das valsas de Strauss, de Metra, ou de Waldteufel, aquelle assobio
tinha a malleabilidade d’um rouxinol, a limpidez das notas da Patti, o
crystallino da escala de Gayarre, ou do Masini. Quando, em noites de
luar, Justininho passava na rua de S. João, todas as janellas se abriam
para dar passagem, até aos leitos conjugaes, ás ondas sonoras, deslocadas
pelo assobio.
* * * * *
Ora, como V. Ex.ª deve ter verificado, não lhe faltavam condições para
inspirar sympathia e, certamente, vae ficar admirado, quando lhe disser,
que havia quem embirrasse com elle!
Era o sr. Coronel Almeida. Chamou-lhe, por ironia, _importante_ cá da
terra.
Ignoro as razões, que originaram a antipathia de sua Ex.ª
Tambem por cá havia muita gente, que embirrava com o sr. Coronel. O
Isidoro diz que elle era um homem muito fino; mas o Agostinho torce o
nariz e Agostinho é homem, que se não engana, que é consultado pelas
pessoas mais importantes da nossa terra, homem que sabe o que diz, e que
não dá _ponto sem nó_.
Seria bom, ou mau, como quizerem. O que eu digo, é que era muito feio;
mais feio ainda, do que o sr. dr. Salgado!
Devo ao sr. Coronel um grande serviço e um grande desgosto.
Conto o primeiro:
* * * * *
Eu tinha ido ouvir um sermão do Padre Capellão, em que sua
Reverendissima, desviando-se, completamente, no estylo, na fórma,
na sublimidade das ideas, na concepção das imagens, no arrojado da
Phantasia, da vulgar Oratoria do Palmeirão e quejandos, me descreveu,
d’uma fórma completamente original, intuitiva e concludente, em face da
moderna Sciencia, a maneira como o animal homem appareceu n’este mundo.
Foi no Eden. Eva tinha ido aos grillos, mas estes, sahindo rebeldes á
_palheira_ e, como ella não conhecia ainda o outro meio _natural_ de
os fazer abandonar a toca, andou por montes e valles, cançou-se, e...
adormeceu.
Veiu então Nosso Senhor, tirou-lhe uma costella, bufou-lhe e sahiu, já
prompto e acabado, o nosso primeiro Pae.
Ora, isto satisfez completamente o meu espirito; dissipou todas as
duvidas, porque é, realmente, uma das mais... respeitaveis e maravilhosas
concepções dos livros sagrados.
Mas, passado pouco tempo, soube eu que, lá fóra, andavam ás turras
differentes sabios por causa de novas theorias de evolução, selecção
natural, transformismo, etc., sustentadas por Darwin e Lamark e
combatidas por Linneu e Cuvier.
Alvoroçou-se a minha curiosidade e tratei de estudar a questão, com a
attenção devida á sua importancia.
Durante muito tempo, nunca tirei o caso a limpo. Se passava por o sr.
José Luiz,[10] dizia com os meus botões: vou com Darwin; se passava por o
sr. Velloso dizia: vou com Cuvier.
Assim estive muito tempo, hesitando, e sem saber se, realmente, o meu
coccyx foi sempre o extremo da columna vertebral, ou se em tempos
remotos, esteve ligado a algum appendice, que hoje tem um nome muito
sympathico ao sr. Marquez de Vallada.
Chegou o sr. Coronel a Valença e entrou a verdade no meu espirito. Fez-se
a luz! Venceu Darwin.
Indubitavelmente, inquestionavelmente, o sr. Almeida não teve a mesma
origem, que teve o sr. Velloso; a não ser, que se possa admittir uma
hypothese, mas com essa nada tenho, porque não entra no meu programma. É
questão de portas a dentro:—que houvesse troca nas vias da expedição...
* * * * *
Agora conto o desgosto:
Já lá vão quinze annos! Minha mulher andava, com licença de V. Ex.ª, no
seu estado interessante.
Uma noite, para lhe combater a insomnia, li-lhe uma historia do Egypto,
em que figurava o grande Sesostris, que morreu, como se sabe, ha perto de
4:000 annos e de que existe a mumia n’um museu qualquer.
Havia, n’essa historia, mortes, egypcios de barriga furada, pharaós com
as tripas de fóra, creanças desventradas, velhos postejados—uma matança
de arrepiar carnes e cabellos.
O livro tinha gravuras e n’uma pagina, via-se o grande Sesostris
mumificado por aquelles processos, ainda hoje ignorados, dos antigos
egypcios.
Minha mulher não gostou e affligiu-se. Fechei o livro e abri a porta,
para ir cumprir uma necessidade urgente.
N’isto, passa na rua o sr. Coronel, e logo que minha mulher o vê, desata
a berrar:
—Ai o Sesostris! Ai o Sesostris!
Teve uma syncope e, depois, dôres violentas.
D’alli a duas horas a sr.ª Maria do Hospital aproximava-se de mim e,
com aquella amabilidade, delicadeza e fino trato que, infelizmente, lhe
conhecemos, dizia-me estas terriveis e significativas palavras:
—Senhor, nada de affligir, porque a _fabrica_ ainda cá fica; mas esta...
deu-a para fóra!
..............................
Comprehendi. E no auge da minha dôr, para explosão da minha cólera, só
pude exclamar:
Raios partam o Sesostris!
* * * * *
Deixemos coisas tristes...
Eu fallei no Velloso...
Este Candido Velloso, com os seus olhos negros, com o seu collete
branco, o seu collar decotado, a sua perna bem lançada e elegante, o
seu pequenino bigode _á mosqueteiro_, e com o oiro do seu uniforme, é o
terror dos Paes de familia d’esta região peninsular.
João, é Candido e candido; meigo, carinhoso, delicado, para o bello
sexo. Tem a sensibilidade d’um bardo; a alma sonhadora d’um menestrel; o
espirito cavalheiresco d’um paladino; a pureza immaculada d’um Abeillard;
o lyrismo d’um Romeu; a altivez d’um Quichote—todos os attractivos,
emfim, d’um João com Dom e ás direitas.
Cinco seculos antes, e Velloso seria um dos onze companheiros de Magriço,
n’aquella cavalheiresca aventura da côrte ingleza.
Apparece em toda a parte, onde ha senhoras. Corteja, sorri, offerece os
seus serviços e conta coisas, que entretêm.
A sua organisação affectiva é poderosissima. Com o amôr, as contracções
dos ventriculos, para a diastole e para a systole, realisam-se com uma
força equivalente a 750 kilogrammetros por segundo.
O seu coração é um enorme _caravanserail_. Tem cem auriculas e cem
ventriculos, com a capacidade de 64 metros cubicos cada um. Os amôres
cabem lá dentro vestidos, calçados e com guarda-chuva aberto.
Cada um tem o seu quarto numerado. Ao levantar-se, Velloso, passa em
revista todos os seus affectos e escolhe para o dia.
Não revela preferencias, para não originar baralhas. Ás vezes desapparece
da circulação, porque os Papás valencianos e tudenses, aterrados,
inquietos, vão ter com o sr. Silva Pereira e exigem-lhe a deportação do
incendiario.
Lá vae para Castro Laboreiro. Quando é necessario por cá, basta
pronunciar baixinho, esta palavra:—baile. No aureo tempo, em que João
Morães era enthusiasta pelas danças e promovia aquellas _apatuscadas
reuniões-familiares_, em que a gente ía á Assemblêa, para apprender
a fazer meia, ou para ajudar a dobar maçarocas e novelos ás
senhoras—acontecia ás vezes o seguinte:
João Morães lembrava-se d’um baile. Só no seu cerebro se definia essa
idea. Matutava sobre o caso. Fechava-se no gabinete e, concentrando todas
as suas faculdades, principiava o orçamento.
Calculava e annotava:
=Chá= (póde ser comprado aos homens do papel, que o
vendem a 800, o kilo) $372
=Assucar= (Metade do _pilé_ e metade do mascavado) $723
=Pão para fatias= (Cada peça dá 20, cada _cornucho_
dá 12) 1$207
=Manteiga para as tostas= (Vende-a o Coisa a 200,
o kilo, com ranço; póde ser misturada) $247
=Carqueja e lumes de pau= $015
=Agua de Colonia= para o _toilette_ das damas (1
quartilho, de Tuy) $060
=Pó d’arroz= (e farinha) $030
=Aluguel do= _Panorama_, ao Albino $120
=Illuminação= (nas escadas póde ser de sebo) 1$473
=Contracto= com 3 cavalheiros para cearem em casa 3$900
=Roscas de Tuy= para os quatrocentos meninos e
meninas, que costumam vir aos bailes 12$747
=Gratificação ás amas=, que tomem conta dos que
ainda mamem 1$500
=Piões e faniqueiras= para os mais velhinhos se
entreterem no salão $140
=Musica de Ganfey= para tocar á porta o hymno
real, quando entrar o Representante do Rei,
Nosso Senhor 6$000
=Gratificação= a 4 artilheiros para, armados,
guardarem os taboleiros, na passagem do corredor 2$000
=Brinde= ao Aurelio para recitar uma poesia tragica:
valor de $700
=Idem= ao Roldão para marcar as quadrilhas: valor de $720
=Gratificação= a 6 creados $300
Total 30 mil e tanto. Por cabeça—tanto. João Morães verificava. Tirava
a prova dos nove. N’isto, batiam discretamente á porta. João abria e
cahia-lhe o Velloso nos braços, offegante, pallido. Vinha do Castro
Laboreiro a pé, a cavallo, no comboyo.
—_Sei que projectas um baile. Ahi tens a minha quota. Risca; e olha lá—oh
menino—vê se arranjas isso depressa. Passam-se tão bem aquellas horas..._
Este João deve ficar na terra. Deve ser expropriado por utilidade
publica. Barcellos, que se arranje lá, como quizer. O Velloso Candido é
que para lá não volta. _D. Joões_ temos muitos por cá; agora, candidos,
ha só um, que é elle; e esses, é que se apreciam, porque não fazem mal.
Velloso Candido! Trata de te matrimoniar, filho.
Oh diabo!... E a Mé...?
* * * * *
Em Politica, Justininho foi sempre, como eu—um desgraçado. O mais que
podia conseguir, (e n’isso levou-me a palma) era um convite para fazer
parte das mesas eleitoraes. Pois arranjou popularidade nas aldeias. Os
lavradores respeitavam-n’o e affirmavam, que tinha _lume_ no ôlho.
Em leis do Real d’agua e da Contribuição do Registro era um Salomão.
Ahi vae um exemplo:
Os guardas do fisco trouxeram-lhe, preso, um camponio, que tentára
introduzir na villa, sem direitos, um garrafão com meio almude de vinho.
Perguntou o desgraçado quanto tinha a pagar e, aterrado com a multa e
tantos por cento, nas barbas honradas da auctoridade, levou o garrafão á
bocca e despejou-o d’um trago.
Nada se podia fazer, porque o Regulamento não previne esse caso.
Sahiu o homem, mas ao virar a primeira esquina, sentindo-se afflicto,
levou as mãos á bocca e despejou o vinho.
Justininho vê isso e manda-o novamente prender. Intima-o a pagar direitos
e multas correspondentes.
—Mas eu bebi o vinho, senhor!
—Bebeu, mas deixou-o ficar na villa, dentro de barreiras. Alli está,
introduzido sem pagamento de direitos. Art. 1007.º do Regulamento de 6 de
Maio de 1884. Pague!
—Mas eu _esgumitei-o_[11], senhor!
—O dito Regulamento, no seu paragrapho de isenções, não lembra esse caso.
Pague!
E pagou, que não houve volta a dar-lhe. Nem sete doutores o salvavam.
* * * * *
Ora aqui está, o que pude _apanhar_ ao Justininho d’outros tempos. Hoje
está homem sério, como eu; já nem escreve nas gazetas, o que é realmente
para lastimar, porque nem a gente sabe quantos robustos meninos, por ahi
nascem.
Justininho,
boas noites.
III
Carta a Sua Excellencia, o sr. Governador... de Paysandu
Senhor!
Tenho a honra de me apresentar a V. Ex.ª
Sou o Zinão.
Quarenta annos; casado, e com bom comportamento moral, civil e religioso.
Nunca tive contas com o Borralho, nem com o Assiz dos Algarves, nem com o
Julinho.
Sou de muito bom genio; depois que vi as caras feias, que fazem os srs.
Barros e João Monteiro, quando se zangam, abracei immediatamente as
doutrinas philosophicas da eschola optimista, e digo com Leibnitz: «Tudo
vae bem n’este mundo, que é o melhor possivel.»
Sou irmão da Misericordia e approvei a admissão das irmãs de Caridade,
porque em coisas de religião sou muito temente a Deus, como o sr. José
Narciso. Tenho bulla, porque se a não tivesse, quero dizer, se a não
pagasse, diz a Santa Madre Egreja, que era peccado comer carne.
Vou á missa e á desobriga; além d’isso, sendo amigo intimo do sr.
Baptista e, como affirma o dictado, os amigos dos meus amigos, meus
amigos são, tambem sou das relações intimas da Senhora do Faro, que
tem tomado chá na casa d’elle, e com quem este senhor se trata por tu,
jogando, nas noites de inverno, a bisca e o 31 de bocca.
Tambem sou militar, porque pertenço á terceira reserva.
Respeito a mulher do meu proximo. Sou economico; tenho chapéos ainda mais
antigos, que os do sr. Polycarpo.
Como portuguez, amo a minha patria; odeio os ibericos, como o sr. João
Ignacio.
Em Politica sou legitimista, como o sr. Santa Clara, porque ninguem me
tira da cabeça, que estes reinos pertencem ao sr. D. Miguel e a mais
ninguem.
Tenho sido, por vezes, Juiz de Paz e, se na minha terra me não guindei,
ainda, ás alturas a que chegaram os srs. Joaquim, que se carteia com o
Ministro do Reino, ou o sr. Illydio Dias, que com a sua Bibliotheco-mania
telegrapha ao Rei, como amigo velho, quem viver verá, que talvez consiga
roubar-lhes o pennacho.
Ora aqui está a minha folha corrida; e por ella já Vossa Excellencia vê,
que sou homem sério e que, se não moro na rua de S. João, podia muito bem
lá morar.
Excellentissimo Senhor!
Dizem-me que Vossa Excellencia está prestes a deixar-nos, para ir
fulgurar na brilhante constellação dos nossos generaes; e não quero que
isso succeda, sem apresentar a Vossa Excellencia a homenagem sincera
do meu respeito e enthusiastica veneração, porque considero Vossa
Excellencia, como um dos melhores Governadores, a quem, para felicidade
d’estes povos e d’estes reinos, Sua Magestade tem havido por bem confiar
o _governo_ d’esta Praça.
Na pleiade de homens illustres que, ha doze annos para cá, teem
_governado_ Valença, Vossa Excellencia destaca-se pelo seu senso,
illustração, excessiva modestia e desprendimento das glorias do mundo,
que tão tentadoras e offuscantes são, quando, após annos de lucta, de
vigilias, de laboriosas lucubrações de espirito, de penosissimo labutar
das funcções cerebraes com senos, cosenos, raizes quadradas de _a_ e
ditas cubicas de _b_, chega a gente a alcandorar-se nos inaccessiveis
pinaculos d’uma tão elevada posição social.
Os dois illustres antecessores, que precederam Vossa Excellencia,
eram e são muito boas pessoas; mas alargavam demasiadamente a esphera
das dependencias da Praça, de fórma que faziam incluir no seu
Estado-maior uma certa pessoa, clara já, talvez, á perspicacia de
Vossa Excellencia—pessoa que, até alli, tinha a seu cargo o caridoso e
humanitario mistér de desobrigar pessoas serias, como eu, Excellentissimo
Senhor, e que, depois da chegada de Suas Excellencias, se viram na dura
necessidade de, ou desviar para outra applicação a sua potencia vital,
como, por exemplo, para o estudo de construcções, principiando com a
rudimentar disposição das traves nos tectos, ou a curtir... as suas
maguas pelas muralhas, entregando, assim, o organismo á terrivel atonia
d’essa perigosa enfermidade, que a todos ataca na puberdade. (Vossa
Excellencia tambem devia dar o seu contingente...)
Ora, o tal monopolio, Excellentissimo Senhor, tornou-se muito funesto á
povoação. Foi, até, na epocha d’elle, e por causa d’elle, que aconteceu
aquella grande desgraça ao sr. Abilio Araujo...
Eu sou muito amigo de Vossa Excellencia e Vossa Excellencia tambem é meu
amigo. Sou d’aquelles que, no dia do Anno Novo, apanham o seu quinhão nas
_boas festas_ que Vossa Excellencia, lá das alturas, se digna dar, como
os antigos senhores feudaes, á burguezada e aos paradas-velhas, cá da
terra.
Depois, venero Vossa Excellencia, porque é um homem energico, que tem,
como o povo diz (e realmente tem) cabellinhos na venta (com o devido
respeito).
Aquella felicissima resposta, que Vossa Excellencia deu ao Padre
Magalhães, quando elle foi pedir para a Semana Santa com o innocente sr.
Joaquim e com o ingenuo Abbade das Gandras, foi fulminante de espirito;
foi á Pombal, á Richelieu, á Pitt, á Bismarck, á Duque d’Olivares; teve
a potencia explosiva d’uma bomba á Orsini, ou d’um petardo nihilista,
preparado chimicamente, com os mais poderosos elementos endothermicos.
Disse-se, por ahi, que Vossa Excellencia procedera mal; porque, se queria
dar carambola ao _Noticioso,_ que lhe chamára General não sei de que, não
devia escolher para bola vermelha um homem que ia de preto, que tinha
entrado na sua sala de visitas, onde, até a pretalhada do Bonga, que
pouco sabe de hospitalidade, recebe e trata bem a gente.
Accusaram Vossa Excellencia de ter faltado, n’essa occasião, aos mais
rudimentares preceitos da delicadeza e até se asseverou, fazendo justiça
ao caracter de Vossa Excellencia, que a tal resposta foi soprada ao
ouvido, por Sua Excellencia, o Senhor Vice.
Eu não sou d’essa opinião. Vossa Excellencia respondeu e respondeu
muito bem. N’isto de militanças praceiras, não ha attenções, nem
hospitalidades, nem sala de visitas, ha... o regulamento do Conde de
Lippe! Quem o não acatar... leva a sua conta, e assim é que deve ser.
O Padre devia ficar ainda mais pequeno do que é, mas Vossa Excellencia
tambem escapou de boa! Se elle tem ao lado o Sant’Anna, lá do Porto,
Vossa Excellencia bem podia gritar por Sua Excellencia, o Senhor Vice...
Então o caso era serio!
* * * * *
Depois, quem não ha-de respeitar Vossa Excellencia, com a sua
variadissima illustração?
Nunca me hei-de esquecer d’aquelle esplendido discurso, que Vossa
Excellencia, de improviso, pronunciou na Assemblea, em 20 de janeiro de
1887, quando tomou conta da Presidencia. Sei-o de cór; e tão profunda foi
a impressão, que causou no meu espirito, que até n’elle ficaram gravados
os ápartes e as interrupções.
Se Vossa Excellencia dá licença, eu repito alguns periodos. Os ápartes,
para falar a verdade, são ainda para mim um tanto enigmaticos, mas deve
haver por ahi, quem os possa explicar a Vossa Excellencia.
Ahi vae uma tirada:[12]
«... As prestimosas agremiações, como esta, com que as
Sociedades modernas procuram deleitar e amenizar os espiritos,
após as laboriosissimas horas da lucta e contrariedades da
vida, nascem, crescem e desenvolvem-se, como essas enormes,
vas- (_o sr. capitão Marques da Costa:—Vaz? É o amigo Lopo?
Então appoiado!_) tas e florescentes ilhas do Atlantico e
Pacifico, formadas pela organisação rudimentar das algas
marinhas e de myriadas de seres microscopicos, da familia dos
polypos, classe dos coelenterados, grande grupo dos radiados,
ou zoophitos. (_Os srs. Roldão, Polycarpo Monteiro, Zagallo e
outros cavalheiros versados em sciencias naturaes:—muito bem!_)
«Da Natureza, meus senhores, deliciam-nos as suaves fragancias
das flores: a modestia da violeta; a pureza immaculada do
lirio; o murmurar dos bosques, os seios tumidos (_o sr. José
Lopes, da Principal:—appoiado!_) da donzella, os alvores da
madrugada e o canto das avesinhas. (_Os srs. Alberto Marques,
Gaspar Durães, Justino Guerra e outros poetas e prosadores da
estafada eschola romantica:—muito bem!_)
«Pois na vida social, as horas fugitivas, que aqui deslizam
em encantador e aprazivel convivio, com os Cavalheiros de
fino trato (_o sr. Verissimo de Morães:—appoiado!_) e com as
amaveis, airosas e donairosas e gentilissimas damas d’esta
formidolosa Praça (_os srs. Justino Guerra, Eugenio Martins e
Soares Romeu, interessantes collaboradores do interessantissimo
«Mensageiro das salas»:—appoiado!_) ou com as encantadoras
hijas da hidalga y noble Espãna (_o sr. D. Ramon:—Ká! Muy bien!
Maunifico! Precioso. Ká! Seño Gobernador: Viva la gracia! Ká!_)
bellas, como uma virgem de Murillo e castas, como a esposa de
Jacob, de que me não recorda agora o nome (_diversas pessoas
serias:—appoiado!_) quando as cingimos em suave enleio, no
vertiginoso redemoinhar da valsa (_o sr. Salazar Muscoso:
muitobemmuitobemmuitobem!_)[13] ou quando as brindamos com
preciosas iguarias e delicados vinhos _(os srs. C. Oliveira,
Verissimo de Morães, um Cavalheiro de Tuy e outro de Monsão,
que não tive a honra de conhecer:—appoiado!_) essas horas,
repito, representam em a nossa vida social aquellas alegrias da
Natureza!
«Não ter alma para sentir isto, meus senhores, como muito bem
disse o nosso grande ex-historiador[14] Alexandre Herculano, é
proprio d’um ser doentio; é, como vulgarmente se diz, proprio
de gente pequena. (_Protestos ruidosos dos srs. dr. Ladislau,
Alvaro Garção e P. Magalhães.—O sr. dr. Pestana:—peço a palavra
para explicações._)
Trabalhar, pois, para esta Sociedade é uma acção de elevado
patriotismo; (_o sr. José Lopes, da Principal:—muito bem!_)
é uma acção de larga influencia regeneradora (_protestos dos
srs. Alvares d’Oliveira, P. Cunha e Agostinho_) para os nossos
costumes; é um symptoma da benefica evolução progressista;
_(protestos dos srs. Appollinario, Camisão e do dito sr.
Agostinho)_ é, emfim, como ainda ha pouco me disse, e disse
muito bem, o sr. Capellão (_o sr. Leopoldo Gomes:—qual d’elles?
Então Vossa Excellencia também gasta? Por isso eu estive á
espera!..._) que aqui me ouve, uma missão altamente honrosa e
humanitaria!
«Por isso, meus senhores, unamos os nossos esforços e como
os polypos e as algas.................... as algas....
.................»
Que Vossa Excellencia me perdõe o que vou dizer, mas... perdi o fio
ao discurso e o melhor é ficar por aqui, porque, n’estas questões de
Historia, não quero _metter_ de minha casa.
_Verba volant, scripta manent..._[15]
* * * * *
Eu atrapalho-me sempre, quando falo de Vossa Excellencia, que representa
para mim o que ha de mais alto, mais nobre e augusto, nas elevadas
jerarchias e coisas serias da minha terra.
Quando encontro Sua Excellencia nas ruas da vizinha cidade de Tuy,
pisando com arrogancia e altivez, genuinamente portuguezas, o solo
d’aquelles odiosos Filippes, seguido automaticamente, á distancia
regulamentar, por alentado e escolhido artilheiro, como estabelece o
regulamento de Sua Excellencia, o Senhor Conde de Lippe, eu tremo de
respeito e envergonho-me de mim mesmo—pobre e mesquinho verme da terra.
Quando assisto á entrada de Sua Excellencia, solemne, magestoso,
omnipotente, rutilante de oiro e pedrarias, constellado de _crachás_,
faiscante de venéras,—no templo de Santa Maria, em festividade da Semana
Santa, para mandar prevenir as auctoridades civis e ecclesiasticas, que
superintendem no cerimonial, que está alli, para, como unico e fiel
representante de Sua Magestade El-rei, n’estes burgos,[16] depôr o osculo
de respeito nos chagados pés do Senhor dos Passos, exactamente como, á
mesma hora, faz o mesmo Augusto Senhor Rei, no templo da Graça—quando o
vejo aproximar vagarosamente da veneranda imagem, n’aquelle passo grave,
solemne e arrastado de solas, com que os prophetas de barba de guita e
cara borrada com pós de sapato, acompanham em Tuy o sagrado esquife,
e o ouço depôr o respeitoso osculo, confundindo assim, em edificante
e enternecedora homenagem, a magestade dos céos com a magestade da
terra—quando sigo, depois, Sua Excellencia na retirada do templo, rodeado
do seu luzido e brilhante Estado-Maior, essa pleiade de homens illustres,
que representam o que ha de mais intelligente, nobre e indispensavel
nas instituições militares do meu paiz, homens encanecidos em mil
batalhas contra columnas cerradas de algarismos, cifras e cifrões de
indomitas contas de feijão e batata, do rancho geral, ou dos cadernos
da arrecadação dos puxa-frictores, morteiros, colubrinas, missagras,
lanternetas, chapuzes, cepos, boldriés, sacres, caçoletas, falconetes,
lanadas, cucharras, soquetes, munhões, sotroços, trinque-bales, tira
e mette-buchas e outros tarecos velhos, que nas dependencias da Praça
são do exclusivo dominio e usofructo dos ratos e aranhões, formando,
no seu conjuncto, collecção superior, em inutilidade, á feira da
Ladra—quando eu vejo tudo isso, meu Senhor, sinto-me mais pequeno do
que um feijão fradinho; mais sumido, do que um certo parasita que Vossa
Excellencia, d’essas alturas em que vive, não enxerga, mas com o qual,
eu, infelizmente, estou relacionado, desde que commetti a imprudencia
de (com licença de Vossa Excellencia) verter aguas, detraz das portas do
Meio, onde tambem o faz a soldadesca!
Vossa Excellencia deslumbra-me; offusca-me; tem para mim as proporções
d’um semi-Deus; mas quer Vossa Excellencia saber, respeitabilissimo
Senhor?