"Foi--tornou o politico discipulo de Bartholo--mais uma façanha

de D. João I: começou por brigar com um louco, e acabou abraçando-o,

por lhe vêr derramar uma lagryma. Bem trabalho por fazer do Mestre

de Aviz um rei; mas sae-me sempre cavalleiro andante. Não lhe

succedêra isto se, em vez de passar a mocidade em pelejas, a

houvera passado a estudar em Bolonha. Tendo-lhe dicto mil vezes

que é preciso lisongear os inglezes, porque carecemos delles:

a tudo me responde com dizer que com Deus e o proprio montante

tem em nada Castella: todavia a gente ingleza ufanava-se de ser

David Ouguet o mestre desta edificação; e que importava que ella

fosse mais ou menos primorosa a troco de contentarmos os que

comnosco estão liados? Quanto a vós, reverendo prior, ficae

descançado: tudo fia a rainha de vossa prudencia, que é muita,

posto que não vistes Bolonha. Vamos, reverendissimo."

A côrte já tinha saído; e os dous velhos seguiram-na ao longo

daquellas arcadas, conversando um com o outro em voz baixa.

[1] Annequim era o bobo do paço em tempo de D. Fernando,

a quem sobreviveu.

[2] Coixo.--Fui vista ao cégo, e pée ao çôpo. Trad. do

livro de Job. Fragmento do seculo 14.º

[3] Acostamento, é o mesmo que moradia.

O VOTO FATAL.

Rica de galas, a primavera tinha vestido os campos da Estremadura

do viço de suas flores: a madresilva, a rosa agreste, o rosmaninho,

e toda a casta de boninas teciam um tapete odorifero e immenso por

charnecas, comoros, e sapaes, e pelo chão das matas e florestas,

que agitavam as frontes somnolentas com a brisa de manhan purissima,

mostrando aos olhos um balouçar de verdura compassado com o das

seáras rasteiras, que mais longe, pelas veigas e outeiros, ondeavam

suavemente. Eram sete de Maio da era de Cesar de 1439, ou, como

os letrados diziam, do anno da redempção, 1401. Quatro mezes

certos se contavam nesse dia, depois daquelle em que, n'uma das

quadras do aposento real no mosteiro da Batalha, se passára a

scena, que no antecedente capitulo narrámos, e que extrahimos

do famoso manuscripto mencionado no capitulo II, com aquella

pontualidade e verdade, com que o grande chronista F. Bernardo

de Brito citava só documentos innegaveis e auctores certissimos,

e com aquella imparcialidade e exacção, com que o philosopho de

Ferney referia e avaliava os factos em que podia interessar a

religião christan.

Assistiu o leitor á promessa que mestre Affonso Domingues fez a

D. João I de que dentro de quatro mezes lhe daria posto o remate

na abobada da casa capitular de Sancta Maria da Victoria, e lembrado

estará de como elrei lhe promettêra, tambem, mandar vir de Guimarães

todos os officiaes portuguezes, que, despedidos da Batalha por

mestre Ouguet como menos habilidosos que os estrangeiros, haviam

sido mandados para a obra, posto que grandiosa, menos importante de

Sancta Maria da Oliveira, hoje desaportuguesada e caiada e dourada

e mutilada pelo mais barbaro abuso da riqueza e da ignorancia

clerical. A palavra do Mestre d'Aviz não voltára atraz, não por

ser palavra de rei, mas por ser palavra de cavalleiro portuguez

daquelles tempos, em que tão nobres affectos e instinctos havia

nos corações de nossos avós, que de bom grado lhes devemos perdoar

a rudeza. Tendo partido de Alcobaça para Guimarães, onde nesse

anno se ajunctavam cortes, apenas ahi chegára tinha mandado partir

para Sancta Maria da Victoria os officiaes e obreiros mais

entendidos, que vieram apresentar-se a mestre Affonso.

Este, resolvido tambem a cumprir o promettido, mettêra mãos á

obra. O capitulo foi desentulhado: aproveitaram-se as pedras da

primeira edificação que era possivel aproveitar, lavraram-se outras

de novo, armaram-se os simples, e muito antes do dia aprazado o

fecho ou remate da abobada repousava no seu logar.

Durante estes quatro mezes os successos politicos tinham trazido

D. João I a Santarem, onde se fizera prestes com bom numero de

lanças, bésteiros, e peões para ir ajunctar-se com o Condestavel,

e entrarem ambos por Castella, cuja guerra tinha recomeçado, por

se haverem acabado as treguas. Para esta entrada se apparelhára

elrei com uma lustrosa companhia de seus cavalleiros, e caminhando

pela margem direita do Tejo, acampára juncto a Tancos, onde se

havia de construir uma ponte de barcas para passar o exercito,

e seguir ávante até o Crato, que era o logar aprazado com o

Condestavel, para junctos irem dar sobre Alcantara.

Em Val-de-Tancos estava assentado o arraial da hoste d'elrei: os

petintaes, que tinham vindo de Lisboa, trabalhavam na ponte de

barcas, que se deviam lançar sobre o Tejo; os bésteiros limpavam

suas béstas, e folgavam em luctas e jogos; os cavalleiros corriam

pontas, atiravam ao tavolado, monteavam, ou matavam o tempo em

banquetes e beberronias. Tinham chegado áquelle sitio a cinco

de Maio, e no seguinte dia elrei partíra afforradamente para

a Batalha, porque não se esquecêra de que os quatro mezes, que

pedira Affonso Domingues para alevantar a abobada, eram passados,

e fôra avisado por Fr. Lourenço de que a obra estava acabada, mas

que o architecto não quizera tirar os simples senão na presença

d'elrei.

Antes de partir de Lisboa, D. João mandára sair dos carceres, em

que jaziam, bom numero de criminosos e de captivos castelhanos,

que, com grande pasmo dos povos, e rodeados por uma grossa manga de

bésteiros, tomaram o caminho da Batalha, sem que ninguem aventasse

o motivo d'isto. Todavia elle era obvio: elrei pensou que, assim

como a abobada do capitulo desabára da primeira vez, passadas

vinte quatro horas depois de desamparada, podia agora derrocar-se

em cima dos obreiros no momento de lhe tirarem os prumos e travezes

sobre que fôra edificada. Sollicito pela vida de seus vassallos;

parente do povo por sua mãe, e crendo por isso que a morte de

um popular tambem tinha seu trance de agonia, e que lagrymas

de orphãos pobres eram tão amargas, ou porventura mais que as

de infantes e senhores, não quiz que se arriscassem senão vidas

condemnadas, ou pela guerra, ou pelos tribunaes, e que naquella

se tinham remido pela covardia, e nestes pela piedade ou antes

esquecimento dos juizes. E se da primeira vez lhe não occorrêra

esta idéa, fôra porque tambem na memoria de obreiros portuguezes

não havia lembrança de ter desabado uma abobada apenas construida.

Seguido só por dous pagens, D. João I atravessou a villa de Ourem

pelas horas mortas do quarto de modorra, e antes do meio-dia

apeou-se á portaria do mosteiro.

Os officiaes, que trabalhavam em varios lavores, pelos telheiros

e casas ao redor do edificio, viram passar aquelle cavalleiro e

os dous pagens, mas não o conheceram: D. João I vinha cuberto

de todas as peças, e ao galgar o ginete pelo outeiro abaixo,

tinha descido a viseira.

"Benedicite!--dizia elrei, batendo devagarinho á porta da cella

de Fr. Lourenço.

"Pax vobis, domine!--respondeu o prior que logo conheceu elrei,

e veio abrir a porta.

"Não vos incommodeis, reverendissimo--disse D. João, entrando

na cella, e sentando-se em um tamborete.--Deixae-me resfolegar

um pouco, e dae-me uma vez de vinho."

"Não vos esperava tão de salto;--tornou Fr. Lourenço: e abrindo

um armario, tirou delle uma borrácha e um cangirão de madeira,

que encheu de vinho, e pegando com a esquerda em uma escudela de

barro de Estremoz[1] cheia de uma especie de bolo feito de mel,

ovos, e flor de farinha, apresentou a elrei aquella collação.

"Excellente almoço:--dizia elrei, descalçando o guante ferrado,

e cravando a espaços os dedos dentro da escudela, d'onde tirava

bocados do bolo, que ajudava com alentados beijos dados no cangirão.

Depois que cessou de comer, limpando a mão ao forro do tonelete,

poz-se em pé, em quanto Fr. Lourenço guardava os despojos daquella

batalha:

"Bofé--disse D. João, rindo--que não ando a meu talante, senão

com o arnez ás costas! Cada vez que o visto, parece-me que torno á

mocidade, e que sou o Mestre d'Aviz, ou antes o simples cavalleiro,

que, confiado só em Deus, corria solto pelo mundo, monteando

edomas[2] inteiras, e tendo sobre a consciencia só os peccados

de homem, e não os escrupulos de rei."

"E então--atalhou o prior--o vosso confessor Fr. Lourenço era

um pobre frade, cujos unicos cuidados se encerravam em saber

as horas do côro, e em ler as sagradas escripturas, porém que

hoje tem de velar muitas noites, pensando no modo de não deixar

affrouxar a disciplina e boa governança de tão alteroso mosteiro.

Mas, segundo vosso recado, que hontem recebi, vindes para assistir

ao tirar dos simples da mui famosa abobada, o que mestre Domingues

aporfia em só fazer perante vós?"

"A isso vim, porém de espaço; que não será nestes cinco dias,

que esteja prompta a ponte de barcas, que mandei lançar no Téjo

para passar minha hoste. Durante elles, com vossos mui religiosos

frades me apparelharei para a guerra, enthesourando orações e

recebendo absolvição de meus erros."

"Os principes pios--acudiu o prior com ar de compuncção--são sempre

ajudados de Deus, principalmente contra herejes e scismaticos,

como os perros dos castelhanos, que a Virgem Maria da Victoria

confunda nos infernos."

"Amen!--respondeu devotamente elrei.

"Avisarei, pois, mestre Affonso de vossa vinda, para que mande

pôr tudo em ordenança de se tirarem os simples: elle me pediu

que o mandasse chamar apenas fosseis chegado."

Fr. Lourenço saíu, e d'ahi a pouco voltou acompanhado do architecto,

que um rapaz guiava pela mão.

"Guarde-vos Deus, mestre Affonso Domingues!--disse elrei, vendo

entrar o cégo--Aqui me tendes para vêr acabada a feitura da

mirifica abobada do capitulo de Sancta Maria, cujos simples não

quizestes tirar senão em minha presença."

"Beijo-vo-las, senhor rei, pela mercê: dous votos fiz se levasse

a cabo esta feitura; era esse um delles..."

"E o outro?--atalhou elrei.

"O outro, dir-vo-lo-hei em breve; mas por ora permitti que para

mim o guarde."

"São negocios de consciencia:--acudiu o prior.--Elrei não quer,

por certo, fazer-vos quebrar vosso segredo."

D. João I fez um signal de assentimento ao parecer do seu antigo

padre espiritual.

Elrei, o prior, e o architecto ainda se demoraram um pedaço falando

ácerca da obra, e do que cumpria fazer no proseguimento della;

mas o cégo dissera o que quer que fôra em voz baixa ao rapaz

que o acompanhava, o qual saíra immediatamente, e que só voltou

quando os tres acabavam a conversação.

"Fernão d'Evora--disse o cégo, sentindo-o outra vez ao pé de

si--fizeste o que te ordenei, e deste a teu tio Martim Vasques

o meu recado?"

"Senhor, si! Envia-vos elle a dizer que tudo está prestes."

"Então vamos a vêr se desta feita temos mais perduravel abobada."

Isto dizia elrei saindo da cella de Fr. Lourenço, e seguindo ao

longo do claustro. Já a este tempo se tinha espalhado no mosteiro

a nova da sua chegada, e os frades começavam de ajunctar-se para

o cortejarem. Do mosteiro rompêra a noticia, e se espalhára na

povoação, aonde concorrêra muita gente dos arredores, principalmente

de Aljubarrota, por ser dia de mercado: de modo que quando elrei

desceu á crasta já alli se achavam apinhados homens e mulheres,

que queriam vê-lo, e ainda mais saber se desta vez a abobada

vinha ao chão, para terem que contar aos vizinhos e vizinhas da

sua terra.

As portas da casa do capitulo estavam abertas: via-se dentro

della tal machina de prumos, travezes, andaimes, cabrestantes,

escadas, que bem se podéra comparar a composição daquelles simples

á fabrica do mais delicado relogio. Á porta, que dava para a

crasta, estava um homem em pé, que se desbarretou apenas viu

elrei, a cuja direita vinha o architecto, seguido por Fr. Lourenço

e por outros frades.

O pequeno Fernão d'Evora disse algumas palavras a Affonso Domingues,

o qual lhe respondeu em voz baixa. Então o rapaz acenou ao homem

desbarretado, que se chegou timidamente ao cégo. Era um mancebo,

que mostrava ter de idade, ao mais, vinte cinco annos; de rosto

comprido, tez queimada, nariz aquilino, olhos pequenos e vivos.

Chegando-se ao cégo, este o tomou pela mão, e voltando-se para

elrei, disse:

"Aqui tendes, senhor, a Martim Vasques, o melhor official de

pedraria que eu conheço; o homem que, com mais alguns annos de

esperiencia, será capaz de continuar dignamente a serie dos

architectos portuguezes."

"E debaixo de meu especial amparo estará Martim Vasques--respondeu

elrei--que por honrado me tenho com haver em meus senhorios homens

que vos imitem.[3]"

Ainda bem não eram acabadas estas palavras, sentiu-se um sussurro

entre o povo, que girava livremente pela crasta, e que se enfileirou

aos lados: chegava a gente que devia tirar os simples.

Entre duas alas de bésteiros vinha um bom numero de homens, magros,

pallidos, rotos e descalços: o porte de alguns era altivo, e

em seus farrapos se divisava a razão d'isso: eram bésteiros

castelhanos, que em diversos recontros e pelejas tinham cahido

nas mãos dos portuguezes. As guerras entre Portugal e Castella

assemelhavam-se ás guerras civis de hoje: para vencidos não havia

nem caridade, nem justiça, nem humanidade: ser mettido em ferros

era então uma ventura para o pobre prisioneiro; porque os mais

delles morriam assassinados pelo povo desenfreado, em vingança

dos máus tractos que em Castella padeciam os captivos portuguezes.

Com os castelhanos vinham d'envolta varios criminosos condemnados

á morte por suas malfeitorias.

"Misericordia!--bradou toda aquella multidão, ao passar por elrei:

e cahiram de bruços sobre as lageas do pavimento.

"Comvosco a tenho, mesquinha gente:--disse elrei commovido--Se

tirardes os simples, que vêdes acolá, a abobada não desabar sobre

vós, soltos e livres sereis. Erguei-vos, e confiae na sciencia do

grande architecto que fez essa mirifica obra. Mandar-vos comprar

vossa soltura a custo de tão leve risco, quasi que é o mesmo que

perdoar-vos."

Os presos ergueram-se; mas a tristeza lhes ficou embebida no

coração, e espalhada nas faces: o terror fazia-lhes crer que já

sentiam ranger e estalar as vigas dos simples, e que, ás primeiras

pancadas, as pedras desconformes da abobada, desatando-se da

immensa volta, os esmagariam, como o pé do quinteiro esmaga a

lagarta enroscada na planta viçosa do horto.

Neste momento quatro forçosos obreiros chegaram á porta do capitulo,

trazendo sobre uma pavióla uma grande pedra quadrada. Martim

Vasques, que já lá estava, gritou ao cégo architecto:

"Mui sabedor mestre Affonso, que quereis se faça do canto, que

para aqui mandastes trazer?"

"Assentae-o bem debaixo do fecho da abobada, no meio desse claro,

que deixam os prumos centraes dos simples."

Os obreiros fizeram o que o architecto mandara: este então voltou-se

para elrei, e disse:

"Senhor rei, é chegado o momento de vos declarar meu segundo

voto. Pelo corpo e sangue do Redemptor jurei que, assentado sobre

a dura pedra, debaixo do fecho da abobada, estaria sem comer nem

beber durante tres dias, desde o instante em que se tirassem

os simples. De cumprir meu voto ninguem poderá mover-me. Se essa

abobada desabar, sepultar-me-ha em suas ruinas: nem eu quizera

encetar, depois de velho, uma vida deshonrada e vergonhosa. Esta

é a minha firme resolução."

Dizendo isto, o cégo travou com força do braço de Fernão d'Evora,

e encaminhou-se para a porta do capitulo.

"Esperae, esperae!--bradou elrei.--Estaes louco, dom cavalleiro?

Quem, se vós morrerdes, continuará esta fabrica, tão formosa

filha de vosso engenho?"

"Mestre Ouguet:--tornou o cégo, parando.--Não sou tão vil que

negue seu saber e habilidade: se a abobada desabar segunda vez,

ninguem no mundo é capaz de a fechar com uma só volta, e para

a firmar sobre uma columna erguida no centro, mestre Ouguet o

fará. Quanto ao resto do edificio, fazei senhor rei que se prosiga

meu desenho: é o que ora vos peço tão sómente."

E o velho e o seu guia sumiram-se por entre as bastas vigas,

que sustinham as traves dos simples: elrei, Fr. Lourenço, e os

mais frades ficaram atonitos e calados.

"Que tão honrado mestre corra parelhas no risco com esses perros

castelhanos cousa é que se não póde soffrer: mas o voto é voto,

senão..."

Estas palavras partiam da bôca d'uma gorda velha, cuja tez

avermelhada dava indicios de compleição sanguinea e irritavel,

e que de mãos mettidas nas algibeiras, na frente de uma das alas

do povo presenceava o caso.

"Tendes razão, tia Brites d'Almeida; e por ser voto me calo

eu:--acudiu elrei, voltando-se para a velha.--Mas juro a Christo,

que estou espantado de só agora vos vêr! Porque me não viestes

falar?"

"Perdoe-me vossa mercê:--replicou a velha.--Eu vim trazer pão á

feira, e ahi souhe da chegada de vossa real senhoria. Corri ...

se eu correria para vos falar! Mas estes bôcas abertas não me

deixaram passar. Abrenuncio! Depois estive a olhar... Parecieis-me

carregado de semblante. Que é isso? Temos novas voltas com os

excommungados castelhanos? Se assim é, trosquiae-mos outra vez

por Aljubarrota, que a pá não se quebrou nos sete que mandei

de presente ao diabo, e ainda lá está para o que der e vier."

Soltando estas palavras, a velha tirou as mãos das algibeiras,

e cerrando os punhos, ergueu os braços ao ar, com os meneios

de quem já brandia a tremebunda e patriotica pá de forno, que

hoje é gloria e brasão da gothica villa de Aljubarrota.

"Podeis dormir descançada, tia Brites:--respondeu elrei,

sorrindo-se.--Bem sabeis que sou portuguez e cavalleiro, e a

gente de nossa terra é cortez: elrei de Castella veio visitar-nos

varias vezes: e agora eu ando na demanda de lhe pagar com usura

suas visitações."

Em quanto este dialogo se passava entre o heroe de Aljubarrota e

a sua poderosa alliada, Martim Vasques tinha posto tudo a ponto;

e dando as suas ordens da porta, as primeiras pancadas de martello,

batendo nos simples, resoaram pelo ambito da casa capitular.

Fez-se um grande silencio e todos os olhos se cravaram em Martim

Vasques.

Passada uma hora, aquelle montão de vigas, barrotes, taboas,

cambotas, cabrestantes, reguas e travessas tinha passado pela

crasta fóra em collos de homens: os presos tinham sido postos

em liberdade, com grande raiva da tia Brites ao vêr ir soltos

os bésteiros castelhanos; e só no centro da ampla quadra se via

uma pedra, sobre a qual, mudo e com a cabeça pendida para o peito,

estava assentado um velho.

A este velho rogava elrei, rogavam frades, rogava o povo, sem

todavia se atreverem a entrar, que saisse d'alli; mas elle não

lhes respondia nada. Desenganados, emfim, foram-se pouco a pouco

retirando da crasta, onde ao pôr do sol começou a bater o luar

de uma formosa noite de Maio.

Três dias se passaram assim. Mestre Affonso, assentado sobre a

pedra fria, nem se quer cedêra ás rogativas de Anna Margarida,

que, obrigada pela boa amizade que tinha a seu amo, se atrevêra

a cruzar os perigosos umbraes do capitulo, para vêr se o movia

a tomar alguma refeição: tudo recusou o cégo: a sua resoluçào

era inabalavel. Também a abobada estava firme, como se fôra de

bronze. No terceiro dia á tarde elrei, que tinha passado o tempo

em aparelhar-se para a guerra com actos de piedade, desceu á

crasta acompanhado de Fr. Lourenço e de outros frades, e chegando

á porta do capitulo viu Martim Vasques e Anna Margarida juncto á

pedra fria de Affonso Domingues, e este pallido e com as palpebras

cerradas encostado nos braços delles.

O mancebo e a velha choravam e soluçavam, sem dizerem palavra.

"Que temos de novo?--perguntou elrei, chegando á porta, e vendo

aquelles dous estafermos.--Completam-se ora os tres dias do

voto: ainda mestre Affonso teimará em estar aqui mais tempo?"

"Não senhor:--respondeu Martim Vasques, com palavras mal

articuladas:--não estará aqui mais tempo; porque seu corpo é herança

da terra; sua alma repousa com Deus."

"Morto!?"--bradaram a uma voz elrei e Fr. Lourenço; e correram

para o cadaver do architecto, olhando, todavia, primeiro para

a abobada com um gesto de receio.

"Nada temaes, senhores:--disse Martim Vasques--As ultimas palavras

do mestre foram estas: a abobada não cahiu ... a abobada não

cahirá!"

O architecto, já velho, não pôde resistir ao jejum absoluto a que

se condemnára. No momento em que, ajudado por Martim Vasques e

Anna Margarida, se quiz erguer cahiu moribundo nos braços delles,

e aquelle genio de luz mergulhou-se nas trévas do passado.

Elrei derramou algumas lagrymas sobre os restos do bom cavalleiro,

e Fr. Lourenço resou em voz baixa uma oração fervente pela alma

generosa, que até o ultimo arranco escrevêra sobre o marmore

o hymno dos valentes de Aljubarrota.

Na pedra, sobre a qual Mestre Affonso expirára, ordenou elrei se

tirasse, parecido quanto fosse possivel retratando-se um cadaver,

o vulto do honrado architecto, e que esta imagem fosse collocada

em um dos angulos da casa capitular, onde durante mais de quatro

seculos, como as sphynges monumentaes do Egypto, tem dado origem ás

mais desvairadas hypotheses e conjecturas. Á pobre Anna Margarida,

que ficava sem arrimo, doou D. João I, tambem, as casas em que

o mestre morava, fazendo-lhe, além disso, assignaladas mercês.

Mestre Ouguet, pelo que o cégo dissera a elrei ácerca da sua

capacidade para o substituir, e porque, emfim, era estrangeiro,

foi logo restituido ao cargo que occupára, e quando nos serões

do mosteiro alguem falava nos meritos de Affonso Domingues e na

sua desastrada morte, cortava o irlandez a conversação, dizendo

com um riso amarello:

"Olhem que foi forte perda!"

[1] A louça de Estremoz é antiquissima em o nosso paiz.

No tempo de Francisco I de França, mandavam-se buscar os pucaros

desta louça a Portugal, para beber a agua, que então, bem como

hoje, se tornava nelles excessivamente fria.

[2] Semanas.

[3] Martim Vasques foi o 3.º mestre das obras da Batalha

e Fernão d'Evora o 4.º--Veja-se a Memoria de D. Francisco de S.

Luiz no 10.º volume das da Academia.

FIM DO TOMO I.

* * * * *

INDICE.

O ALCAIDE DE SANTAREM

(590--961)

I

II

III

IV

ARRHAS POR FORO D'HESPANHA

(1371--2)

I A Arraya-miuda

II O Beguino

III Um Bulhão e uma Agulha de Alfaiate

IV Mil Dobras Pé-terra e trezentas Barbudas

V Mestre Bartholomeu Chambão

VI Uma Barregan Rainha

VII Juramento--Pagamento

O CASTELLO DE FARIA

(1373)

A ABOBADA

(1401)

I O Cégo

II Mestre Ouguet

III O Auto

IV Um Rei Cavalleiro

V O Voto Fatal

Lendas e Narrativas (Tomo I) · 第 13 / 13 段