N’este concelho de Valença ha só uma força, uma vontade, um poder:—o

Senhor Administrador[33]—quer o represente a taciturnidade esphingica

do sr. Dr. Lopes, ou a gulliverica estatura do sr. Dr. Ladislau,

ou a inoffensiva bandido-mania do sr. Dr. Malheiro, ou a feroz

iconoclastia do sr. Dr. Cabral, ou... a paz d’alma e de corpo do sr. Dr.

Brandão-Malheiro-Lopes da Cunha-Cabral!

Abençoado torrão este, da Patria minha!

* * * * *

Historiamos até aqui. Philosophemos agora, porque a Historia sem a

Philosophia pouco vale e não póde servir, como disse Michelet, para guia

do futuro.

É evidente que não temos organização pulmonar, que desafogadamente possa

funccionar na atmosphera das nossas liberdades civis.

É evidente que, seja qual fôr o proceder da auctoridade administrativa,

só ella póde, quer e manda; e que, no campo a que hoje Vossas

Excellencias são chamados—as eleições—, ella exerce para qualquer

opposição o mesmo terrifico effeito que, em dilatado feijoal, produz para

os pardaes e pardocas, o espantalho armado com dous rabos de vassoira

em cruz, cartola velha no vertice e casacão enfiado nos braços, com as

mangas pendentes e á mercê do vento.

E, evidenciado isto, para que precisamos nós de deputados, seja qual fôr

a chancella que tragam? Que temos nós com o que vae por esse paiz, com o

nariz do sr. Beirão, com a marreca do sr. Hintze, com a somnolencia do

sr. Henrique de Macedo, ou com os chouriços do sr. José Luciano?

Que necessidade temos nós de fazer perder a gravidade aos Ministros,

pondo-os aos saltinhos de contentes, quando o sr. Zagallo, com os

seus Mentores e correligionarios lhes officiam, annunciando que...

deliberaram apoiar a marcha do Governo—ou que diabo lucramos com a

mudança de ceroilas, a que os obrigamos, enviando uma representação

dos tres mil negociantes da terra[34] contra a Companhia vinicola,

communicando, pelo telegrapho, que estão fechadas as quitandas de Valença

e que vate Aurelio Victor Hugo fala ás massas, em imponente e assaz

concorrida reunião politica?

Senhores! Por Deus, simplifiquemos tudo isto; todas estas inuteis

formalidades, que são proprias para terras civilizadas. Fazem perder

tempo, e tempo é dinheiro, como diz o bretão.

Qual é, em ultima analyse, o regimen em que vivemos? O feudal.

Adaptemo-nos, pois, ao que elle nos estabelece e concede. Ahi vae um

alvitre:

Sabem Vossas Excellencias o que eram as antigas _behetrias_ da epocha

medieva: povoações que tinham o direito de escolher o senhor, que viviam

independentes e de portas cerradas, até, aos senhores estranhos. Aqui

estava um modelo, mas lá vae outro, talvez preferivel.

Na vertente meridional dos Pyrineus ha uma amostra de estados autonomos—a

republica de Andorra.

Tem approximadamente, sem escandalosa differença, a população d’este

Concelho. Tem legislação civil, militar e religiosa. Tem Governo civil e

militar; Alfandega, Repartições de Fazenda; Camara; Junta de Parochia;

o seu Cordão sanitario de quando em quando; lazareto com respectivas

rações; reforma de matrizes; irmandades e confrarias; isto é, nicho para

todos os pretendentes.

Ora aqui está o que nos serve. É uma organização baratinha e fica em casa.

Proclamemos hoje mesmo a nossa independencia! Behetriemo-nos!

Andorriemo-nos! Entregue-se o poder a um só homem, que se denomine Rei,

Imperador, Presidente, Syndico, Regulo, Papa, Bispo, Soba ou Cabinda!

Precisamos, verdade é, d’uma auctoridade, para regular as nossas questões

e moderar as nossas exigencias.

É necessario que, quando alguem se lembrar de dizer, que as aguas

da fonte de S. Sebastião pertencem á Camara, haja quem garanta as

reclamações justissimas com que o sr. Joaquim prova á evidencia que

são suas, muito suas, embora não se recorde da gaveta onde conserva as

provas, o que póde succeder a toda a gente; quando a vizinhança do sr.

C. Dias, incluindo a Excellentissima Camara, continue a esticar a guita

dos limites das suas propriedades, avançando sobre a que aquelle bom e

innocente amigo possue no Caes, haja quem faça respeitar os seus direitos

e impedir, que nas terras da Saibreira se não possa continuar a observar

o extraordinario effeito da dilatabilidade da Materia sob a acção dos

raios solares, phenomeno alli tão evidente e precioso para o estudo das

revoluções geologicas do globo; quando o sr. Agostinho se lembrar de

mandar vir do extrangeiro casas feitas para os seus terrenos, haja quem

lhe apresente esse doirado codigo, que é o palladio das nossas liberdades

civis—o regulamento do Senhor Conde de Lippe dado ás gentes em 1700 e

tantos.

É preciso, emfim, um braço e uma cabeça.

E quem devemos escolher?

Quando me lembro que estou n’uma terra que não quiz o legado do Conde de

Ferreira; n’uma terra em que, se a gente tiver um nariz, como os dos srs.

Cunha ou Ladislau, e se collocar em noite de eclypse, sobre o telhado da

sua casa, para espreitar a lua, ou escutar a harmonia das espheras, vem

logo o estalão do Conde de Lippe verificar, se dos cabellinhos da venta

á soleira da porta existe, realmente, maior distancia de que 4 metros, 5

decimetros e 6 millimetros e meio do regulamento;—eu, meus senhores, para

o poder supremo da nova organização politica que proponho, só me lembro

de dois homens, que tenho a honra de apresentar á vossa apreciação e

para os quaes, desde já, peço o vosso suffragio, porque estou plenamente

convencido de que hão-de satisfazer ás exigencias e aos deveres da

actividade, firmeza de convicções e orientação politica, que a vossa

orientação politica, a vossa firmeza de convicções e a vossa actividade

lhes impoem.

Eil-os:

O Fileiras,

ou o

Cachimbo dos melros.

Em 20 de outubro de 1889.

Dia da eleição de deputados.

X

Violetas

As imagens até aqui reflectidas no foco da minha lente ficam delevelmente

estereotypadas n’essas paginas, porque é indeciso o traço, debil o

colorido, irregular o contorno e imperfeitissimo o relevo.

Falta ahi a luz indispensavel á nitida percepção de todas as minucias das

individualidades sociaes, que a minha critica envolve, porque não é dado

a espiritos vulgares o emittil-a.

Encontro na expressão escripta as difficuldades caracteristicas

d’essa lesão cerebral, que os physiologistas incluem na classe das

_aphasias motoras_, sob o nome de _agraphia_; e, se até aqui deplorei

as consequencias d’essa lesão, que se oppõe á reproducção fiel das

minhas impressões sobre a sociedade em que vivo, sincero é o meu

pesar, reconhecendo-me incapaz de avivar a imagem d’um vulto, que já

desappareceu sob a loisa dos tumulos, mas que deixou luminoso rasto de

bondade e de honradez nas sombrias atmospheras onde, implacavel e feroz,

se trava a eterna lucta pela existencia.

* * * * *

Schopenhauer filia-se n’essa eschola philosophica, que poderemos

denominar _pessimista_, em que sarcasticamente se dissecam as fibras do

coração humano, negando-se-lhe sentimentos affectivos e a possibilidade

de alimentar aspirações puras e nobres.

Na fria analyse, que o philosopho allemão nos apresenta do homem na

sociedade e na familia, resaltam os exaggeros d’um espirito sombrio, em

que poderosamente influiram a acção morbida de temperamento e a acção

do _meio_: mas ha tambem nas suas paginas grandes verdades que nós,

dissipada a má impressão originada na rudeza da phrase, intimamente não

podemos refutar.

«_O nosso mundo civilizado não passa de uma grande mascarada.

Encontram-se n’elle cavalleiros, frades, soldados, doutores, advogados,

padres, philosophos, que mais sei eu? Mas não são o que representam ser;

são simples mascaras, debaixo das quaes se occultam, a maior parte das

vezes, especuladores de dinheiro._

_Um toma, assim, a mascara da justiça para melhor ferir o seu semelhante;

outro, com o mesmo fim, escolheu a mascara do bem publico e do

patriotismo; um terceiro a da religião, da fé immaculada._

_Para toda a especie de fins secretos, mais de um se occultou sob a

mascara da philosophia, como tambem sob a da philanthropia. Ha tambem

mascaras vulgares, sem caracter especial, como os dominós nos bailes,

e que se encontram por toda a parte; estes representam a rigida

honestidade; a polidez; a sympathia sincera e a amizade fingida._»

..............................

* * * * *

Ora, observando a nossa actual sociedade, n’esta epocha de egoismo, de

ambições, de illegalidades, com que por ahi se conspurcam e desprestigiam

as mais nobres instituições,—n’esta epocha de Wilsons, de Hersents, de

bonds e de processos _da fava_—poderemos, com intima convicção, acoimar

de exaggeradas essas linhas do pensador allemão?

A consideração social chatina-se vilmente nas Bolsas, onde se expõe á

venda com as inscripções de tres por cento. Os titulos do governo teem,

como _bonus_, uma certa maquia de respeito publico; por consequencia,

o valor d’este está na razão directa da quantidade total, que cada um

possue dos outros.

Quem tiver duzentos contos, póde ser um larapio e um canalha; mas, com

certeza, é um homem de consideração.

* * * * *

Antonio da Silva, aquelle carpinteirito da Esplanada, ganhava dezoito

vintens por dia; sustentava mulher e tres filhos.

Adoeceu: contrahiu dividas no mercieiro, na botica e na padaria; deixou

de pagar ao senhorio; pôz no _prego_, a pataco por corôa ao mez, o

relogio de prata, os brincos da mulher, os cobertores do inverno e a

ferramenta.

Esteve dois mezes de cama.

Voltou fraco e abatido para o trabalho. Tentou desempenhar-se. Fazia

serões. Não poude pagar uma divida.

Os credores perseguiam-no.

As mulheres e os filhos não tinham roupa; tiritavam e... choravam.

Um crédor requereu a penhora; levaram-lhe a cama.

Na alma d’aquelle homem havia um inferno porque era honrado—o pateta!—e

era doido pela familia.

Um dia, collou a massa encephalica nas paredes da latrina com a balla do

rewolver.

—Um criminoso—disse o abbade.

—Um caloteiro—disseram os do pataco por mez.

—Um pobre diabo—responsaram as almas piedosas.

—Um pateta de menos—resmungou a sociedade.

A Santa Madre Egreja, toda Caridade e Amôr, recusou-lhe o latim da

padralhada—esse latim tão sonoro, tão vibrante, tão repenicado, quando

responsa o negreiro e o ladrão de gravata, que deixaram quarenta moedas,

para missas de pinto a duzia.

Foi enterrado no fosso, ao lado d’uma pileca do Guilherme; como responso,

teve uma enfiada de pragas dos coveiros, porque estava realmente muito

frio e ainda não tinham _matado o bicho_.

—_Oh estupor—disse o Coruja—podias arrebentar a pinha no verão. Não

tinhas agora tanto frio!_

..............................

Á mesma hora, Henrique de tal, Conde de Burnay, mandava _photographar_

os bonds do sr. Hersent e mais de trezentas carruagens com fidalgos,

bispos, padres, conegos e escorropicha-galhetas varios, acompanharam

até aos Prazeres o cadaver d’um beneficiado na _falcatrua hersentica_,

portuguez abrazileirado, que mantinha relações illicitas com a irmã—o

que era publico e notorio na freguezia, alli para os lados de Penafiel—e

que, n’uma terrifica visualidade do inferno, apartára trezentos mil

reis, adquiridos n’esse infamissimo trafico de carne humana, para missas

cantadas e por cantar.

Viremos folha...

* * * * *

—Mas, Senhor Zinão,—diz Vossa Excellencia—isso é velho, é sediço, é

estafado e massador...

—Esta jeremiada veia a lume, meu Senhor, porque no meio da _reles

pataqueirice_ da nossa actual sociedade onde pullulam os Iagos, os

Tartufos, os Pausanias, os Wilsons, os Tamandarés—toda essa corja

de falsarios, de perjuros e de traidores, que Dante implacavelmente

esfarrapa e esphacela com as torturas do nono circulo—a gente póde soltar

uma exclamação de surpreza tão ruidosa e tão violenta, como aquella

trombetada de Rolando na batalha de Roncesvalles, quando encontra um

homem, caminhando sempre, sem tergiversar, no caminho da Honra e da

Dignidade.

Consagro estas linhas á memoria d’um valenciano, que não deixou fortuna

nem filhos governadores civis, ou deputados, que possam premiar esta

homenagem com um naco do orçamento, como é da praxe pedir e conceder.

Não me conhece a familia que elle deixou; e não é, portanto, o vil

interesse, ou a lisonja porca, ou a torpissima adulação, que actuam na

minha penna, obrigando-a a vergar-se, a perder a inflexibilidade com que,

até aqui, tem fustigado muita importancia ridicula e chata.

Ninguem, no concelho de Valença, até hoje adquiriu maior estima e maior

consideração do que esse homem.

Ninguem, como elle, poderia, mais proveitosamente, especular com o

affectuoso prestigio, que o seu nome alcançou por essas freguezias.

Era, porém, nobilissimo o seu caracter para que lhe permittisse manchar o

nome n’esse bordel de pantomineiros e de histriões que por ahi especulam

com a ignorancia do aldeão, fazendo do voto degrau para chegarem á

mesa do orçamento e poderem roer as codeas babadas, que os Gargantuas

politicos abandonam, ou lamber os productos do vomito, que a orgia e a

indigestão provocam.

* * * * *

Esse homem morreu pobre; não é vergonha dizel-o; mas levem o aldeão

acolá, ao cemiterio, mostrem-lhe todos esses mausoleus de marmore

e de granito, e perguntem-lhe qual é o nome que, ainda hoje, mais

affectuosamente vibra na sua alma rude, mas sincera.

Dizem que as mulheres de Sparta, fazendo ajoelhar os filhos sobre o

tumulo dos grandes heroes, alli lhes referiam os feitos gloriosos que

insculpiram os seus nomes no livro d’oiro da Patria.

Era assim que ellas preparavam a vigorosa musculatura dos futuros

cidadãos da grande republica.

Como ellas, _valencianos dignos_, quando a razão dos vossos filhos

estiver preparada para receber os germens, que mais tarde devem

fructificar na Honradez, apontae-lhes para essa pagina que, por

escrupuloso respeito e por enthusiastica veneração, separo das outras,

onde escouceiam ridiculos.

* * * * *

Zinão descobre-se, perante o nome que alli vêdes.

XI

Os Quadros da Collegiada

A Arte nasceu d’esta nobilissima aspiração do espirito humano para, na

investigação do Bello, dar á Materia a fórma das suas idêas e das suas

crenças.

O desenvolvimento intellectual de um povo e a sua influencia na obra

da Civilização, podem estudar-se nos diversos productos, em que se

reproduziu o genio dos seus artistas.

Aos _dolmens_ e _menhires_, aos toscos instrumentos das edades

paleonlithica e neolithica succedem essas colossaes construcções das

margens do Nilo, as pyramides, os templos, as esphinges; os bronzes, as

loiças e esmaltes, já de notavel perfeição, dos antigos egypcios.

Surge, depois, o povo helleno com a sua admiravel architectura; com as

formosissimas e inimitaveis estatuas de Phidias e de Lysippo; com a Venus

de Milo e o Apollo de Belveder; com as formosas telas de Zeuxis e de

Parrhasio; com todas as maravilhas, emfim, d’essa assombrosa civilização

tão alta e tão brilhante, que ainda depois de passados vinte seculos,

quando no horisonte despontavam os primeiros clarões da ridentissima

alvorada—a Renascença—era ainda d’ella que, para geniaes concepções,

recebiam inspiração e luz esses divinos artistas, que se chamaram Vinci,

Raphael, Ticiano, Carrachio e Miguel Angelo.

Com a Renascença accelerou-se a marcha evolutiva da Civilização; e o

espirito do homem, depois de enriquecer as sciencias com preciosas

descobertas, de desenvolver as industrias com novas e utilissimas

applicações, crystallisa-se em fulgidas creações onde, com toda a nitidez

de contornos, com toda a opulência de colorido, com toda a fidelidade

de cambiantes e com todos os esbatidos do iris se reproduzem as mais

extraordinarias maravilhas da formosissima Mãe—a Natureza.

A Historia da Arte é a Historia da Civilização; é a Historia do Homem no

seu _meio_, nas suas crenças, nas manifestações da sua intelligencia, nas

aspirações da sua alma, na grandeza dos seus affectos.

Estudando o Homem, estuda-se a Nação e a influencia que ella exerceu nas

outras sociedades constituidas.

São, pois, d’uma benemerencia incontestavel os esforços e os auxilios com

que n’um paiz se tenta colleccionar, agrupar, reunir todos os elementos

que possam reconstruir a sua historia artistica; e como essa empreza,

de larga magnitude e importancia, só é cabalmente desempenhada pelo

Estado, dever é do cidadão illustrado cooperar, quanto possivel, no

desenvolvimento das instituições que possam mostrar aos extranhos o que o

genio nacional produziu e creou.

Com uma vergonhosa teimosia e deploravel inconsciencia, a esse dever se

nega a actual Junta de Parochia de Valença, recusando-se a entregar ao

delegado do Governo os quadros e a cadeira, que pertenceram á extincta

collegiada de S. Estevão.

* * * * *

Senhores da Junta,

ou antes

Senhores Agostinho e Sampaio:[35]

conversemos.

Vossas Senhorias, n’essa manifestação volitiva, (saberão Vossas Senhorias

que _volitiva_ significa: emanada da vontade) n’essa tenaz opposição as

ordens do Governo, devem estribar-se n’uma razão, n’um argumento, n’uma

conclusão qualquer. Mas eu—com franqueza—como conheço perfeitamente,

por dentro e por fóra, (deixem-me assim dizer) o que Vossas Senhorias

valem em materia de zelo pelas instituições, que estão dependentes das

suas luminosas e peregrinas deliberações,—eu, que me recordo muito bem

que Vossas Senhorias, que hoje energicamente bradam aos céos contra a

reclamação do Governo, são exactissimamente os mesmos que, ha quatro ou

cinco annos, deixavam estragar esses mesmos quadros e essa mesma cadeira,

consentindo que um _Terrinha_ as borrasse com verniz de portão, depois

de borrar, tambem, os peitos da Virgem do leite,—eu que me recordo

ainda, que foram tambem Vossas Senhorias os _engenheiros_ n’aquella

boçal mutilação da fachada de Santa Maria, parvoamente _restaurada_ ha

annos,—eu, emfim, que (sem offensa) avalio a capacidade intellectual

dos seus, aliás preciosos cerebros, como insufficiente para conter

umas tristes cellulasitas, onde se aniche um errante atomo de intuição

artística; porque, afinal de contas, estas coisas de Arte não são

precisamente o mesmo que coisas de bombas, ou de receitas eventuaes e

decimas de juros,—eu, repito, não posso explicar satisfactoriamente ao

meu espirito a causa do proceder de Vossas Senhorias.

Por zelo nos interesses da Junta não é—com toda a certeza—que Vossas

Senhorias se revoltam contra o Governo. Isso é coisa averiguada,

conhecida, evidente, que não admitte réplicas e a que não convém, mesmo,

contestações.

Recearão Vossas Senhorias que esses objectos, passando para as mãos do

Estado, se _extraviem_, ou _percam_?

Repillo, como absurda, a hypothese, porque só com tristissimo desalento

veria dois funccionarios publicos suspeitarem de _larapio_ o Governo que

lhes paga.

O que é, pois, que actua nos seus cerebros?

Não o sabem, mas sei-o eu.

O que obriga Vossas Senhorias a esse tristissimo papel é isto:—o

rheumatismo, o barretinho de seda preto, o cano das botas, os

suspensorios, o alçapão das calças, a caixa do rapé, o pingo, a caspa; é

essa maldicta enfermidade epidemica, peor do que a actual _influenza_,

porque não ha profilaticos que a debellem, e que se origina nas

exhalações mephiticas e deleterias dos fossos e das muralhas que teem

musgo, ratos, corujas, toupeiras, morcegos e silvados coevos do mammuth;

é essa coisa que sendo incorporea, invisivel, imponderavel, tem a rigidez

bastante para encravar a roda do Progresso; que sendo inerte e fria,

tem a temperatura sufficiente para caldear os embolos da Civilização;

é—finalmente—a rotina!

Vossas Senhorias, com essa teimosia, recordam-me (salvo o devido

respeito) aquella conhecida anedocta do gallego:

Alonso Perez y Perez ouvira dizer na sua terra que em Portugal se

ganhava muito dinheiro, mas que era necessario pedir, exigir e reclamar

sempre mais do que se recebesse por qualquer serviço.

Perez y Perez entregou a mulher ao diabo, digo, ao Abbade e atravessou a

fronteira, dilatando os póros de todo o corpanzil para, como ventosas de

tentaculos cephalopodes, absorverem quantas _pesetas_ e _perras chicas_

fosse possivel.

Caminhando por essas estradas fóra, ao terceiro dia, veiu o cansaço;

vergava-se-lhe o corpo, dobravam-se-lhe os joelhos, incharam-lhe os pés,

pesava-lhe a cabeça: prostrado e doente, abeirou-se da valeta e cahiu

succumbido, recordando com saudade as veigas da sua terra, a familia,

a vacca e os bezerros, a missa do domingo, o recorte das montanhas, as

columnas de fumo que, ao toque das Trindades, se evolavam no esbatido

azul dos céos, o balido das ovelhas, o piar das avesinhas, todas essas

coisas—emfim—saturadas d’um sentimentalismo feroz e piegas, que tão

violentamente agitavam a alma do Justininho, quando elle concebia

aquelles preciosos folhetins do _Noticioso_.

N’isto, passa na estrada um almocreve com a sua enfiada de machos e,

vendo o gallego n’aquelle misero estado, convida-o carinhosamente a

escarranchar-se n’um dos animaes.

—_E quanto xe me dá?_

—pergunta o bruto.

* * * * *

Vossas Senhorias, n’esta estrada do Progresso, são (salvo o devido

respeito) uns verdadeiros Alonsos.

Como portuguezes, que põem luminarias á janella no 1.º de dezembro e

no anniversario da Carta, devem amar a sua patria; como funccionarios

publicos devem interessar-se no engrandecimento d’ella; como homens do

seculo XIX, que usufruem todas as vantagens e liberdades que

tanto sangue custaram, n’essa sangrenta lucta do despotismo e das trevas

contra a luz, devem contribuir para que aos seus filhos seja entregue

intacto, pelo menos, o inestimavel patrimonio da Civilização, que

herdaram dos seus Papás.

Ora, uns homens que por esse mundo de Christo, consagram toda a sua

existencia no estudo dos meios, que podem elevar e engrandecer os

povos, reconheceram a enorme utilidade das collecções artisticas, das

bibliothecas, dos museus, de todas as instituições, onde se enthesoiram

os productos do espirito humano na sua marcha evolutiva atravez dos

seculos.

Esses homens dizem a Vossas Senhorias:

Pretendemos reconstruir a historia da Arte portugueza, reunindo e

dispondo convenientemente, chronologicamente e por distincção de

escholas, n’uma boa sala com ar e com luz, essas telas, que Vossas

Senhorias por ahi inconscientemente dependuram em paredes humidas, e

imbecilmente inutilizam, mandando, de quando em quando, envernizar, a

brocha, pelos _Terrinhas_.

O Estado toma conta d’isso que lhe pertence; e, quando Vossas Senhorias

tiverem uns amigos hespanhoes, francezes, inglezes, turcos ou moiros,

que lhes perguntem, fazendo obra pelos mais aperfeiçoados diccionarios

geographicos extrangeiros, se Portugal é provincia hespanhola, ou

ingleza—podem leval-os ao Museu nacional, onde lhes provarão que somos

livres, que temos Historia mais brilhante que a d’elles, que temos Arte,

que temos Civilização, que temos alma nacional que já se expandiu pelo

mundo inteiro com o genio dos grandes heroes e dos grandes artistas.

Dirão mais a Vossas Senhorias:

Se tiverem filhos que necessitem de estudar a Pintura, ou as Artes

decorativas, ahi ficam á disposição d’elles todos esses productos que

permaneciam dispersos, ignorados e inuteis pelas egrejas sertanejas. Ahi

encontrarão, tambem, para o estudo comparativo, exemplares da eschola

hespanhola, com as telas de Velasquez, de Murillo e de Ribera; ahi está a

eschola flamenga com Rubens; a hollandeza com Rembrandt; a italiana com

Raphael, Ticiano, Tintoreto, Miguel Angelo; podem entrar, ver, estudar

minuciosamente, copiar—nada pagam.

E, apesar de todas estas incalculaveis vantagens, exclamam Vossas

Senhorias:

—_e quanto xe nos dão?_

* * * * *

Vossas Senhorias teem ido, por vezes, a Lisboa.

Lembro-me, até, que muito antes que Succi fosse conhecido com os seus

jejuns, já a gente por cá admirava as especialissimas propriedades da

membrana mucosa do estomago do sr. Sampaio, que não segrega sómente succo

gastrico, mas, tambem, succos nutritivos, como se evidenciou n’aquella

viagem, em que Sua Senhoria, tendo sahido da Balagota com o cabazinho

repleto de pastelinhos de bacalhau e de girimu, pitos assados, rabanadas

e cornuchos, com elle intacto, depois d’uma ausencia de oito dias, na

Balagota entrou.

Vossas Senhorias teem ido, por vezes, repito, a Lisboa. Conhecem tudo o

que existe na capital.

Sinapismos · 第 7 / 17 段