"Vamos lá, vamos lá, Anna Margarida; vinde guiar-me."

E Anna Margarida, ama de mestre Affonso Domingues, saiu da porta

com a roca ainda na cincta, e o fuso espetado entre o linho e o

ourêlo que o apertava. Chegando ao pé do velho, tocou-lhe com

o braço, em que elle se firmou, tornando a erguer-se.

"Boas tardes, padre prior:--disse a ama, fazendo sua mesura,

seguida de um lamber de dedos, e de dous puxões nas barbas da

estriga quasi fiada.

"Vá na graça do Senhor, filha:--respondeu Fr. Lourenço, e

accresccntou dírigindo-se ao cégo:

"Meu irmão, Deus acceita só ao homem, em desconto da grande divida,

a dor calada e soffrida. Resignae-vos na sua divina vontade."

"Na delle estou eu resignado ha muito: na dos homens é que nunca

me resignarei."

E Anna Margarida, que tinha a cêa ainda ao lume, foi puxando o

cégo para a porta de casa.

"Ai, Affonso Domingues, Affonso Domingues! vae-se-te após a vista

o siso. Aborrida cousa é a velhice. Não vos parece, Fr. Joanne?"

Isto dizia o prior, voltando-se para o outro frade, que suppunha

estaria atraz delle; mas Fr. Joanne tinha desapparecido d'alli

manso e manso. Alongando os olhos ao redor de si, Fr. Lourenço

viu-o em pé sobre uma pedra a alguma distancia.

O prior ia a perguntar-lhe o que fazia alli, quando o reverendo

procurador saltou a correr, bradando:

"Ganhastes, padre prior; ganhastes!... Eis elrei que chega."

E, com effeito, Fr. Lourenço, volvendo os olhos para o cimo de

um outeiro, viu uma lustrosa companhia de cavalleiros, que com

grande açodamento descia para o vallc do mosteiro.

[1] Perdi o azeite e o trabalho: expressão proverbial.

[2] D. Leonor Telles, mulher d'elrei D. Fernando.

[3] Architectos sarracenos se espalharam pela Grecia,

Sicilia, e outros paizes, durante certo tempo: um avultado numero

de artifices christãos, principalmente gregos, se ajunctaram com

elles, e formaram todos uma corporação, que tinha suas leis e

estatutos secretos, e cujos membros se reconheciam por signaes.

Esta foi a origem da Maçonaria. Conversation's Lexicon.

MESTRE OUGUET.

Uma das innumeraveis questões, que, em nosso entender, eternamente

ficarão por decidir, é a que versa sobre qual dos dous dictados--voz

do povo é voz de Deus--ou--voz do povo é voz do diabo--seja o

que exprima a verdade. É indubitavel que o povo tem uma especie

de presciencia innata, d'instincto divinatorio. Quantas vezes,

sem que se saiba como ou porque, corre voz entre o povo, que tal

navio saído do porto, tão rico de mercadorias como de esperanças,

se perdeu em tal dia e a tal hora em praias estranhas. Passa o

tempo, e a voz popular renlisa-se com exacção espantosa. Assim

de batalhas; assim de mil factos. Quem dá estas noticias? Quem as

trouxe? Como se derramaram? Mysterio é esse, que ainda ninguem

soube explicar. Foi um anjo? Foi um demonio? Foi algum feiticeiro?

Mysterio. Não ha, nem haverá, talvez, nunca, philosopho que o

explique; salvo se tal phenomeno é uma das maravilhas do magnetismo

animal. Esse meio inintelligivel de dar solução a tudo o que se

não entende, é acaso a unica via de resolver a dúvida. Se o é,

ahi damos mais um osso a roer aos physicos do magnetismo.

Foi o caso: quando a cavalgada, de que fizemos menção no fim

do antecedente capitulo, vinha descendo a encosta sobranceira á

planicie do mosteiro, entre o povo que estava dentro da igreja,

impaciente já pela demora do auto, começou-se a espalhar um sussurro,

que cada vez crescia mais: o motivo delle não era facil sabe-lo:

nenhuma novidade occorrêra; ninguem tinha entrado ou saido. De

repente toda aquella multidão se agitou, remoinhou pela igreja,

e principiou a borbulhar pelo portal fóra, como por bico de funil

o liquido deitado de alto. Tinham sabido que elrei chegava, e

todos queriam vê-lo descalvagar, porque D. João I, plebeu por

herança materna, nobre por ser filho do D. Pedro I, rei eleito

por uma revolução, e confirmado por cincoenta victorias, era o

mais popular, o mais amado, e o mais acatado de todos os reis

da Europa. Vinha montado em uma possante mula, e assim mesmo em

outras os fidalgos e cavalleiros de sua casa. Trazia vestida sobre

a cota uma jórnea de veludo carmesim, monteira preta, e nebri em

punho, em maneira de caçada. Chegando á porta do mosteiro, onde

o esperava já Fr. Lourenco com parte da communidade, apeou-se de

um salto, e com rosto risonho e a mão no barrete, agradeceu sua

cortezia e amor aos populares, que gritavam apinhados à roda delle:

--"viva D. João I de Portugal: morram os castelhanos!"--grito

absurdo, mas semelhante aos vivas de todos os tempos; porque o

povo, bem como o tigre, mistura sempre com o rugido de amor o

bramido que revela a sua indole sanguinaria.

Por baixo daquellas suberbas arcadas desappareceu brevemente

elrei da vista da multidão, que tornou a sumir-se no templo para

ver o auto, que não podia tardar.

"Mui receioso estava que vossa real senhoria nos não honrasse

nosso auto; porque o sol não tarda a sumir-se no poente:--dizia

Fr. Lourenço a elrei, a cujo lado ia para o guiar ao seu aposento.

"Bofé, mui devoto padre prior, que por pouco estive a ponto de

ter que levar a vossos pés mais uma mentira com os outros peccados,

que me não fallecem, se ámanhan me quizesse confessar ao meu

antigo confessor:--tornou-lhe elrei sorrindo-se.

"E certo estou de que entre todos os peccados de que terieis

de vos accusar, este não fôra o menos grave, e de que eu muito

a custo absolveria vossa mercê:--retrucou o prior, que tinha

aprendido ainda mais depressa as manhas cortezans no paço, do

que a theologia no noviciado da sua ordem.

"Mas para onde me guiaes, reverendissimo prior:--disse elrei,

parando antes de subir uma escada, para a qual Fr. Lourenço o

encaminhava.

"Ao vosso aposento, real senhor; por que tomeis alguma refeição,

e repouseis um pouco do trabalho do caminho."

"Não foi grande o feito, para tomar repouso:--acudiu elrei:--que

de Santarem aqui é uma corrida de cavallo; muito mais para quem,

em vez de cota de malha, arnez e braçaes, traz vestidos de seda.

Despi-los-hei bem depressa, já que elrei de Castella quer jogar

mais lançadas, e não vieram a conclusão de treguas o Mestre de

Sanctiago com o Condestavel. Mas vamos, meu doutissimo padre;

mostrae-me a casa do capitulo, a que mestre Ouguet acabou de

pôr seu fecho e remate. Onde está elle? Quero agradecer-lhe a

boa diligencia."

"Beijo-vos as mãos pela mercê:"--disse mestre Ouguet, que, sabendo

da chegada d'elrei, e certo de que elle desejaria vêr aquella

grande obra, tinha corrido ao mosteiro, e estava entre os da

comitiva:--"Se quereis vêr a casa do capitulo, vamos para a banda

da crasta."--Dizendo isto, sem ceremonia tomou a dianteira, e

encaminhou-se ao longo de um dos cubertos do claustro.

David Ouguet era um irlandez, homem mediano em quasi tudo; em

idade, em estatura, em capacidade, e em gordura, salvo na barriga,

cujos tegumentos tinham soffrido grande distensão, em consequencia

da dura vida que a tyrannia do filho d'Erin lhe fazia padecer

havia bem vinte annos. Desde muito moço que começára a produzir

grande impressão no seu espirito a invectiva do apostolo contra

os escravos do proprio ventre; e para evitar essa condemnavel

fraqueza resolvêra traze-lo sempre sopeado. Não lhe dava treguas;

se em Inglaterra o fizera muitos annos vergar sob o pêso de dez

atmospheras de cerveja, em Portugal submettia-o ao mais fadigoso

mister de cangirão permanente. Mortificava-o assim, para que não

lhe acudissem suberbas e velleidades de senhorio e dominação.

De resto David Ouguet era bom homem, excellente homem: não fazia

aos seus semelhantes senão o mal absolutamente indispensavel ao

proprio interesse: nunca matára ninguem, e pagava com pontualidade

exemplar ao alfaiate e ao merceeiro. Prudente, positivo, e practico

do mundo, não o havia mais: seria capaz de se empoleirar sobre

o cadaver de seu pae para tocar a méta de qualquer designio

ambicioso: com tres licções de phrases oucas dava panno para

se engenharem delle dous grandes homens d'estado. Tendo vindo a

Portugal como um dos cavalleiros do duque de Lancastre, procurou

obter e alcançou a protecção da rainha D. Philippa, que, havendo

Affonso Domingues cegado, o fez nomear mestre das obras do mosteiro

da Batalha, mostrando elle por documentos authenticos ter na

sua mocidade subido ao gráu de mestre na sociedade secreta dos

obreiros edificadores.

Esta é em breve resumo a historia de David Ouguet, tirada de

uma velha chronica, que, em tempos antigos, esteve em Alcobaça

enquadernada em um volume junctamente com os traslados authenticos

das Côrtes de Lamego, do Juramento de Affonso Henriques sobre a

apparição de Christo, da Carta de feudo a Claraval, das Historias

de Laimundo e Beroso, e de mais alguns papeis de igual veracidade

e importancia, que por pirraça ás nossas glorias provavelmente

os castelhanos nos levaram.

O lanço da crasta, fronteiro ao cuberto por onde ía elrei, estava

ainda por acabar. Apenas D. João I entrou naquelle magnifico

recincto, olhou para lá, e voltando-se para mestre Ouguet, disse:

"Parece-me que não vão tão aprimorados os lavores daquellas arcarias

como os destas. Que me dizeis, mestre Ouguet?"

"Seguiu-se á risca nesta parte--tornou o architecto--o desenho

geral do edificio, feito por mestre Affonso Domingues; porque

seria grave erro destruir a harmonia desta peça: mas se vossa

mercê m'o permitte, antes de entrardes no capitulo tenho alguma

cousa que vos dizer ácerca do que ides presenciar."

"Falae desassombradamente:--respondeu elrei--que eu vos escuto."

"Tomei a ousadia--proseguiu mestre Ouguet--de seguir outro desenho

no fechar da immensa abobada que cobre o capitulo: o que achei na

planta geral contrastava as regras da arte, que aprendi com os

melhores mestres de pedraria. Era até impossivel que se fizesse

uma abobada tão achatada, como na primitiva traça se delineou:

eu, pelo menos, assim o julgo."

"E consultastes o architecto Affonso Domingues, antes de fazer

essa mudança no que elle havia traçado?--interrompeu elrei.

"Por escusado o tive:--replicou David Ouguet.--Cégo, e por isso

inhabilitado para levar a cabo a edificação, teimaria que o seu

desenho se póde executar, visto que hoje ninguem o obriga a prova-lo

por obras. Sobra-lhe orgulho: orgulho de imaginador engenhoso.

Mas que vale isso sem a sciencia, como dizia o veneravel mestre

Vilhelmo de Wykeham? Menos engenho e mais estudo, eis do que

havemos mister."

"Dizendo isto o architecto, mettêra ambas as mãos no cincto,

estendêra a perna direita excessivamente empertigada, e com a

fronte erecta volveu os olhos solemne e lentamente para os

circumstantes.

"Mestre Ouguet--acudiu elrei com aspecto severo--lembrae-vos

de que Affonso Domingues é o maior architecto portuguez. Não

entendo de vossas distincções de sciencia e de engenho: sei só

que o desenho de Sancta Maria da Victoria causa assombro a vossos

proprios naturaes, que se gabam de ter no seu paiz os mais affamados

edificios do mundo: e esse mestre Affonso, de quem vós falaes com

pouco respeito, foi o primeiro architecto da obra que a vosso

cargo está hoje."

"Vossa mercê me perdoe:--tornou mestre Ouguet, adocicando o tom

orgulhoso com que falára.--Longe de mim menoscabar mestre Domingues:

ninguem o venera mais do que eu; mas queria dar a razão do que

fiz, seguindo as regras do mui excellente mestre Vilhelmo de

Wykeham, a quem devo o pouco que sei, e cuja obra da cathedral

de Winchestria tamanho ruido tem feito no mundo."

Com este dialogo chegou aquella comitiva ao portal, que dava

para a casa do capitulo: Fr. Lourenço Lamprea, como dono da casa,

correu o ferrolho com certo ar de auctoridade, e encostado ao

umbral cortejou a elrei no momento de entrar, e aos mais fidalgos

e cavalleiros que o acompanhavam. Mestre Ouguet, como pessoa

tambem principalissima naquelle logar, collocou-se juncto do

umbral fronteiro, repetindo, com aspecto sobranceiro-risonho,

as mesuras do mui devoto padre prior.

Quando elrei entrou dentro daquella espantosa casa, apenas através

da grande janella que a allumia entrava uma luz frouxa, porque

o sol estava no fim de sua carreira, e o tecto profundo mal se

divisava sem se affirmar muito a vista. Mestre Ouguet ficára

á porta, mas Fr. Lourenço tinha entrado.

"Reverendo prior--disse elrei voltando-se para Fr. Lourenço--vim

tarde para gosar desta maravilhosa vista: vamos ao auto da adoração,

e ámanhan voltaremos aqui a horas de sol."

E seguiu para a banda da sacristia, cuja porta lhe foi abrir o

prior.

Mestre Ouguet entrou na casa do capitulo, quando já os ultimos

cavalleiros do sequito real íam saindo pelo lado opposto, caminho

da igreja. Com as mãos mettidas no cincto de couro preto que

trazia, e a passo mesurado, o architecto caminhou até o meio

daquella desconforme quadra. O som dos passos dos cavalleiros

tinha-se desvanecido; e mestre Ouguet dizia comsigo, olhando

para a porta por onde elles haviam passado:

"Pobres ignorantes! que seria o vosso Portugal sem estrangeiros,

senão um paiz sáfaro e inculto? Sois vós, homens brigosos, capazes

dos primores das artes, ou sequer de entende-los?.. Lá vão, lá

vão os frades celebrar um auto! Não serei eu que assista a elle;

eu que vi os mysterios de Coventria e de Widkirk! Miseraveis

selvagens, antes de tentardes representar mysterios fôra melhor

que mandasseis vir alguns irmãos da sociedade dos escrivães de

parochia de Londres[1], que vos ensinassem os verdadeiros momos,

ademanes e tregeitos usados em semelhantes autos."

Mestre Ouguet estava embebido neste mudo soliloquio, em louvor da

nação que lhe dava de comer, e o que deveria pesar-lhe ainda mais

na consciencia, da nação que lhe dava de beber, quando erguendo

casualmente os olhos para a macissa abobada, que sobre elle se

arqueava, fez um gesto de indizivel horror, e como doudo correu

a bom correr pela crasta solitaria, apertando a cabeça entre

as mãos, e gritando a espaços:

"Oh, malaventurado de mim!"

[1] Pelas Chronicas de Stow se vê que no principio do

seculo 15.° os mysterios eram representados em Londres pelos

escrivães de parochia, incorporados em sociedade por Henrique

3.°, em 1409.

O AUTO.

Juncto a uma das columnas da igreja de Sancta Maria da Victoria

estava levantado um estrado, sobre o qual se via uma grande e

macissa cadeira de espaldas, feita de castanho, e lavrada de

curiosos bestiães e lavores: era este o logar onde elrei devia

assistir ao auto da adoração dos reis. No mesmo estrado havia

varios assentos rasos para nelles se assentarem os fidalgos e

cavalleiros que o acompanhavam. Defronte do estrado e collocado ao

pé do arco da capella do fundador corria para um e outro lado da

parede um devoto presepio[1], mui erguido do chão, e representando

serranias agrestes, ao sopé das quaes estava armada uma especie

de choça, onde sobre a tradicional manjadoura se via reclinado

o menino Jesus, e de joelhos juncto delle a Virgem e S. José,

acompanhados de varios anjos, em acto de adoração. Diante da

cabana corria, no mesmo nivel, um largo e grosseiro cadafalso

de muitas táboas, para o qual, por um dos lados, davam serventia

duas grossas e compridas pranchas de pinho, por onde deviam subir

as personagens do auto.

Tanto que elrei saíu da porta do cruzeiro que dá para a sacristia,

encaminhou-se pela igreja abaixo, e veio assentar-se na cadeira de

espaldas, conduzido por Fr. Lourenço, que com todos os modos de

homem cortezão offereceu os assentos rasos aos demais cavalleiros

e fidalgos.

Pela mesma porta da sacristia saíram logo as primeiras figuras

do auto, que, descendo ao longo da nave, subiram ao cadafalso

pelas pranchas de que fizemos menção.

Estas primeiras figuras eram seis, formando uma especie de prologo

ao auto. Tres que vinham adiante representavam a Fé, a Esperança,

e a Caridade: após ellas vinham a Idolatria, o Diabo, e a Suberba;

todas com suas insignias mui expressivas e a ponto; mas o que

enlevava os olhos da grande multidão dos espectadores era o Diabo,

vestido de pelles de cabra, e com um rabo que lhe arrastava pelo

tablado, e seu forcado na mão, mui vistoso e bem posto. Feitas

as venias a elrei, a Idolatria começou seu arrazoado contra a

Fé, queixando-se de que ella a pretendia esbulhar da antiga posse

em que estava de receber cultos de todo o genero-humano, ao que

a Fé acudia com dizer que ab initio estava apontado o dia em

que o imperio dos idolos devia acabar, e que ella Fé não era

culpada de ter chegado tão asinha esse dia. Então o Diabo vinha

lamentando-se de que a Esperança começasse de entrar nos corações

dos homens; que elle Diabo tinha jus antiquissimo de desesperar

toda a gente; que se dava ao démo por vêr as perrarias que a

Esperança lhe fazia; e com isto careteava com taes momos e tregeitos,

que o povo ria a rebentar, o mais devotamente que era possivel.

Ainda que o Diabo fizesse de truão da festa, nem por isso a sua

contendora, a Esperança, dava descargo de si com menos compostura

do que a tão honrada virtude cumpria, dizendo que ella obedecia

ao senhor de toda las cousas, e que este vendo e considerando

os grandes desvairos que pelo mundo íam, e como os homens se

arremessavam desacordadamente no inferno, a mandára para lhes

apontar o direito caminho do céu; e por aqui seguia com razões

mui devotas e discretas, que moveriam a devotissimas lagrymas

os ouvintes, se a devoto riso os não movesse o Diabo com seus

tregeitos e visagens, como, com bastante agudeza, reflecte o

auctor da antiga chronica, de que fielmente vamos transcrevendo

esta veridica historica. A Suberba, que estava impando, ouvidas

as razões da Esperança, travou della mui rijo, e com voz torvada e

rosto acceso, começou de bradar, que esta dona era sandía, porque

entendera enganar os homens com vaidades de incertos futuros,

e sustenta-los com fumo; que pretendia contra toda a ordem de

boa razão, que a gente vil houvesse igual quinhão no céu com os

senhores e cavalleiros, o que era descommunal ousadia, e fóra da

geral opinião e direito, indo por aqui discursando com remoques

mui orgulhosos, como a Suberba que era. Não soffreu, porém, o

animo da Caridade tão descomposto razoar da sua figadal inimiga,

e lh'o atalhou com tomar a mão naquelle ponto, e notar que os

filhos de Adão eram todos uns aos olhos do Todo-Poderoso; que a

Suberba inventára as vans distincções entre os homens, e que á vida

eternal mais amorosamente eram os pequenos e humildosos chamados,

do que os potentes, o que provou claramente á sua contraria com

bastos textos das sanctas escripturas, de que a Suberba ficou mui

corrida, por não ter contra tão grande auctoridade resposta cabal.

E acabado o dizer da Caridade, um anjo subiu ao cadafalso, para

dar sua sentença, que foi mandar recolher ao abysmo a Idolatria,

o Diabo e a Suberba, e annunciar ás tres virtudes que as ía elevar

ao céu, onde reinariam em gloria perduravel. Então o Diabo, fazendo

horribilissimos biocos, pegou pelas mãos ás duas companheiras,

e fugiu pela igreja fóra com grandes apupos e doestos dos

espectadores. Guiando as tres virtudes, o anjo (por uma daquellas

liberdades scenicas que ainda hoje se admittem, quando, nas vistas

de marinha, o actor, que vem embarcado, desce dois ou tres degráus

das ondas de papelão para a terra de soalho) em vez de subir ao

céu, como annunciára, desceu pelas pranchas, que davam para o

pavimento da igreja, e caminhando ao longo da nave se recolheu á

sacristia, acompanhado da Fé, Esperança e Caridade, tão victoriadas

pelos espectadores, como apupado fôra o Diabo e as suas infernaes

companheiras.

Ainda bem não eram recolhidas estas figuras, quando, pela mesma

porta do cruzeiro, saíram os tres reis magos, ricamente vestidos

ao antigo, com roupas talares de fina téla, mantos reaes, e corôas

na cabeça. Adiante vinha Balthasar, homem já velho, mas bem disposto

de sua pessoa, com aspecto grave e auctorisado, e com umas barbas,

posto que brancas, bem povoadas: logo após elle vinha o rei Belchior,

e a este seguia-se Gaspar: traziam todos suas bocetas, em que

eram guardados os preciosos dons, que ao recem-nascido vinham

de longes terras offertar. Subindo ao cadafalso, disseram como

uma estrella os guiára até Jerusalem, e como desta cidade, depois

de mui trabalhado e duvidoso caminho, tinham acertado em vir a

Bethlem, e com grande folgança encontravam ahi o presepe, para

fazer seu offertorio, o que em verdade era cousa mui piedosa

d'ouvir. O rei Balthasar, como mais velho e sisudo, foi o primeiro

que ajoelhou juncto do presepe, e com voz mui entoada, e depondo

ante o menino seus presentes, disse:

Sancto filho de David,

Divinal

Salvador da triste raça

Humanal,

Que descestes lá do assento

Celestial;

Vós da gloria imperador

Eternal,

Acceitae este offertorio

Não real,

Pobre si. É quanto posso:

Não hei al.

O que fôra compridoiro

De auto tal

Bem o sei. Andei más vias,

Por meu mal;

Que dez dias prantei tendas

De arrayal

Nas soidões fundas d'Arabia,

Mui fatal.

Meus camellos ha tisnado

Sol mortal;

E um, de vento do deserto,

Vendaval.

O presente, que ahi vêdes,

Pouco vai;

É somente algum incenso

Oriental;

Que o thesouro que eu trazia,

Mui cabal,

Soterrou-mo a tempestade

No areal.

E com isto o veneravel rei Balthasar, depois de fazer sua oração

em voz baixa, ergueu-se; e o rei Belchior, ajoelhando e depondo

a urna que trazia nas mãos ante o presepe, disse:

Vindo sou Iá do Cataio

A adorar-vos alto infante,

Redemptor:

Não me poz na alma desmaio

Ser de lerra tào distante

Rei, senhor!

É bem torva a minha lace:

Minhas mãos tingidas são

De negrura;

Mas na terra onde o sol nace

Mais se cobre o coração

De tristura;

Porque o torpe Mafamede

Sua crença mui sandia

Mandou lá;

E não ha quem della arrede

Essa gente, que aperfia

Em ser má.

Real tronco de Jessé

Mui fermoso, se eu podéra

Vos levára;

E comvosco á vossa fé

Os incréus eu convertêra,

E os salvára.

Ora quero vêr se peito

São José, que é vosso padre ....

Um sussurro, que começára no momento em que o rei preto ajoelhou,

e que mal deixára ouvir a precedente loa (obra mui prima de certo

leigo, affamado jogral daquelle tempo) cresceu neste momento a tal

ponto, que o corista, que fazia o papel de Belchior, não pôde,

continuar, com grande dissabor do poeta, que via murchar a corôa de

louros, que neste auto esperava obter. O povo agitava-se, e do meio

delle saíam gritos descompostos, que augmentavam o tumulto. Elrei

tinha-se erguido, e junctamente os demais cavalleiros e fidalgos:

todos indagavam a origem do motim; mas não havia acertar com

ella. Emfim, um homem rompendo por entre a multidão, sem touca

na cabeça, cabellos desgrenhados, bôca torcida e cuberto de escuma,

olhos esgazeados, saltou para dentro da têa, que fazia um claro

em roda do tablado. Apenas se viu dentro daquelle recincto, ficou

immovel, com os braços estendidos para o tecto, as palmas das

mãos voltadas para cima, e a cabeça encolhida entre os bombros,

como quem cheio de horror via sobre si desabar aquellas altissimas

e macissas arcarias.

"Mestre Ouguet!--exclamou elrei espantado.

"Mestre Ouguet!--gritou Fr. Lourenço, com todos os signaes de

assombro.

"Mestre Ouguet!--repetiram os cavalleiros e fidalgos, para tambem

dizerem alguma cousa.

"Quem fala aqui no meu nome?--rosnou David Ouguet, com uma voz

comprimida e sepulchral.--Malvados! Querem assassinar-me?! Querem

arrojar sobre mim esse montão de pedras, como se eu fôra um cão

judeu, que merecesse ser apedrejado?! Oh meu Deus, salvae a minha

alma!"--E depois de um breve silencio, em que pareceu tomar fôlego:--

"Não vos chegueis ahi!--bradou elle.--Não vedes essas fendas

profundas como o caminho do inferno? São escuras: mas atravez

dellas lá enxergo eu o luar! Vós não, porque vossos olhos estão

cegos ... porque o vosso bom nome não se escoa por lá!... Cégos?

Não vós!... mas elle!... Elle é que se ri e folga em sua orgulhosa

suberba! Vêde como escancára aquella bôca hedionda; como revolve,

debaixo das palpebras cubertas de vermelhidão, aquelles olhos

embaciados!... Maldicto velho, foge diante de mim!... Maldicto,

maldicto!... Curvada ja no centro ... sentia-a escaliçar e ranger...

Estavas tu assentado em cima della? Feiticeiro!... Anda, que eu

bem ouço as tuas gargalhadas!... Não ha um raio que te confunda?..

Não!"

Lendas e Narrativas (Tomo I) · 第 11 / 13 段