Entre os prisioneiros contava-se o alcaide-mór do castello de

Faria, Nuno Gonçalves. Saíra este com alguns soldados para soccorrer

o conde de Cêa, vindo assim a ser companheiro na commum desgraça.

Captivo, o valoroso alcaide pensava em como salvaria o castello

d'elrei seu senhor das mãos dos inimigos. Governava-o em sua

ausencia um seu filho; e era de crer que, vendo o pae em ferros,

de bom grado désse a fortaleza para o libertar, muito mais quando

os meios de defensão escaceavam. Estas considerações suggeriram

um ardil a Nuno Gonçalves. Pediu ao Adiantado que o mandasse

conduzir ao pé dos muros do castello; porque elle com suas

exhortações faria com que seu filho o entregasse sem derramamento

de sangue.

Um troço de bésteiros e de homens d'armas subia a encosta do

monte da Franqueira, levando no meio de si o bom alcaide Nuno

Gonçalves. O Adiantado de Galliza seguia atraz com o grosso da

hoste, e a costaneira ou ala direita, capitaneada por João Rodriguez

de Viedma, se estendia rodeando o castello pelo outro lado. O

exercito victorioso ía tomar posse do castello de Faria, que

lhe promettêra dar nas mãos o seu captivo alcaide.

De roda da barbacan alvejavam as casinhas da pequena povoação

de Faria: mas silenciosas e ermas. Os seus habitantes, apenas

enxergaram ao longe as bandeiras castelhanas, que esvoaçavam soltas

ao vento, e viram o refulgir scintillante das armas inimigas,

abandonando os seus lares, foram-se acolher no terreiro que se

estendia entre os muros negros do castello e a cerca exterior

ou barbacan.

Nas torres os atalaias vigiavam attentamente a campanha, e os

almocadens corriam com a rolda[1] pelas quadrellas do muro, e

subiam aos cubellos collocados nos angulos das muralhas. O terreiro

aonde se haviam acolhido os habitantes da povoação, estava cuberlo

de choupanas colmadas, nas quaes se abrigava a turba dos velhos,

das mulheres, e das creanças, que alli se julgavam seguros da

violencia de inimigos desapiedados.

Quando o troço dos homens d'armas, que levavam preso Nuno Gonçalves,

vinha já a pouca distancia da barbacan, os bésteiros que coroavam as

ameias encurvaram as béstas, os homens dos engenhos prepararam-se

para arrojar sobre os contrarios os seus quadrellos e virotões,

em quanto o clamor e o chôro se alevantava no terreiro, onde

o povo inerme estava apinhado.

Um arauto saíu do meio da gente da vanguarda inimiga e caminhou

para a barbacan: todas as béstas se inclinaram para o chão, e

o ranger das machinas converteu-se n'um silencio profundo.

"Moço alcaide, moco alcaide!--bradou o arauto--teu pae captivo

do mui nobre Pedro Rodriguez Sarmento, Adiantado de Galliza pelo

muito excellente e temido D. Henrique de Castella, deseja falar

comtigo de fóra de teu castello."

Gonçalo Nunes, o filho do velho alcaide, atravessou então o terreiro,

e chegando à barbacan, disse ao arauto:--"A Virgem proteja meu

pae: dizei-lhe que eu o espero."

O arauto voltou ao grosso de soldados que rodeavam Nuno Gonçalves,

e depois de breve demora o tropel aproximou-se da barbacan. Chegados

ao pé della, o velho guerreiro saíu d'entre os seus guardadores

e falou com o filho:

"Sabes tu, Gonçalo Nunes, de quem é esse castello, que, segundo o

regimento de guerra, entreguei á tua guarda quando vim em soccorro

e ajuda do esforçado conde de Cêa?"

"É--respondeu Gonçalo Nunes--de nosso rei e senhor D. Fernando

de Portugal, a quem por elle fizeste preito e menagem."

"Sabes tu, Gonçalo Nunes, que o dever de um leal alcaide é de

nunca entregar, por nenhum caso, o seu castello a inimigos, embora

fique enterrado debaixo das ruinas delle?"

"Sei, oh meu pae!--proseguiu Gonçalo Nunes em voz mais baixa, para

não ser ouvido dos castelhanos, que começavam a murmurar.--Mas

não vês que a tua morte é certa, se os inimigos percebem que me

aconselhaste a resistencia?"

Nuno Gonçalves, como se não tivera ouvido as reflexões do filho,

clamou então:--Pois se o sabes, cumpre o teu dever, alcaide do

castello de Faria! Maldicto por mim, sepultado sejas tu no inferno,

como Judas o traidor, na hora em que os que me cercam entrarem

nesse castello, sem tropeçarem no teu cadaver."

"Morra!--gritou o almocadem castelhano--morra o que nos

atraiçoou."--E Nuno Gonçalves cahiu no chão atravessado de muitas

espadas e lanças.

"Defende-te, alcaide!"--foram as ultimas palavras que elle murmurou.

Gonçalo Nunes corria como louco ao redor da barbacan, clamando

vingança. Uma nuvem de frechas partiu do alto dos muros: grande

porção dos assassinos de Nuno Gonçalves misturaram o próprio

sangue com o sangue do homem leal ao seu juramento.

Os castelhanos accommetteram o castello: no primeiro dia de combate

o terreiro da barbacan ficou alastrado de cadaveres tisnados, e de

colmos e ramos reduzidos a cinzas. Um soldado de Pedro Rodriguez

Sarmento tinha sacudido com a ponta da sua longa chuça um colmeiro

incendiado para dentro da cerca: o vento suão soprava nesse dia

com violencia; e dentro em pouco os habitantes da povoação, que

haviam buscado o amparo do castello, pereceram junctamente com

as suas frageis moradas.

Mas Gonçalo Nunes lembrava-se da maldicção de seu pae: lembrava-se

de que o vira moribundo no meio dos seus matadores, e ouvia a todos

os momentos o ultimo grito do bom Nuno Gonçalves:--"Defende-te,

alcaide!"

O orgulhoso Sarmento viu a sua soberba abatida diante dos torvos

muros do castello de Faria. O moço alcaide defendia-se como um

leão, e o exercito castelhano foi constrangido a levantar o cerco.

Gonçalo Nunes, acabada a guerra, era altamente louvado pelo seu

brioso procedimento, e pelas façanhas que obrára na defensão

da fortaleza, cuja guarda lhe fôra encommendada por seu pae no

ultimo trance da vida. Mas a lembrança do horrivel successo estava

sempre presente no espirito do moço alcaide; e, pedindo a elrei o

desonerasse do cargo, que tão bem desempenhára, foi depôr ao pé

dos altares a cervilheira e o saio de cavalleiro, para se cubrir

com as vestes pacificas do sacerdocio. Ministro do sanctuario,

era com lagrymas e preces que elle podia pagar a seu pae o ter

cuberto de perpetua gloria o nome dos alcaides de Faria.

Mas esta gloria, não ha hoje ahi uma unica pedra que a atteste.

As relações dos historiadores foram mais duradouras que o marmore.

[1] Roldas e sobreroldas eram os soldados e officiaes

encarragados de rondarem os postos e atalaias.

A ABOBADA (1401)

O CÉGO.

O dia 6 de Janeiro do anno da Redempção 1401 tinha amanhecido

puro e sem nuvens: os campos, cubertos aqui de relva, acolá de

searas, que cresciam a olhos vistos com o calor benefico do sol,

verdejavam ao longe, ricos de futuro para o pegureiro e para

o lavrador. Era um destes formosissimos dias de inverno, mais

gratos que os do estio, porque são de esperança, e a esperança

vale mais do que a realidade; destes dias, que Deus só concedeu

aos paizes do occidente, em que os raios do sol, que começa a

subir na eclíptica, estirando-se vividos e tremulos por cima da

terra, ennegrecida pela humidade, errando por entre os troncos

pardos dos arvoredos, despidos pelas geadas, se assemelham a um

bando de creanças no primeiro viço da vida a folgar e a rolar-se

por cima da campa, sobre a qual ha muito sussurrou o ultimo ai da

saudade, e que invadiram os musgos e abrolhos do esquecimento. Era

um destes dias antipathicos aos poetas ossianico-regelo-nevoentos,

que querem fazer-nos acceitar como cousa mui poetica

Esses gêlos do norte, esses brilhantes

Caramellos dos tópes das montanhas,

sem se lembrarem de que

Do sol do meio-dia aos raios vividos,

Parvos!--se lhes derretem: a brancura

Perdem co'a nitidez, e se convertem

De lucidos cristaes em agua chilre;

destes dias, emfim, em que a natureza sorri como a furto, rasgando

o denso véu da estação das tempestades.

No adro do mosteiro de Santa Maria da Victoria, vulgarmente chamado

da Batalha, fervia o povo entrando para a nova igreja, que de mui

pouco tempo servia para as solemnidades religiosas. Os frades

dominicanos, a quem elrei D. João I tinha doado esse magnifico

mosteiro, cantavam a missa do dia debaixo daquellas altas abobadas,

onde repercutiam os sons do orgam, e os ecchos das vozes do

celebrante, que entoava os kyries.

Mas não era por ouvir a missa conventual que o povo se escoava

pelo profundo portal do templo para dentro do recincto sonoro

daquella maravilhosa fabrica: era por assistir ao auto da adoração

dos reis, que com grande pompa se havia de celebrar nessa tarde

dentro da igreja, e diante do rico presepe que os frades tinham

alevantado juncto ao arco da capella do fundador então apenas

começada. A concorrencia era grande, porque os habitantes da

Canoeira, d'Aljubarrota, de Porto-de-Mós e dos mais logares vizinhos,

desejosos de ver tão curioso espectaculo, tinham deixado desertas

as povoações para vir povoar por algumas horas o ermo do mosteiro.

Aprazivel cousa era o ver, descendo dos outeiros para o valle por

sendas torcidas, aquellas multidões, vestidas de cores alegres,

e semelhantes no seu todo a serpentes immensas, que, transpondo

as assomadas, se rolassem pelas encostas abaixo, reflectindo ao

longe as cores variegadas da pelle luzidia e lubrica. Atravessando

a planicie, em que avultava o mosteiro, passava o rio Lena, cuja

corrente tinham tornado caudal as chuvas da primeira metade da

estação invernosa.

No campo contiguo ao edificio, aqui e acolá, alevantavam-se casarias

irregulares, algumas fechadas com suas portas, outras apenas cubertas

de madeira, e abertas para todos os lados, á maneira de simples

telheiros: as casas fechadas e reparadas contra as injurias do

tempo eram as moradas dos mestres e artifices que trabalhavam no

edificio: debaixo dos telheiros viam-se, n'uns pedras só desbastadas,

n'outros algumas onde se começavam a divisar lavores, n'outros,

emfim, pedaços de cantaria, em que os mais habeis esculptores e

entalhadores já tinham estampado os primores dos seus delicados

cinzeis. Mas o que punha espanto era a innumeravel porção de

pedras, lavradas, pulidas, e promptas para serem collocadas em

seus logares, que jaziam espalhadas pelo grandissimo terreiro,

que ao redor do edificio se alargava para todos os lados: maineis

rendados, peças dos fustes, capiteis gothicos, laçarias de bandeiras,

cordões de arcadas, ahi estavam tombados sobre grossas zorras, ou

ainda no chão endurecido pelo contínuo perpassar de trabalhadores,

officiaes, e mais obreiros desta maravilhosa machina. Quem de

longe olhasse para aquelle extenso campo, alastrado de tantos

primores de esculptura, julgára ver o assento de uma cidade

antiquissima, arrasada pela mão dos homens ou dos seculos, de

que só restára em pé um monumento, o mosteiro. E todavia, esses

que pareciam restos de uma antiga Balbek não eram senão algumas

pedras que faltavam para o acabamento d'um convento de frades

dominicanos, o convento de Sancta Maria da Victoria, vulgarmente

chamado a Batalha!

Um quadrante de pedra, assentado em um canto do adro, apontava

meio-dia. A igreja tinha sorvido dentro do seu seio desmesurado os

habitantes das proximas povoações, e de todo o ruido e algazarra

que poucas horas antes soava por aquelles contornos, apenas

traspassavam pelas frestas e portas do templo os sons do orgam,

soltando a espaços suas melodias, que sussurravam e morriam ao

longe, suaves como um pensamento do céu.

Não estava, porém, inteiramente ermo o terreiro da frontaria

do edificio. Assentado sobre um troço de fuste, com os pés ao

sol, e o resto do corpo resguardado de seus raios ardentes pela

sombra de um telheiro, a qual se começava a prolongar para o lado

do oriente, via-se um velho, veneravel de aspecto, que parecia

embebido em profundas meditações: pendia-lhe sobre o peito uma

comprida barba branca: tinha na cabeça uma touca foteada, um

gibão escuro vestido, e sobre elle uma capa curta ao modo antigo.

A luz dos olhos tinha-lha de todo apagado a velhice; mas as suas

feições revelavam que dentro daquelles membros tremulos e enrugados

morava um animo rico de alto imaginar: as faces do velho eram

fundas, as maçans do rosto elevadas, a fronte espaçosa e curva,

e o perfil do rosto quasi perpendicular. Tinha a testa enrugada

como quem vivêra vida de continuo pensar, e correndo com a mão

os lavores de pedra, sobre que estava assentado, ora carregando

o sobrolho, ora deslisando as rugas da fronte, reprehendia ou

approvava com eloquencia muda os primores ou as imperfeições

do artifice, que copiára á ponta de cinzel aquella pagina do

immenso livro de pedra, a que os espiritos vulgares chamam

simplesmente o mosteiro da Batalha.

Emquanto o velho scismava sósinho, e palpava o canto subtilmente

lavrado, sobre que repousava os membros entorpecidos, á portaria

do mosteiro, que perto d'alli ficava, outras figuras e outra

scena se viam. Dous frades estavam em pé no limiar da porta,

e altercavam em voz alta: de vez em quando, pondo-se nos bicos

dos pés, e estendendo os pescoços, parecia quererem descubrir no

horisonte, que as cumiadas dos montes fechavam, algum objecto:

depois de assim olharem um pedaço, encolhiam os pescoços, e

voltando-se um para o outro, travavam de novo renhida disputa,

que levava seus visos de não acabar.

"Oh homem!--dizia um dos dous frades, a quem a tez macilenta

e as barbas e cabellos grisalhos davam certo ar de auctoridade

sobre o outro, que mostrava nas faces coradas e cheias, e na côr

negra da barba povoada e revolta, mais vigor de mocidade.--Já

disse a vossa reverencia, que elrei me escreveu de seu proprio

punho que viria assistir ao auto da adoração dos reis, e de caminho

veria a casa do capitulo, a que hontem mestre Ouguet mandou tirar

os simples que sustentavam a abobada."

"E nego eu isso?--replicou o outro frade.--O que digo é que me

parece impossivel, que elrei venha de feito, conforme a vossa

paternidade prometteu em sua carta. Ha muito que lá vae o meio-dia;

daqui a pouco tocará a vesperas e ás duas por tres é noite. Não

vêdes, padre mestre, a que horas virá a acabar o auto? E este

povo, este devoto povo que ahi está, que ahi vem, ha-de ir com

o escuro por esses descampados e serras com mulheres, com

raparigas..."

"Tá, tá--interrompeu o prior.--Temos luar agora, e vão de consum.

O caso não é esse, padre procurador, o caso é se está tudo aviado

para agasalharmos elrei e os de sua companha."

"Oh lá, quanto a isso, nada falta. Desde hontem que tenho tido

tanto descanço como hoste ou cavalgada de castelhanos diante

das lanças do Condestavel: o peior é que, segundo me parece, e

dizei o que quizerdes, opus et oleum perdidi.[1]"

"Não falta quem tarda: elrei não quebrará a palavra ao seu antigo

confessor. O que quero é que todos os noviços e coristas, que tem

de fazer suas representações no auto, estejam a ponto e vestidos,

para elle começar logo que sua senhoria chegue."

"Nada receeis; que tudo está preparado: do que duvido é de que

comecemos, se por elrei houvermos de esperar."

O frade mais velho fez a estas palavras um signal de impaciencia,

e sem dar resposta ao seu pyrrhonico interlocutor, estendeu outra

vez o gasnate para a banda da estrada, fazendo com a extremidade

do habito uma especie de sobrecéu para resguardar os olhos dos

raios do sol, que, já muito inclinado para o occidente, batia

de chapa no portal onde os dous reverendos estavam altercando.

Porém, meio descoroçoado, o dominicano logo abaixou os olhos:

nem o minimo vulto se enxergava no horisonte; e neste abaixar

de olhos viu o cégo, que estava ainda assentado sobre o fuste

da columna.

Para escapar talvez ás reflexões do seu companheiro, o reverendo

bradou ao velho:

"Oh lá, mestre Affonso Domingues, bem aproveitaes o soalheiro!

Não vos quero eu mal por isso; que um bom sol de inverno vale,

na idade grave, mais que todos os remedios de longa vida, que

em seus alforges trazem por ahi os physicos."

Dizendo e fazendo, o reverendo desceu os degraus do portal, e

encaminhou-se para o cégo.

"Quem é que me fala?--perguntou este, alçando a cabeça.

"Fr. Lourenço Lamprêa, vosso amigo e servidor, honrado mestre

Affonso. Tão esquecida anda já minha voz em vossas orelhas, que

me não conheceis pela toada?"

"Perdoae-me, mui devoto padre prior:--atalhou o velho, tenteando

com os pés o chão para erguer-se, no momento em que Fr. Lourenço

Lamprêa chegava juncto delle seguido do seu confrade Fr. Joanne,

procurador do mosteiro:--perdoae-me! Foi-se o vêr, vae-se o

ouvir. Em distancia, já não acérto a distinguir as falas."

"Estae quedo; estae quedo, mestre Affonso:--disse Fr. Lourenço,

segurando o cégo pelo braço:--O indigno prior do mosteiro da

Victoria não consentirá que o mui sabedor architecto e imaginador

Affonso Domingues, o creador da oitava maravilha do mundo, o que

traçou este edificio doado pelo virtuoso de grandes virtudes

rei D. João á nossa ordem, se alevante para estar em pé diante

de pobre frade..."

"Mas esse religioso--interrompeu o cégo--é o mais abalisado

theologo de Portugal, o amigo do mui excellente doutor João das

Regras, e do grande Nunalvares, e privado e confessor d'elrei:

Affonso Domingues é apenas uma sombra de homem, um troço de capitel

partido e abandonado no pó das encruzilhadas, um velho tonto de

quem já ninguem faz caso. Se vossa caridade e humildosa condição

vos movem a doer-vos de mim e a lembrar-vos de que fui vivo, não

achareis n'isso muitos de vossa igualha."

"De merencorio humor estaes hoje:--disse o prior sorrindo.--Não

só eu vos amo e venero: elrei me fala sempre de vós em suas cartas.

Não sois cavalleiro de sua casa? E a avultada tença que vos concedeu

em paga da obra que traçastes, e dirigistes, em quanto Deus vos

concedeu vista, não prova que não foi ingrato?"

"Cavalleiro!?"--bradou o velho--"Com sangue comprei essa honra!

Comigo trago a escriptura."--Aqui mestre Affonso, puxando com

a mão tremula as atacas do gibão, abriu-o e mostrou duas largas

cicatrizes no peito.--"Em Aljubarrota foi escripto o documento

á ponta de lança por mão castelhana: a essa mão devo meu foro,

que não ao Mestre d'Aviz. Já lá vão quinze annos! Então ainda

estes olhos viam claro, e ainda para este braço a acha d'armas

era brinco. Elrei não foi ingrato, dizeis vós, veneravel prior,

porque me concedeu uma tença!?--Que a guarde em seu thesouro;

porque ainda ás portas dos mosteiros e dos castellos dos nobres

se reparte pão por cégos e por aleijados."

Proferindo estas palavras, o velho não pôde continuar: a voz

tinha-lhe ficado presa na garganta, e dos olhos embaciados cahiam-lhe

pelas faces encovadas duas lagrymas como punhos. A Fr. Lourenço

tambem se arrasaram os olhos d'agua, Frei Joanne, esse olhou fito

para o cégo durante algum tempo com o olhar vago de quem não

o comprehendia. Depois a idéa da tardança d'elrei e da tardança

do auto, que entrando pelas horas de ceiar e dormir iria fazer

uma brecha horrorosa na disciplina monastica, veio desperta-lo

como espinho pungente. Começou a bufar e a bater o pé, semelhante

ao corredor brioso do livro de Job e da Eneida. Entretanto o

architecto havia-se posto em pé: um pensamento profundamente

doloroso parecia reverberar-lhe pela fronte nobre e turbada,

e houve um momento de silencio. Por fim segurando com força a

manga do habito de Fr. Lourenço, disse-lhe:

"Sois letrado, reverendo padre: deveis ter visto algum traslado

da Divina Comedia do florentino Dante."

"Li já, e mais de uma vez:--respondeu o prior:--É obra prima

daquellas a que os gregos chamavam epos, id est, enarratio, et

actio segundo Aristoteles; e se não houvesse nessa escriptura

algumas ousadias contra o papa..."

"Pois sabei, reverendo padre,--proseguiu o architecto, atalhando

o impeto erudito do prior,--que este mosteiro, que se ergue diante

de nós, era a minha Divina Comedia, o cantico da minha alma:

concebi-o eu; viveu comigo largos annos, em sonhos e em vigilia:

cada columna, cada mainel, cada fresta, cada arco era uma pagina

de canção immensa; mas canção que cumpria se escrevesse em marmore,

porque só o marmore era digno della: os milhares de lavores que

tracei em meu desenho eram milhares de versos; e porque ceguei

arrancaram-me das mãos o livro, e nas paginas em branco mandaram

escrever um estrangeiro! Loucos! Se os olhos corporaes estavam

mortos, não o estavam os do espirito. O estranho a quem deram

meu cargo não me entendia, e ainda hoje estes dedos descobriram

nessa pedra que o meu alento não a bafejára. Que direito tinha

o Mestre d'Aviz para sulcar com um golpe do seu montante a face

de um archanjo que eu creára? Que direito tinha para me espremer

o coração debaixo dos seus çapatos de ferro? Dava-lh'o o ouro que

tem dispendido? O ouro! ... Não! OMeslred'Aviz sabe que o ouro

é vil; só nobre e puro o genio do homem. Enganaram-no: vassallos

houve em Portugal, que enganaram seu rei! Este edificio era meu;

porque o gerei; porque o alimentei com a substancia de minha

alma; porque eu necessitava de me converter todo nestas pedras

pouco a pouco, e de deixar, morrendo, o meu nome a sussurrar

perpetuamente por essas columnas, e por baixo dessas arcarias.

E roubaram-me o filho da minha imaginação, dando-me uma tença!...

Com uma tença paga-se a gloria e a immortalidade? Agradeço-vos,

senhor rei, a mercê!... sois em verdade generoso ... mas o nome

de mestre Ouguet enredar-se-ha no meu, ou talvez sumirá este

no brilho de sua fama mentida..."

O cégo tremia de todos os membros: a vehemencia com que falára

lhe exhaurira as forças: os joelhos vergaram-lhe, e assentou-se

outra vez em cima do fuste. Os dous frades estavam em pé diante

delle.

"Estaes mui perturbado pela paixão, mestre Affonso--disse Fr.

Lourenço depois de uma larga pausa--por isso menoscabaes mestre

Ouguet, que era talvez o unico homem que ahi havia capaz de vos

substituir. Quanto a vós, pensaram os do conselho d'elrei que

deviam propôr-lhe vos désse repouso e honrado sustentamento para

os cansados dias. Ninguem teve em mente offender o mais sabedor

e experto architecto de Portugal, cuja memoria será eterna, e

nunca offuscada."

"Obrigado--atalhou o velho--aos conselheiros d'elrei pelos bons

desejos que em meu prol têm. São politicos, almas de lodo, que

não comprehendem senão proveitos materiaes. Dão-me o repouso

do corpo, e assassinam-me o da alma! Ácêrca de mestre Ouguet,

não serei eu quem negue suas boas manhas e sciencia de edificar:

mas que ponha elle por obra suas traças, e deixem-me a mim dar

vulto ás minhas. E demais: para entender o pensamento do mosteiro

de Sancta Maria da Victoria cumpre ser portuguez; cumpre ter

vivido com a revolução, que poz no throno o Mestre d'Aviz; ter

tumultuado com o povo defronte dos paços da adultera[2]; ter

pelejado nos muros de Lisboa; ter vencido cm Aljubarrota. Não

é este edificio uma obra de reis, ainda que por um rei me fosse

encommendado seu desenho e edificação, mas nacional, mas popular,

mas da gente portugueza, que disse: não seremos servos do

estrangeiro, e que provou seu dicto. Mestre Ouguet, escholar na

sociedade dos irmãos obreiros[3], trabalhou nas sés de Inglaterra,

de França, e de Alemanha: ahi subiu ao gráu de mestre, mas a sua

alma não é aquecida á luz do amor de patria; nem, que o fosse,

é para elle patria esta terra portugueza. Por engenho e mãos

de portuguezes devia ser concebido e executado até seu final

remate o monumento da gloria dos nossos; e eis-ahi que elle chamou

do longes terras officiaes estranhos, e os naturaes lá foram

mandados adornar de primorosos lavores a igreja de Guimarães.

Sei que não seriam nem elles nem eu quem puzesse esse remate; mas

nós deixariamos successores, que conservassem puras as tradições

da arte. Perder-se-ha tudo; e, porventura, tempo virá em que,

nesta obra dos seculos, não haja mãos vigorosas que prosigam

os lavores que mãos cansadas não poderam levar a cabo. Então

o livro de pedra, o meu cantico de victoria, ficará truncado.

Mas Affonso Domingues tem uma pensão d'elrei!.."

Em uma das casas que ficavam mais proximas, e de que fizemos

menção no principio deste capitulo, ergueu-se a adufa de uma

janella no momento em que o cégo terminava estas palavras, e

uma velha, em cuja cabeça alvejava uma toalha mui branca, gritou

da janella:

"Mestre Affonso, quereis recolher-vos? Está prompta a cêa, e começa

a cahir a orvalhada, que a tarde vae nevoenta."

Lendas e Narrativas (Tomo I) · 第 10 / 13 段