paço, dando apenas tempo a que as cerrassem. A vozeria e estrepito
que fazia aquella multidão desordenada assustou elrei, que por
um seu privado mandou perguntar o que lhes prazia e para que
estavam assim reunidos. Então o alfaiate Fernão Vasques, capitão
e procurador por elles, como lhe chama Fernão Lopes, affeiou
em termos violentos as intenções d'elrei, liberalisando a D.
Leonor os titulos de má mulher e feiticeira, e asseverando que o
povo nunca havia de consentir em seu casamento adultero. A arenga
rude e vehemente do alfaiate orador, acompanhada e victoriada de
gritas insolentes e ameaçadoras do tropel que o seguia, moveu
elrei a responder com agradecimentos ás injurias, e a affirmar
que nem D. Leonor era sua mulher, nem o seria nunca, promettendo
ir na manhan seguinte aclarar com elles este negocio no mosteiro
de S. Domingos, para onde os emprasava. Com taes promessas pouco
a pouco se aquietou o motim, e ao cahir da noite o terreiro d'apar
S. Martinho estava em completo silencio. Como se, na solidão,
elrei quizesse consultar comsigo o que havia de dizer ao seu bom
e fiel povo de Lisboa, as vidraças córadas das esguias janellas
dos paços reaes, que vertiam quasi todas as noites o ruido e o
esplendor dos saráus, cerradas nesta hora e caladas como sepulchro,
contrastavam com o reluzir dos fachos, com o estrepito das ruas,
com o rir das mulheres perdidas e dos homens embriagados, com
o perpassar contínuo dos magotes e pinhas de gente que se
encontravam, uniam, separavam, retrocediam, vacillavam, ficavam
immoveis, agglomeravam-se para se desfazer, desfaziam-se para
se agglomerar de novo, sem vontade e sem constrangimento, sem
motivo e sem objecto, vulto inerte, movido ao acaso, como as
vagas do mar, tempestuoso e irreflectido como ellas. Feroz na
sua colera razoada, ferocissimo no seu rir insensato, o vulgo
passava, rei de um dia. Esse ruído, essa vertigem que o agitava
era o seu baile, a sua festa de triumpho: e as estrellas de serena
noite de agosto, semelhantes a lampadas pendentes de abobada
profunda, alumiavam o saráu popular, as salas do seu folguedo,
a praça e a encruzilhada. Era a um tempo truanesco e terrivel.
Na taberna de micer Folco (onde deixámos as personagens principaes
desta historia, para inserir, talvez fóra de logar, o prologo ou
introducção a ella) as acclamaçôes freneticas dos populares tinham
tornado indubitavel que o propoedor para o ajunctamento do dia
seguinte devia ser o mui avisado e sages mestre Fernão Vasques. Fr.
Roy era de todos os circumstantes o que mais parecia ter a peito
esta escolha, e o petintal Ayras Gil ajudava-o poderosamente com
o ruido dos amplos pulmões dos galeotes d'Alfama, contrabidos
como em voga arrancada, victoriando o seu capitão. O alfaiate
não pôde resistir, nem porventura tinha vontade d'isso, a tanta
popularidade, e em pé sobre o escabello, com a cabeça levemente
inclinada para o peito, n'uma postura entre de resignação e de
bemaventurança, tremulava-lhe nos labios semi-abertos um sorriso
que revelava uma parte dos mysterios do seu coração. Emfim, quando
a grita começou a asserenar, Fernão Vasques ergueu a cabeça, e
com aspecto grave deu signal de que pretendia falar ainda.
Fez-se de novo silencio.
"Seja, pois, como quereis:--disse o alfaiate--mas vede o grão risco
a que me ponho por vós outros. Falarei eu a elrei com liberdade
portuguesa: proporei vosso aggravo e a deshonra e feio peccado
de sua real senhoria, mas é necessario que vós todos quantos
ahi sois estejaes de alcateia e ao romper d'alva no alpendre
de S. Domingos. Dizem que a adultera é mulher de grande coração
e ousados pensamentos; em Lisboa estão muitos cavalleiros seus
parentes e parciaes. Bésteiros deste concelho, que não vos esqueçam
em casa vossas béstas e aljavas! Pioada de Lisboa, levae vossas
ascumas! Os trons e engenhos do castello--accrescentou o alfaiate
em voz mais baixa e hesitando--não vos apoquentarão, ainda que
elrei o quizesse, porque o alcaidemór João Lourenço Bubal não
é dos affeiçoados a D. Leonor Telles. Sancta Maria e Sanctiago
sejam comvosco! Alcacer, alcacer pela arraya-miuda! A repousar,
amigos!"
--"Alcacer, alcacer!--respondeu a turbamulta.
"Morra a comborça!"--gritou Ayras Gil com voz de trovão.--"Morra
a comborça!"--repetiram os galeotes e as virtuosas matronas dos
coromens d'arrás e cinctos pretos, que assistiam áquelle conclave.
"Olha, Ayras, que S. Martinho fica perto, e contam que D. Leonor
tem ouvido subtil:"--disse Fr. Roy ao petintal com um sorriso
diabólico.
"Dor de levadigas te consumam, ichacorvos!"--replicou o
petintal.--"Quando eu quero que me ouçam é que falo alto. Alcacer
por sua senhoria o bom rei D. Fernando! Deus o livre de Castella
e de feitiços!"
O petintal emendava a mão como podia. E entre morras e alcaceres;
entre risadas e pragas; entre ameaças vans e insultos inuteis,
aquella vaga de povo contida na taberna de micer Folco, espraiou-se
pelas ruas, derivou pelas quelhas, vielas e becos, e embebeu-se
pelas casinhas e choupanas, que nessa epocha jaziam muitas vezes
deitadas juncto ás raízes dos palacios na velha e opulenta Lisboa.
Com os braços cruzados o alfaiate contemplava aquella multidão, que
diminuia rapidamente, e cujo sussurro alongando-se era comparavel
ao gemido do tufão, que passa de noite pelas sarças da campina.
Ainda elle tinha os olhos fitos no portal por onde saíra o vulto
indelineavel chamado povo, e já ninguem ahi estava, salvo os
dous cavalleiros, que se tinham conservado immoveis na mesma
postura que haviam tomado, e Fr. Roy, que se estirára sobre um
dos bofetes, e já roncava e assobiava como em somno profundo.
Os dous cavalleiros ergueram-se e descobriram os rostos: a um
ainda a barba de homem não pungia nas faces: o outro, na alvura
das melenas brancas, que trazia cahidas sobre os hombros á moda
de Castella, e no rosto sulcado de rugas, certificava ser já
bem larga a historia da sua peregrinação na terra.
O mancebo olhou para Fernão Vasques, que parecia absorto, e depois
para o velho com um gesto de impaciencia. Este olhou tambem para
elle, e sorriu-se. Depois o ancião chamou o alfaiate em voz baixa,
mas perceptivel.
Este, como se cahisse em terra da altura dos seus pensamentos,
estremeceu, e, saltando do escabello, onde ainda se conservava
em pé, encaminhou-se rapidamente para os dous cavalleiros:
"Senhor infante, que vossa mercê me perdôe e o senhor Diogo Lopes
Pacheco! Á fé que, no meio d'este arruído, quasi me esquecêra
de que ereis aqui. Estaes desenganados por vossos olhos de que
posso responder pelo povo, e de que ámanhan não faltarão em S.
Domingos?"
"Na verdade--respondeu o mancebo--que tu governas mais nelle
que meu irmão com ser rei! Veremos se ámanhan te obedecem como
te obedeceram hoje."
"És um notavel capitão:--accrescentou Diogo Lopes, rindo e batendo
no hombro do alfaiate.--Se fosses capaz de reger assim em hoste
uma bandeira de homens d'armas merecerias a alcaidaria de um
castello."
"Que só entregaria, no alto e no baixo, irado e pagado, de noite
ou de dia, áquelle que de mim tivesse preito e menagem."
"Bem dicto!--interrompeu o velho Pacheco, no mesmo tom em que
começára.--Se t'a negarem não será por errares as palavras do
preito. Tem a certeza, de que has-de ir longe, Fernão Vasques;
muito longe! Assim eu a tivera, de que não me será preciso cozer
á ponta de punhal a bôca de quem ousar dizer que o infante D.
Diniz e Diogo Lopes Pacheco cruzaram esta noite a porta da taberna
do gonovez Folco Taca."
Quando estas ultimas palavras, proferidas lentamente, saíram
dos labios do que as proferia, os roncos e assobios do beguino
que dormia foram mais rapidos e tremulos.
"Quem é aquelle ichacorvos?--proseguiu Diogo Lopes, apontando
para Fr. Roy com um gesto de desconfiança.
"É um dos nossos:--respondeu o alfaiate--um dos que mais têem
encarniçado a arraya-miuda contra a feiticeira adultera. Na assuada
desta tarde foi dos que mais gritaram defronte dos paços d'el-rei.
Por este respondo eu. Não tereis, senhor Diogo Lopes, de lhe
cozer a bôca á ponta de vosso punhal."
"Responde por ti, honrado capitão da arraya-miuda--replicou o
velho cortezão.--Quem me responde por elle é o seu dormir profundo:
quem me responderia por elle, se acordando nos visse aqui, seria
este ferro que trago na cincta. Agora o que importa. Em quanto
ámanhan elrei se demorar em S. Domingos, um troço d'arraya-miuda
e bésteiros ha-de commetter o paço, e ou do terreiro, ou rompendo
pelos aposentos interiores, é necessario que uma pedra perdida,
um tiro de bésta disparado por engano, uma ascuma brandida em
algum corredor escuro, nos assegure que elrei não póde deixar
de attender ás supplicas dos seus leaes vassallos e dos cidadãos
de Lisboa."
"Morta!--exclamou o infante com um gesto de horror.--Não, não,
Diogo Lopes; não ensanguenteis os paços de meu irmão, como ..."
"Como ensanguentei os paços de Sancta Clara:--atalhou
Pacheco--dizei-o francamente; porque nem remorsos me ficaram cá
dentro. Senhor infante, vós esquecestes-vos d'isso, porque eu
posso e valho com elrei de Castella! Senhor infante, a ambição
tem que saltar muitas vezes por cima dos vestigios de sangue!
Vós passastes ávante, e não vistes os do sangue de vossa mãe!
Porque hesitareis ao galgar os do sangue de Leonor Telles? Senhor
infante, quem sobe por sendas ingremes e por despenhadeiros tem
a certeza de precipitar-se no fojo, se covardemente recúa."
D. Diniz tinha-se tornado pallido como cera. Não respondeu nada;
mas dos olhos rebentaram-lhe duas lagrymas.
Fernão Vasques escutou a prelecção politica do velho matador
de D. Ignez de Castro com religiosa attenção. E resolveu tambem
lá comsigo não se deixar cahir no fojo.
"Far-se-ha como apontaes:--disse elle falando com Diogo Lopes--mas
se os homens d'armas e bésteiros de João Lourenço Buval descerem
do castello..."
"Não te disse, ainda ha pouco, que João Lourenço ficaria quedo no
meio da revolta?--Podes estar socegado, que não te certifiquei
d'isso só para animares o povo. É a realidade. Agora tracta de
dispôr as cousas para que não seja um dia inutil o dia d'ámanhan."
Pegando então na mão do infante, o feroz Pacheco saíu da taberna,
e tomou com elle o caminho da Alcaçova. Fernão Vasques ficou
um pouco scismando: depois saíu, dirigindo-se para a porta do
ferro, e repetindo em voz baixa:--"Não me precipitarei no fojo!"
Passados alguns instantes de silencio Fr. Roy alevantou devagarinho
a cabeça, assentou-se no bofete e poz-se a escutar: depois saltou
para o chão, apagou a lampada que ardia no meio da casa, abandonada
por Folco Taca logo que o povo tumultuariamente a innundára,
chegou á porta, escutou de novo alguns momentos, manso e manso
encaminhou-se para a torre da sé da banda do norte, e como um
fantasma, desappareceu cozido com a negra e alta muralha da
cathedral.
[1] Fernão Lopes dá a entender (Chr. de D. João I. P.
1.ª c.44) que a denominação de arraya-miuda se começára a dar aos
populares no principio da revolta a favor do Mestre d'Aviz, para
os distinguir dos nobres, pela maior parte fautores de D. Leonor
e dos castelhanos; mas este titulo chocarreiro o havia tomado
para si o povo miudo já d'antes e com muita seriedade. Em um
documento de 1305 (Chancell. de D. Diniz L. 3º das Doações fol.
42 v.) se diz que outorgavam certas cousas os cavalleiros, juizes
e concelho de Bragança e toda a arraya-miuda.
[2] Fernão Lopes affirma que Pacheco não tornára ao
reino desde que fugíra por escapar á vingança de D. Pedro I por
causa da morte de D. Ignez, senão no anno de 72, em que viera
por embaixador d'elrei D. Henrique. Isto parece inexacto; Fr.
Manuel dos Santos affirma o contrario fundado na restituição
de todos os seus bens e titulos feita por D. Fernando no começo
do seu reinado. Não é isto que prova a assistencia de Pacheco
em Portugal no anno de 1371, não só porque depois de vir podia
voltar para Castella, mas tambem essa restituição podia ser feita
estando e conservando-se elle ausente, visto que a fruição d'um
titulo, ou de terras da corôa, por simples mercê, não obrigando
a serviço pessoal, ao menos até o tempo de D. João I, não tornava
necessaria a presença do donatario no reino. O que prova a verdade
da opinião de Santos é a doação feita a Diogo Lopes em 1371
(Chancell. D. Fern. f.84) da terra de Trancoso para pagamento
de sua quantia, o que supõe serviço pessoal; porque era pelas
quantias que os fidalgos estavam obrigados a faze-lo.
O Beguino.
Quem hoje passa pela cadeia da cidade de Lisboa, edificio immundo,
miseravel, insalubre, que por si só bastára a servir de castigo
a grandes crimes[1], ainda vê na extermidade delle umas ruinas,
uns entulhos amontoados, que separa da rua uma parede de pouca
altura, onde se abre uma janella gothica. Esta parede e esta
janella são tudo o que resta dos antigos paços d'apar S. Martinho,
igreja que tambem já desappareceu, sem deixar sequer por memoria
um panno de muro, uma fresta, de outro tempo. O Limoeiro é um dos
monumentos de Lisboa sobre que revoam mais tradições de remotas
eras. Nenhuns paços dos nossos reis da primeira e segunda dynastia
foram mais vezes habitados por elles. Conhecidos successivamente
pelos nomes de paços d'elrei, paços dos infantes, paços da moeda,
paços do limoeiro, a sua historia vae sumir-se nas trevas dos
tempos. Sâo da era mourisca? Fundaram-nos os primeiros reis
portugueses? Ignoramo-lo. E que muito, se a origem de Sancta
Maria Maior, da veneranda cathedral de Lisboa, é um mysterio! Se,
transfigurada pelos terremotos, pelos incendios e pelos conegos,
nem no seu archivo queimado, nem nas suas rugas caiadas e douradas
póde achar a certidão do seu nascimento e dos annos da sua vida!
Como as da igreja, as ruinas da monarchia dormem em silencio á
roda de nós, e, involto nos seus eternos farrapos, o povo vive
eterno em cima ou ao lado dellas, e nem sequer indaga porque
jazem ahi!
Na memoravel noite em que se passaram os successos narrados no
capítulo antecedente, essa janella dos paços d'elrei era a unica
aberta em todo o vasto edificio, mas calada e escura como todas
as outras. Só, de quando em quando, quem para lá olhasse attento
do meio do terreiro enxergaria o que quer que era alvacento, que
ora se chegava á janella, ora se retrahia. Mas o silencio que
reinava naquelles sitios não era interrompido pelo menor ruído.
De repente um vulto chegou debaixo da janella e bateu de vagarinho
as palmas: a figura alvacenta chegou á janella, debruçou-se,
disse algumas palavras em voz baixa, retirou-se, tornou a voltar
e pendurou uma escada de corda que segurou por dentro. O vulto
que chegára subiu rapidamente, e ambos desappareceram através
dos corredores e aposentos do paço.
Em um destes ultimos, alumiado por tochas seguras por longos
braços de ferro chumbados nas paredes, passeava um homem de meia
idade e gentil. Os seus passos eram rapidos e incertos, e o seu
aspecto carregado. De quando em quando parava e escutava a uma
porta, cujo reposteiro se meneava levemente; depois continuava a
passear, parando ás vezes com os braços cruzados e como entregue
a cogitações dolorosas.
Por fim o reposteiro ondeou d'alto a baixo e franziu-se no meio:
mão alva de mulher o segurava. Esta entrou, após ella um homem
alto e robusto, vestido de burel e cingido de cincto de esparto,
d'onde pendiam umas grossas camandulas. A dama atravessou
vagarosamente a sala e foi sentar-se em um estrado de altura
de palmo, que corria ao longo d'uma das paredes do aposento.
O homem que passeava assentou-se também no unico escabello que
alli havia. Fr. Roy, que o leitor já terá conhecido, ficou ao
pé da porta por onde entrara, com a cabeça baixa e em postura
abeatada.
"Aproxima-te, beguino!"--disse com voz trémula elrei; porque era
elrei D. Fernando o homem que se assentára.
Fr. Roy deu uns poucos de passos para diante.
"Que ha de novo?"--perguntou elrei.
"O povo cada vez está mais alvorotado, e jura falar rijamente
ámanhan a vossa senhoria. Mas essa não é a peior nova que eu
trago!"
"Fala, fala, beguino!--acudiu elrei, estendendo a mão convulsa
para o ichacorvos.
"É que ámanhan, em quanto vossa senhoria estiver em S. Domingos,
o paço será accommettido. Pretendem matar..."
"Mentes, beguino!--gritou a dama, erguendo-se do estrado de um
salto, semelhante a tigre descoberto pelos caçadores nos matagaes
da Ásia.--Mentes! Podem não me querer minha: mas assassinar-me!
Isso é impossivel. Amo muito o povo de Lisboa; tenho-lhe feito as
mercês que posso, para que elle haja de me odiar assim de morte.
Os fidalgos podem persuadi-lo a oppôr-se ao nosso casamento; mas
nunca a pôr mãos violentas na pobre Leonor Telles."
"Prouvera a Deus que eu mentisse hoje! Seria a primeira vez na
minha vida:--replicou o ichacorvos com ar contrito.--Mas ouvi
com meus ouvidos a ordem para o feito e a promessa da execução,
haverá tres credos, na taberna de Folco Taca."
"Miseraveis!--bradou erguendo-se tambem elrei, a quem o risco
da sua amante restituira por um momento a energia.--Miseraveis!
Querem sobre a cerviz o jugo de ferro de meu pae? Te-lo-hão.
Quem ousa ordenar tal cousa?"
"Diogo Lopes Pacheco, do vosso conselho, o disse ao alfaiate
Fernão Vasques, o coudel dos revoltosos, e vosso irmão D. Diniz
estava tambem com elles:"--respondeu Fr. Roy.
O beguino era o espia mais sincero e imperturbavel de todo o mundo.
"Velho assassino!--exclamou D. Fernando--cubriste de luto eterno
o coração do pae! Queres cubrir o do filho. E tu, Diniz, que eu
amei tanto, tambem entre os meus inimigos! Leonor, que faremos
para te salvar?! Aconselha-me tu, que eu quasi que enlouqueci!"
O pobre e irresoluto monarcha cobriu o rosto com as mãos, arquejando
violentamente. D. Leonor, cujos olhos centelhantes, cujos labios
esbranquiçados revelavam mais odio que terror, lançou-lhe um
olhar de desprezo, e em tom de mofa respondeu:
"Sim, senhor rei, na falta de vossos leaes conselheiros posso eu,
triste mulher, dar-vos um bom conselho. Acordae vossos pagens,
que vão pregar um poste à porta destes paços, e mandae-me amarrar
a elle para que o vosso bom povo de Lisboa possa despedaçar-me
tranquillamente ámanhan sem profanar os vossos aposentos reaes.
Será mais uma grande mercê que lhe fareis em recompensa do seu
amor á vossa pessoa, da sua obediencia aos vossos mandados."
"Leonor, Leonor, não me fales assim, que me matas!--gritou D.
Fernando, deitando-se aos pés de D. Leonor e abraçando-a pelos
joelhos, com um chôro convulso.--Que te fiz eu para me tractares
tão cruelmente?"
"D. Fernando, lembra-te bem do que te vou dizer! O povo ou se
rege com a espada do cavalleiro, ou elle vem collocar a ascuma
do peão sobre o throno real. Quem não sabe brandir o ferro, cede;
deixa-o reinar."
"Tens razão, Leonor!--disse D. Fernando, enxugando as lagrymas
e alçando a fronte nobre e formosa, onde se pintava a indignação.
--Serei filho de D. Pedro o cruel; serei successor de meu pae.
Eu mesmo vou ao alcaçar examinar os engenhos mais valentes que
cubram o terreiro de S. Martinho de pedras, de virotões e de
cadaveres: os montantes e as béstas dos homens d'armas e bésteiros
do meu alcaide-mór de Lisboa farão o resto. João Lourenço Bubal
será fiel a seu rei. Se necessario fôr com minhas proprias mãos
ajudarei a pôr fogo á cidade, para que nem um revoltoso escape.
Adeus, Leonor: conta que serás vingada."
D. Fernando voltou-se rapido para a porta do aposento. Fr. Roy
estava immovel diante delle.
"João Lourenço Bubal--disse o espia sem se alterar--é dos revoltosos.
Ouvi-o da bôca do proprio Diogo Lopes, que o certificou a Fernão
Vasques. Os trons do alcacer estão desapparelhados; e a maior parte
dos homens d'armas e bésteiros do alcaide-mór eram na taberna de
Folco Taca os mais furiosos contra a que elles chamam...."
"Cal-te, beguino!"--gritou elrei, empurrando-o com força e procurando
tapar-lhe a bôca.
O ichacorvos parou onde o impulso recebido o deixou parar, e
ficou outra vez immovel diante de D. Fernando, a quem este ultimo
golpe lançava de novo na sua habitual perplexidade.
"... A adultera:--proseguiu Fr. Roy acabando a phrase, porque
ainda a devia, e era escrupuloso e pontual do desempenho do seu
ministerio.
"Beguino!--atalhou D. Leonor com voz trémula de raiva--melhor
fôra que nunca essa palavra te houvesse passado pela bôca; porque
talvez um dia ella seja fatal para os que a tiverem proferido."
"Mas que faremos!?--murmurou elrei com gesto d'indizivel agonia.
"Havia ainda ha pouco tres expedientes,--respondeu D. Leonor,
recobrando apparente serenidade--combater, ceder, fugir. O primeiro
é já impossível; o segundo!... Porque não o acceitas, Fernando?
Prestes estou para tudo. Não me verás mais, ainda que, longe de
ti, por certo estalarei de dor. Cede á força: os teus vassallos
o querem; que-lo o teu povo. Esquece-te para sempre de mim!"
"Esquecer-me de ti? Não te vêr mais? Nunca! Obedecer á força?
Quem ha ahi que ouse dizer ao rei de Portugal:--rei de Portugal,
obedece á força?--Os peões de Lisboa?! Porque sou manso na paz,
não crêem que a minha espada no campo de batalha córte arnezes
como a do melhor cavalleiro? Bons escudeiros e homens d'armas da
minha hoste, por onde andaes derramados? Dormis por vossas honras
e solares? O povo vos acordará como me acordou a mim; bramirá como
os lobos da serra ao redor de vossas moradas; saltear-vos-ha no
meio de vossos banquetes, por entre o ruído de vossos folgares.
No ardor de vossos amores dir-vos-ha:--desamae!--Elle ousa já
dize-lo a seu rei e senhor... Oh desgraçado de mim, desgraçado
de mim!"
"Não queres, pois, deixar-me entregue á minha estrella?--disse
D. Leonor, com voz entre de chôro e de ternura, abraçando pelo
pescoço o pobre monarcha, e chegando a sua fronte suave e pallida
ás faces afogueadas de D. Fernando, que n'uma especie de delirio
olhava espantado para ella.
"Não, não! Viver comtigo, ou morrer comtigo. Cahirei do throno,
ou tu subirás a elle."
Um sorriso quasi imperceptivel se espraiou pelo rosto de Leonor
Telles, que, recuando e tomando uma postura resoluta e ao mesmo
tempo de resignação, proseguiu com voz lenta mas firme:
"Então resta o fugir."
"Fugir!"--exclamou elrei. E esta palavra só era mais expressiva
que narração bem extensa dos atrozes martyrios que o malaventurado
curtia no coração irresoluto mas generoso, com a idéa de um feito
vil e covarde em qualquer escudeiro, vilissimo e torpissimo n'um
rei de Portugal, em um neto de Affonso IV.
Elrei olhou para ella um momento. Era sereno o seu rosto angelico,
semelhante ao de uma dessas virgens que se encontram nas illuminuras
de antigos codices, o segredo de cujos toques, perdido no fim do
seculo quinze, a arte moderna a muito custo pôde fazer resurgir. O
mais experto physionomista difficultosamente adivinharia a negrura
d'alma que se escondia debaixo das puras e candidas feições de
D. Leonor, se não fossem duas rugas que lhe desciam da fronte
e se uniam entre os sobr'olhos, contrahindo-se e deslisando-se
rapidamente, como as vesiculas peçonhentas das fauces d'uma vibora.
"Seja, pois, assim! Fujamos:"--murmurou D. Fernando com o tom e
gesto com que o suppliciado daria no alto do patibulo o perdão
ao algoz.
D. Leonor tirou do largo cincto, com que apertava a airosa cinctura,
uma bolça de ouropel, e atirou com ella aos pés do beguino, que,
de mãos cruzadas sobre o peito e os olhos semi-abertos cravados na
abobada do aposento, parecia extatico e engolfado nos pensamentos
sublimes do ceu.
"Vinte dobras de D. Pedro por teu soldo, beguino: vinte pelo teu
silencio. O resto da recompensa te-lo-has um dia, se a adultera
atravessar triumphadora o portal por onde vae saír fugitiva."
O rir affavel de que estas palavras foram acompanhadas fizeram
correr um calafrio pela medulla espinal do ichacorvos, cujas
pernas vacillaram. Mas o contacto das quarenta dobras, que uniu
immediatamente ao peito debaixo do escapulario, lhe restituiram
o vigor natural.
Elrei havia-se assentado, quasi desfallecido, no escabello unico
do aposento, e o seu aspecto demudado infundia ao mesmo tempo
terror e compaixão. Quando o beguino alevantou a bolça, D. Fernando
fitou nelle os olhos e estendeu a mão para o reposteiro sem dizer
palavra.