A vida é flôr na corrente,

A vida é sopro suave,

A vida é estrella cadente,

Vôa mais leve que a ave;

Nuvem que o vento nos ares,

Onda que o vento nos mares

Uma apoz outra lançou,

A vida--penna cahida

Da aza da ave ferida,

De valle em valle impellida

A vida o vento a levou!

..............................

..............................

_Talvez_, é hoje a Biblia, o livro aberto

Que eu só ponho ante mim nas rochas, quando

Vou pelo mundo vêr se a posso vêr;

E onde, como a palmeira do deserto,

Apenas vejo aos pés inquieta ondeando

A sombra do meu ser.

..............................

Depois d'isto comprehendeu-se que João de Deus se propozesse a traduzir

o _Cantico dos Canticos_.

Como, se bem me lembro, diz Herder, os elementos primordiaes da poesia

hebraica são a _sensação_ e a _imagem_, e posto que, no meu entender, a

boa critica não possa monopolisar aquella feição em favor apenas

d'aquella poesia, porque ella é caracteristica de todas as litteraturas

na sua genese, e nos primeiros periodos de constituição, em quanto

predominam no homem os sentimentos elementares como diz Veron[6],

comtudo a poesia hebraica propriamente tal quasi não chega a ultrapassar

o periodo d'aquelle predominio. Poderiam talvez accusar-se os versos que

acabo de transcrever de certo _garridismo_ que mal iria ao sentimento

que exprimem, se a violencia d'esse sentimento, o estado de exaltação

sensorial não estivessem justificando o que parece defeito aos leitores

que não sintam a transfusão psychologica que muitos hão de experimentar

ante aquelles versos magnificos.

A poesia de João de Deus é verdadeira musica. Se eu estivesse agora para

combater os que julgam como Lamartine[7] que a _versificação_, o

rhythmo, a cadencia, a rima, são cousas indifferentes á poesia na «época

adiantada e verdadeiramente intellectual dos povos modernos», os que

teem tudo isso, como Heine (cit. por Max. Buchon) por completa

puerilidade, para valente comprovação me podiam servir os versos do

nosso poeta.

São elles geralmente como que uma psalmodía. Allia-se a musica e a

poesia que tantos querem distancear, como se o rythmo fosse apenas

elemento especial d'uma arte. João de Deus como que tem uma rhythmopêa

espontanea. Sahe-lhe o verso moldado pela ideia e pelo sentimento, e

n'este como n'aquelle a modulação existe pelas fataes variantes dos

estimulos e das vibrações cerebraes. Procuraram os gregos systematisar

as relações do rhythmo para com a idêa e o sentimento, como se fôra

possivel marcar limite numerico aos modos de ser do pensamento, ou aos

productos da actividade intellectual e esthetica. Se, pois, em muitos

casos, são acceitaveis as velhas regras, geralmente a rhythmopêa deve

ser producto espontaneo, e não _canon_ de escóla. E porque se dá o

primeiro caso em João de Deus, é que talvez se revela nos seus versos,

bem salientemente o cunho da personalidade, condição essencial d'uma

obra poetica. É necessario não perder aquella de vista, porque, como diz

o critico francez, que atraz citei, o verdadeiro merecimento, na poesia,

está antes na esthesia do poeta de que na do leitor. Ora bastam as

transcripções que fiz para vêr como a personalidade do poeta, o seu

sentir e pensar se patentêam na expressão, na _fórma_, que em outros

escriptores mal disfarça com arrebiques e ouropeis a carencia da

sensibilidade e inspiração pessoal.

Ha mais poesia n'algumas _singelezas_ de João de Deus do que em muitos

_versos_ laureados que por ahi correm como modêlos de _metrificação_, e

que bem podem sêl-o, o que não basta de certo.

Mais poesia em pobre margarida

Que aos pés se pisa, enthesourada vejo,

Que em muita madreperola polida

Que as cinzas guarda de finado arpejo.

Toquei eu agora n'uma das melhores poesias de João de Deus, poesia que

elle diz ser fragmento, e fragmento que bem faz desejar a apparição da

obra toda.

Vou ainda transcrever alguns trechos que lançam de certo muita luz sobre

o vulto, quasi lendario do poeta, em pontos menos esclarecidos pelas

transcripções anteriores.

Padre, ministro do Crucificado

É bom ferreiro afeiçoando o ferro

Com que ha de prestes ir rompendo o arado

Os campos d'este secular desterro...

....................................

Na montanha da Fé, mulher formosa

Se ante mim a meus pés desenrolasse

Como o demonio a vastidão pasmosa

Que elle dava a Jesus se o adorasse

E me pedisse em premio uma só cousa

Ás mãos de minha mãe furtar a face;

Eu lançava-lhe cuspo...

...................................

Vêde-a ao berço, sofrega de vida

Que a sua é pouca para dar ao filho;

_Ella_ em cama de espinhos, mal vestida,

_Elle_ enfaxado, em berço de tomilho;

_Ella_ em continua, asafamada lida,

_Elle_ vendo se apanha á luz o brilho...

_Já descobrindo em tão tenrinha edade_

_Que toda a sua sêde é de verdade._

.................................

.................................

Irmãs da Caridade! A caridade

Tem só duas irmãs--a Fé e a Esperança:

Não traja as côres só d'uma irmandade,

Traja as côres do Arco d'alliança;

Leva sósinha o pão da piedade,

Tira da roda essa infeliz creança...

Roda da vida que anda de tal sorte

Que, em se lhe dando, é já contar com a morte.

Bemdita sejas tu, victima triste

D'um peito amante e d'um amante ingrato!

Que nunca á mesma loba lançar viste

Inda mamando o cachorrinho ao mato;

Bemdita sejas tu, que o que pariste

Teu fructo, imagem tua e teu retrato

Conservas como espelho onde te vejas;

Bemdita sejas tu, bemdita sejas.

................................

................................

Acaso é só dourada, altiva estola

Que liga os corpos em as mãos ligando,

Confunde corações e faz em summa

Que a Deus se elevem duas almas n'uma?

Ahi tendes o apostolo, o campeão social. Não lhe aceiteis, muito embora,

a doutrina. Acatae-lhe a generosidade, a grandeza da _ideia_, a robustez

da convicção. Que poema enorme, magestoso e bello não será aquelle!

Colligir as poesias de João de Deus que por ahi andavam dispersas,

mutiladas e perdidas, foi de certo um grande serviço ás patrias letras.

Prestou-o o snr. José Antonio Garcia Blanco.

Poeta mais original, mais rico, mais verdadeiro do que aquelle, não

conheço na litteratura portugueza, e tanto como elle, ha de ser difficil

de encontrar entre nós, na litteratura d'hoje. Um certo _mysticismo_ mal

definido que recendem as suas poesias, é menos producto da tradicção que

originalidade genial. João de Deus é um homem do Meio-dia com o vago

ancear d'um poeta do norte. Opprime-o o _insufficiente_ como ao Faust.

Se lhe désse para ser philosopho, onde iria parar?...

Como poeta tem alguma cousa de Ossian com alguma cousa de Goëthe...[8]

*Luciano Cordeiro.*

[2] «Goethe et Schiller» por E. Rambert. (Revue Suisse--fev. 1869).

[3] Quando digo «sensações sensoriaes», fallo das sensações

«externas e internas», como vulgarmente se classificam, e não excluo

as que se dão sem realidade objectiva que as provoque, e que

constituem o estado pathologico da «allucinação», estado a que

porventura se poderia reduzir algumas vezes, creio, o «mens

divinior» dos antigos. Esta ultima observação é minha, as anteriores

são de Luys (Recherches sur le système nerveux, etc., etc., cit. par

Littré) e E. Littré, De la méthode en psychologie (Phil.

posit.--Revue--1.^er vol.)

[4] Seguia-se a seguinte quadra, que não apparece na collecção e que

eu acho não só egual em bellesa ás citadas, mas superior a algumas:

Quando _o annel_ da bôcca lusidia,

Vermelha _como a rosa cheia d'agua_

Em beijos á saudade abrindo a magua

_Mil rosas_ pelas faces me esparzia;

[5] Variante:

Oh lagrima das lagrimas que choro!

[6] Superiorité des artes modernes.

[7] Cours fam. de litt.

[8] Revolução de Setembro (1869) n.^os 8012, 8015 e 8023.

* * * * *

FLORES DO CAMPO

DE

João de Deus

É indispensavel crêr na poesia como se crê no Evangelho, como se

acredita em Deus. No perpassar d'esta via dolorosa, cortada a todo o

passo de agrestes sinuosidades, a poesia luzindo de quando em quando ao

viageiro extenuado como um iris de bonança, significa a mais completa

redempção da materia pelo espirito.

Aguia sobranceira que elevando-se até perder de vista o lodo em que se

immergem tantos e tantos seres, vae roçar com a fimbria da aza a crista

das nuvens, confundindo os seus arrulhos mysteriosos com as melodias dos

seraphins!

Creou Deus a poesia para que a primavera com os seus canticos e

perfumes, com a sua opulenta vegetação, encontrasse quem a

comprehendesse, quem a cantasse: creou Deus a poesia para escarmento ao

vicio, distanceando-nos do finito que é o começo do scepticismo, para o

infinito que é Deus! Surgiu a poesia para que nas trevas de um mundo que

ri de tudo como Democrito, que tudo amesquinha, brilhasse uma luz que só

de vêl-a a alma se purificasse e o espirito adejasse para o ideal.

Não chamem á poesia trivialidade.

Estudem os seculos; contemplem as nações e digam se a poesia teve ou não

extraordinaria influencia nos grandes acontecimentos sociaes.

Quem, senão Roger de l'Isle, ergueu palpitante toda a França com umas

quantas estrophes, a _Marseillaise_?

Não foram os versos de Shakespeare, de Milton, de Pope, que

poderosamente concorreram a immortalisar a Inglaterra?

Portugal não deve a fama da sua gloria aos _Lusiadas_ de Camões?

Consintam os homens de algarismos, os materialistas que antepõem a carne

ao espirito, que fazem d'ella o seu credo, que os poetas, os sonhadores

de chimeras deixem devanear a imaginação por esses horisontes de anil;

deixem que reclinados á proa do baixel da vida namorem o azul das aguas

depois de terem contemplado o dos céos.

Ai da humanidade, se o poeta deixar pender a fronte desalentada ao

partirem-se-lhe as cordas da lyra! a prosa invadirá o sanctuario dos

mais nobres estimulos, e o sceptico exultará ao soltar a sua risada

infernal como a dos condemnados do Dante.

Não sei quantas vezes temos lido as _Flores do Campo_, exhaurindo sempre

novos e exquisitos perfumes.

Tem isso a originalidade, que é o distinctivo d'este poeta. Costumamos

dizer com referencia a qualquer notavel escriptor nosso: aquelle talento

tem a suavidade de Lamartine, o sentimento de A. de Musset, o mysticismo

de Chateaubriand, a ironia de Byron, a energia apaixonada de Victor

Hugo.

Porque não havemos de dizer que João de Deus tem o cunho original da

poesia portugueza na sua mais genuina expressão?! Quem se compraz em

parodiar constantemente os usos e idiomas dos de fóra, deve uma vez por

outra, ufanar-se do que tem de seu original e portuguez de lei, como o é

João de Deus em todos os seus escriptos.

Atravez dos versos do mimoso poeta contemplam-se as noites estrelladas

de Portugal, o Tejo com as risonhas margens, Coimbra com a sua _Fonte

das Lagrimas_, o clima emfim e a vegetação esplendida d'este pequeno

eden.

Vê-se que este poeta é portuguez de feição, e comprehende-se quanto na

patria de Camões e Garrett a poesia se manifesta espontanea e esplendida

na fórma e ideia!

Começa o livro com a poesia _Camões e Byron_, e termina com o _Cantico

dos Canticos_: abre pois com chave de prata para fechar com chave de

ouro.

Ha estrophes de uma suavidade tão nimiamente infantil, tão peculiarmente

despretenciosa, que a ninguem senão a João de Deus poderiam

attribuir-se, quando mesmo o seu nome não estivesse engrinaldando

luxuosamente o adito d'este livro.

Citaremos, entre muitas, estas:

Maria! vêr-te á porta a fazer meia

Olhando para mim de vez em quando,

É o que n'esta vida me recreia.

..................................

Esses olhos azues... que olhar! Receio

E desejo estar sempre a contemplal-o;

Não ha mais doce e mais custoso enleio.

..................................

Bem poderas, Maria andar tapada

Só com o teu cabello, á similhança

Do sol em nuvem de manhã doirada.

...................................

A bôca é tão vermelha que, em te rindo,

Lembra-me uma romã aberta ao meio,

Quando já de madura está caindo.

Na poesia _Innocencia_ revela o poeta, a par de uma finura de sentimento

e extrema sensibilidade, um preito á virtude, que toda a mulher que a

lêr deve necessariamente sentir-se attrahida por um sentimento de

gratidão para quem a escreveu:

Casta innocencia, de Deus filha e bella

Entre as mais bellas! virginal aroma!

Rosa ineffavel, que se á luz assoma,

Haste e raiz apodreceu com ella!

Percebemos tambem que João de Deus pertence ao numero dos crentes, ainda

tão mal limitado; prova-o exuberantemente as suas poesias _Luz da Fé_,

_Fragmento_, e varias outras.

Deus era inda meu pae. E em quanto pude

Li o seu nome em tudo quanto existe;

No campo em flor; na praia arida e triste,

No céo, no mar, na terra e... na virtude!

Como o poeta adora a poesia e o quanto tem d'ella feito o seu credo,

dil-o eloquentemente esta quadra:

Oh! poesia, poesia altissima

Como o fecho do impyreo! eu me ajoelho

E beijo a tua base, harpa celeste!

O coração--a corda que nos deste.

Na alma d'este homem que tem na fronte uma estrella de fogo e talvez um

martyrio no coração, suspiram ternuras indiziveis que a sua lyra traduz

em canticos suavissimos:

É do sangue e das mães que eu fallo, e certo,

Que ha na vida mais sancto? O sangue é vida;

E as mães fontes de vida: eu nunca esperto

Esta lampada d'alma, suspendida

Na abobada eterna e que tão perto

Parece ter a origem..............

....................senão quando

Vejo essa cara imagem suspirando.

Querem dizer, e talvez com razão, que João de Deus abusa da rima

deixando-a por vezes defeituosa.

A meu vêr esta pecha está na razão das manchas que o sol contém, mas que

os nossos olhos não descobrem sem o auxilio do telescopio, o que não

obsta a que o sol seja o astro do dia.

«Marcar balisas á poesia, é impossivel, diz um illustre poeta e critico,

a poesia é livre como o pensamento, e grande como a immensidade.»

Eis-ahi está o segredo da culpa, e _feliz culpa_!

Se João de Deus pertencesse a um certo numero de poetas que esgravatam

na areia e folheiam livros alheios primeiro que possam rabiscar algumas

insulsas linhas, talvez a rima lhe saísse menos incorrecta segundo a

arte, mas acanhada e rachitica segundo o pensamento.

A verdadeira poesia, como diz C. de Figueiredo, surge livre como a

natureza; irrompe, inunda de luz de fogo, sem muitas vezes poder

sujeitar-se aos acanhados moldes da arte.

Apparece-nos o poeta, namorado como Bernardim Ribeiro, n'estas

dulcissimas estrophes:

Não ha existencia alguma

Que não tenha amor, nenhuma;

Porque o amor, é, em summa,

Essencia de todo o ser.

Ha sempre quem nos attraia,

Mil vezes que a onda caia,

Ha uma rocha, uma praia

Aonde a onda vae ter.

Seria um nunca acabar se fossemos a exarar aqui todas as preciosissimas

joias d'esta corôa opulenta que veio enriquecer a nossa litteratura.

Apartamo-nos do livro com extrema saudade, recommendando á leitora, que

por acaso ainda o não possue, a prompta acquisiçao d'elle para

collocal-o ao lado das rosas, jasmins e violetas com que, durante a

formosa estação que se avisinha, ha de perfumar o seu _boudoir_.[9]

*D. Guiomar D. Torrezão.*

[9] Voz Feminina (1869) n.º 60.

* * * * *

ANNO LITTERARIO DE 1869

CARTAS A J. SIMÕES DIAS

Á hora dos phantasmas, á meia noite, escreveste o _Anno litterario de

1868_. A noite é sombria e triste; e por isso as tuas reflexões

humoristicas não occultam de todo a descrença, a tristeza e o desanimo,

com que espalhaste a vista pelas coisas litterarias da nossa terra.

Fundado ou infundado, não chamarei eu esse desalento, porque, de onde em

onde, nos encontrariamos, se eu fosse ajustar o padrão da tua critica ao

juizo que eu fizesse de producções da arte.

Não posso, comtudo, deixar de querer muito a essa franqueza, que é o teu

caracter, e a tua regra em materias de critica. E tanto mais lhe quero,

quanto eu reconheço que a franqueza, hoje em dia, é fazenda de

contrabando nas nossas alfandegas litterarias.

Quando o anno de 1868 pertencia já ao passado, scismavas á meia noite

sobre o mau rumo que te pareceu levarem as nossas letras. Eu sou um

pouco mais crente, e menos atrabiliario: á entrada de 1869, estendo os

olhos ao futuro, e espero e creio muito, porque já não são de pouca

monta as primicias que nos offerece o anno litterario de 1869. Fallo das

_Flores do Campo_ de João de Deus.

Com a analyse d'este livro, abro uma serie de apreciações, em que te

fallarei das obras poeticas que n'este anno, e em Portugal, se derem á

estampa. O meu voto, em materia alguma tem força, nem eu procuro

dar-lh'a, para se insinuar no animo do publico: é um voto individual, em

que apenas acharás o merito da sinceridade e da franqueza.

Direi de caminho que não sigo a trilha que me deixou o teu _Anno

litterario_. Não deslembrarei os preceitos da critica analytica, para

não apreciar, em synthese, obras que exigem demorado exame das suas

partes.

Tambem não escolho, para te escrever, a hora lugubre dos phantasmas.

Começo a escrever-te ás horas d'uma esplendida manhã, espalhando os

olhos por aquellas duas margens do nosso Mondego: a relva rasteira que

as veste, e que me falla de vagas esperanças, ha de desentranhar-se em

flores e fructos. Deixa-me crêr muito no dia de ámanhã.

E porque não virão as flôres da poesia derramar perfumes sob este céo de

Portugal, n'este _jardim da Europa_, onde já suspirou melodias

Bernardim, Camões, Garrett, Castilho! Não morre a poesia portugueza: a

estatua da deusa ainda não tremeu na peanha; e quando os iconoclastas do

bello quizessem contra ella erguer braços profanos, a quantos apostolos

da arte não teriam de suffocar a voz!

Bem-vindos sejam estes sonhadores de chimeras, estes utopistas cheios de

alma e coração, luctando de contínuo com o mundo real, e de contínuo

erguendo-nos a mundos imaginarios, mas bellos d'uma belleza que não é da

terra!

Fallo-te da poesia individual, e eu sei bem que lhe não queres tanto

como eu. Desejas que a poesia se concentre no mundo estreito dos fins

sociaes; entendes que a poesia deve de limitar-se a mostrar o caminho á

humanidade que marcha, ou á exaltação dos dogmas do seculo. Por certo

que se não desvirtua a poesia, seguindo por taes veredas; mas o genio

não tem peias nem limites: veste de luz o lirio dos valles; alumia a

estrada ao caminheiro da vida; doira as arestas do serro escalvado;

enche a noite de luz; de fulgores inunda o espirito, e não sei por

quantos mundos nos leva a alma absorta!

Marcar balisas á poesia, é impossivel, porque a poesia é livre como o

pensamento.

Deixa pois cantar os poetas que levantaram a vista do pó da terra, onde

tudo é limitado como a materia, e vil como o gusano das ossadas. Deixa

que eu te falle de um poeta, cujo espirito é aguia que raro avisinha a

ponta das azas aos marneis da sociedade. A gente pasma da altura a que

se eleva aquelle espirito, e acontece ás vezes que a nossa vista não

póde acompanhar tão levantados vôos: perde-se elle no vacuo, e, quando

divaga em mares de luz, ficamos nós em trevas, sem vêr a direcção que

elle toma...

João de Deus não canta para a sociedade, canta para si. Quer discorra

por vergeis de poesia singela e perfumada, quer se eleve a alturas

desmedidas, não se importa de que lhe não oiçam nem entendam o canto

sempre harmonioso. É talvez por isso que elle não publicou, nem

publicaria as _Flores do Campo_.

Ao amigo que lh'as estampou, muito devemos nós todos os que presamos as

nossas boas letras.

Agora se me offerece caso para cogitações profundas: as _Flores do

Campo_ saíram a lume ha quasi um mez, e, até á data em que te escrevo,

dormem os nossos criticos a bom levar, sem que uma palavra lhes haja

irrompido dos labios, sobre o merecimento d'este magnifico livro. Aqui,

ha por força caso virgem, mas... ponto em bôcca.

E pois que os criticos não querem, ou não ousam, pronunciar o seu

_veredictum_, vou eu mostrar-te o valor em que tenho as _Flores do

Campo_, por que me digas ao depois se não são ellas, para a nossa

litteratura, prenuncios d'um outono avergado de fructos.

Quando o visconde de Chateaubriand trabalhava por agremiar em torno da

cruz as multidões, que ainda sentiam nos ouvidos a voz tentadora de

Robespierre e Mirabeau, surgia na Inglaterra um homem extraordinario,

personificação pasmosa do genio e do scepticismo--lord Byron.

Ninguem como o cantor do _Childe Harold_, pôde jámais aliar uma alma de

poeta ao scepticismo, á duvida, á frieza, que ressumbram de cada verso

do _Don Juan_:

For me, I know nought; nothing I deny,

Amit, reject, contemn; and what knew you,

Except perhaps that you were born to die?

And both may after all turn out in true.

Mas... na mente de Byron reflectia-se uma das tendencias mais

caracteristicas da sociedade contemporanea; o scepticismo apresentou-se

revestido com a aureóla do genio, ergueu-se como chamma incendiaria, e

lavrou pela litteratura do seculo.

Que restava aos adeptos da poesia? O maior numero, como os companheiros

de Ulysses, deixou-se arrastar pelos cantos da sereia, e, se não abordou

á ilha encantada, d'onde lhe acenava a gloria, mediu a profundeza do

abysmo que a tentação lhe abriu aos pés...; outros, refugiram á

attração, e velejaram alegres por onde os não batessem os pampeiros da

descrença e do scepticismo.

A poesia que abre o livro de João de Deus é o emblema dos dous rumos por

onde tomam os argonautas da arte, e estrema o scepticismo e crença,

_Camões_ e _Byron_. Não sei se esta composição vale muito aos olhos dos

mestres; para mim, é das mais somenos de João de Deus, e, se não fôra

collocada alli para denunciar, talvez, as crenças litterarias do auctor,

não a quizera vêr á entrada d'este livro. A arte exige para um edificio

primoroso um portico lavrado a primor.

Na composição alludida, se a ideia é grande e original, a fórma que a

reveste não, não é perfeita; sem fórma, não concebo arte, e sem arte não

se traduz o sentimento do bello.

Não vás porém julgar que estou dando lições de poetica a um poeta como

João de Deus. Mais do que ninguem, conhece elle por ventura os defeitos

do seu livro, e, se os poupou, ao limar os seus versos, é que não teve

em tanta conta, como geralmente se tem, certas exigencias da arte.

Que vês?--Sóes, de tal sorte

Que os crêra tochas _pallidas_,

Quando as guedelhas, _madidas_

De sangue, arrasta a morte.

...........................

--Falla.--Deus! que harmonia!

Aqui a alma _exalta-se_;

A alma aqui _dilata-se_...

_Camões!_--É a poesia.

Nem a critica imparcial tanto exige, nem eu tenho logar bastante para

transcrever aqui todas as estrophes, em que as rimas se me deparam

defeituosas e erradas. Cito-te de passagem _queime_ e _geme_, _deixe_ e

_feche_, _confesso_ e _immenso_, _cuides_ e _virtudes_, _outro_ e

_encontro_, _géra_ e _inteira_, _teimo_ e _supremo_, _prega_ e _negra_,

_avaro_ e _ara_, _sêde_ e _hei-de_, _põe_ e _foi_, _vê_ e _adorei_,

_inteiro_ e _quero_, etc.

E comtudo João de Deus parece brincar com as maiores difficuldades da

rima. Para não fallar na poesia _Boas Noites_, basta apontar-te aquelle

trecho da poesia _O Musgo_:

Um dia, não sei que tinha...

Uma tristeza tamanha!

E lembra-me ir á montanha

Que temos aqui visinha,

Onde em tempo me entretinha

Horas e horas sósinha,

Quando ainda não se extranha

Que n'uma teia de aranha

Se prenda uma innocentinha,

Ou atrás d'uma avesinha

Se cance a vêr se a apanha.

Em metricação tambem as _Flores do Campo_ nos offerecem provas de que

João de Deus não é, n'este ponto, nimiamente escrupuloso. Assim ficou

errado este decassyllabo:

Chamando-os com enternecimento,

e aquelle septissylabo que vae sublinhado:

Que é a torre exactamente

_De David n'esses ares,_

para não citar passagens como estas:

_Adeus tranças côr de ouro,_

Adeus peito côr de neve.

_Tornaram-se-me em estrellas_

_As lagrimas de dôr._

Versos ha tambem nas _Flores do Campo_ defeituosos pela disposição dos

accentos predominantes. Bastam tres exemplos em versos decassyllabos:

Ha puros sonhos de imaginação.

E eu digo, digo á luz scismadora.

Expôz aos coices... leão moribundo.

Mas um verso completamente errado, e que por certo não sahiu assim da

penna de João de Deus, é aquelle

Que fez tremer as abobadas do inferno.

Não é necessario ser auctor das _Flores do Campo_, para condemnar um

verso tal. Descuido do impressor, e falta de cuidado na revisão,

occasionaram aquelle erro, a que de prompto se obviaria com a suppressão

de dous _ss_ inuteis.

O que para alguém não será defeito, mas que para muitos torna

inintelligiveis algumas passagens, do livro, é, por vezes o abstruso da

ideia, velada por sombras impenetraveis. Dá-me tu, se podes, a chave

d'este enigma:

Ramo de Flores acompanhado de varias criticas das Flores do Campo · 第 2 / 3 段