É copiosamente lido em sciencias naturaes e, concedendo-se-lhe vinte e

quatro horas de praso, apparece armado de ponto em branco, com quantas

theorias antigas e modernas se debatem entre sabios.

Como polemista, tem um grande merecimento: não deixa falar o adversario,

o que é de incontestavel vantagem para quem... padece do peito.

Acceita as theorias de Lamarck e de Darwin; crê na existencia do homem

terciario e, se Carlos Ribeiro o não classifica, talvez ainda viessemos a

ter o Anthropopithecus Leopoldi.

É homem illustrado. Foi á China, ao Japão, ao Perú, a toda a parte. Fez

encavacar Pio IX, deu uma pitada a Grevy, um piparote a Crispi, bateu na

pança de Gladstone, offereceu rebuçados a Bismarck.

Não vae feito com as realezas. O verdadeiro fóco, para que elle faz

convergir a sua actividade intellectual, é a Sociologia, na parte

repressiva da immoralidade e na que estuda a protecção aos menores.

S. Vicente de Paulo merece-lhe entranhado culto.

Tem sido, por vezes, camarista e no desempenho das importantissimas

funcções d’esse elevado cargo, evidenciou, sempre, a mais extraordinaria

actividade.

Todos se recordam, ainda, d’essa memoravel sessão, em que elle

apresentou, defendeu e discutiu dezenove propostas! O caso foi falado nas

gazetas, mas, como as edições, na nossa terra, se exgottam rapidamente,

eu vou reproduzir essas propostas e repetir as considerações, com que

foram acompanhadas:

* * * * *

Plena sessão camararia. Galerias concorridas. Tachygraphos a postos.

Leopoldo, de casaca e gravata branca, sobe, solemne e grave, ao estrado;

faz uma delicada venia ao sr. Zagallo; deixa passar um minuto de longo

silencio e severa concentração dos espiritos; ergue a fronte, agita os

labios e exclama:

Senhor Presidente!

Respeitaveis collegas e senhores.

Illustrado auditorio!

Eminentes publicistas e philosophos, consultando os trabalhos

recentemente publicados nas nações mais civilizadas, teem

evidentemente demonstrado a enorme differença e aterradora

diminuição que, de anno para anno, se nota nas estatisticas da

reproducção humana.

Os excessos perniciosos da Civilização, com o cortejo de gosos

corporeos e sensuaes de toda a especie, enfraquecem a raça,

definham o individuo, tornando-o inapto para aquella funcção,

aliás importantissima para a estabilidade das nações e para o

desenvolvimento da riqueza publica.

Com effeito, senhores; que seriam os preciosos filões d’oiro

da California, os jazigos, não menos preciosos, da hulha; que

seriam esses uberrimos territorios da America, se não fosse o

homem, para com o seu braço e a sua intelligencia arrancar da

Terra tanta riqueza e tanta maravilha?

O que seria da Agricultura? O que seria do Commercio e da

Industria?

Senhores!—Abrem-se, presentemente, á actividade do homem,

novos campos, novos e dilatados horisontes n’essas, até hoje,

mysteriosas e legendarias regiões africanas. O Brazil, a Europa

do futuro, extende a sua acção civilizadora por essas enormes

provincias, até hoje, despovoadas e desertas.

Braços, muitos braços: homens, muitos homens—eis o

_desideratum_ para este importantissimo problema do futuro.

Verdadeiramente benemerito, pois, se torna da Patria, da

Civilização e da Humanidade todo aquelle que, directa ou

indirectamente, contribuir para valer áquella necessidade,

aggravada, ainda, com o enorme desfalque, que as estatisticas

accusam.

Como homens do seculo XIX, que possuem a completa

intuição dos seus deveres sociaes, temos, até hoje, prestado

bom serviço a tão sagrada causa[20] e aos vossos sentimentos

humanitarios e illustração recorro agora, pedindo attenção para

as propostas que, sobre tão momentoso assumpto, vou ter a honra

de apresentar[21].

1.ª

Proponho a fundação d’um hospicio para expostos, que ponha

côbro aos frequentes actos de barbaridade, que por ahi

diariamente se commettem, com a exposição de creanças nos

portaes e nas muralhas.

2.ª

Fica a Camara auctorisada a contractar provisoriamente,

na vizinha villa de Coura, seis robustas camponezas, para

exercerem as funcções de amas.

3.ª

Como actual fiscal do pelouro dos expostos, sou auctorisado a

fiscalizar, os trabalhos das ditas amas e a verificar se, fiel

e rigorosamente, são aptas, para todo o serviço.

4.ª

É expressamente prohibida, para manutenção da Moral no interior

do mesmo Hospicio, a entrada a qualquer pessoa do sexo

masculino, com excepção do vereador do pelouro—que sou eu—e

isso, para o exercicio das funcções mencionadas no precedente

artigo.

5.ª

Fica expressamente determinado, na acta d’esta sessão, que

nunca poderão exercer as attribuições de fiscal do Hospicio,

os ex.ᵐᵒˢ srs. Abilio, Vieira e José Seixas, attendendo,

simplesmente, a que para tal cargo se exige uma actividade

inconcussa, zelo inexcedivel, o que esses Cavalheiros não

poderão offerecer, porque não são livres, como eu, que estou

solteiro.

6.ª

Como consequencia do artigo 4.º, não pode haver Capellão no

Hospicio, que pode ser substituido por irmãs de Caridade,

para os exercicios da religião. Para a sua competencia

n’esse mestér, consultará a Camara o muito digno Capellão do

Hospital, o sr. Padre Melim, varão de excelsas virtudes e

preclaro entendimento.

7.ª

Será limitado o numero de expostos, que o Hospicio possa

recolher; mas ao Vereador do pelouro—que sou eu—é concedida

a faculdade de admittir as que faça, encontrar pelos guardas

nocturnos, em perigoso estado de saude.

8.ª

Como consequencia ainda do artigo 4.º, não poderá haver medico

no Hospicio e, para tratamento das creanças e das doenças, ou

quaesquer, accidentes, a que podem estar sujeitas as amas,

no exercicio, das suas funcções activas, será contractada a

Senhora Dona Maria do Hospital.

9.ª

É auctorisado o Fiscal do Hospicio—que sou eu—a, para rigorosa

e permanente fiscalisação, poder passar as noites, quando o

entender necessario, com as creanças e, com as amas.

10.ª

Se no fim de seis, oito ou, nove mezes, qualquer das amas

apresentar symptomas de doença grave, dilatações, de tecidos,

etc., cessará o contracto provisorio e o Fiscal—que sou

eu—arranjará, logo, outra que a substitua.

11.ª

Em urgente caso de perigo, só o Sr. Dr. Pacheco pode ter

entrada no Hospicio, attendendo a que é impotente, a

maledicencia, quando d’elle se refere; e a que bem publica

e notoria é a sua honestidade, como por ahi firmemente o

attestam os seus _dois creados_, e todas as pessoas com quem

intimamente vive, que são unanimes em apontar S. Ex.ª, como um

real modelo de virtude.

12.ª

É auctorisado o Fiscal—que sou eu—a contractar, para o serviço

interno, tres raparigas das suas relações e de que já conheça,

praticamente, as aptidões e trabalhos.

13.ª

Fica revogada toda a legislação em contrario.

14.ª

PELOURO DE HYGIENE PUBLICA—SECÇÃO DO COMMERCIO E INDUSTRIA

É permittida a matricula a diversas pessoas de determinado

sexo, para a industria do methodico uso e regular acção de

determinadas funcções da vida vegetativa.

15.ª

É expressamente prohibida a entrada na villa, a individuos

extranhos e de sexo differente, que venham prejudicar, com

illegal concorrencia e depreciação de valores, a industria da

terra. Esta prohibição será extensiva até, ao proprio Julio

Cesar, (apesar da protecção da _gente graduada_.) se elle

resuscitar.

16.ª

É nomeada uma commissão, composta do fiscal do Hospicio—que

sou eu—do sr. J. Narciso e do sr. Joaquim, para organisar

uma tabella de preços d’aquelles trabalhos, nas diversas

variedades, que tal Industria hoje possue.

17.ª

Fica expressamente determinado, que não poderão fazer parte

d’esta Commissão os ex.ᵐᵒˢ srs. dr. João Moraes, Alpoim,

J. Soares e Albino, porque por vezes, publicamente, teem

manifestado uma tendencia para elevar, demasiadamente, os

valores dos productos de tal Industria, o que é nocivo para a

povoação.

18.ª

É nomeado, para Inspector sanitario d’esta secção, o sr.

Augusto Sampaio.

19.ª E ULTIMA

A presidencia d’esta nova instituição municipal será

offerecida, como manifestação de consideração e respeito, ao

Senhor Marquez de Vallada.[22]

Escusado será dizer que todas as propostas foram approvadas e por

unanimidade.

Albininho...

Pertencia-te agora a vez... Davas para vinte folhas; mas salvas-te d’esta.

Ha poucos mezes, ainda, corriam as lagrimas n’essas barbas brancas...

Cahiu-me uma nas costas da mão e, em casa, fiz-lhe a analyse chimica.

Deu-me: agua, albumina, chloreto de sodio; encontrei moleculas d’um

outro elemento, que é a base da affinidade social:—o affecto da familia.

Percebi, tambem, vestigios d’uma grande dôr.

Respeito-a...

Mas, quando os atomos d’essa lagrima se desaggregarem, por evaporação, e

continuarem na Natureza o giro constante e permanente da Materia, então,

se me appareces... entras na berlinda.

Não te entristeças, que este livro é para rir e, quem o escreve, é um dos

teus amigos.

Vira a folha e...

vamos a outros.

VI

Coisas de Egreja

Beatas—Procissões e Romarias

Terminára a faina do dia.

O fogo que elevára a temperatura nos grandes caldeirões do Olympo, onde

se manipulava a Humanidade, consumia, apenas, carvões isolados que, pouco

a pouco, se transformavam em cinzas.

Os cyclopes, destacados por Vulcano para essa secção da grandiosa fabrica

da Natureza, que o proprio Jupiter dirigia, raspavam, apressadamente, nos

grandes extendedores, a massa, que ficara collada, e deitavam-n’a, como

inutil, nos baldes do lixo e da immundicie.

Jupiter encastellava o dinheiro das ferias; fechava a escrevaninha;

trocava a japona da fabrica pelo manto de arminho, e dispunha-se a

sahir, tocando de passagem a sineta, para se fechar o estabelecimento.

Mas n’isto, principiou a elevar-se do caldeirão que estava proximo,

cheiro activo e nauseabundo, (como o do esturro em guisado francez) que,

espalhando-se na atmosphera, seriamente incommodou a regia pituitaria.

Aproximou-se Jupiter e olhou.

No fundo do pote, já com a côr do carbonisado, estrugia o resto da massa

que ficára, da que n’esse dia se tinha dosado para a preparação dos

hypocritas. Pouco valor aquillo tinha, porque era da mistella mais vulgar

e mais facil de preparar; mas Jupiter não perdia ensejo de incutir nos

seus operarios os deveres d’uma administração rigorosa e economica.

Ordenou, pois, a dois cyclopes que trouxessem do barril do lixo algumas

aparas, recommendando que preferissem as mal-cheirosas e de côr escura,

que pertenciam á massa dos invejosos e dos usurarios.

Avivaram o fogo; deitaram os novos elementos no caldeirão; remexeram com

o cabo d’uma vassoira, porque a ferramenta já estava guardada e limpa; e,

depois de cinco minutos de ebullição, Jupiter provou a mixordia. Estava

sobre o insipido.

Deitou-lhe umas pitaditas de sal e de pimenta, com que preparava os

maldizentes.

Provou de novo. Estava picante de mais.

Temperou, então, com o betume dos ociosos; e deixou ferver tudo, durante

outros cinco minutos.

Os cyclopes retiraram o caldeirão. Trouxeram os moldes; vazaram n’elles a

massa, que se conservava no estado pastoso e esperaram.

Pouco tempo depois, Jupiter aproximou-se; arrotou, e dos moldes sahiram

duas coisas, duas formas humanas, com movimento, côr e vida.

Eram duas mulheres.

Ora Jupiter não se podia demorar, porque combinára, para aquella hora,

uma entrevista com Europa, e os cyclopes principiavam a murmurar, porque

dera a hora e tinham as familias á espera.

Assim, mandou Jupiter abrir o postigo do Olympo, empurrou até lá as

mulheres e atirou com ellas, cá para baixo, com um valente pontapé.

Por esse ether fóra, assustaram-se as creaturas; agarraram-se uma

á outra afflictivamente; principiaram a rezar a _Magnificat_, a

_Ladainha_, e assim foram cahir sobre o telhado d’uma egreja, aterrando o

escorropicha-galhetas, que se deliciava, occultamente, com os restos do

precioso sangue de Christo.

Aqui tem V. Ex.ª como chegaram as beatas ao globo terraqueo, e ahi fica a

formula da sua composição molecular: aparas de hypocritas, de usurarios,

de invejosos, de maldizentes e de ociosos.

Representando esses elementos pelos respectivos symbolos, poderemos

estabelecer:

H⁵ + M⁴ + I³ + O² + U = Beatas

* * * * *

Aquellas moleculas da Hypocrisia e da Ociosidade deram-lhes facil e

rapida admissão na sociedade.

Casaram; reproduziram-se; e, em pouco tempo, estava a raça

extraordinariamente desenvolvida e disseminada por toda a parte, desde a

cidade populosa e civilizada, até á aldeia humilde e rude.

Cá as temos e cá as aturamos... Submettendo-as agora, para as descrever,

a rigorosa analyse, encontrei-lhes todas as propriedades dos primitivos

elementos.

Vão á missa das sete—_uma missinha que faz muito arranjo, porque dá tempo

de arranjar a casa e de se mandar, á praça, cedo_.

Rezam; inspeccionam tudo o que se faz e tudo o que entra na egreja;

communicam e transmittem as novidades do soalheiro; e, entre o cochichar

do _Padre Nosso_, segue uma enfiada de casos novos e de commentarios:

Padre Nosso, que estaes no céo (_e o vestido novo que hontem levou a X

ao jardim! É da Torrona. Ficou a dever. O Blanco é que as canta..._)

santificado seja o Vosso Nome (_acabou o namoro da filha do Y, porque a

Mãe bateu-lhe. Diz que o rapaz gosta muito de mulherinhas_) venha a nós

o vosso reino e seja feita (_sahiu a creada da casa do W. Oh menina!

Sempre ella conta coisas... Diz que tem a casa como um ôvo! Comem todos

os dias prato de meio!_) a vossa vontade, assim na terra, como no ceu

(_Lá entrou o Velloso... que raio de homem! Tem mais de vinte namoros.

É como o Prado! Elle é elegante, isso é! Já lhe reparaste nas pernas?_)

o Pão nosso de cada dia nos dae, Senhor, perdoae-nos (_oh... Faltava

aquelle... o Leopoldo. Tambem já podia casar... Para o que anda por ahi a

fazer..._) as nossas dividas, assim na terra, como (_agora é o dos pombos

correios... Tambem é fresco, com aquella cara de santo..._)

Sanctus, Sanctus, Sanctus, Dominus Deus...

Como V. Ex.ª póde suppôr, a _fervorosa_ oração foi cortada pelo badalo do

sachrista, que tocou a Santos. Se elle não interrompe, o que teriamos nós

de ouvir...

* * * * *

Este beaterio é muito casto e excessivamente pudibundo.

Na egreja de S. Estevão ha uma Virgem do Leite, que, se não é, realmente,

uma preciosidade artistica, é, com certeza, a melhor tela que existe em

Valença, não falando—já se vê—n’aquellas caras de malagueta e colorau,

todas com a mesma fórma e feitio, que o sr. Julião exporta, mensalmente,

para as salas nobres dos hospitaes minhotos, a soberano por caveira, com

dez por cento de abatimento, por duzia.

Pois o beaterio escandalizou-se com a nudez dos peitos da imagem, isto é,

repugnou-lhe que se visse o que na mulher representa a sua missão mais

nobre, mais elevada e mais santa—a maternidade. E a instancias d’esses

respeitaveis camafeus, muito castos e muito pudibundos, mas que nunca

faltam á Rosinha Ferreira, quando ella representa; e mandam logo de manhã

comprar bilhete, e dão pançadinhas com riso, e coram (não de pudôr) e se

apimentam, e se agitam, nervosas, na cadeira, quando Lili conta as suas

coisas—a instancias e reclamações d’essa gente, repito, uma auctoridade

ecclesiastica, que eu agora respeito, porque já não está entre vivos,

mandou, por um caiador de Arão, borrar os peitos da imagem!!!

Isto, minhas senhoras e senhores, em pleno seculo XIX, n’uma terra que

tem dois jornaes, correspondentes varios de ditos, representantes de Sua

Magestade El-Rei, Vigarios geraes e não geraes, Conegos Presidentes, e

não Presidentes, Capellães, etc., etc.! E entre toda essa gente, que sabe

ler e escrever, segundo se diz, não houve um unico homem que corresse a

pontapés o cafre de Arão, reproduzindo-lhe com a biqueira da bota, ahi

pelas alturas do coccyx, os borrões com que profanou a imagem!

* * * * *

O beaterio communga quinzenalmente e confessa-se duas vezes por semana, a

padres velhos, surdos e rançosos.

Padres novos são o diabo!

Até os Patriarchas fazem das suas... Ainda não ha muito tempo, que os

apparelhos de Morse, de Bandot, de Hugues e os telephones da Hespanha e

França, não designavam outras palavras, alem de: _as botas?_

José Luciano perguntava a Vega d’Armijo: _as botas?_ Vega d’Armijo

perguntava a Carnot: _as botas?_ Carnot reperguntava ao Luciano: _as

botas?_

Em Pariz, Madrid e Lisboa não se falava n’outra coisa.

Averiguado o caso, fôra o Patriarcha das Gandricas que, em Salamanca, se

enamorára perdidamente dos _ojos_ negros d’uma andaluza. Gargalinho, seu

companheiro, arrastava a aza á sopeira.

A andaluza dava, com certo recato, nocturnas entrevistas. Uma vez, quando

o Patriarcha se inebriava com os effluvios do amor... platonico, surgiu o

protector da _niña_, de _cuchilla_ toledana em punho.

O Patriarcha saltou, em meias, pela janella. Gargalinho sumiu-se debaixo

da cama; quando de lá o tiraram, tanto puxaram pelo pescoço, que ficou

como o do P. Alexandre.

Do _Alcalde_ reclamou o Patriarcha as botas; o _Alcalde_ officiou ao

Consul; o Consul officiou ao Ministro. Não appareceram as botas e o

Patriarcha andou na Exposição, subiu á Eiffel, visitou o Carnot, com

o seu inseparavel capote de forro vermelho e golla de pelle, chapéo

braguez, chinelo de liga, calça dobrada em baixo, deixando ver os atilhos

das ceroilas, symetricamente apartados e dispostos em cuidadosa laçada.

Nos _boulevards_, quando elles passavam, diziam as mundanas:

C’est um Hottentot et son petit:... mais quel cou, mon Dieu![23]

* * * * *

O Soares, no principio ainda agradou, porque dizia a sua missinha de

Santo Antonio a muito boa hora e era pontual; mas, depois, principiou a

desleixar-se e a vir para a egreja, tarde e a más horas.

Foi o Albino, que andava sempre com elle, quem o fez peco. Principiou

a dizer-lhe que estava _n’uma boa posição official_, que se devia

apresentar sempre _muito limpo e lavado_, porque o conego velho nem

_ceroilas usava_, apresentando-se _n’um desarranjo completo_, com a

barba por fazer, amarello, _completamente deitado abaixo_, a ponto de

a gente recear, ás vezes, _que fosse de bruços_; e que era bom, aos

sabbados, _preparar-se e lavar-se de vespera_; levantar-se depois cedo,

_lavar-se novamente muito lavado_, tomar a sua _chavenasinha de café_ com

a _sua colhér de prata_; e nunca _chamar a attenção_ das más linguas,

que estão sempre _a postos_, porque a missa sempre dava os _seus sete

e vinte_, que já chegavam para uma _posição graduada_; mais isto, mais

aquillo, com outros _periúdos_,—de fórma que o rapaz gastava duas horas a

lavar-se, a vestir-se, e a gente que esperasse, _só com um café bebido_!

O resultado foi perder a missa de S. Antonio, porque já não tinha

freguezia.

O Magalhães será muito boa pessoa, mas... não se dá com o sr. Joaquim.

Ora o sr. Joaquim é um homem muito temente a Deus. No inverno, quando ha

mais frio e fome, anda por ahi, de porta em porta, com a subscripção...

da Semana Santa, para que a pobreza possa curtir... na egreja, as suas

maguas e dôres.

Alem d’isso, não se poupa a despezas, quando é Juiz da Senhora da Saude,

da Urgeira, e vê probabilidades de (tudo pela santa religião) fazer uma

pirraça ao diabo... do João Cabral!

Um homem assim, é um philanthropo e deve andar de bem com Deus. Quem com

elle não se dá, não se dá com Deus; ergo: Padre Magalhães não serve.

Depois, prega uns sermões que ninguem entende. Parece que não fala

portuguez!

Nem, sequer, faz chorar a gente na Semana Santa!

Resumindo: não serve.

* * * * *

Eu falei na Semana Santa...

É o carnaval do beaterio. N’aquelles ultimos sete dias as beatas dão ar

ás mantilhas, e largas á bisbilhotice, á curiosidade e... ao flato.

Quinta e sexta feira santas são em Valença, para a egreja de S. Estevão,

o mesmo que domingo gordo e terça feira de entrudo são para a Assemblea.

Ha musica, serviço variado de pastilhas de chocolate, rebuçados e

amendoas; confidencias, intrigas, sorrisos, trocas de cartas perfumadas,

ciumes, arrufos, apertos de mão e—sobretudo—esta _cavaqueira_ intima,

expansiva, franca e alegre d’uma verdadeira reunião de familias.

A gente está alli, perfeitamente bem, e á sua vontade.

Com as temperaturas da egreja e das salas da Assemblea eleva-se,

consideravelmente, o mercurio no thermometro dos affectos, em que o zero

é—o arrufo, e os 100°—o casamento.

O Christo, já se vê, como dono da casa, lá está no alto da Cruz,

recebendo sempre, com reconhecimento cordial, tão fervorosas e _animadas_

manifestações de amor e respeito...

As beatas arranjam, com a Semana Santa, que contar para um mez.

Quando os escorropicha-galhetas abrem, de manhã, as portas do templo, já

ellas entram apressadas e remelosas, escolhendo o melhor logar «_onde o

bruto do povo e os pobres não incommodem, onde se esteja á vontade e se

veja tudo_». Levam as suas pastilhas de chocolate para a debilidade, a

caixa do rapé, o banquinho de tapete, agasalho para os pés e lenço para

as lagrimas, que são da praxe, quando o Padre mostra o Santo Sudario.

Installadas assim, com todas as commodidades (tudo pelo amor de Christo,

que tanto soffreu na Cruz) no seu ponto de devoção e de observação, gozam

á _tripa-forra_ não perdendo um olhar, um sorriso, um vestido novo, uma

_tournure_ mais arrebitada...

Á noite vão para casa, consideravelmente alliviadas da consciencia, mas

pouco satisfeitas com o Magalhães, que falou em problemas sociaes, em

pauperismo, em Philosophia da Historia, em altruismo, em protoplasma e

outras coisas, que nem o sr. Joaquim entendeu, apesar de, por vezes,

(certamente por delícadeza) abaixar a cabeça, como quem diz: comprehendo,

approvo e... estou satisfeito.

O Palmeirão, quando conta imbecilmente pela decima vigesima vez, a

tragedia do Calvario—tragedia sublime e benefica para as agruras da

nossa existencia, se todos a soubessemos comprehender, mas que por ahi

anda como o _libretto_ estafado, nas epochas lyricas da egreja, para

especulação, para immoralidades e para descrenças—esse percebe-se e

agrada muito mais!

* * * * *

O beaterio tem uns Santos da sua particular estima.

Os Santos, a final, são como a gente, com quem se lida. Ha physionomias

que logo inspiram sympathia e ha outras que, sem a gente saber como, nem

porque, provocam embirração.

Isto é razoavel e intuitivo. Diga-me, por exemplo, V. Ex.ª quem ha-de

gostar do S. Christovão, com aquella grande cara arrenegada, parecendo

dizer ás gentes que, se lhe chegam a mostarda ao nariz, corre tudo

com a vara, pela egreja fóra, como o Pau-real na feira de S. Bento da

Porta-aberta!

Assim, quando rareiam as festas e as bolsas andam exhaustas, com as

frequentes subscripções da Assemblea, não havendo possibilidade de se

organizar a Semana Santa, então, promove o beaterio umas novenas á

Senhora de tal.

«_São umas festasinhas muito razoaveis, porque a musica é mais alegre,

são de dia e sempre ha probabilidades de, terminadas as ladainhas e as

encommendações, se dar, ainda, um passeio até ao Jardim. Emfim, n’uma

terra, que tem poucas distracções e onde a Rosinha se não póde sustentar,

tudo se aproveita._»

* * * * *

O caso da Santa alarmou vivamente os animos d’estas esgrouviadas

bisbilhoteiras.

«_Parece impossivel que se não abrisse a Terra, que não viesse um raio,

um diabo, que castigasse aquelle pedreiro-livre, aquelle atheu do

administrador!_»

O malandro que trazia a imagem e a metteu na taberna da Esplanada,

expondo-a ás chufas e obscenidades avinhadas dos comparsas, esperando

que o contra-regra desse o signal de subir o panno, para essa asquerosa

comedia, da nossa asquerosissima Politica,—o malandro que, com um sebento

balandrau, de imagem e prato na mão, por ahi chatina semanalmente, _a

meias_, com as crenças do povo, e não hesita em transpôr os humbraes do

bordel, _pedindo para a bemdita e milagrosa Senhora de tal_, interessando

assim, a religião de Christo no producto que a barregan obtem da venda,

em publico, do corpo e da honra—esse icha-corvos torpe e vil, d’uma

ganancia mais vil e mais torpe, do que os trinta dinheiros de Judas, que

por ahi esfarrapa as poucas crenças, que ainda existem no povo—esse:

_«coitadinho! Mettia dó vêl-o. Estava amarello, aterrado. Foi preciso

leval-o, quasi em braços, e dar-lhe café quente, porque lhe podia dar

alguma coisa»!_

Sinapismos · 第 4 / 17 段