RECIPE. Recheie o pato com salva, mangerona an. Manip. j. gomma amoniaco

e Bedelio an unc j. Calamo aromatico, noz moscada, flôr da mesma, e

cravinhos da India an. unc. semiss. o que tudo primeiro se pize em

almofariz, e se amasse com oleo de minhocas, e assim se introduza no

ventre do pato, que se coserá com linha, se ponha a assar, e o que

destilar se receba em um vaso meio de vinagre, com cujo pingo e gordura

se unte o coração.

ABREU.

Depois, sentando-se ao pé da doente algum tanto melhorada das

convulsões, ajuntou:

--Se este admiravel remedio não produzir o almejado effeito, asseguro a

vossa senhoria que em casos analogos me tenho dado excellentemente com

os banhos de azeite puro, e melhor será se antes se tiver cozido n'elle

uma raposa[17].

--Uma raposa, doutor!--exclamou a dama engulhosa--uma raposa! Que

immunda coisa!... Onde hei de eu ir buscar a raposa?

--Que desejará vossa senhoria que não appareça, minha senhora! Qualquer

caseiro das suas terras do Alemtejo ou Beira, com ordem de vossa

senhoria, caçará raposas, que são mirificamente medicinaes.

--Anjo bento! raposas medicinaes!...--volveu D. Claudia, e abriu um

sorriso jovial, á volta com um gemido, como se o picar subito da dôr a

não deixasse rir francamente.

--Parece-me que está mais alliviada...--disse o medico.

--Um poucachinho...

--Pois as virtudes da raposa são miraculosas, minha senhora--proseguiu

elle, confiado na efficacia da distracção.--A lingua da raposa trazida

ao pescoço reforça a vista. As mãos d'ella trazidas ao pescoço preservam

do quebranto.[18]

--Do quebranto!...--murmurou D. Claudia da Silveira--Ai! doutor, ha

quebrantos sem cura! Ha arêjos que em pegando da gente o remedio é

morrer.

--Feitiçarias, quer dizer vossa senhoria? Não é tanto assim. Contra

esses temos os prodigiosos alexipharmacos da santa egreja catholica.

--Bem sei, bem sei--balbuciou a dama, com piedoso gesto.--Não é d'esses

que eu tenho medo. O meu santo Antonio me defenderá... Ha coisas peiores

do que isso n'este mundo... coisas que fazem perder a cabeça á creatura

mais ajuizada. Tenções e protestos não montam nada. Que me faz a mim

dizer: não hei de pensar mais n'isto ou n'aquillo? Apega-se a gente com

todos os santos. Fazem-se rezas e promessas. Lembra-se tudo quanto ha de

máo... E, chegada a occasião, tanto faz como nada! Ai!--suspirou ella,

pondo as mãos ambas sobre o coração.--Ai!... pobres mulheres!... Só vós

sois as fracas... as peccadoras... não é assim doutor?

Braz Luiz de Abreu, que n'este lanço estava espreitando de soslaio uns

olhos que o espreitavam por entre o reposteiro--os olhos da engraçada e

trigueira aia de D. Claudia--por pouco não é surprehendido pelo relance

da fidalga, que o fitou muito no rosto, com ar interrogador.

--É assim, minha senhora, é assim--balbuciou elle.

--É assim, é--tornou ella--E que remedio sabe vossemecê para estes

quebrantos, doutor?

--É conforme...--tornou Braz Luiz, sem atinar com a resposta

conveniente, porque só n'aquelle instante percebera, com despeito de sua

vaidade de medico, a enfermidade da fidalga.

--É conforme, disse vossemecê doutor...--volveu ella, anciosa de

entender as reticencias.

--Sim, minha senhora... Ha varios modos de possessão, além dos

conhecidos nas demoographias...

--Mão entendo isso--atalhou a fidalga--Pois a paixão d'alma tambem é

feitiço?

--Se não é...--balbuciou o doutor.

--Leva as mesmas voltas--accudiu prestes D. Claudia, e proseguiu expondo

com pouquissimo resguardo de sua honestidade as diabruras que o amor

tinha feito em senhoras de sua amizade, não poupando na relação das taes

diabruras secretas as suas mais proximas consanguinaes, e algumas

impudicicias muito reconditas da côrte da primeira mulher de D. Pedro

II, com a qual vivera nos primeiros annos de sua mocidade.

Ao correr d'esta narrativa, D. Claudia reparou no abstrahimento do

medico, cujo olho, de instante a instante, punha fito ao reposteiro, e

como que procurava pascer-se deleitosamente em qualquer cousa de fóra.

Assim prevenida e desconfiada, esperou azo, voltou a cabeça ao lado

opposto da porta, retorceu-a rapidamente de novo olhando ao local

suspeito, e entreviu a cabeça da sua criada grave Anacleta, por quem

doidejavam quantos fidalgos novos e encanecidos a visitavam.

--Olé!--exclamou ella, erguendo-se de salto--Agora entendo!--E, correndo

ao reposteiro, afastou-o de repellão, e disse iracunda:

--Anacleta! já hoje não dormes n'esta casa. Rua! Não quero testemunhas

nem espiões do que se diz no meu quarto. Rua!

E, tornando com solemne passo para junto de Braz Luiz de Abreu, que

assistia corrido áquelle conflicto, disse-lhe:

--E a hypocrisia de vossemecê, senhor doutor!... A feitiçaria da minha

criada tambem se cura com os prodigiosos _não sei que_ (o doutor tinha

dito «alexipharmacos») da santa egreja catholica? Que hypocritas são

estes medicos!...

E cacarejou uma risada secca.

--Pois que?!--tartamudeou o doutor, enleado até á irrisão.

--Eu logo vi!...--disse a fidalga, como em praticas de soliloquio

comsigo mesma.--A promptidão das visitas... está explicada... Assim

devia ser. Lé com lé, não falha o dictado. Cuidei que as minhas criadas

serviam sómente aos meus criados. Bons tempos, em que os medicos se não

sujavam com amores de servilhetas...

--Oh! senhora D. Claudia!--atalhou o pundonoroso doutor--vossa senhoria

está-me insultando... perdoe-me dizer-lh'o, porque nunca cuidei de dizer

isto a pessoa de sangue tão illustre... E, de mais, cavalheiro que tal

diz a uma dama, não deve mais voltar á presença d'ella.

E, tomando o chapéo e bengala, fez uma arqueada cortezia.

--Faça o que quizer, doutor!--disse ella abespinhada, com o nó esterico

nos gorgomilos--Faça o que quizer que vossemecê se arrependerá...

Braz Luiz de Abreu saiu offegante de despeito e tedio de D. Claudia da

Silveira.

--Que tal está a pellada!--dizia elle de si para comsigo--A impudica!...

E eu dar-lhe as unturas com a boa fé do mais soez enfermeiro! Chibata é

que ella precisava nos lombos ociosos!...

VIII

Má sina de poetas

Passados alguns dias, differentes pessoas da intimidade do doutor lhe

segredavam que D. Claudia fazia correr que elle fôra expulso da casa dos

Silveiras, porque andava cortejando a aia grave da fidalga, sem respeito

ao que devia á illustre enferma, e ao que devia á sua dignidade de

medico. Os amigos aconselhavam-n'o, se queria ser recebido em casas de

primeira plana, abster-se de galantear criadas, principalmente se as

amas, como D. Claudia, queriam ser antepostas ás suas servas.

A calumnia era toleravel, porque em verdade, a frescalhona Anacleta era

uma das sete criadas graves, para as quaes o doutor olhava com a fixidez

de quem só tem um olho. Assanhou-o, porém, o susto de ver-se banido das

casas, onde tinha os seus prezadissimos, bem que faceis amores, afóra as

doentes mais rendosas.

O ciume de Claudia mais o exasperou ainda; por que a historia, em que

elle figurava ridiculo, era contada entre as familias ás gargalhadas.

Enraivecido, cogitou na imprudencia de fazer rir os amigos á custa da

fidalga. Figurou-se-lhe que o mais contundente látego era a satyra em

verso. Não teve amigo que lhe aconselhasse juizo e discrição, como

convinha á gravidade do seu officio, e ao melindre da poderosa parentela

de D. Claudia. Escreveu, e deu copias a diversos amigos das seguintes

quadras:

A UMA PELLADA

Mulher, n'esse teu desgarro...

Convém saber, antes de ir ávante, que D. Claudia, como se quizesse

attrahir aos pés a attenção das pessoas, que lhe reparavam na cabeça,

costumava estar sempre calçada de sapatos bordados a fio de ouro. As

mais fidalgas chanceavam-n'a, na ausencia, por causa dos sapatos, e

propalavam que o Olho de Vidro se deixára algum tempo fascinar dos

aureos chapins da escalvada dama. Sabido isto, não ha já commentarios

que aditar á poesia.

Mulher, n'esse teu desgarro,

Um Nabuco ás vessas és;

Porque, tendo d'ouro os pés,

Tens a cabeça de barro.

Se alguma pedra traveça

Te quizesse derrubar

Era preciso acertar

Mais que nos pés na cabeça

Por que, se pelo mais fraco

Estalla a corda mais grossa,

Quem quizer que estalles, _moça_,

Ha de cascar-te no caco.

Mais flammantes do que um ouro,

Mais liza do que uma ostra,

A cabeça a coura mostra,

Os pés vão mostrando o couro.

Dize-me com que destino,

Mesclas n'essa estatua van

Entre affectos de christan

Heresias de _Calvino_?

Sem monho, e com cara alva

Sahes a toda a occasião;

E vejo que tens rasão,

Porque a occasião é calva.

Sendo mal encabellada,

Para que andas, dize, á pella,

Se ninguem por ti se pella

Por mais que venhas pellada?

Vae-te, e pede a Deus, ó louca,

Que te dê com toda a pressa,

Cabellos para a cabeça

Em vez de pão para a boca.

Ao padre nosso á porfia

Pede que te encabellise;

E em vez de _pão nosso_, dize:

_Cabellos de cada dia_[19].

Multiplicaram-se as copias e as gargalhadas; não tardou, porém, que

sobreviessem os despeitos, por que muitas familias, que tinham rido,

estavam aparentadas com D. Claudia. Chegou á noticia da dama a zombaria.

Foi tanto mais funda a punhalada quanto ella amava ainda o doutor.

Odiou-o de morte; não relevava, porém, a soberba da fidalga que ella se

désse por ultrajada.

Conjuraram, de repente as familias de melhor lote contra Braz Luiz. Os

amigos evitavam-no com subterfugios. Os inimigos, collegas d'elle,

deploravam que um seu consocio no sagrado mister da medicina os

desdourasse. A tempo conheceu o doutor que tinha caido em descredito: e

mêdo tambem de cair trespassado por algum fidalgo estoque não lhe

faltou.

Fez logo conta de sair de Lisboa, cortando por fibras muito sensiveis do

peito. Do plano á execução mediou algum pouco tempo, em que Braz Luiz,

recolhendo alta noite, esteve a pique de ser assassinado por uma

arcabuzada, cujos pelouros lhe crestaram os bofes da camisa.

Desappareceu o Olho de Vidro de Lisboa, e estanceou alguma temporada por

Coimbra, onde assistiu á impressão de um seu livro em castelhano,

intitulado _Aguilas hijas del sol, que buelan sobre la luna.

Representacion comica, tragica, triumphal de la inmorable victoria

gloriosamente alcançada por las aguilas impiriales contra las nocturnas

aves ottomanas en el campo de Peter-Varadin, dia 5 de agosto año

1716._[20]

A mim contentou-me a leitura do titulo, e dispensei-me de ver o restante

para ir jurar que deve ser sobre-excellente um livro que se chama

_Aguias filhas do sol, que voam sobre a lua_. E, como se isto não fosse

já recommendação á obra, acresce-lhe o merecimento de ser _representação

comica, tragica e triumphante_. Um livro assim, e os applausos com que a

peninsula provavelmente o victoriou, deviam ser para o doutor larga

compensação dos dissabores com que saira de Lisboa. Não ha ahi chaga em

peito de homem illustrado que resista ao balsamo do talento.

Passou Braz Luiz de Abreu ao Porto, fazendo tenção de estabelecer-se na

segunda cidade do reino. Deteve-se em Aveiro alguns dias; e passeando

scientificamente pelos arrabaldes da villa, descobriu a planta do chá,

nascida em barda por aquelles maninhos. Consta-me que os aveirenses, de

certo ignorantes do descobrimento do medico, ainda agora compram para

seu uso o chá da China, como se não tivessem alli á mão a erva de que

elle se faz. Aqui lhe transcrevo as palavras de Braz Luiz, e muito faço

em prova do meu desprendimento de bens de fortuna, se não iria eu

propriamente colher a erva, comprar os maninhos, e senhorear-me de

Aveiro em poucos annos. Aqui está a noticia: «Na villa de Aveiro, e em

todas as suas visinhanças nasce uma erva, a que os naturaes chamam _erva

formigueira_, porque pisada tem o cheiro como de formigas pisadas; e a

ha em tanta quantidade que podem carregar-se navios d'ella. Esta tal (ao

meu entender) é o verdadeiro _chá_ que vem da China e do Japão; não só

porque a experiencia descobre n'ella as mesmas virtudes do _chá_; mas

tambem porque mandando-se da India a Gonçalo de Sousa de Menezes,

morador na sua quinta de Salreo, a semente do legitimo chá, elle a

mandou semear com todo o cuidado, e nasceu a mesma erva de que aqui se

acham revestidos os campos e os comaros.»[21]

Não ha duvida nenhuma: o chá da India é a _erva formigueira de Aveiro_.

E dizem que nós, os portuguezes, não somos gente para descobrimentos! O

que nós somos é uns prodigos e despreciadores dos mananciaes de riqueza

que a Providencia nos offerece como a filhos seus dilectissimos. Se

alguma companhia entrasse em exploração d'aquella mina, quem sabe se,

fechados os portos á erva indiatica, poderiamos ainda com o nosso chá

amortisar a divida externa, e metter a Europa n'uma infusão de erva

formigueira? Razão tinha o patriota doutor Olho de Vidro, quando em

seguida á noticia, que os coevos menosprezaram, ajuntou: «Quem quizer

indagar-lhe os prestimos, com facilidade o póde fazer, se acaso não fôr

do genio d'aquelles que fazem eterno capricho de preferir sempre as

coisas estrangeiras ás nacionaes e domesticas.»

Transferiu-se Braz Luiz para o Porto, ao começar o anno de 1718.

Estreiou-se auspiciosamente. Açambarcou a clinica dos mais acreditados,

e manteve-se com recato e honra no tocante ás venialidades do coração,

tomando em conta o muito que lhe importava desmentir a má fama grangeada

em Lisboa.

No fim de seis mezes, offereciam-se-lhe vantajosos enlaces com raparigas

bonitas de sua pessoa, rubras e sadias d'aquelle antigo sangue e pojante

saude do Porto, e demais a mais, ricas, das mais ricas das ruas dos

Pellames, Congostas e Mercadores.

Não se atrigou com a felicidade das propostas. Sobrava-lhe dinheiro,

estipendio das suas curas estupendas com inxundia de pata, olhos de

minhocas, agua benedicta de Rulando, olhos de caranguejo e esterco de

rato fresco.[22] O coração cedia á freima com que elle trazia empunhada

a cabeça em estudos medicos, estudos poeticos, toda a casta de sciencia,

como sujeito que tinha em vista a immortalidade, de que a sua memoria,

se está gosando e gosará, emquanto o seu _Portugal Medico_, e a sua

_Vida de Santo Antonio_ e este meu romance forem livros conspicuos.

Em outubro de 1718, chegou ao Porto uma senhora da Beira Alta, muito

adoentada, trazendo em sua companhia uma filha. A enferma, desenganada

pelos medicos na sua terra, ia procurar, como em ultima estancia, a sua

cura na milagrosa reputação de Braz Luiz de Abreu.

Chamava-se a doente D. Antonia da Piedade, e a filha D. Josepha Maria de

Castro. Aquella senhora tinha visto muito mundo, queria contar ao seu

medico extraordinarios lances da sua vida; mas as dores incessantes

apenas lhe davam tempo para gemer, não obstante os esmerados disvelos do

doutor. Os padecimentos recrudeciam, quando á pobre senhora lhe acudia a

lembrança de que deixava n'este mundo sua filha desamparada, sem

parentes, bem que ella os tivesse ricos. Bem quizera Braz Luiz, com a

alma poetica e affectuosa que tinha, entrar no segredo d'aquellas duas

vidas; mas as reservas das senhoras impunham respeito e calavam-lhe de

prompto as investigações indelicadas. D. Josepha Maria tinha vinte e

três annos; era formosa, extraordinariamente instruida, fallava a muito

custo a lingua portugueza, e com sua mãe expressava-se sempre na lingua

franceza. Braz Luiz de Abreu não se deteve a perguntar ao seu espirito

se lhe convinha amal-a; amou-a impetuosamente, desde que a viu; amou-a

perdidamente desde que a ouviu.

D. Antonia falleceu no principio de novembro. As suas ultimas palavras á

filha foram estas: «Perdoa-me ter-te eu dado o nascimento, desgraçada

menina. Agora, que vae morrer a mulher maldita dos seus, vae tu procurar

os teus parentes, e diz-lhes que não és culpada dos delictos de tua

mãe.» Braz ouvira estas palavras, e disse, ajoelhando ao pé da filha:

--Abençoae a nossa união.

--Eu vos abençôo, meus filhos--murmurou a moribunda.

IX

Poeta e moralista

Casaram.

As delicias do noivado agoiravam santos prazeres de toda a vida.

O esposo entrou nos segredos d'aquella familia, imperfeitamente

referidos por sua mulher, que os não sabia bem contar. O essencial da

historia era ter ella sangue judaico, e ter nascido no desterro, onde se

finou seu pae. Lances d'estes eram vulgarissimos n'aquelle tempo.

Declarou ella que sua mãe não se chamava Antonia, nem o seu appelido era

Castro. O mysterio, a perseguição, a formosura, a indole meiga, tudo

cooperou a robustecer o amor de Braz Luiz, que, desde a hora de marido,

começou a contar os seus dias de vida.

Tinha vinte e seis annos elle. Mais que nunca lhe inundaram alma

enchentes de poesia. Os sonetos rompiam como lavas e aos pares. Um

conservou elle no seu livro de medicina. E que engenhosa maneira de

mandal-o á posteridade! Como não era coisa bem cabida um soneto de

amores conjugaes entre duas receitas para conservar os cabellos,

attribuiu como feito aos cabellos de Maria Santissima o soneto com que

eternisára as madeixas de sua mulher. Vejam como elle o diz, querendo

encarecer a formosura de um opulento cabello: «Temos um heroico exemplo

na Magdalena, que ainda dos mesmos cabellos, que lhe cresciam, formou

toalha para enxugar os pés de Christo lavados com suas lagrimas...

Veneremos a profunda humildade de Maria Santissima mysticamente figurada

n'aquelle cabello admiravel, em o humilde discurso d'este

SONETO

«Teus cabellos, teus olhos basta vel-os,

Compondo o rosto teu, que ao sol prefere,

Ó minha esposa, porque a fé venere

A amorosa ambição de pretendel-os.

«Nem porque muitos são chego a querel-os,

Antes por qualquer um amor requere,

Um dos olhos o coração me fere,

Prende-me a alma um só d'esses cabellos.

«N'um dos olhos por pura te comprehendes,

N'um cabello a humildade sem refolhos,

Dás a entender em symbolos bemquistos:

«Por isso humilde e pura tu me prendes;

Que se um dos olhos me entra pelos olhos

Um dos cabellos me ata a olhos vistos.»[23]

O soneto, para ser feito a Nossa Senhora, não é bom modelo para

mysticos; porém, como brinde á estremecida Josepha, é o melhor de que eu

tenho noticia, e ella, a meu ver, devia lisongear-se notavelmente.

O que ella lhe deu melhor ainda do que o soneto foi uma filhinha, que

chamaram Anna Maria, e no anno seguinte outra filhinha, que chamaram

Maria da Natividade, e depois outra que se chamou Thereza de Jesus, e

depois Antonia Maria, e depois Sebastiana Ignacia, e depois Agostinho

Luiz, e depois Pedro José, e ultimamente Raphael, que morreu ao segundo

mez de nascido. Ora aqui tem, leitor sensivel, um quadro perfeito de

felicidade terreal: cinco filhas e dois filhos, vivos e robustos, em

nove annos. Dito isto, por mais que me eu aprimorasse em recamos do

estylo e maviosidades de sentimento no descrever as venturas d'aquella

familia, tudo me sairia froixo e muito em sombra. As creancinhas são os

anjos que pintam os quadros da vida intima com côres e instincto do céo.

Quem quer dizer «suprema e indisivel felicidade» não tem mais que pôr:

«eram dois paes amando-se muito com sete filhinhos entre elles a

beijarem-n'os, a beijarem-se, e a chilrearem como avesinhas implumes em

volta do ninho que lhes dá o aconchego da plumagem e do cibo.»

Sem impedimento de sete filhos, fartos e aceiados, o doutor ia

enriquecendo, e repartia seu tempo, roubado ás caricias da familia,

entre os trabalhos de gabinete e visitas ás pessoas mais illustres e

pecuniosas da terra. A fama dos seus bons costumes e religiosidade

fallou por elle no tribunal da inquisição, quando lá chegou o

requerimento documentado pedindo as honras de familiar do santo officio.

Concederam-lh'as sem hesitação, porque os medicos, como senhores do

arcano intimo das familias, eram os mais importantes sentinellas da

pureza da fé. Não só os sãos costumes, que tambem um livro de summa

piedade e vasta erudição, lhe ganharam as honras e privilegios de

familiar. Este livro, publicado em 1725, e ainda hoje relido com devotos

fervores por quem sabe gastar com acerto e bom juro o seu tempo,

intitula-se «Sol nascido no occidente e posto ao nascer do sol. Santo

Antonio portuguez. Epitome historico e panegyrico da sua admiravel vida

e prodigiosas acções.» N'aquelle tempo, não houve livro que ousasse

medir-se com as elegancias e pompas d'aquelle _in-folio_, para o qual

devêra inventar-se a eternidade, se ella não andasse já por ahi á

disposição das obras inuteis.

D. Josepha, posto que viesse de Paris quasi nada disposta a crer nos

milagres de Santo Antonio, depois que leu a obra de seu marido,

reduziu-se á pureza da fé catholica, e revalidou as ceremonias do

baptismo, para se limpar de escrupulos. Não seria esta a razão

efficiente; mas parecia ser.

No anno seguinte, Braz Luiz saiu com outro volume de egual tamanho, bem

que menos importante á salvação da alma. Todavia, choviam bençãos sobre

o sabio que primeiro curava almas achacadas de vicios, e depois dava á

humanidade enferma, como coisa secundaria, um livro que olhava a

minorar-lhe os flagellos corporaes. Eis aqui o titulo d'este padrão da

medicina portugueza: «Portugal medico, ou monarchia medico-lusitana.

Historica, pratica, symbolica, ethica e politica. Fundada e

comprehendida no dilatado ambito dos dois mundos creados, macrocosmo e

microcosmo.» Estes dizeres podem chamar-se o cabeçalho do titulo, que se

continua em vinte linhas. Assim o declaro para que se não julgue da

superficialidade da obra pela pequenez d'aquelle rotulo. Braz Luiz de

Abreu dedica o seu livro ao principe do Brazil D. José Francisco, e

assigna-se _medico portuense e familiar do santo officio_, assentando

n'estas qualidades dois titulos á consideração publica.

Este livro, a meu ver, é a mais pittoresca historia dos costumes

d'aquelle seculo. Ninguem lê o _Portugal Medico_, e poucos sabem que

desprezado thesouro alli está. Como author de livros de medicina é

vilipendio nosso que Braz Luiz seja contado na lista dos escriptores

medicos, de par com os Zacutos, com os Veigas, e com Jacob de Castro

Sarmento; como relação das usanças do seculo XVIII, não ha novella nem

poema satyrico em portuguez que lhe chegue á barba.

Onde me dá o leitor a conhecer o que eram os medicos estrangeiros em

Portugal? Quaes gazetas do tempo ou quaes poetas mordentes nos deixaram

traços da chusma de charlatães, naturaes e peregrinos, que se

locupletaram entre nós, favorecidos pela crassa bruteza a que tinha

descido a faculdade medica em Portugal! Nenhum livro de prosa ou verso,

nenhuma publicação coeva nol-o diz, exceptuado o livro obscuro ou

escarnecido do Olho de Vidro.

Para mim é de fé que o leitor, nem ainda peitado por estes encomios, vae

folhear o _Portugal Medico_. Pois eu, mas que me alcunhem de

impertinente, vou dar-lhe em traslado coisa pouca d'este curioso livro,

que é mais historia que as chronicas dos Azuraras e Pinas, e mais

comedia humana que as comedias de Gil Vicente e do Judeu.

Ácerca dos medicos estrangeiros:

«Enfada-se de ser soldado na Italia um romano; passa a Portugal, e

constitue-se um famoso espagytico florentino. Foge da sua religião feito

apostata um francez; aporta em Lisboa, e inculca-se por um insigne

medico portuguez. Quebra em Hollanda um mercador; busca o nosso reino, e

vende-se por um peritissimo physico hamburguez. E até entre os nossos o

que é alveitar no Minho passa a ser medico no Algarve; o que é cirurgião

na Extremadura vae buscar o gráo de doutor ao Alemtejo; e de boticario

da Beira, se converte em Galeno de Traz-os-Montes; e d'esta sorte

espalhados e desconhecidos, morrendo por viver da sua necessidade, vivem

de matar com a sua medicina, e atormentando a todos sem piedade, ferem

sem pena e matam sem castigo...

O Olho de Vidro · 第 4 / 11 段