N’este anno, as corridas promettem. O _primeiro espada_, Senhor Abilio,

foi occultamente a Madrid adestrar-se com Lagartijo e com Frascuelo. O

gado, do lavrador Ladislau, é manso. Tem fraca _pinta_ e pouco _pé_. A

casa está passada para as primeiras corridas semanaes. Ha toiros para

curiosos.

* * * * *

Agora, duas tiradas a serio:

A administração do nosso Municipio anda como V. Ex.ª sabe, querido

leitor, em bolandas e ao deus-dará. Muito lhe poderia dizer a tal

respeito; mas esta gente séria da terra, tanto me tem soprado aos ouvidos

com aquella preventiva phrase de:

_Nem todas as verdades se dizem_

que, _por emquanto_, ainda me resolvo a conservar na minha carteira os

curiosos apontamentos que d’estas coisas de Valença, cuidadosamente

tenho colligido. Prosigamos.

—Approvou-se ultimamente um novo traçado de estradas para o districto;

todos os concelhos foram contemplados, menos o de Valença. Pelos modos,

lá nas secretarias das Obras publicas ainda se não descobriu, ao certo,

se isto pertence a Portugal, se á Galliza. A Camara podia elucidar

este caso e requerer, ou instar por concessões a que tem direito. Os

politicos, porém, teem mais em que pensar... Ainda se não decidiu a

=Questão da Musica=.

—Alli, na Esplanada, amontoam-se, sem ordem nem regularidade, as novas

construcções. Ora, apesar da opposição dos paysanducos, a futura

povoação de Valença ha de extender-se por esses campos fóra, e esta

latrina acastellada com muralhas, poternas e tenalhas, passará a ter o

merecimento historico das ruinas de Lapella, hoje excellentes para ninhos

de morcegos, luras de toupeira e tocas de grillos.

Portanto, a qualquer cerebro medianamente esclarecido parecerá urgente

e indispensavel o levantamento d’uma planta, que desde já disponha, com

regularidade, as arterias da futura povoação.

Não se pensa em tal, nem é preciso. Temos a lei das expropriações. A

ordem é rica, os frades são poucos e os imbecis são muitos. Ha mais em

que pensar. Temos a =Questão da Musica=.

—No centro da villa, ao lado da Ex.ᵐᵃ Camara, existe uma commua, que

chamam: Eschola municipal.

Quando quizerdes avaliar a civilização d’este povo, que se ri de vós—oh

gentes de Monsão e de Coura!—vinde cá, embebei o lenço em agua de Colonia

e entrae alli, na Eschola, onde sem ar, sem luz, sem condições hygienicas

de qualquer natureza, se atrophiam diariamente dezenas de creanças.

Os rapazes, cá na terra, sahem da barriga das mães, já com a caneta

atraz da orelha para escreverem á familia; não precisamos, portanto, de

subsidios do Conde de Ferreira, nem de utensilios escholares.

Corre tudo muito bem. Só falta uma coisa: um pelourinho, alli ao

pé da _Sexta_, com os nomes dos philanthropos que responderam aos

testamenteiros do Conde:

—_Dispensamos o subsidio; não temos terreno para a eschola; está tudo

occupado com cacos de guerra e com o Assento dos militares!_

—Diz-se que é util o saber lêr e, n’esta crença, auxilia-se em toda a

parte a instrucção do povo, fiscalizando-se o serviço das escholas,

animando-se as creanças e estimulando-se os professores.

O pelouro da instrucção (?) no concelho de Valença é um mytho, uma coisa

nominal e hypothetica.

Regateiam, por ahi, miseravelmente, os dois patacos de expediente; e na

Eschola, como verdadeira commua, não ha mobilia, não ha um mappa, não

ha uma esphera, uma loisa, um diccionario. A Camara não gasta dinheiro

n’essas ridicularias; gasta-o, mas com outras applicações, que fazem

parte dos meus apontamentos particulares...

De quando em quando o bandalho da Politica entra tambem nas Escholas; e

d’essa visita, nascem as perseguições torpissimas e ineptas contra homens

que, politicamente podem ter todos os defeitos, mas que para o exercicio

do cargo que exercem, possuem incontestavel aptidão.

—Construiram-se, no largo principal da terra, os Paços do Concelho. O

edificio ficou uma gaiola de grillos, com uma unica porta, para elles não

fugirem, quando lhes appetecer a serradela.

As divisões interiores são d’uma disposição perfeitamente apatetada.

Com as dependencias do Tribunal, repetiu-se aquelle caso dos _moinhos

de Coura_. Lá, só pensaram na agua, quando os moinhos estavam promptos;

cá, só depois do Tribunal concluido, é que surgiu na mente dos illustres

senadores a necessidade _provavel_ d’uma sala para jurados.

Mas o defeito remediou-se e bem.

Fez-se uma especie de espigueiro, um sotão, como os que a gente tem para

extender as batatas por causa do grelo e para lá se manda o Jury. Está

alli muito bem, livre de correntes d’ar, e com grande vantagem para os

curiosos da terra: muito antes que se pronuncie a sentença, já se póde

saber, pela janella das escadas, se o réo vae para a rua, ou para o

_cavallinho de pau_.

Não ha dinheiro que pague esta commodidade.

—Na Coroada, admiram os forasteiros a desconjunctada architectura d’uns

cortelhos, onde, em nauseabunda promiscuidade, se aconchegam de noite:

mulheres, porcos, creanças, bacorinhos, gatos com tinha e cadellas com

sarna.

Em terra menos civilizada, já o _senado_ teria estudado o meio de, por

uma operação financeira possivel de realizar, sem graves encargos,

transformar esses focos de immundicie em habitações economicas, mas

hygienicas.

Mas, então, V. Ex.ª não viu na Exposição de Paris, entre tantas

maravilhas da Arte, as primitivas construcções dos differentes povos?

Pois cá, em Valença, não precisamos de arranjar artificialmente essa

exposição. Alli estão os _cortelhos_ da Parada velha, immundos, doentios,

nojentos,—como nota caracteristica do nosso Progresso moral e material.

—A gente das cidades tem a mania da Civilização. Abre mercados, rasga

ruas espaçosas, aformoseia praças, alinha os edificios e varre as ruas.

Com o pretexto da hygiene e da limpeza faz dinheiro até do esterco.

—_Miserias humanas!—dizem os nossos camaristas. Nas ruas de Valença, o

que cai, deixa-se ficar. Podem-nos chamar immundos, mas ao menos, não

somos dos futres que vendem carros de lixo._

Cá, a gente é assim...

—O concelho precisa de estradas que unam as freguezias e facilitem

as communicações. A estrada de A para B foi considerada, como a mais

urgente, pela importancia (politica, já se vê) de B.

Principiou-se a estrada: terraplenagens, aterros, desaterros, etc.

A folhas tantas, desabou a caranguejola ministerial e o que era

politicamente positivo em B passou para negativo. Suspendeu-se a

construcção da estrada.

Chegou o inverno: lamas, enxurradas, desmoronamentos. O que estava feito

inutilizou-se, mas não importa: a ordem é rica, os frades são poucos e os

imbecis são muitos. Ha mais em que pensar: a =Questão da Musica=.

* * * * *

Junta de Parochia

Instituição composta de differentes membros, sob a direcção do Senhor

Sampaio e patrocinio do Senhor Agostinho. Nada mais, creio eu, é preciso

dizer.

Essa instituição, que n’outras terras presta valiosos serviços á

Beneficencia e á Instrucção, jaz ahi na mais abjecta inutilidade.

A manifestação mais evidente da sua actividade, deu-a na importantissima

_Questão da Porta_, com o Senhor Baptista.

A Junta não tem meios; é pobre, vive da graça de Deus. Tem os telhados

da Egreja desmantelados; não póde gastar um real em adornos, ou reparos,

no interior do templo. Conserva, nos adros, as ossadas dos nossos

antepassados—n’esses adros que a gente pisa, onde os cães levantam as

pernas e dão muitas voltas, fingindo que se sentam; onde, á noite se

baixam as calças e se praticam mil obscenidades. Alli, debaixo d’aquella

terra e d’aquella pedra estão os craneos dos nossos parentes, craneos que

já tiveram carne, olhos, bocca, labios que acarinharam os nossos paes;

estão alli os restos dos braços que aconchegaram ao peito, em noites de

amargura e de afflictiva ancia, a cabeça dos nossos avós, quando a febre

lhes amortecia os olhos e escaldava as faces.

O respeito aos mortos e o espirito da Religião impõem a urgente exhumação

d’essas ossadas e a sua mudança para o cemiterio.

Não póde ser. Não ha dinheiro; a Junta é pobrissima e tem despezas mais

urgentes e indispensaveis, como as que se fizeram com a _Questão da

Porta_. Pois não era um escandalo? Ainda que se empenhasse a Cruz de

prata! Mas não foi preciso; para isso, para a Justiça, ainda a pobre

Junta teve as trinta libras, que a questão levou...

Deus, Nosso Senhor, se lembre, para desconto dos meus peccados, da

repugnancia com que nego licença á penna, para reproduzir as ideas que,

n’este momento, tumultuam no meu cerebro...

* * * * *

—Ascencio José dos Santos deixou á Junta de Parochia de Valença estas

e aquellas propriedades, com o encargo seguinte: instituição d’um

lausperenne mensal com tantos padres e tantas luzes, etc.

Com o rendimento d’essas propriedades pagaria a Junta as despezas do

lausperenne, applicando o restante ao desenvolvimento da Instrucção do

Concelho.

A Junta acceitou o legado, vendeu as propriedades e converteu o producto

em inscripções que rendem, annualmente, _cento e dez mil reis_.

A despeza total dos lausperennes, pagando-se generosamente, é de _doze

libras_, ou _cincoenta e quatro mil reis annuaes_, restando, por

consequencia, um saldo importante.

A Junta de Parochia acceitou, como disse, o legado; mas os mezes passam

e ninguem ouve falar dos lausperennes, porque não se fazem. O Senhor

Sampaio, apesar de ser um homem muito temente a Deus, não quer gastar

dinheiro com padres.

Dispõe do que é seu e faz muito bem.

Estas coisas consideram-se, cá na terra, como admissiveis e legaes. Uns

chamam-lhes descuidos, outros desleixos, etc. Eu pouco sei de sciencias

juridicas; mas confrontando este facto com outros, que por ahi vejo punir

na cadeia, não ha quem me tire da cabeça, que o _descuido_ da Junta entra

na classe d’aquelles _descuidos_, que a Lei chama: roubos.

Pura e simplesmente =um roubo=; ao culto, á Lei, ás crenças d’um morto, á

Moralidade, á fé dos contractos, ás disposições d’um testamento, que em

toda a parte se cumprem fiel e rigorosamente.

E já que o vendaval do Tempo levou os ultimos sons d’essas fervorosas

manifestações de Sentimento, que á beira do tumulo d’um homem que caíu

fulminado defendendo os interesses de Valença, inspirou tanto necrologio

bombastico e tanto discurso farfalhudo—já que em homenagem á memoria do

homem que amou, como ninguem, esta terra, porque tinha na alma a rigida

austeridade d’um caracter impolluto e sacrificava os haveres, como

sacrificou a vida, sem pedir á Politica o salario dos seus serviços—se

não ergueu ainda, ahi, uma voz para reclamar da Justiça o cumprimento

rigoroso das disposições a que se obrigou a Junta de Parochia, seja-me

permittido alterar, por momentos, a feição humoristica d’estes artigos

para, com verdadeira indignação, dizer ás auctoridades que, n’esta

terra, vigiam pelo cumprimento da Lei:

A Junta de Parochia =rouba=, mensalmente, ao culto os lausperennes

instituidos no legado de Ascencio José dos Santos.

Esses lausperennes representam _cento e dez mil reis annuaes_, que são

desviados para applicação illegal e ignorada.

Ha, ou não ha obrigação de cumprir as disposições dos legados?

Ha, ou não ha Lei que peça responsabilidades aos auctores d’estes

_desvios_?

..............................

—Prosigamos, porque a rabeca desafina.

* * * * *

Santa Casa da Misericordia

É uma Santa Casa de Politica.

As eleições disputam-se (tudo por philanthropia) como as da Camara, ou do

deputado. Impera sempre n’ellas, para suprema humilhação dos valencianos,

a massa bruta da Urgeira, porque ha o cuidado de conservar alli a maioria

dos _irmãos_.

Quem escreve estas linhas já teve, por duas vezes, a honra de ser

convidado para _irmão_ da Santa Casa. _Por acaso_, aconteceu sempre isso

em vesperas de eleições. Mero _acaso_.

Na ultima lucta eleitoral entrou uma fornada de 60 ou 70 _irmãos_.

Offereciam-se os diplomas com todas as despezas pagas, e depois da

eleição houve regabofe de castanhas e vinho branco. O moderno _carneiro

com batatas_ ainda não estava inventado.

Foi uma eleição renhida, tenazmente disputada; e, com ropias de parva

politiquice, dotou-se a terra com mais uma loja de... barbeiro!

Deus me livre de duvidar, por um momento, dos sentimentos caritativos dos

especuladores, quero dizer, dos protectores da Santa Casa.

Mas (pergunta-me um diabo que tenho aqui, ao pé de mim, e que desconfia

de tudo), porque será que em todo o anno ninguem se lembra do Hospital

para lhe augmentar os rendimentos, ou para alargar a sua acção benefica?

Porque será que esse zelo se não manifesta agora, auxiliando os

Provedores nos trabalhos da utilissima instituição que o legado Cruz

fundou—o Asylo?

Porque vos não reunis agora em activa propaganda,—oh cafila de

pantomineiros!—angariando no Concelho donativos em dinheiro e em

materiaes que habilitem a Santa Casa a, quanto antes, poder levantar esse

edificio tão util para os infelizes?

—Parece-me (diz o tal diabo) que se a Santa Casa, em vez de ter um

capital de =cento e tantos contos=, em inscripções, escripturas com

hypothecas, e =fiadores= com =paes=, =manos= e =cunhados=, tivesse apenas

algumas de X, ninguem lhe disputaria as eleições.

Que diz V. Ex.ª a isto, interrogando a sua consciencia?

Teremos n’este caso Philantropia, Politica, ou... abandalhado Arranjo?

Em coisas da Santa Casa, _por emquanto_, vem só isto á luz do dia.

* * * * *

Ora aqui tem V. Ex.ª um rapido e superficial exame sobre as principaes

instituições da nossa terra.

A Politica, a Hypocrisia e a Rotina imperam soberanamente em tudo que

póde ser util em Valença. Por isso, quando a gente bate á porta de muitos

filhos d’esta terra, que lá fóra, pela sua posição e pela sua fortuna

podiam auxiliar novas instituições, só ouve queixas, reclamações e justos

resentimentos.

O grande homem da nossa terra seria um velhaco qualquer que em eleição

renhida pudesse _empalmar_ o João de Gaiteira, ou o Abbade de Cerdal.

Se alguem conseguisse isso, á noite, na taberna do Pedro, teria uma

apotheose de _calhos_ e de chouriço com ovos, de rachar tudo.

* * * * *

—Mas, oh sr. Zinão, dirá V. Ex.ª, então não ha por ahi homens que tenham

interesses no Concelho e que lucrem com o seu desenvolvimento?

—Oh, meu senhor! V. Ex.ª sabe quem verdadeiramente mexe os pausinhos da

nossa Politica? São os pyrotechnicos da _Questão da Santa_. São dois

homens que teem tantos interesses no Concelho como eu, que por duas

_perras chicas_ offereço a V. Ex.ª as minhas propriedades. São os que

armam as _baralhas_.

Não teem um palmo de terra que os interesse no desenvolvimento da

Agricultura; não teem uma capoeira nas freguezias, que lhes faça sentir

a necessidade de estradas; não teem relações directas ou indirectas

com o Commercio, nem com a Industria. Entre elles e as instituições

civis ha um abysmo. Nunca fizeram parte d’uma corporação que tratasse

do desenvolvimento do Concelho. De administração municipal sabem tanto,

como eu sei quem V. Ex.ª é. Influencia pessoal: como são dois, levam dois

votos. Tem Politica de sapa. Ensaiam as comedias, põem os actores na rua,

mas quando veem fogo nas barbas da vizinhança mettem-se em casa e fecham

as portas.

Posso francamente asseverar a V. Ex.ª que esses homens inspiram na

povoação mais antipathias do que affectos. Elles que digam a V. Ex.ª se

não teem a consciencia d’isso... Aos que lhes fazem a côrte oiço ás

vezes cada arcada, em surdina...

Um quer por força pôr o pé nas muralhas para trepar á tina, onde se

tingem as meias. O outro surgiu ahi na tripode das sibyllas sem a gente

saber _como_ nem _porque_; dizem que vê as coisas muito ao longe. Ás

vezes adivinha, mas se dá a _palavra d’honra_... é tolice certa.

Ora, como na terra dos cegos e dos dorminhocos quem tem um ôlho é rei, os

homens por cá vão arranjando a sua vida muito honradamente e livres de

vergonhas do mundo.

* * * * *

Esses dois maioraes representam os dois partidos; porque nós, meu senhor,

nominalmente, tambem temos dois partidos, como as terras grandes. A gente

é sempre a mesma.

V. Ex.ª recorda-se do que succedeu ha quinze dias, em S. Pedro, com os

comparsas d’aquelle _Auto_ dos Moiros e Christãos?

O Zé da Cancella, o Chico da Aguilhada e o Tóne do Pernicas, no primeiro

domingo _faziam_ de judeus. N’aquella scena em que, por ordem do

Bento Cambádas, que era o Herodes, matam os innocentes, o publico e

especialmente o mulherio, _escamou-se_ com elles, mandou-os _p’ro raio

que os parta_ e correu-os a _soque_.

No outro domingo nenhum d’elles quiz _fazer_ de judeu e para que a

_peça_ se representasse, metteu-se o Senhor Abbade no caso. Os que eram

christãos passaram para judeus e vice-versa.

Cá, nas farças da nossa Politica, succede o mesmo. Quem faz de Abbade é o

Senhor Administrador.

* * * * *

Ora aqui está, meu senhor, a razão porque o Concelho ganhou o titulo de

_burgo podre_ e a razão porque a gente, quando vae offerecer o circulo

a pessoas serias, como succedeu ha mezes, é posta no ôlho da rua pelo

creado da casa.

* * * * *

Voltemos á =Questão da Musica= e encaremol-a pelo seu verdadeiro

aspecto—o comico.

Esta celeberrima questão, decomposta nos seus factores, baseia-se n’uma

simples formalidade, n’uma pueril e ridicula ceremonia: a licença do

Conde de Lippe, a licença do Administrador, ou uma e outra concedidas ao

mesmo tempo.

É um caso comico, como o do Hyssope.

Examinemos:

A Musica é a applicação artistica do som; influe poderosamente em a

nossa natureza psychica, quer a agite com as sonatas de Beethoven, em

que o Sentimento nos apparece burilado e subtil, como uma cinzeladura

de Cellini, quer tumultue nas estranhas innovações de Wagner, em que a

Harmonia, á primeira audição, nos fére de imprevista e áspera.

Decomposta nos seus elementos, a Musica reduz-se a simples vibrações,

transmittidas pelas ondas sonoras. No caso presente, visto que na

=Questão da Musica= se trata d’um grupo de labregos, que selvaticamente

mortificam os nossos apparelhos auditivos, essas vibrações que, pela

instrumentação, se transformam na Harmonia, partem do organismo humano.

Examinando o organismo humano, verificamos que os elementos essenciaes

á potenciação d’essas vibrações podem, egualmente, ser fornecidos

pelas duas extremidades do canal digestivo e modulados, ou regulados,

pela articulação da maxilla inferior, ou pela elasticidade muscular do

esphincter.

A composição molecular d’esses elementos será pois: oxygenio, azote,

acido carbonico e vapor de agua (caso _a_), ou: hydrogenios carbonado e

sulfurado e acido carbonico (caso _b_).

A sua acção vibratil chama-se vulgarmente sôpro, ou bufo; e n’esta ultima

designação, que é a mais geral, para distincção dos dois casos _a_ e

_b_ relativos á composição molecular, costuma o povo usar do genero

masculino no primeiro caso, e do feminino no segundo.

Assim, por uma rigorosa analyse, de deducção em deducção, chegamos ao

seguinte resultado: que a essencia (caso _b_), o valor, a importancia

d’essa celebre questão, que fez perigar a paz das nações e que, por ahi,

inspirou tanta facecia e tanto remoque de _fino espirito_—é um simples

caso de sôpro, é um reles caso de bufo (_b_).

E continuando a empregar o methodo deductivo, visto que esse caso foi

o producto d’uma laboriosissima gestação politica, com muita vigilia,

muita tactica e muito estudo, por isso que foi cuidadosamente preparada

pelos dois partidos contendores—visto que elle symbolisa e exprime os

valimentos intellectuaes e politicos dos chefes e maioraes—afoitamente

podemos dizer, synthetizando: tudo isso e todos elles não valem um bufo!

(_b_)

Politiquemos:

* * * * *

Os dois partidos prepararam com longa antecipação, no remanso dos

gabinetes, esse estupendo acontecimento.

Mediram-se as forças, calcularam-se os accidentes, preveniram-se as

hypotheses, estudou-se cuidadosamente o terreno, escolheu-se a hora e

inventou-se o pretexto. A malandragem de Ganfey foi assoldadada para

deitar fogo ao rastilho.

Na vespera de rebentar a bomba, descobriram-se os jogos e todos ficaram

logrados. Um dos chefes recebia ordem para ficar ás ordens do outro;

este, esbarrava a cabeça na estupidez do Zé Povo e nos barrancos que a

sua inepcia cavára.

Cá a gente (já se vê) n’essas alturas, arrebitava a pança com o brodio,

a vêr os toiros de palanque; e, como elles ainda escabeceiam no curro,

vae-lhes mettendo a sua farpa muito honradamente.

Depois da explosão da _coisa_, principiou a desembestar-se por ahi a mais

sordida mistela de pilherias apanascadas, que tiveram echo no districto,

como se o ridiculo de tudo isso não fosse bastante para nos fustigar o

rosto e alvoroçar o sangue.

A partida perdeu-se. Quem a pagou (e foi carita) chorou sete dias e sete

noites. Os pyrotechnicos metteram-se em copas. É da praxe: nas barracas

do _Pim-pam-pum_, quem ageita os bonecos não paga entrada. Entra pela

prenda...

* * * * *

Farpeemos...

Depois d’essa dejecção politica, os campos conservam-se armados,

medindo-se os adversarios com rancor. No meio d’elles, lá está o sôpro, o

bufo (caso _b_)—eterno pômo de discordia.

Progressistas teimam em obstar que a gente em occasião de festa, possa, á

noite, dar a sua gaitada por essas ruas e muralhas.

Regeneradores, pela penna auctorizada do Senhor Joaquim, como Juiz da

Senhora da Saude, invectivam o Ministerio, reclamando a livre expansão do

bufo (_b_).

E agora, que estamos em maré de syndicatos, n’esta carencia de bufo

(_b_) muito dinheiro podiam ganhar alguns senhores cá da terra e aquelle

barqueiro de Vigo...

Ha coisas que, guardadas, engarrafadas, servem para occasiões de falta e

dão muito dinheiro...

* * * * *

O certo é que não se obtem licença para Musica dentro de Valença; ou

porque seja negada por mero capricho do Senhor Administrador, ou porque a

recuse o Lippes.

Porque nós—louvado seja Nosso Senhor Jesus Christo—somos cidadãos tão

portuguezes, como os de Coura; pagamos decima, como os de Coura; damos

votos, como os de Coura; fazemos filhos para o exercito, como os de

Coura, mas não temos as liberdades civis, que teem os de Coura.

Pelos modos, ainda nos corre nas veias algum resto d’aquelle bulhento

sangue dos nossos antepassados, os soldados de Viriato, que, segundo diz

o Senhor Joseph Avelino, tanto assarapantaram o mundo com os seus feitos;

e o Governo, em vez de uma auctoridade administrativa, manda-nos duas!

—Quer V. Ex.ª dar a sua gaitada? Precisa de dar o seu _bufo_?

Tem de ir pedir ao Administrador e á Praça; e antes de transitar por

essas ruas tem de bufar, voltado para a casa do Governo. Se offerece

as primicias do _bufo_ á Camara, ou á Administração, a Praça amua e ha

baralha, como succedeu com a _fanfurrilha_ gallega.

—Tem V. Ex.ª fogo em casa?

Acodem, logo, da Praça e da Administração:

—Mando eu.

—Não mandas tu.

—Apago eu.

—Apaga tu.

Levanta-se questão; tudo grita, tudo berra, e V. Ex.ª, para se livrar de

prejuizos, o que tem a pedir ao seu Anjo da Guarda é que o deixem ficar

sósinho com o fogo, que é mais socegadinho e pacato.

—Ha _banzé_ no theatro, ou na rua? Lá os temos em disputa.

De fórma que, se um dia, V. Ex.ª por esquecimento, por descuido, larga o

seu bufo (_b_) na cara d’uma das auctoridades, e sem a devida licença,

leva pancada dos dois.

É preso. Chega um paysanduco e agarra V. Ex.ª pelo braço direito. Vem o

Balagota e agarra-o pelo esquerdo.

—Venha para a Praça!

—Venha para a Administração!

Puxa um; estica o outro.

V. Ex.ª atrapalha-se, reclama, gesticula, bufa... (_b_)

Se o faz na cara do paysanduco, mais pancada leva. Se mimoseia o

Balagota, este põe-se ainda mais amarello do que é, e apita.

Santo nome de Maria! O que ha-de a gente fazer?

Sem musica, sem _bufo_ não se póde passar. Fossem-no lá prohibir ao

Senhor A. Seixas! Estoirava... de raiva.

Dentro de casa, felizmente, ainda V. Ex.ª póde mandar tocar a Musica e

dar o seu _bufo_; mas eu estou a vêr isto de tal fórma que, d’aqui a

pouco, se V. Ex.ª, em qualquer sitio, na sala de visitas, na cama—por

exemplo—lhe appetece bufar, tem logo, ao seu lado, um paysanduco e o

Balagota, procurando, investigando, cheirando, esmiuçando, por cima e por

baixo da cama, levantando, até, a roupa para metterem os narizes (imagine

V. Ex.ª a sua desgraça se, para essa operação, lhe apparece o nariz do

Dr. Ladislau...) e berrando depois, irados:

—_Aqui deu-se um bufo!_

E V. Ex.ª terá de pedir perdão, confessar o crime, ou desculpar-se

humildemente, dizendo:

—_Não dei, não, senhor! E se dei... não foi por querer..._

Ora a nossa desgraça!

Oh gentes do Kalakana! que dizeis a isto?

* * * * *

Sinapismos · 第 9 / 17 段