Extasiaram-se perante a pujança granular do regio corcel no Terreiro do

Paço; viram subir o balão que indica o meio-dia; ouviram o carrilhão de

Mafra; estiveram no curro de S. Bento; admiraram o leão da Estrella e os

macaquinhos do Jardim Zoologico; visitaram a esquadra ingleza no Tejo;

sopesaram a _Paulo Cordeiro_; saudaram o Senhor Rei e a Senhora Rainha;

viram as mulas do paço e o bicho municipal; conheceram o Rosa Araujo e o

marquez de Vallada; foram a todos os theatros; mas o que—com certeza—não

viram foi o Museu Nacional, e isso porque... não tiveram tempo.

Teem ido a Lisboa, por vezes; assistiram aos festejos das bodas e dos

baptisados reaes, aos da chegada dos reis de tal e tal; foram, até,

engrossar a pasmaceira indigena na recepção do Principe de Galles,

d’esse exemplar com encadernação de luxo de John Bull—o eterno larapio

das nossas colonias, o traiçoeiro Johnston dos makololos, o perfido

Wellington de 1828, o astucioso Canning, o desleal alliado da nossa

Politica, o insolente comedor dos nossos dinheiros, a quem todo o bom

portuguez devia, respeitando as conveniencias da hospitalidade, voltar,

com despreso, as costas; mas quando n’aquella capital se realisou a

Exposição de Arte ornamental, que foi como o livro aberto onde se

descreveu a riquissima epopea das nossas glorias artisticas, então...

ficaram na Balagota e na rua Direita porque... não valia a pena!

..............................

* * * * *

Aqui tem Vossa Excellencia, sr. Macedo, os homens que se negam a

entregar-lhe os quadros e a cadeira de S. Estevão.

Segreda-se por ahi que muita coisa, reclamada pelo Governo, desapparece

antes de entrar no Museu Nacional. Pena é que o Governo não denuncie

os roubos, que tem encontrado quando procede ao arrolamento dos bens

pertencentes ás collegiadas e congregações religiosas extinctas.

A teimosia da Junta é mais um caso porco, para engranzar no rosario das

vergonhas de Valença, onde já brilham a recusa da Eschola Conde Ferreira,

a eleição do sr. Serpa... do Batalhão, a Prisão da Santa, a Questão da

Musica e essas curiosissimas eleições...

Mas Vossa Excellencia, sr. Macedo, resolve facilmente todas as duvidas;

como ellas, em ultima analyse querem dizer:

_Quanto xe nos dão?_

Digne-se Vossa Excellencia mandar ao sr. Agostinho meia duzia de trutas

leopoldicas, de S. Mamede, e obtenha Vossa Excellencia do Governo de Sua

Magestade, que ao sr. Sampaio seja concedido o diploma do unico cargo

rendoso, que lhe falta: o de

sineiro de S. Estevão.

XII

O Senhor Deputado

Mais uma vez manifestou o Circulo eleitoral n.º 3 a sua opinião politica

e, pela acção liberrima e independente do suffragio popular, tem hoje uma

cadeira em S. Bento, o sr. dr. Queiroz Ribeiro.

Nos campos do partido opposicionista lavra o descontentamento com

a decisão dos eleitores; nos arraiaes, em que tremula a bandeira

progressista, erguem-se os clamores da victoria e entoam-se hosannas ao

novo representante do povo.

Os regeneradores negam a competencia de Sua Excellencia para tão elevado

cargo, fundamentando a insufficiencia na pouca edade e escassa madureza

para os negocios publicos; alguns, até, os do respeitabilissimo grupo da

rua de S. João, exprimem e synthetisam todo o valor e força dos seus

argumentos em tres palavras:—até faz versos!

Os progressistas exaltam a aptidão intellectual do seu correligionario;

affirmam que é um rapaz que deve _dar alguma coisa_; servem-se do

proprio argumento dos adversarios—os versos—, impondo-o á consideração

dos eleitores; citam os seus conhecimentos sobre Direito penal, o seu

enthusiasmo pela _nova_ eschola italiana, etc., etc., e rematam por

asseverar que a escolha foi felicissima.

Ora eu, meus senhores, sou tambem eleitor e recenseado na freguezia

de S. Maria dos Anjos; não estou filiado em partido militante da

actual politica, porque sou, como os srs. José Narciso e Santa Clara:

legitimista, genuinamente legitimista, por convicção e por tradição.

Acceitar, n’estas condições, a faculdade do voto equivaleria a approvar

e reconhecer, tacitamente, a legalidade dos poderes que nos regem e,

procedendo assim, faltaria ás minhas convicções e ao respeito que tenho

e devo ao meu Rei, a Sua Magestade Fidelissima o Senhor Dom Miguel de

Bragança, que Deus guarde.

Estou, portanto, n’um campo perfeitamente neutral e insuspeito, ao

abrigo do tumultuar das paixões partidarias, n’uma região serena de paz

e livre reflexão e posso, n’estas circumstancias, dar a minha opinião

sobre a escolha dos eleitores, depois da rigorosa apreciação que fiz dos

argumentos apresentados pelos dois partidos.

Vou ter a honra de a apresentar a Vossas Excellencias.

Na futura Camara electiva devem reunir-se cento e tantos deputados.

N’esse numero entram estrellas de primeira grandeza na constellação

brilhantissima da nossa politica. Ha talentos de raça; espiritos

previlegiados, que honram e ennobrecem o paiz; ha oradores fluentissimos

como os srs. Oliveira Mattos e Visconde da Torre; ha polemistas de

irresistivel logica de argumentação, como os srs. Ferreira d’Almeida; ha

celebridades em todos os ramos das sciencias e da publica administração.

Pois, meus senhores, com verdade lhes digo, que é a seguinte a minha

convicção:—entre todos esses homens, entre todas as individualidades

aptas no nosso paiz para as funcções da representação popular,

ninguem—absolutamente ninguem—nos poderia satisfazer tanto, comprehender

as nossas ideias, adaptar-se melhor á nossa politica, interpretando-a e

assimilando-a nas suas aspirações—como Sua Excellencia o sr. Dr. Queiroz

Ribeiro.

—Ora essa! (ouço eu bradar aos meus amigos, os srs. Joaquim e Abilio, os

mais fogosos caudilhos da politica regeneradora), fará o favor de provar.

A isso vou, meus senhores, e com argumentos leaes, solidos, porque os

sustento com a irrefutavel demonstração, que vou estabelecer dentro do

campo positivo das sciencias abstractas: a logica e a mathematica.

Vejamos, meus senhores, o que é a Politica em Valença? O que foi, o que

é, d’onde vem e para onde vae? Como se poderá e deverá classificar n’uma

terra em que, se a gente vae á estação do caminho de ferro assistir á

recepção do sr. Marianno de Carvalho, ou do sr. Barjona, ou do sr. Lopo

Vaz, ou do sr. José Dias Ferreira, ou do sr. Rodrigues de Freitas, ou

do sr. Consiglieri Pedroso, vê sempre na gare—além dos _engajadores_

dos hoteis e do sr. Capellão[36]—as mesmas caras, as mesmas casacas e

as mesmas cartolas, que, depois, vão acompanhar Suas Excellencias até

Cerveira, com ruidosas e enthusiasticas demonstrações de adhesão e

fidelidade partidarias?

O que poderemos julgar da Politica d’um concelho em que a padralhada, com

o seu rebanho de carneiros votantes, vae, submissa, para onde a toca a

aguilhada da Administração, sem consciencia, nem orientação, nem ideal

politico?

N’uma terra, em que os mais importantes caudilhos teem, na opinião,

a variabilidade constante do catavento de Santo Estevão e em que ha

potestades eleitoraes que, vistas de Coura, são regeneradoras, vistas de

Valença são progressistas e não são barjonaceas e republicanas, porque

ninguem as examinou ainda de Gandra ou de S. Pedro da Torre?

Estudemos os chefes, senhores, que devem representar as tradições,

a opinião, a respeitabilidade dos partidos. Temos d’um lado—o

progressista—o Sr. Dr. Ladislau; temos do outro—o regenerador—o Sr. Dr.

Pestana.[37]

O Sr. Dr. Ladislau sahiu, approximadamente ha seis annos, dos bancos

da Universidade e filiou-se, franca e desassombradamente, no partido

do sr. José Dias Ferreira; hoje obedece ao sr. José Luciano, isto é,

duas opiniões diversas, oppostas, heterogeneas, como as que separaram

e dividiram os guelfos dos gibelinos, os armagnacs dos borguinhões, os

jacobinos dos girondinos, os da rosa branca dos da rosa vermelha, os

malhados dos realistas.

Ora, consultando os trabalhos estatisticos dos mais eminentes

socialistas, sobre a longevidade da vida humana, observamos que a media

actual é de sessenta annos. (Deus n’este caso a prolongue e livre o

Sr. Doutor de dyspepsias hermogenicas, que tão prejudiciaes são á

juventude...)

Se quizermos, pois, avaliar rigorosamente a capacidade opinativa de

Sua Excellencia, nada mais teremos do que estabelecer uma proporção,

admittindo a hypothese mais favoravel—que em egual espaço de tempo não

augmentará a volubilidade. Representando, pois, por _a_ os seis annos

decorridos e os trinta que a Sua Excellencia faltam, por _op_ as

opiniões conhecidas e por _x_ as desconhecidas, teremos:

6 a : 2 op :: 30 a : x.

Operando, encontramos:

x = 10 op.

Reunindo as opiniões conhecidas, temos

x = 12

quer dizer: teremos de pedir, por emprestimo, alguns partidos á Hespanha,

porque cá não os ha para tanta opinião; e, aos sessenta annos, o Sr. Dr.

Ladislau attingirá um grau de _saturação_ partidaria muito superior á que

hoje possue o Sr. Agostinho, que é a coisa mais perfeita e acabada em

Politica, que terras de Valença teem produzido.

Agora, o sr. dr. Pestana...

Eu desejava fazer identica demonstração com referencia a Sua Excellencia,

e tenho, para isso, elementos e factores ordenados; mas são d’uma tal

complexidade e obrigam a operações algebricas tão complicadas, que me

abstenho de aqui as reproduzir, limitando-mo a dar conhecimento a Vossa

Excellencia do resultado obtido.

Para o sr. dr. Ladislau tivemos: x = 10.

Com o Sr. Dr. Pestana chegamos a: x = ∞ isto é, x = infinito. E como o

infinito existe muito para lá dos limites, a que a intelligencia humana

póde levar a analyse, está prejudicado o raciocinio.

Temos, pois, n’estas condições, os dois chefes politicos da nossa terra e

ha vinte e cinco annos, em que aqui resido, os sub-chefes, as potestades,

os abbades e as patrulhas seguem exactamente o mesmo systema.

Os que hontem eram regeneradores, são hoje progressistas, serão ámanhã

barjonaceos e no dia seguinte socialistas. No mundo politico somos

cosmopolitas, e Valença é para o paiz, o que a casa do Sr. Agostinho é

para Valença—um perfeito _caravanserail_!

Synthetisando, eu repito a pergunta, que deu logar a estas considerações,

com que desejo fundamentar a minha demonstração:

Como se deve classificar a nossa Politica?

Politica voluvel, incolôr, de... contradança!

Repito:

de _contradança_.

Ora aqui está, justamente, o ponto de reunião entre ella e a

individualidade do nosso deputado. Aqui está, onde uma e outra se

coadunam, se consubstanciam, se identificam.

Em Politica somos dançarinos. Pois para representar dançarinos e para

comprehender as suas aspirações, como o Justino Soares, ou os srs.

Roldão e dr. João Cabral se não habilitam a um circulo, claro é que se

devia escolher um estranho, versado e perito nos segredos da arte de

Terpsichore. E, para satisfazer cabalmente a estas condições (creio

que os srs. Joaquim e Abilio se não atreverão a refutar esta minha

proposição) ninguem—absolutamente ninguem—se encontraria mais habilitado,

do que o nosso actual representante.

Isto não é uma asserção gratuita. A vizinha villa de Cerveira a

confirmará, quando se torne necessario.

Porque é que o sr. Visconde da Torre não _provou bem_, como deputado?

Porque nunca poderia representar dignamente Valença, com o seu volumoso

abdomen, com a abundancia do seu tecido adiposo, com o pouco desempeno

dos seus movimentos, com a pouca elegancia (perdoe Sua Excellencia) da

sua _linha_. Dançava pouco e mal. Era, mesmo, detestavel a sua posição

quando, pela complicadissima tactica das danças, era obrigado a fazer um

_en avant_. Não tinha _ropia_ nem _salero_, nem _entrain_.

Mas o nosso actual representante...

Que saudosas recordações não originarão estes periodos ás tricanas e

sopeiras de Villa Nova—a chiquita!

Que dulcissimas reminiscencias não entristecerão, por momentos, aquelles

formosissimos rostos da terra das solhas!

Que pranto amargo e copioso não verterá a estas horas o bom e fiel

Maldonado, socio commandita nos bailes do sopeirame!

A Meca, a terna e legendaria Meca, com que acerbo pungir, não enxugará

das mimosas e assetinadas faces as perolas crystallinas, como as do rocio

matutino, que a lembrança de Sua Excellencia, a cada momento lhe faz

brotar das glandulas lacrimaes!

Redomoinhar vertiginoso das valsas; suave enleio de pequeninas cinturas;

exhalações dulcissimas; doces fragrancias de solha e azeite, bacalhau e

alho, das formosas tricanas; noites de amor e de phantasia em que vós,

encantadoras filhas da—_Chiquita_—vos deliciaveis com os _papos d’anjo_

de Caminha e as _roscas_ da Galliza; noites inolvidaveis de luar, em

que os vossos castos seios se alvoroçavam com desconhecidas sensações,

quando Sua Excellencia, sob as janellas, acompanhado ao violão pelo fiel

Maldonado e pela artistica cohorte dos Figaros, soltava ás brisas, com

voz maguada e terna, as melancholicas trovas do:

Gondoleiro, a noite é bella!

Recordações saudosas, miragens gratas e fugitivas... adeus!

Tudo se sumiu na voragem da urna eleitoral!

* * * * *

Eleitores do concelho de Valença!

Nos annaes da benemerita Sociedade Artistica, _Harmonia e Recreio

Cerveirense_, registra-se, como um periodo aureo de engrandecimento e

prosperidade, a epocha em que o nosso Deputado honrou, frequentando, os

salões da Associação.

A arte de Terpsichore obteve consideravel impulso e desenvolvimento. Á

voz auctorizada de Sua Excellencia, transformaram-se os _Lanceiros_,

floreou-se a _Franceza_ e surgiu, vaporosa e louçã, a moderna valsa _a

dous tempos_. Abandonaram-se marcas velhas e rançosas, substituiudo-se

por elegantes _couronnes de dames_ e graciosos _moulinets de chevaliers_.

Foi, pois, profundamente civilizadora a influencia que Sua Excellencia

exerceu nas classes medianamente abastadas:—sopeiras e tricanas—, porque

lhes incutiu os germens d’uma larga intuição artistica e senso esthetico,

já com as brilhantes manifestações da arte de Terpsichore, já com mimosas

producções musicaes, com que Sua Excellencia as deliciava, acompanhado

pelo fiel Maldonado e—em occasiões solemnes—pela brilhantissima cohorte

dos Figaros cerveirenses.

Quem, pois, se atreverá a dizer, quem ousará ahi, dos arraiaes da

opposição, affirmar que não foi acertada e felicissima a escolha?

Concluo a demonstração, srs. Lucas e Abilio. Pódem Vossas Excellencias

refutal-a?

Eleitores do concelho de Valença! Damas e cavalheiros do Club e da

Assemblea! Ditas e ditos do Gremio artistico; tricanagem, technicaphilas

e paradas-velhas dos bailes do Theatro, eu—Zinão—vos felicito!

E vós, vizionarios, descrentes, que por ahi apregoaes a incompetencia

do sr. Deputado, em breve,—eu vol-o affirmo—se dissiparão as vossas

duvidas e os vossos applausos hão-de juntar-se, fervorosos e delirantes

ás acclamações enthusiasticas da grei progressista quando, no proximo

carnaval, assistirdes, nos bailes do Theatro, á verdadeira consagração,

á apotheose do nosso Deputado, vendo-o, como _par marcante_, offuscar a

fama, até hoje immaculada, dos srs. Trincheiras e Zé do Caes, gritando

_ás multidões_, radiante e enthusiasmado, em francez adoptado nos nossos

tricanés:

_An ivant! Chevaliers_ dão as mãos e _les Dames ó miliú_.

* * * * *

Ah Esteves! Ah Caetano!

Que futuro brilhante e glorioso não está reservado para os vossos violões!

Emquanto a nós:

_vá de redrò_, Senhor Doutor!

XIII

Carta ao Zé Senso

TERRAS DA PARVALHEIRA

=Burgo de Paysandu.= Terça-feira,

17 de Dezembro de 1887.

Meu Zé.

Recebeu-se, hontem á noite, o 2.º fasciculo dos _Sinapismos_.

Não sei ainda como te conte o que se passou. Ha onze horas que estou de

cama, a caldos de gallinha e copinhos de geleia.

O Dr. Pacheco só me deixa chuchar uma azinha de pito, de seis em seis

horas, tal é o estado de fraqueza e abatimento em que me deixaram as

violentas commoções, que hontem agitaram este pobre corpo.

Vou coordenar as ideas para te descrever o caso mais extraordinario, que

fastos de Valença podem mencionar ás gerações vindoiras.

Tu sabes o que é o indigena sem illustração: corpo amanhado com borras

de nababo, betume de Prudhomme, com leucocytos de Tartufo e cellulas

philosophicas de Sganarello; alma ingenua, pura, immaculada, feita de

arminho, gesso cré, grude de sapateiro e saliva de Zé Povo; no todo, uma

mescla de tanso, de rufião e de sacripanta.

Sabendo isto, certamente não te admirarás do que vaes lêr.

Quando hontem á noite, já em ceroilas, punha o barretinho de dormir, ouvi

na rua um enorme barulho: tropel desusado, gritos, rodar de carretas,

patadas de mula, tiros, etc.

Como estava em fralda, disse ao Zéca que fosse á janella vêr o que era,

e na minha mente surgiu a idea de que teriamos uma invasão ingleza por

causa dos makololos.

—_São os mokololos? perguntei ao menino._

—_Não sei, Papá. São muitos homens que passam correndo; uns com espadas,

outros com chuços, outros com chicotes, rewolvers, punhaes, facalhões e

espetos, gritando:_

_mata! mata!_

_Vão todos com o sim-senhor á mostra e levam nas nadegas duas manchas

vermelhas, como ficam nas pernas, quando o Papá me deita sinapismos.

Atraz d’elles vem um diabo vestido de amarello, que traz na mão esquerda

umas disciplinas de coiro, com que os fustiga, e na direita um ferro em

braza._

* * * * *

Calcei á pressa as piugas e approximei-me da janella para presenciar tão

inesperado acontecimento. Com o ruido que fiz, abrindo-a, a multidão

parou subitamente. Todas as cabeças se ergueram, todos os punhos se

levantaram, fechados com crispações nervosas; abriram-se mil boccas, onde

rangiam sinistramente os dentes; insultaram-me; chamaram-me _porco_ e

_chulo_; berravam que me haviam de matar, de _escuchinar_, de virar de

dentro para fóra, de arrancar as barbas, as orelhas e mais _isto_ e mais

_aquillo_.

Reparei que aquella medonha e terrivel multidão se dividia em tres grupos

distinctos.

O primeiro era composto de maltrapilhos com feitio afadistado, que uma

collareja porca e abandalhada, a quem ouvi chamar D. Politica, segurava

pelos cabrestos. Zurzia n’elles, com uma aguilhada de ponta d’oiro,

El-Rei buffo, D. Milhão.

O segundo era formado por _patetinhas_, d’estes infelizes, que nos

hospitaes de alienados são conhecidos por _doidos mansos_.

Guinchavam, mostravam papelinhos, davam saltinhos, faziam esgares

burlescos, descobrindo os dentes sujos. Tinha conta n’elles, dando-lhes,

de quando em quando, um pontapé, outra mulher em desalinho e que parecia

soffrer de grande myopia. Conheci D. Idiotice.

No terceiro, então, misturaram-se fedelhos e cães; d’estes _tótós_

pequeninos de pello branco e encaracolado, muito nojentos e muito

libidinosos, que mostram sempre a linguinha quando veem as amas, que

trazem os focinhos molhados com um liquido que lembra, pelo cheiro, a cal

e o peixe da Noruega, e que por ahi chamam, _fraldiqueiros_. Ladravam,

davam ao rabinho, levantavam-se sobre as patinhas de traz, agitando

para cima e para baixo a linguinha, d’onde escorria um fio de baba mal

cheirante.

Aquella multidão saturava a atmosphera de aromas insupportaveis;

distinguiam-se os do bafio, do arroto dyspeptico; este cheiro particular

do azebre, do mofo, da catinga, de pé gallego, de coisas lippicas e

rançosas, que tresandam a raposinho e a chulé.

No ruido ensurdecedor de tanto grito e de tanta explosão de colera,

apenas se percebiam estas palavras:

Mata! Mata o Zinão!

* * * * *

O meu cerebro illuminou-se, então, com aquelles vividos clarões das

grandes angustias; pinoteavam-me na imaginação, em infernal dança

macabra, todas as vibrações das grandes dôres; vergalhadas cyclopicas

açoitavam-me as ideias; a alma rebentava-me com explosões terriveis,

minada pela robulite do terror; o coração desfibrava-se esphacelado

pelas garras do susto; as cellulas nervosas achatavam-se sob a prensa

hydraulica do pavor; o cordão espinal estoirava, esticado pelas furias

da raiva; as saliencias do corpo sumiam-se arietadas pela allucinação;

na trompa de Eustachio trovejavam as maldições; na retina faiscavam

punhaes de odio; na pituitaria abriam chagas os atomos do rancôr; as

cordas vocaes rebentavam com a tensão da ira; as papillas da derme

eram esmagadas pelos martellões da colera; diabos vestidos de vermelho

arrancavam-me os cabellos; harpias esgrouviadas furavam-me a cornea;

satanazes com rabo reviravam-me as unhas; demonios acephalos rasgavam-me

a bocca; morcegos sinistros esfarrapavam-me as carnes; lebreus

hydrophobos roiam-me as cannelas; corujas esfomeadas espicaçavam-me

as orelhas; chacaes lazarentos mordiam-me as nadegas; corcodilos e

jacarandés trituravam-me os ossos.

* * * * *

E no meio de toda essa _coisa_ phantastica, apocalyptica, satanica,

horripilante, onde havia carcavões, fragoas, tenazes, forcas, venenos

de Borgias, estyletes ervados, lanças quichotescas, navalhas de ponta

e mola, balas de papel, espadas de pau, caçoletas e obuzes, explosões

sulfuradas, bofes de leão, tricornios de gazeta, furores de Ugolino,

ciumes de Othello, terrores de Machbet, perfidias de Iago, risos de

Voltaire, astucias de Loyola, sarcasmos de Erasmo, pançadas de capoeira,

chulipas de fadista, rugidos de Adamastor, pedradas de garoto, cobras

e lagartos, viscosidades de lesmas, virus de serpente, commissões de

_quinzes_ e de _paysanducos_, protestos, duellos, policias correccionaes,

boquilhas, aguas sebastianicas, beliscões kilometricos, musas hystericas,

zoilos epilepticos...

—quando contemplava aquelle horroroso quadro em que, as tintas de Miguel

Angelo, o pincel de Rembrandt e a phantasia de Hans Mackart, pintavam a

sede de Tantalo, a insaciabilidade de Gargantua, a podridão de Imperia, o

odio de D. Bibas, o servilismo do eunucho e o calcanhar d’Achilles,

—entre aquelle côro infernal de uivar de feras, clamar de moiros, ulular

de caraibas, guinchar de idiotas, urrar de quadrupedes, pinchar de

macacos, zunir de vespas, silvar de cascaveis, ladrar de _bulldogs_,

d’onde apenas se destacava:

Mata! Mata o Zinão!

—senti alguem ao meu lado.

O tal diabo vermelho pinchára da rua para a janella; extendia-me o braço

e dizia:

—_Oh Coisa! dá cá um cigarro. Casca n’elles, que ainda bolem!_

e desapertando a carcela das calças, voltou-se para a turba e...

_esguichou-a._

Já sabes, Zé amigo, quem elle era:

O Ridiculo.

XIV

A Questão da Musica

(LEITURA PARA HOMENS)

Ha poucos annos, alli pelo Maio, quando a Primavera floresce os campos

e a Natureza parece despertar, com novo vigor, da somnolencia invernal,

Dona Politica sentiu pular o sangue nas veias, reclamando folia e brodio.

Teve uns arrebiques eroticos de matrona insensivel á influencia lunar

e amancebou-se, clandestinamente, com o Conde de Lippe e com o Senhor

Administrador.

Noitadas com um, barrigadas de camarões com outro, lá se arranjou de tal

fórma que, d’essas relações, resultou um producto hybrido:—=A Questão da

Musica=.

Parto acabado, os amantes disputaram a paternidade do aborto:

—É meu!

—É teu!

—Parece-se commigo!

—Não se parece comtigo!

Zangaram-se e ficaram de mal.

Nunca mais se puderam vêr.

A desavergonhada, ora sorri para um, ora para outro; acirrando, assim,

pela sua inconstancia e bandalhice acadellada, o odio dos dois rivaes.

O _mostrengo_ (sahiu femea) veiu ao mundo com todos os defeitos dos Papás

e da Mamã: vaidosa, ridicula, traiçoeira, caprichosa e porca.

Ao nascer, embirrou que não queria Musica. Papás e Mamã teem-lhe feito

a vontade. Qualquer dia, embirra que quer Musica; teremos, então, de

soffrer e pagar as furias dos paus-tesos, até hoje refreadas.

O que por ahi não irá!

* * * * *

A _Comedia da Santa_, ou antes, a =Comedia da Musica=, absorveu e absorve

toda a actividade dos nossos politicos—dos homens que se apresentam á

consideração do povo, allegando serviços e pedindo votos.

E em que diabo hão de pensar esses santos varões, se o Concelho voga em

mar de rosas, com vento fresco e bons timoneiros?

Examinemos, de relance, as instituições da nossa terra:

Camara Municipal

Praça de toiros com serviço permanente. Emprezario: o Senhor

Administrador. Intelligentes: o Senhor Joaquim (por procuração), ou João

Cabral.

Sinapismos · 第 8 / 17 段