Depois de por lá estar alguns mezes, dando muito que pensar á

curiosidade da terra, começou a sair com um aspecto muito doentio, e a

dar passeios a cavallo pelos arredores. Chegou á casa de Carrazedo, onde

ella tinha nascido, e mandou pedir aos moradores d'ella licença para lá

passar as horas da calma. Foi recebida por pessoas que ella nunca tinha

visto; mas que eram seus primos e sobrinhos, que tinham ido de Chaves

tomar conta da herança de Fernão Cabral. Este fidalgo desherdára a

filha, porque as leis lh'o facultavam, e nomeara herdeiros os filhos de

uma sua irmã, que elle odiava, por se ter casado com um capitão de

cavallos menos fidalgo do que ella. Mas o odio á filha avantajou-se

tanto ao odio da irmã, que, em artigos de morte, receiando que os

descendentes d'elle ainda viessem perturbar-lhe o somno eterno,

desherdou-a e nomeou seus herdeiros os sobrinhos.[29] D. Maria soffreu

voluntariamente algumas horas de martyrio n'aquella casa, e ouviu com

enchutos olhos contar a uma de suas primas a historia da morgada de

Carrazedo, mulher perdida por amor de um judeu da Guarda com quem

casara. Soube como tinha sido desherdada e amaldiçoada pelo pae á hora

ultima; agradeceu as sôpas que lhe deram os possuidores do seu grande

patrimonio, e seguiu seu caminho. Ao escurecer chegou ao portão da minha

casa, e perguntou se alli morava ainda, ou se já tinha morrido o doutor

José de Barredo.

--José de Barredo! disse Abreu, sem ter mão da impetuosa reminiscencia

que lhe accudiu.

--Sou eu. Parece-me dar vossemecê a entender que já ouviu o meu nome?!

--Não me é novo... tartamudeou Francisco Luiz.

--Póde ser que Francisco Luiz de Abreu lhe fallasse alguma vez em mim,

quando lhe referiu a historia de Antonio de Sá, porque eu, não sei

porque fatal compaixão de D. Maria, alguma parte tive nos amores

funestos d'elles, prestando-me a receber da Guarda as cartas que elle

escrevia á morgada.

--Naturalmente é de Francisco Luiz que eu conheço o nome de vossemecê,

disse o doutor Abreu, olhando muito em fito as feições d'aquelle

velho, que tinha sido em Coimbra um dos seus mais affectos

contemporaneos.--Deixe-me apertar a mão de um amigo de Francisco

Luiz--tornou Abreu, apertando-lh'a com estremecido enthusiasmo.--Se elle

o podesse encontrar, senhor Barredo, estou que choraria, estreitando ao

coração o homem talvez unico n'este mundo que lhe resta dos que na

mocidade o prezaram...

--Certamente--disse José de Barredo enternecido a lagrimas.--Se elle

vivesse, seria o meu mais velho amigo... que todos os outros morreram...

A opinião que elle e Antonio de Sá tinham do meu natural, sendo elles

judeus e eu christão velho, bem se deixa ver no procedimento de D. Maria

comigo; pois, escondendo ella o seu nome e nascimento de todos,

procurou-me a mim com o proposito de se declarar. E assim o fez.

Logo que me avisaram de estarem alli duas damas, uma das quaes tinha

cara de doente, fui recebel-as ao pateo, cuidando que era consulta de

medico. Conduzi-as á sala, e ahi D. Maria, com os olhos desfeitos em

lagrimas, e muito embaciados, entrou a olhar-me, e a tremer, até que,

expedindo um grande ai, se lançou nos meus braços, clamando: «eu sou a

sua amiga da infancia, sou Maria Cabral, morgada de Carrazedo!»

N'este ponto da narrativa, pararam os arreeiros á porta da estalagem de

Thomar. Os cavalleiros apearam, subiram ao sobrado da estalagem e

pediram almoço.

José de Barredo proseguiu, atando o fio com as palavras de D. Maria.

--Eu sou a sua amiga da infancia!--clamou ella--Sou Maria Cabral,

morgada de Carrazedo! Faça idéa, e continuou Barredo--faça idéa do meu

assombro, senhor... senhor... póde dizer-me a sua graça?... Um amigo do

meu amigo da mocidade, não deve hesitar em querer a amizade que lhe

offereço, e dizer-me o seu nome...

--Direi--balbuciou commovido o outro no mais correcto portuguez:--mas ha

de ser com o coração bem perto do teu, José; abraça-me, e ouve-me muito

baixinho esta revelação feita á tua alma: Eu sou Francisco Luiz de

Abreu.

José de Barredo abriu a bôca até onde lh'o permittiam as articulações

das mandibulas. A expressão d'aquelle seu grandissimo espanto foi um som

rouco, similhante a um brado de terror. Em seguida, rebentaram-lhe

subitas as lagrimas, e então sómente pôde o velho atirar-se todo aos

braços do amigo, e exclamar:

--Ó Francisco!... se a inquisição te conhece!

--Tu sómente me conheces em Portugal--disse o doutor Abreu--E não temas

por mim, que, se eu cair nas garras do santo officio, pouco mais se

doerá do fogo d'elle este corpo empedrenido do que ha trinta e sete

annos a minha estatua. Morto estou eu já, meu amigo. Que me faz a mim

agonisar sobre as brazas da minha tristeza irremediavel, ou expirar mais

depressa nas torturas da polé ou nas do garrote? Como quizerem...

José de Barredo quiz suspender a narrativa do tocante á viuva de Antonio

de Sá Mourão para ouvir a dos successos de Francisco Luiz. Não lh'o

permittiu a anciedade do amigo. Conformou-se o confidente de D. Maria, e

continuou, ordenando aos arrieiros que fossem adiante e os esperassem no

Arneiro, onde haviam de jantar, cinco leguas adiante na estrada de

Coimbra. Continuou o doutor Barredo:

--O alvoroço que me fez o apparecimento d'aquella senhora alquebrada e

de todo desfigurada, dizendo-me que era a formosa morgada de Carrazedo,

só t'o posso comparar com aquelle que, ha pouco tu me causaste,

Francisco. São dois lances da minha vida que já não podem repetir-se.

Não tenho mais ninguem que esperar da minha mocidade. Era ella e tu; por

que Antonio de Sá, esse não póde mais voltar...

--Creio que seria o mais ditoso dos teus amigos...--balbuciou Francisco

Luiz.

--Oh! não!... pois tu desconheces a doçura d'estas nossas lagrimas? Dois

velhos, que se amaram moços, e se encontram nos umbraes de outro mundo

para se despedirem! Que é isto, senão o derradeiro calor da vida que

ainda nos aquece os corações?... Demos graças ao nosso Deus, que é o

mesmo Deus, ou elle se chame Jesus de Nazareth, ou Messias, ou

simplesmente creador do céo e da terra. Suppliquemos-lhe que nos deixe

já agora acabar estes ultimos dias um á beira do outro... Tu vaes para

minha casa, não é verdade, Francisco?

--Irei a tua casa, irei, José; mas... estou a receiar que te esqueças da

nossa pobre senhora...--disse Abreu, sorrindo, e enchugando as lagrimas.

--Tens razão; mas deixa-me ser feliz um poucachinho... Temos tanto tempo

em que fallar dos outros desgraçados...

--Oh! se tu podesses dizer-me que ella ainda vive...

--Não posso, e pouco tenho que te contar antes da morte d'ella... Ahi

vae o mais que sei. D. Maria perguntou-me se devia considerar perdido o

seu patrimonio; e eu respondi lhe que sim; e pedi-lhe que nem fallasse

em tal pretenção, se a trazia, porque os individuos possuidores d'elle

seriam capazes de a denunciar ao santo officio, e de lançarem rezina aos

páos da fogueira com as proprias mãos. Então me relatou ella a

desgraçada vida que tivera por espaço de quinze annos, captiva de

corsarios e mais o marido e filhinha: é uma historia longa, que eu te

hei de mostrar escripta, em minha casa. Não t'a sei dizer de memoria

porque ha quatorze annos que fechei e mais não vi os taes papeis, e já

era minha tenção queimal-os para que por elles se não venha a descobrir

quem é D. Josepha, a filha do judeu Antonio de Sá. Esteve D. Maria

alguns poucos mezes em minha casa, soffrendo, sem treguas, molestia

incuravel: estava ethica. Lembrou-se de ir consultar medicos famosos:

bem sabia eu a inutilidade do passo; mas deixei-a ir ao Porto, a

consultar um famoso medico chamado o _Olho de Vidro_.

--Braz Luiz de Abreu--atalhou Francisco Luiz.

--Esse mesmo, cujo nome tantas vezes me fez lembrar o teu, que cheguei a

perguntar se elle seria teu parente; mas logo me disseram que não, e,

para prova de que não era, bastou-me saber que o Olho de Vidro era

familiar do santo officio.

Francisco Luiz interrompeu a narração para referir a correspondencia que

tivera com o tal medico portuense, imaginando que elle, por um acaso

maravilhoso, poderia ser o filho de Antonio de Sá, uma creança que...

--Muita gente--accudiu José de Barredo--e eu mesmo pensei que fosse teu

filho...

--E admiro que não soubesses que era filho de Antonio de Sá!

--Não sabia; porque, desde a fuga da morgada, nunca mais tive novas

d'algum d'elles, e bem sei eu por que: fiz repugnancia ao desvariado

procedimento d'ella; cheguei a fazer-lhe ameaças de a denunciar ao pae,

a ver se a dissuadia. Tu mesmo, se bem me lembro, ignoravas onde

estivessem alapados, e cuidavas comigo que se tinham embarcado para a

India. Depois desappareceste de Coimbra, e quando voltaste nada me

disseste, nem eu t'o levo a mal, porque sei quão perigosa era a tua

situação, e a dos paes de Antonio de Sá que o santo officio prendera na

Guarda. Sabia eu que uma mulher creava em Coimbra uma creancinha que tu

algumas vezes visitavas. Suppuz, como quasi toda a gente, que era teu

filho... Morreu esse menino?

--Não sei. Presumo que sim. Ninguem me pôde informar, e bastas vezes

pedi novas d'elle. Acaso te lembras da morte de Heitor Dias da Paz, de

Villa Flor?

--Lembro, foi em 1707.

--Nunca ouviste dizer que em poder d'esse hebreu estivesse um moço, que

então devia ter entre quatorze e quinze annos?

--Não ouvi dizer nada.

--Pois era elle, se existisse. Vamos ao fim da historia de D. Maria.

Valeu-lhe alguma coisa a medicina do tal Olho de Vidro?

--Nada. Passados trinta e tantos dias, chegou a Bragança a nova de que

ella tinha morrido, com o nome de D. Antonia da Piedade, e que sua filha

D. Josepha tinha casado com o medico Braz Luiz de Abreu. Aqui tens o que

sei. Haverá cinco annos que eu fui ao Porto e procurei o Olho de Vidro,

no intento de ver D. Josepha. Disseram-me que elle, em resultado de

inimigos seus collegas, que assanhára com a publicação d'um livro

chamado _Portugal Medico_, tivera de afastar-se do Porto, e fôra

estabelecer-se em Aveiro, onde tinha comprado muitos bens de raiz e

vivia abastadamente. As minhas occupações não me deixaram ir a Aveiro, e

já agora morrerei sem ver D. Josepha, que deve estar perto dos quarenta,

ou quem sabe se já estará na eternidade!

--Irás agora a Aveiro comigo--disse Francisco Luiz.--Quero vel-a, sem

que ella saiba que eu fui o maior amigo de seu pae. É preciso temer-lhe

o marido, visto que elle tanta familiaridade tem com o santo officio. Tu

a procurarás, e darás azo a que eu a veja e lhe falle como desconhecido.

Uma boa lembrança... Irei consultar-lhe o marido, fingindo de doente

estrangeiro, a quem chegou a nomeada de tão abalisado medico.

Contar-lhe-hei muitissimos padecimentos que elle ha de classificar de

muitissimas maneiras, e assim estarei mais ao alcance de ouvir D.

Josepha dizer-me alguma coisa de seu pae. Ora, dize-me tu: nunca, D.

Maria te disse que deixára um filho em Portugal, quando fugiu para

Hespanha?

--Disse que esse menino o considerava morto: uma só vez me fallou

d'elle; mas as lagrimas eram tantas que eu me esquivei a pedir-lhe

pormenores da creança, de modo que nem soube que o menino ficára em tua

companhia, nem depois passára á dos Moraes de Villa Flor. Eu não te

disse ainda que D. Maria, ás temporadas, parecia cair em modorra e

paralysia de entendimento. Esquecia-se e quedava-se n'umas cogitações

taciturnas; e, se lhe tiravam muito pela falla, respondia disparates. De

sorte que eu, a respeito do filho, que ella dizia ter deixado em

Portugal, não cheguei a fazer perfeito juizo, nem a mesma filha estava

convencida de que elle tivesse existido: a prova era que ella ouvia com

certa estranheza as revelações confusas que a mãe me fazia sobre as

desgraças do seu longo desterro e captiveiro. Póde ser que tu,

Francisco, se te deres a conhecer a D. Josepha, venhas a obter muitos

esclarecimentos, que eu mal posso dar-te porque sinto enfraquecida a

memoria, e preciso espertal-a com a leitura dos meus apontamentos. Quem

melhor te poderá referir a vida de Antonio de Sá, a meu ver, é o marido

da filha; mas quererá elle--o familiar do santo officio e author da vida

de Santo Antonio--que tu saibas a procedencia hebraica de sua mulher,

embora possa ufanar-se de serem netos de Fernão Cabral os seus filhos?

Não terá elle medo de que o santo officio lhe sáia ainda a pedir contas

á mulher dos delictos do pae e da mãe?

--Isso é claro--observou Abreu.--Nem eu lh'o perguntaria, nem elle me

contaria coisa alguma allusiva á filha de Antonio de Sá. De mais a mais,

já eu te disse que resposta me elle deu para Amsterdão. Devemos ir

prevenidos contra o genio irritavel do homem; é preciso muitissimo

cuidado, que não vamos indiscretamente perguntar-lhe de quem é filho.

No dia seguinte ao meio dia, os dois velhos chegaram a Coimbra, e

andaram procurando as differentes casas em que tinham morado.

Ao segundo dia de repouso, cuidaram em jornadear para Aveiro. Pouco

antes da partida, chegou a Coimbra um proprio enviado da casa de José de

Barredo; noticiando-lhe que sua mulher estava em perigo de vida.

Desfez-se o plano de irem juntos a Aveiro, e foram juntos para Bragança;

Francisco Luiz de Abreu quiz acompanhar o velho amigo, no proposito de

lhe desacerbar as lagrimas da viuvez, se a desgraça fosse inevitavel.

Era. Francisco Luiz assistiu aos funeraes da esposa de José de Barredo.

E quando o velho parecia conformar e esquecer-se entre as caricias de

muitos filhos, despediu-se por alguns dias, e saiu sósinho de Bragança

em direitura a Aveiro.

XII

Historia de Antonio de Sá

Recebeu Braz Luiz de Abreu aviso para ir ver um hespanhol que pousara

enfermo na estalagem.

Francisco Luiz queixou-se de varias molestias, ouviu o parecer do

medico, pagou-lhe generosamente e pediu-lhe que o visitasse todos os

dias.

Dos remedios receitados não se aproveitou, porque os achaques eram

phantasticos, e bem sabia o doutor Abreu como era facil enganar outro

doutor Abreu.

No dia seguinte, o Olho de Vidro encontrou melhorado o seu doente, e

sentiu-se ufano do acerto com que cortára pela raiz uma doença, com a

qual se tinham enganado os principaes medicos de Hespanha, segundo a

confissão do doente.

Já o doutor Braz queria espacejar as visitas: o hespanhol, porém,

instava, pagando-as a brio, que não lhe faltasse diariamente com ellas.

Estava sendo celebrado em Aveiro este triumpho recente do Olho de Vidro.

Já o convalescente se julgava restaurado, e o doutor como tal o déra; o

forasteiro, porém, affeiçoado á terra onde se recobrara, determinou

passar n'ella a primavera de 1732, e voltar nutrido a Castella, de modo

que os medicos madrilenses se comessem de inveja dos seus collegas

portuguezes.

O doutor Braz, como visse no seu enfermo D. José Aristizaval (assim era

conhecido em Aveiro) excellentes qualidades, contando n'estas a bizarria

indicativa de riqueza, convidou-o a servir-se de sua casa e da

convivencia de sua esposa e filhos, os quaes, dizia Braz Luiz, são

tantos que bastam a formar uma assembléa em Aveiro ou saráo d'aldeia,

que monta o mesmo.

Agradeceu e aceitou o convidado o offerecimento; e, logo á primeira

visita, brindou a esposa do seu medico e as cinco meninas, formosuras

muito de se verem, cada uma com sua joia de preço. Reparou logo e de

relance em D. Josepha, e recordou uma por uma as feições de D. Maria

Cabral.

Ficaram as meninas contentissimas dos presentes, que eram braceletes de

oiro, mandadas comprar ao Porto, com a designio já posto no destino que

tiveram. Entretido n'estas coisas, mistura de puerilidade e bons

sentimentos, o espirito de Francisco Luiz ía cobrando alento e certa

energia. Grande parte n'esta sua insolita actividade era por certo a

esperança de saber pelo miudo a vida tragica do seu amigo Antonio de Sá.

Seguiram-se as visitas e foi-se apertando a intimidade. As meninas e os

rapazes folgavam muito de ouvir o velho D. José contar historias

curiosas das suas navegações. Um dia, veio ao ponto uma batalha de

corsarios com uma náo hollandeza, em que elle viajava na costa de S.

Domingos.

--De S. Domingos!?--exclamou D. Josepha.--Já esteve n'esses sitios

vossemecê?

--Avistei-os--disse o hospede.

E inventou uma rija peleja entre hollandezes e piratas, descripção

temerosa que tinha os ouvintes espavorecidos.

Terminou o saráo d'aquella noite; e, na seguinte, Braz Luiz de Abreu,

cada vez mais entrado de affecto ao hespanhol, lhe disse:

--D. José Aristizaval, hoje sou eu o narrador de desventuras de

navegantes. A historia que eu vou referir só a sabe em Portugal minha

mulher e eu: de hoje ávante ficam-na sabendo o meu honrado hospede, que

a não ha de repetir a portuguezes, e os meus filhos, que por interesse

seu, hão de calal-a.

--Honrado sou eu por benevolencia do doutor--se vossemecê me considera

egual com seus filhos no merecimento de entrar no segredo de seus paes,

respondeu Francisco Luiz.

--É segredo de tanto porte--accrescentou o medico, abaixando a voz--que

não sei d'outro em minha vida com que possa mostrar-lhe a confiança que

me merece, senhor D. José.

E, passados alguns segundos, Braz Luiz de Abreu, silenciosos

profundamente os ouvintes, principiou assim:

--Minha sogra era filha de um dos primeiros fidalgos de Traz-os-Montes.

O solar dos Cabraes de Carrazedo é um dos mais antigos de Portugal. Meu

sogro era hebreu, e chamava-se Antonio de Sá Mourão, natural da Guarda.

Fugiram de Portugal com admiravel fortuna, e casaram-se segundo o ritual

hebraico, presumo eu. Meu sogro, ao tempo da fuga, estudava medicina, e

tomou gráo em uma das universidades estrangeiras. Esteve alguns annos na

Europa; e, como o dominava a paixão de ser rico, aceitou partido muito

vantajoso que os francezes lhe offereciam no Canadá, e embarcou em

Marselha, quando minha mulher era creancinha.

Na altura da costa de S. Domingos, a náo em que elle se embarcára perdeu

o rumo, e foi levada contra a costa, por não ter tempo de fazer-se ao

mar quando a tormenta se levantou. Antes que o navio se despedaçasse,

alguns passageiros aventuraram-se n'uma lancha a ganharem a praia por

entre as fauces da morte. Com os aventureiros ia meu sogro, e a esposa

com a filhinha nos braços, dispostos a descerem ao abysmo abraçados.

Já perto de terra, onde levavam postos os olhos, avistaram dois navios

de pequeno lote, e chusmas de tripulantes vestidos de trajos

extravagantes. Um conhecedor d'aquelles mares reparou nos homens da

patria, que se moviam vertiginosamente, e exclamou:

--São os demonios do mar! São flibusteiros![30] Vejam lá o que querem:

morrer no mar ou no captiveiro d'aquellas bestas-feras?

Ninguem optou por morrer no mar. Os passageiros da lancha, bebendo a

morte a cada instante, conclamaram que antes queriam o captiveiro do que

a morte horrivel de afogados.

Antes de chegarmos a terra, ouviu-se uma grande celeuma do mar a dentro.

Olhámos todos para a náo, e vimol-a sossobrar, e uma montanha de vagas

abater-se sobre ella. Soltámos um grito unisono de consternação! Alguns

dos aventureiros gritavam por esposas, por paes e filhos!... Que

situação, senhor D. José! D'um lado, aquelle naufragio horroroso, do

outro os flibusteiros, que esperavam anciosos a prêsa, que se lhe ia

entregar aos ferros. Assim que a lancha bateu em terra, os bandidos

rodearam a prêsa, e mal ouviram não sei que palavras ditas por meu sogro

a sua mulher, bradaram todos: «Cá temos um cão de hespanhol!» E a um

tempo se lançaram todos a elle, como se entre si disputassem com

especial odio a posse d'aquella victima distincta das outras. Como se

explicava o particular rancor que os flibusteiros tinham aos hespanhoes?

--Se eu não receasse interromper a sua interessante historia--disse

Francisco Luiz--lhe daria a razão d'esse odio, se é que sua esposa não

quer explicar-lh'o melhor do que eu sei, por m'o haverem contado e não

por experiencia.

--Minha mulher, disse Abreu, ignora-o, porque muitos annos viveu longe

do trato de tal gente, e não sabe explicar-m'o.

--Em poucas palavras o farei--tornou o hospede.--Os pontos essenciaes da

ilha e costa de S. Domingos pertenceram aos hespanhoes. Um dia, chegaram

á costa septentrional d'aquellas possessões algumas galeotas de

aventureiros francezes, mesclados com malfeitores foragidos de todas as

nações, homens sem patria, escapados do cadafalso, feras tremendas, que

precisavam embriagar-se de sangue para gosarem algum prazer n'este

mundo. A estas escorias sociaes congregaram-se outras da mesma indole

saidas de Guadelupe, de Granada e da Martinica. N'aquellas vastas

florestas acharam que farte sustento, na abundancia de manadas de toiros

bravos, de javalis, e vaccas mansas, que os hespanhoes por lá deixaram

medrar e multiplicar. A riqueza de cada um de estes bandidos compunha-se

de uma boa matilha de rafeiros, d'uma enorme espingarda, duas camisas,

uma jaleca, um chapéo de feltro, um calção, e uma grossa correia á cinta

com uma espada curta e tres facas de matto pendentes. As casas d'elles,

durante as sortidas á rapina, eram barracas de fina lona, com a qual se

defendiam das ferroadas dos moscardos e das geadas homicidas. Viviam aos

dois, antes que a França lhes mandasse mulheres, e, por morte de um, era

herdeiro o outro. Raras vezes se desavinham, e quando se desafiavam

matavam-se a tiro de espingarda. Se o morto não recebesse os pelouros

pela frente, o assassino era logo degolado como traiçoeiro.

O principal commercio d'elles era carnes seccas e pelles, que iam vender

ás enseadas da costa, mediante uns assalariados, que tratavam entre

elles e os compradores, na esperança de voltarem ricos da America, onde

se lhes ia a vida em durissimo captiveiro.

Quando os hespanhoes da ilha de S. Domingos deram tento dos salteadores

nas visinhanças das ilhas, tiraram-se da lethargia de suas riquezas,

pediram tropas ao rei de Hespanha e fizeram guerra implacavel aos

flibusteiros, matando-lhes muitos dos mais audazes. D'este começo de

exterminio se gerou o odio dos bandidos á Hespanha, e mais ainda por

causa do golpe mortal que soffreram, quando as tropas entraram ás

mattas, e mataram os rebanhos mansos e bravos, que o mesmo foi seccar as

fontes de subsistencia d'aquellas hordas. Eis aqui, a meu ver, a origem

do inquebrantavel rancor dos chamados _demonios do mar_. Agora, vamos á

historia do senhor Antonio de Sá, meu sogro.

--Meu sogro, minha mulher e filho--continuou Braz de Abreu--foram

remettidos á Martinica n'uma galé, que vogava com mais de cem homens. O

capitão dos flibusteiros residia alli, como governador, e chamava-se

Duparquet...

--Devia ser filho--atalhou Francisco Luiz--de um francez tambem chamado

Duparquet, levado ás honras de governador em 1637 por Luiz XIII de

França, a quem convinha aliançar-se com _tão honrados_ vassallos.

--Duparquet, sabendo que o hespanhol captivo era medico, tratou-o com

alguma affabilidade, e encarregou-o de lhe curar de cameras uma filha.

Meu sogro saiu felizmente do encargo, e foi considerado por isso medico

da casa do governador. N'aquelle anno, que me parece seria o de 1697 ou

98, segundo as confusas lembranças de minha sogra, meu sogro foi mandado

embarcar n'uma náo de quatro peças, da qual se arvorára almirante um

francez chamado Legrand, o mais temivel flibusteiro d'aquelles mares.

Antonio de Sá curou muitos mutilados n'uma abordagem aos galeões de

Hespanha, e, pela pericia com que o fez n'um grave ferimento de Legrand,

ficou desde logo nomeado escravo e medico do almirante. Meu sogro

assistiu ao assalto de Maracaibo, riquissima cidade e bem guarnecida,

que se deixou entrar e saquear por quatrocentos salteadores.

Tambem assistiu á tomada de Carthagena pela esquadra franceza, auxiliada

por flibusteiros, que lhe deram a victoria.

No afogo d'esta peleja, Antonio de Sá, quando estava pençando as feridas

de seu senhor, foi gravemente ferido de bala. A convalescença foi longa.

N'este intervallo, em que elle se tornára inutil, pediu licença para ir

vêr á Martinica sua mulher e filha. Negaram-lh'a; mas concederam-lhe que

a familia o fosse visitar nos arraiaes movediços de sobre as ondas.

Legrand tinha residencia em S. Domingos, onde se desfadigava das

batalhas navaes, exercitando os seus leões do mar. Obrigou, portanto, o

prezadissimo escravo a viver com elle. D. Maria, minha sogra, passou á

companhia do marido, e minha mulher que tinha então seis annos, ficou em

casa do governador da Martinica, por que a filha predilecta de Duparquet

se habituára a consideral-a a sua escrava loura.

Por muitas vezes, Antonio de Sá Mourão supplicou a Legrand, que, em paga

de seus serviços, o deixasse passar com sua familia á Europa. O francez,

importunado pela teimosia de taes rogos, ameaçou-o de o mandar matar, se

elle tentasse fugir! É onde podia chegar a gratidão do flibusteiro

almirante!

Minha sogra me disse que, decorridos cinco annos, o marido escrevera

desde S. Domingos a um amigo muito querido, que tinha em Portugal. A

carta, porém, foi devolvida passados dias a Antonio de Sá, com a

seguinte reflexão do governador almirante: «Os escravos dos

flibusteiros, se teimam em escrever cartas para Hespanha, correm o

perigo de não poderem já ler as respostas, quando ellas voltarem.»

Nunca mais Antonio de Sá escreveu ou tentou escrever para Portugal.

O Olho de Vidro · 第 6 / 11 段