A noite descia triste: as nuvens corriam rapidamente do lado do

oeste, e deixavam de quando em quando passar um raio afogueado

do sol que se punha. O vento tepido, humido e violento fazia

ramalhar as arvores dos jardins que circumdavam os aposentos de

Abdu-r-rahman. As folhas, retinctas já de um verde amarellado

e mortal, desprendiam-se das tranças das romeiras, dos sarmentos

das videiras e dos ramos dos choupos em que estas se enredavam,

e, remoinhando nas correntes da ventania, íam, íam, até rastejar

pelo chão e empeçar na grama sêcca dos prados. O kalifa, exhausto,

sentia aquelle ciclo da vegetação moribunda chama-lo tambem para

a terra, e a melancholia da morte pesava-lhe sobre o espirito.

Al-muulin durante a conversação daquella tarde havia-se mostrado,

contra o seu costume, severamente grave, e nas suas palavras

havia o que quer que era accorde com a tristeza que o rodeava.

"Conheço que se aproxima a hora fatal:--dizia o kalifa.--Nestas

veias em breve se gelará o sangue; mas, sancto fakih, não me será

licito confiar na misericordia de Deus? Derramei o bem entre

os mussulmanos, o mal entre os infiéis: fiz emmudecer o livro

de Jesus perante o de Mohammed; e deixo a meu filho um throno

firmado no amor dos subditos e na veneração e temor dos inimigos

da dynastia dos Beni-Umeyyas. Fiz quanto a um homem era dado fazer

pela gloria do Islam. Que mais pretendes?--Porque não tens nos

labios para o pobre moribundo senão palavras de terror?--Porque ha

tantos annos me fazes beber gole a gole a taça da desesperação?"

Os olhos do fakih, ao ouvir estas perguntas, brilharam com desusado

fulgor, e um daquelles sorrisos diabolicos, com que costumava

fazer gelar todas as ardentes idéas mysticas do principe, lhe

assomou ao rosto enrugado e carrancudo. Contemplou por um momento

o do velho monarcha, onde de feito já vagueavam as sombras da

morte: depois dirigiu-se á porta da camara, assegurou-se bem

de que não era possivel abrirem-na exteriormente, e voltando

para ao pé do almatrah, tirou do peitilho um rôlo de pergaminho,

e começou a ler em tom de indizivel escarneo:

"Resposta de Al-gafir o triste ás ultimas perguntas do poderoso

Abdu-r-rahman, oitavo kalifa de Cordova, o sempre vencedor,

justiceiro e bemaventurado entre todos os principes da raça dos

Beni-Umeyyas. Capitulo avulso da sua historia."

Um rir prolongado seguiu a leitura do titulo do manuscripto.

Al-muulin continuou:

"No tempo deste celebre, virtuoso, illustrado e justiceiro monarcha

havia no seu diwan um wasir, homem sincero, zeloso da lei do

propheta, e que não sabia torcer por humanos respeitos a voz

da sua consciencia. Chamava-se Mohammed-Ibn-Ishak, e era irmão

de Umeyya-Ibn-Ishak, kaid de Chantaryn, um dos guerreiros mais

illustres do Islam, segundo diziam."

"Ora esse wasir cahiu no desagrado do Abdu-r-rahman, porque lhe

falava verdade, e rebatia as adulações dos seus lisongeiros.

Como o kalifa era generoso, o desagrado para com Mohammed

converteu-se em odio; e como era justo, o odio breve se traduziu

n'uma sentença de morte. A cabeça do ministro cahiu no cadafalso,

e a sua memoria passou á posteridade manchada pela calumnia.

Todavia o principe dos fiéis sabia bem que tinha assassinado um

innocente."

As feições transtornadas de Abdu-r-rahman tomaram uma expressão

horrivel de angustia: quiz falar, mas apenas pôde fazer um signal

como que pedindo ao fakih que se calasse. Este proseguiu:

"Parece-me que o ouvir a leitura dos annaes do teu illustre reinado

te allivia e revoca á vida. Continuarei. Podesse eu prolongar

assim os teus dias, clementissimo kalifa!"

"Umeyya, quando soube da morte ignominiosa de seu querido irmão,

ficou como insensato. Á saudade ajunctava-se o horror do ferrete

posto sobre o nome, sempre immaculado, da sua familia. Dirigiu

as supplicas mais vehementes ao príncipe dos fiéis para que ao

menos rehabilitasse a memoria da pobre victima; mas soube-se

que ao ler a sua carta o virtuoso principe desatara a rir...!

Era, conforme lhe relatou o mensageiro, deste modo que elle ria."

E Al-muulin aproximou-se de Abdu-r-rahman, e soltou uma gargalhada.

O moribundo arrancou um gemido.

"Estás um pouco melhor ... não é verdade, invencivel kalifa?

Prosigamos. Umeyya quando tal soube, calou-se. O mesmo mensageiro

que chegara de Korthoba partiu para Oviedo. O rei cristão de

Al-djuf não se riu da sua mensagem. Dahi o pouco Radmiro tinha

passado o Douro, e as fortalezas e cidades mussulmanas até o

Tejo haviam aberto as portas ao rei franco, por ordem do kaid

de Chantaryn. Com um numeroso esquadrão de amigos leaes este

ajudou a devastar o territorio mussulmano do Gharb até Merida.

Foi uma esplendida festa; um sacrifício digno da memoria de seu

irmão. Seguiram-se muitas batalhas, em que o sangue humano correu

em torrentes."

"Pouco a pouco Umeyya começou a rellectir. Era Abdu-r-rahman quem

o offendêra. Para que tanto sangue vertido? A sua vingança fôra

a de uma besta-féra; fôra estúpida e van. Ao kalifa, quasi sempre

victorioso, que importavam os que por elle pereciam? O kaid de

Chantaryn mudou então de systema. A guerra publica e inutil

converteu-a em perseguição occulta e efficaz: á forca oppoz a

destreza. Fingiu abandonar os seus alliados e sumiu-se nas trevas.

Esqueceram-se delle. Quando tornou a apparecer á luz do dia ninguém

o conheceu. Era outro. Vestia um burel grosseiro; cingia uma corda

de esparto; os cabellos cahiam-lhe desordenados sobre os hombros

e velavam-lhe metade do rosto: as faces tinha-lh'as tisnado o

sol dos desertos. Corrêra o Andaluz e o Moghreb; espalhara por

toda a parte os thesouros da sua família e os próprios thesouros

até o ultimo dirhem, e em toda a parte deixara agentes e amigos

fiéis. Depois veio viver nos cemiterios de Korthoba, juncto dos

porticos soberbos do seu inimigo mortal; espiar todos os momentos

em que podesse offerecer-lhe a amargura, as angustias em troca

do sangue de Mohammed-Ibn-Isbak. O guerreiro chamou-se desde

esse tempo Al-gafir, e o povo denominava-o Al-muulin, o sancto

fakih..."

Como sacudido por uma corrente electrica, Abdu-r-rahman dera

um pulo no almatrah ao ouvir estas ultimas palavras, e ficára

sentado, hirto e com as mãos estendidas. Queria bradar, mas o

sangue escumou-lhe nos labios, e só pôde murmurar já quasi

inintelligivelmente:

"Maldicto!"

"Boa cousa é a historia,--proseguiu o seu algoz sem mudar de

postura--quando nos recordâmos do nosso passado, e não achâmos lá

para colher um único espinho de remorso! É o teu caso, virtuoso

principe! Mas sigamos ávante. O sancto fakih Al-muulin foi quem

instigou Al-barr a conspirar contra Abdu-r-rahman; quem perdeu

Abdallah; quem delatou a conspiração; quem se apoderou do teu

animo credulo; quem te puniu com os terrores de tantos annos;

quem te acompanha no trance derradeiro, para te lembrar juncto ás

portas do inferno que se foste o assassino de seu irmão, tambem

o foste do proprio filho; para te dizer que se cobriste o seu

nome de ignominia, tambem ao teu se ajunctará o de tyranno. Ouve

pela ultima vez o rir que responde ao teu riso de ha dez annos.

Ouve, ouve, kalifa!"

Al-gafir, ou antes Umeyya, levantára gradualmente a voz, e estendia

os punhos cerrados para Abdu-r-rahman, cravando nelle os olhos

reluzentes e desvairados. O velho monarcha tinha os seus abertos,

e parecia tambem olhar para elle, mas perfeitamente tranquillo.

A quem houvesse presenciado aquella tremenda scena não seria

facil dizer qual dos dous tinha mais horrendo gesto.

Era um cadaver o que estava diante de Umeyya: o que estava diante

do cadaver era a expressão mais energica da atrocidade de coração

vingativo.

"Oh, se não ouviria as minhas derradeiras palavras!..."--murmurou

o fakih depois de ter conhecido que o kalifa estava morto. Poz-se

depois a scismar largo espaço: as lagrymas rolavam-lhe a quatro

e quatro pelas faces rugosas.--"Um anno mais de tormentos, e

ficava satisfeito!--exclamou por fim.--Podéra eu dilatar-lhe a

vida!"

Dirigiu-se então para a porta, abriu-a de par em par e bateu as

palmas. Os eunuchos, as mulheres, e o proprio Al-hakem, inquieto

pelo estado de seu pae, precipitaram-se no aposento. Al-muulin

parou no limiar da porta, voltou-se para traz, e com voz lenta

e grave disse:

"Orae ao propheta pelo repouso do kalifa."

Houve quem o visse saír, quem á luz baça do crepusculo o visse

tomar para o lado de Cordova com passos vagarosos, apesar das

lufadas violentas do oeste, que annunciavam uma noite procellosa.

Mas nem em Cordova, nem em Azzahrat, ninguém mais o viu desde

aquelle dia.

ARRHAS POR FORO D'HESPANHA (1371-2)

A Arraya-Miuda

O sino das ave-marias, ou da oração, tinha dado na torre da sé

a ultima badalada, e pelas frestas e portas dessa multidão de

casas, que apinhadas á roda do castello, e como enfeixadas e

comprimidas pela apertada cincta das muralhas primitivas de Lisboa,

pareciam mal caberem nellas, viam-se fulgurar aqui e acolá as

luzes interiores, emquanto as ruas, tortuosas e immundas, jaziam

como baralhadas e confusas sob o manto das trevas. Era chegada a

hora dos terrores; porque durante a noite, naquelles bons tempos,

a estreita senda de bosque deserto não era mais triste, temerosa

e arriscada que a propria rua-nova, a mais opulenta e formosa da

capital. O que, porém, havia ahi desacostumado e estranho era o

completo silencio e a escuridão profunda em que jazia sepultado o

paço d'apar S. Martinho, onde então residia elrei D. Fernando, ao

mesmo tempo que pelos becos e encruzilhadas soava um tropear de

passadas, um sussurro de vozes vagas, que indicavam terem sido

agitadas as ondas populares pelo vento de Deus, e que ainda esse

mar revolto não tinha inteiramente cahido na calma e somnolencia

que vem após a procella.

E assim era, com effeito, como o leitor poderá averiguar por

seus proprios olhos e ouvidos, se, manso, manso e disfarçado,

quizer entrar comnosco na mui affamada e antiga taberna do velho

Folco Taca, que nos fica bem perto, logo ao sair da sé, na rua

que sobe para os paços da alcaçova, sete ou oito portas acima

dos paços do concelho.

A taberna de micer Folco Taca, genovez, que viera a Portugal

ainda impubere, como pagem d'armas do famoso almirante Lançarote

Peçanha, e que havia annos abandonára o serviço maritimo para se

dar á mercancia, era a mais celebre entre todas as de Lisboa,

não só pelo luxo do seu adereço, e bondade dos liquidos encerrados

nas cubas monumentaes que a pejavam, mas tambem porque em um

aposento mais retirado e interior uma vasta banca de pinho e

muitos assentos rasos, ou escabellos, offereciam todo o commodo

aos tavolageiros de profissão, para perderem ou ganharem ahi,

em noites de jogo infrene, os bellos alfonsins e maravedis de

ouro, ou as estimadas dobras de D. Pedro I, que, ao contrario

dos seus antecessores e successores, julgára ser mais rico e

poderoso fazendo cunhar moeda de bom toque e peso, do que

roubando-lhe o valor intrinseco, e augmentando-lhe o nominal,

segundo o costume de todos os reis no começo de seu reinar.

Micer Folco soubera estender grossas nevoas sobre os olhos do

corregedor da côrte e de todos os saiões, algozes e mais familia

da nobre raça dos alguazis sobre a illegalidade de semelhante

estabelecimento industrial. O elixir que elle empregára para

produzir essa maravilhosa cegueira não sabemos nós qual fosse;

mas é certo que não se perdeu com a alchimia, porque se vê que

elle existe em mãos abençoadas, produzindo ainda hoje repetidos

milagres em tudo analogos a este.

Era, pois, na taberna-tavolagem da porta do ferro, conhecida

vulgarmente por tal nome em consequencia da vizinhança desta porta

da antiga cêrca, onde os ruídos vagos e incertos, que sussurravam

pelas ruas da cidade, soavam mais alta e distinctamente, como

em sorvedouro marinho as ondas, remoinhando e precipitando-se,

estrepitam no centro da voragem com mais soturno e retumbante

fragor. A vasta quadra da taberna estava apinhada de gente, que

trasbordava até o breve terreirinho da sé, falando todos a um

tempo, accesos, ao que parecia, em violentas disputas, que ás

vezem eram interrompidas pelo mais alto brado das pragas e

blasphemias, indicio evidente de que o successo que motivava

aquella assuada ou tumulto era negocio que excitava vivamente

a colera popular.

Já no fim do seculo decimo-quarto era o povo, assim como boje,

colerico. Então coleras da puericia; hoje aborrimentos de velhice.

Se na rua o borborinho era tempestuoso e confuso, dentro da casa

de micer Folco a bulha podia chamar-se infernal. Para um dos

lados, no meio de uma espessa mó de populares, ouviam-se palavras

ameaçadoras, sem que fosse possivel perceber contra qual ou quaes

individuos se accumulava tanta sanha. Para outra parte, d'entre o

vozear de uma cerrada pinha de mulheres, cuja vida de perdição se

revelava nos seus coromens de panno d'Arrás, nos cinctos escuros,

nas camisas e véus desadornados e lisos, rompiam risadas discordes

e esganiçadas, em que se sentia profundamente impresso o descaro

e insolencia daquellas desgraçadas. Em cima dos bofetes viam-se

picheis e taças vazias, e debaixo de alguns delles corpos estirados,

que simulariam cadaveres, se os assovios e roncos que ás vezes

sobresaíam através do ruído daquelle respeitavel congresso, não

provassem que esses honrados cidadãos, suavemente embalados pelos

vapores do vinho e do enthusiasmo, tinham adormecido na paz d'uma

boa consciencia. Emfim, a composta e illustre taberna do antigo

companheiro de gloria de micer Lançarote estava visivelmente

prostituida e livelada com as mais immundas e vis baiúcas de

Lisboa. O gigante popular tinha ahi assentado a sua curia feroz, e

pela primeira vez o vicio e a corrupção tinham transposto aquelles

umbraes sem a sua mascara de modestia e gravidade. Sobre os farrapos

do povo não têem cabida os adornos de ouropel. É a unica differença

moral que ha entre elle e as classes superiores, que se crêem

melhores, porque no gymnasio da civilisação aprendem desde a

infancia as destrezas e os momos de compostura hypocrita.

O astro que parecia alumiar com sua luz, aquecer com seu calor

aquelle turbilhão de planetas; o centro moral, á roda do qual

giravam todos aquelles espiritos, era um homem que dava mostras

de ter bem quarenta annos, alto, magro, trigueiro, olhos encovados

e scintilantes, cabello negro e revolto, barba grisalha e espessa.

Encostado a um dos muitos bofetes que adornavam o amplo aposento,

e rodeado de uma vasta pinha de populares de ambos os sexos, que

o escutavam em respeitoso silencio, a sua voz grossa e sonora

sobresaía no ruído, e só se confundia com alguma jura blasphema

que se disparava do meio das outras pinhas de povo, ou com as

modulações das risadas, que vibravam naquelle ambiente denso e

abafado, de certo modo semelhantes a clarão affogueado que sulcasse

rapidamente as trevas humidas e profundas da crypta subterranea

de alguma igreja do sexto seculo.

De repente dous cavalleiros, cuja graduação se conhecia pelos

barretes de veludo preto adornados de pluma ao lado, pelas calças

de seda golpeadas, e pelos cinctos de pelle de gamo lavrados

de prata, entraram na taberna, e, rompendo por entre o povo,

que lhes alargava a passagem, chegaram ao pé do homem alto e

trigueiro. Traziam os capeirotes puxados para a cara, de modo

que nenhum dos circumstantes pôde conhecer quem eram. Bastantes

desejos passaram por muitos daquelles cerebros vinolentos de o

indagar; mas uma identica reflexão atou todas as mãos. Ao longo

da côxa esquerda dos embuçados via-se reluzir a espada, e no lado

direito, apertado no cincto, que a ponta erguida do capeirote

deixava apparecer, descortinava-se o punhal. O passaporte para

virem assim aforrados era digno de todo o respeito, e ainda que

entre a turba se achassem alguns homens d'armas, principalmente

bésteiros, quasi todos estavam desarmados. Tinha seus riscos,

portanto, o pôr-lhes o visto popular.

Os dous desconhecidos falaram em segredo por alguns minutos ao

homem alto e magro, que de quando em quando meneava a cabeça

fazendo um gesto de assentimento: depois romperam por entre a

turba, que os examinava com uma especie de receio misturado de

respeito, e foram assentar-se em dous dos escabellos enfileirados

ao correr da parede. Encostando os cotovelos em um bofete, com

as cabeças apertadas entre os punbos, ficaram imoveis e como

alheios ao sussurro que começava a alevantar-se de novo á roda

delles.

Este durou breves instantes; um psiuh do homem alto e magro fez

voltar todos os olhos para aquella banda. Subindo a um escabello,

elle deu signal com a mão de que pretendia falar.

"Ouvide! Ouvide!"--bradaram alguns que pareciam os maioraes daquella

multidão desordenada.

Todos os pescoços se alongaram a um tempo, e viram-se muitas

mãos callosas erguerem-se encurvadas, e formarem em volta das

orelhas de seus donos uma especie de annel acustico. O orador

principiou:

"Arraya-miuda[1]! tendes vós já elegido, entre vós outros, cidadãos

bem falantes e avisados para propôr vossos embargos e razoados

contra este maldicto e descommunal casamento d'el-rei com a mulher

de João Lourenço da Cunha?"

"Todos á uma entendemos que deveis ser vós, mestre Fernão Vasques:

--respondeu um velho, cuja calva polida reverberava os raios

d'uma das lampadas pendentes do tecto, e que parecia ser homem de

conta entre os populares.--Quem ha ahi entre a arraya-miuda mais

discreto e aposto para taes autos que vós? Quem com mais urgentes

razões proporia nosso aggravo e a deshonra e vilta d'elrei, do

que vós o fizestes hoje na mostra que démos ao paço esta tarde?"

"Alcacer, alcacer! por nosso capitão Fernão Vasques:--bradou unisona

a chusma.

"Fico-vos obrigado, mestre Bartholomeu Chambão!--replicou Fernão

Vasques, socegado o tumulto.--Pelo razoado de hoje terei em paga

a forca, se a adultera chega a ser rainha: pelo do ámanhan terei

as mãos decepadas em vida, se elrei com suas palavras mansas e

enganosas souber apaziguar o povo. E tendes vós por averiguado,

mestre Bartholomeu, que o carrasco sabe apertar melhor o nó da

corda na garganta, que eu o ponto em peitilho de saio, ou em

costura de redondel ou pelote, e que o cutelo do algoz entra mais

rijo no gasnate de um christão que a vossa enchó n'uma aduela

de pipa?"

"Nanja emquanto na minha aljava houver almazem, e a garrucha

da bésta, me não estourar:--exclamou um bésteiro de conto,

cambaleando e erguendo-se debaixo d'um bofete, para onde o haviam

derribado certas perturbações d'enthusiasmo politico.

"Amendico Vobis!--gritou um beguino, cujas faces vermelhas e

voz de Stentor brigavam com o habito de grosseiro burel e com

as desconformes camandulas que lhe pendiam da cincta.

"Olé, Fr. Roy Zambrana, fala linguagem christenga, se queres

vir nesse bordo por nossa esteira:--bradou um petintal d'Alfama,

que, segundo parecia, capitaneava um grande troço de pescadores,

barqueiros e galeotes daquelle bairro, então quasi exclusivamente

povoado de semelhante gente.

"Digo por linguagem"--acudiu o beguino--"que ninguém como mestre

Fernão Vasques é homem de cordura e sages para ámanhan falar a

elrei aguisadamente sobre o feito do casamento de Leonor Telles,

do mesmo modo que ninguem leva vantagem ao petintal Ayras Gil

em ousadia para fugir ás galés de Castella e doestar os bons

servos da igreja."

Era allusão pessoal. Uma risada ruidosa e longa correspondeu

á mordente desforra de Fr. Roy, que abaixou os olhos com certo

modo hypocritamente contrito, semelhante ao gato, que, depois de

dar a unhada, vem roçar-se mansamente pela mão que ensanguentou.

Fr. Roy era tambem, como Ayras Gil, um idolo popular, e a má

vontade que parecia haver entre o beguino e o petintal nascêra da

emulação; de uma duvida cruel sobre a altura relativa do throno

de encruzilhada, do throno de lama e farrapos, em que cada um

delles se assentava.

Se, pois, aquella multidão não estivesse persuadida da superioridade

intellectual do alfaiate Fernão Vasques, a opinião desses dous

oraculos lhe não teria deixado a menor duvida sobre isso. Todavia,

nas palavras de ambos havia um pensamento escondido; pensamento

de odio que nascêra n'um dia, e n'um dia lançára profundas raizes

nos corações de ambos. O marinheiro e o eremita tinham pensado ao

mesmo tempo que, lisongeando esse homem mimoso do vulgo, tirariam

juntamente dous resultados, o de ganharem mais credito entre

este, e de aplanarem a estrada da forca ao novo rei das turbas,

erguido, havia poucas horas, sobre os broqueis populares.

Mas que auto era este de que o povo falava? Sabe-lo-hemos remontando

um pouco mais alto.

O amor cego d'el-rei D. Fernando pela mulher de João Lourenço

da Cunha, D. Leonor Telles, havia muito que era o pasto saboroso

da maledicencia do povo, dos calculos dos politicos e dos enredos

dos fidalgos. Ligada por parentesco com muitos dos principaes

cavalleiros de Portugal, D. Leonor, ambiciosa, dissimulada e

corrompida, tinha empregado todas as artes do seu engenho prompto

e agudo em formar entre a nobreza uma parcialidade que lhe fosse

favoravel. Quanto a elrei, a paixão violenta em que este ardia

lhe assegurava a ella o completo dominio no seu coração. Mas

as miras daquella mulher, cuja alma era um abysmo de cubiça,

de desenfreamento, de altivez e de ousadia, batiam mais alto do

que na triste vangloria de vêr a seus pés um rei bom, generoso

e gentil. Através do amor de D. Fernando ella só enxergava o

refulgir da corôa, e o homem sumia-se nesse esplendor. O nome de

rainha misturava-se em seus sonhos; era o significado de todas

as suas palavras de ternura, o resumo de todas as suas caricias,

a idéa primitiva de todas as suas idéas. Leonor Telles não amava

elrei, como o provou o tempo; mas D. Fernando cria no amor della;

e este principe, que seria um dos melhores monarchas portuguezes,

e que a muitos respeitos o foi, deixou na historia, quasi sempre

superficial, um nome deshonrado, por ter escripto esse nome na

horrivel chronica da nossa Lucrecia Borgia. Uma difficuldade,

quasi insuperavel para outra que não fosse D. Leonor, se interpunha

entre ella e seus ambiciosos designios. Era casada! Um processo

de divorcio por parentesco, julgado por juizes affectos a D.

Leonor, ou que sabiam até onde chegava a sua vingança, a livrou

desse tropeço. Seu marido, João Lourenço da Cunha, atterrado,

fugiu para Castella, e D. Fernando, casado, segundo se dizia,

a occultas com ella, muito antes da epocha em que começa esta

narrativa, viu emfim satisfeito o seu amor insensato.

Aquelles d'entre os nobres, que ainda conservavam puras as tradições

severas dos antigos tempos, indignavam-se pelo opprobrio da corôa e

pelas consequencias que devia ter o repudio da infante de Castella,

cujo casamento com elrei, ajustado e jurado, este desfizera com

a leveza que se nota como defeito principal no caracter de D.

Fernando. Entre os que altamente desapprovavam taes amores, o

infante D. Diniz, o mais moço dos filhos de D. Ignez de Castro,

e o velho Diogo Lopes Pacheco[2] eram, segundo parece, os cabeças

da parcialidade contraria a D. Leonor; aquelle pela altivez de

seu animo; este por gratidão a D. Henrique de Castella, em quem

achára amparo e abrigo no tempo dos seus infortunios, e que o

salvára da triste sorte de Alvaro Gonçalves Coutinho e de Pedro

Coelho, seus companheiros no patriotico crime da morte de D.

Ignez.

O casamento d'elrei, ou verdadeiro ou falso, era ainda um rumor

vago, uma suspeita. Os nobres, porém, que o desapprovavam souberam

transmittir ao povo os proprios temores; e a agitacão dos animos

crescia á medida que os amores d'elrei se tornavam mais publicos.

D. Fernando tinha já revelado aos seus conselheiros a resolução

que tomára, e estes, posto que a principio lhe falassem com a

liberdade que então se usava nos paços dos reis, vendo suas

diligencias baldadas, contentaram-se de condemnar com o silencio

essa malaventurada resolução. O povo, porém, não se contentou

com isso.

Conforme as idéas desse tempo, além das considerações politicas,

semelhante consorcio era monstruso aos olhos do vulgo, por um motivo

de religião, o qual ainda de maior peso seria hoje, e sê-lo-ha em

todos os tempos em que a moral social fòr mais respeitada do que

o era naquella epocha. Tal consorcio constituia um verdadeiro

adulterio, e os filhos que delle procedessem mal poderiam ser

considerados como infantes de Portugal, e por consequencia como

fiadores da successão da corôa.

A irritação dos animos, assoprada pela nobreza, tínha chegado

ao seu auge, e a colera popular rebentára violenta na tarde que

precedeu a noite em que começa esta historia.

Lendas e Narrativas (Tomo I) · 第 2 / 13 段