Ha, por ahi, gente tão nescia, tão ignorante, tão alheia ao mechanismo

d’esta complicada engrenagem das instituições sociaes, que chega a

perguntar (perdõe-lhe Vossa Excellencia) para que serve o Governo da

Praça, alliando, ainda, á ignorancia, a grosseria de lastimar que, do que

a gente paga nas decimas, do que se rouba ao trabalho honrado e aspero

do lavrador e do padeiro, se desviem 500 e tantos mil reis mensaes,

obra de sete contos por anno, para ter ahi (que malcreados!) n’um

rasoavel sybaritismo, cinco ou seis servidores da patria, equiparados

escandalosamente (dizem elles) em honras e proventos, ao official, que

nos corpos atura, diariamente, o brutal trabalho do quartel, com enorme

responsabilidade, com necessidade de instrucção e arriscado a, d’um

momento para outro, receber ordem para expôr a caixa craneana á bala

do trabuco assassino, que anda a monte, ou ao zagalote do bacamarte

desordeiro e avinhado, nas grandes borgas eleitoraes.

Eu, até, já ouvi dizer, Excellentissimo Senhor, que se isso era por causa

das procissões, das missas pela alma do Senhor D. Pedro IV, ou

da recepção das musicas gallegas, o Governo podia muito bem contractar,

para tal effeito, os _gigantones_ de Tuy, ou os _barbacenas_ da Guarda

romana, porque eram de mais apparato, era outra limpeza e ficava muito

mais barato.

Mas quer Vossa Excellencia saber ainda mais? Ha, até, n’esta terra de

cafres, quem reponte com a posição original que Vossa Excellencia dá

á sua boquilha, quando, nas ruas, se delicia com os aromas d’um bom

charuto! Como se Vossa Excellencia, pelo simples facto de não ter Tosão,

d’Oiro, que dá honras de principe e direitos a poder fazer a gente o

que quizer, não tenha a plenissima faculdade de trazer uma coisa (a

boquilha), como muito bem lhe appetecer, horisontal, ou ao dependuro,

e como se esta ultima posição não fosse, realmente, a mais decente e

apropriada á edade de Vossa Excellencia!

Ora diga-me Vossa Excellencia, agora que desceu commigo a estes profundos

abysmos da ignorancia popular, se é, ou não, necessario applicar, de

vez em quando, a estes barbaros, umas espadeiradas á Macedo, ou quatro

_mimos_ com o historico chicote do Bruto, digo, do Barão do Rio Zezere...

Excellentissimo Senhor!

Eu folgo de ter encontrado pretexto, para manifestar o meu respeito e

veneração a Vossa Excellencia, mas, como esta já vae longa, abrevio o

muito que lhe tinha a dizer e contar.

Não se incommode Vossa Excellencia com as más linguas. Nosso Senhor Jesus

Christo perdoou aos que não sabiam o que faziam. As realezas da terra,

meu Senhor, são representantes legitimos da realeza dos céos. Affonso

Henriques, quando em Ourique dava tapona na moirama, a folhas tantas,

olhou para o céo e de lá fizeram-lhe um signal com a cruz, que queria

dizer: _vences_. Constantino, quando se viu atrapalhado com os barbaros,

olhou tambem para lá e o Padre Eterno fez-lhe o que a gente faz, quando

está sentado na praia com o namoro, deante do futuro sogro e da rabujenta

futura sogra e, não podendo dizer á rapariga: _amo-te, oh filha!_ escreve

sorrateiramente essas palavras na areia, com a ponta da bengala. Pois o

Padre Eterno foi-se ás areias do céo e, com a vergastinha com que tosa a

canalhada miuda dos anjos e seraphins, escreveu tambem disfarçadamente:

_In hoc signo vincis._

Ainda ha mais exemplos, mas eu sou muito fraco em mnemonica.

Ora, sendo as realezas da terra representantes da realeza dos céos, e

sendo Vossa Excellencia representante da nossa realeza, como muito e

muito bem disse e declarou, ao annunciar o seu osculo nos chagados pés do

Senhor dos Passos, _ergo_, por irrefutavel syllogismo, Vossa Excellencia

é tambem representante n’esta terra, de Nosso Senhor Jesus Christo! Isto

não falha.

Por conseguinte, Vossa Excellencia póde e deve perdoar, aos que não sabem

o que dizem.

Eu não lhe aconselho isto com interesse directo, meu Senhor. Vossa

Excellencia nada tem que me perdoar.

Eu adoro tanto as instituições da minha Patria, reputo tão necessarias e

consentaneas, com as aspirações da epocha hodierna, as disposições dos

regulamentos do sr. Conde de Lippe (que o diabo levou ha perto de 200

annos e podia, mesmo, ter levado logo ao nascer) das quaes, a mais branda

e attenciosa é mandar varar por uma bala[17] o desgraçado, que tenha

o atrevimento de—utilizando-se da unica applicação d’essas muralhas e

torturado com as ancias e arrancos de urgentissima necessidade corporea,

sem poder esperar um unico segundo,—baixar as calças, (permitta-me Vossa

Excellencia a liberdade que vae expressa, ainda assim, em portuguez

de lei, do que usava o Padre Antonio Vieira) que, se tivesse alguma

importancia politica, se fosse homem de prestigio e d’estes que valem

uma eleição, como os srs. Joaquim, Cardoso e seu amigo P. Cunha, Alvares

d’Oliveira, Santa Clara e Agostinho que, unidos todos no mesmo partido,

belliscados para a victoria do mesmo candidato, são capazes de levar

á urna, não digo 6, mas, talvez, para cima de 3 votos, se fosse homem

d’essas craveiras, repito, era capaz de ir a Lisboa, apresentar-me ao

sr. Zé Luciano, ao Senhor Rei, se tanto fosse necessario, e reclamar

energicamente, como indispensavel ao brilho das nossas instituições, ao

prestigio do nosso exercito, á manutenção da nossa dignidade nacional,

mais um segundo Governador, com um segundo... (não me lembro do nome...

ah!) Estado Maior.

Sómente estabeleceria uma condição:—baseada no muito apreço, em que

tenho os grandes homens da minha Patria; convencido da necessidade de

haver aqui, na fronteira, nas barbas do hespanhol, quem dignamente possa

representar o paiz—e seria: que, para fazer pár com Vossa Excellencia,

não me dariam outro bis-Governador, que não fosse o grande, o saudoso, o

inimitavel

Zé da Rosa!!

* * * * *

E se tal conseguisse, ai que alegria a minha, quando encontrasse Vossa

Excellencia na rua de S. João, com a gravidade propria a um representante

de Sua Magestade El-Rei, de braço dado ao sr. Zé da Rosa, outro

representante de Sua Magestade (a Rainha, não meu Senhor?), seguidos

por Sua Excellencia o Senhor Vice, com o seu chapéo de pennas de

capão, e com a espada politica de Brenno, ao lado do outro Senhor Vice

(quem devia ser? O sr. Roldão, por exemplo. É da arma de cavallaria...)

e depois, atraz, o Senhor Baptista da Senhora do Faro com os outros

Estados-Maiores; e depois ainda, atraz, muita gente, a sociedade do

_Provarei_, o Fileiras, o João de Ganfey, o Senhor Martinho, que deitava

_la coca_, o Capellão (o n.º 2), todos os paradas-velhas, etc., etc.

Com que arrebatamento então, meu Senhor, eu perderia as estribeiras

e, mandando para o diabo a minha seriedade de Juiz de Paz, de irmão

da Misericordia, de pae de filhos, como eu saltaria para a frente de

_Vocellencias_ e perdido, enthusiasmado, louco, distribuindo pançadinhas

e piparotes e atando nas Excellentissimas trazeiras este raboleva de

ridiculo,—que é a suprema essencia de toda essa grotesca mascarada, com

que gargalhada homerica, ensurdecedora, colossal, lhes não bradaria:

—Oh que rica tropa fandanga!

—Quebra esquina, minhá gente!

Com o respeito devido a um Representante de Sua Magestade El-Rei, sauda

_Vocellencia_ o

_Zinão_.

IV

Uma descoberta do Dr. Charcot

Accedendo a frequentes reclamações diplomaticas do governo de Sua

Magestade, o Imperador do Brazil, resolvera o Governo de Sua Magestade

El-Rei de Portugal, que o primeiro fôsse auctorizado a expulsar

dois cidadãos portuguezes que, segundo officialmente se asseverava,

incalculavel prejuizo estavam causando ao regular movimento dos

negocios commerciaes e, portanto, ao desenvolvimento material d’aquelle

florescente imperio.

Não se fundamentava a necessidade da expulsão na cumplicidade em crimes

politicos; attentados contra o Imperador, ou imperial familia; propaganda

de ideas reaccionarias; troça ás preciosas producções poeticas de Sua

Magestade; capoeirada nos chimpanzés da policia urbana, ou assuada ao

Senhor Conde d’Eu.

Allegava-se, unicamente, que esses individuos, penetrando nas repartições

do Estado, nos estabelecimentos commerciaes, nos grandes edificios de

industria, nas escholas, nas egrejas, nos clubs, nos passeios publicos,

nas chacaras e nos _xadrezes_, em qualquer parte—emfim—interrompiam as

manifestações da actividade d’aquelle labôrioso povo e creanças, mulheres

e homens abandonavam, immediatamente, o exercicio de qualquer mestér,

fugindo espavoridos e como fustigados, por mal extranho e desconhecido.

A origem d’aquella nociva influencia, a natureza dos phenomenos que

ella produzia, a complexidade dos seus effeitos, escaparam, sempre, á

perspicacia dos doutos Galenos das terras do sabiá, porque as mesmas

propriedades repulsivas obstavam ao demorado exame, que o caso requeria.

Annunciava, n’essa epocha, o eminente Pasteur os seus primeiros trabalhos

sobre Microbiologia, que tão poderosa influencia vieram exercer na

orientação das sciencias medicas; e não faltou, no estudo investigador

dos clinicos d’alem-mar, a applicação das novissimas theorias, com

pacientes trabalhos de microscopio, observações por analyse e por

synthese e outros processos que a Chimica medica aconselha e, até,

com demoradas experiencias nas fezes em acção sobre os orgãos das

cinco funcções especiaes da sensibilidade, incluindo a pituitaria e a

membrana, onde se ramifica o nervo de Wrisberg.

Lembrou-se alguem de classificar aquelles phenomenos, como _suggestões

motrizes_ do moderno Hypnotismo; mas Charcot, Richer e Bernheim,

consultados sobre o caso, oppozeram-se á diagnose, visto que elles

se manifestavam sempre com a mesma intensidade, isto é, que todos os

individuos soffriam egual influencia repulsiva e não se evidenciavam as

differenças na sensibilidade á hypnose, que nos _sujets_ estabelece,

como caracteristico, a diversidade de circumstancias physiologicas e

pathologicas.

Nada se podia descobrir.

Havia no organismo dos dois individuos uma propriedade repulsiva,

identica á das tremelgas, ordem dos selacios, grupo dos peixes

cartilaginosos; mas desconheciam-se os elementos constitutivos d’essas

propriedades e elles continuavam a exercer, em toda a parte, e a toda a

hora, a sua funestissima influencia.

Uma unica circumstancia se pôde descobrir, graças á perspicacia do mais

reputado Esculapio da Tijuca, a quem se deve a preciosa descoberta

da cataplasma de linhaça e foi: que diminuia, consideravelmente, a

intensidade d’aquelles phenomenos, quando se isolavam os dois individuos,

ou quando permaneciam incommunicaveis.

Utilizando-se d’esta descoberta, o Governo do Imperador, attendendo aos

laços de sangue e affecto, que unem os dois paizes, resolveu exportar a

praga em epocha e vapor differentes. Assim se fez, com effeito.

O governo portuguez, assustado com o flagello, que subitamente cahia no

solo da Patria, reuniu immediatamente a Junta de Saude e, por indicação

d’esta, foram os dois compatriotas enviados a Pariz—onde, n’outras

espheras e com outros horisontes se dilata a intelligencia humana—para lá

serem submettidos á analyse dos grandes Mestres da Sciencia.

Após demorada observação e attento exame, o eminente Charcot, encontrou,

emfim, a resolução do problema, que largamente foi demonstrada no

_Boletim da Academia de Medicina de Pariz_, (mez de novembro de 1876)

e, com prodigioso interesse, escutada por selecto auditorio, na mesma

Academia, em sessão extraordinaria de 27 de dezembro, do mesmo anno.

Não tendo aqui, presente, a lucida exposição do eminente sabio,

limito-me a reproduzir, e certamente d’uma maneira deficiente e

incompleta—attendendo á escassez dos meus conhecimentos scientificos—a

theoria, em que Charcot baseou a explicação do estranho phenomeno.

* * * * *

V. Ex.ª sabe, como a moderna Sciencia explica, na Acustica, a producção e

a propagação do som.

«O som é o resultado d’um movimento vibratorio, communicado á materia

ponderavel»—eis a base da theoria, hoje adoptada e conhecida por «theoria

das ondulações».

Conhece, tambem, o mechanismo da voz humana. A voz provem da acção do ar

nas cordas vocaes. O ar, que sahe dos pulmões, produz, n’essas cordas,

vibrações, mais ou menos rapidas, que transmittindo-se ás paredes da

larynge se tornam sonoras, e que, depois, a acção combinada da lingua,

das maxillas e dos labios, altera modifica e articula.

Conhecido é, tambem, o mechanismo da audição. As vibrações executadas

pelas cordas e transmittidas, em ondas, ao ar exterior, chegam-nos ao

pavilhão do ouvido e vêm, pelo tubo auditivo, actuar na membrana do

tympano. Seguem, depois, até ao ouvido medio, no ar n’elle contido, e,

pela cadeia do estribo, do martello, da bigorna e do osso lenticular,

reproduzem-se, ainda, nas membranas das janellas redonda e oval,

communicam-se ao liquido, que existe no ouvido interno e d’alli, pelos

filetes do nervo acustico, ao cerebro.[18]

A potencia das vibrações, o deslocamento, mais ou menos violento, das

ondas sonoras depende, portanto, alem d’outras circumstancias, da força

com que os pulmões fornecem o ar, e da maior ou menor vibratilidade das

cordas vocaes. Por isso, vêmos individuos com voz forte e penetrante,

como o sr. Barros, e outros, com voz debil e sumida, como o sr. Nunes de

Azevedo, que difficilmente se percebe.

Ora succedia que, por uma disposição especial dos pulmões, da larynge

e das cordas vocaes, aquella força expulsiva do ar e a vibratilidade

das cordas, existiam nos dois individuos em grau extraordinario e ainda

desconhecido para os mais eminentes physiologistas. D’essa disposição

especial resultava, tambem, que a voz, já potente e forte, obtinha,

ainda, consideravel augmento de intensidade com a reflexão nas paredes da

larynge, attingindo o que em Acustica se denomina _resonancia_.

Quando as vozes não encontravam obstaculo, pouco se conhecia esse

augmento de intensidade, porque, então, se perdiam na atmosphera; mas,

se as ondas deslocadas por cada uma se encontravam, era tal a violencia

do choque e das vibrações, d’elle provenientes, que só a poderemos

comparar, nos grandes phenomenos da Natureza, á rapidez e violencia

das ondas do Oceano quando, açoitadas por furioso vendaval, avançam,

chocam-se, equilibram-se com medonha expansão de força, recuam para

formar novo salto, até que uma perde a força resistente, e a outra vence,

esmigalhando, com espantoso ruido, tudo o que se oppõe á sua passagem.

Este effeito destruidor soffriam todas as peças dos apparelhos auditivos,

que o circulo da primeira projecção podia abranger.

As membranas do tympano dilatavam-se n’uma dolorosa expansibilidade; o

martello batia desesperadamente na bigorna com o mesmo furor, com que

Mestre Borralho batia a sola, quando não era director dos Presidios

civis; o estribo andava aos saltos, como anda em corcel fogoso, quando,

no meio da batalha, entre o rugir da artilheria e o sibilar das balas,

perde o cavalleiro e parte, desvairado e furioso.

Na trompa de Eustachio desencadeava-se um verdadeiro cyclone.

Nem as trombetas de Josaphat, n’esse terrivel dia do Juizo final, poderão

egualar o infernal ruido, que supportavam os apparelhos auditivos.

Depois, para aggravar o flagello, dotára Deus os dois individos com

uma extraordinaria loquacidade, e constante verborrhea que, de dia

e de noite, lhes agitavam nervosamente os labios para questionarem,

discutirem, argumentarem sobre tudo e sobre todos, em portuguez, em

francez, em latim, em allemão, em quantas linguas vieram de Babel.

Era sempre de funestos resultados, de dolorosas consequencias a sua

presença, e por isso, homens, mulheres e creanças fugiam, prestes, ao

sentil-os, interrompendo todas as manifestações da sua actividade e todo

o exercicio dos seus mestéres.

Desculpavel fôra, pois, o proceder do Governo brazileiro, expulsando os

nossos compatriotas.

* * * * *

Ora aqui tem V. Ex.ª, sem exaggero, sem alterações da verdade (que, por

ahi, n’este assumpto, tanto tem sido alterada) subordinada a rigorosa

demonstração scientifica—a razão, porque regressaram a esta terra, e

se respeitam, e se evitam, a ponto de viverem separados pelas grossas

muralhas da Praça, os nossos amigos:

Leopoldo Gomes

e

Abilio Lucas.

* * * * *

Evitam-se e respeitam-se—disse eu, e demonstro.

Um vive dentro, outro fóra. Um foi a Paris em 75; outro em 79. Quando um

é da Camara, o outro é da Commissão do Recenseamento. Abilio é socio da

Assemblea e frequenta-a; Leopoldo despede-se. Entra novamente Leopoldo;

Abilio deixa de frequentar aquella casa. Leopoldo conta a historia

dos relogios; Abilio sorri maliciosamente e insinua a duvida; explica

Abilio o remedio, que descobrira o ilheu, para salvar a _senhora mãe_;

Leopoldo mastiga em secco e pisca o ôlho para os circumstantes. Um

faz-se agricultor e trata de terras no Arraial, em Picões, na Esplanada;

o outro faz-se politico e «_provarei_». Entra o segundo na Politica

activa; desvia-se o primeiro, e trata de terras em Gondomil—polo opposto.

Um, gosta do _Capellão_ e _fala-lhe_ a miudo, como homem temente a Deus;

outro, não se dá com esse _ministro do Senhor_ e rosna-se, até, que tem

as suas questões com elle. Um, move-se, agita-se, apparece de manhã na

villa, ao meio dia em Monsão, á tarde em Gandra e sempre a pé; outro,

limita o exercicio dos seus membros locomotores á loja do sr. José Lopes,

ou do sr. José Seixas.

É evidente, palpavel, esta incompatibilidade, esta heterogeneidade de

individualidades, que se origina na intima convicção, que elles teem da

sua influencia destruidora e no accordo, ou _modus-vivendi_, que, para

mutua conveniencia, secretamente estipularam, ao fixarem a residencia na

terra, em que nasceram.

* * * * *

Quando, ha annos, estive em Paris, no regresso da minha viagem de

estudo pelo Oriente—á Mongolia, ao Turkestan, a Niphon, a King-Ki-Tao

e outros centros da Asia—onde fui recolher materiaes e elementos

comparativos de civilização, com os da minha terra, para a composição

d’este livro, encontrei-me, na Academia de Medicina de Paris, com o sr.

Zagallo, que alli estudava, commissionado pela Excellentissima Camara

d’esta villa, a organisação do serviço de Hygiene publica, indicado,

por aquella faculdade, á municipalidade parisiense;—missão, essa, que

Sua Excellencia, tão brilhantemente desempenhou, e que tão beneficos

resultados produziu para esta povoação, como se prova com esse elegante,

commodo e original _water-closet_ do jardim publico.

Tive, n’essa occasião, a honra de ser recebido pelo eminente dr. Charcot.

Falando no meu paiz, alludiu o illustre clinico aos dois portuguezes,

que em 74 examinára, por recommendação do Governo; e foi grande a sua

admiração, quando lhe affirmei, que com elles vivia em Valença, e que,

ha dez annos, permaneciam na mesma localidade, se bem que, nas condições

especiaes de isolamento, que já referi.

Mas, a minha asserção tocou para Charcot as raias do inverosimil, quando,

á supposição, que me apresentou, da existencia inevitavel de graves

doenças e perturbações no apparelho auditivo dos meus conterraneos,

sujeitos á convivencia e aos perigosos effeitos da presença e

communicabilidade d’aquelles amigos, eu lhe affiancei que não eram essas

enfermidades, as que mais avultavam nas estatisticas da secção de Hygiene

municipal.

Charcot fazia bem em duvidar. Eu faltei á verdade, e a isso me levou a

amizade, que a esses Cavalheiros me liga, e a repugnancia, que tive, em

tornar odiosa, para o eminente sabio, a existencia de dois patricios, que

tanto prezo, acato e... respeito.

Mas V. Ex.ª sabe o que por cá vae...

V

Perfis

Abilio

Examinando-os, apreciando-os isoladamente, reconheço os valiosos serviços

que os meus amigos—Abilio e Leopoldo—teem prestado ao desenvolvimento

material e intellectual da nossa terra; e não se esquiva a minha

consciencia a declarar, que são uteis e, mesmo, indispensaveis, entre

nós, as suas individualidades.

Abilio entrou, por um generosissimo impulso de gratidão, na Politica

activa de Valença.

Accusam-n’o de violento, de precipitado, de faccioso, ou, como diz o

povo, de... petroleiro. Eu classifico todo o seu proceder politico, como

o de um innocente noviço, ou ingenuo collegial.

É um homem, meus senhores, que trabalhando ha seis annos em eleições,

n’esta terra, independente em Politica, como se sabe, tem sustentado

a creancice de seguir um só partido e respeitar uma só opinião—a dos

regeneradores!!!

Ora isto, em Valença, se não indica falta de senso, revela excesso de

ingenuidade e para esta ultima hypothese me inclino, porque não admitto

que, para umas manifestações da mentalidade humana, haja falta de senso e

isso se não dê com as outras.

Abilio é, pois, um ingenuo politico e—o que mais é—um ingenuo faccioso.

Referindo-se á administração progressista, tem a eloquencia de Danton, a

arrebatadora oratoria de Robespierre, a impetuosa dialectica de Cassagnac.

É violento, incisivo, caustico.

N’aquellas medonhas explosões de colera, fere, trucida, chacina,

esposteja nas hordas contrarias, como S. Thiago na moirama.

Chega a rubro a temperatura da sua palavra.

«É preciso, meus senhores, mostrar ao povo os seus direitos, para

que elle saiba expulsar, a chicote, das cadeiras do poder e _de tudo

aquillo_, esses bandidos, sem eira nem beira, que estão delapidando os

dinheiros publicos e _tudo aquillo_, que representa o trabalho honrado do

povo, o suor do seu rosto, _tudo aquillo_, que ganha para o sustento dos

seus e de _tudo aquillo_, que lhe pertence.

As nossas finanças vão, de cada vez, a peor, _tudo aquillo_, que

representa a riqueza da nação vae parar, vae sumir-se n’esse insondavel

abysmo de ladroeiras, de arranjos, de afilhados, de _metades, de tudo

aquillo_.»

..............................

N’este periodo de excitação, Abilio deixa-se apoderar, tanto, da sua

convicção partidaria, perde, de tal fórma, a cabeça, que se esquece de

tudo e de todos, concentrando todo o seu ser, toda a sua vitalidade

na idea e na palavra, com que, mais rapidamente, possa inutilizar o

adversario.

É assim que, ás vezes, o vemos sahir de casa, arrebatado, irado contra

algum _arranjo_, que lhe foram annunciar, e entrar, precipitadamente,

na sala das sessões da nossa Excellentissima Camara, com uma bota

branca, outra preta; assoar-se a uma luva, suppondo-a um lenço;

metter o cigarro na bocca pelo lado acceso; tirar rapé d’uma caixa de

phosphoros—perfeitamente allucinado, colerico, perdido!

Originam-lhe inimigos estes arrebatamentos; mas se o Papa, como unico

correspondente, cá na terra, do Padre Eterno, me enviasse o livro das

informações particulares, que hão-de influir no tremendo dia de Juizo e

d’onde dependerá, ou a nossa absolvição, ou a condemnação ás caldeiras

de Pero Botelho, em que fazem caras tão feias aquelles bispos mitrados,

que por ahi vemos nas _alminhas_ dos caminhos ruraes, na folha corrida

do Abilio, eu não hesitaria—desassombradamente o declaro, sem pretenções

a adulador, sem interesse occulto presente ou futuro, sem desejar

provar a _Paraty_, ou tencionar pedir dinheiro emprestado—em exprimir o

conceito e a consideração, que este homem me merece, sobretudo quando a

lente da minha observação se desvia um pouco do campo, que lhe tracei

para a critica e m’o apresenta no outro, que respeito em todos: a

familia,—n’estas cinco palavras:

É um homem de bem.

E ao escrever isto, com plena consciencia e convicção, vem-me á

lembrança, _não sei como, nem porque_, a constante recommendação, que o

meu tutor me fazia, quando, ao partir para os estudos, me introduzia na

mão, com uma generosidade vanderbiltica, coisa de dois patacos em cobre,

com estas reflexões de moral preventiva:

—Ahi tens dinheiro... Tem juizo; foge dos cafés, das ruas de movimento

e... das más companhias.

... das más companhias...

Para fugir d’ellas, e dos seus perigos, é que se fundou a sociedade dos

_Provareis_...

Valha-me Nosso Senhor Jesus Christo!

Que tentações...

Leopoldo

Leopoldo é um homem de costumes austeros. Podia muito bem morar na rua de

S. João, ao lado do sr. Joaquim.

Tem predilecção pelos estudos archeologicos e o seu nome é citado, com

respeito, na Sociedade Martins Sarmento.

É homem versado em anthropologia. Possue as obras de Cuvier e de

Quatrefages.

Conhece diversas linguas, mortas e _vivas_, e enthusiasma-se, quando as

vê manejar _com pericia_, como lhe succedeu em Paris, com aquelles sêres

pertencentes á classe dos mammiferos, ordem dos carnivoros, familia dos

_canis familiaris_.[19]

Tem ideas avançadas em materia religiosa. Sustentou, ha tempos, uma

questão de philosophia racional, relativa a crenças, tendo por oppositor

o sr. Tenente Silva e com tal arte se houve, que fez calar este

cavalheiro!!!

Sinapismos · 第 3 / 17 段