Ha alli o sal attico de Terencio e não a especiaria acinante

Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images

of public domain material from Google Book Search)

RAMO DE FLORES

RAMO DE FLORES

POR

JOÃO DE DEUS

* * * * *

ACOMPANHADO DE VARIAS

CRITICAS DAS FLORES DO CAMPO

* * * * *

PORTO

Typ. da Livraria Nacional

2--Rua do Laranjal--22

1869.

RAMO DE FLORES

I

SÊDE DE AMOR

I

Vi-te uma vez e (novo

Extranho caso foi!)

Por entre tanto povo...

Tanta mulher... Suppõe

Que mãe estremecida

Via o seu filho andar

Sobre muralha erguida,

Onde o fizesse ir dar

Aquelle remoinho,

Aquella inquietação

D'um pobre innocentinho

Ainda sem razão!

E ora estendendo os braços...

Ora apertando as mãos...

Vendo-lhe o gesto, os passos,

Quantos esforços vãos,

O triste na cimalha

Faz por voltar atraz...

Sem vêr como lhe valha!

A vêr o que elle faz!

Pallida, exhausta, muda,

Os olhos uns tições,

Com que, a tremer, lhe estuda

As mesmas pulsações...

(Porque não é mais fundo

O mar no equador,

Nem é todo este mundo

Maior do que esse amor!

Mais vasto, largo e extenso

Todo esse céo tambem

Do que o amor immenso

D'um coração de mãe!)

Assim, n'essa agonia...

N'essa intima avidez...

É que entre os mais te eu ia

Seguindo d'essa vez!

Porque te adoro!... a ponto,

Que ainda hoje, crê!

Escuto e oiço e conto

Os grãos de arêa até,

Que tu, mulher! andando

Fazias estalar

Já mesmo longe e... quando

Deixei de te avistar!

II

Os olhos são

D'uma expressão!

Que linda bôca!

O pé nem toca,

De leve, o chão!

Aquelle pé

De leve até

Nem se elle sente!

E sente a gente

Não sei o que é...

E a graça, o ar,

D'aquelle a andar!

Que véla passa

Com tanta graça

Á flôr do mar!

Os olhos vêr

Um só volver

De olhar tão dôce,

Que mais não fosse...

Era morrer!

Os dentes sãos

E tão irmãos

E tão luzentes!

Que bellos dentes!

Que lindas mãos!

III

Estrella, nuvem, ave,

Perfume, aragem, flôr!

Consola-me! distilla,

Da languida pupilla,

O balsamo suave

De um desditoso amor!

Estrella, nuvem, ave,

Perfume, aragem, flôr!

A flôr, de que és imagem,

A flôr, de que és irmã,

Sacia-se, e desata

O seu collar de prata

Aos beijos da aragem,

Aos risos da manhã!...

A flôr, de que és imagem,

A flôr, de que és irmã!

A perola que encerra

A flôr, é sua? Não.

O pranto que a amima,

Cahiu-lhe lá de cima

Para cahir na terra,

Para cahir no chão!

A perola que encerra

A flôr, é sua? Não!

Tu já mataste a sêde,

Mata-me a sêde a mim!

Se em nuvem piedosa

Te refrescaste, rosa!

Tambem em ti eu hei de

Refrigerar-me!... sim!

Tu já mataste a sêde,

Mata-me a sêde a mim!

É para que me orvalhes

Que te orvalhou o céo!

O liquido que veio

Aljofarar-te o seio

Bem é tambem que o espalhes

No chão... o chão sou eu!

É para que me orvalhes,

Que te orvalhou o céo!

II

LAMENTO

Senhor! Senhor! que um ai nunca me ouviste

Na minha dôr!

Ai vida, vida minha, como és triste!...

Senhor! Senhor!

Quando eu nasci, o sol cobriu o rosto

Mal que eu o vi!

Tingiu-se o céo de sangue, e era sol-posto,

Quando eu nasci!

Pela manhã, a rosa era mais alva

Que a alva lã!

E o cravo desmaiou á estrella-d'alva,

Pela manhã!

Ao longe, o mar se ouviu, leão piedoso,

Um ai soltar!

Pelas praias, se ouviu gemer ancioso,

Ao longe, o mar!

Oh roixinol! a ti, nasce-te o dia

Ao pôr do sol!

Mostre-me a campa a luz que te alumia,

Oh roixinol!

III

ENLEVO

Não brilha o sol,

Nem póde a lua

Brilhar na sua

Presença d'ella!..

Nenhuma estrella

Brilha deante

Da minha amante,

Da minha amada!

A madrugada

Quanto não perde!

O campo verde

Quanto esmorece!

Quanto parece

A voz da ave

Menos suave

Que a sua falla!

A flôr exhala

Menos perfume

Do que é costume

O seu cabello!

Que basta vêl-o,

Prende-se a gente!

Prende-se e sente

Gosto ineffavel!

Que riso affavel

Aquelle riso!

Que paraíso

Aquella bôca!

Penetra, toca,

Enche de inveja

Um ar que seja

Da sua graça!

Onde ella passa,

Onde ella chega,

Quem lhe não prega

Olhos avaros!

Ha dotes raros,

Rara doçura

N'aquella pura

Casta existencia!

Oh! que innocencia

Que ella respira!

A alma aspira

Não sei que aroma

Mal nos assoma

Ao longe aquella

Pallida estrella,

Que rege o mundo!...

Nunca do fundo

Do oceano

Foi braço humano

Colher tão linda

Perola ainda,

Como a formosa

Candida rosa

Que eu amo tanto!

Não sei de santo

Que ha no seu gesto!

No ar modesto

D'aquelle todo...

N'aquelle modo...

Que tudo esquece,

E nos parece

Estar no céo!

IV

SEMPRE!

Pensas que te não vejo a ti? Bom era!

Gravei tão vivamente n'alma a dôce

E bella imagem tua, que eu quizera

Deixar de contemplar-te, só que fosse

Um momento, e não posso, não consigo!

Foges-me, escondes-te e que importa? Esculpes

Mais fundo ainda os indeleveis traços!

Realça-te o retrato! E não me culpes!

Culpa-te antes a ti!... Sigo-te os passos!...

Vejo-te sempre!... trago-te comigo!...

V

ESPERA!

Uivaria de amor a féra bruta

Que pela grenha te sentisse a mão!

E eu não sou féra, pomba! Espera! Escuta!

Eu tenho coração!

Não é mais preto o ébano que as tranças

Que adornam o teu collo seductor!

Ai não me fujas, pomba! que me canças!

Não fujas, meu amor!

A mim nasceu-me o sol, rompeu-me o dia

Da noite escura d'olhos taes, mulher!

Não me apagues a luz que me alumia

Senão quando eu morrer!

Eu não te peço a ti que as mãos de neve,

Os dedos afusados d'essas mãos,

Me toquem estas minhas nem de leve...

Seriam rogos vãos!

Não te peço que os labios nacarados

Me deixem esses dentes alvejar,

Trocando, n'um sorriso, os meus cuidados

Em extasis sem par!

Mas uivando de amor a bruta féra

Que pela grenha te sentisse a mão,

Eu não sou féra, pomba! escuta, espera!

Eu tenho coração!

VI

ADEUS

A ti, que em astros desenhei nos céos,

A ti, que em nuvens desenhei nos ares,

A ti, que em ondas desenhei nos mares,

A ti, bom anjo! o derradeiro adeus!

Parto! Se um dia (que é possivel flôr!)

Vires ao longe negrejar um vulto,

Sou eu que aos olhos d'esta gente occulto

O nosso immenso desgraçado amor.

Talvez as féras ao ouvir meus ais,

As brutas selvas, as montanhas brutas,

Concavas rochas, solitarias grutas,

Mais se condoam, se commovam mais!

E lá d'aquellas solidões se aqui

Chegar gemido que uma pedra estala,

Que um cedro vibra, que um carvalho abala,

Sou eu que o solto por amor de ti...

De ti! que em folha que varrer o ar,

Em rama, em sombra que bandeie a aragem,

De fito sempre n'essa cara imagem

Verei, sorrindo, sentirei passar!

De ti, que em astros desenhei nos céos!

De ti, que em nuvens desenhei nos ares!

De ti, que em ondas desenhei nos mares,

E a quem envio o derradeiro adeus!

VII

MELANCOLIA

Oh dôce luz! oh lua!

Que luz suave a tua,

E como se insinua

Em alma que fluctua

De engano em desengano!

Oh creação sublime!

A tua luz reprime

As tentações do crime,

E á dôr que nos opprime

Abres-lhe um oceano!

É esse céo um lago,

E tu, reflexo vago

D'um sol, como o que eu trago

No seio, onde o afago,

No seio, onde o aperto?

Oh luz orphã do dia!

Que mystica harmonia

Ha n'essa luz tão fria,

E a sombra que me guia

N'este areal deserto!

Embora as nuvens trajem

De dia outra roupagem,

O sol, de que és imagem,

Não tem essa linguagem

Que encanta, que namora!

Fita-te a gente, estuda,

(Sem mêdo que se illuda)

Essa linguagem muda...

O teu olhar ajuda...

E a gente sente e chora!

Ah! sempre que descrevas

A orbita que levas,

Confia-me o que escrevas

De quanto vês nas trevas,

Que a luz do sol encobre!

As victimas, que escutas,

De traças mais astutas

Que as d'essas féras brutas...

E as lastimas, as luctas

Da orphã e do pobre!

VIII

SYMPATIA

Olhas-me tu

Constantemente:

D'ahi concluo

Que essa alma sente!...

Que ama, não zomba,

Como é vulgar;

Que é uma pomba

Que busca o par!...

Pois ouve; eu gemo

De te não vêr!

E em vendo, tremo

Mas de prazer!...

Foge-me a vista...

Falta-me o ar...

Vê quanto dista

D'aqui a amar!

IX

11 DE MAIO

Se eu fosse nuvem tinha immensa magoa

Não te servindo d'azas maternaes

Que te podessem abrigar da agoa

Que chovesse das mais!

E sendo eu onda, tinha magoa summa

Não te podendo a ti, mulher, levar

De praia em praia, sobre a alva espuma.

Sem nunca te molhar!

E sendo aragem, eu, que pela face

Te roçasse de rijo, alguma vez

Que o Senhor com mais força respirasse,

Que magoa immensa... Vês!

E a luz do teu olhar que me não lusa

Um rapido momento, a mim, sequer,

Como a aguia no ar... que passa e cruza

A terra sem n'a vêr!

Mas que me importa a mim! Se me esmagasses

Um dia aos pés o coração a mim,

As vozes que lhe ouviras se escutasses,

Era o teu nome... Sim!

O teu nome gemido docemente

Com toda a fé d'um martyr em Jesus,

Se acaso já em Christo pôz um crente

A fé que eu em ti puz!

A fé, mais o amor! Porque elle expira

Sem que a ninguem lhe estale o coração,

E eu, se essa cruz dos olhos me fugira,

Sobrevivia? Não!

Assim como em ti vivo, morreria

Tambem comtigo, se uma vez (que horror!)

Te visse pôr, oh sol!... sol do meu dia!

Astro do meu amor!

X

ATTRACÇÃO

Meus olhos sempre inquietos

Que posso até dizer,

Só acham n'alma objectos

Que os possam entreter;

Meus olhos... coisa rara!

Porque hão de em ti parar

Como a corrente pára

Em encontrando o mar!?

E penso n'isto, scismo...

Mas é tão natural

Cahir-se no abysmo

D'uma belleza tal!...

Olhei!... Foi indiscreta

A vista que te puz.

A pobre borboleta

Viu luz... cahiu na luz!

Uma attracção mais forte

Que toda a reflexão,

(É fado, é sina, é sorte!)

Me arrasta o coração...

XI

DESANIMO

Que mimos me confortam?

Que doce luz me acena?

Eu tenho muita pena

De ter nascido até!

Quizera antes ao pé

D'uma arvore frondosa

Ter já em cima a lousa

E descançar emfim!

Alli, nem tu de mim

De certo te lembravas,

Nem estas feras bravas

Me iriam assaltar!

Alli, teria um ar

Mais puro e respiravel,

E a paz imperturbavel

De quem, emfim, morreu!

D'alli, veria o céo

Ora sereno e puro,

Ora toldado e escuro...

Ainda assim melhor,

Que este areal de amor

Onde ando ao desamparo,

Onde a ninguem sou caro

E nem, a mim, ninguem!

Alli passára eu bem

A noite derradeira

Á sombra hospitaleira

Que mais ninguem me dá!

Tu mesma, que não ha

Quem eu mais queira e ame,

Quem a minha alma inflamme

De mais ardente amor,

Os ais da minha dôr

A ti o que te importam?

Teus olhos nem supportam

A minha vista ao pé!

Que mimos me confortam?

Que dôce luz me acena?

Eu tenho muita pena

De ter nascido até!

XII

N'UM ALBUM

É esta vida um mar; e n'este mar

Qual é o astro que nos alumia?

Que norte, estrella ou bussola nos guia?

Um olhar de mulher! um terno olhar!

XIII

O SEU NOME

I

Ella não sabe a luz suave e pura

Que derrama n'uma alma acostumada

A não vêr nunca a luz da madrugada

Vir raiando senão com amargura!

Não sabe a avidez com que a procura

Ver esta vista, de chorar cançada,

A ella... unica nuvem prateada,

Unica estrella d'esta noite escura!

E mil annos que leve a Providencia

A dar-me este degredo por cumprido,

Por acabada já tão longa ausencia,

Ainda n'esse instante appetecido

Será meu pensamento essa existencia...

E o seu nome, o meu ultimo gemido

II

Oh! o seu nome

Como eu o digo

E me consola!

Nem uma esmola

Dada ao mendigo

Morto de fome!

N'um mar de dôres

A mãe que afaga

Fiel retrato

De amante ingrato,

Unica paga

Dos seus amores...

Que rota e nua,

Tremulos passos,

Só mostra á gente

A innocente

Que traz nos braços

De rua em rua;

Visto que o laço

Que a prende á vida

E só aquella

Candida estrella

Que achou cahida

No seu regaço;

(Não que lhe importe

A ella nada...

Que tudo escusa;

E até accusa

De descuidada

Comsigo a morte!)

Mão bemfazeja

Se por ventura

Encontra um dia,

Com que alegria,

Com que ternura,

Ella a não beija!...

Mas com mais quanto

Amor te escrevo,

Soletro e leio

Nome de enleio!

Nome de enlevo!

Nome de encanto!

III

Como a agua d'um lago--toda um nivel,

Vae de circulo em circulo ondeando,

Se a andorinha a roça ao ir voando

Atraz d'algum insecto imperceptivel;

E quebrado esse espelho em mil pedaços

(Que a imagem do céo desapparece)

Em circulos concentricos parece

Tornarem-se a formar novos espaços...

Ou como d'entre as notas ineffaveis

Dos canticos do céo--todo harmonia--

Mal sôa o dôce nome de MARIA,

Pasmam as multidões innumeraveis;

E de onda em onda cada vez mais larga,

De brisa em brisa cada vez mais pura,

O nome d'essa excelsa creatura

Por todo aquelle immenso mar se alarga;

E tudo quanto cerca o trono eterno

Áquella dôce voz desprende o canto,

Formando um côro universal, em quanto

Reina silencio no profundo inferno...

Assim, n'esta paixão que me devora,

Se aos labios essas syllabas me assomam,

As negras sombras da minha alma tomam

Gradualmente o explendor da aurora!

Toda a idéa má recua um passo,

Aplanam-se os dominios do futuro,

E do crystal mais transparente e puro

Se me arqueia a abobada do espaço!

Desdobra-se o passado á luz do dia,

Em valle ameno, aos olhos da memoria;

E eu acho não ser perfida, illusoria,

A fé que eu punha em certa luz que eu via...

Vejo que aquelle informe e negro monte,

Que me tapava a mim o fim da vida,

Não era mais que a natural subida

Para se dominar vasto horizonte!...

Esse horizonte és tu, pombinha brava!

Tu, cujo peito que aliás encerra

O que ha de bello e grande em céo e terra,

Só com duas conchinhas se tapava...

Mas em quanto não chego áquella altura

D'onde se avista a terra promettida,

Irei cantando, distrahindo a vida

Com essa invocação suave e pura...

Invocação de nome tão suave

Como esse olhar!... que eu, só de vêr, suspiro!

Mas... que invoco em silencio... como admiro

A luz da lua, e o olhar da ave!...

IV

E se algum dia

Deres abrigo

Ao desgraçado

Pobre mendigo

Expatriado,

Morto de fome,

Dize comtigo:

«Mais consolado

Se elle sentia

Lendo o meu nome!»

XIV

SAUDADE

Tu és o cálix;

Eu, o orvalho!

Se me não vales,

Eu o que valho?

Eu se em ti caio

E me acolheste

Torno-me um raio

De luz celeste!

Tu és o collo

Onde me embalo,

E acho consolo,

Mimo e regalo:

A folha curva

Que se aljofara,

Não d'agoa turva,

Mas d'agoa clara!

Quando me passa

Essa existencia,

Que é toda graça,

Toda innocencia,

Além da raia

D'este horizonte--

Sem uma faia,

Sem uma fonte;

O passarinho

Não se consome

Mais no seu ninho

De frio e fome,

Se ella se ausenta,

A boa amiga,

Ah! que o sustenta

E que o abriga!

Sinto umas magoas

Que se confundem

Com as que as agoas

Do mar infundem!

E quem um dia

Passou os mares

É que avalia

Esses pezares!

Só quem lá anda

Sem achar onde

Sequer expanda

A dôr que esconde;

Longe do berço,

Morrendo á mingoa,

Paiz diverso...

Diversa lingoa...

Esse é que sabe

O meu tormento,

Mal se me acabe

Aquelle alento!

Ah, nuvem branca

Ah, nuvem d'oiro!

Ninguem me estanca

Amargo choro;

E assim que passes

Mesmo de largo...

Vê n'estas faces

Se ha pranto amargo.

Tu és o norte

Que me desvias

De ir dar á morte

Todos os dias;

A larga fita

Que d'alto monte

Cerca e limita

O horizonte!

Tu és a praia

Que eu sollicito!

Tu és a raia

D'este infinito!

Se ha uma gruta

Onde me esconda

Á força bruta

Que traz a onda;

Á força immensa

D'esta corrente

D'alma que pensa,

Alma que sente;

Se ha uma véla,

Se ha uma aragem,

Se ha uma estrella,

N'esta viagem...

É quem eu amo,

A quem adoro!

E por quem chamo!

E por quem choro!

XV

* * * *

Não sei o que ha de vago,

Incoercivel, puro,

No vôo em que divago

Á tua busca, amor!

No vôo em que procuro

O balsamo, o aroma,

Que, se uma fórma toma,

É de impalpavel flôr!

Oh como te eu aspiro

Na ventania agreste!

Oh como te eu admiro

Nas solidões do mar!

Quando o azul celeste

Descança n'essas agoas

Bem como n'estas magoas

Descança o teu olhar!

Que placida harmonia

Então a pouco e pouco

Me eleva a fantasia

A novas regiões!

Dando-me ao uivo rouco

Do mar, n'essas cavernas,

O timbre das mais ternas

E pias orações!

Parece todo o mundo

Só um immenso templo!

O mar já não tem fundo

E não tem fundo o céo!

E, em tudo, o que contemplo,

O que diviso em tudo,

És tu!... esse olhar mudo!...

O mundo... és tu... e eu!...

FIM

* * * * *

CRITICAS

DAS

FLORES DO CAMPO

* * * * *

FLORES DO CAMPO

POR

JOÃO DE DEUS

João de Deus não é sómente um grande poeta, é um iniciador. A estrophe

sahe-lhe do coração não só transparente e limpida, como um veio de

crystal, mas espontanea, harmoniosa e originalissima, como todas as

creações dos espiritos profundamente caracterisados e essencialmente

creadores.

João de Deus é um grande scismador e um grande artista. Concebe

admiravelmente, e executa melhor ainda. Cada lyrica é uma maravilha,

cada estrophe um mimo, cada verso um primor. Reune á intelligencia

apaixonada de Platão o delicadissimo senso artistico de Cellini. Ha

n'aquella lyra notas e harmonias d'uma frescura e de uma novidade dignas

de Homero ou de Wainamoinen. É que o talento poetico de João de Deus é

essencialmente espontaneo e primitivo, se me permittem a expressão.

Parece que não ha n'aquelles versos nem estudo de modelos, nem

influencia de escólas, nem escolha de assumptos.

A natureza poetica de João de Deus é sobre tudo virginal, sincera,

innocente. Canta, não para que o escutem, mas porque nasceu poeta;

chora, não para que o consolem, mas porque nasceu triste; medita, não

para que o considerem, mas porque nasceu scismador. É poeta... e não

póde ser mais nada; fizeram-n'o deputado talvez para fazerem um

epigramma á poesia, que tantos tem feito--epigrammas, entenda-se.--João

de Deus deputado é o mesmo... que um deputado João de Deus, duas

entidades a rirem-se constantemente uma da outra, como os dois

_oraculos_ de que falla Cicero.

Um João de Deus nasce feito... não se faz d'elle cousa nenhuma; ha de

ser sempre João de Deus, quer o façam rei, quer regedor de parochia.

_Ego sum qui sum_, dizia o espirito mais profundamente original da

humanidade. João de Deus, e os homens de uma individualidade assim tão

caracterisada podem, salvo a irreverencia, dizer o mesmo.

A João de Deus deu-lhe para ser poeta; se lhe désse para ser diplomata

era Bismark, e tinha a estas horas realisado a união iberica. Foi melhor

assim, ao menos para se não acabar com a possibilidade de termos volumes

como as _Flores do Campo_.

Dizem-me que João de Deus é um excellente tocador de viola, onde

improvisa devaneios arrebatadores. Esta prenda caracterisa-lhe o talento

artistico. É poeta como guitarrista e quasi improvisador como poeta.

Aquella alma é uma lyra: vibra, estremece e canta ás aragens fugitivas

da impressão. Natureza profundamente sympathica, tem um riso para cada

alegria, uma lagrima para cada amargura, uma consolação para cada

infortunio:

Despe o lucto da tua soledade

E vem junto de mim, lirio esquecido

Do orvalho do ceu!

Tens nos meus olhos pranto de piedade,

E se és, mulher! irmã dos que hão soffrido,

Mulher! sou irmão teu.

Consolos não te dou, que não existe

Quem de lagrimas suas nunca enxuto

Possa as d'outro enxugar:

Não póde allivios dar quem vive triste,

Mas é-me dôce a mim chorar, se escuto

Alguem tambem chorar.

E não ha artificios n'esta poesia, que é singela como todos os grandes

sentimentos, harmoniosa e virginal como um sorriso de creança, suave e

consoladora como uma parabola de Christo, serena e luminosa como um

dialogo de Platão:

Mulher, mulher! quando eu n'um cemiterio

Levanto o pó dos tumulos sósinho:

Eis, digo, eis o que eu sou,

Mas quando penso bem n'esse mysterio

Da virtude infeliz: Vae teu caminho;

Dois mundos Deus creou.

É poesia que se sente e que poucos exprimem, são versos que se admiram e

que rarissimos os escrevem.

As imagens adejam-lhe em torno frescas, vivas, alegres e graciosas, como

um bando de andorinhas em torno dos frisos d'um campanario:

Quando em silencio finges,

Que um beijo foi furtado,

E o rosto desmaiado

De côr de rosa tinges,

Dir-se-ha que a rosa deve

Assim ficar com pejo,

Quando a furtar-lhe um beijo

O zephiro se atreve.

............................

A bôca é tão vermelha que, em te rindo,

Lembra-me uma romã aberta ao meio

Quando já de madura está cahindo.

......................................

Quando a sua mãosinha pondo um dedo

Em seus labios de rosa pouco aberta,

Como timida pomba sempre alerta,

Me impunha ora silencio ora segredo.

Não ha nada mais gracioso, mais natural, mais espontaneo, mais facil! A

gente chega a pasmar de não encontrar todos aquelles dizeres elegantes,

todos aquelles versos formosissimos nos outros poetas, tal é a fluencia

e a vitalidade d'esta inspiração.

Na voz de João de Deus ha as inflexões carinhosas de uma creança; os

versos parecem caricias; têm a suavidade affectuosa das orações de uma

santa e aquelle tom amavel e triste, mas nunca pretencioso, dos

verdadeiros scismadores:

Foi-se-me pouco a pouco amortecendo

A luz que n'esta vida me guiava,

Olhos fitos na qual até contava

Ir os degraus do tumulo descendo.

..................................

Alma gemea da minha, e ingenua e pura

Como os anjos do ceu (se o não sonharam...)

Quiz mostrar-me que o bem, bem pouco dura.

Não sei se me voou, se ma levaram,

Nem saiba eu nunca a minha desventura

Contar aos que inda em vida não choraram.

Camões não a sentiu mais, nem a escreveu melhor esta poesia da tristeza,

esta melancolia suave d'um scismador, esta saudade resignada de uma alma

nas soledades do infortunio, nos desterros do isolamento. Ha alli poesia

para vinte poemas, ha alli suavidade para vinte idyllios.

As rhimas parecem beijos, tão estreitas se enlaçam, tão ardentes se

casam, tão apaixonadas se apertam:

Que magoa ou que receio

Dos olhos te desata

Aljofares de prata

No jaspe do teu seio?

Bem intima ser deve

A pena que te opprime,

Flôr tenra como o vime,

Flôr pura como a neve!

.......................

Vós, lobos! ide em bando,

Trepae pelo rochedo,

Uivae, mettei-lhe medo,

Levae-a recuando!

Que faz quem se approxima

D'um precipicio, diz-m'o?

Que buscas tu no abysmo

Se o ceu é lá em cima?

É só a lyrica intitulada--_Heresta_--que me fornece estes quatro

exemplos; podia fornecer-me trinta e dois, porque são trinta e duas as

quadras d'essa formosa composição.

Ás vezes o verso deixa de ser uma phrase e transforma-se n'um suspiro, a

estrophe deixa de ser um canto e converte-se n'um arrulho. Tudo alli é

muito amar, profundamente sentir e divinamente cantar:

Que é d'esses cabellos d'ouro

Do mais subido quilate,

D'esses labios escarlate,

Meu thesouro!

.............................

Que é d'uma flôr da grinalda

Dos teus dourados cabellos,

D'esses olhos, quero vêl-os,

Esmeralda!

Que é d'essa alma que me deste!

D'um sorriso, um só que fosse.

Da tua bôca tão dôce

Flôr celeste!

Tua cabeça que é d'ella

A tua cabeça d'ouro,

Minha pomba! meu thesouro!

Minha estrella!

..........................

E as desgraças, podia prevêl-as

Quem a terra sustenta no ar,

Quem sustenta no ar as estrellas,

Quem levanta ás estrellas o mar.

Deus podia prevêr a desgraça,

Deus podia prevêr e não quiz;

E não quiz, não... se a nuvem que passa

Tambem póde chamar-se infeliz.

Quem escreve d'isto, sente-o. Um homem não arranca ao seu espirito

d'estas perolas sem as lá ter em sentimento e em amor. E só o alto calor

d'um grande, d'um immenso coração póde _cristallisar_ taes diamantes; o

fogo sómente do craneo não produz d'estes milagres d'inspiração:

Não se é só pó no fim de tanta magoa,

Senão diga-me alguem que allivio é este

Que sinto, quando á abobada celeste

Alevanto os meus olhos rasos d'agoa.

....................................

Ha depois d'esta vida inda outra vida,

Não se reduz a nada o grão d'areia,

E havia de a nossa alma, a nossa ideia

Nas ruinas do pó ficar perdida?

Se isto não é inspiração, e alta inspiração, não sei que nome se ha de

dar ás maravilhas do genio de Dante, de Shakspeare, de Camões ou de

Victor Hugo.

Um espirito que se eleva a taes alturas tem obrigação de produzir um

_Hamlet_, uma _Divina Comedia_ ou uns _Lusiadas_.

Sente-se pela leitura d'este volume que Camões é o auctor predilecto de

João de Deus. O livro abre até por uma composição que póde considerar-se

uma verdadeira profissão de fé em poesia. A propria fórma poetica da

maior parte das lyricas de João de Deus, um certo geito facil e

correntio na composição grammatical dos periodos, a suavidade das

rhimas, a doçura das expressões, a harmonia cadenciosa dos versos e um

certo tom de intima melancolia que se faz sentir até nas idêas as mais

graciosas revelam a decidida predilecção que o cantor da _Heresta_ tem

pelo desafortunado scismador de Macau.

É esta a feição seria, a feição elevada e talvez caracteristica do genio

poetico de João de Deus. Como todas as grandes vocações, como todas as

naturezas ricas, João de Deus porém não é menos apreciavel, nem menos

digno de estudo pelo lado alegre, malicioso e a espaços finamente

epigrammatico. Ás vezes chega a ser um observador digno de competir com

Molière ou Tolentino. Os _Caturras_ é composição de emparelhar com a

_Funcção_ ou com o _Bilhar_ do diabolico professor de rhetorica; e o

_Gaspar_ póde pedir meças em ridiculo a qualquer dos _frades_ grotescos

da numerosa collecção de Bocage. E o epigramma aqui é tanto mais

pungente quanto menos grosseiro, e a caricatura tanto mais graciosa

quanto menos exagerada.

Ha alli o sal attico de Terencio e não a especiaria acinante de Plauto,

a não ser talvez nos versos intitulados--_Uma femea_,--brazileiros no

titulo e no sabor, d'um _piquesinho_ de gosto bastante equivoco.

E já que entramos no capitulo das maculas, convém dizer-se que João de

Deus é por vezes revolucionario de mais em assumptos de metrificação. Eu

não gosto de absolutistas nem mesmo em poesia, mas tambem não morro de

amores pelos tão republicanos que nos levem á demagogia. É preciso que

sejamos um pouco _constitucionaes_ em tudo. Ora a _constituição_ poetica

tem artigos que se não podem infringir sem se incorrer no crime de leso

bom gosto, porque o bom gosto foi e ha de ser sempre o eterno legislador

d'estes codigos. Um verso frouxo ou manco e uma rhima equivoca ou

violenta hão de ser perpetuamente defeitos.

Quem disser o contrario ou é tolo ou tem ouvidos de cortiça. João de

Deus cahe por vezes nestes dous peccadilhos, deixando alguns versos

arrastados, e outros duros; estes porém muito menos frequentes do que os

primeiros. Mais frequentes são as rhimas violentas, algumas realmente

d'um mau gosto insustentavel, taes como: _justiça_ rhimando com pinça,

como a paginas 152; _rio_ e _viu_, como a paginas 159, e ainda algumas

outras.

É da tarifa dizer-se em occasiôes similhantes, como são da tarifa todas

as vulgaridades, que não ha livro sem defeitos. Eu creio piamente na

sentença, e até creio que um livro sem defeitos, se existisse, devia ser

o mais defeituoso de todos os livros, o mais sorna e o mais semsaborão.

Eu porém quando abro um livro não é para lhe andar a catar os defeitos

pagina por pagina, como quem anda ao _pulgão_ pelos vinhedos. O que

busco n'um livro são ensinamentos, calor de vida, fogo de coração e luz

de intelligencia; esplendores de espirito e esplendores de palavra;

genio, alma e sentimento.

Ora um livro de versos onde ha composição como a _Rachel_, _O Musgo_,

_Ultimo adeus_, _o Remoinho_, _a Carta_, e trinta outras lyricas de tal

novidade e tal merecimento, tem obrigação de ter defeitos, por que sem

elles... seria um livro impossivel, uma verdadeira monstruosidade.

Diga-se aqui pois, e para se pôr ponto ao aranzel, que o livro de João

de Deus tem maculas, mas que estas, como as do sol, desapparecem no meio

dos esplendores d'aquella immensa luz de vida, de genio e de inspiração.

_Flores do Campo_ é finalmente um livro de versos, como ha poucos n'este

paiz, desde que por cá se escrevem versos.[1]

Guarda, 4 de fevereiro de 1869.

*Alexandre da Conceição.*

[1]Jornal do Porto (1869) n.º 33.

LIVROS

REVISTA CRITICA BIBLIOGRAPHICA

Flores do campo, _por João de Deus, publicadas pelo seu amigo José

Antonio Garcia Blanco_--Lisboa, typ. Franco-portugueza, 1868--Em casa de

Ferin & Robin--1 vol. in-16.º--271.

João de Deus é um personagem semi-lendario na tradicção academica, e

apesar de homem do nosso tempo, e tão do nosso que até com um diploma de

deputado se nos apresentou ha pouco, anda-lhe o nome rodeado de quasi os

mesmos fulgores e as mesmas sombras em que uma historia superficial ou

mentirosa envolveu os velhos trovadores da Provença.

Permittam-me uma digressão.

Ha n'esta sociedade portugueza--já agora, ao que parece--condemnada a

refocilhar em monturo de sanefas lantejouladas e rotas que lhe deixou o

passado, e a dar ao mundo o triste espectaculo d'uma nacionalidade sem

_idêa_ que a represente na historia philosophica de amanhã, sem _ideal_

que lhe seja pharol e bussola na tormentosa navegação das sociedades

d'hoje; ha, digo, n'esta nossa sociedade amortecida: extraordinarias

visões, mysteriosos anceios, esforços convulsivos como que filhos de

ignotos impulsos, que bem poderiam passar por agonias e paroxismos

annunciadores da proxima dissolução, se um diagnostico escrupuloso não

encontrasse antes n'aquillo promessas de reacção proxima, de

rejuvenescimento que não vem longe, de evolução fatal, que, em Portugal

como em toda a parte, denuncia por aquellas aberrações e anormalidades a

sua sublime prenhez d'uma nova idêa, d'uma era nova.

Erguem-se no meio da grasnada petulante ou esteril da litteratura, vozes

persistentes... doces ou enthusiasticas, sympathicas ou ameaçadoras...

frescas, novas, _originaes_--_raræ voces!_--que parece irem na turba

desmoralisada pôr em vibração alguma cellulasinha não contaminada do

mal.

E a turba põe-se a escutar, a applaudir, a aspirar soffregamente os

frescores e doçuras, que tão enormemente se distanceiam dos miasmas do

ambiente habitual, do sabor da habitual pitança.

Alteiam-se, no meio da calaçaria geral, do geral e natural desanimo,

vontades energicas que a pedraria da mestrança ignorante, intolerante e

madraça não consegue desviar um momento da faina do estudo e da

evangelisação scientifica.

E a turba vae attentando n'ellas, vae sympathisando com aquelles

revolucionarios heroicos do marasmo, vae comparando-os com os idolos

anões que, sem ella saber como nem porque se grudaram aos altares da sua

admiração, vae fitando os novos horizontes para onde lhe apontam os

novos chefes, vae-os seguindo já ao impulso d'uma necessidade

indefinivel mas fatal. Ha n'isto, já se vê, alguma cousa d'allucinação

infantil. Crê-se que os novos Moysés levam comsigo, completas, as

verdadeiras taboas da lei, e rasgarão com a magica varinha as brumas que

envolvem a terra da promissão.

Engano. Não lhes dão as forças para mais que para um terço do caminho,

se tanto. Mas isso mesmo é muito, é o que basta. Hão de apparecer novos

guias. A questão é saír da esterilidade do deserto.

Citemos porém dois factos, tiremos dois exemplos, apenas, de tantos que

podiamos apresentar da revolução litteraria que se realisa surdamente no

seio da nossa pequena sociedade.

Sejam elles, por hoje, dois poetas: Theophilo Braga e João de Deus; dois

verdadeiros revolucionarios como outros de que para o diante terei de

fallar. Um, apesar do mal que dizem d'elle, e do mal, que é maior

talvez, que elle a si proprio faz, é inegavelmente um dos nossos poucos

talentos originaes na concepção e na manifestação litteraria, na _idêa_

e na _fórma_, e se não é marco que no futuro atteste um grande e

brilhante progresso na litteratura patria, é como que atrio imperfeito e

tosco, mas espaçoso e altaneiro que póde servir d'entrada a _pantheon_

de explendidos engenhos.

E grande engenho é Theophilo, de certo.

Por entre uma saraivada d'apodos e improperios de _mau gosto_ ou _má

fé_, conquistou elle um logar elevado, na poesia portugueza d'hoje,

cujos magnates na maxima parte, persistem, com risivel teimosia, em

trazer-lhe engastada na corôa á laia de fina joia, o carvão da

ignorancia, ou em mascararem-na com um falso e retrogrado

_classissismo_.

Theophilo porém avançou menos do que devia.

O _idealismo_ desvairou-o, o _romancismo_ perdeu-o.

Um dia a voz sympathica, insinuante, ora melancholica e dolorida,

ora--bem poucas vezes!--alegre e enthusiastica de João de Deus começou

de fluctuar por sobre o borburinho cançado e monotono das nossas letras.

Não se sabe como nem quando foi. Perdeu-se a chronologia biographica nos

encantos do _quasi_--extasis. Sabe-se sómente que a reputação do poeta

não nos entrou na terra, dentro do cavallo de pau d'algum chefe _grego_,

mestrão consummado n'estas maquinações. Sabe-se tambem que João de Deus

não andou por salas e officinas, annunciando a fazenda que tempos

depois, atirada ao mercado, podia realisar o caso da _mons parturiens_.

João de Deus apparecia-nos uma ou outra vez n'um periodico de Coimbra;

ora nos segredava uma estrophe singela e melodiosa pelo postigo de uma

typographia alemtejana; ora surgia em um periodico da capital a

contar-nos umas duvidas que o magoavam, umas saudades indefiniveis que o

pungiam, uns vagos amores que lhe andavam rumorejando lá dentro em vagas

harmonias.

E ninguem sabia quem era João de Deus. E ninguem procurava saber quem

fosse. Ou antes, julgavam todos sabel-o. Conheciam-no todos. Era um

cerebro em ebullição, um coração em ataxia permanente, um estomago que

valia por uma adega.

João de Deus era um doudo que forrava as paredes do albergue com as

folhas das _sebentas_, que dormia dentro da enxerga, porque achava mais

commodo isto do que dormir-lhe em cima, que se matriculava todos os

annos na faculdade em que o secretario-universitario se lembrava de

matriculal-o, que fôra de Coimbra a casa, d'algibeira vasia e lapis

constantemente occupado em fazer magnificos versos ou magnificos

desenhos, que se fizera um dia sachristão, e pozera n'outro, todo um

bairro em sobresalto, subindo aos telhados para apostrophar a lua, etc.,

etc.

E as anecdotas galantes succediam-se, e a cada nova poesia annexava-se

uma historieta, e quando as poesias escaceavam, attribuiam-se ao poeta

novas doudices, novas excentricidades, como a certo honrado e já

defuncto general se attribuiam quantos dispauterios o soalheiro burguez

produzia. Se eu fosse biographo de João de Deus havia talvez de lavrar

aqui um protesto esmagador.

Como não sou, limito-me a dizer o que penso do illustre algarviense.

_Mais_ ou _menos_ todos somos poetas. N'este _mais_ e n'este _menos_

está, creio eu, o segredo da organisação _sensorial_, se póde dizer-se

assim, organisação modificada é certo, mas não completamente

transformada pelo _meio_ e pelo _habito_.

Tal _sensação_ que n'uns individuos poria o cerebro n'um estado de

effervescencia que lhe _exagerasse_ a realidade, a ponto muitas vezes de

a substituir por uma concepção puramente subjectiva, em taes outros póde

dar apenas o facto funccional em condições normaes e ordinarias, e,

concentrando-se, converter-se em reflexão. Precisava isto longo

desenvolvimento. Ora como o primeiro modo de ser _sensorial_ póde dar-se

em todos, mas com mais ou _menos_ intensidade, com _maior_ ou _menor_

frequencia, digo eu (e dizem bons escriptores) que todos são _mais_ ou

_menos_ poetas. Isto quanto ao facto intellectivo. Quanto á expressão, o

mesmo se póde dizer sem receio de contestação seria.

Pois na concepção como na palavra eu tenho João de Deus por verdadeiro

poeta.

Dizia Merck, homem de profundo bom senso, a Goëthe, seu amigo:

«A tendencia irresistivel do teu genio é a de imprimir a fórma poetica

ás cousas _reaes_. Outros procuram uma _soi-disant_ poesia tranformando

em realidades, puras _imaginações_, o que só produz disparates.»[2]

Sem concordar incondicionalmente com a primeira phrase do sensato

allemão, sem querer acceitar a segunda como lei comprovada de critica

litteraria, parece-me que de João de Deus se poderá dizer que reune as

duas tendencias, as duas feições designadas, a _idealisação_ (phrase

consagrada e porventura inexacta) do _real_, e a personificação, melhor

talvez, a realisação plastica do _imaginario_.

Como que as sensações sensoriaes[3] n'aquelle cerebro delicado, ou

atravez d'aquelle organismo exageradamente impressionavel se destacam

algumas vezes do estimulo, ou alteram a natureza da propria

objectividade e criam um mundo novo, um mundo mystico, permittam-me a

expressão, a que o poeta dá uma realidade objectiva moldando-o pelas

manifestações plasticas do mundo em que vive. Acontece porém, poucas

vezes, nem podia deixar de ser assim, quando a indole da época e a

illustração do poeta se estão oppondo á formação e sustentação d'estas

concepções puramente subjectivas. Adivinha-se aqui ou alli a lucta

tremenda que vae no cerebro de João de Deus, lucta que é a feição

caracteristica do seculo, e que o manto esfarrapado do eclectismo

immoral não consegue abafar, lucta entre o velho _crêr_ e a _duvida_, a

duvida, que como a hydra da mythologia surge após cada decepamento, e

que não é possivel destruir como aquella decepando-lhe o tronco. Ouvide

um exemplo:

Prestes, se inda na rocha de granito

D'onde em tempo me vias, te sentares,

Não olhes para a terra, ou para os mares,

_Olha sim para o céo, que é lá que habito._

_Lá, tão longe de ti mas não do terno,_

_Bondoso pae que os dois nos ha gerado,_

_Só para magoas não, que bem guardado_

_Nos tem tambem no céo prazer eterno._

Que profunda crença, que certeza _mystica_, se póde dizer-se assim, não

rescende a suave _morbidezza_ d'estes versos! Ha alli alguma cousa do

cantor da Bice. Vêde porém a tempestade que se annuncia; a duvida

atravessou como um relampago o cerebro do poeta. Ouvide:

Não se é só pó no fim de tanta magoa.

_Senão_, diga-me alguem que allivio é este

Que sinto quando á abobada celeste

Alevanto os meus olhos rasos d'agua?

Mentem os céos _tambem_? Os céos maldigo.

Feras, tigres _tambem_ o céo povoam?

_Tambem_ os labios lá sorrindo coam

Veneno desleal em beijo amigo?

_Mas na dôr é que os astros nos sorriem,_

E os homens não sorriem na desdita.

Astros! fio-me em vós, e Deus permitta

Que os infelizes sempre em vós se fiem.

Refaz-se a crença, resurge a esperança consoladora:

Ha depois d'esta vida uma outra vida.

_Não se reduz a nada um grão d'areia,_

_E havia de a nossa alma, a nossa ideia,_

Nas ruinas do pó ficar perdida?

Pobre sonhador! Aquelle segundo verso é um protesto ironico contra o teu

ideal mystico, é o _grão d'areia_ que ha de intorpecer e desmandar todo

o machinismo psycologico da tua crença!

Continúa:

_Isso que pensa e quer_ (até me admiro)

Isso que a luz nos traz, que a luz nos leva, etc.

e accrescenta:

_Onde_, não sei eu bem, mas sei que existe

Deus remunerador. Depois de mortos

Hemos de vêr-nos e um no outro absortos

Fartar de glorias este amor tão triste.

Tão triste e... (o coração que me adivinha?)

N'este supplicio nosso, _este tormento_,

Nunca dos labios teus minimo alento

Num só beijo bebi em vida minha!

Fulge de novo o relampago, baqueia o edificio da crença, vêde que

tormento:

_E morro sem te vêr!_ Cabeça douda

Desasissado amor? sonhar afflicto

Um sonho até morrer...

Pobre Hamlet!

_... the rest is silence_

Um sonho até morrer... Não: resuscito;

Morto tenho vivido a vida toda.

Pobre Faust! O _insufficiente_ (das Unzuloengliche) atormenta-te, porque

te fascina o _inenarravel_ (das Unberchreiblichee). Que tempo precioso

perde comtigo o sensato Mephistopheles!

Preferes á gargalhada que te chama á realidade da vida, o _chorus

mysticus_ que te amargura a existencia com a mentira da miragem!

João de Deus é rigorosamente um artista _insaciavel_: «Satiari artis

cupiditate non quit,» como diria Plinio.

Adivinha-se em cada estrophe d'elle um ancear indefinivel, um vago

aspirar, se póde dizer-se assim, uma como que miragem que atráe o poeta,

que o alenta umas vezes e o desespera não poucas, que parece enviar-lhe

dos visos do horisonte uns suaves frescores envoltos em deliciosos

perfumes, e que como a miragem do deserto, lhe foge sempre aos labios

sequiosos.

E o pobre viandante vae caminhando e cantando sempre. É um descantar

dolorido geralmente, como que descantar de saudade do que sonhou e não

acha, e não gosa, e não encontra no caminho, como que de _saudade_ do

que lhe foge sempre, deixem-me usar a dôce palavra que bem sei eu que

não fica ella bem lexicographicamente applicada.

E assim com a imaginação embalada por um vago _ideal_ vae João de Deus

_poetisando_ como Goëthe na opinião do seu, já citado amigo, tudo o que

no caminho encontra. Poucas vezes se lhe altera a harmonia cerebral ao

impulso d'uma vibração mais violenta. Os successivos amores--fundem

quasi n'uma abstracção, parecem subtilisar-se até no _feminino eterno_

do cantor do Fausto. Hoje Margarida, amanhã Helena, depois... Depois

quem sabe?

Hoje Marina. É uma recordação.

Como esse olhar é dôce!

Dôce dâ mesma sorte

Como se nunca fosse

Toldado pela morte,

Como se alumiasse

O sol ainda em vida

As rosas d'essa face

Agora carcomida.

Colhesse-as eu mais cedo

E logo que alvorece,

Já não tivesse mêdo

Que a terra m'as comesse.

.........................

Se um dia nos meus braços

Te desbotasse as côres,

Passavam os abraços...

Passavam os amores!...

Oh não: mil vezes antes

No céo lá onde habitas

E os rapidos instantes

Que vens e me visitas

N'este degredo nosso

Que tanta gente estima,

E eu, só porque não posso

Não largo e vou lá cima.

Vem tu cá baixo, abala, etc.

.......................

Ha uma hora ou mais,

Marina! que contemplo

A casa de teus paes

Que é para mim um templo.

É esta vida um mar

E bem se póde a gente

Marina, comparar

A rapida corrente

Que vae de lado a lado

Por esses valles fóra

Sem nunca lhe ser dado

Ter a menor demora:

Pára quando a engole

Aquelle mar sem fundo;

Nem pára, é como o sol

E como todo o mundo.

.......................

Custa a resistir á tentação de transplantar para aqui completas, estas

magnificas _singelesas_. Não ha n'aquillo alguma coisa do que é

espontaneo e bello na _Vita Nuova_?

Mas, como dissemos, o poeta approxima-se tambem do _Faust_ na

volubilidade artistica.

Maria! vêr-te á porta a fazer meia

Olhando para mim de vez em quando

É o que n'esta vida me recreia.

...................................

E eu pallido, Maria! o pensamento

Não é trabalho que nos dê saude,

Esta imaginação é um tormento.

...................................

É que a gente na sua mocidade

Não cabe em si, não pára de contente

E assim fui eu na flôr da minha edade.

Tu eras n'esse tempo simplesmente

A flôr que vae nascendo e mais valia

Seres tão terna ainda e innocente.

Já esse lindo pé que tens, Maria!

Esse quadril tão largo e cinta estreita

Me não vinha á ideia noite e dia;

Esses encontros de mulher perfeita,

Esse peito redondo e arqueado

Como a pomba farta e satisfeita;

Talvez vivesse então mais socegado

Ou já que a minha sorte é sempre triste

Ao menos não andasse enfeitiçado.

...................................

Depois é Margarida:

Oh! que formosos dias, Margarida!

Esses, etc. etc.

Depois... Ha nomes que não se proferem, que não se denunciam. São como

certo nome do Deus judaico.

O poeta diz simplesmente: _No leito nupcial._ Um nome depois d'isto fôra

mais que uma profanação, fôra uma infamia. Julgaes porém que ides ouvir

uma recriminação amarga ou uma indiscripção villã?

Dorme, estatua de neve,

Vergontea de marfim,

Tocar que impio se atreve

No que é sagrado assim!

Dois são: o mais, mysterio

Vedado á terra, Deus

Talvez do solio ethereo

Nem baixe os olhos seus.

Respeita-os, tapa-os, como

Japhet e Sem, o pae...

Pende sagrado pomo,

A vista ergue-se e cáe.

Ergue-se e cáe, conforme

A lei que o manda assim,

_Ergue-se_ e... dorme, dorme,

Vergontea de marfim!

.......................

Não segue acaso a sombra

Teu corpo sempre, flôr?

E pois porque te assombra

Meu insensato amor?

.......................

Depois é Beatriz:

Tu és o cheiro que exhala

Ao ir-se abrindo uma flôr;

Tu és o collo que embala

Suas primicias d'amor.

Tu és um beijo materno,

Tu és um riso infantil;

Sol entre as nuvens do inverno,

Rosa entre as flôres d'abril.

Tu és a rosa de maio,

Tua és a flamula azul

Que atam á flecha do raio

As nuvens negras do sul.

.......................

E assim vae cantando sempre, de nome em nome, e de mysterio em mysterio

e d'amor em amor, de duvida em duvida, de saudade em saudade, d'anceio

em anceio. Não ha Beatriz que o retenha e lhe oiça o _Ecce Deos fortior

me veniens dominabitur mihi_.

Um dia encontra uma mulher formosa, joven, alegre. Ama. Será amado?

Amas-me a mim! perdoa,

É impossivel! Não,

Não ha quem se condoa

Da minha solidão.

Como podia eu triste,

Ah! inspirar-te amor,

Um dia que me viste,

Se é que me viste... flôr!

.......................

Via-te arfar o seio...

Córar... mudar de côr,

E embora, ah! não, não creio,

Tu não me tens amor!

E o sonho foi-se e a visão desappareceu. Como se chamava aquella mulher?

Vão lá saber como se chama a estrella cadente que rasga a amplidão do

espaço e desapparece n'ella?

E foi uma estrella cadente, aquella. Perdoem a indiscripção.

Outro dia é o poeta que se afasta, que foge, porque receia macular com o

seu halito o puro fulgor da estrella.

Tenho-te muito amor,

E amas-me muito, creio,

Mas ouve-me, receio

Tornar-te desgraçada.

O homem, minha amada,

Não perde nada, gosa;

Mas a mulher é rosa...

Sim, a mulher é flôr!

Ora, e a flôr, vê tu,

No que ella se resume...

Faltando-lhe o perfume.

Que é a essencia d'ella,

A mais viçosa e bella,

Vê-a a gente e... basta.

Sê sempre, sempre casta!

Terás... quanto possuo!

Vou findar com as transcripções, que bastam as que ficam feitas para

comprovar o que ácerca d'estas mimosas poesias e d'este original poeta

tenho dito e hei de para o diante dizer. Não posso porém resistir á

tentação de citar ainda uns trechos d'uma das mais bellas e

caracteristicas composições de João de Deus. Podesse eu transcrevel-a

toda!

Não tem nome. Chamam-lhe alguns «A vida». Innumeras vezes tem ella feito

cessar as alegrias das salas e interrompido brilhantes festas como o

austero bispo de certa poesia de Thomaz Ribeiro, para mendigar ao

sentimento das damas um condoimento de triste sympathia pelas intimas

amarguras do poeta. Tem por epigraphe aquellas formosas palavras do

Tasso:

Cosi trapassa al trapassar d'um giorno, etc.

e começa:

Foi-se-me pouco a pouco amortecendo

A luz que n'esta vida me guiava,

Olhos fitos na qual até contava

Ir os degraus do tumulo descendo.

Em se ella annuveando, em a não vendo,

Já se me a luz de tudo anuveava;

Despontava ella apenas, despontava

Logo em minha alma a luz que ia perdendo.

Alma gemea da minha, e ingenua e pura,

Como os anjos do céo (_se o não sonharam..._)

Quiz mostrar-me que o bem, bem pouco dura.

Não sei se me voou, se m'a levaram,

Nem saiba eu nunca a minha desventura

Contar aos que inda em vida não choraram.

Estas linhas fazem recordar Camões. Ha n'este tristuras que se

manifestam por versos parecidos, mas eu prefiro estes ao tão conhecido

soneto da «Alma minha gentil,» etc. Parece denunciar-se n'esta singelesa

_morbida_, se póde dizer-se assim, mais sentimento e espontaneidade.

Vamos mais além. Que superabundancia de ímagens! Que riquesa e variedade

de _sensação_! Que esplendidos quadros! Que magnificencia de colorido!

Ah! quando no seu collo reclinado

--Collo mais puro e candido _que arminho_,

_Como abelha na flôr do rosmaninho_

Osculava seu labio perfumado;

Quando _á luz dos seus olhos_... (que era vêl-os,

E enfeitiçar-se a alma em graça tanta!)

Lia na sua bôcca a _Biblia santa_

Escripta em letra _côr dos seus cabellos_:

Quando aquella mãosinha pondo um dedo

Em seus labios de _rosa pouco aberta_,

_Como timida pomba_ sempre alerta,

Me impunha ora silencio, ora segredo;

Quando, _como a alveloa_, delicada,

E linda _como a flôr_ que haja mais linda

Passava _como o cysne_ ou _como ainda_

Antes do sol raiar, _nuvem dourada_;

...................................

Quando a _cruz_ do collar do seu pescoço,

_Estendendo-me os braços, como estende_

_O symbolo d'amor que as almas prende,_

_Me dizia_... o que ás mais dizer não ouço;

...............................................

Quando o _ouro da trança_ aos ventos dando

E a _neve_ do seu collo e seu vestido

--_Pomba_ que do seu par se ia perdido,

Já de longe lhe ouvia o peito arfando;[4]

Tinha o _céo_ da minha alma as sete cores, etc.

...........................................

...........................................

Que é d'esses cabellos d'ouro

Do mais subido quilate,

D'esses labios escarlate,

Meu thesouro!

Que é d'esse halito, que ainda

O coração me perfuma!

Que é de teu collo de espuma,

Pomba linda!

..............................

..............................

De dia a estrella d'alva empallidece;

E a luz do dia eterno te ha ferido.

Em teu languido olhar adormecido

Nunca me um dia em vida me amanhece.

Foste a concha da praia. A flôr parece

Mais ditosa que tu. Quem te ha partido,

Meu calix de crystal, onde hei bebido

Os nectares do céo... _se um céo houvesse!_

Fonte pura das lagrimas que choro![5]

Quem tão menina e moça desmanchado

Te ha pelas nuvens os cabellos d'ouro!

.....................................

A vida é o dia d'hoje,

A vida é ai que mal sôa,

A vida é sombra que foge,

A vida é nuvem que vôa;

A vida é sonho tão leve

Que se desfaz como a neve

E como o fumo se esvae:

A vida dura um momento;

Mais leve que o pensamento,

A vida leva-a o vento,

A vida é folha que cáe!

Ramo de Flores acompanhado de varias criticas das Flores do Campo · 第 1 / 3 段