um dia, achou-se roubado, não obstante ser pouquissimo vulgar o
latrocinio entre elles. Seria porque ao portuguez ou hespanhol o
consideravam estranho á sua tribu, e como tal indigno de se gosar dos
foros de lealdade, que uns com outros guardavam.
Minha mulher corria por este tempo nos seus dez annos. O pae
consternava-se de a ver crear-se entre gente brutal, e rodeada de
creaturas ignobeis do seu sexo, recenseadas nos lupanares de Paris e de
Marselha, enviadas como presas ás colonias.
Antonio de Sá, aproveitando o lanço de ter captivo o animo do
governador, depois da cura de doença grave, pediu-lhe licença para
enviar a filha a educar-se n'uma casa de religiosas francezas. O
governador condescendeu, e enviou duas netas ao mesmo collegio, na
primeira náo que saiu para França.
Meus sogros presumiam que lhe seria menos embaraçada a fuga podendo
passar a filha á Europa. Enganaram-se; por que Duparquet, arrependido da
concessão, redobrou de vigilancia sobre os menores passos do seu medico.
XIII
Seguimento da historia
--Antonio de Sá--proseguiu Braz Luiz--foi chamado a curar de febres um
judeu rico da Normandia, que se passara com grande companhia de hebreus
pobres a fundar uma colonia na costa de S. Domingos, com licença do rei
de França e beneplacito do governador. Meu sogro, cumulado de
liberalidades do seu restabelecido enfermo, deu-se por bem pago da
amizade do hebreu, a quem se revelou proscripto da nação fiel, e
evidenciou sua origem, praticando com elle as ceremonias judaicas.
O colonisador estimava-o muitissimo. Animou-o a declarar-lhe o seu
intento e pedir-lhe coadjuvação para a fuga. Não lhe encareceu o hebreu
grandes difficuldades á boa saida do plano; assegurou-lh'a facil, logo
que, fundada e solidificada a colonia, elle se fizesse na volta de
França.
O medico, alentado de esperanças, aguardou anno e meio a almejada hora;
todavia, minguou-lhe a necessaria prudencia, porque, sem grande recato,
começou de longe a simplificar os valores que tinha, trocando-os por
pedras preciosas e coisas de facil transporte.
Chegado o tempo da saida do opulento hebreu, conforme ao plano gizado
pelos dois, inventaram uma epidemia na colonia, e pediu-se ao governador
a assistencia do medico hespanhol. Duparquet mandou conhecer da epidemia
clandestinamente por um cirurgião francez, fugido das galés de Marselha,
e foi certificado de que era imaginaria a contagião. Foi o hebreu
normando chamado á Martinica, quando já Antonio de Sá se desconfiava de
certos tregeitos que vira na má cara do governador. O judeu, porém, mais
desconfiado ainda que o seu protegido, respondeu affirmativamente ao
commissario de Duparquet, e em vez de velejar para Martinica, mandou
aproar ás ribas normandas e accender os morrões para incutir respeito ás
galés de flibusteiros ancoradas na costa.
Antonio de Sá foi o bode expiatorio da affronta, se mais bodes não foram
os judeus da colonia que o governador mandou passar á espada, sem
perdoar sequer a mulheres e crianças. Meu sogro teria sido
espingardeado, se a esposa se não lançasse em joelhos aos pés da filha
de Duparquet, a quem o marido por duas vezes arrancara ás presas da
morte.
Depois de preso alguns mezes, Antonio de Sá foi chamado á presença do
governador e perdoado. Prégou-lhe o francez um demorado sermão, recheado
de censuras contra o feio crime de ingratos da laia d'elle medico, o
mais venturoso homem que ainda tinha caído em unhas de flibusteiros, e
homem de mais a mais filho das Hespanhas. Lembrou-lhe os beneficios
desusados com que lhe galardoara os seus bons serviços como medico, e os
conselhos que lhe dera sobre o modo de enriquecer-se e constituir-se um
dos mais ricos proprietarios das colonias de S. Domingos. Lembrou-lhe o
resgate que lhe dera da filha, tendo-a aliás destinada, como
formosissima que era, a casar com um seu neto.
Antonio de Sá respondeu com muitas lagrimas, talvez suggeridas pelo
recordar-se da filha, e desesperança de tornar a vel-a. Estas lagrimas
compadeceram o governador, que o abraçou estreitamente, e lhe pediu que
se deixasse estar até que um dia passassem ambos a França.
O medico resignou-se e esperou.
Entretanto, senhoreou-se d'elle presadissima tristeza, que a pobre
esposa não sabia nem podia consolar. Esquartejava-lhe o coração aquelle
espectaculo de incessante latrocinio e sordido desavergonhamento de
costumes. Olhava contra o mar, e perdia a vista afogada nas lagrimas,
exclamando: «Não hei de mais ver-te, ó minha filha... não hei de mais
ver-vos, meus filhos...»
--Pois elle tinha mais que uma filha?--perguntou Francisco Luiz de
Abreu.
--Essa mesma pergunta fiz a minha sogra--disse Braz--; mas a resposta
era um silencio indecifravel, um esquisito amuar, que nem eu nem minha
mulher ainda agora podemos atinar o que fosse... A meu juizo, minha
sogra padecia umas turvações, a revezes, durante as quaes era preciso
que a gente se não demorasse a querer entendel-a ou interrogal-a, que
então rompia em alto choro ou carregava iradamente a sobrancelha.
Meu sogro foi um dia com sua mulher supplicar ao governador que os
deixasse sair, ou os mandasse matar.
O francez condoeu-se, e mandou-os retirar benignamente, e esperar
resposta em occasião opportuna. A opportunidade chegou tarde.
Tinham já decorrido doze annos n'aquelle viver, em que outro qualquer
homem acharia distracção, enriquecendo-se, e sabendo aproveitar-se
d'esse lado unico, e todavia o mais bello para muita gente.
Enfermou gravemente o medico: quem sabe se elle a si mesmo ministrou o
veneno, que o ia corroendo vagarosamente? A sua maxima afflicção era
antever a morte da esposa antes da sua. Isto attribulava-o, como se já a
estivesse vendo sobre terra. Ia-se a ella debulhado em lagrimas, e
rogava-lhe de mãos postas que tivesse mais força d'alma, mais coragem do
que elle tinha para arrastar aquellas cadeias.
Póde ser que afinal se lhe espessassem sombras de demencia na grande luz
de razão com que entendera os arcanos da sciencia, quando a estudava em
Coimbra...
--Fallou vossemecê com alguem que o houvesse conhecido em
Coimbra?--perguntou Francisco Luiz.
--Fallei com os meus lentes, que todos tinham sido condiscipulos e
contemporaneos d'elle, e lhe perdoavam o crime do rapto e do hebraismo
em desconto de sua alta capacidade para as divinas sciencias medicas...
Em que ponto estavamos?
--Na doença do pae...--disse D. Josepha.
--É verdade... na doença do meu sogro que foi a primeira e ultima da sua
vida. Minha sogra, quando chegava a esta final jornada da sua tragedia,
parece que se lhe apagava o entendimento. Soluçava, com os braços
cruzados sobre o seio, e os olhos cravados no alto ponto onde ella
imaginava por ventura entrever o espirito de seu marido. O certo é que
elle morreu em 1716, consoante o calculo de minha mulher, que então já
contava os seus vinte e um annos, dez dos quaes tinham sido vividos n'um
convento.
A compaixão franqueou a minha sogra a saida da colonia. Apossou-se da
herança do marido que devia ser grande. Embarcou em um navio marselhez,
que voltava do Canadá; antes, porém, de saltar de um barco de
flibusteiro ao navio francez, já estava roubada do mais precioso da sua
fazenda.
A pobrinha não se queixou, nem de ver-se pobre cobrou grande angustia.
Lembrou-se de que tinha uma filha, uma patria, e n'ella os haveres de
seu pae, que deviam ser a riqueza de sua filha.
Procurou em França o convento de sua filha, a qual duvidou reconhecer a
mãe. Saiu minha mulher da casa religiosa, e assim se viram duas senhoras
desamparadas em meio da França, entregues á propria deliberação. Alguem
as enviou ao ministro portuguez em Paris, que lhes ouviu a historia com
sentimento, e caridosamente aconselhou a minha sogra que se houvesse
muito prudente com o santo officio de Portugal, em cujos archivos o nome
d'ella devia estar escripto para eterna memoria. Porém, como quer que D.
Maria teimasse em sair para a patria, o ministro advertiu-lhe que
mudasse de nome, e se valesse das cartas que lhe deu, caso a inquisição
a perseguisse, por effeito de alguma irreflexão d'ella, quanto á
exigencia dos haveres de seus paes.
Proseguiu Braz Luiz de Abreu, relatando o que já é notorio ao leitor,
até ao seu casamento com a filha de D. Maria Cabral, fallecida no Porto.
--Crucificada existencia foi pois a de Antonio de Sá Mourão!--murmurou
muito recolhido Francisco de Abreu, e assim se esteve cogitativo por
largo espaço.
--Vejo que lhe fez commoção esta funebre historia!--disse D. Josepha.
--Muitissima dôr!--murmurou o hospede, limpando o rosto coberto de
lagrimas.--Pobre homem!... que destino!... que vida!... Como o mundo
debaixo do céo está infamado de tamanhas desgraças!... E vale a pena o
viver!... E não morrem afogadas as creancinhas ás mãos de seus paes!...
Braz de Abreu, esposa e filhos todos tinham os olhos amarados de pranto.
Francisco Luiz levantou-se, beijou as meninas mais novas, apertou a mão
de D. Josepha, e despediu-se offegante de soluços.
--Que sensibilissimo homem!...--disse o medico.
XIV
O segredo horrivel
Ao outro dia, Francisco Luiz foi convidado a jantar com o seu medico. A
condolencia a que o movera a infelicidade do hebreu Sá Mourão atou mais
n'alma os liames de sympathia com que o Olho de Vidro o entranhára na
intimidade dos seus.
O israelita de Ourem ia triste. Dir-se-ia que nunca elle, até á vespera
d'aquelle dia, devéras se convencêra da morte do seu Antonio de Sá.
Tantos annos idos, e elle ainda a querer-lhe e como que a esperal-o! Já
o seu contemporaneo Barreto lhe havia dito na summa o que Braz de Abreu
lhe dissera, e todavia o convencimento da morte do marido de D. Maria
não o tinha ainda penetrado, ao que parecia.
Durante o jantar, como nenhum estranho assistisse, a fóra o
hespanhol--que nunca se esquecera de o ser na linguagem--praticaram
largamente ácerca dos actos do santo officio na Peninsula. O hespanhol
relatou a sorte dos judeus em diversas partes do mundo, para concluir
que em Portugal e Castella eram elles mais perseguidos do que poderia
sel-o no inferno se, como piamente cria, Deus os tinha castigado com
fogo infinito.
Braz de Abreu, posto que familiar do santo officio, recebeu de boa
sombra aquella um tanto ironica reflexão do commensal, attribuindo a
genio espanholado a comparação faceta.
Voltando á conversação da noite anterior, reflexionou Francisco Luiz
que, tendo estudado algum tanto os factos da inquisição de Portugal,
notára que a santa bandeira de S. Domingos de Gusmão era pouquissimo
misericordiosa com os hebreus medicos ou estudantes de medicina. E
ajuntou:
--É sabido segundo me fizeram crer alguns foragidos de Portugal, que os
estudantes de medicina apenas licenciados, ou se acreditavam como
familiares do santo officio, ou se expatriavam antes que a inquisição os
desterrasse d'este mundo. Dou como exemplo Henrique de Castro
Sarmento...
--Foi meu condiscipulo--atalhou Braz de Abreu.
--Pois então sabe vossemecê que elle está em Londres, com o nome de
Jacob de Castro Sarmento, em tanto credito e dignidade que, pouco ha,
foi elevado á cathegoria de membro do collegio real dos medicos, e socio
da sociedade real de Londres? Este grande sabio, e co-reformador da
sciencia, que seria hoje em Portugal, se não se evadisse d'aqui uns
quatro annos depois de licenciado? Seria porção d'essa vasa do Tejo por
onde se misturam as cinzas de muitissimos da sua raça e do seu alto
entendimento. Outro medico houve ahi em Coimbra, segundo me disseram,
que chegou a pertencer ao corpo cathedratico, e teve de fugir com sua
mulher para a India hollandeza.
--Quem era? perguntou o doutor.
--Se bem me lembro, tinha elle um nome assaz parecido com o de
vossemecê. Chamava-se Francisco Luiz de Abreu.
--É verdade!--acudiu D. Josepha--que nome tão similhante!...
--E não sei--disse meditativo Braz Luiz--como esse nome me desperta
coisas da minha primeira mocidade!
--Póde ser--tornou o hospede--que, no tempo em que vossemecê estudou, se
fallasse ainda no lente fugitivo.
--Creio que sim: ha de ser d'esse tempo que me vem estas vagas
memorias--redarguiu o Olho de Vidro.--Creio até que elle teria sido
contemporaneo de meu sogro.
--Provavelmente seria--obtemperou Francisco Luiz.
--E a mim me está parecendo--acrescentou D. Josepha--que alguma vez ouvi
meu pae proferir esse nome.
--Ouviu?--perguntou o hospede com o coração sobresaltado.
--Ouvi, sem duvida... _Francisco Luiz de Abreu_... Pois não ouvi?
quantas e quantas vezes?... Que fim teria esse homem?
--Provavelmente morreu, senhora--respondeu o hebreu; e proseguiu sem
sensivel mudança de rosto:--Pois ahi tem, senhor doutor Braz, outro
exemplo de perseguição á medicina. Ainda bem que vossemecê não teve de
provar que o seu apellido nada tinha que ver com o do medico fugitivo.
--Nada--balbuciou Braz Luiz, receando que, depós isto, disparasse a
affrontosa pergunta de quem era filho.
Francisco Luiz, n'este lance, lembrou-se da resposta que o _Olho de
Vidro_ lhe mandára bastantes annos antes, e sorriu-se interiormente do
dito d'aquelle hebreu, que ao mesmo lhe escrevia presumindo que Braz
Luiz de Abreu era filho sacrilego de um frade, senão fosse filho de tres
frades ao mesmo tempo.
A pratica ficou por aqui, visto que a physionomia do dono da casa
expressava nenhuma satisfação de que ella se proseguisse.
Todavia, D. Josepha, quando já estavam sentados á lareira, porque a
tarde era de março, disse:
--Não me sae da lembrança o nome de Francisco Luiz de Abreu!... A gente,
quando entra a envelhecer, recorda-se de coisas da infancia, esquecidas
no correr de muitos annos...
--A envelhecer!--disse risonho o hospede--vossemecê, minha senhora, está
ainda muito no vigor da vida. Terá quando muito...
--Trinta e sete annos--concluiu D. Josepha.
--Pois ahi tem: ainda não chegou a meio caminho. E quem ha de dizer que
já aqui tem esta senhorita, que representa dezoito, e apenas terá...
--Treze--disse a mãe, correndo a mão pelos cabellos negros da sua
primogenita Anna Maria.
--E estes mocinhos, doutor? que destino tenciona dar-lhes?--perguntou o
hospede.
--Se o meu plano fôr ávante, irá um para a companhia de Jesus, e outro
para medicina.
--Cuidado com a medicina!--observou jovialmente Francisco Luiz--Faço-os
ambos jesuitas, que os fará ambos dois grandes homens.
--Pois D. José receia--dizia Braz Luiz algum tanto acrimonioso--que um
meu filho, se fôr medico, possa parecer judeu?
--Deus me livre de receiar similhante coisa! mas a mim quer-me parecer
que a inquisição, quando não ha judeus, encarrega-se de os fazer, talvez
por ter lido as santas palavras de Jesus que resam: _é necessario que
haja escandalos_.
--Como amigo--acudiu Braz Luiz--lhe peço que não falle assim diante de
alguem. Lembre-se que está em Portugal, D. José!...
--Bem sei, meu amigo; e, se outra vez me esquecer, rogo-lhe que m'o
lembre. Agora me estava eu imaginando entre pessoas que muito me
estimam, por isso me deixei levar d'uma invencivel propensão a
estigmatisar as injustiças, ou ellas partam dos reis, ou dos ministros,
dos papas ou dos inquisidores. D'isto, d'esta perigosa exempção e rudeza
de espirito, procede não ter eu paragem certa sobre este solo cavado de
abysmos, e andar-me sempre perigrinando de solidão em solidão, para ser
ouvido da minha consciencia sómente...
--Em nossa casa póde fallar--retarquiu o doutor--como falla a sós com a
sua consciencia, D. José Aristizaval. A observação peço-lhe que m'a
receba de bom animo, porque entende com o seu socego e deve servir-lhe
n'um paiz que vossemecê conhece pouco.
--Mercês, meu amigo!--tornou Francisco Luiz de Abreu.--O que eu sei de
Portugal é verdadeiramente a historia da sua inquisição, e pouco mais...
Ha pouco lembrou-me o nome de um condemnado ao fogo... tambem medico ou
estudante de medicina... mas... passou-me... Deixe estar... Deixe ver...
Ah! recordo-me... Chamava-se elle Heitor Dias da Paz... Vossemecê havia
de ouvir fallar de Heitor Dias da Paz, que, segundo me affirmaram,
andaria por Coimbra desde 1701 até 1704, uma coisa assim, pouco mais ou
menos.
Braz Luiz fitara os olhos n'um ponto da fogueira, como quem finge que se
está recordando, e disse, corridos dois segundos, com profunda tristeza:
--Conheci-o.
--Pessoalmente?
--Pessoalmente.
N'este comenos, Braz Luiz, fitando o ouvido, como se ouvisse voz no
interior da casa a chamal-o, ergueu-se.
--Ninguem te chamou, Braz--disse D. Josepha.
--Parece-me que sim... ouvi que me chamavam.
--Não serão familiares do santo officio, que me requeiram para maior
gloria de Deus!...--observou o hebreu como comico tregeito de quem se
esconde.
--Venha comigo á sala, D. José, se não tem muito frio--disse o _Olho de
Vidro_.
--Quem fallou na inquisição que sentisse frio? Estas praticas são
excellentes no inverno...--respondeu Francisco Luiz, cuidando que o seu
hospedeiro amigo lhe ia solemnisar com toda a gravidade possivel os
sustos de o ver a braços com o santo officio.
Braz Luiz, entrado á sala, deu alguns passeios meditativo, examinou as
portas receiando a curiosidade da familia, e disse a meia voz ao muito
attento e como espantado hospede:
--Conheci-o, e conheci-o muito.
--A quem?! perguntou como já esquecido Francisco Luiz.
--A Heitor Dias da Paz.
--Ah... já me não lembrava que estavamos fallando n'esse infeliz
mancebo, cujos parentes conheci em Amsterdão... Devo dizer-lhe, meu
amigo, que Heitor e o pae de Heitor, que se chamava...
--Francisco de Moraes Taveira...
--Justamente... são considerados santos no martyrologio ou cathalogo dos
martyres hebreus. Isto presenciei eu e li nas dypticas da synagoga
hollandeza chamada a _Casa de Jacob_... Com que então conheceu vossemecê
mui de perto...
--Conheci, como se conhece um irmão--acudiu Braz Luiz.--Não lh'o disse
diante de meus filhos, porque é meu dever de pae e de christão esconder
d'elles coisas tristes da minha mocidade, por isso que o mundo, se m'as
soubesse, faria d'ellas espinhos, que me entrassem pela fronte dentro e
me levassem a morte ao coração. Vou contar-lhe com egual sinceridade á
da historia de meu sogro, o que eu sei de Heitor Dias da Paz e... de
mim. As mais antigas reminiscencias da minha infancia prendem-se a
Heitor Dias da Paz.
Ditas estas palavras, Francisco Luiz de Abreu ouviu o bate de uma forte
pancada no coração. Braz devia ver-lhe a subita alteração do aspecto, se
tivesse mais claridade a sala, e elles não estivessem sentados no
recanto mais escuro d'ella.
Braz Luiz continuou:
--Lembro-me de algumas coisas dos meus seis annos. Vejo uma mulher que
me aperta ao coração, e desapparece para nunca mais ser vista. Nem já
sei que feições ella tinha, nem sei onde a vi. É a recordação de um
sonho isto, e pouco mais. Perguntei depois quem era aquella mulher, e
responderam-me que fôra uma visão; e, se não era visão, mais tarde eu o
saberia. Ora, as pessoas que podiam dizer-m'o, porque assim m'o tinham
promettido, morreram. Uma era Francisco de Moraes, e outra era o filho,
o suppliciado Heitor.
Francisco Luiz arfava ancioso: ia-lhe no intimo coisa mais attribuladora
que o susto da morte. Braz deu conta do que havia indissimulavel em
tamanha anciedade; mas attribuiu tal inquietação ao natural condoimento
do seu ouvinte.
E, proseguindo, disse:
--Heitor Dias chamava-me irmão; e Francisco de Moraes abençoava-me como
a filho.
--Vossemecê vivia em casa d'elles?
--Vivia, desde os seis annos, como já lhe contei. Passados alguns,
Heitor foi para Coimbra, e levou-me comsigo. Prestacionou-me para eu
entrar no collegio de S. Paulo. No principio do anno de 1704. Heitor
Dias foi preso, e sómente depois de 1707 alguns mezes, soube que a
inquisição o condemnára a ser queimado vivo, e que o ancião--o
desgraçado que não tinha outro filho, e chorava a mulher na sepultura
ainda fresca--saindo ao encontro da procissão do auto da fé, se
suicidara em presença de Heitor.
Francisco Luiz de Abreu levantou-se hirto, de golpe, tremente e pallido.
Este movimento como que levantou o marido de D. Josepha pelos cabellos,
sem que elle comprehendesse a força mysteriosa que o repuchava.
--Que tem, D. José?--perguntou o medico.
--Eu não comprehendo o horror da sua situação!--murmurou Francisco de
Abreu em legitima lingua portugueza, tapando os olhos com as mãos
convulsivas.
--Não comprehende o que?!--interpellou Braz estranhando grandemente a
mutação de linguagem.
--Como se chamava seu pae?--perguntou com palavras intercortadas pela
abafação o hospede.
--Não sei...--tartamudeou o interrogado.
--Porque se chama Braz _Luiz de Abreu_? Como ajuntou este sobrenome e
appellido ao seu nome baptismal?
--Porque assim o achei escripto n'um abcedario da minha infancia.
--Que desgraça!--exclamou Francisco Luiz, e começou passeando
vertiginosamente na sala!--Que desgraça, Deus do céo!...
Braz encarava-o com terrivel spasmo procurando nos olhos do seu hospede
algum symptoma de demencia.
N'isto, Francisco Luiz vae direito ao medico, como que o força a fazer
pé atraz de espavorido, e diz-lhe:
--Vossemecê ama muito sua mulher?
--Se amo muito minha mulher? Como a Deus, mais do que a Deus! mais do
que aos meus filhos!...
Fitou-o com os olhos cheios de lagrimas o hospede, e disse-lhe:
--Não me falle por alguns minutos... não me falle... deixe-me pensar...
mas o melhor é que eu me vá, e voltarei n'outro dia.
--Não... ha de explicar-me o que é isto... A sua linguagem é outra... Ha
terrivel segredo aqui, ou o meu amigo enlouqueceu... Tire-me d'esta
incerteza, por quem é...
Deteve-se silencioso largo espaço o hebreu. Estava aquelle afflictissimo
homem perguntando á sua consciencia, se não seria mais grato a Deus e á
humanidade que um peregrino vindo d'além mar não entrasse um dia aos
paços de Manuel de Sousa Coutinho a dizer a D. Magdalena de Vilhena que
não podia ser mulher do homem que lhe chamava esposa! Se não seria mais
humano e santo que aquelle peregrino passasse por diante da casa dos
felizes, e dissesse: «Deixae-os viver e morrer ditosos na vossa
ignorancia! Não serei eu quem vá vestir-vos a mortalha, e dizer-vos:
sepultae-vos!»
Assim pensava Francisco Luiz, e curava já de remediar o alvoroço em que
pozera o seu amigo, quando este o abraçou com impeto, e lhe disse em tom
violento:
--Quem é meu pae? Quem sois vós, homem! Respondei, que eu sinto o peito
alanceado de mortaes agonias!
--Falle baixo, senhor Braz Luiz de Abreu--disse moderada e placidamente
o hospede--Falle baixo, que está alli dentro a mãe com sete filhos.
E desapertou-se dos braços d'elle para fugir.
--Não!--exclamou o medico--não irá de minha casa, sem me dizer o que
sabe do meu nascimento. Que importa que me diga que sou filho de um
hebreu? que meu pae morreu queimado? que Heitor Dias era meu irmão? que
o meu appellido é o de algum facinora? Diga, diga tudo, que a mim
basta-me a consciencia da minha vida honrada para me acobertar dos
insultos do mundo! Farto d'elles estou eu, por que me chamam engeitado!
Diga-me seja o que fôr, que eu lh'o peço com as mãos erguidas! Por Deus
não minta, senhor! Conheceu meu pae? conheceu minha mãe?
--Conheci.
--Jura-m'o pelos Santos Evangelhos?
--Eu não reconheço a santidade dos Evangelhos. Juro-lh'o pela honra
d'este homem, d'este hebreu queimado em estatua, d'este homem sem terra
nem familia, chamado Francisco Luiz de Abreu. Jura-lh'o o homem que
recebeu nos braços ha quarenta annos uma creancinha, que depois se
chamou Braz Luiz de Abreu. Jura-lh'o o homem que depositou essa
creancinha, quando os esbirros da inquisição o perseguiam, nos braços de
Francisco de Moraes Taveira, de Villa Flor. Jura-lh'o o maior amigo de
seu pae! Jura-lh'o o homem que enchugou no seu rosto as ultimas lagrimas
de sua mãe...
--Mas o nome de meu pae--atalhou Braz de joelhos, com as mãos erguidas e
trementes.--O nome de meu pae, senhor Francisco Luiz de Abreu.
--Dir-lh'o-hei ao ouvido--disse o hebreu, inclinando-se á orelha do
medico.
Braz expediu um brado estridente, ergueu-se de salto, e clamou:
--E o nome de minha mãe?
--Pergunte a sua irmã, á mãe dos seus sete filhos, como se chamava a mãe
d'ella.
--Como é, meu Deus?! como é?! por caridade, salve-me d'esta duvida
atroz... Minha irmã!... quem é minha irmã, senhor?
--É a filha de sua mãe.