de cem annos, que desembarcou no Mindello, que teve

a _Torre Espada_ e que para ahi viveu cego, decrepito e idiotado, com

tristes patacos, emquanto que muito...

—Bom homem! Dá cá outro cigarro...

* * * * *

Resumindo, meu velho, aconselho-te a que moderes esses teus enthusiasmos

patrioticos, porque excluindo, como disse, as manifestações dos novos

que ainda não roçaram as azas pela immoralidade d’estes tempos, todas

essas celeumas e gritarias não valem—crê—uma das tuas lagrimas. Isto,

emquanto a patriotismo. Ora, ácerca da Politica e dos homens que por cá

dirigem os partidos, quando elles te agarrarem nas pernas para o andor

da _fantochada_, faze-lhes como eu fiz aos paysanducos, que me quizeram

matar por causa da carta ao _Restaurador_:

_esguicha-os_.

Olha que, politicamente falando, entre Fonsecas, Vices & Abbades, ou

Moraeses, Agostinhos & Cunhas

venha o diabo e escolha.

* * * * *

Agora, dá-me a bandeira e grita commigo a esses _patriotas_, que te

querem levar para as freguezias:

=Abaixo as mascaras!=

Vae socegado para tua casa, e deixa-me com elles, porque lhes quero

dizer, ainda, duas coisas, antes que saiam da Coroada.

* * * * *

Já podemos rir, respeitabilissima Commissão _patriotica_:

Arrancadas as mascaras, _vocellencias_ ficaram o que realmente são: não

patriotas, mas politicos de gaiteiro.

Disse eu, no principio d’este artigo, que a _manifestação_, quer tivesse

o caracter politico, quer o patriotico, aviltára Valença. Demonstrei

a asserção relativa á segunda das classificações e vou evidenciar a

indignidade da primeira.

Estes _banzés_ de musicas, foguetes, vivas, archotadas, cómes-e-bebes,

brindes etc., etc., podem fazer effeito entre abbades sertanejos, dos que

não sabem verdadeiramente quaes são as leis de equilibrio que obrigam a

gente a andar com as mãos no ar, sendo a cabeça mais pesada do que os pés.

Esses regabofes trescalam, sempre, essencias do alho, do carneiro assado,

do esturro das batatas, da vinhaça, do vomito—essencias que denunciam o

suborno, a pressão, a compra de voto, a immoralidade, a inconsciencia e o

servilismo.

Os partidos compõem-se de homens, que nos actos da sua vida social, como

nos actos da sua vida particular, acertam e erram.

Por estes e por aquelles accidentes sobem ao poder e sahem d’elle. Uns

e outros decretam leis inuteis, uteis e prejudiciaes, porque infallivel

dizem que só é o Papa e, ainda assim, ha muita gente que embica com essa

infallibilidade.

O partido progressista, como o partido regenerador, tem tradições

honrosas e tem manchas; o partido regenerador, como o partido

progressista tem no seu seio homens dignos, que honram o paiz.

Quem póde, em momentos de reflexão serena, deixar de prestar homenagem de

gratidão e de respeito á memoria d’esse homem, que dedicou toda a sua

existencia ao engrandecimento da Patria e que, apesar de ter palacios em

Londres, morreu pobre e legou dividas:—Fontes Pereira de Mello?

Quem póde recusar-se a honrar o nome de Anselmo Braamcamp, o cidadão

prestante, o caracter nobilissimo, a quem o paiz tanto deve?

Os defeitos da Politica portugueza, desde 32: os arranjos, as ambições,

o desperdicio dos dinheiros publicos, o desamparo das instituições

proveitosas, o abandono da Agricultura, da Industria, das Colonias, são

communs, e d’elles teem eguaes responsabilidades todos os partidos.

Esses defeitos vem de cima e vão para cima. Apparecem nas imposições

eleitoraes, na recommendação governamental dos candidatos, na necessidade

das maiorias etc.; e nascem alli, nas pretensões do Sr. Abbade, que

precisa de livrar os mancebos X e Y do recrutamento, nas exigencias do

magnate Fulano, que pretende uma estrada para a quinta etc.

De cima vem as imposições; de baixo vão as exigencias. Ora, n’esta

permutação de generos, por conta propria, ou á commissão, ganham sempre

os de baixo e os de cima; e, sendo assim, claro é que deve haver um

terceiro para os prejuízos:—ha o Paiz.

Isto é coisa velha e sabida.

_Vocellencias_ terão a ingenuidade de suppôr que haja alguem, n’este

anno de Christo, que repute sinceras, emanadas d’uma profunda convicção

politica, essas ruidosas manifestações?

Na _fantochada_ de 14 o que se evidenciou foi isto: a explosão partidaria

de quem estava _por baixo_, a pirraça aos Moraes_es_, o nectar das

abandalhadas vinganças, os mancebos livres do recrutamento, a provocação

da _beiça_ e outros elementos que a ignorancia gera.

Quando _vocellencias_ passavam, a gente,—emfim, por delicadeza: Maria vae

com as outras—sorria e cortejava; mas cá dentro, no escaninho da nossa

razão, onde, á noite, guardamos a gravata e o Senso commum, appareciam

logo, nitidas e causticas, estas palavras:

=Que sucia de pataratas!=

* * * * *

Quando cahiu o partido regenerador, os progressistas promoveram egual

_borga_ por essas ruas; quando, ha mezes, se realisaram as eleições, P.

Alexandre atordoou os ouvidos da humanidade com bombas de dynamite.

Toda a gente se riu das _gaitadas_ especiaes que tiveram os Srs.

Agostinho, Dr. Ladislau e outros senhores evidentemente progressistas.

No coice da procissão, lá iam os nossos paradas-velhas, muito lepidos e

repontantes, nariz no ar, chinela rota e fralda de fóra.

Toda a gente se riu dos foguetes do Alexandre e, até, no cerebro

de alguem, fuzilaram, como relampagos, vividos clarões de suspeitas

exquisitas...

_Vocellencias_ apepinaram o caso, como eu apepinei, porque, emfim,

Valença não é o mesmo que Urgeira, Cerdal ou Gandra (salvo o devido

respeito a Montes Claros e ao Patriarcha).

Passam os annos, e quando eu suppunha que na mioleira de _vocellencias_

existia algo differente do que se suspeitou no cerebro alexandrino,

saltam _vocellencias_ para a rua, transformando Valença no Pandemonium de

Milton!

Esses espectaculos são frequentes nos grandes centros. Organizam-se

os cortejos nos bairros immundos, onde o _real d’agua_ obtem maior

rendimento; onde o Rosa Araujo gasta seis contos na compra de votos; onde

o Sentieiro e o Cagaçal conservam fechada e vigiada, durante os tres dias

anteriores á eleição, a turba ignara dos cidadãos (?) votantes.

Quando a onda da escoria se alastra pelas ruas centraes, ninguem que

possue senso, deixa de encarar com verdadeira repugnancia a babugem do

servilismo e da estupidez.

Sinapismos · 第 11 / 17 段