Oh Papá! Que é, que é

_Numero 49_

_Sinapismos_

_Zinão_

_Ridendo..._

_Sinapismos_

Valença do Minho

1889

DUAS PALAVRAS

(A SERIO)

Essas paginas são para rir.

Originou-as a curiosidade que despertaram alguns artigos humoristicos,

publicados sob o titulo de _Ridendo_.

Ha n’ellas referencias pessoaes, como não póde deixar de ser, para que

os periodos não tenham a aridez dos discursos do sr. conselheiro Adriano

Machado; mas são referencias á vida social e á parte que n’ella tomam as

individualidades, que chamo ao tablado da ironia.

Respeito sempre a vida particular e isso que ha de mais nobre e sagrado

na sociedade—a familia.

O leitor verificará que, na composição dos artigos, segui um processo

de critica differente do usado, até hoje, nas polemicas litterarias e

politicas da nossa terra.

Suscitada uma questão, exgottam os adversarios os argumentos mais ou

menos concludentes, que as suas intelligencias lhes fornecem; depois,

invariavelmente, vem a critica estulta e pueril da redacção dos periodos,

sua composição grammatical, ortographia, etc., e conclue-se com as

allusões á vida particular, em termos de collareja e argumentação de

viella. Temos visto muito d’isso por cá...

N’essas paginas ha artigos inoffensivos e ha periodos, em que a ironia

é violenta—desde já o declaro—porque foram inspirados no affecto, que

a esta terra consagro e no vehemente desejo que nutro, de que ella se

liberte da ignobil inercia, que a domina e de influencias ridiculas, que

a amesquinham.

Descarna-se n’elles, com o escalpello do sarcasmo, a parte d’este

organismo que a podridão ataca, applicando-se, como cauterio, o ridiculo

e a gargalhada, como desinfectante; mas não influe n’essa operação a

sensualidade brutal do estripador londrino, ou a ferocidade selvagem da

sanguinolenta tragedia de Pantin. Ha a insensibilidade e a firmeza de

pulso, que a Sciencia recommenda ao operador quando, para salvar orgãos

essenciaes á vida, lhe impõe a immediata extirpação e cauterio violento

d’outros, que o mal apodrece.

Essas linhas foram, pois, pautadas pela dignidade e nunca n’ellas

predominou a influencia de resentimentos mesquinhos, ou a intenção de

referencias offensivas, que seriam torpes, como anonymas.

Eis o meu programma e se alguma vez se desfivelar a mascara do Zinão,

oxalá que uma erronea interpretação do que se vae ler, não faça afrouxar

a acção nervosa, que hoje me extende a mão de muitos amigos, que figuram

n’essas paginas.

* * * * *

Passo a afinar a rabeca.

Valença—Novembro, 1889.

_Zinão._

Aos pobres de Valença

Entrevados, paralyticos, cegos, escrofulosos, tisicos, hydropicos,

—Velhos, mulheres e creanças,

que sois o producto dos residuos—_caput mortuum_—da Humanidade e por

ahi vos arrastaes, penosamente, aos sabbados, disputando, á dentada, o

magro _chabo_ que ás descarnadas mãos, em publico e notorio arrôto de

rothschildica generosidade, vos arremessam os poderosos Cresus da nossa

terra;

—miseros, que tivestes a desventura de ver a luz do dia coada pelas

frestas da mansarda, quando esses mesmos atomos e moleculas a que deveis

a vida, atrazando-se, ou adeantando-se no seu labutar constante, podiam

gerar-vos entre arminhos e flôres, entre aromas e caricias;

—precitos, que dormitaes, tiritando e gemendo com fome, enroscados, como

cães, na ampla escadaria da Assemblea, em noites de baile e de festa e

vos vêdes apartados, como reprobos, isolados como hydrophobos, do ruidoso

e alegre tumultuar da vida, em que ha risos, mulheres formosas, affectos

e diamantes;

—párias, que a doença algemou ao catre da dôr, e a quem a luz

formosissima da alvorada vae encontrar no estertor da agonia, nas

convulsões do soffrimento, nas infernaes torturas da miseria—essa mesma

luz que desperta e illumina a caravana alegre, quando, exhuberante de

vida, de mocidade e de prazer segue, ruidosa, ao Faro, para respirar o

oxygenio das montanhas e admirar as sorridentes paisagens da Natureza,

d’essa desalmada Mãe, que para vós só teve quadros sombrios, horrores,

vendavaes de infortunio, abysmos de soffrimento;

—famintos, que espreitaes com olhos soffregos os doirados salões de

Pantagruel e de Gargantua, e vos sentis deslumbrados com o faiscar dos

crystaes, alcoolisados com os aromas das iguarias, estonteados com o

espumar do _Champagne_, até que o lacaio vos atire o osso que o mastim

disputa, ou vos expulse a chicote, para que a miseria dos farrapos

nojentos, o fetido dos membros descarnados, a pallidez cadaverica da

face, não vão perturbar a alegria dos convivas, recordando-lhes que

ha por este mundo gente que nasce, vive e morre, sem conhecer o que é

_Champagne frappé, Punch à la romaine, ou Riz de veau à la Tartare_;

—imprudentes, que vos atreveis a bater á porta do Hospital depois das

oito da noite, como se a Caridade não tivesse mais que fazer, do que

estar á vossa espera, e por ahi appareceis, depois, mortos nas muralhas,

com o ventre para o ar, olhos esbugalhados, membros hirtos, esverdeados,

cheirando mal;

—reprobos, que nem entrada tendes nos templos, onde imaginaes que, por

lá estar Christo, se egualam as condições, ignorando que o Christo da

missa do meio-dia não é vosso, mas o dos argentarios que, para illudirem

a consciencia e satisfazerem as exigencias da vaidade e as apparencias

da hypocrisia, lhe dão capas de velludo e corôas de oiro; lhe fazem

companhia nas longas noites do inverno, distrahindo-o com essas immoraes

bambochatas das Novenas e da Semana Santa, com a somnolenta melopêa da

padralhada, com as intrigas e confidencias amorosas, com o cochichar

mordaz do beaterio, que entre _Torres eburnea_ e _Mater castissima_,

discute a confecção de um vestido da Torrona, ou do Blanco—e lhe fazem

venias, e batem no peito, e andam por ahi, de porta em porta, ostentando

cynicamente crenças, que não possuem, crenças, que não comprehendem, a

pedir em nome de Christo, que é o symbolo do amor e da humildade, os

_cinco tostões_ da subscripção, quando á mesma hora, infelizes, olhaes,

soluçando, para a escudella vazia e as creanças vos mordem os peitos,

porque já não tendes leite, nem o calor da vida...

Velhos, mulheres e creanças,

escutae:

Ahi tendes esse livro.

Lêde-o, ou dae-o a ler. E se entre os ricos e os felizes da vida esses

periodos não se crystallizarem no oiro da esmola—encontrareis ahi

lenitivo para os vossos infortunios, porque ficareis sabendo, que nas

regiões, onde só imaginaes venturas, oiro e risos tambem ha, como entre

vós, pustulas—da vaidade, aleijões—do ridiculo, febres—da ambição,

contracções—da hypocrisia, doenças e disformidades mais dolorosas e

repugnantes do que as vossas, porque não inspiram compaixão nem dôr, mas,

apenas, tedio, ironia e a gargalhada.

I

O Microbio[1]

Tivemos á porta o Microbio.

Eu já o esperava.

A gente, para falar a verdade, porta-se mal cá por baixo e o Padre

Eterno deve, com justa razão, encrespar as sobrancelhas com uma boa dóse

de mau humor, quando o globo terraqueo, no seu incessante rebolar por

essas immensidades, lhe apresentar á vista a formidolosa praça e os seus

arrabaldes.

Aquelle nefando e escandalosissimo caso, que tanto alarmou a fé das

christandades e a religiosidade das beatas da nossa terra—a prisão

da Santa, arremessada aos baldões para os ferros de El-Rei e para a

jurisdicção autocratica do Borralho, de sucia com os desobedientes e

reaccionarios philarmonicos de Ganfey—deve tel-o incommodado seriamente.

Mas ha mais. É recente outro caso mais escandaloso ainda, que aqui, á

puridade, vou referir.

Na vizinha villa de Monsão perpetrou-se, ha pouco, um gravissimo

attentado contra a Moral, contra o respeito ás coisas sagradas e

seriedade das nossas crenças religiosas.

Ao que parece, o conspicuo Senado não prestou a devida attenção á guarda

da Santa Coca e esta, já enfastiada com as interminaveis polemicas e

diatribes dos srs. padre Simão, Caetano José Dias e outros respeitaveis

jornalistas, escapou-se á sorrelfa, internando-se nas terras da Galliza

até Redondella, onde foi visitar a Coca da localidade.

Ora, segundo se conclue, esta era de sexo differente e, de incestuosa

copula, resultou uma Coquinha, que os nossos bons vizinhos tiveram

a imprudencia de apresentar em publico na ultima procissão de

Corpus-Christi, com grande gaudio dos atheus e suprema indignação do

ferrador da localidade, contractado para S. Jorge, que, em altos brados,

reclamava maior salario, visto que ajustára a lucta contra uma só Coca e

não contra duas!

E permitti que vos diga, respeitavel Senado monsanense, á fé de

Deu-la-deu, que foi incorrecto o vosso proceder! Contra Cocas com familia

deve-se, indubitavelmente (as pandectas o determinam, artigo 1:007),

pagar mais caro o S. Jorge.

Ora, com todos estes desacatos, repito, o Padre Eterno deve trazer-nos de

ponta e claro é que, mais tarde ou mais cedo, cá teriamos o castigo:—ou

qualquer das pragas do Egypto, ou nova Exposição de Rosas, ou novo

consulado do João Cabral, ou mais dois falladores, como os srs. Abilio e

Leopoldo.

Do Mal, o menos. Veio o Microbio.

As planicies do Ganges já deram o que tinham a dar. O Egypto, a India, a

China, a America Central são insupportaveis n’esta epocha, com as suas

elevadissimas temperaturas. O Microbio é d’uma organisação especial, que

dispõe de todos os recursos para facil e rapida locomoção; anda sobre as

aguas, como Ulysses, de chinelos de liga, e no ar, como nós, no sobrado

das nossas casas. Requereu, pois, licença para uma viagem ao extrangeiro

e o Padre Eterno, extendendo o index, indicou-lhe o caminho.

Microbio preparou-se convenientemente com repetidas abluções

hydroterapicas, como o sr. Albino; abotoou o seu guarda-pó; sobraçou o

guarda-chuva; despediu-se da familia e, de mala de viagem e guia Baedeker

na mão, atirou-se cá para o Occidente e parou em Vigo.

Pelas condições economicas da viagem, que não teve caracter official,

nem reclamos, nem discursos de congratulação dos Presidentes das Camaras

e das Juntas de Parochia, este Microbio deve ser differente, do que

visitou a Hespanha em 85. Deve ser um Microbio burguez, pacato, com

inscripções, rheumatismo e dinheiros a juro; talvez Juiz de Paz, ou

quarenta-maior contribuinte do seu concelho; deve usar suspensorios,

botas de cano; tomar rapé e dormir com barretinho de algodão; deve ser um

Microbio sensato, austero e de bons costumes; de principios e convicções

firmes, assim como o sr. Agostinho; bom chefe de familia, temente a Deus,

inimigo de _Malzabetes_ e de romarias, onde qualquer Pau-real amolga

impunemente a massa cerebral, ou a mioleira da humanidade.

Em Vigo apresentou-se, pois, modestamente com um pequeno sequito de

gastrites, gastro-enterites e algo de typhos; mas apesar do incognito

rigoroso e da modestia d’esta apresentação, souberam da sua chegada, em

Lisboa, os conspicuos Membros da Junta de Saude.

Aquelles respeitabilissimos Esculapios, Argos vigilantes, a quem estão

confiadas as nossas existencias, aborrecidos já da longa inacção em que

vivem desde 1851, limitados a rubricar diariamente o fornecimento dos

cemiterios da capital, de que se encarregam com inexcedivel pontualidade,

arregalaram, de jubilosos, os olhinhos, vendo em perspectiva um Microbio

legitimo, genuino, naturalisado americano pelo sr. dr. Arezes. Tocaram a

rebate no paiz.

Os pharmacópolas açodaram-se em abundantes preparativos de tonicos,

diaforeticos e antisepticos.

Koch, Pasteur, Brouardel, Proust, Fauvel, Ferran, Raspail foram

consultados em laboriosas vigilias.

As tropas, emocionadas pelo santo amor da Patria, prepararam-se para o

holocausto no Cordão sanitario,—que tão boas libras produziu em 1885.

Os amanuenses, prevendo uma valente _razzia_ entre os chefes cacheticos e

tropegos, saboreavam as delicias d’uma rapida promoção.

Maridos, com vida atribulada, suspiravam voltados para o septentrião...

Tudo se preparava, emfim, para receber o Microbio.

Entretanto, palitava elle a sua ociosidade, em Vigo, com alguns

artilheiros, que ainda se não sabe, ao certo, se foram victimados pela

febre, se pela gangrena originada no _excesso de limpeza_, em que

viviam...

Informado dos preparativos, que no nosso paiz se faziam para o receber,

Microbio Bacilla malhumorou-se.

Antipathizou com a calva luzidia do sr. dr. Meira, encarregado

officialmente de o saudar em nome do governo lusitano.

Alterou repentinamente o itinerario e... foi-se.

Lá desappareceram com elle as fagueiras esperanças dos amanuenses, dos

maridos infelizes e as cóleras dos senhorios de Valença, que em 85 foram,

violenta e despoticamente, espoliados dos seus direitos de propriedade

por um governo futre e poucaroupa, que teve o descaro de pagar, como

aluguel de nove mezes, uns miseros centos de mil reis, que representam o

dobro do valor das propriedades.

Lá desappareceram as rações de 1.ª classe e aquellas encantadas folhas

de kilometros, que deram aos tropegos membros locomotores de amigos

meus, obesos e adiposos, a agilidade e ligeireza do mais leve e reputado

andarilho...

D’esta vez, ainda, déste xaque-mate ao Padre Eterno, oh grande doutor

Lourenço!

* * * * *

Augustus Sampaius, senhor da Balagotia; Intendente geral dos serviços

phyloxericos, digo,[2] antimicrobicos da fronteira; Commissario geral

dos inoffensivos Cerberos da policia concelhia e, como tal, terror dos

Troppmans e Jacks adventicios; Chefe da Repartição do expediente do sr.

Administrador (que Deus Guarde); Director da Repartição Municipal de

Hygiene e Secção annexa das toleradas, artes _julianas_ e _valladicas_;

Inspector do serviço das bombas e de segurança publica; Fiscal dos pesos

e medidas; Secretario perpetuo das Juntas de Parochia; Orçamentologo

official das Confrarias e Irmandades sertanejas; Irmão do SS. Sacramento;

Mesario e Ex-definidor da Santa Casa da Misericordia; Mordomo da

Senhora do Faro, da Senhora Santa Luzia milagrosa e outras Senhoras

d’aquem e além mar, terras da Urgeira e Taião; Mestre de cerimonias

nas contradanças lithurgicas das nossas festas de Egreja: Estatistico

distincto dos fogos, productos, criminalidade, bipedes e quadrupedes do

Concelho; Numismatico abalisado; Agricultor emerito; Actor consummado;

phantasista original e querido das damas, em debuxos de lettras para

lenços de namoro—homem que representas, na vida social da nossa terra,

a mais completa e complexa, a mais genial expressão da actividade

humana—Augustus Sampaius, senhor da Balagotia—eu te saudo!

Ao fallar no Micobrio, que tanto apavorou os conspicuos Esculapios da

Junta de saude, e que tão ridentes esperanças fez agora despontar, no

horisonte ennublado de muitas finanças oscillantes, eu não posso esquecer

o teu nome, porque foi a ti, ao teu provado zelo, assaz reconhecida

sollicitude, desempenada actividade que a Patria, eu e a minha prole

devemos a desejada immunidade do terrivel Bacilla, na campanha de 85.

Commove-se-me profundamente a alma; inundam-se-me os olhos de lagrimas;

sensibilizo-me, como se te ouvisse no palco com as lamentações de pae

tyranno e infeliz; foge-me dos labios o riso, como se te aturasse o

_espirito_ n’essas libertinas extravagancias a que te dás no Carnaval,

encadernado de _princez_, ou á _antiga_, com os ouropeis e a farrapada do

teu guarda-roupa—(boceta pandorica de frioleiras e de traça)—percorrendo

as casas sérias, com grande gaudio das matronas do teu tempo e abundante

colheita de mystificações, intrigas, pançadas de riso, chavenas de chá e

tostas com manteiga—quando me recordo, oh Balagotio illustre, dos teus

serviços no cordão sanitario!

Noites tempestuosas que passaste; asperezas do inverno; longas

caminhadas; chuva, vento, frio, fome e sêde; graves perturbações nas

funcções digestivas; fraqueza nas contracções peristalticas, occasionando

incommodas e demoradas accumulações no cœcum; nas longas noites de vigia,

ao avizinhar-se vulto sombrio e suspeito, afrouxamentos instantaneos

do _sphingter_ com defecações abundantes, enfraquecedoras; fartas

exhalações de acido carbonico e hydrogenios carbonado e sulfurado—e

tudo isto pelo amor da humanidade, provocado pelo mais desinteressado

altruismo, inspirado na mais acrisolada philanthropia e, depois ainda,

aggravado com os arrancos da tua dyspepsia chronica e com a ingratidão da

Patria de quem, contrariado, espezinhado na pureza dos teus sentimentos

humanitarios, tiveste de receber, a _fortiori_, umas mesquinhas dezenas

de libras!

Tu, Balagotio amigo, engrossaste o longo martyrologio, da Patria.

Salvaste-a e continuas ahi esquecido, ignorado, com a tua dyspepsia e o

teu barretinho de seda preto, condemnado a um eterno roçar de canhões

do casibeque na mesa da Administração, sem uma commenda, sem veneras

hespanholas, que se vendem ao alqueire, sem um viscondado sequer!

Mas eu, conterraneo illustre, não serei tambem ingrato. Já que esse

_Zé Barros pequenino_ foi insensivel aos vehementes protestos do teu

amor, e te não fez Commissario das Policias, com pingue gratificação de

categoria; já que o teu Chefe no Cordão se não compadece dos olhinhos de

ternura e piedade, com que tu, cem vezes por dia, lhe fitas a janella, eu

te protegerei, cidadão benemerito e prestantissimo.

Tu soffres. Essa dyspepsia cruel, quando se não fala em Microbio, mina-te

a existencia, curva-te o tronco, descora-te a face, dissemina no teu

organismo os germens de uma anemia lenta e perigosa.

Brown Sequard nada te póde fazer.

A Deus nada posso pedir a teu favor, porque tu tambem foste connivente,

com esse feroz Attila do Registro predial, na prisão da Santa.

Nada temos a esperar do Céo, mas recorremos ao Olympo, que outr’ora fazia

tão bons milagres, como o Senhor S. Campio, que sua uma vez por anno, ou

a Senhora da Cabeça, que, para mostrar competencia na cura de fracturas

da dita, reune traiçoeiramente na sua festa, quantos caceteiros comem

boroa e feijão, por estas boas vinte leguas em redondo.

Pois bem! Que Jupiter ouça os meus rogos. Já que as delicadissimas

funcções do teu organismo te consentem apenas o leite, como alimento, que

Elle te mande Io, para que tu, nas suas cem tetas, possas de noite e de

dia chupar a vida, novas forças, novos elementos e os teus tecidos tomem,

a breve trecho, a salutar obesidade do sr. João Ignacio, do saudoso

doutor Pacheco, ou do nosso prestantissimo deputado, o sr. Visconde da

Torre!

Setembro 1889.

II

Passe-Calles

Oh Justininho!

dá cá o braço...

Ora aqui tem V. Ex.ª um rapaz, que se o Marianno não atira para o Pico,

era muito capaz de se guindar ao pico da popularidade, cá na terra.

Ainda não conheci quem mais sympathias tivesse entre Clero, Nobreza e

Povo; mas tambem, ainda não conheci rapaz mais sensato, conciliador e

serviçal.

Para chamar á paz um casal amuado; para prégar Moral ás creadas de

servir; para uma visita de pesames, a rigor, com o _resigne-se V. Ex.ª

com a vontade do Altissimo_ engatilhado; para dirigir um baile nos

_tricanés_; para entreter senhoras nas reuniões da Semana Santa, em S.

Estevão, ou nas do Carnaval, na Assemblea; para acompanhar familias

á missa das onze; para representar a Associação artistica; para umas

funcções serias de secretario (tinha o monopolio); para a descripção d’um

baile no _Mensageiro das salas_; para dirigir a eleição das comadres, a

coisa mais redondamente patusca e interessante, que gentes da Coroada

teem produzido—não ha, não houve, nem nunca haverá quem o eguale.

Quando passava na rua de S. João, todo tesinho e perliquitetes, apesar da

magreza e do nariz, diziam d’elle

as meninas—é muito engraçado,

as mamãs—é muito sympathico.

os papás—é muito bom moço.

os velhotes—é... é... é... o Justininho.

* * * * *

Estava nos bailes como em sua casa. Só tinha um defeito para homem de

sala: dançava pouco e mal.

E eu digo porque.

N’um baile da Assemblea reuniram-se, em quadrilha de _Lanceiros_ (a

mesma que David dançou ao pé da Arca) os srs. dr. Lopes, dr. Ladislau,

Padre Cunha e Justininho.

Justininho gostava de florear nas marcas. Ordenou um _chevaliers au

milieu_, e os quatro Cavalheiros, enthusiasmados com as damas, com a

musica, com as luzes e com as flôres, avançaram com _ropia_.

Eu não sei bem, como aquillo foi. O que sei, é que se chocaram, que

se enarigangaram, e de tal fórma foram abalados os respectivos e

respeitaveis vomeres e cornetos, que o sangue espirrou, e os quatro

Cavalheiros foram retirados, em braços, da sala.

As senhoras desmaiaram. O baile acabou.

Foi o diabo.

D’ali em deante, tanto o sr. dr. Lopes, como o sr. Padre Cunha e o

Justininho (V. Ex.ª deve ter notado isso) dão-se pouco a danças. Quem

continuou foi o Ladislau, porque esse, no tremendo choque foi o mais

feliz. Como é pequeno e de baixa estatura, o seu nariz não abalroou com

os outros; roçou no umbigo do sr. Padre Cunha e enfraqueceu o choque.

É verdade: aqui está mais uma vantagem que a gente tem, em dar falta ao

estalão.

E ainda o sr. dr. Pestana se entristece e zanga, quando o alfaiate lhe

pede noventa centimetros para umas calças, e lhe assevéra, que não

necessita de um metro e dez, como os outros senhores!

* * * * *

Sou amigo do Justininho, mas já lhe roguei uma valente praga; e talvez

fosse por isso, que elle _tocou rabeca_ com o Pereira.

Eu conto o caso, porque não é de segredo:

Lavrava por ahi essa epidemia, peor do que cem microbios, das charadas.

Nas Assembleas, nos Clubs, nas lojas, nas mercearias, nas boticas e nas

nossas casas, não se tratava d’outra coisa.

O Almanach de Lembranças, essa escarradeira de quanto semsaborão existe

n’estes reinos, ilhas adjacentes, terras do sabiá e da Tijuca, espalhára,

por toda a parte, os germens da maldicta mania.

Havia enigmas; charadas antigas, novas, novissimas, com premio, sem dito,

em prosa e em verso; de—nas costas—1, sem indicação syllabica; emfim, de

toda a raça e feitio.

Descobrira-se, que para espalhar o flato e para aquecer os pés, no

inverno, não havia melhor remedio do que: charadas, quino e _trinta e um_

de bocca.

Justininho deve uma boa parte da sua popularidade, entre as damas, á

facilidade com que _matava_ charadas. Em se lhe dizendo:

O que é, que é

Que toca de dia

No alto da torre

de Santa Maria?

respondia logo, immediatamente:

—É um sino.

Ora, uma noite,—isto foi, talvez, ha doze annos—estava eu á mesa do

trabalho com a familia.

Minha mulher fazia meia. Minha sogra lá estava com as charadas.

O rapaz mais novo—o Toneca—estudava a licção de francez. O outro—o

Zéca—andava com a Avó á cata de decifrações.

Eu estava a turrar com somno, mastigando entre bocejos, uns periodos

muito alambicados, em fórma de lambedor, com que Justininho descrevia um

baile, no folhetim do _Noticioso_.

Soavam todos aquelles estafados bordões de—gentilissimas

damas—corações feridos—sorrisos angelicos—amores—gruta dos

ditos—arrufos—horas fugitivas—recordações saudosas—rainha do

baile—reticencias—etc.—etc.—etc.—.

V. Ex.ª deve conhecer tudo isto, porque de mil bailes, que tem havido em

Valença, appareceram mil descripções eguaes.

São como os necrologios do sr. Verissimo de Moraes. Estão sempre

promptos. A questão está em se dar o nome do perecido. Ás vezes, ha o

seu engano, mas escapa.

Por exemplo:

Ha annos, morreu n’esta villa um velhote com 90 janeiros.

Estomago fraqueiro e arruinado, atacára á noite uma pratada de arroz com

lampreia e... arrefeceram-lhe os pés.

Tambem, foi uma infelicidade, porque, se o sr. dr. Pacheco (diga-se a

verdade) chega mais cedo uma hora, o homem, em vez de morrer ás 10,

arrefeceria ás 9.

No dia seguinte, dizia o _Noticioso_:

«_Mais um anjo, alando-se para as ethereas regiões, fugiu hontem da

terra, roubado cruelmente, pela terrivel Parca, aos affectos dos seus

carinhosos paes._

_Polycarpo Bezerra, aquella encantadora e gentil creança, que era o

enlevo_... etc.»

Ora, Policarpo Bezerra, era exactamente a _creança_ de 90 janeiros, que a

lampreia victimára! Os barbaros dos typographos, se haviam de aproveitar

a chapa dos adultos, serviram-se da que havia para as creanças.

Isto succede.

* * * * *

Mas, como estava dizendo, eu turrava com somno, á espera do chá.

De repente, levanta-se o Zéca e diz:

Oh Papá! Que é, que é

Que, pela calada,

Gosta de dar

O Marquez de Vallada?

—_Cou_,[3] diz o Toneca, que acabava de tirar no Diccionario a palavra

pescoço. (Só o soube depois).

Levantei-me indignado, enfurecido com aquelle enorme desacato á Moral e á

Decencia, praticado nas minhas barbas!

A decifração da charada foi immediata e violenta para os rapazes: duas

valentes bofetadas!

Indignação geral da familia. Minha sogra levanta-se irada e chama-me

tyranno!

Retorqui-lhe que aquillo era escandaloso, antimoral e era uma falta de

respeito á gente graduada, porque o sr. Marquez era um Marquez, estava no

seu direito de dar o que quizesse, e ninguem tinha que lá metter o nariz.

Augmentou o barulho, porque os rapazes, defendidos pela mãe e pela avó,

cada vez berravam mais.

Levantou-se minha mulher, chamou-os, e lá foi tudo a chorar.

No dia seguinte, minha sogra, fiel ás tradições, quiz requerer o

divorcio. Andei amuado oito dias. Data, até, d’essa occasião, o meu

reconhecimento á Isabelinha, creada de sala...

Só quando fiz as pazes com minha mulher, é que conheci a origem da

resposta do Zéca e a coincidencia do _significado_.

O Toneca, como é mais agarotado, lêra o _Pimpão_ e appetecêra-lhe tambem,

sem saber o que dizia, _metter_ a sua farpinha no senhor Marquez.

Mas, tudo isto não teria succedido, se não fosse o diabo do folhetim e se

o Justininho não tivesse a mania de chroniqueiro de saias.

Veja V. Ex.ª, como se perturba a paz d’um lar e o socego d’uma familia

honesta!

* * * * *

Mas, effectivamente, o Justininho, para charadas, era d’uma perspicacia

sibyllina. Como elle, só a Sociedade charadista dos Terriveis de Villa

Real.

A gente reunia-se á noite na Assemblea. O Club, n’esse tempo, estava

ainda no embryão das sociedades pacatas, porque o sr. dr. Pacheco, se bem

que já andasse, como o povo diz, com a barriga á bocca, ainda o não tinha

dado á luz.

Ou se faziam charadas, ou se jogava o quino. Duas distracções innocentes

e engraçadissimas! Que saudosas noites! Que piadas! Que pilherias e

facecias!

Que espirito fino, alegre, saltitante, amenisava aquellas horas!

Quem mexia sempre nas bolas era o Melim. Uma mania como outra qualquer.

Cartão, dez réis; _corda_, sessenta réis.

Marcava-se a feijão carrapato.

Quem recebia as pagas, dava os trocos e quebrados, era o sr. Agostinho.

Cada _quinada_ era recheada de surpresas, ancias, esperanças e decepções!

—Trinta e tres, dizia o Melim.

—Annos de Christo, exclamava sr. João Ignacio, erguendo-se, todo

contentinho, para gosar o effeito da pilheria.

Andavamos aos tombos com riso, e quem poderia resistir?

—Vinte e dois!

—Patinhos a nadar—berrava o sr. Baptista.

Ai que demonios aquelles! A gente até chorava!

—Trinta e sete!

—João Pimentel Castanheira—lembrava o sr. Elias.

Não se podia continuar; estava decidido! Pois se até a ceia nos queria

trepar á bocca!

—Venha a precisa, ó vizinho e chegue-se cá, que quero bulir nas bolas,

dizia o sr. dr. Pacheco.

—Oh diabo! Isso não, que podem ver as irmãs da Caridade, aconselhava eu,

sempre prudente e cauteloso.

—Sessenta e seis!

—Quinei!—berrava o sr. escrivão Brito.

—Ora sebo!—murmurava tristemente o sr. dr. Evaristo. E eu que já tinha

cinco quadras! Bem se vê, que os padres não nasceram para trabalhos com

bolas.

Estavamos todos tristes, como a noite.

—Alto! Foi rebate falso. Siga!—dizia o sr. Brito todo rejubilante pela

facecia, e casquinando frouxos d’aquelle seu riso, tão patusco e tão

original: ki-i, ki-i, ki-i...

Afinal, quem quinava sempre era o Leopoldo. Este diabo, lá com os

capellães arranja-se sempre bem...

* * * * *

Reunia-se, pois, gente fina e perspicaz.

—o Veiga, que viu no Jardim das Plantas uma _ziboia_, com sessenta metros

de comprimento;

—o Izidoro que, como V. Ex.ª sabe, descobriu as aguas de S. Pedro, é

amigo do amigo Lopo e tem a Grão-cruz da Sociedade de Geographia e da

ordem do Sol, do Japão;

—o Serrão, que viu um comboyo, que levava dez regimentos de infanteria,

dez de cavallaria, oito de artilheria, um de engenharia; tudo em

armas, officiaes a cavallo, etc., etc. (Isto foi no tempo d’uma guerra

qualquer).

—o Machado, que, assistindo a um baile da Assemblea até ás duas horas da

madrugada, apparecia, ás cinco, na praia d’Ancora; lá ao longe, entre as

brumas do mar, dentro d’uma bateira, e já em regresso da ilha da Madeira.

—o Maximino, que sem perceber uma palavra da lingua de Milton, encontrou

uma _ingleza_, com quem se entendeu muito bem.

—o Leopoldo, que viu e apalpou os pendulos e o ponteiro do relogio, que

ficou entupido, nas alturas do coccyx, ao larapio da rua do Ouvidor.

—o Abilio, que conheceu o pae da mãe, do tio, do pae do dito larapio—Rua

da Quitanda, 23, sobreloja.

Emfim, tudo gente fina e perspicaz.

É verdade: tambem lá estava sua Excellencia, o Senhor Governador e sua

Excellencia, o Senhor Vice.

Na Academia real das Sciencias não havia melhores cabeças; nem na Camara

dos deputados, se exceptuarmos os srs. Oliveira Mattos e Visconde da

Torre.

* * * * *

Para arranjar charadas, quem tinha mais gosto e geito era o sr. Polycarpo

Monteiro. Pelos modos, carteava-se com o mano de Lisboa, a tal respeito.

Elle pensava um pouco e dizia:

Que é, que é

Que faz: pum! pum!

Quando lhe arrima

O Vinte e um?

Justininho escrevia, logo, qualquer coisa n’um papelinho; collocava-o

debaixo do seu chapéosinho e... sorria.

Nós andavamos ás aranhas.

Tira d’aqui, põe acolá...

Nada!

O Senhor Governador, forte em Mathematicas, punha logo o caso em equação:

2 pum + 21 = _x_

tirava os logarithmos, deduzia todas as formulas da triangulação:

Nada!

O sr. Zagallo, que não estava para contas, lembrava-se dos nomes de todas

as terras de Hespanha, por onde transitou no tempo das guerras...

Nada!

Ninguem falava. Ouvia-se o zunir d’um mosquitinho.

De repente bradam duas vozes:

Adivinhei!

—É o chapéo alto do meu subordinado Durães—dizia o sr. Borges.

—Não é, não senhor. É um chapéo, mas o do sr. Monteiro, dizia o Senhor

Vice-Governador, que já, n’aquelle tempo, era o homem mais fino cá da

terra.

É! Não é! Levantou-se uma questão dos demonios.

—Fala o Justininho!—bradamos nós, como quem recorre a um Juiz.

Justininho abriu o papelinho e mostrou, sorrindo:

Zabumba!

Rompeu nova celeuma. Ninguem queria ceder. A final, depois de muito

berrar, descobriu-se que todos tinham razão.

Havia alli um caso, como o da Santissima Trindade: tres pessoas

distinctas e um só Deus verdadeiro. Eram tambem tres coisas, todas

distinctas, todas eguaes e uma só verdadeira: o zabumba—do Justininho.

* * * * *

N’outra noite, o sr. Polycarpo, entrou na Assemblea, muito contente, e

esfregando as mãos, debaixo do seu chale-manta.

Trazia uma charada muito difficil, que lhe levára seis horas a compôr.

O sr. C. Barros offereceu logo, como premio, um exemplar do seu drama:

_Marilia_, ou a _Moira dos bosques_.

Reuniu-se o povo todo, e ouviu:

Quem é, quem é,

Que faz a desobriga

E, sendo capellão

Tambem é rapariga?

Esta, é que nos deu agua pela barba. Fazer de homem e de mulher, é que

nunca podemos comprehender.

O maroto do Leopoldo, esse, parece que a percebeu. Sorriu-se, porque

tinha entrado n’aquella occasião e, pelos modos, vinha de se confessar...

Trazia no chale-manta palheiras da muralha...

Foi o Abilio, que o traz de ponta, quem descobriu isso.

Ninguem matou a charada, mas desconfio que alli andou tambem influencia

do premio... Parece-me que afugentou um pouco as ideias.

Isto é mera supposição.

* * * * *

Depois d’essa, appareceu outra do sr. Zagallo, mas _matou-se_ logo. Foi:

O que é que é

Que dá _sól_ e _dó_

E se o Cruz lhe bufa

Faz: Pó, Pó!

V. Ex.ª certamente, já adivinhou.

É um _figle_. Não teve graça.

Pois o sr. General podia apresentar coisa melhor. Bastava que nos

dissesse:

Ora digam cá,

Sem hesitar

Se hoje na camara

Occupo logar?

Claro é que ninguem responderia, a não ser que se verificasse o conteudo

do mais recente, do que tivesse ainda a tinta fresquinha, dos officios

com que sua Ex.ª, oito vezes por mez, participa ao Senado que,

por motivos justificados—sahe

que,

por justificados motivos—entra

e vice-versa

e versa-vice.

* * * * *

Este sr. Zagallo, na Camara, lembra-me o Conego Vaz.

Eu fui sempre muito agarotado e por isso me não admirei, do que queria

fazer o Tonéca ao Marquez de Vallada. Se por ahi houver alguma mamã, com

filha casadoira, disponivel—francamente—que não tenha saudades da minha

pessoa, porque lhe não serviria, ainda que fosse _numero um_.

Quando não podia dar a minha _gazeta_ á aula do Conego, escapava-me

sempre que podia, cá para fóra, para a muralha, onde os Guerreiros e os

Garções jogavam o pião e o _escabicha_.

Juntos, eramos insupportaveis. O Ignacio Soares e o Zé, quando passavam

por nós, tiravam com todo o respeito o seu chapéosinho e tratavam-nos

por Excellencia, mas ainda assim, levavam o seu puxão de orelhas porque,

quando estavam encarrapitados na varanda de ferro, e se lhes dizia cá de

baixo:

Presos como os macacos!

cuspiam, e atiravam com botas velhas.

O Zé, hoje é homem de genio e palpita-me que, na Politica, ainda chega a

ser importante; mas n’aquelle tempo andava com o _hora, horae_, e isto de

latim é coisa, que debilita muito a gente.

* * * * *

Como estava dizendo, quando me juntava aos Guerreiros e aos Garções,

andava tudo, por ahi, n’uma dobadoira.

Pelo Maio, já tinhamos organisado uma inspecção rigorosa á producção do

concelho.

Era-mos, assim, uma especie de agronomos.

Se nos perguntassem:

Quem é, que n’este anno vem a ter:

melhores peras?—o Chico Veiga.

melhores melancias?—o Boticario.

melhores melões?—o Ascencio.

melhores uvas?—O senhor José Rodrigues.

A este senhor José Rodrigues sempre tivemos muito respeito. Quando, por

acaso, nos encontrava perto do Prazo, ou da Boavista, (a gente, já se

vê, andava a _passear innocentemente_) falava logo em tiros, mortes,

carabinas, punhaes, ratoeiras, facadas, cães de Castro Laboreiro... o

diabo!

Por isso, não era como os outros:

o Chico Veiga,

o Boticario,

ou o Ascencio;

era: o Senhor José Rodrigues.

A final, foi sempre um santo, e pagava o seu tributo em bellas uvas e

bons melões, como os outros.

Eu falei no boticario...

Era assim nos outros tempos, mas hoje é camarista e chama-se—o sr.

Fontoura.

Este senhor é que nos pregou um susto! Eu conto, se não me torno massador

para V. Ex.ª

* * * * *

As propriedades, como disse, estavam debaixo da nossa vigilancia

permanente.

Logo que a uva principiava a pintar, a pera a mudar de côr, a melancia a

ganhar casca—dava-mos assaltos medonhos!

Uma vez, combinamos o ataque ás melancias do sr. Fontoura. Ainda estavam

verdes, mas duas, ou tres, principiavam a carregar na côr.

O calor abrazava. Era necessario ser um Santo, para resistir á tentação.

Á hora combinada, entramos na propriedade, cautelosamente,

sorrateiramente, como quem anda aos grillos.

Tinhamos, já, duas melancias cortadas e tratava-mos de metter a unha, em

certa parte das outras (de que eu não digo o nome, porque póde ser lido

por senhoras) para verificar se estava molle ou rija, quando ouvimos

gritos de _agarra! agarra!_ e logo, após, o estampido d’um tiro!

Eu não posso explicar o que succedeu. Parece que nos agarraram pela golla

da jaqueta e nos levaram, pelo ar, até á Esplanada!

Alli paramos, porque já não havia ar no mundo para os nossos pulmões.

Consideramos no caso...

Apalpamo-nos cuidadosamente, demoradamente. Estendemos primeiramente uma

perna; depois outra; depois um braço.

Cuspimos. Passamos a mão pela cabeça.

Não havia sangue.

Serenamos. Voltou-nos a voz.

Só então verifiquei que, no auge da afflicção, _sem querer_, tinha

trazido as melancias!

Não estava tudo perdido. O que é o instincto da conservação!

Ainda nos incommodava a ideia, de que o sr. Fontoura fosse fazer queixa

ás familias—o que significaria uma valente tapona.

Felizmente não succedeu isso, porque elle, no auge do seu furor, (do qual

V. Ex.ª pode fazer idea, quando o ouve ameaçar céos e terra, clamando, á

porta da pharmacia, contra os seus devedores) não nos conheceu.

Parece que Deus não o dispoz para a nobre carreira das armas, porque, ao

apontar a espingarda, fez como os pretos e os soldados brazileiros—voltou

a cabeça.

Quando novamente olhou, diz elle, que só viu fumo. Não era só fumo; eram

nuvens de pó, que nós levantavamos.

Eu contei agora este caso, porque somos todos de maioridade, paes de

filhos, eleitores, elegiveis, e já não temos receio de tapona em casa.

Mas, até hoje, tem estado debaixo d’um certo segredo.

Como d’aquelle endiabrado rancho sahiram tão bons paes de familia, é que

eu não sei.

São effeitos da edade.

A gente muda muito.

Eu conheço pessoas, que na juventude faziam o que podiam. Chegaram,

mesmo, a dar nome; e que agora, sendo uns santos, em certas occasiões

embicam com qualquer coisa, e nem sequer consentem, que no theatro se

aqueçam os pés.

Isto vae tambem muito dos genios... e dos corações.

São como Deus os quer.

Valha-me Nosso Senhor Jesus Christo...

* * * * *

Mas, veja V. Ex.ª como eu perdi o fio ao discurso! Tudo isto veiu a lume,

para dizer que o sr. Zagallo, na Camara, me lembrava a aula do Conego Vaz.

Eu queria-me safar, como disse, e, volta e meia, dizia ao Conego,

levantando o dedo:

—Senhor Mestre, dá licença de ir lá fóra?

O Conego, ou dizia: vá,—ou:

—Está lá gente.

Mas aquillo tanto vez se repetia, que o Conego principiou a desconfiar

que era doença, como teve o sr. Sampaio nas noites do cordão sanitario,

doença que tanto dinheiro deu a ganhar á lavadeira...

Uma vez disse-me elle: Oh, senhor! Eu não sei para que cá vem. Nunca

tenho a certeza se o senhor está fóra, ou dentro. Ao menos, quando sahir,

deixe aqui ficar um papelinho.

E foi d’este papelinho que me lembrei, com os officios do sr. Zagallo.

* * * * *

Voltemos ao Justininho.

Justininho escrevia nas gazetas. Inventou o _Mensageiro das salas_,

aquella interessante secção, que eu nunca deixo de ler, em todos os

jornaes, porque é muito mais barato remedio, do que o Sedlitz Chanteaud.

Foi tambem elle, quem arranjou as seguintes classificações para as

differentes posições sociaes:

Juizes integerrimos.

Delegados meritissimos e dignissimos.

Medicos habeis.[4]

Negociantes probos e honrados.

Bispos e Padres virtuosos prelados.

Proprietarios abastados.

Cavalheiros de fino trato.

Officiaes do exercito illustrados e briosos.

Galopins eleitoraes valentes candilhos.

Meninas galantes.

Noivas gentis e encantadoras.

Senhoras solteiras gentilissimas damas.

ditas casadas virtuosas esposas.

ditas viuvas inconsolaveis.

Quarentonas interessantes senhoras.

Jarrões respeitaveis damas.

Creanças que nascem robustos meninos.

ditas que vivem interessantes filhinhos.

ditas que morrem innocentes anjinhos.

ditas que, nem nascem,

nem morrem, nem vivem mallogrados.[5]

Estudantes intelligentes e esperançosos.

Meninas... de fallar infelizes peccadoras.

* * * * *

Como V. Ex.ª vê, aqui ha para tudo.

É pedir por bocca.

Esta classificação teve voga. Foi adoptada em Monsão, em Caminha pelo

sr. Ricardinho, em Cerveira pelo sr. Romeu, em Vianna pelo sr. Eugenio

Martins, em Paris pelo sr. Xavier de Carvalho, etc.

Nas ilhas Sandwich é que eu não sei, mas vou sabel-o.

Ora, nós podiamos fazer um contracto com as redacções: abatiam uns

tantos por cento nas assignaturas e mandavam depois, sem adjectivos, os

Cavalheiros, os Padres, as Meninas... de fallar, etc., que a gente cá se

punha... a dispôr os _virtuosos e finos tratos_.

Esta evidentissima e valiosa manifestação do progresso intellectual do

nosso jornalismo deve-se, como disse, ao Justininho.

* * * * *

Justininho era correspondente de varios jornaes.

Tinha um estylo especial, caracteristico, archaico, indigesto, tirante a

classico.

Por exemplo: se fosse necessario dizer n’um jornal, que a esposa do meu

amigo Fabricio dera á luz um rapaz, e que já estava prompta para outro,

eu empregaria, pouco mais ou menos, essas palavras.

Justininho diria:

_Como prenoticiamos, a virtuosa consorte do nosso dilecto amigo

Fabricio, probo e honrado negociante d’esta formidolosa Praça, deu á

luz na preterita terça feira, um robusto e interessante menino, que

presentemente é o enlevo dos seus tão extremosos, quão apreciaveis

progenitores, e o encanto de todos os que hoje gozam a doçura ineffavel,

d’aquelle pequenino ser._

_A parturiente encontra-se já, graças ao Altissimo, liberta de perigo,

devendo, tambem, a sua rapida convalescença ao desvelo e intelligentes

cuidados do distincto e perito facultativo, o sr. dr. Pacheco._[6]

_A suas ex.ᵃˢ endereçamos, em nome da redacção, os nossos emboras; e

seja permittido ao auctor d’estas mal esboçadas linhas, incluir as suas

cordiaes felicitações, que já algures exprimiu, como o mais obscuro, o

mais somenos admirador das excelsas virtudes, que exuberantemente adornam

suas Ex.ᵃˢ_[7]

* * * * *

Ora aqui tem V. Ex.ª o que é uma imaginação fertil, e a triste figura que

faz um pobre Fabiano, como eu, quando escreve nas gazetas.

O sr. Verissimo de Moraes, em tal caso, escreveria, ou não escreveria o

mesmo.

Se fosse convidado para a festa do baptisado, usava exactamente

d’aquelles termos, e accrescentava:

_Todos os convidados d’aquella esplendurosa e inolvidavel festa se

retiraram altamente penhorados, com a maneira fina e delicada, e

inexcedivel amabilidade—que só a verdadeira fidalguia de sentimentos e

nobreza de caracter podem conceder—com que o Ex.ᵐᵒ Sr. Fabricio e sua

Ex.ᵐᵃ Esposa acolheram as pessoas, que tiveram a honra de entrar em sua

casa._

_Que perduravel ventura, e immensas felicidades, bafejem o berço do

penhor de tantos affectos..._

Se não fosse convidado, o parto e o baptisado seriam assim annunciados:

_A esposa do sr. Fabricio deu á luz um rapaz, que hontem, ás seis e meia

da tarde, foi baptisado na egreja parochial de S. Estevão._

E eu faria o mesmo, se tivesse jornal. A gente trata bem, quem bem a

trata. Isto já era assim no tempo de Noé e ainda não havia gazetas.

N’esta classe de gazeteiros, quem rasoavelmente se distingue, é o Aurelio.

Tem um estylo _á_ Victor Hugo e _á_ Guerra Junqueiro.

Isso explica-se muito facilmente.

Está provado que a Materia anda n’este mundo, em constante giro; e que

as moleculas, que actualmente estão no corpo A, podem muito bem estar,

ámanhã, no corpo B.

E sendo assim, não admira que na massa cerebral aureliana, se anichem

algumas cellulasitas vagabundas e patuscas dos grandes poetas.

Recordo-me, ainda, d’aquella grande questão, que elle sustentou, no

_Primeiro de Janeiro_, contra o Exercito, por causa do Real d’Agua.

Ahi vae um trecho e diga-me V. Ex.ª, se lhe não parece que está lendo a

_Morte de D. João_, ou a _Legenda dos Seculos_:

A lei é só uma com a espada da Justiça!

Palpitam corações nobres, sob as dobras da jaqueta,

Como palpitam e se orgulham debaixo da fardeta.

Quer se cinja uma espada, quer o cabo da rabiça,

Ha leis a obedecer. E com vontade, ou com magua,

Das batatas e do bacalhau que gastaes da Cooperativa,

Haveis de pagar, inteira, completa e positiva

A decima que todos pagam: os direitos do Real d’Agua![8]

Aurelio tem, tambem, incontestavel merecimento no theatro; mas nas

doiradas espheras em que, entre nós, a Arte alli se expande e libra,

nunca a minha nervosidade e a dynamica do meu espirito foram, tão

extraordinariamente abaladas, como n’essa saudosa noite, em que aos

meus olhos e sentidos, se patenteou a intuição artistica mais nitida,

a percepção psychologica mais frisante, que tenho logrado admirar nos

palcos dos grandes centros civilizados.

Alludo á magistral execução e genial relevo que, na _Morgadinha de Val

d’Amores_, deram aos seus papeis, os meus amigos Machado e Romano.

V. Ex.ª deve recordar-se...

Representava-se o _auto_ entre moiros e christãos. Figuravam reis,

prophetas, anjos, _princezes_, pagens, _donzellas_, pastores e

pastorinhas.

Das bandas do Oriente surgem: Manassés—o propheta, e Adonis—o _princez_.

As meias da sopeira, solidamente atadas, com tres voltas de fio de vela

e nó cego, acima da articulação do femur com a tibia, desenhavam-lhes

as linhas bamboleantes do pernil, escassamente roliço para despertar

sensações eroticas; o pé, pequenino e adamado, encafuava se, gentilmente,

n’um cambado sapato de entrada _abaixo_, com fivela doirada; o calção

retesado limitava-lhes a curvatura das nadegas; dos hombros pendia-lhes

graciosa quinzeninha de velludo defuncteiro; na cabeça, um carapucinho

patusco, com o seu tope arrebitado.

Nas faces mimosas e assetinadas, espetára a mão endiabrada do Rocha

ferozes matacões de caprina pellugem, e enfarruscára as sobrancelhas

avelludadas, com repetidas fricções de rolha queimada, embebida no azeite

do purgueira.

Marchavam com fronte altaneira, nariz repontante, seguidos pela sua côrte

de paradas-velhas, ao compasso do hymno picaresco, que o meu amigo Argar,

com a sua finissima intuição artistica, tão caracteristicamente soube

conceber, adaptar e colorir.

Ao apparecimento de tão illustres personagens—um propheta e um

_princez_—abalaram-se os alicerces do edificio, com a violenta

expansibilidade dos applausos. Ao longo da medulla espinal, desde o bolbo

rachidiano até á cauda equina, corriam-nos vibrações de enthusiasmo; as

senhoras choravam; os homens arremessavam os chapéos; os paradas-velhas

e esplanadas do _loiceiro_, impregnando o ambiente, no sonoro

explodir do seu arrebatamento, de exhalações duvidosas e aromas assaz

compromettedores, irrompiam em galhofeiras invectivas de affectuoso e

_intimo_ conhecimento, com os pagens e as _donzellas_ da real côrte:

—Vira para lá a rabáda, oh Transmontana!

—Tens o rancho á espera, oh 35 da 4.ª

—Pica o pé, oh Estrella!

..............................

E na intima audição do meu espirito, entre os fulgores e as scintillações

d’aquelle gloriosissimo triumpho, subjectivou-me, subito, o Senso:

Oh filho! Quanto póde a... Arte!

..............................

Mas... onde diabo está o Justininho?

* * * * *

Justininho era o fiel depositario, o mais denodado paladino das gloriosas

tradições, que apresentam Valença, como a terra da provincia, em que ha

mais convivencia, e em que as senhoras se apresentam, melhor, n’um baile.

É uma superioridade, esta, como qualquer outra. Cornelia, Joanna d’Arc,

Filippa de Vilhena, Deu-la-deu e outras matronas distinguiram-se a seu

modo. São feitios.

Foi elle, tambem, o inventor d’aquella celebre phrase, ainda hoje acceite

e adoptada, quando necessitamos occultar a nossa inercia, as nossas

fraquezas, ou a nossa ingenuidade provinciana. _Valença é madrasta para

os seus e mãe para os estranhos._

Nunca pude comprehender o que Justininho, e outros sectarios da sua

eschola philosophica, querem dizer na sua—n’uma terra, que não acceitou

o legado do Conde de Ferreira, em que a Politica é o que sabemos,

e em que os jovens engraçados, que hoje possue, se riem franca e

desassombradamente, quando, nos bailes da Assemblea, uma senhora

tem a infelicidade de cahir, ou quando, nos bailes de Tuy, onde são

obsequiosamente acolhidos, mettem os cotovellos á cara dos infelizes

pares, que de perto os seguem.[9]

São tambem opiniões... e feitios.

Ainda hei-de interrogar, sobre este ponto, os srs. Abreu e Oliveira, que

são os homens que, por aqui, vejo mais nos casos de fallar de tudo e de

todos, com auctoridade e competencia. Esses senhores devem saber muitas

coisas e todas a fundo. Basta observar aquella constante concentração de

espirito, e completa indifferença, com que encaram este mundo.

São cerebros, que, indubitavelmente, trabalham na resolução de grandes

problemas sociaes.

Lembram-me tanto Mr. Prudhomme...

* * * * *

Justininho tinha muitos diplomas de Socio Honorario e de dito benemerito;

tinha pennas d’oiro e de prata, etc. Era um perfeito rapaz de sala;

recitava poesias; tinha album para ellas; conhecia uma infinidade de

marcas no jogo do Senhor Abbade; e, para os rapazes, tinha uma grande

habilidade: assobiava magistralmente.

Sinapismos · 第 1 / 17 段