Fr. Roy curvou a cabeça, cruzou de nova as mãos sobre o peito,

e, recuando até a porta, desappareceu no corredor escuro por

onde entrára.

Apenas os passos lentos e pesados do ichacorvos deixaram de soar,

D. Leonor encaminhou-se para uma janella que dava para um vasto

terrado, e affastou a cortina que servia durante o dia de mitigar

a excessiva luz do sol. A noite ía em meio do seu curso, como o

indicava o mortiço das tochas, que mal allumiavam o aposento, e

a lua, já no minguante, começava a subir na abobada do firmamento,

mergulhando no seu clarão sereno o brilho esplendido das estrellas.

A janella estava aberta, e o escabello d'elrei ficava proximo

e fronteiro: o luar batia de chapa no rosto bello e triste de

D. Fernando, que, embebido no seu amargurado scismar, parecia alheio

ao que passava á roda delle, e esquecido de que lhe restavam poucas

horas para poder levar a cabo a resolução que tomára. Leonor Telles,

encostada ao mainel da janella, poz-se a olhar attentamente. A

cidade dormia; e apenas o ladro de algum cão cortava aquella

especie de zumbido, que é como o respirar nocturno de uma grande

povoação que repousa. Lá em baixo uma faixa trémula, semelhante

a uma ponte de luz, cortava obliquamente o Téjo, d'onde mais

largo se encurva pela margem esquerda. Os mastros de milhares de

navios, emparelhados com a cidade desde Sacavem até o promontorio

onde campeava fóra dos arrabaldes de S. Francisco, formavam uma

especie de floresta lançada entre a cidade e a sua immensa bahia.

Desde o terrado, para o qual dava a janella, até o rio, o bairro

dos judeus, pendurado pela encosta ingreme e fechado com travezes

e cadeias nos topos das ruas, desenhava uma especie de triangulo,

cuja hase assentava sobre o lanço oriental da muralha mourisca, e

cujo vertice, voltado para o occidente, se coroava com a synagoga,

abrigada á sombra do vulto disforme da cathedral. Pouco distante

do terrado, entre o palacio e a judearia, a claridade da lua

batia de chapa em um terreiro irregular, rodeado de mesquinhas e

meio-arruinadas casas, que pela maior parte pareciam deshabitadas.

No meio delle o que quer que era se erguia semelhante ao arco de

um portul romano. Parecia ser uma ruina, um fragmento de edíficío

da antiga Olisipo, que esquecêra alli aos terremotos, ás guerras e

aos incendios, e ao qual finalmente chegára a sua hora de desabar,

porque uma alta escada de mão estava encostada á verga que assentava

sobre os dous pilares lateraes e os unia, como se alli a tivessem

posto para, em amanhecendo, os obreiros poderem subir acima e

derribarem-no em terra.

Era para esse vulto que D. Leonor se pozera a olhar attentamente.

Depois voltou o rosto para elrei, que, com a cabeça baixa, os

braços estendidos, e as mãos encurvadas sobre os joelhos, parecia

vergar sob o peso da sua amargura: contemplou-o com um gesto de

compaixão por alguns momentos, e, estendendo para elle os braços,

exclamou:

"Fernando!"

Havia no tom com que foi proferida esta unica palavra um mundo de

amor e voluptuosidade; mas no meio da brandura da voz de Leonor

Telles havia tambem uma corda aspera; a lguma cousa do rugir do

tigre.

Elrei deu um estremeção, como se pelos membros lhe houvera coado

uma faisca electrica; ergueu-se e atirou-se a chorar aos braços

de Leonor Telles.

"Ámanhan--disse elle com voz affogada,--o rei mais deshonrado

da christandade serei eu: o cavalleiro mais vil das Hespanhas

será D. Fernando de Portugal. Que me resta? Só o teu amor; mais

nada. Porque não me pedem antes a corôa real, que para mim tem

sido corôa de espinhos? Dera-a de boa vontade. Oh Leonor, Leonor!

serias a mulher mais perversa se um dia me atraiçoasses."

Um beijo da adultera cortou as lastimas d'elrei. A formosura desta

mulher tinha um toque divino á claridade da lua. D. Fernando,

embriagado d'amor, esqueceu-se de que poucas horas lhe restavam

para fugir do seu povo enganado e ludibriado por elle.

"Fernando!"--proseguiu D. Leonor--"jura-me ainda uma vez que serás

sempre meu, como eu serei sempre tua."

Dizendo isto, affastou-o brandamente de si.

"Juro-t'o uma e mil vezes pela fé de leal cavalleiro que até

hoje fui. Juro-t'o pelo ceu que nos cobre. Juro-t'o pelos ossos

de meu nobre e valente avo, que àlli dorme juncto ao altar-mór

da sé, debaixo das bandeiras infiéis que conquistou no Salado.

Juro-t'o por mais que tudo isso: juro-t'o pelo meu amor!"

"Bem está, rei de Portugal!--atalhou D. Leonor.--Agora só uma

cousa me resta para te pedir. Não é favor; é justiça."

"Não me peças Lisboa, que essa sabe Deus se tornará a ser minha,

rica, povoada e feliz como eu a tornei, ou se repousarei ainda a

cabeça nestes paços de meus antepassados, passando por cima das

ruinas dela! Não me peças Lisboa, que talvez ámanhan deixe de

me chamar seu rei: do resto de Portugal pede-me o que quizeres."

"Quero que me dês as minhas arrhas: quero o preço do meu corpo,

segundo foro de Hespanha."

"Villa-viçosa é alegre como um horto de flores, e Villa-viçosa

dar-t'a-hei eu. O casteilo d'Obidos é forte e roqueiro: são numerosos

e prestes para a defesa os seus engenhos, e o castello d'Obidos

será teu. Cintra pendura-se pela montanha entre lençoes d'aguas

vivas, e respira o cheiro das hervas e flores que crescem á sombra

das penedias: pódes ter por tua a Cintra. Alemquer é rica no

meio de suas vinhas e pomares, e Alemquer te chamará senhora."

"Guarda as tuas villas, D. Fernando, que eu não t'as peço em

dote: quero apenas uma promessa de cousa de bem pouca valia."

"De muita ou de pouca, não me importa! Dar-te-hei o que me pedires."

D. Leonor estendeu a mão para a especie de portada romana, que

se erguia solitaria no meio do terreiro deserto:

"É alli que tu me darás o preço do meu corpo, se um dia a cerviz

da orgulhosa Lisboa se curvar debaixo de teu jugo real."

Elrei lançou um rapido volver d'olhos para onde Leonor Telles

tinha o braço estendido, mas recuou horrorisado. O vulto que

negrejava no meio do terreiro, era o patibulo popular e peão:

era a forca, tétrica, temerosa, maldicta!

"Leonor, Leonor!--disse elrei com um som de voz cavo e debil--porque

vens tu misturar pensamentos de sangue com pensamentos d'amor?

Porque interpões um instrumento de morte e de affronta entre mim

e ti? Porque preferes o fructo do cadafalso ás villas e castellos

de que te faço senhora? Porque trocas a estola do clerigo que

ha-de unir-nos pelo baraço aspero do algoz?"

"Rei de Portugal!--respondeu a mulher de João Lourenço da Cunha

com um brado de furor--ainda me perguntas porque o faço? Tu nunca

serás digno do sceptro de teu pae! Queres saber porque ajuncto

pensamentos de sangue a pensamentos d'amor? É porque esses de

quem eu o peço pediram tambem o meu sangue. Queres saber porque

interponho entre mim e ti um instrumento de morte e d'affronta? É

porque o teu bom povo de Lisboa quiz também interpôr entre nós a

morte, e saciar-me de affrontas. Queres que te diga porque prefiro

o fructo do cadafalso ás villas e castellos que me offereces?

É porque para os animos generosos não ha vender vinganças por

ouro. Vingança, rei de Portugal, te pede em dote a tua noiva!

Jura-me que um dia os teus vassallos que me perseguem serão tambem

perseguidos, e que essa vil plebe, que cobre de injurias e pragas

o meu nome, porque te amo, o amaldiçoem, porque levo os seus

caudilhos ao patibulo. Este é o preço do meu corpo. Sem esse

preço a neta de D. Ordonho de Leão[2] nunca será mulher de D.

Fernando de Portugal."

E com um braço estendido para o logar sem nome[3] do supplicio,

e com o outro curvado como quem affastava de si elrei, esta mulher

vingativa era sublime de atrocidade.

"Tens razão, Leonor:--disse por fim D. Fernando, depois de largo

silencio, em que os affectos inconstantes do seu caracter voluvel

mudaram gradualmente.--Tens razão. A futura rainha de Portugal

terá o seu desaggravo: as linguas que te offenderam calar-se-hão

para sempre: os corações que te desejaram a morte deixarão de

bater. No meu throno, até aqui de mansidão e bondade, assentar-se-ha

a crueza. Com Judas o traidor seja eu sepultado no inferno se

faltar ao juramento que te faço de lavar em sangue a tua e a

minha injuria."

A estas palavras o aspecto severo de Leonor Telles mudou-se em

um sorrir de inexplicavel doçura.

"Oh, como te hei-de amar sempre!"--murmurou ella. E estas palavras

cahiam de seus labios meigos e suaves como o arrulhar de pomba

amorosa.

Um beijo ardente, que sussurrou levado nas asas da brisa fresca

da noite, assellou este pacto de odio e d'exterminio.

[1] Isto era escrípto em 1844.

[2] A familia de Leonor Telles suppunha-se descender

de D. Ordonho II, rei de Leão.

[3] Logar sem nome. Nós pelo menos não nos atrevemos a

pôr-lh'o. Sabemos só que em tempos remotos a forca esteve perto

da igreja de S. João da Praça, freguezia cuja existencia data

pelo menos do tempo de D. Affonso III. (Mem. para as Inquir.

Doc. 2.º) Talvez o terreiro ou praça em que ella estava désse o

cognome á parochia. Desconfiâmos, todavia, de que este terreiro

se estendesse para o lado oriental da sé, e que nesse caso o

nome fosse Aljami. D. João I fez mercê em 1392 ao bispo de Lisboa

D. Martinho (Chancel. de D. João I, L. 2.°) de uns pardieiros

no chão d'Aljami, que partem com os paços do dito bispo, para

fazer umas casas e torre. Os paços dos bispos ficavam para o

lado oriental da sé. Além d'isso Aljami parece derivar-se do

arabico aljamea, que significa o laço com que se amarram o pescoço

e as mãos.

Um bulhão e uma agulha d'alfaiate

O sol, que havia mais de meia hora subíra do oriente cingido

da sua aureola de vermelhidão, no meio da atmosphera turva e

cinzenta de um dia dos fins de agosto, dava de chapa no rocío ou

praça onde avultava o mosteiro de S. Domingos, rodeado de hortas

e pomares, que verdejavam pelo valle da Mouraria ao oriente, e

pelo de Valverde ao norte. Já muitos bésteiros e peões armados

de ascumas se derramavam ao longo da parede dos paços de Lançarote

Peçanha fronteiros ao mosteiro, descendo uns por entre as vinhas

d'Almafalla[1], outros do arrabalde da Pedreira, ou bairro do

almirante[2], outros da banda da alcaçova, outros, emfim,

desembocando das ruas estreitas e irregulares que íam dar á opulenta

e celebre rua-nova[3]. Homens e mulheres apinhavam-se aos dez e aos

doze no meio da praça e ás bocas das ruas; falavam, meneavam-se,

riam, cbamavam-se uns aos outros. Ás vezes aquella mó de gente,

cujo vulto engrossava de minuto para minuto, agitava-se como

a superficie de um pego passando o tufão. Incerta, vacillante,

informe, subitamente se configurava, alinhava-se, e semelhante

a triangulo enorme, a quadrella gigante desfechada de trom

monstruoso, vibrava-se contra a vasta alpendrada do mosteiro,

cujas portas ainda estavam fechadas. Ahi hesitava, ondeava e

retrahia-se, como resultaria a folha cortadora de uma acha d'armas

quando não podesse romper as portas chapeadas de forte castello.

Então aquella multidão tomava a fórma de meia lua, cujas pontas

se encurvavam pelos lados de Valverde e da Mouraria, e vinham

topar uma com outra por baixo do bairro ladeirento da Pedreira,

d'onde, confundindo-se e irradiando-se de novo, se espalhavam

pela vastidão do terreiro. O povo, que dorme ás vezes por seculos,

fòra accommettido d'uma das suas raras insomnias, e vivia essa

possante vida da praça publica, em que de ordinario é ridiculo

e feroz; mas em que não raro é sublime e terrivel.

Era a manhan immediata á noite em que occorreram os successos

narrados antecedentemente: o povo preparava-se para uma lucta

moral com o seu rei, mas não se descuidára de vir prestes para uma

lucta physica, se D. Fernando quizesse appellar para esse ultimo

argumento. Era a primeira vez neste reinado que a arraya-miuda dava

mostras da sua força e reivindicava o direito de dizer armada--não

quero!--O elemento democratico erguia-se para influir activamente

na monarchia; enxertava-se nella como principio politico a par da

aristocracia, que com a manopla de ferro arrojava a plebe contra

o throno, sem pensar que brevemente este, conhecendo assim a força

popular, se valeria della para esmagar aquelles que ora sopravam

os animos á revolta, e davam ao vulgo uma nova existencia.

A hora aprazada para a vinda d'elrei ainda não havia batido; mas

o povo, orgulhoso da importancia que subitamente se lhe dera,

embevecido na idéa de que obrigaria elrei a quebrar os laços

adulterinos que o uniam a Leonor Telles, não media o tempo pelo

curso do sol, mas pelo fervor da sua impaciencia. Duas vezes se

espalhára a voz de que D. Fernando chegára, e duas vezes o povo

corrêra para o alpendre do mosteiro. As portas da igreja estavam,

porém, fechadas, bem como a portaria e as estreitas e agudas

frestas do mosteiro gothico, que, formado apenas de um pavimento

terreo e humilde, contrastava com a magnificencia do templo, em

cujas portadas profundas, sobre os columnellos ponteagudos que

sustinham os fechos e chaves da abobada, os animaes monstruosos

e hybridos, os centauros, os satyros e os demonios, avultados

na pedra dos capiteis por entre as folhagens de carvalho e de

lodão, pareciam, com as visagens truanescas que nas faces mortas

lhes imprimíra o esculptor, escarnecerem da colera popular, que,

lenta como os éstos do oceano, começava a crescer e a trasbordar.

Apenas lá dentro se ouviam de vez em quando as harmonias saudosas

do orgão e do cantochão monotono dos frades, que offereciam a

Deus as preces matutinas. Era então que o povo escutava: e

retrahia-se arrastado pelas blasphemias e pragas que saíam de

mil bôcas, e que eram repellidas do sanctuario pelo sussurro

dos canticos que reboavam dentro da igreja, e que transsudavam

por todos os poros do gigante de pedra um murmurio de paz, de

resignação e de confiança em Deus.

O povo, porém, era como os homens robustos do Genesis: era impio,

porque era robusto.

O dia crescia, e crescia com elle a desconfiança. As noticias

corriam encontradas: ora se dizia que elrei cedêra aos desejos

dos seus vassallos e dos peões, e que viria annuncíar ao povo a

sua separação de Leonor Telles; ora pelo contrario se asseverava

que elle era firme em sustentar a resolução contraria. Havia até

quem asseverasse que na alcaçova e no terreiro de S. Martínho

se começavam a ajunctar homens d'armas e bésteiros. A colera

popular crescia, porque a atiçava já o temor.

No meio de uma pilha de galeotes, carniceiros, pescadores, moleiros,

lagareiros e alfagemes, dous homens altercavam violentamente:

eram Ayras Gil e Fr. Roy: objecto da disputa Fernão Vasques;

arguente o petintal; defendente o beguino.

"Que não vira, vos digo eu:--gritava Ayras Gil.--Disse-m'o

Garciodonez, o mercador de pannos, que mora ao cabo da rua-nova,

aos açougues, defronte das taracenas d'elrei."

"Mentiu pela gorja como um perro judeu:--replicou Fr. Roy--Não

era Fernão Vasques homem que faltasse a este auto, tendo-o a

arraya-miuda elegido por seu propoedor."

"Medo ou dobras do paço podem tapar a boca aos mais ousados, e

faze-los dormir até deshoras--retrucou o petintal.

"Que fazem falar as dobras do paço, sei eu:--tornou o beguino

com riso sardonico, lembrando-se do que nessa noite passára:--medo

sabeis vós que faz fugir: inveja sabemos nós todos que faz

imaginar..."

"Descaro e gargantoice que faz mendigar:--interrompeu Ayras

Gil, vermelho de colera, cerrando os punhos, e descahindo para

o ichacorvos, como galé que vae afferrar outra em combate naval.

"Excommunicabo vos"--murmurou Fr. Roy, fazendo-se prestes para

resistir ao abalroar do petintal.

E o vulgacho que estava de roda ria e batia as palmas.

N'isto os gritos de alcacer! alcacer! reboaram para outro lado

da praça: o povo correu para lá. Os dous campeadores voltaram-se:

era o alfaiate.

Sem dizer palavra, o beguino olhou com gesto de profundo despreso

para Ayras Gil; e tomando uma postura entre heroica e de inspirado,

estendeu o braço e o index para o logar onde passava Fernão Vasques.

Depois partiu com a turbamulta que o rodeava, em quanto o petintal

o seguia de longe, lento e cabisbaixo.

O alfaiate, cercado de outros cabeças da revolta da vespera,

encaminhou-se para a alpendrada de S. Domingos. Trazia vestida

uma sáia[4] de valencina reforçada, calças de bifa, çapatos de

pelle de gamo, chapeirão de ingres com fita de momperle, e cincta

de couro, tudo escuro ao modo popular. Com passos firmes subiu

os degraus do alpendre. D'alli, em pé, com os braços cruzados,

correu com os olhos a praça, onde entre o povo apinhado se fizera

repentino silencio. Depois, tirando o chapeirão, cortejou a

turbamulta para um e outro lado; os seus gestos e ademanes eram

já os de um tribuno.

"Alcacer, alcacer pela arraya-miuda! Alcacer por elrei D. Fernando

de Portugal, se desfizer nosso torto e sua vilta, senão!..."

Esta exclamação d'um alentado alfageme que estava pegado com a

balaustrada do alpendre, foi repetido em grìta confusa por milhares

de bôcas.

De repente da banda da rua de Gileanes sentiu-se um tropear de

cavalgaduras, que pareciam correr á redea solta: todos os olhos

se volveram para aquella banda: muitos rostos empallideceram.

Uma voz de terror girou pelo meio das turbas.--"São homens d'armas

d'elrei!"--Aquelle oceano de cabeças humanas redemoinhou a estas

palavras, e começou a dividir-se como o mar vermelho diante de

Moysés. N'um momento viu-se uma larga faixa esbranquiçada cortar

aquella superficie movel e escura: era ampla estrada que se abríra

desde a rua de Gileanes até S. Domingos. As paredes desta

adelgaçavam-se rapidamente. Para a banda da Mouraria e da Pedreira

os becos e encruzilhadas apinhavam-se de gente, e os reflexos dos

ferros das ascumas populares, que erguidas scintillavam ao sol,

começaram a descer e a sumir-se como as luzinhas das bruxas em

sitio brejoso aos primeiros assomos do alvorecer. Fernão Vasques

olhou em redor de si: estava só. Descórou; mas ficou immovel.

Entretanto o tropear aproximava-se cada vez com mais alto ruído:

os bésteiros do concelho, postados ao longo dos paços do almirante,

eram talvez os unicos em quem o terror não fizera profunda impressão:

alguns já haviam estendido sobre o braço da bésta os virotes

hervados, e revolvendo a polé faziam encurvar o arco para o tiro.

Os bésteiros de garrucha tinham já o dente desta embebido na

corda, promptos a desfechar ao primeiro refulgir dos montantes

nús dos cavalleiros e escudeiros reaes. Do resto do povo os ousados

eram os que recuavam; porque o maior numero voltava as costas e

internava-se pelas azinhagas dos hortos de Valverde e vinhas

d'Almafalla, ou trepava pelas ruas escuras e malgradadas do bairro

do almirante.

Mas no meio deste susto geral apparecêra um heroe. Era Fr. Roy.

Ou fosse imprudente confiança no cargo occulto que lhe dera D.

Leonor, ou fosse robustez d'animo, ou fosse finalmente a persuasão

de que o habito de beguino lhe serviria de broquel, longe de

recuar ou titubear, correu para a quina da rua d'onde rompía o

ruído, e mirando pela aresta do angulo um breve espaço, voltou-se

para o povo, e curvando-se com as mãos nas ilhargas, desatou em

estrondosas gargalhadas.

Tudo ficou pasmado; mas vendo e ouvindo o rir descompassado do

ichacorvos, o povo começou a refluir para a praça. Aquellas risadas

produziam mais animo e enthusiasmo que os quarenta seculos vos

contemplam de Napoleão, na batalha das Pyramides. Os amotinados

recobraram n'um instante toda a anterior energia.

Esta scena tinha sido rapidissima: todavia ainda grande parte dos

populares hesitava entre o ficar e o fugir, quando se conheceu

claramente a causa daquelle temor que apertára por algum tempo

todos os corações. Era a còrte que chegava.

Montados em mulas possantes, os officiaes da casa real, os

ricos-homens, conselheiros e juizes do desembargo vinham assistir

ao auto solemne, em que da bôca d'elrei a nação devia ouvir ou

uma resolução conforme com os desejos tanto da arraya-miuda como

dos senhores e cavalleiros, ou a confirmação de um casamento, mal

agourado por muitos nobres e por todos os burguezes, e condemnado

de um modo nada duvidoso por estes ultimos. No meio das variadas

côres dos trajos cortezãos negrejavam as garnachas dos letrados

e clerigos do paço, e entre o reluzir dos esplendidos arreios

das mulas alentadas e fogosas dos vassallos seculares, dos

alcaides-móres e senhores, viam-se rojar as gualdrapas dos mestres

em leis e degredos, dos sabedores e letrados, que constituiam o

supremo tribunal da monarchia, a curia ou desembargo d'elrei.

A numerosa cavalgada atravessou o terreiro por entre o povo apinhado,

e em todos os rostos transluzia o receio ácerca de qual seria

o desfecho deste drama terrivel e immenso, em que entravam

representantes de todas as classes sociaes.

Entre os membros daquella lustrosa companhia distinguia-se por

seu porte altivo o conde de Barcellos, D. João Affonso Tello,

tio de D. Leonor, a quem nos diplomas dessa epocha se dá por

excellencia o nome de fiel conselheiro. Quando os amores d'elrei

com sua sobrinha começaram, elle fizera, sincera ou simuladamente,

grandes diligencias para desviar o monarcha de levar ávante seus

intentos. D. Fernando persistíra, todavia, nelles, e então o

conde, junctamente com a infanta D. Beatriz[5] e com D. Maria

Telles, irman de D. Leonor, suscitára a idéa de a divorciar de

João Lourenço da Cunha. O povo sabia isto, e posto que houvesse

estendido a sua má vontade a todos os parentes de Leonor Telles,

odiava principalmente o conde como protector daquelles adulteros

amores. Foi, portanto, nelle que se cravaram os olhos dos populares,

que, tendo-se em poucas horas elevado até á altura do throno,

ousavam tambem dar testemunho publico do seu odio contra o mais

distincto membro da fidalguia[6].

"Velha raposa, em que te pese, não será a adultera rainha da

boa terra de Portugal!--gritava um carniceiro, voltando-se para

uma velha que estava ao pé delle, mas olhando de través para

o conde que passava.

"Leal conselheiro de barregnices, por quanto vendeste a honra

do compadre Lourenço?--perguntava um alfageme, fingindo falar

com um vizinho, mas lançando tambem os olhos para D. João Affonso

Tello.

"Que tendes vós com o lobo que empece ao lobo?--acudiu um lagareiro

calvo e acurvado debaixo do peso dos annos.--Deixae-os morder

uns aos outros, que é signal de Deus se amercear de nós."

"O que elles mereciam--interrompeu uma regaleira--era serem

alagantados[7]--com boas tiras de couro cru."

"E ella, tia Dordia?--accrescentou um ferreiro.--Conheceis vós

a comborça? As varas a quizera eu: uma do alcaide no chumaço;

outra do coitado nas costas della![8]"

"É costume, ergo direita a pena:"--notou um procurador, que gravemente

contemplava aquelle espectaculo, e que até alli guardára silencio.

Estas injurias, que, como o fogo de um pelotão, se disparavam

ao longo das extensas e fundas fileiras dos populares, iam ferir

os ouvidos do conde de Barcellos, que, fingindo não lhes dar

attenção, empallidecia e córava successivamente, e mordia os beiços

de colera.

De quando em quando o vociferar affrontoso da gentalha era affogado

no ruído de risadas descompostas, mais insolentes cem vezes que

as injurias; porque no rir do vulgo ha o que quer que seja tão

cruel e insultuoso, que faz dar em terra o maior coração e o

anímo mais robusto.

Entre os parciaes de D. Leonor que vinham naquella comitiva,

viam-se, porém, muitos fidalgos e letrados, que ou eram pessoalmente

seus inimigos, ou pelo menos desapprovavam alta e francamente a

sua união com elrei. Diogo Lopes Pacheco era o principal entre

elles, e o povo ao vê-lo passar saudou-o com um murmurio, que

foi como a recompensa do velho pelas desventuras da sua vida,

desventuras que devêra a um caso analogo, a morte de D. Ignez

de Castro.

Quando os fidalgos, cavalleiros e letrados da casa e conselho

d'elrei se apearam juncto aos degraus do alpendre do mosteiro, o

alfaiate, que viera misturar-se com o povo logo que desembocaram

na praça, subiu após elles, e esperou que se assentassem no extenso

banco de castanho que corria ao longo da alpendrada. Depois voltou-se

para a multidão apinhada ao redor:

"Se elrei ainda não é presente--disse em voz intelligivel e

firme--ahi tendes para ouvir vossos aggravamentos os senhores do

seu conselho: porventura que elles poderão dar-vos resposta em

nome de sua senhoria, e elle virá depois confirmar o seu dicto."

Lendas e Narrativas (Tomo I) · 第 4 / 13 段