pelo fratricida não cahiria sómente sobre a cabeça deste, mas
também sobre a della. Naquelle rosto, então semelhante ao de
uma estatua, D. Fernando não pôde ler a sentença do infante, bem
que lá no fundo do coração ella estivesse escripta com sangue.
Entretanto os cortezãos, que no furor rompente d'elrei haviam
ficado estupefactos e quedos, vendo-o vacillar, rodearam o infante.
O velho Gil Vasques de Resende, que ia interpor-se também entre
D. Diniz e elrei, quando este arrancára o punhal, parára ao ver
a heróica resolução do alferes-mór; mas ao hesitar de D. Fernando
corrêra a abraçar-se com o seu pupillo, que, no meio de tantos
animos agitados por paixões diversas, era quem unicamente parecia
tranquillo e alheio ao terror que se pintava em todos os semblantes.
Finalmente elrei metteu vagarosamente o punhal no cincto, e com
voz pausada, mas trémula e presa, disse:
"Que esse malaventurado sáia d'ante mim."
O tom com que estas poucas palavras foram proferidas fez vergar
o animo de D. Diniz, cujo coração antes d'isso parecêra de bronze.
Os olhos arrasaram-se-lhe de agua. Sentira que até então era
uma cólera cega, repentina, insensata, que o ameaçava: agora,
porém, no modo e na expressão de D. Fernando vira claramente
que era um amor de irmão que expirára.
Com a cabeça pendida em cima do hombro de Gil Vasques de Resende
saiu do aposento.
Era talvez o velho o unico amigo que lhe restava no mundo.
D. Leonor levou ambas as mãos ao rosto, e via-se-lhe arquejar
o collo formoso por mal contido suspiro.
"Coração compadecido e generoso!--pensou lá comsigo o alferes-mór,
que havia pouco a tractára pela primeira vez.
"Hora maldicta e negra, em que perdi metade de minha tão esperada
vingança!--pensava Leonor Telles, e o chôro rebentou-lhe com
violencia.
"Não te afllijas, Leonor:--disse D. Fernando, apertando-a ao
peito.--Que nunca mais eu o veja, e viva, se podér, em paz!"
Mas as lagrymas correram ainda com mais abundancia e amargura.
O resto daquelle dia foi triste: triste o banquete e o sarau.
A atmosphera em que respirava a nova rainha tinha o que quer
que era pesado e mortal, que resfriava todos os corações.
Á meia noite, por um claro luar de ceo limpo de inverno, uma
barca subia com difficuldade a corrente rapida do Douro: à pôpa
viam-se reluzir, nas toucas e mantos negros de dous cavalleiros
que ahi iam assentados, as orlas e bordaduras de ouro e prata:
um dos remeiros cantava ama cantiga melancholica, a que respondia
o companheiro, e dizia assim:
Mortos me sào padre e madre:
Eu tamanino fiquei.
Irmãos meus mal me quizeram:
Eu mal não lhes quererei.
Vou-me correr esse mundo:
Sabe Deus se o correrei!
A alma deixo-a cá presa;
O corpo só levarei.
De meus avós nos solares
Nasci: dous dias passei:
Meus irmãos, nada vos tenho,
Senão o nome que herdei.
Esta cantiga, cuja toada monotona repercutia nos rocbedos aprumados
das margens, foi interrompida por um doloroso suspiro. Um dos
cavalleiros o déra.
Os remeiros calaram-se: arrancaram da voga com mais ancia, e depois
continuaram:
Se fui rico, ora sou pobre:
Choro hoje, se já folguei:
Villas troquei por desvios:
Muito fui: nada serei.
Sem padre, madre, ou irmãos,
A quem me soccorrerei?
A ti, meu Senhor Jesus:
Senhor Jesus me accorrei!
Um gemido mnis angustiado, que saíu involto em soluços, cortou
de novo a cantiga: era do mesmo que já a interrompêra. O seu
companheiro bradou aos barqueiros com a voz trémula e cansada
de um ancião:
"Calae-vos ahi com vossas trovas maldictas!"
Os remeiros vogaram em silencio; mas pensaram lá comsigo que muito
damnadas deviam ser as almas de cavalleiros que assim maldiziam
tão devoto trovar.
Repararam, porém, que dos dous desconhecidos, o que suspirára e
gemêra lançára os braços ao pescoço do que falára, e que este,
affagando-o, lhe dizia:
"Quando todos, senhor, vos abandonarem não vos abandonarei eu;
que o devo ao amor com que vos creei, e á esclarecida e sancta
memoria de vosso virtuoso pae."
Então os barqueiros, bem que rudes, desconfiaram de que podia
muito bem ser que não fossem duas almas damnadas aquellas, mas
sim malaventuradas.
[1] Conde D. Pedro, tit. dos Viegas. Cunha, Cat. dos
Bispos do Porto, part. 1.ª pag. 15.
[2] E fezerom mui ápressa hua grande praça ante S. Domingos
e a rua do Souto, que era entom todo ortas. F. Lopes, Chr. de D.
João I, P. 2. c. 96.--Isto era poucos annos depois da epocha
de que vamos falando.
[3] A 25 de setembro de 1371, em Santarem, fez elrei
mercê a Diogo Lopes Pacheco da terra de Trancoso para que a haja
e tenha em pagamento da sua quantia. Chancell d'elrei D. Fernando
L. l. f. 84.
[4] Este bispo D. Affonso era ainda o mesmo a quem elrei
D. Pedro, dizem, quizera açoutar por sua própria mão em consequencia
de elle haver commettido adulterio com a mulher de um honrado
cidadão, historia miudamente narrada por Fernão Lopes chronica
daquelle rei, e que nós não sabemos dizer até que ponto seja
verdadeira. D. Rodrigo da Cunha, suppõe que o bispo, corrido
desta aventura, escandalosa não pelo delicto, trivialissimo no
clero daquelle tempo, mas pelo ameaçado castigo, cousa inaudita
antes e depois de D. Pedro, saíra do bispado e nunca mais voltára
ao Porto, posto que ainda vivesse pelo menos até maio de 1732,
como se vê do catalogo chronologico dos bispos portuguezes, por J.
P. Ribeiro. Esta opinião, que assenta n'um argumento negativo--a
falta de noticias desse prelado nos documentos consultados por D.
Rodrigo da Cunha, posteriores aos eminentes açoutes--é desmentida
pelo testemunho de Fernão Lopes, no cap. 49 da chronica de D.
Fernando, que fez presente D. Affonso á renovação das pazes
d'Alcoutim, juradas no Porto em 1371. É por isso que, apesar
de Cunha, nos pareceu natural fazer abençoar por um bispo, que
se pinta como manchado de adulterio, um casamento adultero.
[5] Sobre esta antiga topographia vejam-se as inquirições
dos annos de 1268 e 1348 nas Memorias das Inquirições pag. 45
nota 2, e Dissert. Chr. e Crit. tom. 5.º pag. 292 e segg.
[6] Ácerca de semelhante usança veja-se F. Lopes. Chr.
de D. João I, P. 2ª c. 96.
[7] Na supposta divisão dos bispados, attribuida ao rei
Godo Wamba, dá-se ao Porto o nome de Festabole.
[8] Em grande parte extrahido quasi textualmente da
Carta d'Arrhas de Leonor Telles, datada de Eixo aos 5 de Janeiro
de era de 1410 (1372).
[9] O brial era uma especie de camisola que os cavalleiros vestiam
sobre as armas, e por cima da qual apertaram o cincto da espada.
Tambem o vestiam sobre os pannos interiores quando andavam desarmados.
O seu uso durou por toda a idade media, e era ainda lembrado nos fins
do seculo decimo-sexto, em que o auctor, ou traductor, do Palmeirim
d'Inglaterra tantas vezes o menciona. Nas leis sumptuarias de
Alfonso IV não se tracta é verdade de tal vestido; mas a razão
d'isso é obvia: o brial era trajo militar, e aquellas leis versam
sobre o vestuario civil. Na ordenação affonsina L. 1.°, til. 63,
§ 21, se manda cingir a espada ao movel sobre o brial. O diccionario
de Moraes affirma que o brial era o manto dos cavalleiros: é um dos
bastos destemperos daquella babel da lingua portugueza. Eis o que
diz o auctor do poema do Cid, escripto no meiado do seculo
decimo-segundo, falando no brial. (Sanches Pocs. Cast. ant. al
siglo 15.° t. 1.° pag. 347.)
Vistió camisu de ranzal tan blanca como el sol
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Sobre ella un brial primo de ciclaton
. . . . . . . . . . . . . .
Sobre esto una piel bermeia . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
De suso cubrió un manto que es de grant valor.
[10] Dizendo elrei sanhudamente coulra elle: "Que non
avia vergonça nenhuuma, beijarem a mão aa Rainha sua molher o
Infante Dom Joham, que era moor que elle, e isso mesmo seu irmaão,
e todollos outros lidallgos do reino, e el soomente dizer que lha
nom beijaria, mas que lha beijasse ella a elle." Fern. Lopes,
Chr. d'elrei D. Fern cap. 62.
JURAMENTO--PAGAMENTO.
Passára mais de um anno depois do casamento d'elrei. Este casamento,
que explicava o repudio da infanta de Castella, não bastára em
verdade para accender a guerra entre D. Henrique e D. Fernando,
estando já de algum modo previsto nos capitulos addicionaes do
tractado de Alcoutim. Mas, como se o desgosto que semelhante offensa
devia gerar no animo do rei castelhano não fosse assás forte para
servir de fermento a futuras guerras, D. Fernando suscitára novos
motivos de sérias desavenças, que não particularisaremos aqui,
por não virem a nosso intento. Baste saber que, depois de inuteis
mensagens e queixas, D. Henrique de Castella, entrando subitamente
em Portugal e tomando muitas terras fortificadas, atravessára
rapidamente a Beira, passára juncto aos muros de Coimbra, onde
se achava D. Leonor Telles, e vindo offerecer batalha a elrei
D. Fernando, que estava em Santarem, e que não acceitou o combate,
se encaminhára para Lisboa, cujos habitantes desapercebidos apenas
tiveram tempo de se acolherem aos antigos muros do tempo de Affonso
III, de cujas torres e adaves viram os castelhanos saquearem e
queimarem o bairro mais povoado e rico da cidade, o arrabalde,
sem lhes poderem pôr obstaculo. No meio deste apertado cêrco,
desamparados d'el-rei, que apenas lhes enviára alguns de seus
cavalleiros, os moradores de Lisboa não tinham desanimado. Com
varia fortuna haviam resistido aos commettimentos dos castelhanos,
e o que mais duro era de soffrer, á fome, á sede, e até ao receio
de traições de seus naturaes. Finalmente D. Fernando fizera uma
paz vergonhosa, depois de ter suscitado uma injusta guerra, e
Lisboa viu affastar dos seus muros o exercito d'elrei de Castella,
que a tivera sitiada durante quasi dous mezes.
Era nos fins de maio de 1373, pela volta da tarde de um formoso
dia de primavera. O ar eslava tepido e o céu limpo. Pelos campos e
valles via-se verdejar a relva; a madresilva, e as rosas bravias,
enredadas pelos vallados, embalsamavam a atmosphera. Mas estes eram
os unicos signaes que nos arredores de Lisboa revelavam aquella
estação suave no seu clima suavissimo. Tudo o mais contrastava
horrivelmente com elles. Os extensos e bastos olivedos, que nessas
eras a rodeavam, jaziam decepados em terra, como se por alli
tivesse passado fouce gigante meneada por braço de ferro. Pelos
outeirinhos, coroados pouco havia de vinhas frondosas, viam-se
espalhadas as videiras cobertas de folhas resecadas antes de tempo,
ou ennegrecidas pelo fogo, assimilhando-se a gandra coberta de
urzes, que foi desbravada por fins d'outono. As vastas hortas,
que se derramavam por Valverde, trilhadas pelos pés dos cavallos,
estavam incultas e abandonadas. Mas sobre este mal assombrado e
triste chão do painel, mais melancholica e afflictiva avultava
ainda a figura principal, a cidade.
O populoso bairro chamado o arrabalde, onde d'antes era contínuo
o ruído discorde de tracto immeriso, achava-se convertido em
um montão de ruinas. Para o lado do sul e poente não se viam
desde os antigos muros (cujo perimetro pouco mais cercava do
que o castello e o bairro a que hoje damos geralmente o nome
d'Alfama) senão edificios queimados, ruas entulhadas, praças
desfeitas, vestigios do sangue, peças de armadura aboladas ou
falsadas, hastilhas e ferros partidos de virotes, de lanças e de
espadas, e aqui e acolá cadáveres fétidos, não só de cavallos,
mas também de homens, cujas carnes, meias devoradas pelos cães
ou pelo tempo, lhes deixavam branquejar as ossadas. Sobre os
entulhos appareciam como phantasmas os servos mouros, revolvendo
as pedras derrocadas em busca de alguma preciosidade que tivesse
escapado ás chammas e ao inimigo; e juncto ás paredes negras da
sinagoga os mercadores judeus, olhando para o seu bairro assolado,
depennavam as barbas â roda dos rahbis, que recitavam em tom de
pranto os versiculos hebraicos dos Threnos.
Por meio deste vasto quadro de assolação rompia uma numerosa
companhia de cavalleiros e damas, de donas e escudeiros, de donzellas
e pagens, brilhante cavalgada que descia da banda de Santo Antão
para S. Domingos, e tomava pela corredoura para a porta do ferro.
A formosura e o luxo das mulheres, as figuras athleticas e os
rostos varonis dos cavalleiros, o brunido das armas, o loução
dos trajos, o rico dos arreios, tudo emfim dava clara mostra
de que naquella cavalgada vinha a mais nobre gente de Portugal.
Os risos das damas, os dictos galantes o agudos dos fidalgos, o
rinchar alegre dos corcéis briosos e dos delicados palafrens,
as doudices dos donzeis, que ora correndo á rédea solta, ora
soffreando os cavallos ao perpassar pelas mulas pacificas dos
cortezãos letrados, os faziam vacillar e debruçar sobre os arções,
o bater das asas dos nebris e girifaltes empoleirados nos punhos
dos falcoeiros, o latir dos galgos e allãos, que atrellados
forcejavam por se atirarem acima daquelles centenares de habitações
derrocadas, d'onde saía de vez em quando uma exhalacâo de carniça:
este rir, este folgar, este ruído do contentamento, este matiz
de reflexos metallicos, de côres variegadas, passando como um
turbilhão através daquelle silencio sepulchral, parecia rasgar
o veu de tristeza que cobria a vasta área da cidade destruida,
e revoca-la a uma nova existencia.
Mas o povo, apesar d'isso, continuava a estar triste.
A cavalgada chegou ao terreiro da sé. Um engenho de arremessar
pedras estava assentado no meio delle, e os grossos madeiros de
que era construído viam-se ainda manchados de rastos de sangue.
Uma dama, que vinha na frente da comitiva, parou: um cavalleiro
de boa idade e gentil-homem, que caminhava a seu lado, parou
tambem. A dama apontou para o engenho, disse algumas palavras
ao cavalleiro, e depois desatou a rir.
Era ella a mui nobre e virtuosa minha D. Leonor: elle o mui
excellente e esclarecido rei D. Fernando de Portugal.
D. Leonor Telles tinha razão para rir.
Durante o cêrco de Lisboa uma voz, verdadeira ou falsa, se espalhára
de que vários moradores da cidade estavam preitejados com elrei
de Castella para lhe abrirem uma das portas. Dava força a taes
suspeitas o acharem-se no campo castelhano Diogo Lopes Pacheco
e D. Diniz, que com elle se haviam ajunctado na sua entrada em
Portugal, e as desconfianças recahiam naturalmente sobre aquelles
que dous annos antes tinham seguido o partido contrario a D.
Leonor, de que o infante e o velho privado de D. Affonso IV eram
cabeças. Assim a popularidade dos parciaes de D. Diniz tinha
diminuido consideravelmente, porque o povo, em vez de attribuir
a sua ruina ás causas remotas, ás paixões insensatas de D. Leonor
e á imprudencia d'elrei, só nas suggestòes de Diogo Lopes e do
infante via agora a origem de todos os males presentes, e o odio
que contra os dous havia concebido se estendêra a todos os que
cria serem-lhes affeiçoados.
Apenas, portanto, se divulgou a noticia da intentada traição, o
povo furioso correu ás moradas daquelles, que, como fica dicto,
lhe eram mais suspeitos. Seguiu-se uma festa de cannibaes, festa
de vulgacho em qualquer tempo e logar que elle reine. Aquelles
que não poderam provar de modo innegavel a sua innocencia, foram
mettidos aos mais crueis tormentos, onde nenhum se confessou
culpado. Um desgraçado, contra o qual eram mais vehementes as
desconfianças, foi arrastado pelas ruas e feito depois em pedaços:
"outro--diz o chronísta[1]--tomarom e pozerom-no na fumda d'huum
engenho, que estava armado ante a porta da see; e quando desfechou
lançono em cima dessa egreja antre duas torres dos sinos que
hi ha, e quando cahio acharomno vivo; e tomaromno outra vez e
pozeromno na fumda do engenho, e deitouho contra o mar, omde
elles desejavom, e assi acabou sua vida."
Era por isso que D. Leonor olhára para o engenho, e se ríra. O
próprio povo tinha pagado uma parte das arrhas do seu casamento.
A noite descêra entretanto. A cavalgada parou no terreiro de
S. Martinho, e á luz de muitas tochas parte daquella multidão
escoou-se pouco a pouco por diversas ruas, emquanto outra parte
subia á sala principal, ou se derramava pelos aposentos dos paços,
cujo silencio de quasi dous annos, depois du fuga d'elrei com
D. Leonor Telles, era a primera vez interrompido pelo ruido de
uma côrte numerosa, mas bem differente da antiga. A rainha havia
quasi exclusivamente chamado a ella os seus parentes, ou aquelles
fidalgos que lhe tinham dado provas não equivocas de sincero
affeiçcão e substituíra á severidade antiga do paço todo brilho
de um luxo insensato, e o que mais era, a dissoluçao dos costumes,
que quasi sempre acompanha esse luxo. Depois de uma ceia esplendida,
como o devia ser nesta côrte voluptuaria, apenas ficára na camara
real D. Fernando e sua mulher, o conde de Barcellos D. Joâo, D.
Gonçalo Telles, irmão de D. Leonor e um donzel da rainha, filho
bastardo de outro bastardo, do prior do Hospital Alvaro Gonçalves
Pereira, e que ella mais que nenhum estimava. Estas personagens
achavam-se reunidas no mesmo aposento onde dous annos antes o
beguino Fr. Roy viera revelar á então amante de D. Fernando os
intentos de seus inimigos. Era deste aposento que ella saíra
fugitiva e amaldicçoada do povo. Mas era ahi também que ella
vinha depois de tantos sustos, de tantas difficuldades vencidas,
de tanto sangue derramado por sua causa, repousar triumphadora,
segura já na fronte a corôa real. Tudo estava do mesmo modo,
salvo as personagens, que em parte eram diversas e em diversa
situação.
Elrei, habitualmente alegre, se assentára triste na cadeira de
espaldas, unico movel do aposento, e encostára a cabeça sobre
o punho cerrado: D. Leonor, posto que naturalmente loquaz[2],
assentada no estrado defronte de D. Fernando, conservava-se tambem
em silencio: em pé, um pouco atraz da cadeira d'elrei, o donzel
querido de D. Leonor, com os olhos fitos nella, esperava attento
as determinações de sua senhora: ao longo da sala o conde de
Barcellos e D. Gonçalo Telles passeavam lentamente, conversando
em voz submissa e pausada.
Mas a taciturnidade de cada uma das duas personagens principaes
tinha bem differentes motivos.
A imagem da sua capital destruida havia-se embebido na alma d'elrei
como um remorso cruel. Pelas suggestões de seu tio adoptivo
consentíra que D. Henrique viesse livremente destruir a opulenta
Lisboa. Elle, neto de Affonso IV, rejeitára os soccorros de seus
valorosos vassallos, que de toda a parte haviam corrido, lança
em punho, para combaterem debaixo da signa real, ao esvoaçar
dos pendões inimigos: elle, cavalleiro, fôra vil instrumento
de vingança covarde: elle, rei de Portugal, fôra o destruidor
do seu povo; elle, portuguez, recebêra o nome de fraco de um
castelhano, sem que ousasse desmentir a affronta[3]! Estas idéas,
que o tinham assaltado ao atravessar as ruinas dos arrabaldes,
tomavam maior vulto e força na solidão e no silencio. O pobre
monarcha, bom, mas excessivamente brando e irresoluto, tinha
sobeja razão de estar triste. A lua, que começava a subir, dava
de chapa, através da janella oriental do aposento, no rosto de D.
Fernando, como dous annos antes, quasi a essa hora, lhe allumiára
tambem as faces demudadas de afflicção. Este logar, esta luz, e
esta hora eram para elle fataes!
Nesse momento passos mais rapidos e mais pesados que os dos dous
fidalgos começaram a soar na sala contigua: quem quer que era
passeava também.
Dos olhos de D. Fernando saíam dous tenues reflexos; eram os raios
da lua que se espelhavam em duas lagrymas.
A raínha, alevantando-se então, disse ao donzel:
"Nunalvares Pereira, vêde quem está nessa sala."
Nunalvares abriu a porta, e alongando a cabeça voltou-se
immediatamente, e disse:
"O corregedor da côrte."
Os dous fidalgos pararam na extremidade do aposento, calaram-se,
e conservaram-se immoveis.
A rainha fez signal com a mão a Nunalvares para que esperasse:
o donzel ficou á porta sem pestanejar.
D. Leonor encaminhou-se então para elrei, que, embebido no seu
profundo scismar, não víra nem ouvíra o que se fazia ou dizia.
Curvando-se, e firmando o cotovello no braço da cadeira d'elrei
encostou a cabeça sobre o hombro delle, com a face unida á sua.
"Que tens tu, Fernando?--perguntou ella com essa inflexão de
voz meiga, que só sabem labios de esposa que muito ama, mas com
que tambem soubera atinar esta mulher sublime de hypocrisia.
"Nada! oh ... nada!"--respondeu elrei, lançando-lhe o braço ao
redor do pescoço, e apertando a face incendiada aquelle rosto
de anjo, que dissimulava um coração de demonio.
Os dous tenues reflexos da lua tinham esmorecido nos olhos de
D. Fernando: o halito de Leonor Telles queimára as lagrymas da
compaixão e do remorso.
"Enganas-me, ou enganas-te a ti proprio, Fernando!--replicou
a rainha.--Tu és infeliz, e eu sei porque o és. Aborreces já a
pobre Leonor Telles."
O tom com que estas palavras foram proferidas era capaz de partir
um coração de marmore.
"Enlouqueceste, Leonor?--exclamou el-rei.--Aborrecer-te? Sem
ti este mundo fôra para mim um ermo, a corôa martyrio, a vida
maldicção de Deus. Como nos primeiros dias dos nossos amores,
no leito da morte amar-te-hei ainda. Gloria, riqueza, poderio,
tudo te sacrifiquei: não me pêsa. Mil vezes que tu o queiras
t'o sacrificarei de novo."
"Oh, prouvera a Deus que o teu amor fosse metade do que dizes:
fosse metade do meu!"
"Busca, inventa, aponta-me algum modo de te provar o que digo,
e verás se as minhas palavras são sinceras!"
"Ha um, rei de Portugal!"--replicou Leonor Telles, em cujos olhos
scintillava o contentamento.
Dizendo isto ella se affastára d'elrei. O seu aspecto tomou
subitamente a expressão grave e severa de uma rainha. A um gesto
que fez, Nunalvares ergueu o reposteiro, e o corregedor da côrte
entrou. Trazia na mão um pergaminho aberto. Chegou ao pé de Leonor
Telles, ajoelhou e entregou-lh'o.
A rainha pegou nelle, e apresentou-o a el-rei: o donzel trouxe
uma das tochas que estavam nos angulos do aposento, e collocou-se
á esquerda da cadeira de D. Fernando.
"A prova do que dissestes, rei de Portugal, está em estampardes
no fim desse pergaminho o vosso sello de puridade.[4]"
D. Fernando recebeu o pergaminho e começou a ler: a cada uma das
extensas linhas que o obrigavam a descrever um semi-circulo com
o raio visual, o tremor das suas mãos se tornava mais violento,
as contracções do seu rosto mais profundas. Antes de acabar de
ler atirou o pergaminho ao chão, e com voz terrível exclamou,
cravando os olhos reluzentes em Leonor Telles:
"Mulher, que me pedes tu?"
"Justiça, e as minhas arrhas."
Era a primeira vez que elrei ousava resistir á vontade de Leonor
Telles. Ella ainda não o cria. Habituada a ser obedecida pelo
pobre monarcha, estas ultimas palavras foram proferidas com a
insolencia de uma resolução incontrastavel.
"Justiça? Contra quem a pedes? Contra cadaveres e moribundos.
As tuas arrhas? Tiveste em dote as mais formosas villas de meus
senhorios: tiveste o que mais desejavas, as arrhas de sangue
e ruinas. Para te contentar, deixei Lisboa entregue ao furor
d'inimigos: para te contentar, fui vil e fraco: para te contentar,
dos patibulos já têm pendido sobejos cadaveres[5]. E ainda não
satisfeita, pretendes que antes de dormir uma unica noite na
minha capital assolada, confirme uma sentença de morte? Leonor!
tu eras digna de ser filha de meu implacavel pae!"
D. Leonor repellíra o olhar, entre colerico e timido, de Fernando,
que mal acreditava a própria audacia, com um olhar em que se
misturava a indignação e o despreso. Ella ouvira as suas palavras
sem mudar de aspecto, mas apenas elrei acabou, encaminhou-se para
a janella d'onde batia o luar, e estendeu a mão para o céu: