«_Muito estimarei que ao receber estas mal esboçadas regras, esteja

gozando perfeita saude, em companhia de quem mais deseja, pois a minha,

graças a Deus, ao fazer d’esta, é boa..._»

sahiram-se com puxadas de estylo de rachar tudo, graças á

communicabilidade galvanica do intellecto fonsecoide, saturado de

rhetorica e prenhe de syllogismos irrefutaveis.

* * * * *

Mas vem cá—oh Fonseca—O que é, afinal, que pretendes dizer na _tua_, com

essas sessenta epistolas?

Que diabo te disse o _Noticioso_, que tão violentamente arrepiou a tua

espinha, como se te communicasse a irritabilidade nervosa do galvanismo?

Offendeste-te por elle affirmar, que na sessão dos _quarenta-maiores_,

o teu esplendido discurso não foi improvisado e que houve, até, quem te

desse o _ponto_?

Mas—oh filho—suppões, acaso, que no intimo da alma dos nossos

conterraneos não existe, profundamente radicada, a absoluta confiança

nos teus dotes oratorios, embora se reconheça, sem desdoiro, que não és,

precisamente, o que se póde chamar um Pico de Mirandola?

Então não está ahi, bem pronunciado, no teu luzidio craneo, o

extraordinario desenvolvimento da terceira circumvolução cerebral, em que

Broca localizou a eloquencia e a arte oratoria?

Olha, Quim, um conselho de amigo:

As tuas sessenta epistolas,—embora, verdadeiramente, se não saiba, ainda,

para que as escreveste e para que incommodaste tanto cidadão pacato,

tanto cerebro, tanta caneta, tanto bico e tanto papel de chupeta—estão

boas; isso estão. Mas ouve, filho, a respeito de litteratices, de

cartas—isto é—de escripturas e de lettras, manda-n’os algumas, mas

d’essas que tens com hypothecas e com fiadores.

As que para ahi estás a publicar, guarda-as, para quando não tiveres quem

te _chegue o papel_...

Não maces mais a gente, que tem de aturar bissemanalmente o _Noticioso_,

diariamente o Marilio[28] e—aos domingos,

o João de Ganfey.

IX

Politiquices[29]

Anda coisa no ar...

A horas mortas, nas sombras da noite, quando as venerandas paternidades

desatam pachorrentamente os nastros das ceroilas e extendem as

delgadas tibias entre a alvura dos lençoes, deliciando-se com a

voluptuosa sensação do linho—quando os technicaphilas experimentam

a potencia dynamica do coice e a rigidez do craneo contra os muros

e bancos de praça, e as sopeiras, sedentas de luxuria e amor, abrem

sorrateiramente a janella para sentimentaes gargarejos com almiscarados

artilheiros—quando o beateiro resmunga entre bocejos, n’este meio

cá—meio lá, da somnolencia, o ultimo _Paternoster_, e dois amigos meus,

dos respeitaveis e probos, depois do nocturno repasto, se entregam,

extramuros, a indigestos estudos de anatomia... _patriotica_—n’essas

horas da noite, repito, nota-se nas ruas de Valença um movimento

desusado, extraordinario e inquietador para quem de perto conhece, como

nós, a indole pacifica e a habitual obediencia dos nossos conterraneos ao

toque militar das oito e meia.

Cruzam-se vultos mysteriosos e sombrios, murmurando rapidamente palavras

convencionaes; a frouxa luz dos candieiros projecta nas calçadas a sombra

de longos _capindós_, de amplos _libertés_ com que, indubitalmente,

conspiradores sinistros, caras patibulares e alvellicas, se disfarçam e

acobertam.

Denuncia-se, emfim, a effervescencia d’uma agitação occulta, surda, quiçá

perigosa e violentissima, que prepara para breve, na historia d’este

brioso povo, acontecimentos extraordinarios e imprevistos, que hão-de

suscitar aos pósteros um ponto de exclamação tão elevado, tão grande

e tão alto, como o sr. professor de Verdoejo, como o nariz do sr. dr.

Ladislau, ou como um chapéo siamez que, ha um bom quarto de seculo, eu

por ahi vejo, nos dias festivos do anno, luzidio e repontante, contra o

ether dos céos.

Mercê da perspicacia e actividade do zeloso Commissario das Policias,

o sr. Sampaio, está já conhecida a causa de tal agitação; e á amizade,

com que esse cavalheiro me distingue, devo eu a possibilidade de aqui a

communicar aos meus conterraneos, para tranquillidade das damas nervosas,

das donzellas chloroticas e hystericas, que se tenham inquietado com o

que acabo de denunciar.

Trata-se d’uma conspiração politica.

Preparam-se traças; urdem-se planos; consultam-se esphinges;

interrogam-se oraculos; assediam-se as potestades eleitoraes; arietam-se

as opiniões renitentes; hypnotisam-se os refractarios á conversão

desejada, e tudo com a intenção sinistra e machiavelica de attentar,

nas proximas eleições, contra a soberania e omnipotencia do senhor

feudal d’este burgo, de quem tudo-lo-manda, o muito alto, poderoso, e

excellentissimo Senhor Administrador do Concelho!!

Quem diria, senhores, o que no ultimo quartel do seculo teriamos de

presenciar n’esta nossa terra tradicionalmente fiel ás instituições,

cégamente obediente aos poderes constituidos, amante do seu Rei e de toda

a sua Excellentissima familia (como se diz em Monsão)—n’esta terra onde,

depois que os legendarios 7:500 bravos implantaram e regaram com o seu

sangue o systema constitucional, inaugurando essas grotescas bambochatas,

chamadas eleições, nunca os nossos antepassados tiveram a ousadia de

contestar a opinião, as ideas do Senhor Administrador, embora ellas

fossem tão extraordinarias e tão estramboticas como o dizer-se agora—por

exemplo—que o sr. José Narciso não acceita a legitimidade dos direitos

do Senhor D. Miguel de Bragança; que o Senhor Velloso, com o seu bigode

negro e a alvura immaculada do seu collete branco, não é, para as damas,

o mais esbelto e airoso joven, que terras de Portugal téem exportado

para a nossa galeria aduaneira, ou ainda, que o Senhor Agostinho não

significa na politica um caudilho poderoso, um sectario fiel, seguro e

intransigente do partido progressista—regenerador—constituinte—reformista

esquerdista—republicano—socialista.

Mas, perguntarão Vossas Excellencias, não faz Valença parte d’um

circulo? Não téem os seus habitantes, como os d’outras terras,

semelhantemente illustres—Fornos de Algodres, Terras de Bouro, Cannas

de Senhorim—direitos e regalias que a Carta Constitucional da Monarchia

concede para a amplissima e plenissima liberdade da opinião, em materia

de eleições?

Verdade é.

Temos os mesmos direitos e á custa do mesmo preço...

Pagamos religiosamente as nossas decimas, as nossas congruas, sem

contestações, nem aggravos, desprezando, até, com generosa e espartana

altivez os quebrados, os dois, tres e quatro reis—uma ninharia—que o

Senhor Recebedor, escravo dos dictames da sua consciencia, á força nos

quer devolver.

Mas, eu recorro á Historia, a que Thierry chama «espelho da verdade»

e Michelet «guia do futuro» para affirmar e provar, _urbi et orbi_,

a inflexivel immutabilidade das opiniões politicas da nossa terra,

recordando factos que, fiel e genuinamente, exprimem e caracterisam a

superior orientação, que aqui existe sobre os direitos do cidadão—factos

que não architecto com materiaes da Phanthasia, nem illumino nas

penumbras dos tempos remotos, porque são rigorosamente exactos e coevos

da geração que passa.

Approximava-se, ha annos, o dia em que o povo soberano, forte nos seus

direitos, em troca do liberrimo voto a uma tarraçada de vinho, ou a

indigestão de _calhos_ na cantina eleitoral de Mestre Pedro era chamado a

influir nos destinos da Patria e a metter a sua colherada n’essa sordida

e nojenta palangãna, chamada _urna_, onde com putridas exhalações,

referve e azeda a mixordia das ambições estultas, das vaidades

irritantes, das pressões odiosas, das promessas fementidas, e em que os

ambiciosos e especuladores—os Pausanias e Wilsons de todos os tempos—se

refocillam e afocinham, disputando, á dentada, o appetecido osso do

_arranjo_...

Nos campanarios sertanejos agitava-se o badalo chamando o servo da gleba

que, de roupa domingueira e quinzena nova, se dispunha a, mais uma vez,

com boçal inconsciencia, conspurcar o direito do voto—uma das mais bellas

conquistas da liberdade na sua sangrenta evolução atravez de seculos de

lucta, producto abençoado da laboriosissima reacção que n’essa enorme

retorta, a França, na inferioridade do sudra, na degradação de ilota, nas

algemas do escravo, na dependencia humilhante do servo—como elementos

componentes—provocaram os raios chimicos da formosissima luz d’essa

bemdita, mil vezes bemdita, alvorada de noventa e...

Mas, perdão.

Que diabo estou eu a escrever? _Ridendo_... Eis o meu programma.

Ao largo, pois, logares communs de estafada Historia!

Pensamentos tristes, arredae! Acoitae-vos e multiplicae-vos no cerebro

do Padre Capellão para, nos sermões de sexta-feira santa, com que, tão

auspiciosamente, inaugurou a sua eloquencia n’esta terra, nos descrever

mais uma vez, com a voz embargada pelo sentimento, o martyrio da MÃE, as

afflicções da MÃE a dôr da dita MÃE.

Continuemos, pois, a rir, senhores, um riso bom, sonóro, vibrante e

desafogado, que o riso é das poucas coisas que ainda escapam á rede

tributaria, e representa, n’este arido deserto da vida, a frescura

vivificante e consoladora do oasis.

Ha annos, ia eu dizendo, em vesperas de eleição, teve um vizionario

estranho a ingenuidade de tentar combater o sr. Administrador do

Concelho, arrepiando-lhe a submissão dos eleitores, em determinadas

freguezias.

O caso engatinhou ás culminancias do desafôro; alcandorou-se nos topes do

escandalo!

Apimentaram-se os animos; esturraram-se os genios; apopleticaram-se

os mais sisudos e conspicuos habitantes da rua de S. João—esses

santos varões, que são na nossa terra os genuinos representantes dos

ricos-homens e infanções dos tempos medievaes, sobrios de costumes,

austeros no porte, d’um puritanismo feroz; tementes a Deus, ao diabo, ao

abbade e ao sr. Joaquim Apollinario.

Reuniram-se, em conclave mysterioso, os mais valentes e poderosos homens

d’armas do partido governamental—o unico, n’estes reinos, legalmente

constituido.

Mensageiros esbaforidos chegavam, tressuando, de toda a parte com

informações sobre os manejos do inimigo e, praça aberta á discussão,

depois de grave ponderação e demorada concentração dos espiritos, sahiu

d’aquellas venerandas cabeças o plano de combate que, para efficaz

execução, para infallivel resultado, urgia communicar immediatamente, sem

demoras, nem hesitações, a um rico-homem de Coura.

—Ora, n’aquella epocha, se bem que já estivesse iniciado o caminho

das grandes descobertas geographicas e scientificas, que constituem

a epopeia gloriosa da humanidade, e se conhecessem já, a America, a

Africa, o phonographo, os camarões, o xarope do dr. Gibert e o sabão do

sr. Moutinho; existindo já Pasteur, Jenner, João da Gaiteira, Edison,

os srs. Zé da Rosa e Roldão; se bem que a Sciencia, em todos os seus

ramos, estivesse consideravelmente aperfeiçoada, como por exemplo, a

Jurisprudencia em que, no Direito penal, Lombroso, Garofalo, Aubry,

attenuavam a responsabilidade criminal, combatendo essas brutaes penas

da forca, da guilhotina, do pôtro, e substituindo-as, quando o crime

tinha as revoltantes particularidades de Pantin, de Fuencarral, ou de

White-Chapel, por uma audição, mais ou menos demorada, do drama do sr.

C. Barros, ou d’um discurso do sr. Presidente da Camara—n’essa epocha,

repito, ainda o sr. Miguel Dantas não tinha inventado Coura, a preciosa

povoação, que tanto deu que matutar aos srs. Fontes e Bismarck, nos

procellosos dias da revolução de Bico.

A Mesologia estava, ainda, no estado rudimentar e não tinha definido

e aproveitado a extraordinaria influencia procreadora do clima, que

n’aquellas uberrimas paragens, melhor do que a Physiologia de Debay, do

que qualquer intervenção abbacial, ou leopoldica, mantem nas robustas

camponezas uma fecundidade tal que, annullando por completo as theorias

de Fourier, na resolução do importante problema do pauperismo, estabelece

para a pittoresca povoação a reputação invejavel e, sobremodo honrosa, de

fabrica permanente de amas para bebés.

Coura, emfim, meus senhores, a indispensavel Coura, estava ainda no

casulo das sociedades modernas, na pevide das povoações minhotas, no

caroço dos baluartes eleitoraes e não podia, portanto, alli influir

a civilização como agora, em que o luxo das edificações principia a

abandonar o colmo na cobertura das casas, substituindo-o por umas coisas

vermelhas e arqueadas chamadas telhas, e em que ha Correio e Telegrapho,

com um movimento tão extraordinario e assombroso, que a gente guinda-se

aos mastaréos da popularidade, trepa aos carrapitos de um semi-deus,

escarrancha-se na celebridade do proprio Boulanger se, n’um só dia,

recebe da familia duas cartas e um telegramma!!

Mas... era necessario lá mandar um proprio, unico recurso d’aquelles

felizes tempos, em que estavamos livres da Companhia real, e podiamos,

sem despeza de testamento, nem afflicções de quem está nas garras da

Morte, tentar qualquer viagem.

E tal era a urgencia, a imprescindibilidade da communicação, que o

portador devia ir a cavallo!

Ora, esta urgencia, formulada na intervenção do rocinante e lançada á

discussão na maior effervescencia do furôr opposicionista, despertou no

espirito dos mais sensatos e perspicazes ricos-homens e abbades um subito

resfriamento de enthusiasmo.

Perceberam o quer que fosse de sombrio e tetrico, que baixou a zero a

ebullição tumultuosa da sua dedicação partidaria.

Como o Mane, Thecel, Phares, que entupiu Balthazar, ou a sombra de Banco

que engasgou Macbeth, ou a estatua do Commendador, que foi para o D.

Juan, de Molière, o que o vulto do capitão Teixeira de Moraes foi em

noite procellosa de inverno, nas cercanias do solar da Balagota, para o

Sr. Sampaio[30] a lembrança do cavallo aterrou os mais ousados d’aquelles

ricos-homens, que representavam, no seu conjuncto, feudos e rendas

superiores a muitas centenas de mil cruzados.

Empallideceram, subitamente, as faces até alli purpurinas e rubras de

excitação; baixaram-se, evitando-se, os olhos, até alli coruscantes de

furôr; cerraram-se os labios, como se uma pressão de muitas atmospheras

actuasse brutalmente sobre as maxillas. Os mais ousados coçavam

nervosamente a região occipital...

É que ao longe, lá muito ao longe, na sombra do magro rocinante,

percebiam elles, já, as formas indecisas e vagas do burriqueiro,

reclamando, com humilde postura—vergado o corpo n’aquelle respeitoso

angulo de 65° com que o nosso homem, o supracitado Sr. Sampaio fala,

cheio de blandicias e ternuras, ao Sr. Dr. Brito—o meio pinto da tabella

para uma viagem a Coura.

Meio pinto, senhores!

Menos do que o Sr. Seixas ganhava n’uma caixa de amendoas, _quando

mostrava a factura_; coisa de dois conselhos do Dr. João Cabral; meia

dose florindica, pagando á Rotschild; o lucro do sr. Fontoura n’uma

tisana de treze vintens.

Meio pinto, senhores!

..............................

Rapida foi a dissolução do conclave. Pretextos futeis, encapotados com

razões imprevistas, fizeram debandar, como corvos açoitados pelo furacão,

os graves maioraes da politica concelhia.

Foi o mensageiro a Coura, e durante muito tempo, nas altas e

transcendentes concepções philosophicas, em que o animalejo

constantemente se absorvia—(indecifraveis para nós, os mortaes, como

a opinião politica do Sr. Vigario Geral, ou como a origem do subito

rejuvenescimento do nosso muito querido Sr. Sampaio ao ler nos jornaes a

palavra _Cordão_)—entrou a influir grave ponderação sobre o alcance dos

decretos da Providencia, que se apraz em confiar de um misero sendeiro a

salvação d’um partido, como do nada, do pó, do humus empapado da chuva,

que demorou Grouchy, forjou o camartello possante, que em Waterloo

esmigalhou o pedestal d’esse feroz açoite da Humanidade, chamado Napoleão.

..............................

Creio inutil dizer que, depois da eleição, para a gamella do burriqueiro

havia mais um commensal... um cão![31]

* * * * *

Prosigamos n’este escabroso trilho da Historia em que, para fiel

e rigorosa exposição dos factos, temos de executar os milagres do

equilibrio de Blondin, ou de Leonne Doré, entre os exaggeros dos

informadores apaixonados e as erroneas reflexões de commentadores pouco

escrupulosos.

Serve-nos de maromba a consciencia e oxalá ella nos guie até ao fim

d’esta penosa caminhada, atravez da original e curiosissima politica da

nossa terra[32].

* * * * *

Indubitavelmente, o dia 22 de Novembro de 1879 é um dos mais memoraveis

para os habitantes d’esta antiga e mui nobre povoação.

Essa data deve estar indelevelmente gravada no livro d’oiro dos grandes

acontecimentos historicos; insculpida, a traços diamantinos, na epopea

das grandes solemnidades de Valença, ao lado das procissões de S.

Sebastião e _Corpus Christi_, grotescas mascaradas, com que no Minho se

avivam as descrenças, digo, as crenças, a ociosidade, a pasmaceira, o ar

marcial e aguerrido das tropas, os namoros, as bambinelas dos armadores e

as transacções do commercio, na sua importantissima secção de: birimbaus,

peixe frito e... limonada de cavallinho.

Foi um dia festivo, solemne; d’aquelles em que o caiado das casas nos

parece mais branco; a porcaria das ruas menos escandalosa; a atmosphera

mais diaphana; o verde das campinas mais vivo; a abobada celeste mais

limpida; o aroma das flôres mais penetrante; a cara dos amigos mais

risonha—um d’estes dias, em que a gente se sente mais feliz, com menos

dinheiro e mais tentações, e em que as fibras do coração que movem o

badalo do enthusiasmo, bruscamente se agitam, como se ouvissemos o hymno

da Carta, um discurso do sr. conselheiro Silvestre Ribeiro, ou como

se os canhões da Coroada, os sinos de Santo Estevão, a bandeira real

desfraldada aos quatro ventos, celebrassem festivamente o anniversario da

Restauração!

Acotovelava-se nas ruas uma multidão expansiva, ruidosa, com a alegria

a pinotear na mioleira; com todos os macaquinhos do sr. Palhares, em

borga infernal no sotão; expondo por ahi, escandalosamente, a habitual

gravidade, de saia arregaçada e peitos descobertos, em desenfreado e

lascivo minuete com as posições officiaes.

Para exprimir tudo, emfim, havia no intimo de cada um, tanta satisfação

e tanta alegria, como hoje sentiria o sr. Joaquim se recebesse

auctorisação do Ministro do Reino para obsequiar o dr. Cabral com todas

as trombetas de Josaphat, sopradas por innumeras legiões d’aquelles anjos

e seraphins de bochechinha gorda e purpurina, que por ahi vemos em S.

Estevão,—embora, para esse justissimo desforço de cidadão offendido nos

seus direitos, de Juiz da Senhora da Saude, affectado nas suas crenças,

tivesse de arredar, das suas arcas de nababo, com arrebatado impulso de

perdulario enthusiasmo, coisa de doze vintens—captivos a troco!

N’esse dia, meus senhores, era restituido o batalhão de caçadores 7 a

Valença, chyprado ao berço da monarchia, á terra dos condes, dos conegos,

das cruzes e dos cutileiros, por Sua Excellencia, o sr. Ministro da

Guerra.

Nada faltou no programma das recepções festivas: coroas de loiros;

discursos do sr. Presidente da Camara; mensagens de congratulação; odes e

alexandrinos do vate Aurelio Victor Hugo; bailes; regabofe nos presidios;

bodo aos pobres; arcos de triumpho forrados a gazetas; musica, foguetes e

luminarias.

O enthusiasmo estonteava os cerebros; alcoolizava os espiritos;

absinthava os animos.

O sr. Francisco Durães, homem sério, pacato e já na escala para

camarista, deitava foguetes na muralha, como qualquer _careca_ sertanejo

em arraial da festeira Urgeira.

Um camarista illustre luctava duas horas, para enfiar no par de

luvas, que por engano lhe tinham vendido para a mesma mão—o dedo

_mata-parasitas_ na casa do _mindinho_.

O sr. Abilio, nos paroxysmos de um enorme enthusiasmo, apparecia de

gravata branca, casaca, no pé direito uma bota de polimento, no esquerdo

um chinelo de liga, representando a Associação Artistica!

E no meio de todo este contentamento, nas expansões de todo este delirio,

um unico nome soava, tangido constantemente pelo enthusiasmo popular,

nas praças, nas ruas, nas lojas, nos clubs,—nome que parecia ser o fóco

convergente para todas aquellas ruidosas manifestações, nome que n’esse

dia tinha mais prestigio que o da Senhora do Faro, nome aureolado, nome

querido de—Elyseu de Serpa!

Victoriava-se Elyseu de Serpa

Discursava-se sobre Elyseu de Serpa

Telegraphava-se a Elyseu de Serpa

Rezava-se a Elyseu de Serpa

e Clero, Nobreza e Povo, fraternizando, hombreando, felicitando-se, davam

largas á plenitude da sua gratidão a Elyseu de Serpa.

Jurava-se aos deuses, pela nossa consciencia, assim dardos de Jupiter

nos partissem, se durante a nossa existencia, embora ella attingisse

a longevidade de um Mathusalem, que viveu, segundo diz a Biblia, 900

annos (o que eu acredito) outro homem se sentasse nas cadeiras de S.

Bento com o nosso mandato, porque Valença tinha contrahido com elle uma

divida sagrada, immorredoira, imperecivel, immensa, de profunda, eterna e

vivissima gratidão.

E se alguem, mais pratico em coisas do mundo se atrevesse a revelar pouca

confiança na estabilidade d’aquelles fervorosos protestos, recordando

que já lá vae o tempo dos Eros, dos Scevolas, dos Martins de Freitas,

dos Egas, etc.,—oh Christos de Villar!—corria grave risco de ser lançado

aos fossos, empalado no pau da bandeira, ou esquartejado pelo primeiro

magarefe, que por ahi apparecesse, em ociosa disponibilidade.

Pois, meus senhores, ahi vae a Moral do conto mais um tento para a

marca preta e um documento para a nossa historia politica. Poucos mezes

depois, mettia o sr. dr. Lopes o seu nariz na Administração do Concelho e

aquelle grande vulto (não o do nariz) absorvia, completamente, todos os

enthusiasmos que descrevi!

A urna entrou mais uma vez no templo, para servir de leito nas sensuaes

orgias do voto com a immoralidade e o sr. Elyseu de Serpa, o mesmo, em

carne e osso, a que me referi—obtinha em todas as assembleas eleitoraes

do nosso concelho:—cinco votos!

Ora, um povo que denuncia tão vehemente firmeza de convicções e de

sentimentos, está—digam lá o que disserem—reservado para grandes destinos.

Abençoado torrão este, da Patria minha!

* * * * *

Com os argumentos irrefutaveis, que os factos nos fornecem, estudamos até

aqui a politica de Valença nas suas espheras mais elevadas, isto é, na

villa e entre as camadas illustradas; e, indubitavelmente, não existe no

nosso espirito outro sentimento, que não seja o baseado em tristissimo

desalento...

Vejamos agora, em breves palavras, antes das considerações geraes, o que

o povo imagina e sabe de toda esta engrenagem que lhe rouba os filhos,

dinheiro e... os votos.

Ha annos, Ramos Paz, que aqui dignamente exerceu as funcções de

Sub-Inspector de Instrucção, presidia a uma conferencia pedagogica nos

Paços do Concelho. Extranhando as theorias apresentadas por um professor,

sob a intervenção da auctoridade administrativa na legislação municipal,

relativa ao professorado, perguntou alizando aquellas grandes barbas á D.

João de Castro:

—Então quem nomeia os professores?

—O Sr. Administrador—respondeu o homem.

—Ora essa! Então as Camaras?

—As Camaras são tambem nomeadas pelo sr. Administrador—confirmou ainda,

com a má interpretação que dera á pergunta.

Meditemos, senhores.

De feito; na ignorancia d’aquelle pedagogo havia uma grande verdade, que

nós, rigorosamente, não podemos refutar.

Luiz XI disse uma vez ao Parlamento, levantando o chicote:

—_L’etat c’est moi!_

Rodrigues Sampaio, não ha ainda muito tempo, que bradava ao paiz:

«O unico poder que entre nós existe é o Rei!»

Nós poderemos plagiar Luiz XI, Rodrigues Sampaio e o pedagogo,

asseverando:

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