outra vez immovel.
Elrei, os cavalleiros, os padres mais dignos, que estavam de
roda do estrado real, os reis magos, os populares, todos olhavam
pasmados para o architecto que assim interrompêra a solemnidade
do auto. Um silencio profundo succedêra ao ruído, que a apparicào
daquelle homem desvairado excitara. Milhares de olhos estavam
fitos nesse vulto, que semelhava uma larva de condemnado saída
das profundezas para turbar a festa religiosa. Por mais de um
cérebro passou este pensamento: em mais de uma cabeça os cabellos
se eriçaram de horror; mas dos que conheciam mestre Ouguet nenhum
duvidou de que fosse elle em corpo e alma. Que proveito tiraria
o demonio de tomar a figura do architecto para fazer uma das
suas irreverentes diabruras? Só uma supposição havia, que não
era inteiramente desarrazoada; David Ouguet podia estar possesso,
em consequência de algum grave peccado; peccado que talvez tivesse
escondido na ultima confissão, que fizera na vespera de Natal. Isto
era possivel, e até natural; que não vivia elle a mais justificada
vida. Suppôr que endoudecêra parecia grande desproposito; porque
nenhum motivo havia para tal lhe acontecer, quando merecêra os
gabos d'elrei e de todos, por ter levado a cabo a grandiosa obra
que lhe estava encommendada. Estes e outros raciocinios, hoje
ridículos, mas segundo as idéas daquella epocha hem fundados
e correntes, fazia o reverendo padre procurador Fr. Joanne, que
tinha vindo assistir ao auto, e estava em pé atraz do estrado,
e perto de Fr. Lourenço Lamprêa. Revolvendo taes pensamentos,
no meio daquelle silencio ancioso em que todos estavam, não pôde
ter-se que, pé ante pé, se não chegasse ao prior, e lh'os
communicasse em voz baixa, e ao ouvido.
"Não vou fóra disso:"--respondeu o prior, que, emquanto o outro frade
lhe falára, estivera dando á cabeça em signal de approvação.--"O
olhar espantado, o escumar, o estorcer os membros, o falar não
sei de que feiticeiro; tudo me induz o crer que o demonio se
chantou naquelle miseravel corpo, como vós aventaes. Se assim
é, pouco juizo mostrou desta vez o diabo em vir com seus esgares
e tropelias atalhar o mui devoto auto da adoração. Examinemos
se assim é, eu vo-lo darei bem castigado."
Dizendo isto, Fr. Lourenço chegou-se a el-rei, e disse-lhe o
que quer que foi. Elle escutou-o attentamente, e tanto que o
prior acabou, sentou-se outra vez na sua cadeira de espaldas, e
fez signal com a mão aos fidalgos e cavalleiros para que tambem
se assentassem.
Fr. Lourenço, acompanhado de mais alguns frades, subiu pela igreja
acima, e entrou na sacristia: todos ficaram esperando, silenciosos
e immoveis como mestre Ouguet, o desfecho desta scena, que se
encaixava no meio das scenas do auto.
Tinham passado obra de tres credos, quando, saindo outra vez
da porta da sacristia, Fr. Lourenço voltou pela igreja abaixo,
revestido com as vestes sacerdotaes, cbegou á têa, abriu-a, e
encaminhou-se para mestre Ouguet. Depois, olhando de roda, e
fazendo um aceno de aucloridade, disse:
"Ajoelhae, christãos, e orae ao Padre Eterno por este nosso irmão,
tomado do espirito immundo."
A estas palavras, rei, cavalleiros, frades, povo, tudo se poz de
joelhos. E ouvia-se ao longo das naves o sussurro das orações.
Só mestre Ouguet ficou sem se bulir com o rosto mettido entre
as mãos.
O prior lançou a estola á roda do pescoço do possesso, e queria
atar os tres nós do ritual; mas o paciente deu um estremeção,
e tirando as mãos da cara, fez um gesto de horror, e gritou:
"Frade abominável, tambem tu és conluiado com o cégo?"
"Não ha duvida!--disse por entre os dentes o prior:--mestre Ouguet
está endemoninhado."
Tirando então da manga um pergaminho, em que estavam escriptas
varias cousas de doutrina, o poz sobre a cabeça do mestre, fazendo
sobre elle tres vezes o signal da cruz.
David Ouguet soltou então uma destas risadas nervosas, que
horrorisam, e que tão frequentes são quando o padecimento moral
sobrepuja as forcas da natureza.
"Cão tinhoso--bradou Fr. Lourenço--espirito das trevas, enganador,
maldicto, luxurioso, insipiente, ebrio, serpe, vibora, vil e
refece demónio, emfim, castelhano[2]. Em nome do creador e senhor
de todas las cousas, te mando que repitas o credo, ou sáias deste
miseravel corpo."
Mestre Ouguet ficou immovel e calado.
"Não cedes?!"--proseguiu o prior--"Recorrerei ao septimo, ao mais
terrivel exorcismo. Veremos se poderás a teu salvo escarnecer
das creaturas feitas á imagem e semelhança de Deus."
Depois de varias ceremonias e orações, Fr. Lourenço chegou-se
ao pobre irlandez, e começou a repetir o conjuro, fazendo-lhe
uma cruz sobre a testa a cada uma das seguintes palavras, que
proferia lentamente:
"Hel--Heloym--Heloa--Sabaoth--Helyon--Esereheye--Adonay--Iehova--
Ya--Thetagrammaton--Saday--Messias--Hagios--Ischiros--Otheos--
Athanatos--Sother--Emanuel--Agla--......
"Jesus!"--bradou a uma voz toda a gente que estava na igreja.
"Diabo!"--gritou mestre Ouguet; e caíu no chão como morto.
E houve um momento de angustia e terror, em que todos os corações
deixaram de bater, e em que todos os olhos, braços e pernas ficaram
fixos como se fossem de bronze.
Um ruído semelhante ao de cem bombardas, que se houvessem disparado
dentro do mosteiro, e que soára da banda da sacristia, tinha
arrancado aquelle grito de mil bôcas, e tinha convertido em estatuas
essa multidão de povo.
Ha situações tão violentas, que se durassem, a morte se lhes
seguiria em breve; mas a providente natureza parece restaurar
com dobrada energia o vigor physico e espiritual do homem depois
destes abalos espantosos; e então, melhor que nunca, elle sente
em si que, posto que despenhado, não perdeu a sublimidade da sua
origem divina. A reacção segue a acção; e quanto mais timido
o individuo se mostrou, mais viva é a consciência da propria
força, que depois disso renasce com o destemor e ousadia.
Foi o que succedeu a D. João I, aos cavalleiros do seu sequito,
e ao povo que estava na igreja de Sancta Maria, passado aquelle
instante de sobrenatural pavor. A terribilidade da ceremonia
que Fr. Lourenço practicava; o ruído inesperado que rompêra o
exorcismo; o grito blasphemo do architecto, no momento de cahir
por terra; o logar; a hora, eram cousas que, reunidas, fariam
pedir confissão a uma grande manada de philosophos encyclopedistas,
e que por isso, não é de admirar fizessem uma impressão vivissima
em homens de um seculo, não só crente, mas tambem supersticioso.
Todavia o animo indomavel do Mestre d'Aviz brevemente fez cobrar
alento a todos os que ahi estavam.
"É, em verdade, descommunal maravilha o que temos visto e
ouvido--disse elle com voz firme, voltando-se para os que o
rodeavam;--mas cumpre indagar d'onde procede o ruído que veiu
interromper o mui devoto padre prior no exercicio de seu ministerio
tremendo. Soou esse medonho estampido da banda do claustro: vamos
examinar o que seja: se diabolico, estamos na casa de Deus, e
a cruz é nosso amparo: se natural, que haverá no mundo capaz
de pôr espanto em cavalleiros portuguezes?"
Dizendo isto, elrei desceu do estrado, e encaminhou-se para a
sacristia. Os cavalleiros da comitiva, os frades, os tres reis
magos (que ainda estavam em pé sobre o tablado) e uma grande
parte do povo tomaram o mesmo caminho.
Elrei ía adiante, e o prior era o que mais de perto o seguia.
Cruzaram o arco gothico, que dava communicação para a sacristia:
ahi tudo estava em silencio: uma lampada que pendia do tecto
dava uma luz frouxa e mortiça, e a esta luz incerta e baça
encaminharam-se para a porta do capitulo. Ao chegar a ella todos
recuaram de espanto, e um segundo grito soou, e veiu morrer
sussurrando pelas naves da igreja quasi deserta:
"Jesus!"
As portas haviam estourado nos seus grossissimos gonzos, e muito
cimento solto e pedras quebradas tinham rolado pelo portal fóra,
entulhando-lhe quasi um terço da altura. Olhando para o interior
daquella immensa quadra não se viam senão enormes fragmentos
de cantos lavrados, de laçarias, de cornijas, de voltas e de
relevos: a lua, que passava tranquilla nos céus, reflectia o
seu clarão pallido sobre este montão de ruinas semelhantes aos
monumentos irregulares de um cemiterio christão; e por cima daquelle
temoroso silencio passava o frio leste da noite, e vinha bater
nas faces turbadas dos que apinhados na sacristia contemplavam
este lastimoso espectaculo. Dos olhos d'elrei e de Fr. Lourenço
cahiram algumas lagrymas, que elles debalde tentavam reprimir.
A abobada do capitulo, acabada havia vinte e quatro boras, tinha
desabado em terra!
[1] Presepio, ou presepe, significa propriamente um
estabulo, ou estrebaria; mas a accepção vulgar desta palavra é a
de uma especie de embrechado, ou paizagem de vulto, representando
a choça de Belém, em que nasceu o Salvador.
[2] O inquisidor Sprenger, no livro intitulado Mallens
Maleficarum, recommenda aos exorcistas que antes de tudo descomponham
e injuriem quanto poderem os possessos, advertindo que não são
propriamente estes que recebem as affrontas, mas sim o diabo,
que tem no corpo. A conveniencia de taes doestos é que para o
demonio, pae da suberba, não póde haver maior pirraça do que
ser descomposto na sua cara, sem que elle se possa desaggravar.
Veja-se o livro citado, edição de Lyão de 1604--Tom. 3. pág.
83.
UM REI CAVALLEIRO.
Em uma quadra das que serviam de aposentos reaes no mosteiro
da Batalha, á roda de um bufete de carvalho de lavor antigo,
cujos pés, torneados em linha espiral, eram travados por uma
especie de escabéllo, que pelos topos se embebia nelles, estavam
assentadas varias personagens daquellas com quem o leitor já tractou
nos antecedentes capitulos. Eram estas D. João I, Fr. Lourenço
Lamprêa, e o procurador Fr. Joanne. Elrei estava á cabeceira
da mesa, e no topo fronteiro o prior, tendo á sua esquerda Fr.
Joanne. Além destes, outros individuos ahi estavam, que as pessoas
lidas nas chronicas deste reino tambem conhecerão: taes eram os
doutores João das Regras e Martim d'Ocem do conselho d'elrei,
cavalleiros mui graves e auctorisados, e afóra elles mais alguns
fidalgos, que D. João I particularmente estimava. Atraz da cadeira
d'elrei um pagem esperava, em pé, as ordens de seu real senhor.
O quadrante do terrado contiguo apontava meio-dia.
Em cima do bufete estava estendido um grande rolo de pergaminho,
no qual todos os olhos dos circumstantes se fitavam: era a traça
ou desenho do mosteiro, que delineára mestre Affonso Domingues,
onde, além dos prospectos geraes do edificio, illuminados
primorosamente, se viam todos os córtes e alçados de cada uma
das partes dessa complicada e maravilhosa fabrica. Elrei tinha
a mão estendida, e os dedos sobre o risco da casa capitular,
ao passo que falava com o prior:
"Parece impossivel isso; porque natural desejo é de todos os
homens alcançarem repouso e pão na velhice, e não vejo razão para
mestre Affonso se doer da mercê que lhe fiz."
"Pois a conversação que vos relatei, tive-a com elle ainda hontem,
pouco antes de vossa mercê chegar."
"E como vae David Ouguet?--perguntou elrei.
"Com grande melhoria:--respondeu o prior.--Dormiu bom espaço,
e acordou em seu juizo. Contou-me que, entrando hontem após nós
na casa do capitulo, e affirmando a vista na abobada, conhecêra
que tinha gemido, e estava a ponto de desabar; que sentíra
apertar-se-lhe o coração, e que com a sua afflicção corrêra pela
crasta fóra como doudo; que no céu se lhe affigurava um relampaguear
incessante e medonho; que via ... nem elle sabe o que via, o pobre
homem. Depois disso, diz que perdêra o tino, e de nada mais se
recorda."
"Nem dos exorcismos?--perguntou em meia voz Martim d'Ocem, com
um sorriso malicioso.
"Nem dos exorcismos:--retrucou Fr. Lourenço no mesmo tom, mas
subindo-lhe ao rosto a vermelhidão da colera.--A proposito, doutor.
Dizem-me que Annequim é morto[1], e que elrei proveu o cargo em
um dos de seu conselho. Seria verdadeira esta mercê singular?"
E o frade media o letrado de alto a baixo com os olhos irritados.
Este preparava-se para vibrar ao prior uma nova injuria indirecta,
naquelle jogo de allusões que era as delicias do tempo, quando
elrei acenou ao pagem, dizendo-lhe:
"Alvaro Vaz d'Almada, ide depressa á morada d'Affonso Domingues,
dizei-lhe que eu quero falar-lhe, e guiae-o para aqui. Fazei isso
com tento; e lembrae-vos de que elle é um antigo cavalleiro,
que militou com vosso mui esforçado pae."
O pagem saíu a cumprir o mandado d'elrei.
"Dizeis vós--proseguiu este, dirigindo-se a João das Regras e
a Martim d'Ocem--que talvez Affonso Domingues se enganasse em
suppôr que era possivel fazer uma abobada tão pouco erguida,
como é a que elle traçou para o capitulo. Não creio eu que tão
entendido architecto assim se enganasse: mais inclinado estou
a persuadir-me de que o lastimoso successo de hontem á noite
procedesse da grave falta commettida por mestre Ouguet nesta
edificação."
"E que falta foi essa, se a vossa mercê apraz dizer-m'o?--replicou
João das Regras.
"A de não seguir de todo ponto o desenho de mestre Affonso:--tornou
elrei.
"E se a execução de sua traça fosse impossivel?--acudiu o doutor.
"Impossivel!?"--atalhou elrei.--"E não contava elle com leva-la
a effeito, se Deus o não tolhesse dos olhos?"
"E é disso que mais se doe mestre Affonso,"--interrompeu o prior.--"A
sua grande canseira é que ninguem saberá continuar a edificação
do mosteiro, ou, como elle diz, proseguir a escriptura do seu
livro de pedra, porque ninguem é capaz de entender o pensamento
que o dirigiu na concepção delle."
"Roncarías e feros são esses proprios de quem foi homem d'armas
de Nunalvares:--disse o chanceller João das Regras.--Todos os
de sua bandeira são como elle. Porque sabem jogar boas lançadas,
teem-se em conta de principes dos discretos; e o cégo não se
esqueceu ainda de que comeu da caldeira do condestavel."
João das Regras, emulo de Nunalvares, não perdeu este ensejo
de lhe pôr pêcha; mas D. João I que conhecia serem esses dous
homens as pedras angulares de seu throno, escutava-os sempre
com respeito, salvo quando falavam um do outro; posto que o
condestavel, homem mais de obras que de palavras, raras vezes
menoscabava os meritos do chanceller, contentando-se com lançar
na balança, em que João das Regras mostrava o grande peso da sua
penna, o montante com que elle Nunalvares tinha em cem combates
salvado a patria do dominio estranho, e a cabeça do chanceller
das mãos do carrasco, de que não o livrariam nem os gráus de
doutor de Bolonha, nem os textos das leis romanas.
"Deixae lá o condestavel, que não vem ao intento;--disse elrei:--o
que me importa é ouvir mestre Affonso sobre este caso. Quizera
antes perder um recontro com castelhanos, do que cuidar que o
capitulo de Sancta Maria da Victoria ficará em ruinas. Mestre
Ouguet com sua arte deixou-lhe vir ao chão a abobada: se Affonso
Domingues fôr capaz de a tornar a erguer, e deixa-la firme,
concluirei d'ahi que vale mais o cégo que o limpo de vista; e
digo-vos que o restituirei ao antigo cargo, ainda que esteja,
além de cégo, çopo[2] e mouco."
Neste momento entrava o velho architecto, agarrado ao braço de
Alvaro Vaz d'Almada, que o veiu guiando para o topo da desmesurada
banca de carvalho, á roda da qual se travára o dialogo, que acima
transcrevemos.
"Dom donzel, onde é que está elrei?"--dizia Affonso Domingues ao
pagem, caminhando com passos incertos ao longo do vasto aposento.
D. João I, que ouvira a pergunta, respondeu em vez do pagem:
"Agora nenhum rei está aqui, mas sim o Mestre d'Aviz, o vosso
antigo capitão, nobre cavalleiro de Aljubarrota."
"Beijo-vos as mãos, senhor rei, por vos lembrardes ainda de um
velho homem de armas, que para nada presta hoje. Vêde o que de mim
mandaes; porque de vossa ordem aqui me trouxe este bom donzel."
"Queria vêr-vos e falar-vos; que de coração vos estimo, honrado
e sabedor architecto do mosteiro de Sancta Maria."
"Architecto do mosteiro de Sancta Maria, já o não sou; vossa
mercê me tirou esse encargo: sabedor, nunca o fui, pelo menos
muitos assim o creem, e alguns o dizem: dos titulos que me daes
só me cabe hoje o de honrado; que esse, mercê de Deus, é meu, e
fôra infamia rouba-lo a quem já não póde pegar em um montante
para defende-lo."
"Sei, meu bom cavalleiro, que estaes mui torvado comigo por dar
a outrem o cargo de mestre das obras do mosteiro: n'isso cria
eu fazer-vos assignalada mercê. Mas venhamos ao ponto: sabeis
que a abobada do capitulo desabou hontem á noite?"
"Sabia-o, senhor, antes do caso succeder."
"Como é isso possivel?!"
"Porque todos os dias perguntava a alguns desses poucos obreiros
portugueses que ahi restam, como ia a feitura da casa capitular:
no desenho della pozera eu todo o cabedal de meu fraco ingenho,
e este aposento era a obra prima de minha imaginação: por elles
soube que a traça primitiva fôra alterada, e que a junctura das
pedras era feita por modo diverso do que eu tinha apontado:
prophetisei-lhes então o que havia de acontecer. E--accrescentou
o velho com um sorriso amargo--muito fez já o meu successor em
por tal arte lhe pôr o remate, que não desabasse antes das vinte
e quatro horas."
"E tinheis vós por certo que se vossa traça se houvera seguido,
essa desmesurada abobada não viria a terra?"
"Se estes olhos não tivessem feito com que eu fosse posto de
banda como uma carta de testamento antiga, que se atira, por
inutil, para o fundo de uma arca, a pedra do fecho dessa abobada
não teria de vir esmigalhar-se no pavimento antes de sobre ella
pesarem muitos séculos; mas os de vosso conselho julgaram que
um cégo para nada podia prestar."
"Pois se ousaes levar a cabo vosso desenho, eu ordeno que o façaes,
e desde já vos nomeio de novo mestre das obras do mosteiro, e
David Ouguet vos obedecerá."
"Senhor rei--disse o cégo, erguendo a fronte, que até alli tivera
curvada:--vós tendes um sceptro e uma espada; tendes cavalleiros
e bésteiros; tendes ouro e poder: Portugal é vosso, e tudo quanto
elle contém, salvo a liberdade de vossos vassallos: nesta nada
mandaes. Não!... vos digo eu: não serei quem torne a erguer essa
derrocada abobada! Os vossos conselheiros julgaram-me incapaz
d'isso: agora elles que a alevantem."
As faces de D. João I tingiram-se do rubor do despeito.
"Lembrae-vos, cavalleiro,--disse elle--de que falaes com D. João
I."
"Cuja corôa--acudiu o cégo--lhe foi posta na cabeça por lanças,
entre as quaes reluzia o ferro da que eu brandia. D. João I é
assaz nobre e generoso, para não se esquecer de que nessas lanças
estava escripto:--os vassallos portuguezes são livres."
"Mas--tornou elrei--os vassallos que desobedecem aos mandados
daquelle em cuja casa tem acostamento[3], podem ser privados
de sua moradia..."
"Se dizeis isso pela que me déstes, tirae-m'a; que não vo-la pedi
eu. Não morrerei de fome; que um velho soldado de Aljubarrota
achará sempre quem lhe esmole uma mealha; e quando haja de morrer
á mingua de todo humano soccorro, bem pouco importa isso a quem vê
arrancarem-lhe, nas bordas da sepultura, aquillo por que trabalhou
toda a vida, um nome honrado e glorioso."
Dizendo isto, o velho levou a manga do gibão aos olhos baços,
e embebeu nella uma lagryma mal sustida. Elrei sentiu a piedade
coar-lhe no coração comprimido de despeito, e dilatar-lh'o
suavemente. Uma das dores d'alma, que em vez de a lacerar a consolam,
é sem duvida a compaixão.
"Vamos, bom cavalleiro,--disse elrei pondo-se em pé--não haja
entre nós doestos. O architecto do mosteiro do Sancta Maria vale
bem o seu fundador! Houve um dia em que nós ambos fomos pelejadores:
eu tornei celebre o meu nome, a consciencia m'o diz, entre os
principes do mundo, porque segui avante por campos de batalha;
ella vos dira também que a vossa fama será perpetua, havendo
trocado a espada pela penna, com que traçastes o desenho do grande
monumento da independencia e da gloria desta terra. Rei dos homens
do acceso imaginar, não desprezeis o rei dos melhores cavalleiros,
os cavalleiros portuguezes! Tambem vós fostes um delles; e
negar-vos-heis a proseguir na edificação desta memoria, desta
tradição de marmore, que ha-de recordar aos vindouros a historia
de nossos feitos? Mestre Affonso Domingues, escutae os ossos de
tantos valentes, que vos accusam de trahirdes a boa e antiga
amizade: vem de todos os valles e montanhas de Portugal o soído
desse queixume de mortos; porque, nas contendas da liberdade,
por toda a parte se verteu sangue e foram semeados cadaveres de
cavalleiros! Eia, pois: se não perdoaes a D. João I uma supposta
affronta, perdoae-a ao Mestre d'Aviz, ao vosso antigo capiião,
que em nome da gente portugueza vos cita para o tribunal da
posteridade, se refusaes consagrar outra vez á pátria vosso
maravilhoso ingenho, e que vos abraça como antigo irmão nos combates,
porque certo crê que não quereis perder na vossa velhice o nome
de bom e honrado portuguez."
Elrei parecia grandemente commovido, e talvez involuntariamente,
lançou um braço ao redor do pescoço do cégo, que soluçava e tremia
sem soltar uma só palavra.
Houve uma longa pausa: todos se tinham posto em pé quando elrei
se erguêra, e esperavam anciosos o que diria o velho. Finalmente
este rompeu o silencio:
"Vencestes, senhor rei, vencestes!... A abobada da casa capitular
não ficará por terra. Oh meu mosteiro da Batalha, sonho querido
de quinze annos de vida entregues a cogitações, a mais formosa
das tuas imagens será realisada, será duradoura como a pedra em
que vou estampa-la! Senhor rei, as nossas almas entendem-se:
as unicas palavras harmoniosas e inteiramente suaves, que tenho
ouvido ha muitos annos, são as que vos saíram da bôca: só D. João
I comprehende Affonso Domingues; porque só elle comprehende a valia
destas duas palavras formosissimas, palavras de anjos--patria e
gloria. A passada injuria a vossos conselheiros a attribui sempre,
que não a vós, posto que de vós, que ereis rei, me queixasse:
varre-la-hei da memoria, como o entalhador varre as lascas e a
pedra moída pelo cinzel de cima do vulto, que entalhou em fuste
de columna arrendada. Que me restituam os meus officiaes e obreiros
portuguezes; que portuguez sou eu, portugueza a minha obra! De hoje
a quatro mezes podeis voltar aqui, senhor rei, e ou eu morrerei,
ou a casa capitular da Batalha estará firme, como é firme a minha
crença na immortalidade e na gloria."
Elrei apertou então entre os braços o bom do cégo, que procurava
ajoelhar a seus pés. Era a attracção de duas almas sublimes,
que voavam uma para a outra. Por fim D. João I fez um signal ao
pagem, que se aproximou:
"Alvaro Vaz, acompanhae este nobre cavalleiro a sua pousada.
E vós, mestre mui sabedor, ide repousar: dentro de quinze dias
vossos antigos officiaes terão voltado de Guimarães para cumprirem
o que mandardes. Mui devoto padre prior,--continuou elrei,
voltando-se para Fr. Lourenço--entendei que d'ora avante Affonso
Domingues, cavalleiro de minha casa, torna a ser mestre das obras
do mosteiro de Sancta Maria da Victoria, em quanto assim lhe
aprouvér."
O prior fez uma profunda reverencia.
A alegria tinha tolhido a voz do architecto: diante de toda a
côrte elrei o havia desaffrontado, e já, sem desdouro, podia
acceitar o encargo de que o tinham despojado. Com passos incertos,
e seguro ao braço do pagem, saíu do aposento, feita venia a elrei.
Este deu immediatamente ordem para a partida; e quando todos
íam saindo, o prior chegou-se ao velho chanceller, e disse-lhe
em tom submisso:
"Doutor Johannes a Regulis, espero que narreis fielmente á rainha
o que succedeu, e a certifiqueis de quanto me custa ver tirada
a régua magistral a mestre Ouguet..."