A sala denominada do Kalifa, a mais espaçosa entre tantos ap

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This e-text is transcribed from the 1858 2nd edition of Lendas e

Narrativas (Tomo I).

LENDAS E NARRATIVAS (Tomo I)

ADVERTENCIA

A Advertência que precedia a anterior edição, e que adiante vae

repetida, explica sobejamente porque as primeiras tentativas de um

género de escriptos, que só muito tarde foi cultivado em Portugal,

se publicaram em volumes, quando talvez não devessem sair das

columnas dos jornaes, onde viram a luz publica. Considerámo-los

então, e considerâmo-los agora apenas como balisas no campo da

nossa historia litteraria, balisas que nos parecem ainda mais

toscas actualmente; porque ao passo que a reflexão e o tempo

nos amaduram o espirito, os defeitos de composição e de estylo

cada vez se vão avolumando mais aos olhos da nossa consciência

retrospectiva. Reputando-os, todavia, hoje como ha oito annos,

simples marcos milliarios, a presente edição absolve-se pelos

mesmos títulos porque devia ser absolvida a edição anterior.

Esperávamos, e dissemo-lo sinceramente, que estas desadornadas

tentativas esqueceriam em breve offuscadas pelas brilhantes

composições que começavam a avultar no caminho que havíamos aberto.

O publico enleodeu de outro modo. Sem deixar de apreciar o melhor,

não esqueceu estes mal delineados esboços, que ficaram na sua

memória como nos ficam para a saudade os dias do nosso balbuciar

infantil.

Quinze a vinte annos são decorridos desde que se deu um passo,

bem que débil, decisivo, para quebrar as tradições do Alivio

de Tristo e do Feliz Independente, tyrannos que reinavam sem

émulos e sem conspirações na provincia do romance português.

Nestes quinze ou vinte annos creou-se uma litteratura e póde

dizer-se que não ha anno que não lhe traga um progresso. Desde

as Lendas e Narrativas até o livro Onde está a Felicidade? que

vasto espaço transposto! E todavia, apesar do immenso talento

que se revela nas mais recentes composições, quem sabe se entre

os nomes que despontam apenas nos horisontes litterarios, não

virá em breve algum que offusque os que nos deixaram para nós

somente um bem modesto logar?

Oxalá que assim seja. Os que nos venceram n'esta lucta gloriosa

saberão resignar-se como nós nos resignámos.

Ajuda, maio de 1858.

ADVERTENCIA DA PRIMEIRA EDIÇÃO

Os breves romances e narrativas contidos neste volume foram

impressos, em epochas mais ou menos remotas, nas duas publicações

periodicas o Panorama e a Illustração, bem como o foram nestes

ou em outros jornaes os que tem de formar o segundo volume das

Lendas e Narrativas, colleccão que, se trabalhos mais arduos o

consentirem, será continuada com alguns outros, apenas esboçados

ou ineditos no todo ou em parte, que ainda restam entre os

manuscriptos do auctor. Corrigindo-os e publicando-os de novo,

para se ajunctarem a composições mais extensas e menos imperfeitas,

que já viram a luz publica em volumes separados, elle quiz apenas

preservar do esquecimento, a que por via de regra são condemnados

mais cedo ou mais tarde os escriptos inseridos nas columnas das

publicações periodicas, as primeiras tentativas do romance historico

que se fizeram na lingua portuguesa. Monumentos dos esforços

do auctor para introduzir na litteratura nacional um genero

amplamente cultivado, nestes nossos tempos, em todos os paizes

da Europa, é este o principal, ou talvez o unico merecimento

delles; o titulo de que podem valer-se para não serem entregues

de todo ao esquecimento. À singeleza da invenção, a pouca firmeza

nos contornos de alguns caractéres, o menos bem travado do dialogo,

imperfeições que nem sempre foi possivel remediar nesta nova

edição, revelam a mão inexperiente. Na historia dos progressos

litterarios de Portugal, desde que a liberdade politica trouxe

a liberdade do pensamento, e que o engenho pôde apparecer á luz

do dia sem os anginhos de uma censura tão absurda na sua indole,

como estupida na sua applicação e esterilisadora nos seus effeitos;

nessa historia, dizemos, esta nova edição deve ser julgada

principalmente com attenção ao seu motivo, á prioridade das

composições nella insertas, e á precisão em que, ao escreve-las,

o auctor se via de crear a substancia e a fórma; porque para o

seu trabalho faltavam absolutamente os modelos domesticos.

A critica para ser justa não ha-de, porém, attender só a essas

circumstancias: ha-de considerar também os resultados destas

tentativas, que, a principio, é licito suppôr inspiraram outras

analogas, como por exemplo os "Irmãos Carvajales" e "O que foram

Portuguezes" do Sr. Mendes Leal, e gradualmente incitaram a maioria

dos grandes talentos da nossa litteratura a emprehenderem composições

analogas de mais largas dimensões, e melhor delineadas e vestidas.

Todos conhecem o "Arco de Sanct'Anna", cujo ultimo volume acaba

de imprimir o primeiro poeta português deste seculo, o "Um ano na

Côrte" do Sr. Corvo, cuja publicação se aproxima do seu termo, e

o "Odio Velho Não Cansa" do Sr. Rebello da Silva, ensaio que, se

as eloquencias parvoas e semsabores dos dicursos academicos não

tivessem tornado indecentes as allusões mythologicas, se poderia

comparar ao combate com o leão de Citheron, que revelou á Grecia

no moço Hercules o futuro semideus; porque no Odio Velho começa

a manifestar-se o auctor da "Mocidade de D. João V", romance de

que já se imprimiram algumas paginas admiraveis, mas que na parte

inedita, que é quasi tudo, nos promete um emulo de Walter-Scott.

Emfim o "Conde de Castella" do Sr. Oliveira Marreca, vasta concepção,

posto que ainda incompleta, foi porventura inspirado pelo exemplo

destas fracas tentativas, e das que, em dimensões maiores, o

auctor emprehendeu no Eurico e no Monge de Cister. Caracter grave

e austero, dignos dos tempos antigos, e que a providencia collocou

em meio de uma sociedade gasta e definhada por muitos generos

de corrupções, como uma condemnação muda; homem sobre tudo de

sciencia e consciencia, o Sr. Marreca trouxe estes seus dotes

eminentes para o campo do romance historico, onde ninguem, talvez,

como elle poderia fazer a Portugal o serviço que DuMonteil fez

á França, isto é, popularisar o estudo daquela parte da vida

publica e privada dos seculos semi-barbaros, que não cabe no

quadro da historia social e politica.

Taes foram, entre outros, os mais importantes resultados da

introduccão do genero. No meio deste amplo desenvolvimento de uma

literatura nova no paiz, o auctor das seguintes paginas merecerá

talvez desculpa de recordar que estes ensaios, inferiores ás

publicações que se lhe seguiram, foram a sementinha d'onde proveio

a floresta. Seja-lhe pois licito consolar-se na sua inferioridade

com haver precedido na ordem dos tempos aquelles que, na affeição

do publico, devem provavelmente faze-lo esquecer. Persuadido de

ter por isso direito á indulgencia, resolveu-se a transportar

para o livro aquillo que, considerado em si, não mereceria talvez

sair nunca das columnas do fugitivo jornal, salvando assim, não

escriptos cuja apreciação exija largas paginas na historia

litteraria, mas um marco humilde e tosco, que, nesta especie de

litteratura, indique o ponto d'onde se partiu.

O ALCAIDE DE SANTARÉM (950--961)

I

O guadamellato é uma ribeira que, descendo das solidões mais

agras da Serra Morena, vem através de um territorio montanhoso

e selvatico desaguar no Guadalquivir pela margem direita, pouco

acima de Cordova. Houve tempo em que nestes desvios habitou uma

população numerosa: foi nas eras do dominio sarraceno em Hespanha.

Desde o governo do amir Abul-Khatar o districto de Cordova fôra

distribuido ás tribus árabes do Yemen e da Syria, as mais nobres

e mais numerosas entre todas as raças da Africa e da Asia, que

tinham vindo residir na Peninsula por occasião da conquista ou

depois della. As familias que se estabeleceram naquellas encoslas

meridionaes das longas serranias chamadas pelos antigos Montes

Marianos, conservaram por mais tempo os hábitos erradios dos

povos pastores. Assim no meiado decimo seculo, posto que esse

districto fosse assás povoado, o seu aspecto assemelhava-se ao

de um deserto; porque nem se descortinavam por aquelles cabeços e

valles vestigios alguns de cultura, nem alvejava um unico edificio

no meio das collinas rasgadas irregularmente pelos algares das

torrentes, ou cubertas de selvas bravias e escuras. Apenas um

ou outro dia se enxergava na extrema de algum almargem virente a

tenda branca do pegureiro, que no dia seguinte não se encontraria

alli, se porventura se buscasse.

Havia, comtudo, povoações fixas naquelles ermos; havia habitações

humanas, porém não de vivos. Os arabes collocavam os cemiterios

nos logares mais saudosos dessas solidões, nos pendores meridionaes

dos outeiros, onde o sol, ao pôr-se, estirasse de soslaio os seus

ultimos raios pelas lagens lisas das campas, por entre os raminhos

floridos das sarças açoutadas do vento. Era alli que, depois

do vaguear incessante de muitos annos, elles vinham deitar-se

mansamente uns ao pé dos outros, para dormirem o longo somno

sacudido sobre as suas palpebras das asas do anjo Azrael.

A raça arabe, inquieta, vagabunda e livre, como nenhuma outra

familia humana, gostava de espalhar na terra aquelles padrões,

mais ou menos sumptuosos, do captiveiro e immobilidade da morte,

talvez para avivar mais o sentimento da sua independencia illimitada

durante a vida.

No recosto de um teso, elevado no extremo de extensa gandra que

subia das margens do Guadamellato para o nordeste, estava assentado

um desses cemiterios pertencente á tribu Yemenita dos Beni-Homair.

Subindo pelo riu, viam-se alvejar ao longe as pedras das sepulturas

como um vasto estendal, e tres unicas palmeiras, plantadas na corôa

do outeiro, lhe tinham feito dar o nome de cemiterio de al-tamarah.

Transpondo o cabeço para o lado oriental, encontrava-se um desses

brincos da natureza, que nem sempre a sciencia sabe explicar:

era um cubo de granito de desconforme dimensão, que parecia ter

sido posto alli pelos esforços de centenares d'homens, porque

nada o prendia ao solo. Do cimo desta especie de atalaia natural

descortinavam-se para todos os lados vastos horisontes.

Era um dia á tarde: o sol descia rapidamente, e já as sombras

principiavam do lado de léste a empastar a paisagem ao longe em

negrumes confusos. Assentado na borda do rochedo quadrangular

um arabe dos Beni-Homair, armado da sua comprida lança, volvia

olhos attentos, ora para o lado do norte, ora para o de oeste:

depois sacudia a cabeça com um signal negativo, inclinando-se

para o lado opposto da grande pedra. Quatro sarracenos estavam

alli tambem assentados em diversas posturas e em silencio, o

qual só era interrompido por algumas palavras rapidas, dirigidas

ao da lança, e a que elle respondia sempre do mesmo modo com o

seu menear de cabeça.

"Al-barr,"--disse por fim um dos sarracenos cujo trajo e gestos

indicavam uma grande superioridade sobre os outros--"parece que

o kaid de Chantoryu[1] esqueceu a sua injuria como o wali de

Zarkosta[2] a sua ambição d'independencia; e até os partidários

de Hafsun, esses guerreiros tenazes, tantas vezes vencidos por

meu pae, não podem acreditar que Abdallah realise as promessas

que me induziste a fazer-lhes."

"Amir-al-melek[3],"--replicou Al-barr--"ainda não é tarde: os

mensageiros podem ter sido retidos por algum successo imprevisto.

Não creias que a ambição e a vingança adormeçam tão facilmente

no coração humano. Dize, Al-athar, não te juraram elles pela

sancta Kaaba[4] que os enviados com a noticia da sua revolta e

da entrada dos christãos chegariam hoje a este logar aprazado,

antes do anoitocer?"

"Juraram--respondeu Al-athar--; mas que fé merecem homens que

não duvidam de quebrar as promessas solemnes feitas ao kalifa,

e além d'isso de abrir o caminho aos infiéis para derramarem o

sangue dos crentes? Amir, nestas negras tramas tenho-te servido

lealmente; porque a ti devo quanto sou; mas oxalá que falhassem

as esperanças que pões nos tens occultos alliados. Oxalá não

tivesse de tingir o sangue as ruas de Korthoba, e não houvera

de ser o suppedaneo do throno que ambicionas o tumulo de teu

irmão!"

Al-athar cobriu a cara com as mãos, como se quizesse esconder a

sua amargura. Abdallah parecia commovido por duas paixões oppostas.

Depois de se conservar algum tempo em silencio, exclamou:

"Se os mensageiros dos revoltosos não chegarem até o anoitecer,

não falemos mais n'isso. Meu irmão Al-hakem acaba de ser reconhecido

successor do kalifado: eu próprio o acceitei por futuro senhor

poucas horas antes de vir ter comvosco. Se o destino assim o

quer, faça-se a vontade de Deus! Al-barr, imagina que os teus

sonhos ambiciosos e os meus foram uma kassidéh[5] que não soubeste

acabar, como aquella que debalde tentaste repetir na presença

dos embaixadores do Frandjat[6], e que foi causa de cahires no

desagrado de meu pae e de Al-hakem, e de conceberes esse odio

que alimentas contra elles, o mais terrível odio deste mundo,

o do amor próprio offendido."

Ahmed Al-athar e o outro arabe sorriram ao ouvirem estas palavras

de Abdallah. Os olhos, porém, de Al-barr faiscaram de colera.

"Pagas mal, Abdallah,--disse elle com a voz presa garganta--os

riscos que tenho corrido para te obter a herança do mais bello

e poderoso império do Islam. Pagas com allusões affrontosas aos

que jogam a cabeça com o algoz para te pôr na tua uma corôa. És

filho de teu pae! ... Não importa. Só te direi que é já tarde

para o arrependimento. Pensas acaso que uma conspiração sabida

de tantos ficará occulta? No ponto a que chegaste, retrocedendo

é que has-de encontrar o abysmo!"

No rosto de Abdallah pintava-se o descontentamento e a incerteza.

Ahmed ia a falar, talvez para ver de novo se divertia o príncipe

da arriscada empresa de disputar a coroa a seu irmão Al-hakem. Um

grito, porém, de atalaia o interrompeu. Ligeiro como relampago

um vulto saíra do cemitério, galgára o cabeço, e se aproximára

sem ser sentido: vinha involto n'um albornoz escuro, cujo capuz

quasi lhe encobria as feições, vendo-se-lhe apenas a barba negra

e revolta. Os quatro sarracenos puseram-se em pé de um pulo, e

arrancaram as espadas.

Ao ver aquelle movimento, o que chegára não fez mais do que estender

para elles a mão direita e com a esquerda recuar o capuz do albornoz:

então as espadas abaixaram-se como se uma corrente electrica

tivesse adormecido os braços dos quairo sarracenos. Al-barr

exclamára:--"Muulin[7] o propheta! Muulin o sancto!..."

"Muulin o peccador:--interrompeu o novo personagem--Muulin, o

pobre fakih[8] penitente e quasi cego de chorar as proprias culpas

e as culpas dos homens, mas a quem Deus por isso illumina ás

vezes os olhos da alma para antever o futuro ou ler no fundo

dos corações. Li no vosso, homens de sangue, homens de ambição!

Sereis satisfeitos! O senhor pesou na balança dos destinos a ti,

Abdallah, e a teu irmão Al-hakem. Elle foi achado mais leve. A

ti o throno; a elle o sepulchro. Está escripto. Vae; não pares

na carreira, que não te é dado parar! Volta a Kortheba. Entra no

teu palacio Merwan; é o palacio dos kalifas da tua dynastia. Não

foi sem mysterio que teu pae t'o deu por morada. Sobe ao sotam[9]

da torre. Ahi acharás cartas do kaid de Chantarya, e dellas verás

que nem elle, nem o wali de Zarkosta, nem os Beni-Hafsun faltam

ao que te juraram!"

"Sancto fakih--replicou Abdallab, crédulo como todos os musulmanos

daquelles tempos de fé viva, e visivelmente perturbado--creio o

que dizes, porque nada para ti é occulto. O passado, o presente,

o futuro domina-los com a tua intelligencia sublime. Asseguras-me

o triumpho; mas o perdão do crime podes tu assegura-lo?"

"Verme, que te crês livre!--atalhou com voz solemne o fakih.--Verme,

cujos passos, cuja vontade mesma, não são mais do que frageis

instrumentos nas mãos do destino, e que te crês auctor de um

crime! Quando a frecha despedida do arco fere mortalmente o

guerreiro, pede ella acaso a Deus perdão do seu peccado? Atomo

varrido pela colera de cima contra outro atomo, que vaes aniquilar,

pergunta antes se nos thesouros do Misericordioso ha perdão para

o orgulho insensato!"

Fez então uma pausa. A noite descia rapida. Ao lusco-fusco ainda

se viu sair da manga do albornoz um braço felpudo e mirrado, que

apontava para as bandas de Cordova. Nesta postura a figura do

fakih fascinava. Coando pelos lábios as syllabas, elle repeliu

tres vezes:

"Para Merwan!"

Abdallah abaixou a cabeça, e partiu vagarosamente, sem olhar

para traz. Os outros sarracenos seguiram-no. El-Muulin ficou só.

Mas quem era este homem? Todos o conheciam em Cordova; se vivesseis,

porém, naquella epocha e o perguntasseis nessa cidade de mais

de um milhão de habitantes, ninguem vo-lo saberia dizer. Era

um mysterio a sua patria, a sua raça, donde viera. Passava a

vida pelos cemiterios ou nas mesquitas. Para elle o ardor da

canicula, a neve ou as chuvas do inverno eram como se não existissem.

Raras vezes se via que não fosse lavado em lagrymas. Fugia das

mulheres como de um objecto de horror. O que, porém, o tornava

geralmente respeitado, ou antes temido, era o dom de prophecia, o

qual ninguem lhe disputava. Mas era um propheta terrivel, porque

as suas predicções recahiam unicamente sobre futuros males. No

mesmo dia em que nas fronteiras do imperio os christãos faziam

alguma correria, ou destruiam alguma povoação, elle annunciava

publicamente o successo nas praças de Cordova: qualquer membro

da familia numerosa dos Beni-Umeyyas cahia debaixo do punhal de

um assassino desconhecido, na mais remota provincia do imperio,

ainda das do Moghreb ou Mauritania, na mesma hora, no mesmo instante

ás vezes, elle o pranteava redobrando os seus choros habituaes.

O terror que inspirava era tal, que no meio do maior tumulto

popular a sua presença bastava para tudo caír em mortal silencio.

A imaginação exaltada do povo tinha feito delle um sancto, sancto

como o islamismo os concebia; isto é, um homem cujas palavras

e aspecto gelavam de terror.

Ao passar por elle, Al-barr apertou-lhe a mão, dizendo-lhe em

voz quasi imperceptivel:

"Salvaste-me!"

O fakih deixou-o affastar, e fazendo um gesto de profundo despreso,

murmurou:

"Eu?! Eu teu cumplice, miseravel?!"

Depois, alevantando ambas as mãos abertas para o ar, começou

a agitar os dedos rapidamente, e rindo com um rir sem vontade,

exclamou:

"Pobres titeres!"

Quando se fartou de representar com os dedos a idéa de escarneo

que lhe sorria lá dentro, dirigiu-se, ao longo do cemiterio,

tambem para as bandas de Cordova, mas por diverso atalho.

[1] Santarem.

[2] Governador do Districto de Saragoça.

[3] Principe real.

[4] O famoso templo de Mekka.

[5] Poema de trinta versos, muito usado entre os arabes,

e que correspondia de certo muilo ás nossas odes.

[6] Os reinos christãos além dos Pyreneus.

[7] Muulin significa o triste.

[8] Fakih ou faquir, especie de frade mendicante entre

os musulmanos.

[9] Sotuko--o andar mais alto. Os nossos escriptores

tomavam esta palavra n'um sentido evidentemente errado, servindo-se

delia para indicar o aposento inferior ou térreo.

II

Nos paços de Azzahrat, o magnifico alcaçar dos kalifas de Cordova,

ha muitas horas que cessou o estrepito de uma grande festa. O

luar de noite serena d'abril bate pelos jardins que se dilatam

desde o alcaçar até o Guad-al-kébir, e alveja tremulo pelas fitas

cinzentas dos caminbos tortuosos, em que parecem enredados os

bosquesinhos de arbustos, os macissos de arvores silvestres, as

veigas de flores, os vergeis embalsamados, onde a larangeira, o

limoeiro, e as demais arvores fructiferas, trazidas da Persia, da

Syria e do Cathay, espalham os aromas variados das suas flores.

Lá ao longe Cordova, a capital da Hespanha mussulmana, repousa

da lida diurna, porque sabe que Abdu-r-rahman III, o illustre

kalifa, véla pela segurança do imperio. A vasta cidade repousa

profundamente; e o ruído mal distincto que parece revoar por

cima della, é apenas o respiro lento dos seus largos pulmões,

o bater regular das suas robustas arterias. Das almadenas de

seiscentas mesquitas não soa uma unica voz de almuhaden, e os

sinos das igrejas mosarabes guardam tambem silencio. As ruas,

as praças, os azokes, ou mercados, estão desertos. Sómente o

murmurio das novecentas fontes ou banhos publicos, destinados

ás abluções dos crentes, ajuda o zumbido nocturno da sumptuosa

rival de Bagdad.

Que festa fôra essa que expirára algumas horas antes de nascer

a lua, e de tingir com a brancura pallida de sua luz aquelles

dois vultos enormes de Azzahrat e de Cordova, que olhavam um

para o outro, a cinco milhas de distancia, como dois phantasmas

gigantes involtos em largos sudarios? Na manhan do dia que findára,

Al-hakem, o filho mais velho de Abdu-r-rahman, fôra associado ao

throno. Os walis, wasires e khatehs da monarchia dos Beni-Umeyyas

tinham vindo reconhece-lo Wali-al-ahdi; isto é, futuro kalifa

do Andalús e do Moghreb. Era uma idéa affagada longamente pelo

velho principe dos crentes que se realisára, e o jubilo de

Abdu-r-rahman se havia espraiado n'uma dessas festas, por assim

dizer fabulosas, que só sabia dar no seculo decimo a côrte mais

polida da Europa, e talvez do mundo, a do soberano sarraceno

de Hespanha.

O palacio Merwan, juncto dos muros de Cordova, distingue-se á

claridade duvidosa da noite pelas suas fórmas macissas e

rectangulares, e a sua côr tisnada, bafo dos seculos que entristece

e sanctifica os monumentos, contrasta com a das cupulas aereas e

douradas dos edificios, com a das almadenas esguias e leves das

mesquitas, e com a dos campanarios christãos, cuja tez docemente

pallida suavisa ainda mais o brando raio de luar que se quebra

naquelles estreitos pannos de pedra branca, d'onde não se reflecte,

mas cabe na terra preguiçoso e dormente. Como Azzahrat e como

Cordova, calado e apparentemente tranquillo, o palacio Merwan,

a antiga morada dos primeiros kalifas, suscita idéas sinistras,

emquanto o aspecto da cidade e da villa imperial unicamente inspiram

um sentimento de quietação e paz. Não é só a negridão das suas vastas

muralhas a que produz essa apertura do coração que experimenta

quem o considera assim solitario e carrancudo; é tambem o clarão

avermelhado que resumbra da mais alta das raras frestas abertas

na face exterior da sua torre albarran, a maior de todas as que

o cercam, a que atalaia a campanha. Aquella luz, no ponto mais

elevado do grande e escuro vulto da torre, é como um olho de

demonio, que contempla colerico a paz profunda do imperio, e que

espera ancioso o dia em que renasçam as luctas e as devastações

de que por mais de dois seculos fôra theatro o solo ensanguentado

de Hespanha.

Alguem véla, talvez, no paço de Merwan. No de Azzahrat, posto que

nenhuma luz bruxulêe nos centenares de varandas, de miradouros,

de porticos, de balcões, que lhe arrendam o immenso circuito,

alguem véla por certo.

A sala denominada do Kalifa, a mais espaçosa entre tantos aposentos

quantos encerra aquelle rei dos edificios, devêra a estas horas

mortas estar deserta, e não o está. Dois lampadarios de muitos

lumes pendem dos artesões primorosamente lavrados, que, cruzando-se

em angulos rectos, servem de moldura ao almofadado de azul e

ouro, que reveste as paredes e o tecto. A agua de fonte perenne

murmura cahindo n'um tanque de marmore construido no centro do

aposento, e no topo da sala ergue-se o throno de Abdu-r-rahman,

alcatifado dos mais ricos tapetes do paiz de Fars. Abdu-r-rahman

está ahi sósinho. O kalifa passeia de um para outro lado, com

olhar inquieto, e de instante a instante pára e escuta, como

se esperasse ouvir um ruído longinquo. No seu gesto e meneios

pinta-se a mais viva anciedade; porque o unico ruído que lhe

fere os ouvidos é o dos proprios passos sobre o xadrez variegado,

que fórma o pavimento da immensa quadra. Passado algum tempo,

uma porta, escondida entre os brocados que forram os lados do

throno, abre-se lentamente, e um novo personagem apparece. No rosto

de Abdu-r-rahman, que o vê aproximar, pinta-se uma inquietação

ainda mais viva.

O recem-chegado offerecia notavel contraste no seu gesto e vestiduras

com as pompas do logar em que se introduzia, e com o aspecto

magestoso de Abdu-r-rahman, ainda bello apesar dos annos e das

cans que começavam a misturar-se-lhe na longa e espessa barba

negra. Os pés do que entrára apenas faziam um rumor sumido no

chão de marmore. Vinha descalço. A sua aljarabia ou tunica era

de lan grosseiramente tecida, o cincto uma corda de esparto.

Divisava-se-lhe, porém, no despejo do andar e na firmeza dos

movimentos que nenhum espanto produzia nelle aquella magnificencia.

Não era velho; e todavia a sua tez tostada pelas injurias do tempo

estava sulcada de rugas, e uma orla vermelha circulava-lhe os

olhos, negros, encovados e reluzentes. Chegando ao pé do kalifa,

que ficára immovel, cruzou os braços e poz-se a contempla-lo

calado. Abdu-r-rahman foi o primeiro em romper o silencio:

"Tardaste muito, e foste menos pontual do que costumas, quando

annuncias a tua vinda a hora fixa, Al-muulin! Uma visita tua

é sempre triste como o teu nome. Nunca entraste a occultas em

Azzahrat senão para me saciares de amargura; mas apesar disso eu

não deixarei de abençoar a tua presença, porque Algafir--dizem-no

todos e eu o creio--é um homem de Deus. Que vens annunciar-me,

ou que pretendes de mim?"

"Amir-al-muminin[1], que póde pretender de ti um homem cujos

dias se passam á sombra dos tumulos pelos cemiterios, e a cujas

noites de oração basta por abrigo o portico de um templo; cujos

olhos tem queimado o chôro, e que não esquece um instante que tudo

neste desterro, a dôr e o goso, a morte e a vida, está escripto

lá em cima? Que venho annunciar-te?!... O mal; porque só mal ha

na terra para o homem, que vive como tu, como eu, como todos,

entre o appetite e o rancor; entre o mundo e Eblis; isto é, entre

os seus eternos e implacaveis inimigos!"

"Vens, pois, annunciar-me uma desventura?!... Cumpra-se a vontade

de Deus. Tenho reinado perto de quarenta annos, sempre poderoso,

vencedor e respeitado; todas as minhas ambições tem sido satisfeitas,

todos os meus desejos preenchidos; e todavia nesta longa carreira

de gloria e prosperidade só fui inteiramente feliz quatorze dias

da minha vida[2]. Pensava que este fosse o decimo quinto. Devo

acaso apaga-lo do registo em que conservo a memoria delles, e

em que já o tinha escripto?"

"Pódes apaga-lo:--replicou o rude fakih--pódes, até, rasgar

todas as folhas brancas que restam no livro. Kalifa! vês estas

faces sulcadas pelas lagrymas? vês estas palpebras requeimadas

por ellas? Duro é o teu coração, mais que o meu, se em breve as

tuas palpebras e as tuas faces não estão semelhantes ás minhas."

O sangue tingiu o rosto alvo e suavemente pallido de Abdu-r-rahman:

os seus olhos serenos como o ceu, que imitavam na côr, tomaram a

terrivel expressão que elle costumava dar-lhes no revolver dos

combates, olhar esse que só por si fazia recuar os inimigos. O

fakih não se moveu, e poz-se a olhar também para elle fito.

"Al-muulin, o herdeiro dos Beni-Umeyyas póde chorar arrependido

de seus erros diante de Deus; mas quem disser que ha neste mundo

desventura capaz de lhe arrancar uma lagryma, diz-lhe elle que

mentiu!"

Os cantos da bôca de Al-gafir encresparam-se com um quasi

imperceptivel sorriso. Houve um largo espaço de silencio.

Abdu-r-rahman não o interrompeu: o fakih proseguiu:

"Amir-al-muminin, qual de teus dous filhos amas tu mais? Al-hakem,

o successor do throno, o bom e generoso Al-hakem, ou Abdallah,

o sabio e guerreiro Abdallah, o idolo do povo de Korthoba?"

"Oh,--replicou o kalifa sorrindo--já sei o que me queres dizer.

Devias prever que a nova viria tarde, e que eu havia de sabe-lo...

Os christãos passaram a um tempo as fronteiras do norte e do

oriente. Meu velho tio Al-mod-dhafer já depoz a espada victoriosa,

e crês necessario expôr a vida de um delles aos golpes dos infiéis.

Vens prophetisar-me a morte do que partir. Não é isto? Fakih,

creio em ti, que és acceito ao Senhor; mas ainda creio mais na

estrella dos Beni-Umeyyas. Se eu amasse um mais do que outro

não hesitaria na escolha: fôra esse que eu mandára, não á morte,

mas ao triumpho. Se, porém, essas são as tuas previsões, e ellas

tem de realisar-se, Deus é grande! Que melhor leito de morte

posso eu desejar a meus filhos do que um campo de batalha em

al-djihed[3] contra os infiéis?"

Al-gafir escutou Abdu-r-rahman sem o menor signal d'impaciencia.

Quando elle acabou de falar repetiu tranquillamente a pergunta:

"Kalifa, qual amas tu mais dos teus dous filhos?"

"Quando a imagem pura e sancta do meu bom Al-hakem se me representa

no espirito, amo mais Al-hakem: quando com os olhos da alma vejo

o nobre e altivo gesto, a fronte vasta e intelligente do meu

Abdallah, amo-o mais a elle. Como te posso eu, pois, responder,

fakih?"

"E todavia é necessário que escolhas, hoje mesmo, neste momento,

entre um e outro. Um delles deve morrer na próxima noite,

obscuramente, nestes paços, aqui mesmo talvez, sem gloria, debaixo

do cutello do algoz, ou do punhal do assassino."

Abdu-r-rahman recuára ao ouvir estas palavras: o suor começou

a descer-lhe em bagas da fronte. Bem que tivesse mostrado uma

firmeza fingida, sentíra apertar-se-lhe o coração desde que o

fakih começára a falar. A reputação d'illuminado de que gosava

Al-muulin, o caracter supersticioso do kalifa, e mais que tudo o

haverem-se verificado todas as negras prophecias que n'um longo

decurso de annos elle lhe fizera, tudo contribuia para atterrar

o principe dos crentes. Com voz trémula replicou:

"Deus é grande e justo. Que lhe fiz eu para me condemnar no fim

da vida a perpetua afflicção, a ver correr o sangue de meus filhos

queridos ás mãos da deshonra ou da perfidia?"

"Deus é grande e justo,--interrompeu o fakih.--Acaso nunca fizeste

correr injustamente o sangue? Nunca por odio brutal despedaçaste

de dôr nenhum coração de pae, de irmão, de amigo?"

Al-muulin tinha carregado na palavra irmão com um accento singular.

Abdu-r-rahman, possuido de mal refreiado susto, não attentou por

isso.

"Posso eu acreditar uma tão estranha, direi antes tão incrivel

prophecía--exclamou elle por fim--sem que me expliques o modo

por que se deve realisar esse terrivel successo; e como ha-de o

ferro do assassino ou do algoz vir dentro dos muros de Azzahrat

verter o sangue de um dos filhos do kalifa de Korthoba, cujo nome,

seja-me licito dize-lo, é o terror dos christãos, e a gloria do

islamismo?"

Al-muulin tomou um ar imperioso e solemne, estendeu a mão para

o throno, e disse:

"Assenta-te, kalifa, no teu throno, e escuta-me, porque em nome

da futura sorte do Andalus, da paz e da prosperidade do imperio,

e das vidas e do repouso dos mussulmanos eu venho denunciar-te um

grande crime. Que punas, que perdoes, esse crime tem de custar-te

um filho. Successor do propheta, iman[4] da divina religião do

Koran, escuta-me, porque é obrigação tua ouvir-me."

O tom inspirado com que Al-muulin falava, a hora de alta noite, o

negro mysterio que encerravam as palavras do fakih tinham subjugado

a alma profundamente religiosa de Abdu-r-rahman. Machinalmenlte

subiu ao throno, encruzou-se em cima da pilha de coxins em que

elle rematava, e encostando ao punho o rosto demudado, disse

com voz presa:--"Pódes falar, Suleyman-ibn-Abd-al-gafir!"

Tomando então uma postura humilde, e cruzando os braços sobre

o peito, Al-gafir o triste começou da seguinte maneira a sua

narrativa.

[1] Principe dos crentes, titulo correspondente ao de

kalifa.

[2] Historico

[3] Guerra-sancta

[4] Pontifice. Os kalifas reuniam em si o summo imperio,

e o summo pontificado.

III

"Kalifa!--começou Al-muulin--tu és grande; tu és poderoso. Não

sabes o que é a affronta ou a injustiça cruel que esmaga o coração

nobre e energico, se este não póde repelli-la, e sem demora, com

o mal ou com a affronta, vinga-la á luz do sol! Tu não sabes o

que então se passa na alma desse homem, que por todo o desaggravo

deixa fugir alguma lagryma furtiva, e até, ás vezes, é obrigado

a beijar a mão que o feriu nos seus mais sanctos affectos. Não

sabes o que isto é; porque todos os teus inimigos tem cahido

diante do alfange do almogaure, ou deixado tombar a cabeça de

cima do cêpo do algoz. Ignoras por isso o que é o odio; o que

são essas solidões tenebrosas, por onde o resentimento, que não

póde vir ao gesto, se dilata e vive á espera do dia da vingança.

Dir-to-hei eu. Nessa noite immensa, em que se involve o coração

chagado, ha uma luz sanguinolenta que vem do inferno, e que allumia

o espirito vagabundo. Ha ahi terriveis sonhos, em que o mais

rude e ignorante descobre sempre um meio de desaggravo. Imagina

como será facil aos altos entendimentos o encontra-lo! É por

isso que a vingança, que parecia morta e esquecida, apparece ás

vezes inesperada, tremenda, irresistivel, e morde-nos surgindo

debaixo dos pés como a vibora, ou despedaça-nos como o leão pulando

d'entre os juncaes. Que lhe importa a ella a magestade do throno,

a sanctidade do templo, a paz domestica, o ouro do rico, o ferro

do guerreiro? Mediu as distancias, calculou as difficuldades,

meditou no silencio, e riu-se de tudo isso!"

E Al-gafir o triste desatou a rir ferozmente, Abdu-r-rahman olhava

para elle espantado.

"Mas--proseguiu o fakih--ás vezes Deus suscita um dos seus servos,

um dos seus servos de animo tenaz e forte, possuido tambem de

alguma idéa occulta e profunda, que se alevante, e rompa a trama

urdida nas trévas. Este homem no caso presente sou eu. Para bem?

Para mal?--Não sei; mas sou! Sou eu que, venho revelar-te como se

prepara a ruina do teu throno, e a destruição da tua dynastia."

"A ruina do meu throno?--gritou Abdur-r-rahman pondo-se em pé e

levando a mão ao punho da espada.--Quem, a não ser algum louco,

imagina que o throno dos Beni-Umeyyas póde, não digo desconjunctar-se,

mas apenas vacilar debaixo dos pés de Abdu-r-rahman? Quando, porém,

falarás enfim claro, Al-muulin?"

E a colera e o despeito faiscavam-lhe nos olhos. Com a sua habitual

impassibilidade o fakih proseguiu:

"Esqueces-te, kalifa, da tua reputação de prudencia e longanimidade.

Pelo propheta! Deixa divagar um velho tonto como eu ... Não!...

Tens razão ... Basta! O raio que fulmina o cedro desce rapido do

céu. Quero ser como elle ... Amanhan a estas horas o teu filho

Abdallah ter-te-ha já privado da corôa para a cingir na propria

fronte, e o teu successor Al-hakem terá perecido sob um punhal

d'assassino. Ainda te encolerisas? Foi acaso demasiado extensa

a minha narrativa?"

"Infame!--exclamou Abdu-r-rahman--Hypocrita, que me tens enganado!

Tu ousas calumniar o meu Abdallah? Sangue! Sangue ha-de correr,

mas é o teu. Crias que com essas visagens d'inspirado, com esses

trajos de penitencia, com essa linguagem dos sanctos poderias

quebrar a affeição mais pura, a de um pae? Enganas-te, Al-gafir!

A minha reputação de prudente, verás que era bem merecida."

Dizendo isto o kalifa ergueu as mãos como quem ia a bater as

palmas. Al-muulin interrompeu-o rapidamente, mas sem mostrar o

menor indicio de perturbação ou terror.

"Não chames ainda os eunuchos; porque assim é que dás provas

de que não a merecias. Conheces que me seria impossivel fugir.

Para matar ou morrer sempre é tempo. Escuta, pois, o infame, o

hypocrita até o fim. Acreditarias tu na palavra do teu nobre e

altivo Abdallah? Bem sabes que elle é incapaz de mentir a seu

amado pae, a quem deseja longa vida e todas as prosperidades

possiveis."

O fakih desatára de novo n'um rir trémulo e hediondo. Metteu

a mão no peitilho da aljarabia e tirou uma a uma muitas tiras

de pergaminho: pô-las sobre a cabeça e entregou-as ao kalifa,

que começou a lêr com avidez. A pouco e pouco Abdu-r-rahman foi

empallidecendo, as pernas vergaram-lhe, e por fim deixou-se cahir

sobre os coxins do throno, e cobrindo a cara com as mãos,

murmurou:--"Meu Deus! porque te mereci isto!"

Al-muulin fitára nelle um olhar de girifalte, e nos labios

vagueava-lhe um riso sardonico e quasi imperceptivel.

Os pergaminhos eram varias cartas dirigidas por Abdallah aos

rebeldes das fronteiras do oriente, os Beni-Hafsun, e a diversos

cheiks berebéres, dos que se haviam domiciliado na Hespanha,

conhecidos pelo seu pouco affecto aos Beni-Umeyyas. O mais

importante, porém, de tudo era uma extensa correspondencia com

Umeyya-ibn-Ishak, guerreiro celebre e antigo alcaide de Santarem,

que por graves offensas passára ao serviço dos christãos de Oviedo

e Asturias com muitos cavalleiros illustres da sua clientela.

Esta correspondencia era completa de parte a parte. Por ella se

via que Abdallah contava não só com os recursos dos mussulmanos

seus parciaes, mas tambem com importantes soccorros dos infiéis

por intervenção de Umeyya. A revolução devia rebentar em Cordova

pela morte de Al-hakem e pela deposição de Abdu-r-rahman. Uma parte

da guarda do alcaçar de Azzahrat estava comprada. Al-barr, que

figurava muito nestas cartas, seria o hadjeb ou primeiro ministro

do novo kalifa. Alli se liam, emfim, os nomes dos principaes

personagens implicados na revolta, e todas as circumstancias

desta eram explicadas ao antigo alcaide de Santarém com aquella

individuação que nas suas cartas elle constantemente exigia.

Al-muulin falára verdade: Abdu-r-rahman via despregar diante de

si a longa teia da conspiração, escripta com letras de sangue

pela mão de seu proprio filho.

Durante algum tempo o kalifa conservou-se como a estatua da dôr

na postura que tomára. O fakih olhava fito para elle com uma

especie de cruel complacencia. Al-muulin foi o primeiro que rompeu

o silencio: o principe Beni-Umeyya, esse parecia ter perdido o

sentimento da vida.

"É tarde:--disse o fakih.--Chegará em breve a manhan. Chama os

eunuchos. Ao romper do sol a minha cabeça pregada nas portas

de Azzahrat deve dar testemunho da promptidão da tua justiça.

Elevei ao throno de Deus a ultima oração, e estou apparelhado

para morrer, eu o hypocrita, eu o infame, que pretendia lançar

sementes de odio entre ti e teu virtuoso filho. Kalifa, quando

a justiça espera não são boas horas para meditar ou dormir."

Al-gafir retomava a sua habitual linguagem sempre ironica e

insolente, e ao redor dos labios vagueava-lhe de novo o riso mal

reprimido.

A voz do fakih despertou Abdu-r-rahman das suas tenebrosas

cogitações. Poz-se em pé. As lagrymas haviam corrido por aquellas

faces, mas estavam enxutas. A procella de paixões encontradas

tumultuava lá dentro; mas o gesto do principe dos crentes recobrára

apparente serenidade. Descendo do throno pegou na mão mirrada

de Al-muulin, e apertando-a entre as suas, disse:

"Homem que guias teus passos pelo caminho do céu; homem acceito

ao propheta, perdoa as injurias de um insensato! Cria ser superior

á fraqueza humana. Enganava-me! Foi um momento que passou. Possas

tu esquece-lo! Agora estou tranquillo ... bem tranquillo ...

Abdallah, o traidor que era meu filho, não concebeu tão atroz

designio. Alguém lh'o inspirou: alguem verteu naquelle animo

soberbo as vans e criminosas esperanças de subir ao throno por

cima do meu cadaver e do de Al-hakem. Não desejo sabe-lo para

o absolver; porque elle já não póde evitar o destino fatal que

o aguarda. Morrerá; que antes de ser pae fui kalifa, e Deus

confiou-me no Andalus a espada da suprema justiça. Morrerá; mas

hão-de acompanha-lo todos os que o precipitaram no abysmo."

"Ainda ha pouco te disse--replicou Al-gafir--o que pôde inventar o

ódio que é obrigado a esconder-se debaixo do manto da indifferença,

e até da submissão. Al-barr, o orgulhoso Al-barr, que tu offendeste

no seu amor proprio de poeta, e que expulsaste de Azzahrat como um

homem sem engenho nem saber, quiz provar-te que ao menos possuia o

talento de conspirador. Foi elle que preparou este terrivel successo.

Has-de confessar que se houve com destreza. Só n'uma cousa não:

em pretender associar-me aos seus designios. Associar-me? ...

não digo bem ... fazer-me seu instrumento ... A mim! ... Queria

que eu te apontasse ao povo como um impio pelas tuas allianças

com os amires infiéis do Frandjat. Fingi estar por tudo; e chegou

a confiar plenamente na minha lealdade. Tomei a meu cargo as

mensagens aos rebeldes do oriente e a Umeyya-ibn-Ishak, o alliado

dos christãos, o antigo kaid de Chantaryin. Foi assim que pude

colligir estas provas de conspiração. Loucos! as suas esperanças

eram a miragem do deserto... Dos seus alliados apenas os de Zarkosta

e das montanhas de Al-kibla não foram um sonho. As cartas de

Umeyya, as promessas do amir nazareno de Djalikia[1], tudo era

feito por mim. Como eu enganei Al-barr, que bem conhece a letra

de Umeyya, esse é um segredo que depois de tantas revelações, tu

deixarás, kalifa, que eu guarde para mim ... Oh, os insensatos!

os insensatos!"

E desatou a rir.

A noite tinha-se aproximado do seu fim. A revolução, que ameaçava

trazer á Hespanha mussulmana todos os horrores da guerra civil,

devia rebentar dentro de poucas horas, talvez. Era necessário

afoga-la em sangue. O longo habito de reinar, juncto ao caracter

energico de Abdu-r-rahman, fazia com que nestas crises elle

desenvolvesse de um modo admiravel todos os recursos que o genio

amestrado pela experiencia lhe suggeria. Recalcando no fundo do

coração a cruel lembrança de que era um filho que ia sacrificar

á paz e á segurança do império, o kalifa despediu Al-muulin, e

mandando immediatamente reunir o divan deu largas instrucções

ao chefe da guarda dos slavos. Ao romper da manhan todos os

conspiradores que residiam em Cordova estavam presos, e muitos

mensageiros tinham partido levando as ordens de Ahdu-r-rahman

aos walis das provincias e aos generaes das fronteiras. Apesar

das lagrymas e rogos do generoso Al-hakem, que luctou tenazmente

por salvar a vida de seu irmão, o kalifa mostrou-se inflexivel.

A cabeça de Abdallah cahiu aos pés do algoz na propria camara do

principe no palacio Merwan. Al-barr, suicidando-se na masmorra

em que o tinham lançado, evitou assim o supplicio.

O dia immediato á noite em que se passou a scena entre Abdu-r-rahman

e Al-gafir, que tentamos descrever, foi um dia de sangue para

Cordova, e de lucto para muitas das mais illustres famílias.

[1] Os árabes designavam os reis de Oviedo e Leão pelo

titulo de reis de Galliza.

IV

Era pelo fim da tarde. N'uma alcova do palacio de Azzahrat via-se

reclinado um velho sobre as almofadas persas de um vasto almatrah,

ou camilha. Os seus ricos trajos, orlados de pelles alvissimas,

faziam sobre-saír as feições enrugadas, a pallidez do rosto, o

encovado dos olhos, que lhe davam ao gesto todas as características

do de um cadaver. Pela immobilidade dir-se-hia que era uma destas

mumias que se encontram pelas catacumbas do Egypto, apertadas

entre as cem voltas das suas faixas mortuarias, e inteiriçadas

dentro dos sarcophagos de pedra. Um unico signal revelava a vida

néssa grande ruina de um homem grande; era o movimento da barba

longa e ponteaguda que se lhe estendia como um cone de neve tombado

sobre o peitilho da tunica de precioso tiraz. Abdu-r-rahman, o

illustre kalifa dos mussulmanos do occidente, jazia ahi e falava

com outro velho, que, em pé defronte delle, o escutava attentamente;

mas a sua voz saia tão fraca e lenta, que, apesar do silencio

que reinava no aposento, só na curta distancia a que estava o

outro velho se poderiam perceber as palavras do kalifa.

O seu interlocutor é uma personagem que o leitor conhecerá apenas

reparar no modo por que está trajado. A sua vestidura é uma aljarabia

de burel cingida de uma corda de esparto. Ha muitos annos que

nisto cifrou todos os commodos que acceita á civilisação. Está

descalço, e a grenha hirsuta e já grisalha cahe-lhe sobre os

hombros em madeixas revoltas e emmaranhadas. A sua tez não é

pallida, os seus olhos não perderam o brilho, como a tez e como

os olhos de Abdu-r-rahman. Naquella, coriacea e crestada, domina

a côr mixta de verdenegro e amarello do ventre de um crocodilo;

nestes, cada vez que os volve, fulgura a centelha de paixões

ardentes, que lhe sussurram dentro d'alma como a lava prestes a

jorrar do volcão que ainda parece dormir. É Al-muulin, o sancto

fakih, que vimos salvar, onze annos antes, o kalifa e o imperio

da intentada revolução de Abdallah.

Tinham de feito passado onze annos desde os terriveis successos

acontecidos naquella noite em que Al-muulin descobríra a conspiração

que se urdia, e desde então nunca mais se víra Abdu-r-rahman

sorrir. O sangue de tantos mussulmanos vertido pelo ferro do

algoz, e sobretudo o sangue de seu proprio filho descêra como

a maldicção do propheta sobre a cabeça do principe dos crentes.

Entregue a melancholia profunda, nem as novas de victorias, nem

a certeza do estado florescente imperio o podiam distrahir della

senão momentaneamente. Encerrado durante os ultimos tempos da

vida no palacio de Azzahrat, a maravilha d'Hespanha, abandonára

os cuidados do governo ao seu successor Al-hakem. Os gracejos da

escrava Nuirat-eddia, a conversação instructiva da bella Ayecha,

e as poesias de Mozna e de Sofyia eram o unico allivio que adoçava

a existencia aborrida do velho leão do islamismo. Mas apenas

Al-gafir o triste se apresentava perante o kalifa, elle fazia

retirar todos, e ficava encerrado horas e horas com este homem,

tão temido quanto venerado do povo pela austeridade das suas

doutrinas, prégadas com a palavra, mas ainda mais com o exemplo.

Abdu-r-rahman parecia inteiramente dominado pelo rude fakih, e,

ao vê-lo, qualquer poderia ler no gesto do velho principe os

sentimentos oppostos do terror e do affecto, como se metade da

sua alma o arrastasse irresistivelmente para aquelle homem, e a

outra metade o repellisse com repugnancia invencivel. O mysterio

que havia entre ambos ninguem o podia entender.

E todavia a explicação era bem simples: estava no caracter

extremamente religioso do kalifa, na sua velhice e no seu passado

de principe absoluto, situação em que são faceis grandes virtudes

e grandes crimes. Habituado á lisonja, a linguagem aspera e

altivamente sincera de Al-muulin tivera a principio o attractivo de

ser para elle inaudita; depois a reputação de virtude de Al-gafir,

a crença de que era um propheta, a maneira por que, para o salvar

e ao imperio, arrostára com a sua colera, e provára desprezar

completamente a vida, tudo isto fizera com que Abdu-r-rahman

visse nelle, como o mais credulo dos seus subditos, um bomem

predestinado, um verdadeiro sancto. Sentindo avizinhar a morte,

Abdu-r-rahman tinha sempre diante dos olhos que esse fakih era

como o anjo que devia conduzi-lo pelos caminhos da salvação até o

throno de Deus. Cifrava-se nelle a esperança de um futuro incerto,

que não podia tardar, e assim o espirito do monarcha, enfraquecido

pelos annos, estudava anciosamente a minima palavra, o menor gesto

de Al-muulin; prendia-se ao monge mussulmano como a hera antiga ao

carvalho, em cujo tronco se alimenta, se ampara, e vae trepando

para o ceu. Mas, ás vezes, Al-gafir repugnava-lhe. No meio das

expansões mais sinceras, dos mais ardentes vôos de uma piedade

profunda, de uma confiança inteira na misericordia divina, o Fakih

fitava de repente nelle os olhos scintilantes, e com sorriso

diabolico vibrava uma phrase ironica, insolente e desanimadora,

que ía gelar no coração do kalifa as consolações da piedade, e

despertar remorsos e terrores, ou completa desesperação. Era um

jogo terrivel em que se deleitava Al-muulin, como o tigre com o

palpitar dos membros da rez que se lhe agita moribunda entre as

garras sanguentas. Nessa lucta infernal em que lhe trazia a alma

estava o segredo da attracçâo e repugnancia, que ao mesmo tempo o

velho monarcha mostrava para com o fakih, cujo apparecimento em

Azzahrat cada vez se tornava mais frequente, e agora se renovava

todos os dias.

Lendas e Narrativas (Tomo I) · 第 1 / 13 段