Christo expulsou os phariseus e de que côr eu vos poria as nadegas...
* * * * *
As procissões...
Eu não conheço coisa mais estupida, barbara e deshumana.
Felizmente, sou, n’esta opinião, apoiado pelo espirito do seculo que,
pouco a pouco, vae terminando com ellas.
Qual é o fim das procissões?
Qual a sua necessidade?
São para avivar as crenças?
Que ha, por esse mundo de Christo, mais ridiculo e caricato do que
Santas Cocas, bois bentos, S. Jorges de carne ou de madeira, isto é, com
tarracha, ou sem ella, prophetas com barbas de crina, pendões em varas
de pinheiro por descascar, gaiteiros aos pinotes, matulões de cara
aparvalhada e cabello empastado com gomma de pevides de marmelo?
Que ha, por ahi, de mais barbaro e deshumano, senhoras de Valença, do
que essa perigosissima exposição a que, por vaidade, condemnaes os
membros ainda tenros das creanças, carregadas com adereços de pechisbeque
e diamantes de vintem, peito e braços nus, tiritando e caminhando
custosamente, com os pesitos entalados nos escarpes do _uniforme_, e
atiradas, por essas ruas, á voracidade das bronchites e pneumonias que o
frio origina, ou das febres e meningites que o calor provoca?
Dizei-me: a Christo, se é a Christo que desejaes honrar, não seria
mais agradavel que essas duas libras, com que entraes em ajuste d’uma
pneumonia para vossos filhos, lhes fossem entregues para, com ellas,
na bemdita missão da Caridade, penetrarem n’uma d’essas barracas da
Parada-velha e as deporem nas mãos tremulas e descarnadas do pobre velho
que tem fome e frio aos 80 annos, illuminando-lhe assim com a luz do céo,
com a luz de Deus, aquelle tenebroso occaso de soffrimento e dôr?
E quando a creança voltasse a casa, risonha e feliz, como Deus a sabe
dispôr, ao fazer d’ella a mensageira do Bem, não seriam para vós
mais agradaveis as lagrimas da gratidão do pobre entrevado que, como
perolas, deslizassem ainda nas mãos pequeninas, do que esse immundo
cartucho de papel mata-morrão com doces de farinha de milho e assucar
mascavado—suprema delicia dos matulões da Urgeira—com que o boçal e
estupido Juiz da festa lhe paga o papel de comparsa?
Senhoras de Valença, que tendes filhos! Pensae n’isto...
* * * * *
A procissão, que os Paes de familia mais respeitam, é a de
_Corpus-Christi_.
Quando se approxima, é inevitavel a contribuição de chapéos novos para
as senhoras. É uma coisa feia, na verdade, o apparecer-se n’esse dia,
consagrado a Deus, com chapéos de inverno...
Pois se o Blanco os tem tanto em conta... Já se não fala em vestidos,
porque emfim, dá-se uma _volta_ ao do anno passado e ainda póde escapar;
mas o chapéo é da praxe.
As janellas guarnecem-se, n’esse dia, de caras bonitas. Nas ruas, vae e
vem, chibante e taful, a juventude da terra; os aspirantes aduaneiros,
com Velloso á frente, pimpam o oiro dos seus uniformes; barrigudos
camaristas passam, atados á banda bicolor; ha muita gente do povo;
colchas espaventosas, flammulas, etc., etc., e, no fim de tudo, a tropa e
as descargas.
N’este anno, então, essa ultima parte esteve magestosa. Digo a verdade:
manobras assim, tão complicadas e com tanta tactica, só as tenho visto
em França, no campo de Chalons, e em Portugal... no largo de S. João.
Consta-me, até, que para o anno cá temos officiaes dos exercitos
europeus, em commissão de estudo.
Pelo menos, assim m’o asseveram Moltke, Carnot, o Czar de todas as
Russias, o Schah da Persia e o Bey de Tunis. Se o affirmam por lisonja,
sabendo que sou de Valença, isso é com elles.
Vae pelo preço...
* * * * *
Agora as romarias.
Diversos pensadores e philosophos consideram as romarias, como
indispensaveis e necessarias, attendendo a que o povo que, durante seis
dias, labuta e trabalha, necessita de descanço e distracção ao setimo,
para que possa retemperar as forças.
Concordo com isso, mas não colhe o argumento na defeza d’ellas, como
elemento vivificador de crenças.
Quem é que vae á Urgeira, a Ganfey, ao Faro, a Segadães, que não seja por
mero divertimento, por distracção, pela novidade de um caso ruidoso e
differente na pacata vida da provincia?
Quem annuncia em casa á familia a visita á Senhora da Cabeça, ou a S.
Campio, que isso não signifique um dia de _borga_ e de folgança?
Vejamos as coisas como são, limpando o prisma da observação e da critica,
das teias de aranha, com que a rotina, o uso e a tradição lhe mancham a
transparencia.
O que é a «Senhora da Cabeça»?
Um concurso legal de caceteiros.
Perguntem ao meu amigo Joaquim Queiroz, se elle de lá veiu com mais
crenças, apesar dos esforços que os salta-pocinhas de Lara e de Lapella
fizeram, para lh’as introduzir na massa cerebral.
Perguntem a esse amigo, imprudentemente envolvido por generosa
dedicação e por nobre arrebatamento, na batalha de _Montes Claros_, se
essas mulheres, que uivavam como hyenas e clamavam em furia horrenda,
contra tres homens, não eram as mesmas que se espojavam pelo adro da
capella, e se arrastavam de joelhos nas _cinco voltas_ da promessa, com
que, sentindo estoirar o bandulho nos arrancos de brutal indigestão,
recorreram á fama milagreira da Santa...
Perguntem-lhe se esses matulões, que á porta do Chico Mello o cercavam,
embrutecidos pelo vinho, apertando o circulo dos varapaus ferrados,
com gritos de chacal e esgares sensuaes de anthropophagos, não eram os
mesmos que, horas antes, carregavam, como bestas, com o andor da Santa e
abalavam o solo com o poisar da pata na marcha truanesca, pelos atalhos
do logarejo.
O que é _S. Campio_?
A prostituição ao ar livre, sob o manto estrellado da noite, como diria
qualquer poeta; e a charlatanice, fazendo suar o Santo e... os milheiraes.
* * * * *
A pequena distancia d’esta villa ha um burgo chamado—Urgeira. É feudo do
sr. Joaquim. Descendem em linha recta, os seus habitantes, d’aquelles
antigos cultivadores de cebolas do Egypto.
Formam um elemento importante na Politica do nosso Hospital e prestam
assaz reconhecido serviço, nas procissões da Semana Santa. Chegam em
mesnadas, marcham bem, formam, com os seus balandraus, duas alas, já
muito razoaveis e, além d’isso, são faceis de contentar: quaesquer tres
patacos de borôa e zurrapa lhes enchem as panças, depois da procissão, na
sacristia da Misericordia, provocando-lhes sonoro arrôto.
No verão, rara é a noite de sabbado, em que estes pacovios não queimam
algumas duzias de libras, com foguetes de lagrimas e bombas de dynamite.
Ora, no burgo ha pobreza e ha miseria; ha velhos, que gemem na cama com o
frio do inverno e ha creanças esfarrapadas, que chafurdam no lamaçal dos
becos; ha aleijados, que se arrastam até á villa mendigando o _chabo_.
Com esses 500, ou 600 mil réis, que annualmente se gastam em festas,
podia a Junta de Parochia fundar um Hospicio para os velhos, e
estabelecer uma sopa economica para os famintos.
Mas a pandega? O grande brodio da vespera da festa? A _figura_ que se faz
na procissão com a vara de Juiz?
* * * * *
Necessita o povo de distracções.
Verdade é, mas dêem-lh’as que o civilizem e não que o embruteçam.
Festas, Romarias e Procissões são ainda vestigios d’aquelles primitivos
tempos, em que era necessario inveterar pelo mysticismo, pelo apparato e
sumptuosidade das manifestações, o espirito da crença.
Mas hoje, em que para o plebeu entrar no templo até á grade, onde a
aristocracia aninha, se lhe exige roupa lavada e calçado decente; hoje,
em que elle vae á romaria para jogar o pau, beber vinho e entregar
fielmente á _Batota_ a féria da semana—acabem com tudo isso e deixem
ficar a Religião nos templos, e só nos templos, d’onde nunca devera ter
sahido.
E, para divertir o povo, substituam, então, esses grotescos cortejos
de Santos, entre espelhos de pataco e plumas de gallo, por verdadeiras
procissões civicas, onde figurem os heroes da nossa Patria, que os temos
tantos e tão dignos d’essa apotheose.
Em vez de pulpitos ao ar livre, levantem-se tablados, onde se reproduzam
os factos mais gloriosos das gloriosissimas epopéas que, a um paiz de tão
acanhadas dimensões, deram a celebridade das grandes nacionalidades.
Organizem-se-lhe jogos, luctas, em que se adestre no exercicio das armas
e possa desenvolver os musculos e a energia, de que tanto necessita para
a constante lucta da existencia.
Conte-se e mostre-se ao povo o que fomos, e assim, distrahindo-o, lhe
incutiremos os germens d’esse sentimento, que é o principal impulsor dos
grandes feitos e das grandes civilizações—o amor da patria.[24]
Basta de coisas de egreja. E agora,—beaterio da minha terra!—um Padre
Nosso e uma Ave-Maria por este Zinão, que já está ás portas do inferno...
mas esperando que entreis, para atrancar solidamente a porta e assim vos
acabar com a raça!
_Pater Noster..._
VII
Litteraturas
(DUAS PALAVRAS)
Claro é que, tendo subordinado o programma d’este livro ao titulo de
_Estudos sobre a actual sociedade valenciana_, me não posso esquivar
a fazer incidir, por momentos, na minha lente de observação, os raios
luminosos que os nossos _homens de lettras_, semanalmente, fazem
convergir no fóco das _lamparinas_ cá da terra.
N’esta epocha, em que legalmente está em uso, reconhecida e sanccionada,
essa nojenta e nociva convenção litteraria do _elogio-mutuo_, que tanto
talento atrophia, que tanta intelligencia embriaga com os aromas d’um
incenso macanjo, parvoiçada é—reconheço—o meu proposito, que significa
perigo eminente nas cannelas, irremediavelmente condemnadas á dentuça
dos _critiqueiros_.
Limito a area da observação com as muralhas da Praça e d’ella exceptuo,
ainda, algumas individualidades que, demasiado, me ferem a retina com
o seu talento, e que a insignificante distancia focal da lente me não
permitte abranger.
* * * * *
N’esta nossa terra, a penna serve, unicamente, para estadulho de
deslombar politicos, ou nas protervias e diatribes, originadas em
questiunculas ridiculas e comicas, como as da _Prisão da Santa_, ou nas
pacholices rimadas, com que se visa á critica galhofeira.
A penna photographa a Idéa. A Idéa póde evolar-se, librar-se sobre todas
as manifestações da actividade humana, consoante as aspirações que a
orientam e as intelligencias que a esclarecem. Póde fixar-se na Arte,
na Sociedade, no Homem, etc. Entre nós, embirrou com a Politica e não a
larga.
Por isso, chafurda na insulsez parrana, na graçola afadistada, na
metaphora besuntona.
Ao _brazileiro barato_, ao _fidalgo sem pergaminhos_ e a outros
escarros-piadas, que por ahi fluctuam á tona da enxurrada, corresponde
esse constante martellar de bordões estafados, do _gaiteiro_, do _João
Bernardo_, com que ainda hoje a fedelhada sahe á estacada, empunhando
a babuzeira e acenando a quem passa com outro Ideal e com outras armas:
não o insulto soez á familia, mas o sorriso caustico do epigramma á
individualidade social.
A Imaginação e a Phantasia vasam-se, por ahi, nos moldes d’uma linguagem
mascavada, em que pullula o neologismo pretencioso, d’onde resalta a
phrase de sensação dos ultimos figurinos, que o francez atira, por cima
dos Pyreneus, como uma bota cambada e velha, e que o rabiscador, prestes,
enfia nos pesunhos para, coxeante e rufião, seguir em truanesca marcha,
campos fóra da critica e da... tolice.
Esfuzia, frequentemente, o gallicismo inutil nas espalmadas linhas; é
constante a referencia ôca á lombada das recentes publicações francezas;
e, n’uma epocha em que o mercieiro fala na _Sapho_, de Daudet, ri com as
frescuras de Catulle, estremece com as _Blasphemias_ de Richepin, salta
com as pinturas realistas de Zola, entretem a familia com os Goncourt
e auxilia a chylificação com Maupassant ou Coppee, a arlequinada do
rabisca, não só denuncia ignorancia completa da nossa litteratura e dos
recursos da nossa lingua, mas, ainda,—com a impropriedade dos termos,
apanhados a dente e atacados a soquete sublinhado nos periodos—uma
deploravel vaidade e tristissima inconsciencia.
Não ha orientação litteraria, nem eschola definida, nem percepção
nitida da idea, nem consciencia na phrase, nem centelha de imaginação
que desperte a vibratilidade da nossa alma. Ha, d’um lado, a atrophia
voluntaria e criminosa, a que se condemnam faculdades intellectuaes
de superior quilate, e d’outro, a ambição ridicula e chatissima de se
mostrar á familia—ao papá e á mana, ao titi e á prima, ao namoro e á
sopeira—o nome em lettra redonda, claro, ou nas malhas transparentes d’um
pseudonymo, que o sorrisinho immodesto descobre ao primeiro e desejado
ensejo.
* * * * *
Poderá alguem suppôr com estas minhas reflexões, tão discordantes na
fórma, das hosannas, que por ahi se entoam, impostas pela nojenta
convenção do _elogio mutuo_, que nego merecimentos, ou repudio aptidões
intellectuaes?
Tal não succede.
De quando em quando, aqui e acolá, mesmo n’esses a quem a vaidade e
o pedantismo desnorteiam, descubro e reconheço os vestigios d’uma
expontaneidade de phrase, evidente; d’um colorido de expressão, notavel;
d’uma receptividade emocional, definida; d’uma accommodação visual para
a analyse, apreciavel;—propriedades que, vigorizadas pelo trabalho,
orientadas pelo estudo persistente nos bons modelos e impulsionadas para
um Ideal, podiam educar-lhes o espirito e eleval-os, porventura, á
consideração que ambicionam e que criminosamente lhes attribuem.
O que eu desconheço é:—o trabalho; o que eu censuro é:—a inercia; o que
eu repudio e calco aos pés, é essa perfida e nojentissima convenção,
que faz do _cinco reis de gente_ um Adamastor, do balbuciante bebé um
polemista, do Rosalino Candido, um Ramalho Ortigão, ou, como elles
diriam, de Prudhomme, um Pierre Veron, ou Albert Wolff.
A penna exprime a Idea. A Idea parte do cerebro. O cerebro significa a
Intelligencia, a Alma, isto é, o conjuncto da sensações e sentimentos,
que na sua phenomenalidade, separam o Homem do bruto.
A faculdade de sentir e a expressão nitida e clara, pela penna e pela
palavra, de todos os phenomenos da natureza psychica, são o que o homem
tem de mais nobre.
Triste é, portanto que, na critica d’um facto, na discussão d’uma idea,
no desforço d’uma aggressão, eu vá encontrar aptidões intellectuaes com
elementos tão apreciaveis, na choldra da Politica, ou descendo, ainda,
tanto e tanto, que se não pejam com a pasquinada a carvão nos logares,
onde o carrejão usualmente se encosta, para... ensalitrar as paredes.
* * * * *
E no grupo dos que a inercia atrophia, dos que deviam libertar-se para
outras espheras mais luminosas e mais puras, porque já possuem na
Imaginação e na Phantasia a vigorosa organização do condor, vejo eu um
homem—que sabe burilar preciosamente a idea, que filigrana artisticamente
a palavra—debater-se, na triste condição de bonifrate, movimentado pelas
guitas dos especuladores, transformando o cerebro, d’onde arranca chispas
d’um verdadeiro talento, na bola ensebada e porca dos jogos malabares que
os politiqueiros por ahi exhibem, visando á esportula dos magnates.
E como se não fosse profanação bastante, o manchar a penna nos bispotes,
em que essa megéra—a Politica—diariamente evacua, ainda ha pouco manchou
tambem os labios d’onde, palpitante, quente, phantasiosa e bella, lhe
resalta a palavra, na dentuça cariada e porca d’um salta-pocinhas
eleitoral agargalado!
Suprema humilhação do talento!
Pudesse eu agarrar-te pela golla do casaco e, applicando-te em certa
parte do corpo duas palmadas, fazer actuar no teu espirito, incisiva e
caustica, a affectuosa indignação, com que d’aqui te brado:
Livra-te d’esse chiqueiro, _homem de Deus_![25]
VIII
Quimtilinarias[26]
Diz algures Macaulay:
«_É nas grandes crises politicas, nas grandes agitações populares, que se
denunciam os grandes homens e se manifestam os grandes genios._»
Cá temos a confirmação d’esse periodo do eminente historiador inglez.
Ruge, infrene, a colera do povo por causa do _mandado_: e no meio
d’essa espantosa effervescencia da nossa politica, ergue-se aos céos
da posteridade, dardejando raios mortiferos de oratoria epistolar, um
homem, até hoje ignorado na republica das lettras: Quim Fonseca!
Tenho lido muita epistola e muita carta; li as epistolas de S. Paulo aos
corinthios; as de Horacio e Cicero; as de Racine e Pascal; as de M.ᵐᵉ de
Sevigné e de Girardin; as do Rosalino e Jayme José; mas, coisa tão puxada
de rhetorica, tão desembolada de logica, tão _frecheira_, de estylo—é que
ainda não pude encontrar nas litteraturas passadas e presentes, desde a
sanskrita, até á dos papuas, ou á das gentes do Molembo-Kuango!
Sempre desconfiei que, no cerebro d’este Fonseca, vascolejava algo de
extraordinario e de superior. Quando, por ahi, aventavam deformidades
psychicas, amesquinhantes do intellecto, affirmava eu sempre:
_Fonseca tem lume no olho! O futuro o dirá._
Ahi estão as suas sessenta epistolas engranzadas nas gazetas da terra,
confirmando, plenamente, os meus presentimentos.
* * * * *
Estudei durante muito tempo o Quim Fonseca, auscultando as minucias da
sua existencia social e as subtis ramificações da sua politica.
Considero-o como um dos vultos mais importantes da minha terra, porque
é o fulcro _diamantino_, onde se apoia a alavanca civilizadora (?) do
Progresso. Impõe-se, portanto, á minha observação e ao meu respeito.
Consumi annos n’esse estudo, sem poder formular uma classificação exacta
e rigorosa.
Mas, um dia, descobri que Fonseca usava... suspensorios!
Ora, os suspensorios teem para mim uma grande significação; considero-os
como elemento precioso e infallivel na investigação do caracter
individual—elemento mais precioso e mais infallivel, do que as
protuberancias do craneo, na theoria de Gall; os traços physionomicos na
de Lavater, ou o volume do cerebro na de Broca. Após minuciosas analyses
e confrontações, cheguei á conclusão, de que os suspensorios pódem
significar: reflexão, sobriedade, economia, previdencia, sensatez, paz do
espirito, pureza de costumes, existencia de virtudes civicas.
Homem que usa suspensorios, sabe de cór quanto produz, livre do imposto
de rendimento, o capital de doze moedas d’oiro a tres e meio por cento;
sabe em que lua se cortam as madeiras; sabe em que epocha convém semear a
couve penca, o rábano, a nabiça e as pevides de marmelo; sabe em que mez
se capam os gatos; sabe salgar um porco, dispôr os presuntos no fumeiro,
encher um chouriço; sabe _coisas_ de emphyteuta, de fóros, de aguas de
rega, de bacellos, de alpórcas e de bens de mão-morta; sabe aparar um
callo e applicar um crystel; conhece remedios para o gôgo e para as
bichas; conhece as propriedades do sebo de Hollanda; sabe—emfim—de tudo
um boccadinho, porque é encyclopedico em Sciencias caseiras e perito em
questões de vida pratica.
E V. Ex.ª, que conhece o Fonseca, diga-me, agora, se as aptidões do seu
intellecto não estão ahi, nitidamente inventariadas.
* * * * *
Eu venero as commendas.
Quando, em Quinta-feira santa, na vizita ás casas do Senhor, encontro
o sr. V. de Moraes, deslumbrando a gente com a sua casaca e com
as scintillações da Gran-cruz gallega, onde o sol poente arranca
chispas—tiro humildemente o meu chapéo e curvo-me submisso.
Venero a banda bicolor, diagonalando a obesa pança d’um senador; venero a
vara d’um juiz de irmandade.
Reconheço tambem, a importancia social dos titulos honorificos.
Um Visconde foi, é, e será, sempre, um homem de massa mais afinada do
que qualquer Zinão; um homem estremado entre a peonagem; um homem de
sangue _cruzadico_, de alta sabença, de apurado senso. Ahi está o sr. V.
da Torre, que, ainda de molleirinha e a fazer _tem-tem_, escrevia os
_Preconceitos_, para... _despreconceituar_ a heraldica dos viscondados.
Venero e respeito tudo isso, repito, porque, emfim, Deus que resolveu
distinguir na sociedade umas certas pessoas, com titulos e com
penduricalhos, lá se entende e lá tem as suas razões...
Mas cá no fôro intimo, nada provoca, mais fortemente, a minha
consideração, como umas alças, uns suspensorios, d’aquelles de tres
cores, como a bandeira franceza—com as suas fivelas doiradas, as suas
prezilhas de coiro unidas, symetricamente, aos quatro botões alinhados
pelo buraquinho do umbigo.
* * * * *
Este meu culto ás alças já me originou grave desgosto na familia.
Minha filha mais velha, D. Fagundes, namoriscava o filho do nosso
procurador em Monsão. Ha cinco annos entra o mocinho na sala de visitas
e, deante da rapariga, balbucia trémulo de commoção:
—Louvado seja Nosso Senhor Jesus Christo!
O Senhor passou bem?
Eu vinha pedir a mão de sua filha D. Fagundes d’Atouguia. Tenho 25 annos;
sou camarista na minha terra; as minhas propriedades rendem 40 carros e
60 pipas; tenho doze contos nominaes em inscripções; vinte obrigações das
Aguas de Melgaço e de S. Pedro, cinco acções do piano da Assemblea e dez
do Theatro Valenciano...
—Perdão, interrompi eu; e emquanto ás ultimas, pagou todas as prestações?
—Não, senhor; assignei, mas só paguei a primeira prestação de 10 p. c.
(O homem convem-me, disse com os meus botões, já vejo que é
_agostinhado_.)
—Serve-me para genro; mas, um esclarecimento apenas, que é o mais
importante: o meu amigo usa suspensorios?
—Ora essa! exclama o joven, acaso é isso importante no meu futuro
marital? Pois a minha barriga é que tem de _crescer_...
—Basta, senhor! Visto que ridiculariza uma coisa tão seria,—nada feito!
Queira bater a outra porta.
E Fagundes ficou solteira...
Ora ella está longe de ser uma belleza e, ás vezes, tem _telha_; mas para
Monsão servia e, servia, até, muito bem.
* * * * *
Recebi hontem á noite um telegramma de Bismarck, pedindo informações
urgentes ácerca das sessenta cartas. Como sou correspondente da _Gazeta
da Allemanha_, tratei de averiguar o caso inspirador d’aquellas
Catili—digo—Quimtilinarias.
Eis o que descobri:
Na ultima reunião dos _quarenta-maiores_, o Fonseca, subitamente atacado
de violenta verborrhea, poz em pratos limpos a historia do _mandado_,
segredada ao bichinho do ouvido por um _amphibio_.
Os senadores ficaram aterrados e os municipes bateram palmas, porque
tinham farejado escandalo.
Fonseca exaltou-se, berrou, vociferou; e, por vezes, para o acalmar no
furor do seu zelo pelos interesses do Municipio, teve um prestimoso amigo
de lhe molhar a palavra, com agua da Fonte de S. Sebastião, que é a mais
fresquinha[27].
A final serenou e retirou-se satisfeito.
Jantou e soube-lhe bem; mesmo muito bem. Com o enthusiasmo _entrou_ de
mais n’um arrozito de _berberichos_.
Retirou-se para o seu escriptorio.
Os _berberichos_ principiaram, porém, a _repontar_ com elle,
provocando-lhe, em certo apparelho, uns beliscões diabolicos.
Lembrou-se de ir convidar o Leopoldo a dar um passeio nas muralhas;
mas, por outro lado, a rigidez e a austeridade dos seus habitos
aconselhavam-n’o a ir ter com o Capellão, certamente para se desobrigar
dos peccados do dia.
Mas, n’isto, no lusco-fusco da sua somnolencia, viu apparecer e avançar
o vertice d’um angulo de 25°, angulo que foi alargando, alargando,
sustentando sempre, um dos seus lados, em parallelismo com os olhos do
Fonseca.
Linhas irregulares, verticalmente dispostas, desenharam, depois, uma
cabeça collada a esse grande appendice angular; novas linhas configuraram
um corpo, como appendice d’aquelle primitivo appendice.
Appareceu um nariz com perninhas!
Em seguida, surgiu uma coisa redonda, muito arrebitada e rechonchuda, que
foi, tambem, crescendo, crescendo...
Rebolava-se uma pança que, avançando, exclamou:—_Oh Quim! Tu falaste bem;
mas foi e Zé, quem te deu o papel!_
Approxima-se o nariz, aos saltinhos, e diz tambem, roçando pelo
respeitavel dito, do Fonseca:
—_Sim! O Zé deu-te o papel! Foi o Zé! Foi o Zé! Foi o Zé!_
—_Ah, Morãeses do diabo! Bofé, que mentis! A mim, gentes de Verdoejo e
de Taião!_
E arremessando para longe as lubricas tentações, o chale-manta
e o barretinho bordado com a sua borlinha toda repenicada, a
dar-a-dar,—foi-se á escrevaninha e principiou a escrever uma carta;
depois, outra; depois, outra;—total sessenta cartas!
No intellecto do Fonseca deu-se, então, aquelle phenomeno da
scissiparidade por segmentação.
Cidadãos pacatos e sisudos, pouco versados na mechanica epistolar e
affeitos á bolorenta erudição do: