«E vós, que n'este tremendo cadafalso sois o réo do maior delicto, olhae

que em vós n'esse infeliz estado se verifica com propriedade lastimosa o

que dizem as palavras do meu thema: _De malo ad malum egressi sunt_.

Saireis de seres condemnado no juizo dos homens, e entrareis a ser

condemnado no juizo de Deus. Saireis da morte temporal e entrareis na

eterna. Saireis de um fogo que brevemente acaba, e entrareis em outro

fogo, que para sempre dura. Oh filho da minha alma, é possivel que assim

vos deixeis guiar só da vossa imaginação, e vos ateis tão fortemente á

vossa teima em um negocio da tanta importancia? Tão pouco vae em salvar

ou condemnar para sempre? Quero crer de vós que em qualquer negocio

d'esta vida não havieis de obrar sem conselho, sem reflexão, sem

madureza; e em um negocio, em que vae a vida eterna, assim vos

resolveis, assim vos precipitaes? Nos pontos da medicina (que

estudaveis) é sem duvida que havieis de estar pelo que vos diziam vossos

mestres. Pois, se nos pontos de medicina, vos guiaveis pelo que vos

diziam os doutores medicos, nos pontos da fé porque vos não guiaes pelos

doutores theologos, que tantas vezes e com tanto zelo e espirito se

empenharam em vos reduzir ao caminho da verdade?

«Dizei-me de que mestres aprendestes essa lei que seguis já tão

antiquada e esquecida no mundo? Sem duvida de dois homens ignorantes,

que talvez nunca abriram a escriptura, e talvez não saibam a lingua

latina, e muito menos a hebrea. Não o tomeis por injuria--ajuntou o

orador, certamente improvisando, como visse um gesto de repugnancia

desdenhosa e despeitosa no aspecto do confitente--não o tomeis por

injuria...; porque, fundado nas vossas mesmas escripturas, affirmo que

na vossa nação falta ha muitos seculos, por justo castigo de Deus, o dom

da sabedoria, e dominam as trevas da ignorancia.»[8]

Estende-se diffusamente o padre, cathequisando o judeu, com a mira posta

em resgatar-lhe a alma, que o corpo esse já não ha eloquencia nem perdão

divino ou humano que possa salval-o do fogo. Finalmente, remata a

apostrophe n'estas branduras:

«Ora filho do meu coração, _convertere, convertere ad Dominum Deum

tuum_.

Convertei-vos para o vosso Deus, convertei-vos para o vosso Senhor, que,

abertos os braços, e com o coração aberto, vos espera para vos metter

n'elle como amigo, se do coração vos converteis a elle. Dae este gosto

ao céo, dae este gosto á terra, dae este gosto aos coros angelicos e dae

este gosto aos espiritos bem aventurados, dae este gosto a todo este

numerosissimo e luzidissimo auditorio, que todo deseja com muitas veras

a vossa vida e a vossa salvação. Na vossa mão tendes a vida e a morte, a

salvação e a condemnação: vêde o que escolheis. E, se todavia persistis

na vossa teima, e na vossa contumacia, da parte de Deus vos digo, que

dentro em breve tempo apparecereis diante do mesmo Deus em juizo, do

qual, sem desculpa do vosso erro, saireis condemnado para o fogo

eterno.»

E com pouco mais terminou o monumental discurso, de que ficou muitissimo

agradado o senhor rei D. Pedro II, e seus filhos; e bem assim o

eminentissimo senhor cardeal D. Miguel Angelo Conti, arcebispo de Garzo,

e nuncio apostolico n'estes reinos, ao qual o padre Francisco dedicou o

seu sermão impresso.

D. Pedro II não mais saboreou outro sermão identico; porque, tres mezes

e sete dias depois d'aquella explendida ovação da santa egreja, morreu.

O padre Francisco de Santa Maria, comquanto só passados sete annos fosse

coroar-se ao capitolio dos anjos, como piamente crêmos que foi, tambem

não voltou a regalar o publico nos autos da fé.

* * * * *

Cheguemo-nos ao assumpto. Os relaxados á justiça secular foram

conduzidos a uma das salas da santa casa, em que estava junta a relação

para os sentenciar.

A sentença de Heitor Dias da Paz, e dos outros já estava lavrada, embora

fingissem lavral-a depois de um banal interrogatorio. Com ella na mão,

perguntou o presidente ao judeu, ajoelhado:[9]

--Sois o relaxado Heitor Dias da Paz?

--Sou.

--D'onde sois?

--De Villa Flor.

--Credes--tornou o presidente--na Santissima Trindade, Padre, Filho,

Espirito Santo, tres pessoas e um só Deus verdadeiro?

--Não creio.

E levantou-se sem que o presidente lh'o ordenasse.

O escrivão, que estivera autoando a sentença, ergueu-se e disse ao

condemnado:

--Ajoelhe para ouvir ler a sentença.

--Ouvil-a-hei em pé--respondeu Heitor.

--Leia--disse o presidente ao escrivão.

O escrivão leu o seguinte:

«Acordam em relação, etc. Vista a sentença junta dos inquisidores,

ordinario, e deputados da inquisição, e como por ella se mostra o réo

preso, Heitor Dias da Paz ser hereje apostata da nossa santa fé

catholica convencido no crime de judaismo, e por tal relaxado á justiça

secular, e sendo perguntado n'este senado persistir no seu erro, e

declarar que não cria em nossa santa fé catholica, senão na lei de

Moisés; o que assim visto, e disposição de direito em tal caso,

condemnam ao reu que com baraço e pregão pelas ruas publicas e

costumadas seja levado á ribeira d'esta cidade, e ahi seja levantado em

um poste alto, e queimado vivo, e feito por fogo em pó, de maneira que

nunca de seu corpo e sepultura possa haver memoria; e o condemnam

outrosim em perdimento dos seus bens para o fisco e camara real, posto

que ascendentes ou descendentes tenha, os quaes declaram por incapazes,

inhabeis, e infames na fórma de direito e ordenação. E pague as custas

d'estes autos. Lisboa, 12 de setembro de 1706.»

A procissão dos condemnados saiu do pateo da santa casa, caminho da

Ribeira. As duas judias relaxadas em carne, dizia-se que já iam mortas.

Os dois hebreus, que tinham assistido ás leituras de suas sentenças em

anciados gritos, iam desacordados nos braços dos quadrilheiros do santo

officio. Heitor caminhava sem amparo, placidamente, olhando a um lado e

ao outro as damas que exornavam as janellas do transito.

Ao embocar o prestito á rua da Padaria, um ancião mal coberto de

andrajos, com tregeitos de louco enfurecido, rompeu a mó compacta do

povo, e os soldados que ladeavam os condemnados.

Heitor Dias reparou n'aquelle velho que os arcabuzeiros afastavam a

repellões. Fitou-o com horrivel estremecimento; ia a proferir uma

palavra, e suffocou-a. Debalde. O grito do coração já tinha ecoado no

seio do ancião, que exclamou:

--Adeus, meu filho! Adeus, meu filho, eu vou antes de ti avisar tua mãe

que por instantes estarás comnosco no seio de Abrahão!

E, ao proferir a ultima palavra, sorveu de um vidro um trago de peçonha,

ao qual se seguiram medonhas convulsões.

--Abençoada seja a sua coragem, meu pae!--exclamou Heitor--Até logo, até

á eternidade!

As agonias do velho terminaram dentro em quinze minutos. As do filho

principiavam pouco depois, e não foram mais longas. Antes de sentir o

queimar das lavaredas nas entranhas, expirára afogado no fumo.

E o sol d'aquelle dia era ainda formoso ao intardecer. As auras do mar

bafejavam tepidas. El-rei passeava nas barandas do paço da Ribeira,

aspirando o aroma dos laranjaes; e os frades de S. Domingos resavam

vesperas.

VI

Braz Luiz

N'este tempo, Braz Luiz, o collegial de S. Paulo, ia nos quatorze annos.

A noticia da desastrosa morte dos seus bemfeitores, revelada pelos

condiscipulos, pungiu-o, tirou-lhe d'alma sinceras lagrimas; porém,

n'aquellas edades a sensibilidade é para pouco; as saudades das pessoas

queridas que morreram não se prendem á previsão angustiosa das desgraças

porvindouras. O filho de Antonio de Sá Mourão estava de todo esquecido

do doutor Abreu, e não longe de esquecer-se de Heitor Dias da Paz.

Os mestres do collegio, cuja dilecção pelo engenho do moço se

manifestava no affago com que o divertiam de pensar no hebreu queimado e

no outro que se dera a si desesperada morte, receosos de que o santo

officio fosse ainda contender com o estudante por suppor que elle fosse

irmão de Heitor, zelosamente informaram os inquisidores dos piedosos

sentimentos de Braz Luiz, e da docilidade e devoção com que elle se

entregava aos exercicios espirituaes. O santo officio, inteirado d'isto,

deixou em paz e por conta da religiosidade dos paulistas o menino.

Como elle se alimentava e educava a expensas do collegio, o parecer dos

mestres era encaminhal-o para frade paulistano. Este intento, quando o

moço tinha quinze annos, foi contraditado pela companhia de Jesus, que

enviára delegados a recensear nas universidades e collegios de Evora e

Coimbra estudantes esperançosos, garfos de boa seiva, que se fossem

enxertando nos troncos envelhecidos, para que alguma hora não soffresse

quebra o predominio intellectual dos filhos de Santo Ignacio.

Os paulistanos offenderam-se do sequestro que os jesuitas

arbitrariamente fizeram nos seus mais grados alumnos; e, por vindicta,

entraram a despersuadir o moço de aceitar a roupeta. Facilmente o

moveram á repugnancia da vida sacerdotal, e assim se privaram tambem de

o conquistarem para si. A companhia de Jesus cathequisava, mas não

violentava. Tamsómente as vocações liberrimas e muito espontaneas lhe

serviam. Logo pois que Braz Luiz manifestou indisposição para a vida

sacerdotal, abriram mão d'elle os jesuitas, offerecendo-lhe, se

necessarios fossem, recursos com que podesse seguir a carreira para onde

pendessem os seus talentos. Quer generosidade, quer astucia com que os

padres ardilosamente grangeavam a estima quasi universal, o certo é que

Braz Luiz teria a protecção d'elles, se não tivesse a dos paulistas.

Deram-lhe a opção de modo de vida. Braz escolheu a medicina.

Aos quinze annos matriculou-se no primeiro do curso depois de ter

estudado artes, e logo deu de si tão lisongeira conta, que se estremou

entre os condiscipulos, ganhando as distincções das escolas, a estima

dos mestres, e especialmente de D. Manuel dos Reis e Sousa, a quem o

discipulo dos seus futuros escriptos se mostrará agradecido.

Ao correr do terceiro anno, a indole do academico passou por inesperada

revolução. Sem faltar ás obrigações escolares, deu-se á tunantaria dos

estudantes malcomportados. Fez-se arruador nocturno, bulhento, femieiro

e pimpão. Os paulistas ameaçaram-no de o deixarem entregue aos seus

desatinos. Braz Luiz respondia ás ameaças dando optimas lições nas

aulas, e ganhando os louvores dos lentes, sem desistir de tomar o

primeiro posto nas algazarras e assuadas nocturnas.

Em uma d'essas escaramuças á cidade baixa, travou-se uma refesta

ensanguentada entre a gente miuda de Coimbra e os estudantes. Braz,

depois de muitas proezas, caíu ferido de uma choupada, que lhe vasou o

olho direito. Alguns condiscipulos levaram-no em braços para sua casa, e

lhe assistiram affectuosamente á cura. Salvaram-no da morte: mas não

poderam salvar-lhe o olho.

Depois de dois mezes de cama, o estudante recebeu a má nova de ter

perdido o amparo dos frades. Accudiram logo os condiscipulos fintando-se

para supprirem a esmola do collegio, Braz proseguiu na formatura, e não

mais foi visto nas sortidas bellicosas, como quem já não tinha mais que

um olho para sacrificar. Os paulistanos, contentes da reforma do seu

protegido, voltaram a soccorrel-o; porém, o pundonoroso academico,

reunindo os seus condiscipulos favorecedores, expoz a reluctancia com

que aceitaria a esmola dos frades, e a satisfação com que continuaria a

recebel-a de estudantes. Applaudiram-lhe o brio, e animaram-no a

regeitar o pão vilipendioso dos paulistas.

Em 1714, tomou Braz Luiz d'Abreu gráo de licenciado em medicina. A razão

que elle teve para assignar-se _Abreu_ funda n'uma casualidade de que

resultou enganar-se Barbosa na sua _Bibliotheca Lusitana_, dando Braz

Luiz como filho de Francisco Luiz d'Abreu e Francisca Rodrigues

d'Oliveira. Foi o caso, que folheando elle o abcedario por onde começára

a soletrar, muito na primeira puericia, em companhia do seu primeiro

protector, encontrou o seu nome assim posto no alto da primeira pagina

do alphabeto: _Braz Luiz de Abreu_. Assim o escrevêra a esposa do

doutor, n'uma d'aquellas horas de ternura, em que ella encarava no

menino como em filho propriamente seu.

Ahi está onde ao medico se deparou um apellido, que elle não sabia

d'onde lhe havia de vir, por mais que discorresse sobre o modo de

rastrear seu nascimento. N'este investigavel mysterio o que a si mais

provavel se figurava era que seu pae devia de ser um homem apellidado

_Abreu_; mas como esquadrinhar-lhe a naturalidade, as aventuras da vida

ou da morte? Em Coimbra não havia para que indagal-o; porque elle não

tinha sequer vaga lembrança de ter estado em Coimbra nos primeiros

annos. Todas as suas lembranças esboçavam-se dos sete annos para áquem.

Terra que não fosse Coimbra só escassamente se recordava de Villa Flor;

e imagens de pessoas, duas sómente lhe viviam meio delidas na lembrança:

eram Francisco de Moraes e Heitor Dias da Paz.

Um condiscipulo de Mirandella encarregou-se de averiguar-lhe algumas

noticias de seu nascimento em Villa Flor. As tradições encontradas alli

eram que uma creança apparecêra em casa do hebreu Moraes, ao tempo que

seu filho voltou da Hollanda. Parentes ainda vivos d'aquelles israelitas

não sabiam dizer nada a tal respeito. O que o condiscipulo informador

accrescentou foi que dos muitos haveres do hebreu suicidado não havia

palmo de terra que a inquisição não confiscasse.

Habilitado para exercitar a medicina, comquanto lhe sobrassem creditos

de grande estudante, faltavam-lhe doentes. Á mingua de recursos, pensou

em estabelecer-se n'alguma terra desprovida de medicos. Um seu

contemporaneo da faculdade juridica convidou-o para Vizeu, onde o

encontrámos curando com muita voga e felicidade em 1715 até 1718[10].

No fim d'este anno, como a sua fama o atraia e a cobiça o impulsava para

terras de mais gloria e lucros, passou a residir em Lisboa. Aqui e

n'este mesmo anno começou elle a olhar tristemente para a deformidade

que lhe deixára no rosto a choupada, e achou-se não só feio, se não

repugnante a olhos de damas, que se engulhavam de lhe verem a orbita

direita vasia e coberta pela palpebra amortecida.

Cogitou o medico em arranjar um olho artificial, com que encher a orbita

nauseenta e dar contractibilidade apparente á palpebra. Investigou a

sciencia e encontrou que os gregos e egypcios fabricavam olhos

artificiaes, formando-os de uma casquinha metalica, pintada ou

esmaltada, similhante a uma metade de ovo pequeno, dividido

longitudinalmente. Este primitivo e pouco engenhoso olho não agradava ao

nosso joven medico. Indagou no estrangeiro, e de Hollanda o informaram

que estava em Amsterdam um hebreu inventor d'olhos artificiaes de

esmalte, com a qual materia substituira vantajosamente os metalicos.

Entendeu-se Braz Luiz de Abreu com o inventor hollandez, e ajustou na

orbita um olho, menos mal imitado, mediante o qual a palpebra voltou á

sua elasticidade.

Este olho de esmalte era immovel: bastava encarar na cara do medico para

logo se conhecer que a orbita direita estava envidraçada. D'ahi

seguiu-se chamarem-lhe o _doutor Olho de Vidro_, alcunha que lhe ficou

até á morte, e longos annos depois serviu de celebrar-lhe a memoria, a

magnitude dos talentos medicos e os seus não menores infortunios.

Como quer que fosse, a physionomia do doutor Braz Luiz, não obstante a

pouca illusão que embahia o falso olho, melhorou bastantemente.

O restante do carão, como diziam os coevos d'elle, era senão gentil, mui

symetricamente ageitado. Vestia com apontado primor, e cuidava com

esmero das melenas negras e lustrosas, que não polvilhava. A razão

d'este proceder, tão inverso dos costumes do seu tempo, é elle quem

propriamente a escreve d'este modo: «... Emquanto aos polvilhos, tão

longe estão de parecerem ornato na cabeça do medico, que antes são

presagios lethaes da vida do doente. Porque se a egreja com pós na

cabeça nos adverte da morte que vem, como o medico com pós no cabello

nos ha de recuperar a vida que se vae? Eu, quanto a mim, antes creio

que, os pós são significativos da morte, emquanto a egreja nol-o diz, do

que hierogliphicos de saude respeitando ao medico que os traz. Os

verdadeiros ministros d'Apollo só usam de polvilhos cephalicos na região

animal; de polvilhos cordeaes na região vital; e de polvilhos

estomachicos na região natural. Isto é uso modesto; o mais, estava para

dizer que era abuso ridiculo.»[11]

Não curemos de ponderar a justiça das razões que o doutor allega contra

os polvilhos. Imaginando que os collegas de Braz Luiz se riram muito

d'ellas, faço justiça aos contemporaneos do auctor do _Portugal medico_.

Tambem desadorava os perfumes o nosso doutor, n'aquelle tempo em que o

peralta de bom cunho recendia como caçoula de camarim de odalisca. Outra

razão efficientissima do seu enojo de perfumes: «Sou de parecer que (o

medico) evite os cheiros, e que se negue a todo genero de perfumes,

porque ainda que Hyppocrates no seu tempo permittia os que não eram

suspeitos aos achaques, comtudo n'este seculo mais escrupuloso por mais

prevertido, nenhum genero de perfumes cheira bem... Deixemos esses

esmeros para os que vivem á moda, e não excedamos a moda, que nem porque

um medico cheira bem, cura melhor.»[12]

Em adornos capillares aceitava o doutor meramente os naturaes: usava

simplesmente a sua opulenta grenha, nua de artificios e emprestimos;

porque dizia elle: «Seja tambem modesto o medico nos adornos da cabeça,

tão introduzidos n'este miseravel seculo, que não ha já encontrar

solicitador sem cabelleira nem belleguim sem perruca.» E acrescentava:

«Quantos desprezam e cortam hoje o honesto cabello de christãos e

collocam sobre a cabeça as melenas de um herege!»[13]

O vivo desejo que Braz Luiz de Abreu alimentava de reformar as demasias

luxuosas e derisorias dos medicos, tornou-se em justa indignação, e a

indignação porventura fel-o poeta como ao satyrico latino. Um dos mais

intelligiveis sonetos que elle escreveu em tom apostolico salvou-se do

olvidio, graças ao acertado cabimento que lhe elle deu n'um seu livro de

medicina. Resa d'esta sorte:

Oh, medico! se és medico com effeito

Procura mundo[14] ser, mas não mundano;

Que de Apollo o caracter soberano

Não anima nos vicios o respeito.

Bebe o cão, bebe tu; mas com tal geito

Que o crocodilo do rumor profano

Quando vás a beber do Nilo humano

Não possa devorar teu bom conceito.

Em teu ornato a modestia nunca falte,

Um pouco mais ao grave do que ao lindo;

Que assim obra quem douto assim discorre.

E porque a tua fama mais se exalte,

Visita a modo de quem vae fugindo,

Como do Nilo o cão, que bebe e corre.[15]

O desgracioso da musa do Olho de Vidro está delatando que o poeta, se

não era menos de pedestre, poetava violentando sua indole. O natural

d'elle era outro. A meu juizo, tanta prudencia e bom conselho no mais

verde da mocidade, argue um aliás louvavel cuidado de se fazer bemquisto

aos homens graves do seu tempo. É, de mais d'isso, muito provavel que o

medico se temesse de que os rafeiros do santo officio lhe andassem

farejando o sangue; e elle, a contas com a consciencia propria, duvidava

da pureza de seus incognitos paes, ao lembrar-se do ritho hebraico dos

bemfeitores de Villa Flor. Se os elle não conhecia, quem lhe asseverava

que a inquisição os não conhecesse? Se lhe pedissem a certidão do

baptismo, onde iria elle esquadrinhal-a?

VII

Exemplo de honestidade aos medicos

Quer fosse sisudeza, quer hypocrisia, Braz Luiz de Abreu, que então

contava vinte e cinco annos, assim que o amor lhe abriu o peito com seus

magicos dedos, sacudiu a canga do artificio e mostrou-se homem genuino.

Deu elle tento de que os seus collegas todos eram familiares do santo

officio, e todavia amavam a rosto descoberto; e, nas casas onde

entravam, contra a prescripção do soneto, não procediam exactamente

Como do Nilo o cão, que bebe e corre.

Ora, como elle, de espaço, fosse vendo que a inquisição vivia

despreoccupada d'aquelles cães do Tejo que bebiam muito devagar,

bandeou-se com elles, e atirou o coração ás tempestades dos vinte e

cinco annos, resalvadas as apparencias.

A primeira dama que se quiz senhorear da alma do seu medico, era uma

fidalga quarentona, ainda vistosa, affeita a ser beijada na face por

bons galans que se ajoelharam diante d'ella até aos trinta annos, e se

purificaram da idolatria, desde que as flores do rosto, desbotadas pelo

caio, e os cabellos ressequidos pelo ferro se foram despegando d'aquella

cabeça rica de formosas tradições. Estava literalmente calva.

D. Claudia da Silveira, logo que se julgou encarada voluptuariamente

pelo olho unico do seu medico, levou a mão ao peito e sentiu-se arder.

Desde essa hora os achaques eram tantos e tamanhos que Braz Luiz

escassamente se podia desobrigar de acudir-lhe tres vezes por dia com

agua de Inglaterra, com pedra cordeal de Gaspar Antonio, ou com agua de

lingua de vacca, antidotos de sua predilecção contra os estherismos e

enchaquecas da senhora D. Claudia da Silveira.

A dama, cada vez mais enfermissa, tornára-se a desesperação da medicina

gallenica. Dos linimentos á chaga interna que lhe cancerava as

entranhas, um sómente dera satisfatorio resultado: era a presença do

medico, o tatear d'elle no pulso arreado de manilhas, o apalpal-a nas

costellas sobre e sub-jacentes ao coração. No coração nomeadamente é que

ella dizia ter a morte, o morder e repuchar de dentes e garras do que

quer que fosse. Resolveu o doutor que lhe dessem uma untura anodyna

sobre a parte magoada. Resistiu a dama, quando viu a aia arremangar-se

para o acto, e exclamou, repellindo a criada:

--Não consinto mãos estranhas no meu corpo! Antes a morte!

Braz Luiz de Abreu empenhou calorosas razões a persuadil-a, cuidando

sinceramente que a dama soffria dolorosissimas palpitações. Da

austeridade de medico passou ás branduras de amigo que muito lhe devia,

porque a paga era mais que prodiga, e chegou a pedir-lhe consentimento

para ser elle quem lhe friccionasse o seio.

Muito rogada e como incendida em pudor virginal, consentiu D. Claudia,

referindo a sua condescendencia não tanto ao amor da vida, como ao

horror de morte assim atribulada.

O leitor conhece decerto aquella passagem de um livro do padre Manuel

Bernardes, em que se conta o caso de S. Effrem estar com uma das mãos

untando o peito de uma formosissima mulher, que tinha parte de demonio

tentador do santo, emquanto assentava a outra mão sobre um brazeiro para

ir assim com as dores quebrantando os ímpetos da materia bruta, as

_fervenças da carne_, como n'outro caso diz o mesmo padre oratoriano.

D. Claudia da Silveira verdadeiramente não tinha parte de demonio;

porque o medico lhe deu a untura anodyna com tanta serenidade e

quietação de corpo e alma, que só isso lhe bastaria a ganhar o céo, se a

mulher fosse documento para merecel-o e argumento para pedil-o.

Operou o linimento muito devagar, segundo o medico ia entendendo da

brandura dos ais e alquebramento da enferma. Afinal, cessaram de todo os

gemidos por um suspirar descançado que parecia descair em dormir

restaurador das forças extenuadas.

Braz Luiz de Abreu ficou vaidoso do seu triumpho, e despediu-se da dama,

que lhe acenou de mão e cabeça tão levemente como quem a custo o fazia,

vencida do turpor do somno.

Assim que elle voltou costas, D. Claudia sentou-se na cama, bracejou

enraivecida, e despregou a murros phreneticos uma cortina adamascada que

lhe ondeava por sobre o espaldar do leito.

Accudiu a aia a querer continuar a untura. A fidalga quiz atirar-lhe á

cara com a taça do anodyno, e sentiu-se sinceramente febril.

A aia avisou o fidalgo, cunhado de sua ama, d'aquellas furias em que

estava a senhora. O fidalgo, avesado a taes manhas, respondeu com

magnanimidade indicativa da probidade austera d'aquella familia:

--Manda-lhe chamar o Olho de Vidro.

--Mas elle ainda agora saiu, senhor!

--Não importa: que torne a entrar, que torne a sair, que entre de novo,

que faça o que ella quizer, comtanto que eu não ature minha cunhada

Claudia.

Assim se fez.

Braz Luiz acabava de entrar no seu gabinete, para escrever no caderno de

observações a rapida cura das convulsões de coração de D. Claudia com

unturas de enxundia de pato e oleo de assucenas, quando um lacaio dos

Silveiras o chamou a toda a pressa para a fidalga.

O medico praguejou mentalmente contra a sua dadivosa doente; mas foi.

Encontrou-a convulsiva e escarlate, debatendo-se n'uma poltrona. Era

ainda a dôr do coração que lhe estava destroçando o peito. Fallou o

doutor em ventosas sarjadas. A dama expediu in continente (sem

calemburgo) tres gritos estridulos contra as ventosas.

--Pois não, minha senhora!--accudiu o medico--não faremos uso das

ventosas, até mesmo porque a convulsão se vae distendendo aos membros, e

receio que se torne geral. Eu vou receitar; mas requer tempo o preparado

do remedio. Senhora Anacleta--continuou o doutor voltando-se para a

criada grave--mande procurar um pato gordo; ordene que o matem,

depennem, e limpem das entranhas; e depois remetta-se o pato ao

boticario com a receita que vou escrever[16].

O Olho de Vidro · 第 3 / 11 段