Os fidalgos aproveitaram este instante de torpor moral que precedia

a procella. Desceram da alpendrada, e montando nas suas possantes

mulas, encaminharam-se vagarosamente para a banda da corredoura.

No meio da cavalgada, e rodeado dos cavalleiros mais bemquistos

do povo ía o conde de Barcellos, e Diogo Lopes com os seus pagens

fechava o sequito. Se houvessem atravessado a praça, o conde teria

corrido grande risco; porque, ao dobrar o angulo do mesteiro, ja

os doestos grosseiros e violentos voavam contra elle do meio

do povo apinhado, e até dois virotes de bésta pareceu sibilarem

por cima da sua cabeça. Mas apertando os acicates, os cavalleiros

seguiram ao longo da corredoura, em quanto Diogo Lopes, victoriado

pelas turbas, a quem com sorrisos retribuia aquellas mostras de

affécto, obstava a que as ondas populares rodeassem o diminuto

numero de cortezãos, alguns dos quaes tinham fundados motivos

para receiar a irritação desses animos ferozes, exaltados pela

fuga d'elrei.

A cavalgada linha desapparecido, quando um troço de bésteiros

e peões desembocou do lado da rua nova. Eram mestre Bartholomeu

e a sua gente, que vinham confirmar a nova dada por Diogo Lopes

Pacheco.

Mas as palavras que Fr. Roy dissera ter ouvido proferir a elrei,

lançadas entre os amotinados como um facho sobre montão de lenha

por onde lavra ha muito fogo occulto, levaram o tumulto a um ponto

medonho. As affrontas, que até ahi quasi só se encaminhavam contra

Leonor Telles e seus parciaes, voltaram-se contra D. Fernando. As

maldieçòes, as pragas, os nomes de traidor e covarde se ajunctavam

ás mais violentas ameaças. Uns juravam que nunca mais elle entraria

em Lisboa; outros propunham que se lançasse fogo aos paços reaes.

Debalde Fernão Vasques trabalhava por aquieta-los; nem já escutavam

o seu idolo. Furiosos espalhavam-se pelas ruas, que atroavam com

gritos, brandindo as armas; e por certo que se neste momento D.

Fernando lhes tivesse apparecido, não teriam talvez respeitado

a vida do filho do seu tão querido D. Pedro I, o mais popular

de todos os nossos reis, chamados da primeira dynastia.

Este motim sem objecto, sem resistencia, e sem resultado, acalmou

nesse mesmo dia. Ao anoitecer, a cidade tinha cahido no seu habitual

silencio, e pouco a pouco os fidalgos e cavalleiros, atravessando

as portas da cruz, seguiam caminho de Santarem. O systema militar

dos antigos parthos dera a victoria a elrei: elle vencêra fugindo!

O povo adormeceu: os cabeças da revolta estavam irremediavelmente

perdidos.

[1] Moeda de prata de cinco soldos.

[2] As terecenas ou taracenas reaes, isto é o deposito

dos aprestos das galés, de guerra, eram juncto ao sitio em que

hoje vemos a igreja da Magdalena: o pelourinho velho ou Açougues

era um terreiro que ficava pouco mais ou menos no fim da rua

da Praia.

[3] Nom quis alla hir e partiose da çidade com D. Lionor,

ho mais escusamente que pode, e hi a dizendo pello caminho; "Oulhaae,

&c."--Fernão Lopes, chr. de D. Fernando c. 61.

UMA BARREGAN RAINHA.

O Douro é bem carregado e triste! A sua corrente rapida, como que

angustiada pelos agudos e escarpados rochedos que a comprimem,

volve aguas turvas e mal assombradas. Nas suas ribas fragosas

raras vezes podeis saudar um sol puro ao romper da alvorada,

porque o rio cobre-se durante a noite com o seu manto de nevoas,

e através desse manto a atmosphera embaciada faz cahir sobre a

vossa cabeça os raios do sol semi-mortos, quasi como um frio

reflexo de lua, ou como a luz sem calor de uma tocha distante. É

depois de alto dia que esse ambiente, semelhante ao que rodeava

os guerreiros de Ossian, vos desopprime os pulmões, onde muitas

vezes tem depositado já os germens da morte. Então, se, trepando a

um pinaculo das ribas, espraiaes os olhos para a banda do sertão,

lá vêdes como uma serpente immensa e alvacenta, que se enrosca

por entre as montanhas, e cujo colo esta por baixo de vossos

pés: é o nevoeiro que se acama e dissolve sobre as aguas que

o geraram. O horisonte até ahi turvo, limitado, indistincto,

expande-se ao longe, contornêa-se dos cimos franjados das montanhas

engastadas na cortina azul do horisonte, e a terra, a perder

de vista, parece-nos um mar de verdura violentamente agitado;

porque em desenhar as paizagens do Douro a natureza empregou

um pincel semelhante ao de Miguel Angelo: foi robusta, solemne

e profunda.

Como sobre um circo convertido em naumachia, o Porto ergue-se

em amphitheatro sobre o esteiro do Douro, e reclina-se no seu

leito de granito. Guardador de tres provincias, e tendo nas mãos

as chaves dos haveres dellas, o seu aspecto é severo e altivo,

como o de mordomo de casa abastada. Mas não o julgueis antes

de o tractar familiarmente. Não façaes cabedal de certo modo

aspero e rude que lhe haveis de notar; trazei-o á prova, e

achar-lhe-heis um coração bom, generoso e leal. Rudeza e virtude

são muitas vezes companheiras; e entre nós, degenerados netos do

velho Portugal, talvez seja elle quem guarde ainda maior porção

da desbaratada herança do antigo caracter portuguez no que tinha

bom, que era muito, e no que tinha mau, que não passava de algumas

demasias de orgulho.

Nos fins do seculo decimo-quarto o Porto ía ainda longe da sorte

que o aguardava. O fermento da sua futura grandeza estava no

caracter dos seus filhos, na sua situação e nas mudanças politicas

e industriaes que depois sobrevieram em Portugal. Posto que nobre,

e lembrado como origem do nome desta linhagem portugueza, os seus

destinos eram humildes comparados com os da theocratica Braga,

com os da cavalleirosa Coimbra, com os de Santarem a cortezan, com

os de Evora a romana e monumental, com os de Lisboa, a mercadora,

guerreira e turbulenta. Quem o visse coroado da sua cathedral,

semi-arabe, semi-gothica, em voz de alcacer ameiado; soltoposta,

em vez de o ser á torre de menagem, aos dous campanarios lisos,

quadrangulares e macissos, tão differentes dos campanarios dos

outros povos christãos, talvez porque entre nós os architectos

arabes quieram deixar as almadenas das mesquitas estampadas como

um ferrete da antiga servidão na face do templo dos nazarenos;

quem assim visse o burgo episcopal do Porto, pendurado á roda

da igreja, e defendido antes por anathemas sacerdotaes, que por

engenhos de guerra, mal pensaria que desse burgo submisso nasceria

um emporio de commercio, onde dentro de cinco seculos, mais que

em nenhuma outra povoação do reino, a classe então fraca e não

definida, a que chamavam burguezia, teria a consciencia da sua

força e dos seus direitos, e daria a Portugal exemplos de um

amor tenaz d'independencia e de liberdade.

A populosa e vasta cidade do Porto, que hoje se estende por mais

de uma legua desde o Seminario até além de Miragaia, ou antes

até a Foz, pela margem direita do rio, entranhando-se amplamente

para o sertão, mostrava ainda nos fins do seculo decimo-quarto

os elementos distinctos de que se compoz. Ao oriente o burgo

do bispo, edificado pelo pendor do monte da sé, vinha morrer

nas hortas, que cobriam todo o valle onde hoje estão lançadas

a praça de D. Pedro e as ruas das Flores e de S. João, e que

o separavam dos mosteiros de S. Domingos e de S. Francisco. Do

poente a povoação de Miragaia, assentada ao redor da ermida de

S. Pedro, trepava já para o lado do Olival, e vinha entestar

pelo norte com o couto de Cedofeita, e pelo oriente com a villa

ou burgo episcopal. A igreja, o municipio, e a monarchia entre

esses limites pelejaram por seculos suas batalhas de predominio,

até que triumphou a corôa. Então a linha que dividia as tres

povoações desappareceu rapidamente debaixo dos fundamentos dos

templos e dos palacios. O Porto constituiu-se a exemplo da unidade

monarchica.

Era neste burgo ecclesiastico, nesta cidade nascente, que por

um formoso dia de janeiro da era de Cesar de 1410 (1372) se viam

varridas e cobertas de espadanas e flores as estreitas e tortuosas

ruas que pela encosta do monte guiavam ao burgo primitivo fundado ou

restaurado pelos gascões, se não mentem memorias remotas[1]. Na rua

do Souto, já assim chamada, talvez pela vizinhança de algum bosque

de castanheiros[2], como principal entrada da povoação, andavam

as danças judengas e folias mouriscas com musicas e trebelhos

ou jogos, por entre o povo vestido de festa, o que era indicio

evidente de que se esperava elrei, cuja vinda a qualquer povoação

era o unico motivo legal para fazer dançar e foliar judeus e

mouros, que de certo não folgavam com estes forçados e dispendiosos

signaes de contentamento publico.

Com effeito uma numerosa e esplendida cavalgada viha da banda

do bailiado de Leça, Elrei D. Fernando ajunctára em Santarem os

seus ricos-homens e conselheiros: amestrado por Leonor Telles na

arte de dissimular, recebêra com todas as mostras de boa-vontade

o infante D. Diniz e Diogo Lopes Pacheco, ao qual, para maior

disfarce, não escaceára mercês[3]. Depois em folgares e caçadas

vagueára pelo reino com D. Leonor, até que em Eixo fizera um como

manifesto da resolução que tomára de a receber por mulher, o que

neste dia cumpríra na antiga igreja daquella celebre commenda dos

Hospitalarios. Era, pois, para celebrar este matrimonio adultero,

agourado pelas maldicções populares, que o bispo D. Affonso, menos

escrupuloso que o povo de Lisboa ácerca de adulterios, vestia

de festa o seu mui canonico burgo[4].

A cavalgada, que se víra descer ao longo do valle, já atravessava

o rio da villa pela ponte do Souto[5] e encaminhava-se para uma

antiga porta da povoação primitiva, porta conhecida ainda hoje,

como então, pelo nome de Vandoma. Ao lado direito d'elrei ia D.

Leonor, a rainha de Portugal: elle montado em um cavallo de guerra;

ella em um palafrem branco, levado de redea desde a entrada da

ponte pelo infante D. João, que familiarmente falava e ria com a

formosa cavalleira. Da banda esquerda o bispo D. Affonso, curvado e

enfraquecido pela velhice, oscillava e fazia cortezias involuntarias

a cada passada da mansissima e veneranda mula episcopal. Juncto ao

velho prelado o infante D. Diniz caminhava em silencio, e no aspecto

melancholico do mancebo se divisava que uma profunda tristeza lhe

consumia o coração, vendo-se como atado ao carro triumphal da

mulher que pouco a pouco se convertêra em sua irreconciliavel

inimiga. Após estas principaes personagens via-se uma grande

multidão de cavalleiros, clerigos, cortezãos, conselheiros, juizes

da côrte, companhia esplendida, por entre a qual brilhava o ouro,

a prata, e as variadas côres dos trajos de festa, que sobresaiam

no chão negro das vestiduras roçagantes dos magistrados e clerigos.

Adiante d'elrei as danças dos mouros e judeus volteavam rapidas

ao som da viola ou alaude arabe, das trombetas e das soalhas.

Segundo o antigo uso seguiam-se ás danças córos de donzellas

burguezas, que celebravam cora seus cantos o amor e a ventura

dos noivos[6].

Mas esse canto tinha o que quer que era triste na toada. Triste

era tambem o aspecto dos populares, que sem um só grito de regosijo

se apinhava para vêr passar aquelle prestito real. Mil olhos se

cravavam no infante D. Diniz, cujo rosto melanclholico revelava

que os seus pensamentos eram accordes com os do povo, que por

toda a parte não via neste consorcio senão um crime e uma fonte

de desventuras. Os cortezãos, porém, fingiam não perceber o que

passava á roda delles, e pareciam transbordar de alegria. Muitos

eram daquelles que mais contrarios haviam sido aos amores d'elrei,

mas que vendo emfim D. Leonor rainha, voltavam-se para o sol que

nascia, e calculavam já quantas terras, e que somma de direitos

reaes lhes poderia render da parte de um rei prodigo a sua mudança

de opinião.

Entre elles não se via o tenaz e astuto Pacheco. Habituado ao

tracto da côrte por largos annos, experimentado em todos os enredos

dos paços, habil em traduzir sorrisos e gestos, palavras avulsas

e discursos fingidos, não tardára em perceber que as mercês e

agrados d'elrei e de D. Leonor encobriam intentos de irrevogavel

vingança. Conhecendo que a sedição popular fôra inutil, e que,

ainda renovada com mais furia, não poderia resistir ás armas de

D. Fernando, havia-se affastado da côrte, e posto que só nos

fins desse anno elle passasse a servir o seu antigo protector e

amigo D. Henrique de Castella, buscára entretanto esquivar-se

ao odio da nova rainha, conservando ao mesmo tempo a boa opinião

entre o vulgo.

Abandonado assim do seu guia, o infante D. Diniz soffrêra resignado

um successo que não podia embargar; mas, digno filho de D. Pedro,

conservára intacta a sua má vontade a D. Leonor. Abandonado dos

seus parciaes, vendo, se não trahida, ao menos quasi morta, e

inactiva a alliança de Pacheco, e, para maior desalento, seu

irmão mais velho o infante D. João ligado com essa mulher, da

qual este principe mal pensava então lhe viria a ultima ruina;

no meio de tanto desamparo, o infante, a principio timido e

irresoluto, sentira crescer a ousadia com os perigos; sentíra

girar-lhe nas veías o sangue paterno. Obrigado a seguir a corte,

nunca D. Leonor achára um sorriso nos seus labios; nunca o víra

conter diante della um só signal de despreso. Assim a colera d'elrei

contra seu irmão havia chegado ao maior auge, e os calculos de

fria e paciente vingança estavam resolvidos no animo de Leonor

Telles.

A cavalgada tinha subido a encosta, atravessado a porta de Vandoma,

que em parte ainda subsiste, e passado em frente da sé, juncto

da qual se dilatavam os paços episcopaes. Ahi as danças e folias

pararam e fizeram por um momento silencio: então o infante D.

João, tomando nos braços a formosa rainha, apeou-a do palafrem:

após ella elrei saltou ligeiro do seu fogoso e agigantado ginete.

Dentro em pouco toda a comitiva tinha desapparecido no profundo

portal dos paços, e os donzeís conduziam os elegantes cavallos,

as mulas inquietas e os mansos palafrens para as vastas e bem

providas cavallariças do mui devoto e poderoso prelado da antiga

Festabole[7].

O aposento principal dos paços, quadra vasta e grandiosa, estava

de antemão ornado para receber os hospedes reaes do velho bispo

D. Affonso. Um throno com dous assentos de espaldas indicava

que a elle ia subir tambem uma rainha. D. Leonor entrou seguida

das cuvilheiras e donzellas da sua camara; elrei de todos os

principaes cavalleiros. Viam-se entre estes o alferes-mór Ayras

Gomes da Silva, ancião veneravel, que fôra seu aio, o orgulhoso

mordomo-mór D. João Affonso Tello, Gil Vasques de Resende, aio do

infante D. Diniz, o prior do hospital Alvaro Gonçalves Pereira,

e muitos outros fidalgos que ou seguiam a còrte, ou tinham vindo

assistir ás bodas reaes.

Guiada por D. Fernando, Leonor Telles subiu com passo firme os

degraus do throno. Como o navegante, que, affrontando temporaes

desfeitos por mares incognitos e aparcellados, e chegando ao

porto longinquo, quasi que não crê pisar a terra de seus desejos,

assim esta mulher ambiciosa e audaz parecia duvidar da realidade

da sua elevação. A alma sorria-lhe a míl esperanças; a vida

trasbordava nella. A seu lado um rei, a seus pés um reino! Era

mais que embriaguez; era delirio. Ella sentia um novo affecto,

um como desejo de perdão aos seus inimigos! Tremeu de si mesma,

e convocando todas as forças do coração, salvou a sua ferocidade

hypocrita, que parecia querer abandona-la. Era severo o seu aspecto

quando esses pensamentos estranhos lhe passaram pelo espirito; mas

o sorriso tornou a espraiar-se-lhe no rosto, quando o instincto de

tigre pôde faze-la triumphar desse momento em que a generosidade

costuma accommetter com violencia as almas vingativas e ferozes, o

momento em que se realisa a summa ventura por largo tempo sonhada.

Do alto do throno e em pé, D. Fernando estendeu a mão: o tropel

de cortezâos e cavalleiros, de donas e donzellas formaram aos lados

da espaçosa sala fileiras esplendidas, immoveis e silenciosas:

elrei volveu olhos lentos para um e outro lado, e disse:

"Ricos-homens, infançôes, e cavalleiros de Portugal, um dos mais

nobres sacramentos que Deus neste mundo ordenou foi o matrimonio:

como para os outros homens, para os reis se instituiu elle; porque

por elle as corôas se perpetuam na linhagem real. É por isso que

eu desposei hoje a mui illustre D. Leonor, filha de D. Affonso

Tello, descendente dos antigos reis, e ligada com os mais nobres

d'entre vós pelo divido do sangue. Assim a rainha de Portugal

será mais um laço que vos una a mim como parentes, que de hoje

ávante sois meus. Leaes como tendes sido a vosso rei pelo preito

que lhe fizestes, muito mais o sereis por este novo titulo. Em

que pez a traidores, D. Leonor Telles é minha mulher! Fidalgos

portuguezes, beijae a mão á vossa rainha.[8]"

O velho alferes-mór Ayras Gomes aproximou-se então do throno á

voz do seu moço pupillo; ajoelhou e beijou a mão a D. Leonor;

mas o olhar que lançou para elrei era como o de pedagogo que de

mau humor se accommoda ao capricho infantil de um principe. Ao

volver d'olhos do ancião, D. Fernando córou e voltou o rosto.

O infante D. João, porém, dobrando o joelho aos pés da formosa

rainha, parecia trasbordar de alegria: contemplando-o Leonor

Telles deixou assomar aos labios um daquelles ambiguos e quasi

imperceptiveis sorrisos que, vindos della, sempre tinham uma

significação profunda. Por ventura que no infante D. João ella

já não via mais que o precursor da humilhação de D. Diniz, do

seu capital inimigo.

Após o infante os fidalgos vieram successivamente curvar-se ante

D. Leonor. Boa parte delles eram como os capitães vencidos seguindo

ao capitolio um triumphador romano. Podia-se com effeito dizer

que, mau-grado desses que se rojavam a seus pés, ella conquistára

o throno.

Toda a comprida fileira de nobres e officiaes da corôa tinha

passado e ajoelhado no estrado real. Faltava um; e era este, que,

menosprezando tantas frontes illustres por valor ou sciencia, por

fidalguia ou riqueza, inclinadas perante ella, a mulher orgulhosa

e implacavel esperava, cogitando no momento em que o mancebo ainda

impubere, sem renome, sem poderio, celebre só por seu berço e pelo

desgraçado drama da morte de D. Ignez, viesse tributar homenagem

á que representava um papel analogo ao daquella desventurada,

salvo na sinceridade do amor e na innocencia da vida.

Mas esse para quem D. Leonor mais de uma vez volvêra rapidamente

os olhos, considerava com os braços cruzados aquelle espectáculo em

perfeita immobilidade, de que unicamente saíra quando Gil Vasques

de Resende, que estava a seu lado, se affastára, caminhando para

os degraus do estrado. O mancebo apertára a mão do idoso aio,

trémula da idade, com a mão ainda mais trémula de colera. Na

conta de pae o tinha; venerava-o como filho, e a idéa de o vêr

prostituir os seus cabellos brancos aos pés de uma adultera o

levára a esse movimento involuntario; involuntario, porque elle,

naquella postura e naquella hora, não fazia mais que colligir

todas as forças da alma para salvar a honra do nome de seus avós,

do nome dos reis portugueses, esquecida por um de seus irmãos,

e talvez mercadejada por outro em troco de valimento infame. O

velho entendeu o que significava este convulso apertar de mão:

duas lagrymas lhe cahiram pelas faces; mas obedeceu a elrei.

Só faltava D. Diniz, que continuára a ficar immovel. Houve um

momento de silencio sepulchral na vasta sala, e este silencio

era para todos indefinido, mas terrivel.

D. Fernando poz-se a olhar fito para seu irmão, enleiado, ao que

parecia, em scismar profundo.

Pouco a pouco todos os fidalgos que povoavam aquella immensa

quadra se poderiam crer petrificados como as columnas gothicas,

que sustinham as voltas ponteagudas do tecto, se não fosse o

respirar anciado e rapido que lhes fazia ranger sobre os peitos

e hombros os seus ricos briaes[9].

Os labios d'elrei tremeram, como a superficie do mar encrespada

pela leve e repentina aragem que precede immediatamente o tufão.

Depois entreabrindo-os, com os dentes cerrados, murmurou:

"Infante D. Diniz, beijae a mão á vossa rainha!"

Foi um só o volver de todos os olhos para o moço infante: o sussurro

das respirações cessára.

D. Diniz não respondeu; encaminhou-se para o meio do aposento:

parou defronte do throno, e olhando em redor de si, perguntou

com sorriso de amargo escarneo:

"Onde está aqui a rainha de Portugal?"

"Infante D. Diniz!--disse elrei, cujo rosto o furor mal reprimido

demudára.--Soffredor e bom irmão tenho sido por largo tempo:

não queiraes que seja hoje só juiz inflexível do filho querido

daquelle que tambem me gerou! Infante D. Diniz! beijae a mão

da mui nobre e virtuosa D. Leonor Telles, como fez vosso irmão

mais velho, de quem devereis haver vergonha.[10]"

"Nunca um neto do D. Affonso do Salado--replicou o infante com

apparenle tranquillidade--beijará a mão da que elrei seu irmào

e senhor quer chamar rainha. Nunca D. Diniz de Portugal beijará

a mão da mulher de João Lourenço da Cunha. Primeiro ella descera

desse throno e virá ajoelhar a meus pés; que de reis venho eu,

não ella."

"De joelhos, dom traidor!--gritou D. Fernando, pondo-se em pé

e descendo dous degraus do estrado.--De joelhos, vil parceiro

de reveis sandeus! Se a taberna de Folco Taca vos ouviu fazer

preito infame aos peões de Lisboa, quebra-lo-heis diante de vosso

rei: quebra-lo-heis, que vo-lo digo eu!"

D. Diniz viu então que todos seus passos estavam descobertos:

achava-se por isso â borda de um abysmo. Hesitou um momento; mas

lembrou-se de que era neto do heroe do Salado, e precipitou-se

na voragem.

"Vil é a mulher barregan e adultera, e essa é ambas as cousas.

Traidor seria um rei de Portugal que assentasse o adulterio no

throno, e vós o fizestes, rei deshonrado e maldicto de vosso

Deus e do vosso povo! Quem neste logar é o vil e o traidor?"

O infante, acabando de proferir estas palavras, abaixou a cabeça

e deixou descahir os braços. Elle bem sabia que se seguia o morrer.

Apenas elrei se alevantára, D. Leonor, cujas faces se haviam

tingido da amarellidào da morte, tinha-se erguido tambem. Naquelle

rosto, semelhante ao de uma estatua de sepulchro, apenas se conhecia

o viver no profundar, cada vez maior, das duas rugas frontaes

que se lhe vinham junctar entre os sobr' olhos.

Ouvindo as derradeiras e fulminantes palavras de D. Diniz, elrei

soltára um destes rugidos de desesperação e colera humana, que nem

o rugido da mais brava fera póde igualar; grito de ventriloquo, que

é como o estridor de todas os fibras do coração que se despedaçam a

um tempo; gemido como o do rodado ao primeiro gyro do instrumento

do supplicio; rugido, grito, gemido, conglobados n'um só hiato,

fundidos n'um som unico pela raiva, pelo odio, pela angustia:

brado que só terá eccho pleno no bramido que ha-de soltar o reprobo

quando no derradeiro juízo o julgador dos mundos lhe disser:--para

ti as penas eternas.

O brado de D. Fernando fizera tremer os mais esforçados cavalleiros

que se achavam presentes: o movimento que o seguiu fez gelar o

sangue em todas as veias.

Como um relampago elle tinha arrancado da cincta o agudo bulhâo,

e com os olhos desvairados encaminhava-se para o meio da sala,

onde seu irmâo o esperara immovel, com a mâo sobre o peito, como

se dissesse: aqui!

Mas D. Fernando nâo pôde offerecer nas aras do adulterio um

fratricidio: uma barreira se tinha alevantado a seus pés. Era um

velho de fronte calva, e de longas melenas brancas e desbastadas

pelos annos: era aquelle que lhe fôra mais que pae, e que elle

respeitava mais que a memória deste: era o seu alferes-mór, o

venerável Ayras Gomes, que ajoelhado lhe clamava com vozes truncadas

de soluços e lagrimas:

"Senhor! que é vosso irmão!"

"É um covarde traidor, que deve morrer! Irmão!? Mentes, velho!

Elle já não o é!"

Á palavra--mentes!--um relampago de vermelhidão passou pelas

faces cavadas do antigo cavalleiro: abaixou os olhos, e correu-os

pela espada. Fôra esta a primeira vez que ella ficára na bainha

depois de tão funda affronta. Mas aquelle era o momento dos grandes

sacrificios. Ayras Gomes replicou, alimpando as lagrymas:

"Nunca vos menti, senhor, nem quando ereis na puericia, nem depois

que sois meu rei. Sabei-lo. Criminoso ou innocente, D. Diniz é

filho de meu bom senhor D. Pedro. A vosso pae servi com lealdade;

por vós já me andou arriscada a vida. Hoje tendes por defensores

todos os cavalleiros de Portugal: elle é que não tem um só. Senhor

rei, ficae certo de que para assassinar vosso irmão vos é mister

passar por cima do cadaver de vosso segundo pae."

Atalhado assim o primeiro impeto, o caracter do moço monarcha

revelou-se inteiro neste momento. Commoveu-o a postura do venerando

ancião, que pela primeira vez via a seus pés; e com a irresolução

pintada nos olhos fitou-os em Leonor Telles.

Lendas e Narrativas (Tomo I) · 第 7 / 13 段