mesma imbecilidade, com que actualmente os progressistas impedem a livre
circulação do _bufo_, os regeneradores, subindo ao poder, hão-de metter
cá dentro, quanto nedio folle por ahi haja, previamente reforçado com
alimentos explosivos.
E n’esse dia anti-pituitario, em que tenho de encontrar: uns, de vexados,
em casa ou fugindo de corrida ao apupo; outros, de pança tesa e cara
alegre, abraçando-se por essas ruas—e todos, supinamente idiotas e
essencialmente ridiculos—cá me tendes, oh _bufos_ e _anti-bufos_!, para
vos estralejar nas ventas a mais sonora gargalhada, que gentes de Valença
teem ouvido!
E tenho tambem uma idea...
Emfim, vocês merecem recompensa, pelo enthusiasmo com que teem tratado
d’essa questão, de grande valor e importancia para a terra. Mastigae já
em secco e ouvi lá marotinhos: (mas caluda, por emquanto):
Nos _cómes-e-bébes_ dos philarmonicos hei de misturar umas gottasinhas
d’um certo elemento drastico
—Oleo de Croton Tiglium—por exemplo, para que elles, nas ruidosas
e puxadas explosões dos seus _bufos_, vos possam dar tambem—oh
progressistas e regeneradores do pataco!—algo mais de...
...solido!
Toca a aguçar a dentuça, Politiqueiros de meia-tigela!
XV
As Muralhas
Em que condições vivemos?
Com pejo hesito em denuncial-as.
Vivemos acorrentados ao estupido regulamento, dado ás gentes, ha perto de
seculo e meio, pelo Conde de Lippe.
Vivemos como os forçados e os grilhetas—cercados de muralhas.
O que significam, hoje, as muralhas?
O retrocesso, o dominio brutal da pedra; isto é, Pasteur, Edison, Comte,
Jenner, Spencer, Hugo, Castelar, Capello, Ivens, Herculano, Pestalozzi,
Broca, Kossuth, Humboldt, Chevreul, Wurtz, Lesseps, Eiffel, arremessados
para a barbarie dos tempos primitivos, para a idade paleolithica, em que
o homem usava cuecas, cozinhava de cocoras, contava pelos dedos e pescava
trutas á unha, porque desconhecia, ainda, a engenhosa disposição do
anzol e a grande vantagem da minhoca.
Significam os combates dos barbaros; a bruteza dos despotas; as luctas
fratricidas; o assassinato legal; a ambição copulada pela força; a lucta
braço a braço, arca por arca, alma a alma; a feroz e brutal sensualidade
do vencedor, que sorve dos labios do vencido o ultimo alento; o escabujar
do moribundo nas vascas de cruissima agonia...
Significam as pontes levadiças, o embate de duas ondas humanas que
se chocam, se enroscam, se atropelam, se mordem e se agitam por
fim, convulsivamente, n’um montão disforme de farrapos, de carnes
ensanguentadas, onde rouquejam as maldições, os estertores, até que as
rodas da carreta, ou as patas ferradas d’uma mula acabem de esmagar, de
confundir e triturar.
Significam o assedio, o bombardeamento, o incendio, a fome, as mil
privações e sobresaltos; a viuvez, a orphandade, o lucto—a morte; isto
é: quatro pás de terra sobre um corpo amado, que jaz hirto e nú, ahi
para qualquer canto, sobre o monturo, proximo á _Sexta_; as canções
roucas e truanescas dos coveiros do Hamlet; o uivar sinistro da canzoada
lazarenta, que escancara as mandibulas, esgaravatando a terra para
esfarrapar as carnes; o crocitar lugubre dos corvos, que revolteiam
no azul dos céos, espreitando lauto e succulento festim no rebordo
ensanguentado das feridas...
Significam a agonia lenta, afflictiva; o velar-se da vista nas sombras
da Morte e, n’esse debil bruxolear do espirito, a visão meiga e então
dolorosa da familia, da infancia, dos affectos que nos ligaram á vida sem
que, collados os labios, confundidos os alentos, n’um derradeiro olhar
e n’um derradeiro beijo, se possa desprender a alma entre almas que nos
amaram.
* * * * *
Com que veneração e respeito eu conservaria uma das tuas cans, benemerito
Pasteur, apostolo bemdito do Bem, e com que tremendo pontapé eu te
esmigalharia o busto, se aqui o tivesse, feroz Napoleão, negro chacal da
Morte, para quem são poucos todos os horrores e tormentos, que a genial e
portentosa imaginação de Dante phantasiou nos seus nove circulos!
* * * * *
Felizmente, toda esta sentina de granito que os espiritos bellicos
e phantasistas denominam _formidolosa Praça_, nunca teve um real de
importancia, na historia militar do nosso paiz.
Isto foi sempre o que hoje é—uma _feira da ladra_ de tarecos velhos e de
cacada guerreira.
Quando em 1809, Soult atravessou a fronteira, o aspecto d’esta
carcassa não o atrazou um minuto na marcha. Passou ao largo, sorriu,
atirou cá dentro meia duzia de obuzes e continuou em paz o seu caminho.
Palpitou-lhe que não valia a pena subir a Gaviarra, porque não tinhamos
custodias d’oiro para roubar, nem preciosidades artisticas; n’essa epocha
não existia o muzeu do sr. Sampaio, nem se falava na mystica collecção do
Albininho.
Em 34, Napier, a cavallo n’um burro pôdre, veio de Caminha a Valença,
seguido por um pelotão de marujos inglezes. Sem estribos, com a volta
das meias cahidas sobre os sapatos, rindo com bom humor, berrou alli da
Esplanada: «_Ao governador de Valença! Senhor: tenho uma esquadra em
Caminha e se vos não entregaes, mandarei buscar cem peças de artilheria,
cercarei a praça e a vossa guarnição será passada á espada._»[38]
D’alli a um quarto de hora, Napier estava cá dentro.
Depois d’isso, os grandes successos militares da nossa terra limitam-se
a breves assedios, nas luctas civis de 37 e 47. Houve muito susto, muito
fanico nos dois sexos, alguma granada para espalhar tristezas, e assim
se arranjou um simulacrosito pacato e economico d’um cerco em regra,
como o que soffreu, ha 19 annos, Strasburgo—(senhoras e senhores, que
ainda fallaes com pavor de 37 e 47)—em que aquella desgraçada cidade
teve constantemente, vomitando a morte e a ruina para dentro dos seus
muros, umas 170 boccas de fogo—ninharia que devia fazer um poucochito de
barulho...
Mas apesar d’isso, de nada valeram os ultimos assedios; eu—com
franqueza—sinto-me muito mais feliz do que os srs. Manoel Antonio de
Barros, José e João Seixas, Santa Clara e outros que assistiram a
essas tristes scenas das nossas dissenções politicas; e sinto-me mais
feliz, porque, emfim, não me destinou Deus para emprezas guerreiras
e contento-me em conhecer os effeitos e propriedades da polvora nas
bichinhas de rabear do S. João, ou nos devaneios pyrotechnicos da palerma
Urgeira, sem offensa para o sr. Chiquinho Veiga.
* * * * *
Mas vejamos qual é a necessidade de conservar essas odiosas reliquias dos
tempos barbaros e qual a razão que se oppõe, a que nos seja permittido o
que já conseguiram outras terras da fronteira, como Caminha, Cerveira,
Monsão e Melgaço—o arrasamento de tão brutaes construcções.
Será a posição estrategica?
Condições excepcionalmente favoraveis na opposição a uma invasão
extrangeira?
O inexpugnavel d’aquella posição?
Cartas na mesa, teias d’aranha limpas e jogo franco, senhores da alta
militança, lá das Secretarias da Guerra.
Toda esta coisa, com as suas muralhas, baluartes, fortes, contra-fortes,
revelins, fossos, falsas bragas, casamatas, cortinas, tenalhas, poternas,
escarpas, contra-escarpas, banquetas, meias-luas, taludes, pontes
levadiças, abobadas, etc., etc., que constituem na sua complicada relação
a arte de Vauban, toda esta coisa, repito—não vale um pataco sebento do
sebentissimo D. João VI!
E tanto não vale um pataco, que apesar do apregoado valor estrategico
augmentar com a Ponte internacional e de os engenheiros militares
terem lembrado, quando se construiu a linha ferrea, certas obras que
garantissem as condições da defeza, prejudicada com os aterros e
desaterros—até á data nada se fez, nem se fará, se Deus Nosso Senhor
quizer.
E tanto não vale um pataco, que se eu tiver em Lisboa um bom _trunfo_
politico para empenho: se eu fôr, por exemplo, um João da Gaiteira,
elevado politicamente em potencia votante, ao quadrado ou ao cubo,
obterei, não só licença para construir nos arrabaldes da Praça, como,
tambem, limite de altura superior ao que eu desejar, embora a isso se
opponham todos os paysanducos e todos os regulamentos do sabio conde de
Lippes.
Ora, de duas, uma: é ou não é importante o valor estrategico da Praça?
Não é. Dil-o a sua historia; dil-o a historia das ultimas campanhas
europeas e encarrega-se de nol-o dizer o Governo de S. Magestade, quando
o apertam com a tarracha do voto.
Será parvoiçada suppor que, no caso d’uma invasão, o inimigo se deteria
por um momento com as momices e os esgares d’esta desdentada carcassa.
Perguntem a Strasburgo, a Verdun, a Bitche, a Toul, a Soissons, a Metz,
a Schelestadt, para que lhes serviram as vantagens do terreno e as
prevenções de Vauban.
E sendo nullo o apregoado valor estrategico, que outra causa fundamenta
a estupida prohibição que se oppõe á construcção de novos edificios, ao
desenvolvimento de povoação, tornando odiosa a missão d’esse official
que, com um curso de engenharia e com a elevada orientação scientifica,
que hoje se obtem nas Escholas superiores, ahi está de sentinella ao
regulamento senil que tresanda a raposinho, a catinga, e de que a rotina,
o egoismo, e por vezes a velhacaria fazem instrumento de valimento e,
até, de vinganças pessoaes?[39]
Attende-se á probabilidade d’um cerco, d’um acampamento, e á necessidade
de inutilizar, rapidamente, ao inimigo quaesquer pontos de abrigo?
Mas, oh Molkes pataqueiros! Então prohibis que em minha casa possa
elevar meio palmo ao cano da latrina, impedis que no meu quintal levante
uma barraca para guardar as melancias e os nabos, e deixaes ahi cavar, a
dezenas de metros da praça, esse desaterro, onde se abriga uma divisão
com as respectivas familias, se tanto fôr necessario?
Impedis que lá fóra, na minha horta, levante um pau com o gallo, para
catavento, ou equilibre quatro taboas, que um cão, alçando a perna no
exercicio de certa funcção, faz cahir, e mandaes construir essa outra
fortaleza de granito—a estação do caminho de ferro?
Admittindo, mesmo, que o inimigo se estabelecesse para cá da fronteira,
que seria de Valença se no Faro, no Marco, ou em qualquer outra
eminencia, elle assestasse quatro canhões Krupp, Bange, Amstrong ou
Fraser, que arremessam projecteis com menos peso do que as vossas
cabeças—verdade é, porque não teem tanto municio—a 12 e 16 kilometros de
distancia?
Para que nos asphyxiaes, pois, com estas montanhas de pedra, militarões
lá das altas repartições da Lysbia, estrategicos de meia tigela, que
por ahi inficionaes de rheumatismo, de gotta, de rapozinho e de pingo
simontado o que póde haver de proveitoso e util nas instituições
militares da nossa Patria?
* * * * *
As muralhas para nada mais servem do que para attestar aos extranhos
que—portas a dentro—o Progresso deixou de actuar.
Servem, como pittorescamente disseram, ha mezes, uns lisboetas que
ousaram entrar cá dentro: para impedir que a porcaria e... manchem a
belleza dos arrabaldes; servem para balde do lixo, das immundicies, e
para os habitantes da villa satisfazerem, prompta e commodamente, um
determinado numero de necessidades, tanto em funcções de reproducção,
como em funcções de nutrição.
Servem para a gente se desfazer das ninhadas de gatos, que a _Malteza_
arranja em janeiro com as suas serenatas ao luar; servem para uma
entrevista baratinha e recatada com pudibunda sopeirinha; servem para
manter certas artes e officios; servem para fornecer o Hospital militar
de bronchites, tysicas, pneumonias e doenças assizicas, que essas
desgraçadas sentinellas arranjam em larga copia nas frigidissimas noites
de inverno, quando o nordeste, que corta e açoita, as apanha amarradas
com a trela da disciplina á carreta d’uma peça rachada, vigiando que o
gallego não escale as muralhas e a leve para berloque da cadeia.
E servem, mais, para sustentar essa coisa caduca, ridicula, inutil,
offenbachicamente intitulada o
Governo da Praça!
* * * * *
—Governo da Praça!
Raciocinemos logicamente.
Qual é a idea implicita n’este titulo?
Commando, direcção na defeza da dita Praça.
O que exigem estas funcções?
Conhecimentos estrategicos e noções de todos os ramos da moderna Sciencia
militar, alliados ao senso, ao valor, á prudencia, ao prestigio e á
energia.
A quem tem sido confiado tão importante cargo?
Ao Zé da Rosa...
Ora, meus senhores, com franqueza; eu aposto _aquillo_ de que se faziam
as barretinas, quando não eram da pelle d’urso, se—declarada a Praça em
estado de sitio e confiado o commando supremo com a direcção de tudo
ao Senhor Zé da Rosa—a cavallo n’um cabo de vassoira, com um espeto de
assar cabritos, com tres _malzabetes_, dois _paus-reaes_ e um _fileiras_,
não tomar Valença e não levar a toque de caixa na minha frente até ás
Bornetas, o Senhor Governador e todo o seu Excellentissimo Estado-maior!
E para isto, para conservar a esta latrina uns apparatos bellicos de
opereta, estou eu arriscado, por um descuido, por uma descarga electrica,
a dar o meu passeio aereo até aos reinos da Lua, com a conservação
estupida de milhares de kilos de polvora, que uma noite podem ter a
phantasia de condemnar a minha humilde pessoa áquellas maravilhosas
viagens de Julio Verne.
Ora, além do perigo, imagine V. Ex.ª a que enormes responsabilidades,
a que enormes complicações diplomaticas, a que enormes indemnisações o
nosso Governo se arrisca, conservando por cá essa materia explosiva,
que dava para tanta _bichinha de rabear_ e para tanto _caganitão_, se
lhe quizesse dar applicação differente da que ella hoje felizmente tem:
estoirar fragas e rasgar montanhas para facilitar o avanço da locomotiva.
Imagine V. Ex.ª que em noite estrellada de agosto, Don Benito Naveas e
sua Ex.ᵐᵃ Familia tomam socegadamente o _té_, na sua _habitacion_ de Tuy.
Don Benito, fiel ao partido legitimista encarece mais uma vez a bondade
e os merecimentos de D. Carlos, commentando tranquillamente entre
saboreadas fumaças d’um _pitilho_ e goles de _té_, as noticias que, sobre
o Pretendente, em o numero de _miercoles_, apresenta _La Integridad_,
luminosa gazeta assotaina da inventora dos _malzabetes_.
«_Con securidad, Don Carlos és muy bueno hombre; una gran cabeza; el
unico rey que debia gobernar la Espana; es un hombre de religion, y que
tal... y que sei yo..._»
Subito, ouve-se um estampido medonho. A casa abala-se nos seus alicerces;
as paredes oscillam; as traves gemem; as loiças tocam nos aparadores e
saltam em furiosa dança macabra. Ouve-se um _crac_ medonho, fende-se o
tecto e apparece em cima da mesa _del comedor_... quem?—o Senhor Abel
Seixas, em pello e em cabello, tal qual estava na cama, sem chinó, pança
sumida e olhinhos espavoridos!
V. Ex.ª ri-se? Pois o caso não é para isso. Se chegam uma isca de fogo ao
paiol, a qualquer de nós póde succeder o mesmo.
E diga-me V. Ex.ª quanto teria o nosso Governo de pagar a Don Benito pela
perturbação do seu socego e—o que é muito peor—pela alimentação d’esse
insondavel abysmo—a barriga do snr. Seixas—emquanto este cavalheiro,
arrancado bruscamente do seu leito e atirado por esses ares em
escandalosa nudez, se recusasse, pudicamente, a ostentar pelas _calles_
de Tuy, no regresso á Patria, as linhas bambaleantes das suas formas
esculpturaes.
Matutae sobre o caso, homens da Governança!
XVI
A Manifestação de 14 de Janeiro[40]
(PROTESTO)
Para cá dos limites que tracei á critica dos acontecimentos, por
qualquer aspecto evidentes e impressionaveis na chronica politica
d’esta terra, disponho hoje, serenamente, os apontamentos colligidos
sobre a manifestação de 14 do corrente, para os sujeitar á analyse
recta e imparcial, isenta de considerações pessoaes ou collectivas, sem
tergiversações de ameaças ou de lisonjas, a que subordinei o programma
dos _Sinapismos_.
Á frente d’essa manifestação eu vi homens a quem dedico verdadeira
amizade; que respeito nos actos da sua vida particular; que me honram
com as suas relações, porque se impõem á consideração de Valença pelo seu
caracter digno e pela sua honradez inconcussa.
Esses homens organizaram uma manifestação popular, que annunciaram como
patriotica e que outros classificaram como politica. Inspirada no amor da
Patria, ou na paixão partidaria, essa manifestação, evidenciada nas ruas
e nas praças, discutida na Imprensa como expressão dos sentimentos d’uma
parte da população, perdeu o caracter, para mim respeitavel, d’um acto
isolado da vida particular e adquiriu a importancia d’um facto social,
publico e, portanto, sob o dominio da critica.
Abstraio, pois, do meu espirito as relações que me unem a essas
individualidades, e nos periodos que vou ordenar para a composição d’este
artigo, declaro, outra vez ainda, que aprecio a manifestação promovida
por um grupo anonymo de cidadãos e não por um grupo de individuos, d’esta
ou d’aquella classe, d’aquella ou d’esta côr politica.
A violencia da phrase com que tenha de censurar qualquer aspecto d’essa
manifestação, que me pareça menos digno, não irá, pois, desvirtuar a
sinceridade de relações, mais ou menos affectuosas; nem poderá, tambem,
ser reputada como indicio de adhesão a opiniões já manifestadas por quem,
em identicas apreciações, se deixa desorientar pelas paixões partidarias
que levam a applaudir toda a inepcia d’um grupo em que se está filiado,
e a estigmatizar qualquer idea, muitas vezes util e proveitosa, suggerida
pelos contrarios.
Esta é a missão do critico e praza a Deus que a consciencia nunca me
accuse de escrever o contrario do que ella, á luz da imparcialidade e
d’um livre criterio, dieta á minha penna.
Nos periodos d’este artigo abandono a feição humoristica dos restantes.
Tenho de me referir á crise dolorosa por que actualmente passa a alma da
nacionalidade a que me orgulho de pertencer; e n’essa referencia, quando
a humilhação nos ruboriza as faces e a recordação das passadas grandezas
nos amargura e entristece, o sorriso seria uma villania e a gargalhada
seria uma infamia.
* * * * *
A força inicial dos acontecimentos de 14 do corrente não se póde
attribuir á expansão d’um sentimento patriotico, provocada pela
recente affronta de Lord Salisbury; na agitação do grupo que promoveu
a manifestação não vibrou a alma da Patria: tumultuou o espirito d’um
partido.
Mas de qualquer caracter, patriotico ou politico, essa manifestação,
nas condições em que se realizou, envolvendo a bandeira nacional e a
responsabilidade d’uma povoação, não merece classificação diversa da que
se póde exprimir com estas palavras:
foi =aviltante= para Valença.
Os homens que a promoveram não teem direito á consideração e, muito
menos, ao applauso dos seus conterraneos, porque não são patriotas
sinceros, nem politicos dignos. São escravos inconscientes da politica
sertaneja, d’essa degradante aberração de principios sãos, de crenças
firmes, de convicções honestas, que desorienta, humilha e arrasta pela
lama da indignidade, caracteres respeitaveis e talentos privilegiados.
Envolveu-se n’essa _manifestação_ a responsabilidade de Valença.
Pois, em nome dos brios d’um povo que é portuguez, em nome d’uma terra
que amo, e que se faz respeitar no paiz pela auctoridade intellectual dos
filhos que a representam nos mais elevados cargos sociaes—eu =protesto=
contra o labeu infamante, com que o grupo organizador da manifestação de
14 do corrente aviltou a nobilissima attitude da Patria na desaffronta
d’um insulto e na defeza de direitos conquistados pelo sangue d’esses
heroicos luctadores que,—transpondo novos oceanos e descobrindo novas
constellações, arrostando os ignotos perigos do _Mar Tenebroso_ que a
phantasia popular envolvera na nebulosa dos mythos, luctando contra
a aspereza de inhospitos climas e contra as rudes vicissitudes da
guerra,—ás mais remotas regiões, ás mais distantes e mysteriosas
paragens, levaram o nome portuguez, desfraldando a bandeira, onde
não se lia, como nas dos modernos exploradores inglezes: =Infamia= e
=Oppressão=, mas:
=Liberdade. Civilisação. Progresso.=
* * * * *
—Impulsionou-nos, dizem, o amor da Patria.
Discutamos, então, a manifestação, sob esse aspecto.
* * * * *
Lord Salisbury, representante d’um povo egoista, perfido e covarde,
cuja Historia tem a gangrena da infamia, as pustulas da devassidão e o
excremento das villanias, fustigou com o chicote do seu _ultimatum_ as
faces de todo o homem que se honra com o nome de _portuguez_.
A grosseria avinhada do insulto, a brutalidade do attentado contra
todos os direitos estabelecidos, a ferocidade do egoismo, a covardia da
imposição d’uma besta superior em força, a dolosa argumentação abonatoria
do _ultimatum_ e—sobretudo—a consciencia da nossa fraqueza e da nossa
impotencia para a defeza energica de direitos indiscutiveis,—afistularam
dolorosamente o coração da Patria e, de norte a sul, de oriente a
poente, da cidade ao burgo, homens de todas as classes, de todas as
condições e partidos, sentindo despertar, redivivo e forte, o espirito da
nacionalidade e o orgulho d’outras eras gloriosas, ergueram-se, gritando:
=Infamia!=—e occultaram o rosto, para que n’elle ninguem visse o rubor da
vergonha e o vasquejar do desalento.
A Imprensa, o Exercito, a Academia, a Magistratura, o Commercio, a
Industria, os Municipios, as Sociedades recreativas, as Agremiações
de classes, o banqueiro e o artista, o pobre e o rico,—arrebatados,
galvanizados pela mesma chispa de acrisolado patriotismo—disputaram
primazia de nobreza nos seus protestos.
Mas no rosto de todos esses homens, na eloquencia dos seus discursos,
no ardor das suas invectivas e no esgrimir da sua argumentação, eu vi
sempre, evidentes, sinceros, expontaneos e fervorosos, os impulsos de
nobilissimos sentimentos.
Resaltava-lhes dos labios a indignação e, a espaços, no avincado da
fronte e no amortecido do olhar, eu descubri o anciar d’uma grande dôr e
o revolutear infernal do insulto humilhante, que não se póde vingar.
* * * * *
Um cortejo grotesco, esfarrapado, ululante, recrutado na Parada-velha e
avolumado por essa massa anonyma e inconsciente de povo, babugem na onda
de todas as manifestações e comparsa indispensavel em todas as farças que
tresandem a borga e a quartilhos de vinho, precedia o grupo promotor da
_manifestação patriotica_ valenciana.
Lá na frente, um homem de cabellos brancos, agitando a bandeira da Patria.
No conjuncto, uma arruaça carnavalesca, uma desordenada _fantochada_,
scintillante de archotes, tocos de sebo e phosphoros de espera-gallego;
ruidosa de gaiteiros e caixas de rufo, latas de petroleo, assobios de
barro, arrotos, berros asselvajados, graçolas de bordel, acclamações
roucas e avinhadas.
Nos olhos, nas faces, na voz, no gesto dos promotores da _manifestação
patriotica_, uma alegria evidente, saltitante, irreprimivel, estoirando
nas expansões ensurdecedoras d’um jubilo guindado aos pinos do delirio,
pelo sopro bestial d’uma pandorga de encarvoados hottentotes, já celebres
na _Questão da Santa_.
Abraços, fremitos de contentamento, chapeos no ar, demonstrações de
affecto, apotheoses jogralescas, guizalhadas de truão, vivas a Deus, ao
Rei, ao Regedor da Parochia, ao Exercito, ás Artes, ao pendão das quinas,
a Serpa, aos abbades, ao João da Gaiteira.
Á frente, um homem de cabellos brancos agitando a bandeira nacional.
Dominando a turba, no frontão dos Paços do Concelho, o escudo da Patria:
a honra portugueza aviltada, as tradições gloriosas d’um gloriosissimo
passado, a epopea das Indias, a harpa eolia dos _Lusiadas_ vibrando,
soluçante, com os derradeiros alentos do Infante navegador, de Vasco da
Gama, de Alvares Cabral, de Affonso de Albuquerque, de Gonçalves Zarco,
de Tristão Vaz, de Gonçalo Cabral, de Diogo Cam, de Bartholomeu Dias,
de Fernão de Magalhães, de Godinho de Eredia, de Affonso de Souza, de
D. João de Castro;—a fulgentissima constellação das nossas conquistas:
Ceuta, Arzilla, Cabo Verde, Açores, Madeira, o Brazil, a Guiné,
Mombaça, Quiloa, Mascate, Ormuz, Diu, Calecut, Goa, Malaca, Cananor,
Ceylão—empallidecendo com os clarões avermelhados da archotada.