[4] Os cavalleiros quando se punham a caminho costumavam

cavalgar em mulas, como animaes mais rijos e possantes que os

cavallos; nestes montava um pagem ou donzel. Veja-se principalmente

a lei de D. Afonso III sobre os que vão a cas de elrei.

[5] Aquelles que não conhecerem as opiniões, estado de

civilisação, e costumes da idade média, medirão o thesoureiro-mór

D. Judas por um ministro de fazenda moderno, como, se não nos

engana a memoria, lhe chama com uma ignorancia deliciosa o marquez

de Pombal em uma lei sobre os christãos-novos, e acharão inverosimil

a scena antecedente, posto que esteja bem longe d'isso. A falta de

christãos habilitados para tractarem materias de fazenda publica,

obrigou os reis portuguezes a despresarem a lei das côrtes de 1211,

que os inhibia de empregarem judeus no seu serviço. Mas esta

necessidade não podia destruir o profundo desprezo em que se tinha

esta raça, olhada como abominavel em consequencia das convicções

politicas e religiosas daquelles tempos, despreso que em grande parte

assentava em bons fundamentos. A idéa que se fazia de um judeu na

idade média acha-se expressa na lei 23.ª daquellas côrtes, e pinta

melhor o pensar dessas eras a similhante respeito do que tudo quanto

podessemos aqui escrever. "Os quaes judeus (diz o legislador) assy

como testemunho da morte de Jesu-Christo devem a seer defesus,

solamente porque som homeês." Juncte-se a isto o caracter cruel,

hypocrita e cubiçoso de D. Leonor Telles, tão excellentemente

pintado pelo grande poeta chronista Fernão Lopes, e poder-se-ha

então avaliar devidamente a verosimilhança desta scena de imaginação

no meio de outras scenas da vida real desses tempos.

MESTRE BARTHOLOMEU CHAMBÃO

Fr. Roy, saíndo da casa das arcas, atravessára os corredores

vizinhos; mas, em vez de seguir o que dava para o passadiço de

S. Martinho, tomára por uma escadinha escura aberta no topo da

estreita passagem anterior a elle. Esta escadinha descia para o

atrio do paço. O beguino, habituado pelo seu ministerio a entrar

na morada real ás horas mortas, e a saír nas menos frequentadas,

sabia por diuturna experiencia que a porta principal devia estar

aberta, mas ainda erma, ao mesmo tempo que a igreja, por onde

entrára, já começaria a povoar-se de fiéis, porque, como é facil

de suppôr, as igrejas eram naquella epocha mais frequenfadas que

hoje. Desceu, pois, com passo firme, resolvido a encaminhar-se

ao rocío, e a espalhar entre os amotinados a noticia da partida

d'elrei.

Mas uma difficuldade imprevista lhe embargou os passos. Ou fosse

que os acontecimentos da vespera obrigassem a maiores cautelas,

não havendo ainda então exercito permanente, nem guardas pagas

para defensão da pessoa real, cuja melhor protecção estava na

propria espada, ou fosse por qualquer outro motivo, a porta ainda

se não abríra! O beguino hesitou se devia retroceder para sair

pela igreja, se esperar. As considerações que o tinham movido

a seguir este caminho o obrigaram a ficar. Mettido no estreito

e escuro vão da escada, o ichacorvos assemelhava-se, involto

nas suas roupas de burel, e reluzindo-lhe os olhos á meia luz

que dava o pateo interior, a um moderno funccionario, que hoje,

nesses mesmos paços, e n'um desvão igual, talvez no mesmo sitio,

mostra aos que entram o rosto banhado na hediondez da sua alma,

esperando que a vindicta publica o convide a algum banquete de

carne humana, e no esperar atroz rodêa com as garras os ferros

do seu covil, como um tigre captivo. O espia era alli, por assim

dizer, uma preexistencia, uma harmonia pre-estabelecida do algoz.

Passára obra de meia hora, e o beguino começava a impacientar-se

mui seriamente quando sentiu pés de cavalgadura no pateo interior do

edificio. D'ahi a pouco um donzel, trazendo na mão uma desconforme

chave, e as rédeas de uma valente mula enfiadas no braço, chegou á

porta e começou a abri-la. Era um dos donzeis d'elrei. Costumado

a disfarçar a sua frequente entrada no paço sob a capa da

mendicidade, e habituado a estender a mão á espera de alguns

soldos que devotamente lhe atiravam senhores, cavalleiros e

escudeiros, ao que elle retribuia com a longa lenda das suas

orações em aleijado latim, Fr. Roy era acceito a quasi todos

os moradores da casa d'elrei, que respeitavam a sua apparente

sanctidade. Por isso, saindo do seu desvão, encaminhou-se para

a porta.

"A madre Sancta Maria vos guarde de máu olhado, de feitiços e

de ligamentos:--disse elle, chegando-se ao donzel, e fazendo

sobresair esta ultima palavra.

"Vós aqui, Fr. Roy. por estas horas?--replicou o donzel, voltando-se

admirado.

"Que quereis!--tornou o beguino.-Quando hontem os maldictos burguezes

accommetteram os paços reaes com sua grita e revolta, estava eu

aqui. Ai que medo tive! Escondi-me naquelle desvão, e quando

se fecharam as portas achei-me encurralado cá dentro como um

emparedado em seu nicho. A minha profissão de paz e de religião

não me consentia passar por meio de homens possuídos do espirito

de colera, e inspirados por Belzebuth, nem o susto me deixava

animo desaffogado para ir roçar o burel do meu santo habito pelos

trajos empestados dos filhos de Belial. Tambem a humildade e

mortificação christan se oppunham a que eu subisse a pedir gasalhado

a algum de vós outros os moradores da casa de nosso senhor elrei.

Assim, louvando a Deus por me conceder uma noite de padecimento,

alli me deixei ficar sohre as lageas humidas, sobre as duras e

agudas arestas dos degráus daquella escada. Agora, que a revolta

é finda, consolado com as dores que me traspassam os ossos, e

confiado na providencia de Jesu-Christo, vou-me ao meu gyro diario

para vêr se obtenho da caridade dos devotos a pitança usual com

que possa matar a fome de vinte e quatro horas, pela qual dou

mil louvores ao justo juiz, que reina eternalmente nos altos

céus."

O beguino revirou beatificamente os olhos, e fez uma visagem entre

afllicta e resignada, levando ao mesmo tempo a mão ao joelho,

como se alli sentisse uma dor agudissima.

"Veneravel Fr. Roy!--atalhou o donzel com as lagrymas nos olhos--se

tivesseis procurado o aposento dos donzeís, nós vos dariamos

ao menos um almadraque para repousar, e repartiriamos comvosco

da nossa cêa. Mas o mal esta feito, e o peior é que para hoje

não vos posso offerecer abrigo. Vós crêdes, sancto homem, que a

revolta é finda, e nunca ella esteve mais accesa. Sua senhoria

vae partir já da cidade ..."

"Sancta Maria val! Sancto nome de Jesus! Accorrei-nos, virgem

bemdicta!--interrompeu Fr. Roy.--Pois os populares teimam em

sua assuada, e elrei deixa-nos aos coitados de nós, humildes

religiosos e cidadãos pacificos, entregues ao furor dos peões?"

"E que remedio, bom Fr. Roy?!--replicou tristemente o donzel.--Sem

cavalleiros, escudeiros e bésteiros não se faz guerra, nem se

desfazem assuadas, e nada d'isto tem elrei. Agora vou eu ao rocío

avisar os senhores do conselho, os privados e fidalgos que lá

estão, que sigam caminho de Santarem, sob pena de incorrerem

em caso de traição se ficarem em Lisboa, por signal que elrei

me recommendou procurasse avisar primeiro que ninguém sua mercê

o infante D. Diniz."

"No rocío, dizeis vós?--tornou o beguino arregalando os

olhos.--Confesso que vos não entendo."

Durante este dialogo o donzel tinha acabado de destrancar a porta

do paço, cavalgado na mula que trazia de rédea, e saído ao terreiro

seguido de Fr. Roy, que coxeava, estorcia-se, e suspirava

dolorosamente de quando em quando. Passo a passo, e sofreando

a mula, caminho da sé, o pagem narrou ao beguino todas as

particularidades succedidas aquella manhan, as quaes Fr. Roy

sabia melhor do que elle. Chegados defronte dos paços do concelho,

o pagem tomou pelo sopé da alcaçova e Fr. Roy pela porta do ferro,

não sem terem primeiro saído da bolça do donzel para a manga

do beguino alguns pilartes[1], e da bôca deste para os ouvidos

daquelle alguns latinorios pios devidamente escorchados.

Apenas passára o largo da sé e transpozera a velha e soturna

porta do ferro, Fr. Roy se achára perfeitamente sarado do seu

tão agudo rheumatismo. Ligeiro como um galgo, desceu por entre

as antigas terecenas reaes, e em menos de tres credos estava no

pelourinho[2] Ahi viu cousa que o fez parar. Um homem vestido

de valencina, e coberta a cabeça com um grande feltro, arengava

a um troco de bésteiros e peões armados de lanças ou ascumas, de

almarcovas ou cutellos: tinha nas mos um desconforme montante, e

na cincta uma espada curta: a turba ora o escutava attentamente,

ora prorompia em gritos confusos e estrondosos. Fr. Roy chegou-se.

O homem do feltro amplo era o mestre tanoeiro Bartholomeu Chambão,

que enthusiasmado proseguia o seu vehemente discurso sem reparar

no beguino:

"Já vo-lo disse: d'aqui ninguém bóle pé antes d'elrei nosso senhor

saír para S. Domingos. Nada de bulha fóra de sazão, que lá estão

os esculcas. Daremos mostra ao paço quando ahi fôr só a adultera.

Se, como hontem, nos fecharem as portas, isso é outro caso. É

preciso que isto se desfaça. A cobra peçonhenta deve saír da

toca. Não digo que então não seja possivel esmagar-se-lhe a cabeça...

N'um brandir de ascuma... Mas cautela, não haja sangue!...

Pelo menos de innocentes... Leaes e esforçados cidadãos desta

mui leal cidá... Sáfa, bruto!"

Esta peroração inesperada com que mestre Bartholomeu interrompêra

o seu discurso, que se ía elevar ao ápice da eloquencia, procedêra

de lhe ter descido a grossa e espaçosa mão do ichacorvos sobre o

hombro, que lhe vergára como se houvessem descarregado em cima

delle uma aduella de cuba. A Fr. Roy occorrêra uma idéa abençoada,

a de communicar a mestre Bartholomeu a nova que D. Leonor lhe

recommendára espalhasse entre os amotinados; a nova da sua partida

de Lisboa com elrei. O mendicante sabía que o tanoeiro era homem de

bofes lavados, e que dentro de meia hora a noticia teria corrido

toda a cidade. Assim se esquivava não só a ser visto no rocío

pelo donzel, de quem naquelle instante se apartára, mas tambem

a achar-se involvido em qualquer desordem que semelhante noticia

poderia produzir, attenta a irritação dos animos. Além d'isto

a lembrança do arripio dorsal, que as ultimas palavras de D.

Leonor lhe tinham causado, lhe fazia quasi desejar que o tanoeiro,

encarregado (segundo percebêra do fim da sua arenga) da commissão,

que, na taberna de Folco Taca, Diogo Lopes incumbíra a Fernão

Vasques, podesse ainda desempenha-la, atalhando a fuga de D.

Leonor. Estas considerações que lhe haviam passado rapidamente

pelo espirito, e o vêr que mestre Bartholomeu não levava geito

de acabar, o moveram a falar ao tanoeiro, que só o sentíra quando

elle lhe descarregára sobre o hombro a ponderosa mas amigavel

palmada.

"Com mil e quinhentos satanazes!--exclamou mestre Bartholomeu,

voltando-se e vendo ao pé de si o beguino.--Sabia que a mão da

sancta madre igreja era pesada; mas não pensava que o fosse tanto!

Que me quereis, Fr. Roy?"

"Dizer-vos que podeis mandar saír vossos esculcas de sua atalaia;

porque poderiam chegar a curtir o inverno ahi antes de verem

elrei chegar e passar para S. Domingos."

"Fr. Roy,--replicou o tanoeiro, fazendo-se vermelho de colera--para

interromper-me com uma de vossas bufonerias não valia a pena de

me aleijardes este hombro!"

"Tomae como quizerdes as minhas palavras; chamae-me o que vos

aprouver, bufão ou mentiroso, mas a verdade é que não será hoje

que os populares falarão com elrei."

"Pois quê, morreu dos feitiços da adultera, ou lornou-o invisivel

algum encantador seu amigo?"

"Nem uma cousa nem outra: mas com estes olhos de grande peccador

(aqui o ichacorvos fez o gesto habitual de cruzar as mãos sobre

o peito) eu o vi sair para a banda da portada cruz..."

"Fr. Roy, olhae que estes honrados cidadãos vos escutam, e que

o auto é mui grave para gastar truanices."

"Já disse, mestre Bartholotmeu, que falo verdade. Pelo bento

cercilho do sancto-padre vos juro que hoje elrei não dormirá em

Lisboa, segundo o geito que lhe vejo. Elle cavalgava uma possante

mula de caminbo; n'outra ia uma dona coberta com um longo véu:

seguiam-no donzeis, falcoeiros e moços de monte. Ao passar ainda

lhe ouvi estas palavras:--olhae aquelles villãos traidores como

se junctavam: certamente prender-me quizeram, se lá fora[3]!--Não

pude perceber mais nada. Que mais, porém, é preciso? Deixastes

fugir a prêa: agora catae-lhe o rasto."

"Traidor é elle, que nos ha mentido como um pagão!--bradou o

tanoeiro sopesando o montante.--Mas que se guarde de outra vez

trazer a Lisboa a adultera! Rainha ou barregan, arrancar-lhe-hemos

os olhos. A arraya-miuda foi escarnida; mas não o será em vão.

Que dizeis vós outros, honrados burguezes?"

"Escarnidos, escarnidos!--respondeu com grande grila o tropel.--Mas

à fé que nunca a adultera será rainha de Portugal. Morra a comborça!"

E no meio da alarida, as pontas das lanças e os largos ferros

das almarcovas agitadas nos ares scintillavam aos raios do sol

oriental como um vasto brazido.

"Ao rocío! ao rocío!--gritou mestre Bartholomeu.--Vamos, rapazes:

já que não fazemos aqui nada, ao menos que o povo não seja por

mais tempo burlado!"

E pondo o montante ás costas, mestre Bartholoraeu tomou por uma

das ruas que davam para a banda de Valverde, seguido da turbamulta,

e sem fazer caso de Fr. Roy, que procurava rete-lo, ponderando que

ainda poderia alcançar elrei e fazê-lo retroceder. O tanoeiro, porém,

não tinha valor para affrontar-se face a face com D. Fernando, e

por isso fingiu não ouvir o beguino, que dentro de alguns minutos

se achou só no meio do terreiro calado e deserto.

Entretanto juncto a S. Domingos, se bem que a rixa começada entre

os nobres partidários de Leonor e Fernão Vasques se houvesse

desvanecido, a agitação dos populares, cujo numero crescia

continuamente, não tinha diminuido. Encostado a um dos pilares

do alpendre, o alfaiate ora lançava os olhos de revés para os

senhores da côrte e conselho, que, esperando por elrei, passeiavam

de um para outro lado, ora os espraiava por aquelle mar de vultos

humanos, que elle sabía poder agitar ou tornar immoveis com uma

palavra ou com um simples aceno. Semelhante á hora que precede

a procella, em que apenas se vêem correr na atmosphera abalada

os castellos encontrados de nuvens densas e negras, e se ouve o

estourar dos trovões roufenhos e prolongados, aquella hora que

então passava era espantosa e ameaçadora de estragos, sobretudo

quando, após um rugido terrivel do tigre popular, se fazia na

praça apinhada de gente um silencio ainda mais temeroso e tetrico.

Foi n'uma destas interrupções do motim que um pagem, saíndo ao

galope do lado da corredoura, veio apear-se juncto do alpendre,

e tirando da cincta um pergaminho aberto o entregou ao infante

D. Diniz.

Este fitou os olhos na escriptura, descórou subitamente, e entregou

o pergaminho a Diogo Lopes, dizendo-lhe ao mesmo tempo em voz

baixa:

"Estamos perdidos!"

Diogo Lopes leu o conteúdo naquelle escripto fatal, e no mesmo

tom respondeu ao infante:

"O caminho de salvação que nos resta é o de Santarem. Obediencia

e circumspecção!"

O pergaminho passou rapidamente de mão em mão: os fidalgos, letrados,

e cavalheiros fizeram um circulo no meio do alpendre: e, depois

de o haverem lido, fitaram uns nos outros olhos desassocegados.

Todos receiavam falar. O manhoso Pacheco foi o primeiro que se

atreveu a isso, aproveitando habilmente a hesitação dos outros

fidalgos e conselheiros.

"Vistes a ordem d'elrei. Como um dos mais velhos entre nós, direi

meu parecer. Embora o risco seja grande achando-nos cercados de

povo armado e furioso, o nosso dever é pôr a vida por obedecer

a nosso senhor elrei."

"Mas,"--atalhou o doutor Gil d'Ocem, que por mui letrado e prudente

era ouvido como oraculo pelos cortezãos--"o caso é grave: o povo

se nos vir retirar enviar-se-ha a nós: se lhes dizemos o motivo

da nossa partida é capaz de desconcertos maiores que os já

commettidos."

"Sua senhoria não devêra ter-nos emprasado para este auto, se a

sua intenção era não dar resposta aos populares."

Visivelmente o doutor em leis e degredos estava tomado de medo,

no que não levava vantagem á maior parte dos outros membros do

conselho real.

O conde de Barcellos guardava silencio. Não podia conceber como

D. Leonor o não avisára a tempo, e por isso preoccupava-o a

indignação, ignorando que a resolução da fuga fôra tomada mui

tarde. Na vespera elle aconselhara a elrei que cedesse a tudo

quanto o povo quizesse; porque dissolvido o tumulto, facil era

chamar á côrte os senhores e cavalleiros de mais confiança,

acompanhados de gente do guerra, com que seria sopitado qualquer

motim, se os populares ousassem oppôr-se de novo á vontade de

seu rei e senhor. D. Fernando aceitára o conselho, que, se não

era o mais leal, era ao menos o mais seguro; mas as revelações

do ichacorvos, que o conde ignorava, tinham mudado, como o leitor

viu, a situação do negocio.

A reflexão de Gil d'Ocem estava em todas as cabeças, e por isso

os cortezãos ficaram outra vez em silencio, como buscando um

expediente para sair daquelle difficultoso passo: a incerteza,

o despeito, o receio pintava-se nos rostos demudados de muitos.

E as vagas do oceano, que ameaçava traga-los, encapellavam-se

aos pés deites: o povo, vendo os fidalgos erguidos e mudos n'um

circulo, apinhava-se cada vez mais basto ao redor da alpendrada.

Isto fazia crescer o temor, e o temor perturbava demais os animos

para não poderem achar um expediente acertado.

Era por isso que esperava o astuto Pacheco.

"De um lado a colera do povo: do outro os mandados delrei--disse,

apertando com a mão a fronte, o velho conselheiro de Affonso

ÍV.--Resta-nos só um arbitrio."

"Dizei, dizei!--clamaram a um tempo todos, á excepcão do conde

de Barcellos, que fitou nelle os olhos desconfiados.

"É necessário que annunciemos a nova da partida d'elrei, e que

sejamos os primeiros a affeíar este procedimento: é necessário

que vamos adiante da indignação dos peòes. Depois dir-lhes-hemos

que, burlados como elles, nada fazemos aqui. Então apartar-nos-hemos

sem susto, e sairemos da cidade como podérmos, na certeza de que

não serei eu o ultimo, apesar de velho, que cruze as portas da

alcaçova de Santarem."

"Mas quem ha-de falar em nosso nome?--perguntou Gil d'Ocem.

"No vosso, mestre Gil das Leis!--interrompeu o conde de

Barcellos.--Nem o receio das affrontas do alguns milhares de

sandeus, nem o da propria morte me obrigaria a cuspir maldicções

sobre o nome daquelle a quem uma vez jurei preito e leal menagem."

"Viram impendere vero nemo tenetur"--replicou Gil d'Ocem--"ou,

como quem o dissesse por linguagem, ninguém é obrigado a deixar-se

matar por amor da verdade ou de seu preito. Vós fazei o que vos

aprouver."

Á auctoridade de um texto latino trazido assim a ponto por um tão

insigne doutor, não havia resistir. Os fidalgos e conselheiros

approvaram quasi unanimente o alvitre de Diogo Lopes.

"Mas quem ha-de falar ao povo?--insistiu o mestre em leis, que

não parecia excessivamente inclinado a incumbir-se dessa gloriosa

tarefa.

"Eu, se assim o quizerdes"--replicou immediatamente Diogo Lopes.

O manhoso cortesão vira claramente que a partida d'elrei transtornava

todos os seus desenhos: todavia calculára n'um momento como,

sem suscitar a indignação de Fernão Vasques, e por consequencia

alguma revelação perigosa, podia salvar-se e ao infante. Logo

que elrei se esquivára á influencia do povo, de cuja ousadia o

velho esperava tudo, o casamento de D. Leonor era inevitavel,

e ainda suppondo, o que não era de esperar, que o tumulto fosse

avante, que Lisboa se rebellasse claramente contra D. Fernando,

o resultado da guerra civil tinha muito maior probabilidade de

ser favoravel a elrei, senhor do resto de Portugal, que ao povo,

desprovido naquella conjunctura dos principaes meios com que

poderia sustentar uma lucta intestina. Assim, o alvitre que

offerecêra para a salvação dos cortezãos era só para se haver de

salvar a si, conservando ao mesmo tempo a affeição dos cabeças

da revolta, sem que o meio que para isso devia empregar o fizesse

decahir da graça de D. Fernando.

Para os calculos de Diogo Lopes faltáro, porém, um elemento:

era a delação do beguino; e era justamente, esta falta que os

destruia todos. Assim é a politica.

O sacrifício de Diogo Lopes foi geralmente recebido com approvação

e agradecimento. Então elle, saíndo do circulo, aproximou-se a

Fernão Vasques, que de quando em quando volvia os olhos inquietos

para a pinha dos fidalgos e cavalleiros.

"Falhou a traça:--disse o velho cortezão em voz sumida ao

alfaiate.--Elrei acaba de saír da cidade."

Fernão Vasques recuou, e poz-se a olhar espantado para Diogo Lopes,

como quem não acreditava o que ouvia.

"O que vos digo é a verdade,--continuou Pacheco.--Mas não affrouxar!

Elrei de Castella é por nós, e bom numero de fidalgos portuguezes

o são tambem. Mais; são por nós a maior parte dos que ora aqui

vêdes presentes. Conservae o bom animo do povo, e fiae o resto

de mim e ... de quem vós sabeis."

Ao pronunciar estas palavras, Diogo Lopes lançou de relance os

olhos para D. Diniz.

"Mas elrei tomará por mulher D. Leonor--acudiu o alfaiate

aterrado:--voltará a Lisboa com seus cavalleiros e homens d'armas,

e então coitados de nós!"

"Não temaes: o matrimonio adultero será condemnado pelo papa. Vós

já tereis ouvido contar o que succedeu a elrei D. Sancho: a D.

Fernando póde succeder o mesmo. Tambem os fidalgos de Portugal têem

homens d'armas. Podeis estar certo de que não vos abandonaremos.

Agora resta uma cousa. Coube-me a mim dar esta triste nova aos bons

e leaes burguezes, que tão ousadamente se oppozeram á deshonra

da sua terra e de seu rei, e eu devo ser ouvido por elles.

Mandae-lhes que façam silencio."

Fernão Vasques obedeceu: o ruído dos populares, que não descontinuára

durante esta scena, acalmou a um aceno do alfaiate.

Diogo Lopes fez então um largo discurso, com o qual não cansaremos

os leitores, que pouco mais ou menos terão previsto como seria.

Misturando amargas reprehensões contra D. Fernando com lisonjas aos

populares, procurou persuadi-los, posto que indirectamente, de que

toda a fidalguia estava cheia de indignação. Alludiu á resistencia

por armas que elrei podia encontrar entre os ricos-homens de

Portugal contra o seu casamento, e no caso de vir este a cabo,

a probabilidade de ser annullado pelas censuras da igreja. Emfim,

sem nunca lhes dizer claramente que insistissem na revolta, e

tractassem, se fosse preciso, de defender a cidade contra o poder

real, suscitou todas as idéas que podiam levar os populares a

este excesso. Faltava o ponto difficultoso; o da partida dos

fidalgos. Pacheco soube com a mesma ambiguidade dar esperanças

aos peões de que elles se encaminhavam para suas alcaidarias

e honras com o louvavel intento de se aperceberem em soccorro

dos burguezes de Lisboa, e com tal arte o fez, que os senhores

e cavalleiros que se achavam em S. Domingos, sem exceptuar o

proprio conde de Barcellos, não viram nas suas palavras senão

uma feliz inspiração para os salvar da colera da arraya-miuda.

Durante aquella larga arenga esta guardára silencio, interrompido

a espaços por um desses borborinhos, que são como os annuncios

das erupções do volcão popular. Pacheco, emfim, concluiu: mas

o espectaculo que tinha diante de si o fez ficar immovel por

alguns momentos; e estes foram terriveis. Aquelles centenares de

olhos avermelhados, scintillantes de furor, eravados nelle e nos

outros fidalgos; aquellas bôcas semi-abertas prestes a proromper

em brados de morte, eram como um pesadello diabolico, como uma

vertigem de loucura. Os populares pareciam ainda escuta-lo, e

não poderem acreditar a deslealdade de D. Fernando de Portugal.

Lendas e Narrativas (Tomo I) · 第 6 / 13 段