Foi chamado o capellão e alguns frades visinhos de Santo Antonio.
Levaram d'alli o padre para accommodarem logo os escrupulos das freiras
escandalisadas. Ia sem accordo, nos braços dos antoninos. As filhas
viram-no ir sem lastima. Estavam em volta da barra de sua mãe. Aquelle
homem fazia-lhes terror, senão odio. Poderia ser que elle tivesse por si
a côrte celestial; mas n'este mundo não havia alma que o pranteasse.
Propriamente os frades incriminavam-no de pusillanime e vacillante na
reforma de vida. As freiras--santo nome de Deus!--davam como perdida a
alma d'aquella que morrera sem confissão; e, porque eram santas, foram
em côro exorar ao Senhor que não pesasse na sua balança sem o contrapeso
da misericordia, as palavras blasphemas do padre syndico.
Braz Luiz, quando cobrou sentimento, achou-se na sua pobre alcova, com
dois frades á cabeceira. Escutou-os. O que elles diziam eram coisas
formidaveis sobre o inferno sem fim. Stygmatisavam-lhe a fraqueza, a
impenitencia, a temeridade de se aproximar da religiosa moribunda, se
não ia santamente disposto a dar um exemplo de desprendimento dos
affectos que havia renunciado no acto da sua sagração a Deus.
O padre pediu perdão do escandalo, e rogou que o deixassem só para
examinar sua consciencia.
Deixaram-n'o os frades e foram-se ao seu convento, d'onde tinham saído
em jejum.
Braz Luiz de Abreu soffria tanto, que duvidava do poder da oração ou não
sabia orar. Punha os olhos na face do Christo, e logo os descia como
aterrado do pensamento sacrilego que a intercadencias lhe agonisava a
alma.
Aquella religiosidade, que, horas antes, parecia robusta e sentida como
a dos martyres, estava a desfazer-se miseravelmente na incerteza, no
desprezo, na negação das mais santas coisas do christianismo! Alli se
estava vendo o que em verdade é o homem, e quanto são morredoiras as
phantasias do espirito arrancado ás leis da humanidade, quando a mão da
desgraça descarrega a maça de bronze no peito que tem dentro sangue e
fibras. O grande edificio d'aquelle selvagem ascetismo estava a
derruir-se. O coração de quarenta e tres annos dava pulos como para
espedaçar o arnez apertado com arcos de ferro debaixo do habito
franciscano. A imagem de Francisco Luiz perpassava-lhe execrandissima
por diante dos olhos, cravados n'um revolutear de visões extravagantes
que o assediavam, á volta do cadaver d'aquella mulher assassinada sem
culpa nem fé para aceitar de boamente uma tão grande quanto immerecida
penitencia.
Fez-se em volta d'elle a solidão dos grandes desgraçados, que já nem
sequer podem captar a benevolencia dos grandes hypocritas, nem a estima
dos ferventes devotos. Os mais virtuosos frades fugiam d'elle, desde que
do convento de S. Bernardino sairam peioradas em blasphemia as phrases
do syndico ao pé do corpo ainda quente de sua mulher. Além d'isto,
entraram em averiguações os mais escrupulosos sobre os factos
antecedentes á resolução de entrar aquella mulher na religião e elle no
sacerdocio. O prior dos antoninos esquadrinhou em Lisboa no secreto
gabinete da nunciatura, e vingou descobrir que o rompimento fôra
sequencia de um casamento incestuoso.
Calou o frade a infanda noticia, por caridade; apenas a revelou a metade
dos seus conventuaes; e estes, por caridade tambem, disseram-n'a á outra
metade, sentindo não ter mais a quem a revelassem.
Por isso, á volta d'elle se fez a solidão dos grandes desgraçados.
Entregaram-lhe os dois filhos, que estudavam humanidades no convento,
para que elle lhes désse destino. O padre levou-os para si, e desde esse
momento principiou a sentir quebrarem-se os aguilhões que o cravejavam e
atiravam impenitente á sepultura.
Cogitou em mudar-se com elles para algum ermo, onde lhe ignorassem o
nome e os infortunios. Mas alli, ao pé da sepultura de Josepha, estavam
as cinco filhas, que elle, se podesse, tiraria do convento. Era aloucada
fantasia similhante intento. Aquellas meninas estavam perdidas para elle
e para Deus; porque já não podiam amar o algoz de sua mãe; e, diante do
poder do Altissimo, apenas podiam tremer de medo, medo sem amor. Nem
pae, nem Deus!
E d'este modo, com a alma assim vasia, sem embrião de esperança n'algum
reconcavo d'ella, não ha vida.
A mais velha das meninas, Anna Maria, sobreviveu dois mezes a sua mãe, e
acabou em phrenesis, não obstante os exorcismos com que valentes
demonifugos de todos os conventos de Aveiro lhe medicavam a alma.
Expirou com reputação de precíta aquella gentil creatura com dezoito
annos incompletos, a mansissima menina que seus paes quatro annos antes
denominavam, á conta da sua indole branda e sujeita, a pomba da familia,
o exemplo angelico de suas irmãs.
Quando o padre Braz recebeu a nova da morte de sua filha, quizera a
Providencia que ao lado d'elle estivesse um peito que lhe désse amparo.
Francisco Luiz de Abreu, n'aquelles dias, descêra dos arrabaldes de
Bragança, onde fôra despedir-se do seu amigo José de Barredo, e passára
por Aveiro, onde conjecturava encontrar ditoso e embevecido nas delicias
do céo o sacerdote de Jesus.
XVIII
Catequeze
Francisco Luiz planeou mover o filho de Antonio de Sá Mourão a saír de
Aveiro, sob pretexto de fazer entrar na carreira das lettras ou das
armas os dois moços, já habilitados para as começarem.
O padre passou a consultar os filhos sobre a escolha de seu futuro.
Tinham-se os meninos habituado a pensar no destino para que o pae os
encaminhára, desde que os entregou aos frades de Santo Antonio.
N'aquelles dias, as carreiras abertas aos espiritos mais arremessados em
esperanças e cobiça de nomeada gloriosa, eram a milicia, já então
decadente, e a companhia de Jesus, ou a ordem de S. Domingos, as duas
mais poderosas e florentes hostes evangelicas n'estes reinos, e as mais
conjuradas em realisar o absolutismo theocratico.
Os filhos de Braz não entendiam nada d'estes intentos; mas entreviam a
grandiosa estatura do jesuita e do dominicano, em cujas frontes se
estavam sempre cerzindo as mytras, e no interior d'essas frontes se
elaborava o pensamento dos reis, a palavra directora dos governos, o
enlace mystico do céo com a absoluta soberania da terra.
Portanto, os dois netos do hebreu da Guarda, respondendo á consulta de
seu pae, disseram que entrariam em conventos. Agostinho escolheu a
companhia de Jesus, e Pedro a ordem de S. Domingos.
Francisco Luiz encarou n'elles com desprezo: não podia ser de piedade,
nem de odio aquelle sorriso que entre-abriu os beiços do velho judeu de
Ourem.
Passados momentos, murmurou, sorrindo ainda:
--Este Pedro já não virá a tempo de me queimar... nem eu lhe deixo
filhos ou netos, cujos ossos lhe sirvam de degráos para escalar a
bem-aventurança dos carnifices... Se o avô d'este menino se lembraria de
que um seu neto seria frade dominicano!...
E, voltado ao padre Braz, continuou com mal fingida serenidade:
--Conjecturava eu, senhor Braz Luiz, que um homem de sua indole e saber,
vestido com as insignias de uma religião qualquer, e mormente da
christã, se empenharia em lavar-lhe com lagrimas as nodoas de sangue, e
no amaciar-lhe as cruezas que ella trouxe das tradições pagãs. O homem
de grande entendimento e muitas luzes devia ser lustre e honra de
qualquer religião que elle assentasse de converter em policiamento e
bem-fazer da humanidade. Não lhe perguntei ainda, meu amigo, se
applaudia o proceder da christandade portugueza contra os paes de
Antonio de Sá, contra Maria Cabral, contra Heitor Dias da Paz.
Pergunto-lh'o agora, na occasião em que vossemecê manda um filho
alistar-se nos aprendizes do santo officio, e estudar as physionomias
das antigas rezes do açougue dominicano penduradas na galilé da egreja
de S. Domingos. Bem póde ser que lá veja retratos de seus avós.
--Basta! que me está mortificando, senhor!--atalhou o padre.--Sou um
desgraçado, á volta de quem se assanham todas as tentações! Quem vem
contender em pontos de religião com um homem tão quebrado de espiritos?
Oh! deixem-me como a um leproso, abandonado de Deus e dos homens...
--Abandonado de Deus! como assim?--accudiu o israelita.--Pois as tres
divindades christãs, o Padre, o Filho e o Espirito Santo assim abandonam
quem tanto lhes sacrifica! Onde está a compensação das suas afflicções,
meu amigo? Que bem aventuranças infinitas são bastantes a galardoar uma
só das suas torturadas noites? Por minha fé! Consterna ver o desamparo
em que o Moloch d'estas voluntarias hostias deixa affogar-se em lagrimas
e derreter-se ao fogo da desesperação um homem que tinha direito a
receber consolações analogas á devoção com que se deixa esmagar na carne
e no espirito!... Ah! eu cuidei que, na minha retirada de Portugal, o
deixaria enlevado na beatifica visão e antegosto da eterna e perennal
mão direita do Deus-Padre! E a minha consciencia sabe que eu muitas
vezes pensei em me converter ao christianismo, se Braz Luiz de Abreu
estivesse, a esta hora, conformado e alegre sobre o peso da sua cruz!...
--É que eu sou lodo... atalhou o padre.
--É que eu não vi ainda bem remunerada a renunciação dos direitos do
homem, em hecatomba de uma equidade convencional, chamada a justiça das
religiões. São todas muito artificiaes para que alguma d'ellas possa ser
verdadeira. As menos sobre-humanas são as mais equitativas; e estas
mesmas estão manchadas pela miseria do homem, que não comprehende a
virtude aconselhada pela razão; carece de a ouvir trovejada no Sinay,
legislada pelo alfange mahometano, ou introduzida no cerebro das nações
selvagens com o gume da espada dos Cabraes e dos Pizarros. Pois está
Deus n'estas carniçarias? O creador das florestas e dos mares, do oução
e do elefante, se quizesse revelar-se mais sensivelmente ao homem,
careceria de morrer n'uma cruz ignominiosa, ou permittiria que aos
pobres cegos, que o não sabem ver, lhes queimassem os olhos nas
lavaredas do santo officio?!
--Jesus, soccorrei-me! exclamou o padre, tapando com as mãos a fronte,
em que as palavras d'aquelle homem coavam luz de infernal claridade.
Depois murmurou palavras inaudiveis que deviam ser orações efficazes
contra a tentação da heresia, da philosophia, da razão indocil, do
demonio, que é tudo um.
O hebreu era pertinaz, porque o estimulo, a razão nua, sem minima
compostura de fé, lhe espicaçava a consciencia. O homem vinha dos focos
da heresia. Comprehendêra a loucura do hebraismo e a loucura dos
heresiarcas. Reformara-se na philosophia de Spinosa, e facilmente
derivara do pantheismo á completa abstinencia de deuses, coisas
desnecessarias para explicar a ordem do universo, e inintelligiveis para
as fazer presidir á creação. A causa das causas parecia-lhe sempre
effeito dos effeitos. O atheismo, se o não consolava, tambem lhe não
mettia em trabalhos as molas da imaginação.
As expansivas demonstrações de sua incredulidade eram todavia
inefficazes para apagarem a luz do calvario no coração do padre. O dique
do terror de Deus represava as torrentes de sabedoria rebelde com que o
hebreu pretendia levar de rojo o amigo, cuja victoria estaria indecisa;
se o christão convicto aceitasse o cartel. Não. Braz Luiz vencia com o
silencio. O argumento triumphal é o calar-se aquelle, cujo coração
bafejou o Senhor.
Não obstante, as asperezas da vida, os jejuns, as penitencias, as
orações mentaes e exercicios fatigantes de piedade foram diminuindo de
dia para dia. No fim de tres mezes, o padre fallava ainda tres horas á
milagrosa imagem de S. Francisco, e conversava seis horas com Francisco
Luiz de Abreu.
Estava, pois, reduzido á piedade rasoavel. Não mortificava a carne para
manter o espirito na energia que se lhe requer em meditação das coisas
divinas. Tinha horas regulares de oração, de alimento, de visitar os
seus enfermos, e de procurar no locutorio de S. Bernardino as quatro
freiras.
Foi para Lisboa com o hebreu e com os filhos. Renovou a consulta sobre o
destino d'elles. Permaneciam constantes na sua resolução. Um entrou no
noviciado da ordem dominicana em Bemfica; e outro no collegio de Santo
Antão.
O padre Braz foi beijar a mão de el-rei, que se compungiu da
extemporanea velhice do celebre Olho de Vidro. Ouviu-lhe a historia
pathetica da morte de soror Josepha e da filha, saudosa de sua mãe, e o
definhar-se das quatro meninas para quem a vida claustral fôra sempre
incessante martyrio e desesperação de que a misericordia divina talvez
pedisse contas a elle pae. Observou-lhe D. João V que levasse para sua
companhia as quatro meninas.
--São freiras, são professas, real senhor!... murmurou o padre.
El-rei mandou-o voltar no dia seguinte, e ordenou que lhe entregassem
provisão regia e breve do nuncio para que as quatro freiras de S.
Bernardino vivessem por tempo illimitado na companhia de seu pae.
Voltou o padre a Aveiro, e Francisco Luiz de Abreu acompanhou-o.
N'este homem andava encavalgado o Lucifer da mais desenfreada
philosophia que viu aquelle seculo. O pensamento que o esporeava era
generoso; mas no inferno iria um dia de festa se elle vingasse a idéa
execravel. Venceram os anjos custodios, que faziam guarda ao espirito do
padre e das quatro filhas, promettidas esposas de quatro serafins que as
esperavam, posto que nem todas correspondessem ao convite amoroso dos
serafins.
Queria Francisco Luiz de Abreu restituir a felicidade áquellas meninas,
a felicidade terreal, mentira em que o hebreu ainda acreditava.
Preparava o animo do filho de Antonio de Sá, inoculando-lhe a peçonha da
duvida no dogma, e pelo conseguinte na moral. Discutia os chamados
sacramentos da egreja. Dizia que o sacerdocio era a mais convencional e
estupida das instituições humanas, com grave ultrage de Deus, chamado a
sanccional-a, se Deus por acaso podesse existir e ser ultrajado por
affrontas do homem, chamado irrisoriamente o rei da creação, á mingua de
besta-fera que se proclame com eguaes direitos á mesma realeza. Dizia
que esta bestial instituição cedia a primasia a outra, que era a da
profissão da mulher; e que de estupida passava a ferocissima quando a
professa era violentada a jurar a perdição das suas alegrias de
mocidade, e das suas esperanças de familia nas tristezas da velhice.
Amartelladas por largo tempo estas e similhantes idéas sobremodo impias,
o hebreu puzera a pontaria em tirar de Portugal o padre e as freiras,
leval-os onde rasgassem os habitos, e se vissem de repente restituidos á
simpleza de creaturas formadas á imagem e similhança do Creador, o qual,
a ter existido, formára certamente homens e não padres, mulheres e não
freiras: gente, no dizer de Moysés, apta e escorreita para formar
individuos, aldeias, cidades, reinos, mundos.
Ouviu o padre as theses do seu amigo, defendidas por longo tempo com
erudição digna de melhor serventia. Prodigioso poder da fé, quanto eu te
admiro e venero! O padre resistiu nervosamente á seducção, e por pouco,
no calor da refesta, não apresentou uma idéa que destruisse os
preconceitos do judeu luciferino. Prodigioso poder da fé! exclamava
tambem Francisco Luiz, quando, inventariando os argumentos do seu amigo,
não topava um que merecesse redarguição grave. E perguntava elle a si
mesmo como era que aquelle homem tão embotado em agudezas de dialectica
pudera escrever as «Aguias que voavam sobre a lua, e o sol nascido no
occidente e posto ao nascer do sol!»
Desistiu: mas já lhe foi grandissimo contentamento ver á beira de seu
pae as quatro meninas, quatro exhumadas da lobrega crypta do convento,
onde deixaram sem lagrimas as grammas que rastejavam na claustra sobre a
campa de sua mãe.
Dizia elle, todavia, ao pae:
--Crê que as caras marmóreas d'estas meninas tornem a reflorir?
--Espero que sim.
--Nunca mais. Estão mortas. Se as quer vivas, rasgue-lhes a mortalha,
Braz Luiz!--exclamou elle abraçando-as todas contra o seio.--Dê-me estas
meninas, deixe-me salval-as, deixe-me fugir com ellas para o ar
abençoado da liberdade! Eu prometto aviventar-lhes o coração, e depois
estão salvas. Dê-m'as que eu ainda, sou bastante rico para deixal-as
ricas. E, se eu fosse pobre, dar-lhe-ia a cada uma um amor para o
coração resuscitado, um esteio para a alma, um companheiro para toda a
vida!
O padre ergueu-se de repellão, travou das filhas, arrancando-as aos
braços do hebreu, e exclamou:
--Que maldição traz comsigo este homem!... Quer perder-me as minhas
filhas!... Ha infernal predestinação na sua mensagem ao seio da minha
familia, homem da horrivel fatalidade!
XIX
O velho da ermida
Em uma aldeia, chamada Verdimilho, a uma legua d'Aveiro, vivia em 1738
um ancião, reputado justo porque á volta da sua casa, colmada e
desguarnecida da mais trivial mediania, se ajuntavam os pobres da
freguezia, em dias determinados, e recebiam esmolas que lhes bastavam á
alimentação parca da semana. Chamavam ao incognito o «velho da ermida»
porque, ao lado da choupana d'elle, estava uma capella. Os pobres,
favorecidos d'este homem, paravam ao cair da tarde nas visinhanças da
ermida, para o verem sentado no tezo de um oiteirinho, com os olhos
enlevados no transmontar do sol; e, se o viam passar a mão por elles
como quem enchuga lagrimas, diziam entre si:
«Um homem que dá tanto aos pobres, e chora!...»
Em 1739 saiu elle caminho d'Aveiro, pela primeira vez. Os pobres
seguiram-n'o, e disseram-lhe:
--Não voltaes mais aqui, nosso bemfeitor?
--Voltarei, filhos. Á noite serei comvosco.
E caminhava a pé, abordoado n'um cajado que lhe dera um dos seus pobres.
Chegado a Aveiro, entrou na egreja de S. Bernardino, acantoou-se no mais
escuro d'ella, e assistiu aos responsorios da segunda filha de Braz Luiz
de Abreu, a qual estava sobre a eça.
Saiu, parou á porta do pae da defunta, subiu, entrou á saleta em que
elle recebia os pesames, apertou-o nos braços e disse-lhe:
--Dá-me a vida das tres filhas que te restam, e vem tu com ellas.
O padre derramou copiosas lagrimas, e não respondeu.
Voltou Francisco Luiz á sua cabana da ermida, e os pobres, ao outro dia,
confluiram das suas aldeias a dar-lhe as boas vindas.
Em 1740 fez o hebreu a mesma caminhada, entrou na mesma egreja onde se
resavam responsos, na mesma saleta onde chorava um velho, e disse-lhe:
--Dá-me a vida das duas filhas que te restam, e vem tu com ellas.
Rasga-lhe as mortalhas, antes que o coveiro as esconda, e o sino dobre
por ellas.
O padre chorou muito, inclinado ao peito do velho, e não respondeu.
Voltou o caminheiro á sua cabana, e os pobres olharam-n'o com muita
amargura, porque a sombra d'elle era como de arejo vindo da região dos
sepulchros.
Uma tarde, não longe d'aquelle dia em que se finára a quarta professa de
S. Bernardino, appareceu em Verdimilho o padre Braz Luiz, atirou-se
esbofado aos braços do hebreu, e disse-lhe:
--Dê-me as minhas filhas!
--Pede-m'as a mim?! É a Deus que as deve pedir... ao seu Deus, que
resuscitou muitas...
--Não peço as mortas; quero as vivas.
--Que sei eu das vivas? Esperava que morresse uma para lhe ir pedir a
ultima.
--Pois minhas filhas não estão aqui? exclamou Braz Luiz de Abreu.
--Aqui?! não vê que toda a minha casa é esta cabana?
--Meu Deus! bradou o padre.
--Que é de suas filhas? acudiu o hebreu.
--Fugiram! perderam-se!...
--Salvar-se-iam? Encaminhal-as-ia qualquer providencia que eu
desconheço?...
--Roubaram-m'as!
E o padre, guardando silencio por alguns minutos, continuou com
intermittentes de gemidos e ancias offegantes:
--Perdi-as... e perderam-se!... Pois que nome tem isto senão é
prostituição?... A justiça lançará mão d'ellas... e d'elles...
--D'elles quem?--atalhou o israelita.
--De relance os vi: eram militares, vinham de Coimbra a Aveiro,
hospedavam-se nas mais nobres casas, e minhas filhas sabiam da
existencia d'estes homens...
--E rasgaram as mortalhas--ajuntou o velho de Verdimilho--Pois deixal-as
ir. A natureza as defenda, se os aguasis da religião as perseguirem.
Deixal-as ir em paz. Falleceram-lhes forças para a continuação do
martyrio. Muitas das viuvas do Indostão já hoje se não queimam. É
necessario que os preconceitos sejam derrotados uma vez por outra, a ver
se alguma hora surge ahi d'este atascadeiro melhor geração, que traga ao
mundo a idéa de Deus com bondade. Coitadinhas! Possam ellas chegar onde
lhes digam: «Vivei, gosae sem remorsos. O que vos lá ensinaram a dizer
na profissão caducou debaixo de outro céo. Pedi, meninas, o coração ás
estrellas da noite, ao sol do dia, ás campinas que reflorecem, ás aves
que senhoream os ares e pousam a cantar nas mais formosas frondes das
arvores. Perguntae ás bellezas e jubilos da natureza, se quem os fez
lhes pautou intercadencias de amargura. Vivei, candidas pombas,
aquecei-vos ao calor que desentranha o gomo da arvore congelada, e
aquece no seio da virgem o sangue palpitante que lhe purpureja as faces.
Ide, e escondei-vos no reconcavo das penedias, como as gazellas se
escondem do pelouro do carniceiro.» E tu choras?--disse elle com
vehemencia, repuchando para si o corpo inerte de Braz Luiz--hei de
fallar-te assim com este ar de pae, porque estou a ver-te, creancinha,
que, ha quarenta e oito annos, eu tirava dos braços da ama para sentir o
goso de te embalar e ver adormecido nos meus. Chora por ti que és
muitissimo desgraçado: por ellas não, que eu duvido que haja ahi maior
horror que o morrer das outras. Porque não iria eu com tuas filhas á
fonte da saude, do bem do corpo e da alma? Porque m'as não déste? Davas
dois anjos a este homem de setenta annos, que não tem ninguem que lhe
feche os olhos. E, depois, extincta esta luzinha que vasqueja, as tuas
filhas aprenderiam nas memorias da minha vida a viverem virtuosas sem
religião revelada, a soccorrerem indigentes sem lerem os preceitos da
caridade de Confucio ou de Jesus. Mas se m'as não déste, nem por isso
descreias da felicidade d'ellas. O amor tem céos e resplendores, que
banham de luz as mais tristes almas. O crime d'ellas é coisa tão mal
feita á superficie da razão degenerada, que lhes não ha de durar mais na
consciencia do que a sentença d'ellas escripta sobre areia. Verdadeiros
crimes, diante do juiz incorruptivel, são aquelles de que o senso
interior nos condemna.
Prolongou-se a pratica do hebreu. O padre não o ouvia. O que elle
parecia escutar era um cavo e muito intimo desfibrar-se-lhe o coração,
este envelhecer e morrer que o homem está sentindo a branquear-lhe os
cabellos e a ressumar-lhe á face camarinhas de suor de agonia.
Depois despediu-se, e murmurou:
--E adeus! que está consummado tudo!
--Ainda não: viverás mais annos, porque se não é desgraçado como tu és
senão em toda a plenitude. Eu é que vou sair d'aqui. É noite fechada. Já
não tenho n'este mundo sol que me derreta os gelos de setenta annos.
XX
Parecia christão na morte!
Vinte dias depois, correu nas aldeias circumpostas a Verdimilho, que o
velho da ermida estava enfermo.
Abalaram os pobres dos seus cardenhos, e entraram quantos cabiam na
cabana do ancião. Os ricos tambem foram com os seus capellães, com os
seus padres adscriptos á gleba das missas de _requiem_, com que mercavam
barato o paraiso aos seus ascendentes.
O ancião viu uns e outros. Ergueu a cabeça e disse:
--Que entrem sómente os pobres. O espectaculo de um moribundo não
convida.
Os pobres, pois, ajoelharam em duas alas, defronte da parede a que se
encostava uma barra de bancos, e cada um dizia em silencio as suas
orações.
A porta da cabana estava de par em par aberta. O sol da tarde doirava a
poeira do interior. A fita luminosa, que ia inclinada em scintillas
alumiar a fronte do enfermo, vinha com direcção obliqua e coada por uma
abertura do colmo. Os pobres viam n'aquelle raio de pó lucido coisa
mysteriosa de bonissimo agouro para a alma do doente.
Appareceu então no limiar da porta um sacerdote, que a gente d'aquellas
aldeias venerava como medico do corpo e do espirito. Era o padre Braz
Luiz de Abreu.
E como elle entrasse, o povo, que enchia a casinha, saíu, cuidando que o
velho da ermida ia confessar-se.
A só com o sacerdote, disse o hebreu com penosa pronuncia: