"Senhor Fernão Vasques, sois o nosso propoedor: a vós toca o

falar!"--replicou um do povo.

"Assim o queremos! assim o queremos!"--bradou a turbamulta.

O alfaiate voltou-se então para os cortezãos, conselheiros e letrados

do desembargo d'elrei, e disse:

"Senhores, a mim deram carrego estas gentes que aqui estão junctas,

de dizer algumas cousas a elrei nosso senhor, que entendem por

sua honra e serviço; e porque é direito escripto, que sendo as

partes principaes presentes, o officio de procurador deve de

cessar no que ellas bem souberem dizer, vós outros que sois

principaes partes neste feito, e a que isto mais tange que a

nós, devieis dizer isto, e eu não; porém, não embargando que

assim seja, eu direi aquillo de que me deram carrego, pois vós

outros em ello não quereis pôr mão, mostrando que vos doeis pouco

da honra e serviço d'elrei....[9]"

"Cal-te, villão!--bradou, erguendo-se, o conde de Barcellos com

voz affogada de cólera, que já não podia conter--se não queres

que seja eu quem te faça resfolgar sangue, em vez de injurias,

por essa bôca sandia."

O velho Pacheco pôz-se tambem em pé, exclamando: "Conde de Barcellos,

lembrae-vos de que os burguezes têem por costume antigo o direito

de dizerem aos reis seus aggravamentos, de se queixarem, e de

os reprehenderem. Nós somos menos que os reis."

Fernão Vasques tinha-se entretanto voltado para o povo apinhado

ao redor do alpendre, com o rosto enfiado, mas era de indignação,

e havia feito um signal com a cabeça. No mesmo instante o povo

abríra uma larga clareira, e quando os fidalgos e conselheiros,

attentos para o conde e para Diogo Lopes, voltaram os olhos para o

rocío ao tropear da multidão, um semi-circulo de mais de quinhentos

bésteiros e peões armados fazia uma grossa parede em frente dos

populares.

Fernão Vasques encaminhou-se então para D. João Affonso Tello, e

com a mão trémula de raiva, segurando-o por um braço, disse-lhe:

"Senhor conde, vós sois que doestaes os honrados burguezes desta

leal cidade em minha pessoa; porque eu nada fiz senão repetir

em voz alta o que cada um e todos me ordenaram repetisse. O que

propuz, não é meu. Eis seus auctores! Pelo que a mim toca, senhor

conde, nào receio vossas ameaças. Quando o nobre despe o gibão

de ferro para vestir o de tela, não sei eu se este é mais forte

que o do peão, e se também a sua bôca não póde golfar sangue

como a de um pobre villão."

D. João forcejava por desasir-se do alfaiate, procurando levar

a mão á cincta onde tinha o punhal; mas Fernão Vasques era mais

forçoso, e o conde já tinha entrado na idade em que costuma minguar

a robustez do homem. Não pôde chegar com a mão ao cincto.

"Conde de Barcellos:--proseguiu o alfaiate com um sorriso--não

recorraes a esse argumento; porque eu também estou habituado

a lidar com ferros azerados, ainda que mais delgados e curtos

que o vosso bulhão."

Estas ultimas palavras, dictas em tom de escarneo, mal foram

ouvidas: a grita na praça era já espantosa; as injurias, as pragas,

as ameaças, cruzando-se nos ares, produziam aquelle rouco e grande

brado da fúria popular, que só tem semelhança com o ruído de

tufão abysmando-se por cavernas immensas.

Os fidalgos e letrados tinham rodeado os dous contendores; os

parciaes de D. Leonor o conde; os outros, cujo numero era muito

maior, o alfaiate. E tanto estes como aquelles trabalhavam em

apazigua-los, posto que todos os animos estivessem quasi tão

irritados como os dos dous contendores.

Finalmente o conde cedeu. O aspecto da multidão, que se agitava

furiosa, contribuiu, porventura, mais para isso que todas as

razoes e rogativas dos fidalgos e cavalleiros, attonitos com o

espectaculo da ousadia popular; desta ousadia que, menoscabando

as ameaças do primeiro entre os nobres, era mais incrivel que

a da vespera, a qual apenas se atrevêra ao throno.

Que fazia, porém, o nosso beguino no meio destes preludios de

uma eminente assuada? É o que o leitor verá no seguinte capitulo.

[1] Hoje o monte da Graça.

[2] Hoje o bairro dentro da rua larga de São Roque, Chiado,

Rua do Ouro, Rocio e Calçada do Duque.

[3] Hoje Rua dos Capellistas

[4] Muitos dos trajos civis do seculo decimo-quarto eram

communs a ambos os sexos, ou pelo menos tinham nomes communs,

como se póde vêr da lei de D. Affonso IV ácerca dos trajos.

[5] D. Beatriz era irman dos infantes D. João e D. Diniz

e meia irman d'elrei.

[6] O titulo de conde era o de maior preeminencia entre

nós, e João Affonso Tello era então o unico que em Portugal tinha

semelhante titulo.

[7] Açoutados.

[8] Segundo varios quadernos legaes do nosso direito

consuctudinario e municipal, em certos casos applicava-se ás

mulheres casadas a pena de que resa o discurso do ferreiro. O

alcalde vinha a casa da criminosa punha no chão um travesseiro,

pegava d'uma vara e começava a bater em cima delle, fazendo-lhe

o compasso o marido da culpada nas costas desta: tal era o modo

por que as mulheres estavam ás varas, pena que com menos apparato

se applicava tambem aos homens por muitos e diversos crimes.

[9] Textual.--Veja-se Fernão Lopes, Chr. de D. Fernando,

cap. 61.

MIL DOBRAS PÉ-TERRA E TREZENTAS BARBUDAS

Mal Fernão Vasques travára do braço do conde de Barcellos, e a

grita popular começára a atroar a praça, Fr. Roy, escoando-se

ao longo da parede do mosteiro, dobrára a quina que voltava para

a Corredoura[1], e seguindo seu caminho por viellas torcidas

e desertas, chegára á porta do ferro, d'onde, atravessando o

contiguo e malassombrado terreirinho, em que os raios do sol

apenas rapidamente passavam, embargados ao nascer pelos agigantados

campanarios da cathedral, e ao declinar pelos pannos e torres

da muralha mourisca, chegára esbaforido a S. Martinho. A porta

do paço estava fechada; mas a da igreja estava aberta. Entrou.

Ao lado direito uma escada de caracol descia da tribuna real

para a capella-mór, e a tribuna communicava com o palacio por

um passadiço que atravessava a rua. O beguino olhou ao redor

de si, e escutou um momento: ninguém estava na igreja. Subindo

rapidamente a escada, Fr. Roy atravessou o passadiço e encaminhou-se,

sem hesitar no meio dos corredores e escadas interiores, para

uma passagem escura. No fim della havia uma porta fechada. O

monge vagabundo parou, e escutou de novo. Dentro altercavam tres

pessoas: Fr. Roy bateu devagarinho tres vezes, e pôz-se outra

vez a escutar.

Ouviram-se uns passos lentos que se aproximavam da porta; e uma

voz esganiçada e colerica perguntou;--Quem está ahi?"

"Eu:--respondeu o beguino.

"Quem é eu?--replicou a voz.

"Honrado D. Judas, é Fr. Roy Zambrana, indigno servo de Deus,

que pretende falar a elrei ou á mui excellente senhora D. Leonor,

para negocio de vulto."

"Abre, D. Judas, abre!"--disse outra voz, que pelo metal parecia

feminina, e que soou do lado opposto do aposento.

A porta rodou nos gonzos, e o ichacorvos entrou.

Era o logar em que Fr. Roy se achava uma quadra pequena, allumiada

escaçamente por uma fresta esguia e engradada de grossos varões

de ferro, a qual dava para uma especie de saguão, ainda mais

acanhado que o aposento. A abobada deste era de pedra; de pedra

as paredes e o pavimento: ao redor viam-se por unico adereço

muitas arcas chapeadas de ferro. O monge entrára na casa das

arcas da corôa--do recabedo do regno. As duas personagens que

ahi estavam, afóra a que abríra a porta, eram D. Fernando e D.

Leonor. Elrei, de pé, curvado sobre uma das arcas, com a fronte

firmada sobre o braço esquerdo, folheava um desconforme volume

de folhas de pergaminho, cujas guardas eram duas alentadas taboas

de castanho, forradas exteriormente de couro cru de boi, ainda

com pello[2].

D. Leonor, tambem em pé por detraz d'elrei, olhava attentamente

para as paginas do livro. O que abrira a porta era o thesoureiro-mór

D. Judas, grande affeiçoado de D. Leonor e valido d'elrei. O

judeu apenas voltára a ponderosa chave, sem volver sequer os

olhos para o recem-chegado, tornára immediatamente para ao pé

da arca a que elrei estava encostado, e proseguíra a vehemente

conversação, cujos ultimos ecchos Fr. Roy ouvíra ao aproximar-se...

"Mil dobras pé-terra e trezentas barbudas são todo o dinheiro

que o vosso fiel thesoureiro vos póde apurar neste momento,

respigando como a pobre Ruth no campo do vosso thesouro, ceifado,

e bem ceifado (aqui o judeu suspirou) por aquelles que talvez

menos leaes vos sejam. Jurar-vos-hei sobre a toura, se o quereis,

que não fica em meu poder uma pogeia."

Elrei não o escutava. Apenas Fr. Roy entrára, D. Leonor se havia

encaminhado para o ichacorvos, e, lançando-lhe um olhar escrutador,

lhe perguntára com visível anciedade:

"Beguino, a que voltaste aqui?"

"A cumprir com minha obrigação, apesar de vós me terdes dado

hontem por quite e livre. Vim a dizer-vos que a estas horas talvez

tenha já corrido sangue no rocío de Lisboa, e que é espantoso o

tumulto dos populares contra os do conselho, e contra os senhores

e fidalgos da casa e valia d'elrei."

Fôra á palavra sangue que D. Fernando havia cessado de attender

á voz esganiçada do thesoureiro-mór, que continuava em tom de

lamentação:

"Bem sabeis, senhor, que tenho empobrecido em vosso serviço, e

que hoje sou um dos mais mesquinhos e miseráveis entre os filhos

d'Israel. Aonde irei eu buscar dous mil maravedis velhos d'Alemdouro,

que são em moeda vossa trezentos e noventa mil soldos?[3]"

"Sangue, dizes tu, beguino?--exclamou elrei--Oh, que é muito!

A quem se atreveram assim esses populares maldictos?"

"Eu proprio vi o nobre conde de Barcellos travar-se com Fernão

Vasques; mui grande numero de bésteiros, e peões armados de ascumas

rodeavam já o alpendre de S. Domingos, e os clamores de morram

os traidores atroavam a praça."

"Que me dêem o meu arnez brunido, a minha capelina de camal, e o

meu estoque francez:--gritou D. Fernando escumando de colera.--Eu

irei a S. Domingos, e salvarei os ricos-homens de Portugal, ou

acabarei ao pé delles. Pagens! onde está o meu donzel d'armas?"

"O teu donzel d'armas, rei D. Fernando,--interrompeu com voz

pausada e firme D. Leonor--segue com os outros pagens caminho

de Santarem, montado no teu cavallo de batalha. Aqui só tens

a mula de teu corpo[4] para seguires jornada."

"Mas o conde de Barcellos! O meu leal conselheiro, deixa-lo-hei

despedaçar pelos peões desta cidade abominavel? Lembra-te de que

é teu tio; que foi o teu protector, quando o braço de D. Fernando

ainda se não erguêra para te coroar rainha."

"Rei de Portugal, és tu que deves lembrar-te delle, quando o

dia da vingança chegar. Então cumprirá que os traidores e vis

te vejam montado no teu ginete de guerra. Hoje não podes senão

deixar entregue á sua sorte o nobre D. João Affonso e os senhores

que são com elle; mas não te esqueça que se o seu sangue correr,

todo o sangue que derramares para o vingar será pouco, como serão

poucas todas as lagrymas que eu verterei sem consolação sobre

os seus veneraveis restos. Combateres? Ajudado por quem, n'uma

cidade revolta? Os homens d'armas do teu castello quebraram seu

preito, e tumultuam na praça: muitos de teus ricos homens estão

conjurados contra ti: teu proprio irmão o está. Partir! partir!

Ha quantas horas sabes tu que a ultima esperança está no partir

breve? Porque, depois de tantas hesitações, ainda hesitar uma

vez? Asseguremos ao menos a vingança, se não podermos salvar

aquelles que, leaes a seu senhor, se foram expôr á furia de homens

refeces e crús, para esconder nossa fuga... fuga; que é o seu

nome!"

O furor e o despeito revelavam-se nas faces e labios esbranquiçados

da adultera, e a afflicção e o temor comprimidos n'uma lagryma

que lhe rolou insensivelmente dos olhos. Era uma das rarissimas

que derramára na sua vida.

Elrei tinha escutado immovel. Desacostumado a ter vontade propria,

desde que (como dizia o povo) esta mulher o enfeitiçára, ainda

mais uma vez cedeu da sua resolução, se não de homem cordato,

ao menos de valoroso, e respondeu em voz sumida:

"Partamos. E seja feita a vontade de Deus!"

"Amen--murmurou o ichacorvos.

"Beguino,--interrompeu D. Leonor, voltando-se para Fr. Roy--corre

já ao rocío, e dize em voz bem alta aos populares amotinados, que

me viste partir com elrei caminho de Santarem. Talvez assim o conde

seja salvo, porque a furia desses vis sandeus se voltará contra

mim. Dize-o, que dirás a verdade: quando lá houveres chegado, o

meu palafrem terá já transposto as portas da cruz. Guardae-vos,

mesquinhos, que elle a torne a passar com sua dona. Ichacorvos! esse

dia será aquelle em que a adultera pague todas as suas dividas!"

Fr. Roy sentiu pela medula dorsal o mesmo calafrio que sentíra

na noite antecedente; porque o olhar que Leonor Telles cravou

nelle era diabolico, e a palavra--adultera--proferida por ella,

soava como um dobrar de campa, e vinha como involta n'um halito

de sepulchro: o beguino arrependeu-se desta vez mui seriamente

de ter sido tão miudo e exacto na parte official que apresentára

na vespera. Calou-se, todavia, e saíu com o seu ademan do costume,

cabeça baixa e mãos cruzadas no peito.

Os tres ficaram outra vez sós.

"D. Judas, meu bom D. Judas:--disse elrei com um gesto de

afflicção--eu não entendo estas embrulhadas letras mouriscas da

tua arithmetica. Estou certo de que não deves ao thesouro real

uma unica mealha, e de que nas arcas do haver não existe senão

o que tu dizes: mas de certo não queres que um rei de Portugal

caminhe por seu reino como um romeiro mendigo. Ao menos os dois

mil maravedis de ouro..."

"Ai!--suspirou o thesoureiro-mór--juro a vossa real senhoria

que me é impossivel achar agora outra quantia maior que a de mil

dobras pé-terra e trezentas barbudas."

"Fernando--atalhou Leonor Telles--ordena aos moços do monte que

ahi ficaram que enfreiem as mulas: devemos partir já. É tão meu

affeiçoado D. Judas, que com duas palavras eu obterei o que tu

não podeste obter com tantas rogativas."

Ella sorriu alternativamente com um sorriso angelico para elrei

e para o thesoureiro-mór. D. Fernando obedeceu, e, alevantando

o reposteiro que encobria uma porta fronteira áquella por onde

entrára o beguino, desappareceu. O thesoureiro ía a falar; mas

ficou com a bôca semi-aberta, o rosto pallido, e como petrificado,

vendo-se a sós com D. Leonor. Era que já a conhecia havia largos

tempos.

"D. Judas,--disse esta em tom mavioso--tu has-de fazer serviço

a elrei para esta jornada. Darás os dous mil maravedis velhos."

"Não posso!--respondeu D. Judas com voz trémula e afogada.

"Judeu!--replicou D. Leonor, apontando para um cofre pequeno,

que estava no canto mais escuro do aposento, coberto de tres

altos de pó--o que está naquella arca?"

O thesoureiro-mór hesitou um momento, e depois balbuciou estas

palavras:

"Nada ... ou para falar verdade... quasi nada. Bem sabeis que

d'antes eu alli guardava algumas mealhas que me sobejavam da minha

quantia, mas ha muito que nem essas poucas mealhas me restam."

"Vejamos, todavia:--tornou D. Leonor, cujo aspecto se carregava.

"Misericordia!--bradou D. Judas com indizivel agonia. Mas

reportando-se, por um destes arrojos que inspiram os grandes

perigos, procurou disfarçar o seu susto, continuando com um riso

contrafeito:

"Misericordia, digo; porque fôra mais facil achar entre os amotinados

do rocío um homem leal a seu rei, do que eu lembrar-me agora do

logar onde terei a chave de uma arca ha tanto tempo inutil e

vazia."

"Perro infiel! eu te vou recordar quem póde dizer onde as havemos

de achar."

"Estaes hoje, mui excellente senhora, merencoria e irosa:--replicou

o thesoureiro-mór, trabalhando por dar ás suas palavras o tom da

galantaria, mas visivelmente cada vez mais enfiado e trémulo,--Assim

chamaes perro infiel ao vosso leal servidor, por causa d'uma

chave inutil que se perdeu? Todavia, dizei quem sabe della, e

eu a irei procurar."

"Generoso e leal thesoureiro!--interrompeu D. Leonor, imitando

o tom das palavras do judeu, como quem gracejava--não te dês a

esse trabalho, por tua vida. Quem póde faze-la apparecer é um

velho cão descrido, que mora na communa de Santarem. Eu sei de

um remedio que lhe restituirá á lingua a presteza d'uma lingua

de mancebo de vinte annos. O seu nome e Issachar. Conhéce-lo?"

"Alta e poderosa senhora, vós falaes de meu pobre pae!--respondeu

o thesoureiro-mór, redobrando-lbe a pallidez.--Mas tractemos

agora do que importa. Com mil e quinhentas dobras pé-terra e

trezentas barbudas, que eu disse a meu senhor el-rei estarem

prestes..."

D. Leonor lançou para o judeu um olhar d'escarneo, e proseguiu:

"Do que importa é que eu tracto. Sabes tu, meu querido D. Judas,

que sejam as tuas dobras mil, ou mil e quinhentas, ámanhan a

estas horas eu D. Leonor Telles, a rainha de Portugal, estarei

em Santarem? Ouviste já dizer que, em não sei qual das torres

do alcacer, ha um excellente potro capaz de desconjuntar n'um

instante os membros do mais robusto villão? Veiu-me agora a idéa

que o velho Issachar amarrado a elle deve ser gracioso, porque

tendo vivido muito, constrangido a falar, ha-de contar cousas

incriveis, quanto mais dizer onde está uma chave, cujo paradouro

elle não póde ignorar. Não achas tu tambem que é folgança e desporto

digno de qualquer rainha o vêr como estouram os ossos carunchosos

de um perro de noventa annos?"

Um suor frio manou da fronte de D. Judas, cujas pernas vacillantes

se recusavam a suste-lo. Quando D. Leonor acabou de fazer as

suas atrozes perguntas, o judeu tinha cahido de joelhos aos pés

della.

"Por mercê, senhora,--exclamou elle n'um trance horroroso de

angustia--mandae-me açoutar como o mais vil servo mouro: mandae-me

rasgar as carnes com os mais atrozes tormentos; mas perdoae a

meu velho pae, que não tem culpa da pobreza de seu filho. Se

eu tivera ou podéra alcançar mais que as duas mil dobras e as

quinhentas barbudas que offereci a meu senhor elrei..."

"Judeu!--atalhou D. Leonor--tu deves saber tres cousas: a primeira

é que os tractos do potro são intoleraveis; a segunda é que eu

costumo cumprir as minhas promessas; a terceira é que se neste

momento de aperto eu te podesse applicar o remedio, não o guardaria

para a ossada bolorenta de um lebréu desdentado."

"Vendido cem vezes,--proseguiu o thesoureiro-mór lavado em lagrymas,

e procurando abraça-la pelos joelhos--eu não poderia apresentar

neste momento mais que a somma já dicta de duas mil e quinhentas

dobras, e quinhentas barbudas, ainda que vossa mercê me mandasse

assar vivo."

"És um louco, D. Judas!--interrompeu Leonor, affastando de si o

judeu com um gesto de brandura.--Por uma miseria de pouco mais

de quinhentas pé-terra consentirás que Issachar, que teu pae,

honrado velho! pragueje nas ancias do potro contra o Deus de

Abraham, de Jacob e de Moysés?"

O thesoureiro-mór conservou-se por alguns momentos calado, e na

postura em que estava. Depois, passando o braço de revés pelos

olhos, enxugou as lagrymas e ergueu-se. A resolução que tomára

era a de um desesperado que vae suicidar-se.

"Aqui estarão, senhora,--murmurou elle--os dous mil maravedis

quando os quizerdes. Procurarei obte-los; mas ficarei perdido.

Agora podeis dar ordem á vossa partida."

"Adeus, meu mui honrado D. Judas:--disse D. Leonor sorrindo.--Não

perderás nada em ter cedido aos meus rogos."

Dicto isto, saíu pela mesma porta por onde saíra elrei.

O judeu estendeu os braços com os punhos cerrados para o reposteiro

que ainda ondeava, levou-os depois á cabeça, d'onde trouxe uma

boa porção de melenas grisalhas. Feito isto, tirou da aljubeta

uma chave, abriu o cofre pequeno e pulverulento, sacou para fóra

um saquitel pesado, sellado e numerado, e os dous mil maravedis

rolaram sobre o grande livro, que ainda estava aberto sobre uma

das arcas. Contou-os quatro vezes, empilhou-os aos centos, e

como se as forças se lhe tivessem exhaurido no espantoso combate

que se passava na sua alma, atirou-se de bruços sobre a pequena

arca, e abraçado com ella desatou a chorar.

"Meu pobre thesouro, juncto com tanto trabalho!--exclamou por

fim entre soluços.--Guardei-te neste cofre com medo de te vêr

roubado, e os salteadores vim encontra-los aqui! Mas que se livrem

de eu tornar a receber os direitos reaes das mãos dos mordomos.

Meus ricos dous mil maravedis de bom ouro, não voltareis sósinhos

quando vos tornardes a ajunctar com os vossos abandonados

companheiros!"

Esta idéa pareceu consolar de algum modo D. Judas. Levantou-se,

tornou a contar os dois mil maravedis: desconfiou de que havia

engano, e que eram dois mil e um: tornou-os a contar, e quando

elrei entrou no aposento, já prestes para cavalgar, tinha o bom

do judeu obtido a certeza de que não dava uma pogeia de mais

da somma que lhe fôra requerida em nome do potro da torre de

Santarem[5].

"Oh,--exclamou elrei, lançando os olhos para cima do desalmado

folio, sobre cujas paginas amarelladas estava empilhado o dinheiro

--temos os dous mil maravedis?!"

"Saiba vossa real senhoria que felizmente tinha em meu poder

uma somma pertencente a Jeroboão Abarbanel, o mercador da porta

do mar, e de que não me lembrava: ao basculhar as arcas dei com

ella: a quantia está completa, e o honrado mercador não levará

por certo mais de cinco por cento ao mez, emquanto os ovençaes

de vossa senhoria não vierem entregar no thesouro o producto

dos direitos reaes vencidos. Então pagar-lhe-hei, até á ultima

mealha, a quantia e seus lucros, se vossa senhoria não ordena

o contrario."

"Faze o que entenderes, D. Judas:--respondeu elrei, que não o

ouvira, attento a metter n'uma ampla bolça de argempel, que trazia

pendente do cincto, os dous mil maravedis.--Tudo fio de ti,

honrado e Seal servidor."

E recolhidos os maravedis, saíu. O judeu ficou só.

"No inferno ardas tu com Dathan, Coré e Abiron, maldicto

nazareno!...--murmurou elle.--Porém não antes de eu haver colhido

os dous...quero dizer, os tres mil e duzentos maravedis, que me

tiraste com lanta consciencia quanta póde ter a alma tisnada

de um christão."

Feita esta jaculatoria ao Deus de Israel, D. Judas aferrolhou

interiormente a porta do reposteiro, atravessou o aposento, saíu

pela porta fronteira, que tambem aferrolhou, e a bulha de seus

passos, que se alongavam, soou através dos corredores por onde

passára Fr. Roy, até que por aquella parte do palacio tudo caíu

em completo silencio.

[1] A Corredoura era uma rua, que, passando ao sopé do

monte do Castello, e por detraz de S. Domingos, dava passagem do

centro da cidade para Valverde, (hoje passeio publico e Salitre).

[2] Para não enfadarmos os leitores com um sem numero de

notas declarâmos por uma vez que todos os costumes e objectos que

descrevemos são exactos e da epocha, porque para taes descripções

nos fundámos sempre em documentos ou monumentos.

[3] O maravedi velho de ouro ou de Alem Douro (chamado

assim para o distinguir do maravedi de 15 soldos, que era aquelle

pelo qual se regulavam as quantias dos que vingavam soldo ou

maravedis, a que se chamava da Estremadura) valia 27 soldos,

isto é, menos de libra e meia das antigas, cada uma das quaes

era igual a 20 soldos. A dobra de ouro conhecida pelo nome vulgar

de pé-terra, mandada lavrar por D. Fernando, tinha o valor legal

de 6 libras, e, portanto, era mui superior nominalmente ao antigo

maravedi, excedendo em preço mais de quatro vezes. Todavia, bem

pelo contrario, o valor real d'uma dobra pé-terra era inferior ao

maravedi velho na razão de 20 para 32 1/2. A alteração da moeda

feita por D. Fernando no principio do seu reinado confundiu e

transtornou completamente o antigo systema monetario: as barbudas,

das quaes havia 53 em cada marco da lei de 3 dinheiros, vinham

a ser iguaes ás libras novas deste rei, porque, produzindo até

ahi um marco da lei de 11 dinheiros 27 libras, ficou em a nova

moedagem produzindo 165, o que dada a differença do toque entre

o marco de lei e o marco das barbudas, tornava cada uma destas

a mesma cousa que a libra. Por outra parte, equivalendo cada

libra a 20 soldos, moeda sem valor intrinseco, vinha o marco

de lei a ser representado por 3.900 soldos, e assim o antigo

maravedi d'ouro correspondente á vigesima parte de um marco de

prata, correspondia realmente a 195 soldos, ao passo que cada

pé-terra, sendo o mesmo que 6 libras, não valia mais de 120 soldos,

isto é, ficava para aquella moeda na razão de 20 para 32 1/2.

Lendas e Narrativas (Tomo I) · 第 5 / 13 段