Abriram-se os batentes de uma das portas da sala. A mulher que entrou,

fechando a porta para que os sete filhos a não seguissem, impetuosa,

como cega de furia, ou impulsada de um grande terror, terror como de

incendio que ameaçava devorar-lhe as creanças, ia lançar-se nos braços

do marido; e, como lhe faltasse o amparo d'elles, caiu de rosto no

pavimento, e soltou do peito uma soada rouca, similhante ao estallido de

todas as fibras da vida.

O quadro era de mais pavor do que póde exprimir lingua humana.

Francisco Luiz poz a mão na fronte glacial e disse entre si:

--Maldito eu seja, que trouxe a desgraça e a vergonha a esta familia!

Braz Luiz inclinou-se a levantar a mãe de seus filhos nos braços que a

não podiam suster. Chamou as filhas mais velhas, e mandou-lhes que

levassem sua mãe ao leito. Acercou-se de Francisco de Abreu que estava

chorando com a face encostada ao alisar de uma porta, e disse-lhe

brandamente:

--Senhor Abreu, não se arrependa; foi Deus que o enviou. Não chore, que

as minhas lagrimas ámanhã estão enchutas: ha de seccar-m'as o fogo

sagrado da minha religião. Tenho Jesus Christo na minha alma. Agora

comprehendo que milagres se operam nas maiores angustias do homem. Os

meus filhinhos serão sempre os bens que Deus nosso Senhor me confiou.

Minha irmã está debaixo da mesma divina mão. Ha de resignar-se, ha de

santifical-a a saudade, incenso de lagrimas que o Senhor lhe ha de

aceitar e retribuir em consolações...

Susteve-se n'esta exclamação arrobada e ungida de santa resignação.

Momentos passaram silenciosos... Depois, levando freneticas as mãos á

cabeça, exclamou:

--Mas eu hei de separar-me para sempre de minha esposa... do anjo

bemdito de toda a minha vida!...

E atirou-se ao peito soluçante do homem que, quarenta annos antes, o

aquecera ao calor de suas faces, creança de vinte e cinco dias.

XV

Angustias que existiram

Por volta das dez horas d'aquella noite Braz Luiz de Abreu saíu de casa

do vigario capitular, e recolheu-se ao convento de frades antoninos,

convisinho da egreja da ordem terceira de S. Francisco, na qual o

familiar do santo officio era irmão professo. Que noite aquella, que

lagrimas choradas aos pés da cruz, e no seio do venerando prior da casa

hospitaleira do maior infeliz que alli se albergára!

Ao aclarar-se a manhã, o prior e dois frades de Santo Antonio, varões de

grandes annos e virtudes, chegaram á porta de D. Josepha de Abreu.

Abriu-se-lhes a casa, em cujo recesso tinha ido um chorar soluçante, e

passado horas infernadas, sem mais desafogo que o atirarem-se por terra

aquella mulher e sete filhos, ignorantes da angustia de sua mãe, pedindo

misericordia, diante de um santuario.

De joelhos se quedaram, quando os tres frades, sublimes de religioso

terror, appareceram no limiar da casa da oração.

--Irmã, disse o prior, erguei-vos e mais as vossas cinco filhas, e

vinde.

--Para onde, senhor?--murmurou ella com os olhos no pavimento e as mãos

sobre o seio.

--Estão dadas ordens para serdes recebidas no conservatorio de S.

Bernardino, Recolhimento de Terceiras de S. Francisco.

--E eu não hei de vêr mais...--exclamou ella, e retraiu-se como aterrada

do delicto de tal pergunta.

--Vinde, senhora e meninas. Emquanto a vós, moços, esperae que vos digam

o vosso destino.

Era na madrugada de 25 de março de 1732.

Regorgeavam os festeiros da primavera, os passarinhos emboscados no

arvoredo dos quintaes. A geada branquejava as ruas, e do lado da rua

assoprava frigidissimo vento. As meninas aconchegavam das faces

escarlates os capuzes das mantilhas. A mãe ia aquecida no banho ardente

das lagrimas.

Os antoninos caminhavam mesuradamente á beira d'ellas, com as mãos

enfiadas nas mangas dos habitos. O prior ia ciciando quaesquer palavras,

que deviam de ser as suas orações da manhã, ou rogava ao Senhor dos

afflictos que esteiasse o animo d'aquella mulher singularmente

desgraçada.

Abriu-se a portaria do conservatorio de S. Bernardino. Os frades ficaram

áquem da porta, que rouquejara nos gonzos com o quer que fosse de muitos

gemidos unisonos de fundissimos carceres, soados por abobadas

subterraneas.

D. Josepha quando encarou no interior do recinto lobrego da entrada,

deixou-se rasgar desde o intimo d'alma por um grito, mais desesperado,

mais blasphemo que invocativo da divina graça para tão acerbo calix.

--Haja-se com paciencia, senhora!--disse o prior--Olhe que desde este

momento o Altissimo a está vendo e sondando-lhe o coração. A ignorancia

não podia ser culpada até hoje; mas d'hora em diante, a reluctancia com

os deveres que lhe impõe a justiça do céo e a justiça da terra é crime

mais que muitissimo grande... Entendeu-me, senhora?

--Entendi, senhor padre-mestre prior--respondeu a confessada do prelado

dos antoninos.

Fecharam-se as portas.

A directora do Recolhimento, silenciosa como um phantasma, conduziu D.

Josepha e as cinco meninas ao longo de um pequeno corredor, com

cubiculos lateraes, e mal alumiados da luz do dia ainda froixa. No

extremo do corredor abriu-se a portinha de uma cella espaçosa.

--Aqui está, senhora--disse a directora, e ausentou-se.

As meninas romperam em grande chôro, assim que a livida directora saíu;

logo, porém, lhe assomou a mulher de macerado aspecto, no limiar da

porta, e disse:

--Aqui n'esta casa são permittidos os prantos da penitencia, e só esses,

senhoras!

Retrocedeu, a tempo que D. Josepha se abraçava de um amplexo em todas as

cinco filhas, e lhes dizia:

--Choremos baixinho.

Meia hora depois d'este lance, os dois meninos de Braz Luiz de Abreu, um

de dez, outro de nove annos, eram conduzidos ao convento de Santo

Antonio, onde encontraram seu pae vestido com o habito de irmão professo

da ordem terceira. Estacaram defronte d'elle n'um glacial spasmo. O

medico tomou-os ambos, com as faces aconchegadas um do outro, e

disse-lhes:

--Não haveis de chorar, não, meninos? Ficareis aqui por algum tempo.

Aqui vos deixo com amigos e mestres. Fazei muito por aproveitar o tempo,

e trabalhae por ganhar o coração d'estes santos homens.

Nem uma lagrima exsudou aos olhos d'aquelle pae! O fogo da divina graça

seccara-lhe as fontes da alma. Era já o ser humano mutilado dos orgãos

da vida de relação. Era o homem sobre-natural, aquella coisa

inexprimivel de que se formam o anjo ou o demonio, as visões beatificas

ou o revolutear escandecente da legião.

Os frades entraram a tomar conta dos meninos. O prior, ao pegar das mãos

d'elles, disse:

--É tempo. Vá á sua vida, senhor Braz de Abreu.

--Adeus, filhos. Abençoe-me, reverendo padre!...--disse o irmão professo

da ordem terceira de S. Francisco, e saiu.

Sobre-humana coragem! Entrar na casa, onde, vinte e quatro horas antes

ainda almoçado com sua mulher e filhos! Entrou. Foi ao oratorio de sua

mulher. Se reparasse, poderia ainda ver signaes humidos de lagrimas no

genuflexorio e na peanha do Christo de marfim. Estava orando, quando

ouviu passos na escada. Levantou-se para fechar a porta, e furtar-se a

dar explicação d'aquelle habito, d'aquella soledade. Não foi a tempo.

Era Francisco Luiz de Abreu. Caminhou para elle com firmeza e risonho

semblante:

--Meu bemfeitor, disse elle, aqui me tem. Faço grande differença do que

era ha quarenta annos. Então, viu-me nas faixas infantis, e teve-me

junto do seu coração. Abrace-me agora vestido na mortalha.

O hebreu apertou-o com vehemencia. As palavras não podiam sair do peito

anciado e da garganta afogada por suspiros. Passado tempo, disse:

--E era preciso isto? A conformidade com a vontade de Deus exprime-se

com vestir esta tunica, e apertar este cordão? Não é o homem tão grande

na dôr, sem a celebrar com a magestade funebre d'estes habitos?

--O homem é um verme, e mais nada, murmurou Braz Luiz.--Se a religião me

não soldar os pedaços da vida, se me ella não tirar d'este tumulo em que

estou caido, que hei de eu fazer tão esmagado até á medula dos ossos?

--Pois os seus filhos? que é dos seus filhos, Braz Luiz.

--As minhas filhas assistem, as innocentinhas, á penitencia de sua mãe.

--Penitencia de quaes peccados?

--Oh! calle-se!... por Deus, calle-se, diante do filho de Antonio de Sá!

Se não era crime o meu viver para que me avisou?...

--Diz bem... Perdôe-me.

--Não só lhe perdôo... que lhe agradeço... Agora é que eu me gelo de

horror do meu passado!... Nunca tive um abalo que me dissesse: «porque

lhe queres tu assim tanto, tanto, que em quinze annos teus olhos não

viram outra mulher sobre a terra!» As irmãs não se amam assim... Ai!...

e eu que assisti á morte de minha mãe, ainda lhe beijei as mãos... Alli

sim, então senti convulsões de espirito extrordinarias, das quaes não

podiam ser motivo o amor que eu tinha á filha... Não; era Deus que me

avisava... Quinze annos, quinze annos de felicidade sem sombra... os

meus filhinhos, os meus sete anjos... ahi me ficam...

--Onde vae?...

--Onde vou?!

E chorava com tamanho afôgo que lhe vieram umas ancias mortaes.

--Deus me mate já, já!--vociferou por entre o repuchar dos gritos

abafados.--Sou fraco, sou miseravel lodo! Dê-me animo, salve o filho do

seu desventurado amigo. Creia no Deus dos martyres, para que a sua voz

me alente, e eu não seja confundido pelo escarneo da multidão.

--Creio no Deus de todos os martyres, senhor Abreu. Creio--atalhou

Francisco Luiz.--Soffra, chore, despedace-se sem amaldiçoar, e verá que

está comsigo o Deus de Socrates, o Deus de Saulo, o Deus de Antonio de

Sá, o Deus de Heitor Dias da Paz, o meu Deus, o creador de todos os

martyres e algozes, de todas as cruzes e de todos os postes levantados

sobre a lenha que vae abrasar um corpo. É Jesus de Nazareth o seu Deus?

Sirva-o, tome-lhe dos labios a esponja e sorva-lhe o fel, ame os

inimigos, valha aos desvalidos, acôlha os orphãos á alma que os

aconselha, dê-lhes tecto que os cubra, e olhos que os chorem. Assim

faziam os justos segundo Platão, os justos segundo Bouddha, os justos

segundo Philon, os justos segundo Jesus, os justos segundo Luthero. Ame,

condoa-se, e ampare como elles, e será salvo para melhor mundo, e

sentirá n'este as supremas alegrias da consciencia...

--Oh! não é isso--atalhou Braz Luiz--ha uma só religião, e uma só

salvação.

--Pois bem: haja uma só; e seja a sua. Todas ellas dão as suas melhores

corôas aos seus martyres, corôas tecidas dos mesmos espinhos, e

abençoados da mesma benção; mas é preciso soffrer, soffrer sem infligir

tortura, sem retalhar o peito de outra fé para lhe ir lá dentro remoer

com ponta de ferro em brasa a consciencia. Braz Luiz de Abreu, respeito

grandemente a sua angustia, e dou graças ao Senhor do céo e terra que

lhe está vertendo balsamos no roer do cancro que lá deve ir n'essa pobre

alma. Siga a sua religião, eu lhe seguirei os passos n'ella, e

ajoelharei ao seu lado, sem receio de que estejamos cada um de nós

orando a differentes creadores. E seus filhos? E seus filhos?--proseguiu

Francisco Luiz--quer que eu vele pelo seu futuro d'elles?

--Mercês, meu amigo. Meus filhos hão de ter pão e futuro. Trabalhei;

tenho ahi uns bens. Continuarei a trabalhar para augmental-os. Minhas

cinco filhas hão de ser freiras; meus filhos seguirão o sacerdocio.

--Qual é o seu destino, Braz?

--Tomar ordens clericaes. Hoje mesmo vou caminho de Lisboa. E vossemecê

deixa Portugal?

--Ainda não.

--Adeus, pois, até quando?... Até á eternidade?

--Ainda não. Ver-nos-hemos antes. Não se morre assim depressa... Os

desgraçados são de bronze. Quer Deus que elles vivam muito para serem

muito vistos como pompas do mal necessario.

XVI

O padre Braz

O famigerado author do _Portugal Medico_ appareceu em Lisboa, cingido

pelo cordão franciscano, sobraçando o manto pardo, fronte abatida, faces

sulcadas, e desfeitas, a luz dos olhos amortiçada, e um amarellido de

rosto accusando tanta afflicção interior, que não havia olhos enchutos

que o vissem.

Por casas de bispos e mais jerarchias da egreja andava o irmão professo

da ordem terceira, solicitando a sua ordenação de missa, e a concessão

de recursos que o ajudassem a converter em convento o conservatorio de

S. Bernardino, onde tinham sido recolhidas D. Josepha e suas filhas.

D. João V, informado da resolução mysteriosa do celebre Olho de Vidro,

cujas facecias o tinham muito alegrado, quando sua magestade, em hora de

pachorra, consentia que o seu medico lh'as lesse, desejou ouvir da bocca

do famoso Braz Luiz uma historia escassamente conhecida dos altos

dignitarios da egreja.

Braz Luiz foi levado ao paço pelo doutor José Rodrigues de Abreu, medico

de el-rei. O filho de Pedro II revelou o desejo que tinha de saber que

fundo reviramento se operára no espirito de um pae de sete filhos, para,

no vigor dos annos, se privar das caricias da familia, e defraudar a

esposa de marido e os filhos de pae.

O medico referiu a sua historia, a sós com o curioso monarcha, depondo

na consciencia e religiosidade de el-rei os pontos melindrosos e

secretos da sua vida. Sensibilisou-se o soberano, e em paga da

confidencia lhe fez mercê das rendas do real d'agua para que as elle

applicasse á fundação do convento de D. Josepha. Ordenou mais el-rei, de

harmonia com o nuncio, que se não delongassem a Braz Luiz de Abreu as

ordens solicitadas, de modo que entre umas e outras não interferisse

mais tempo que o necessario, em conformidade com o maximo gráo da

dispensação em taes casos usada. Por maneira que Braz Luiz, ao cabo de

seis mezes, estava clerigo de missa. O concilio tridentino permittia e

explicava santissimamente todas estas coisas, que hoje se nos affiguram

monstruosas irregularidades. N'este anno da graça de 1866, póde qualquer

novelleiro citar o concilio tridentino, por que é presumivel senão

certo, que por amor do casamento civil toda a gente de alguma

curiosidade reveza a leitura das decretaes com a dos concilios.

Pois o logar do concilio tridentino que permittia desatarem-se esposos,

e vestirem habitos, e professarem, e deixarem os filhos sem paes, é a

_Sess. 24 de Matrimonio, Can. 9_.

Ao mesmo tempo, o padre Braz Luiz de Abreu foi nomeado syndico do

convento permittido, e, por um breve, tambem nomeado medico d'elle.

Tornou-se o padre de Lisboa para Aveiro, e entendeu logo nas obras do

convento novo. Podia, se quizesse, dizer logo missa nova, mas reservou-a

para o dia em que sua mulher e filhas professassem.

A edificação do convento fez-se n'um anno. Sobravam os recursos, além do

subsidio real. Os cavalheiros da terra concorriam com grandiosos

donativos, e muitas esmolas de procedencia desconhecida iam dar ás mãos

do syndico. O hebreu Francisco Luiz observou que o seu dinheiro maldito

não queimava as mãos ungidas do sacerdote.

Algumas vezes o padre Braz Luiz de Abreu entrou ao locutorio ou grade

para se entender com a mãe de seus filhos sobre coisas attinentes á

profissão. Dizem as memorias que nunca jámais lhe elle vira o rosto,

porque D. Josepha o velava com um espesso véo negro.[31]

Aos vinte e quatro de dezembro de 1734, passados trinta e tres mezes de

noviciado, de cruelissimas dores, de inenarraveis desmaios, as cinco

filhas de D. Josepha, trajadas para a festa do martyrio como sua mãe,

ajoelharam ao lado d'ella, e abdicaram nas mãos da prioresa tudo que

podesse parecer ao mundo coisa melhor do que o escuro abysmo em que de

repente se viram despenhadas.

Aquelle acto era uma crucificação atrocissima para a filha de Antonio de

Sá, porque ella tinha perdido a fé. Nunca se lhe haviam entranhado muito

as crenças na religião do Calvario, porque da indifferença religiosa, em

que lhe correra a infancia, passara a ser educada em convento francez,

onde a piedade sincera de alguma peccadora contricta era mettida a riso

por alegres peccadoras, de quem poderia ser que os proprios anjos

andassem namorados.

Sua mãe tinha vivido uniforme com a religiosidade do marido; e, por fins

de vida, rejeitara e apagara da alma os vislumbres da piedade, porque,

dizia ella: «Ha certas lagrimas, que apagam toda a luz da religião, seja

ella qual fôr.»

A religião de Braz Luiz pareceu-lhe a ella muitas vezes ostentosa, pouco

menos de hypocrita, e sustentada á custa da razão. Todavia, como

discreta e amantissima d'elle, não lh'a impugnava, nem se esquivava a

seguil-o nas publicas demonstrações de sua piedade.

Quando ella, desde os reconcavos d'alma, caíu aos pés de Christo, foi na

hora tremenda em que se ouviu nomear filha do pae e mãe de seu marido.

Orou então, para não morrer, ou póde ser que orasse para ser arrebatada

á sua angustia pela mão de Deus, ou fulminada por poder satanico.

N'aquellas orações ninguem sabe o que a alma pensa.

Encerrada n'um convento, com cinco formosas meninas, que se encostavam

ás rexas de ferro a olhar cheias de saudades por esse céo fóra, e

seguiam as avesinhas de arvore para arvore, de monte para monte, a

infeliz mãe adivinhava os colloquios das pobrinhas com o céo impassivel,

e fugia-se d'ellas, para que a não vissem chorar. Voltava a vêl-as, e

trazia ainda vidrados na face os prantos. Ellas aqueciam-os com beijos,

e, em vez do fervor piedoso e consolativo de sua mãe, ouviam-lhe

supplicas com que ella lhes pedia perdão de as ter gerado. As meninas

perguntavam-lhe porque estavam assim captivas e desterradas da vida tão

sem vontade, e a mãe não podia responder-lhes: «É porque sois filhas de

meu irmão, e minhas filhas.»

Que importava?

Tinham ajoelhado, tinham renunciado, tinham professado, tinham assistido

á missa nova de seu pae, d'aquelle homem de faces lividas, que as não

apparentava mais translucidas de uma alegre consciencia do que as teria

um sacrilego, que houvesse cuspido no ciborio e calcado aos pés a

hostia. E depois, viram-no assomar no pulpito, e prégar com elegancias

de primoroso lapidario de palavras o sermão da profissão, o sermão

d'aquelle enterro de seis vidas, de seis corações apunhalados, mortos,

com authoridade do concilio tridentino, e com muitos applausos dos

prelados, do rei e dos edificados espectadores da tragedia.

Estavam professas. A de trinta e nove annos, que representava vinte

cinco formosas primaveras, ao entrar n'aquelle antro de S. Bernardino, a

filha de D. Maria Cabral estava desfigurada como na ultima velhice. Anna

Maria, de dezeseis, e Sebastiana Ignacia, a mais nova, de onze--onze

annos e professa com um breve de Sua Santidade!--todas cinco, seguindo

sua mãe da egreja ao claustro, olhavam contra o chão como a procurarem a

cova que se lhes abrira.

E depois, se choravam, saía-lhes a prioresa e dizia-lhes:

--Filhas, lagrimas de penitencia, de penitencia...

E se, do interior do convento, ia ao padre Braz a noticia de que suas

filhas estavam deperecendo e morrendo, o santo, calejado para uns dardos

que varam e matam todo homem menos santo, respondia:

--É o Senhor que as chama... Deixal-as, deixal-as ir para o côro das

virgens.

E, rodeado de muitos e piedosos livros, escrevia a _Lusiada sacra_, a

origem ecclesiastica do imperio lusitano, e levava mão do trabalho para

assistir aos seus doentes, que curava ou enviava a melhores mundos

gratuitamente.

Os moços Agostinho e Pedro lá estavam estudando latinidade no convento

de Santo Antonio. Ao principio perguntavam por sua mãe, por seu pae e

por suas irmãs. Um doutissimo frade, lente jubilado, respondia-lhes:

--O melhor pae é Deus, a melhor mãe é Nossa Senhora, as melhores irmãs

são as tres pessoas da Santissima Trindade.

Sã theologia; mas os mocinhos queriam saber de sua mãe, de seu pae e de

suas irmãs.

Deram em não estudar, de tristes que viviam. Foram accusados ao padre

Braz, que entrou a admoestal-os no convento. Os meninos abraçaram-se

n'elle, e pareciam contentes.

--E nossa mãe? perguntava Agostinho.

--E nossas irmãsinhas? perguntava Pedro.

E Braz Luiz baixava os olhos sobre o seio, permanecia n'um recolhimento

angustiado, e saía com estas palavras:

--É verdade!... e vossa mãe!... e as vossas irmãsinhas?

Mas, apenas as orelhas da sua alma escutavam estas lastimas do coração,

o padre ajoelhava na postura de mentecapto, batia punhadas no peito, e

clamava:

--Pequei! pequei! perdão, meu Redemptor!

XVII

O inferno, como elle é possivel

Eu negaria minha fé a quem me dissesse que a prece dos infelizes sem

culpa não ha Deus que a ouça e attenda. Se ha!...

N'um dia de junho de 1735, ao sexto mez de professa, soror Josepha da

Cruz, depois de tres semanas de aturada hemoptyse, amanheceu com uns

spasmos convulsos, chamando pelas filhas, que a rodeavam, e ella não

via. Accudiram as freiras, e ordenou a prioreza que fosse chamado

confessor e medico. Avisaram o padre Braz, syndico do convento. Estava

elle resando as contas, e voltou o rosto da pessoa que lhe levou o

aviso, para atar um _pater noster_ interrompido no _fiat voluntas tua_.

Tres vezes repetiu com seraphico arrobamento o _fiat voluntas

tua_--«faça-se a tua vontade»--e de si para si entendeu que aquelle seu

despego em tamanho transe, ao annunciarem-lhe que sua mulher estava em

trabalhos de morte, era egual ao de muitos lances de natureza identica,

e santo stoicismo, contados no _Flos-Sanctorum_, e _Vita patrum_.

Concluido o ultimo mysterio do rosario, aspergiu-se de agua benta, e foi

caminho do convento, resmuneando o psalmo:... _Amplius lava me ab

iniquitate mea: et a peccato meo munda me. Quoniam iniquitatem meam ego

agnosco... etc._

Ao avisinhar-se da cella da enferma o syndico, disse a prelada:

--Irmã Josepha, aqui está o nosso padre syndico Braz Luiz.

Soror Josepha não vellou o rosto, porque já não entendera o aviso da

prioreza.

Braz Luiz deu de olhos fitos na sua companheira de quinze annos.

Ressumou-lhe ao rosto um suor frio, cambaleou, e amparou-se á ombreira

da porta.

Depois, tornou em si; invocou a força dos santos, compoz o semblante,

acercou-se do catre da moribunda, e balbuciou:

--Soror Josepha da Cruz!

A enferma estremeceu, despregou as palpebras, circumvagou as pupilas

esgazeadas, e retrahiu-as logo, como se a face do padre lhe fulminasse

faiscas de raio aos olhos.

--Os aprestos para a extrema-uncção--disse o syndico.

--Venha o capellão ministrar-lh'a--ajuntou a prioreza.

--Não, nossa madre: serei eu--disse o padre Braz.

Accorreram os aprestos, emquanto Braz Luiz desceu á egreja a envergar

uma cotta com estola roxa. Deu signal o sino, ajuntaram-se as freiras

acolytas, uma com a cruz, outras com velas, outra com a caldeirinha, e

muitas cantando alternadamente os versos do psalmo _Miserere mei Deus_.

Entrou á cella o padre, precedido da cruz e da caldeira. A prioreza

observou que as uncções deviam ser feitas com presteza, omittindo-se as

ceremonias usadas quando não ha receio de que o enfermo expire antes de

ungir-se. Principiou o padre a ungir-lhe os olhos; e logo notaram que os

dedos lhe tremiam convulsivamente. Esteve com a mão suspensa, esperando

que o tremor aquietasse. Desfitou os olhos da face da moribunda, e viu

as cinco filhas ajoelhadas em carreira com os cirios empunhados, e os

rostos caídos sobre os seios. Contemplou-as com olhar embaciado de

lagrimas, e na bocca um sorriso triste, que poderia ser qualquer coisa

do usual sorrir dos santos, e tambem poderia ser a expressão vulgar da

insania. Esta equivoca expressão, porém, sumiu-se, e as lagrimas

saltaram a quatro. Depois, foi um conflicto aquelle para ser visto dos

que apenas conhecem alguns milhares de flagellos n'esta vida! Caiu em

joelhos, pegou das mãos ambas da enferma, e exclamou:

--Leva-me comtigo, leva-me comtigo, ó santa, ó martyr!

As cinco meninas levantaram um alarido de gemidos, e romperam por entre

as freiras a cobrirem com os braços a moribunda... a morta.

Braz Luiz arquejava encostado ao leito. Não ousavam pôr-lhe as freiras

as suas mãos para o retrairem d'alli; mas, todas a um tempo, lhe pediam

que offerecesse a Deus, em beneficio da alma de Soror Josepha, as

angustias por que tão santa e heroicamente quizera passar e ser provado.

O padre levantou-se de impeto, olhou em torno de si, e disse:

--E que me dá Deus? Sim! que me dá Deus?

As freiras contemplaram-se estarrecidas e frias de religioso medo.

--Pois então!--proseguiu elle com tregeitos de louco e semblante

descomposto--pois então, não houve um raio de graça para esta santa

mulher! não seria divina justiça que ella achasse aqui as alegrias de

uma consciencia pura, de um coração sem mancha! Por fim... é certo que

eu te matei minha innocente victima?

E, dizendo, acurvou-se sobre o cadaver, beijou-lhe os olhos

soffregamente e cobriu-lhe a testa de lagrimas.

O Olho de Vidro · 第 8 / 11 段