constitucionaes.
A monarchia recorreu então aos gabinetes pittorescamente classificados
pelo publico de «_ministerios nephelibatas_», fazendo successivas
experiencias que só tem servido para desacreditar novos homens
desacreditando o paiz.
Por ultimo, chegamos á deploravel situação actual, que a muitos se
affigura insoluvel, tendo imminente uma declaração official de fallencia
e a fiscalisação dos credores extrangeiros.
Ora isto não se occulta nem se defende em nome do patriotismo.
Combate-se e combate-se até á barricada.
Felizmente que no partido republicano portuguez ha muita gente disposta
a jogar a vida pelo seu paiz sem inquirir do _preço_ do sacrificio.
Não são esses os que desacreditam o Brazil!
* * * * *
O partido republicano portuguez, tão calumniado pelos nossos
adversarios, mas sempre tão superior ás calumnias pela sua conducta
altamente digna e patriotica, é hoje o unico partido nacional, o unico
sob cuja bandeira tem vindo acolher-se os homens de bem, os homens de
principios e de convicções e os desilludidos que ainda possuiam o brio e
o amor patrio sufficientes para renegarem, a tempo, a perigosa
solidariedade com os delapidadores da honra e do credito do seu paiz.
É longa a serie dos serviços absolutamente _desinteressados_ que á sua
terra tem prestado os membros da democracia portugueza, até hoje,
felizmente, ao abrigo das vergonhosas accusações que impendem sobre as
figuras sinistras da monarchia portugueza.
Pode bem affirmar-se que comnosco estão hoje em Portugal os elementos
sãos da sociedade portugueza. O nosso pessoal, recrutado no professorado
das escolas, no commercio, na industria, na propriedade, no capital, em
todas as classes sociaes, em todos os ramos da actividade nacional, é
hoje respeitado e justamente temido pelos nossos adversarios,
constituindo, com o appoio do povo, uma força poderosa e uma esperança
de rehabilitação para a nossa querida patria.
O simples parallelo entre os vultos em evidencia no partido republicano
e o pessoal monarchico basta para estabelecer entre nós e os inimigos da
patria uma differença radical e palpavel. Como vivem e de que vivem
elles? Como vivemos e de que vivemos nós? Interrogação bem simples mas
que basta para orientar o verdadeiro portuguez no caminho que lhe cumpre
seguir.
Os homens do partido republicano, ou vivem do trabalho honrado, tenaz e
persistente, não raro cortado de difficuldades e angustias de toda a
ordem, ou dos lucros do capital ou da propriedade adquiridos por esses
processos honestos e laboriosos. A sua existencia, divide-se entre a
satisfação das suas obrigações pessoaes e o cumprimento dos seus deveres
civicos. Usam de um nome impolluto e gosam de universal consideração.
Quaes os recursos da quasi totalidade dos nossos adversarios? Por nós
respondem o orçamento e as folhas de vencimentos. Vivem do Estado,
encrustados aos redditos publicos como o mexilhão ao rochedo, escravos
da mais ultrajante das dependencias, serventuarios de uma instituição
que lhes alquila as consciencias e lhes coarcta por completo a liberdade
das convicções e a independencia de conducta. Uma perfeita escravatura
branca, sem a attenuante da violencia e as sympathias que á humanidade
sempre despertou a causa dos negros.
A politica é para os primeiros um onus, para os segundos uma industria.
Para uns, uma sciencia, para outros um jogo da bolsa. Para os
republicanos, um meio de resurgimento patrio, para os monarchicos uma
profissão. E tanto assim que, não obstante os reiterados esforços da
democracia portugueza e até de alguns monarchicos bem intencionados,
ainda até hoje não conseguiu vingar em Portugal uma _lei de
incompatibilidades_.
O partido republicano portuguez, no cumprimento da nobre missão que se
impoz, tem levado ao excesso o seu profundo sentimento de dedicação e
respeito pela honra e prosperidade da Patria. Nas questões
internacionaes nunca elle trahiu uma prudente reserva ou deixou de
prestar aos governos do paiz o necessario appoio, sempre que este
procedimento não era incompativel com o direito e a rasão. Tambem jamais
negou o seu _placet_ aos actos dos adversarios que d'elle se tornassem
credores. Sómente, raras vezes teve o ensejo de assim se determinar,
porque raras vezes do ignobil _gachis_ constitucional afflora uma
individualidade que se recommende ou um acto de administração que se
imponha.
Iniciando dentro da sua propria constituição a obra moralisadora que
espera mais tarde effectuar no governo do Estado, a democracia
portugueza tem banido implacavelmente do seu gremio os especuladores
que, de longe em longe, pretendem deshonral-a, aviltando-a em accordos
indecorosos, em transacções inconfessaveis ou em procedimentos
contrarios ao espirito e á natureza da ideia que apostolamos, adquirindo
dia a dia sobre a opinião, por esta perfeita coherencia dos actos com os
principios, uma auctoridade legitima e incontestavel, postoque
apparentemente contestada pelos nossos implacaveis inimigos.
No seu programma de politica e administração, o partido republicano não
professa nem os radicalismos doutrinarios da metaphysica revolucionaria
nem tampouco esse opportunismo empirico dos estadistas de expedientes,
educados na trica indecorosa das instituições cuja missão historica
terminou. Educados nos principios da moderna escola positiva, tendo
sobre o governo e administração do Estado um criterio rigorosamente
scientifico, os homens da Republica impõem-se ao respeito e á
consideração publicas, a um tempo pelo seu valor moral e pela verdade
objectiva das doutrinas que de ha muito vem advogando na cathedra, no
Parlamento, na imprensa, nas aggremiações democraticas e nos comicios.
Á sua influencia sobre o espirito publico, exercida pelos processos da
propaganda a mais leal e a mais honesta, veio juntar-se, desde os
decretos liberticidas da dictadura de 90 e em especial desde o movimento
de 31 de janeiro, a tradicção do soffrimento nobremente supportado, sem
tibiezas nem desfallecimentos. Grave tem sido a crise que ha quatro
annos a democracia atravessa, convertida em alvo de todas as
perseguições e de todas as violencias, mas d'essa provação ella sahiu
mais nobre, mais honrada e mais triumphante do que nunca.
Nem os julgamentos, nem o carcere, nem o exilio, nem os infortunios de
toda a ordem, conseguiram nas nossas fileiras desfallecimentos ou
deserções. E, no entanto, quem sabe se as circumstancias de muitos dos
perseguidos não seriam de molde a absolvel-os da macula de uma
abdicação!
Não succedeu porém assim. Nem as promessas capciosas, nem a violencia,
nem a fome, poderam cousa alguma sobre os energicos temperamentos dos
nossos companheiros de lucta. Este facto, que constitue um exemplo e uma
esperança, é bastante para attrahir á nossa causa uma illimitada
sympathia.
O partido republicano é portanto, como dissemos, o unico partido
patriotico, o unico partido honrado, o unico partido com bandeira,
ideias, principios, orientação e plano rigorosamente scientificos,
orientado pelas necessidades moraes e materiaes da sociedade portugueza.
N'uma palavra, é o unico partido nacional.
E porque o é, e porque constitue hoje, em face da cabala monarchica, uma
legião formidavel, dia a dia accrescida por numerosas adhesões, e porque
a auctoridade dos seus homens, a seriedade do seu programma e a justiça
da sua causa se impõe irresistivelmente, tem a soffrer n'este momento,
que a monarchia considera decisivo, uma guerra feroz e sem quartel dos
interesses vinculados ao existente que contra ella colligam os ultimos
elementos de defesa.
D'esses elementos, um dos mais importes, até sob o ponto de vista dos
recursos materiaes (segundo se lhes affigurou ao dementado criterio) era
o sebastianismo luso-brazileiro que elles, na sua ignorancia dos
acontecimentos e da indole da grande nacionalidade sul-americana,
julgaram possuidor de todas as condições de exito.
Enganaram-se. Foram vencidos. E tamanha foi a derrota que devem ter
perdido todas as velleidades de recomeçar.
Se tivessem triumphado, as violencias contra a democracia portugueza
redobrariam de intensidade. Fortes do appoio do Brazil, os monarchicos
portuguezes não reconheceriam limites á sua criminosa insania.
Por isso sempre consideramos a lucta civil brazileira que parece ter
terminado como uma questão gravissima para o partido republicano
portuguez.
* * * * *
De principio, apesar de affastados do theatro dos acontecimentos, se nos
affigurou que aos acontecimentos de 6 de setembro não eram estranhos os
manejos dos especuladores monarchistas e, sendo assim, logo suspeitamos
que a elles se alliassem as figuras desacreditadas da politica
monarchica portugueza. N'esta como em circumstancias identicas
continuavamos a depositar a mais absoluta confiança na reconhecida
inepcia da firma Bragança-Orleans.
De resto, a apparente submissão dos velhos partidarios do imperio, apoz
o 15 de novembro, nunca nos illudiu e sempre nos quiz parecer que esse
doce quietismo só servira para tranquillisar os defensores sinceros e
convictos das ideias republicanas, dando aos elementos hostis á nova
ordem de cousas o tempo necessario para, restabelecidos do primeiro
movimento de surpreza, se prepararem para a resistencia.
«A situação politica do Brazil resente-se de vicios de origem que
só agora vão emergindo á luz da critica e da verdade historicas.
Aquelle 15 de novembro, tão apregoado em dithyrambos varios, como
cheio de paz, de harmonia e de fraternidade, havia de, mais tarde e
por força de uma logica indiscutivel, produzir o que produziu. Não
se modificam sem violencia, não se transformam sem abalo, condições
de existencia vinculadas ao tempo e aos interesses creados. Estes
defendem-se quanto e emquanto podem e, ou o antagonismo se traduza
na lucta franca e aberta á mão armada ou se enkyste no escuro dos
conciliabulos ou nos recessos da conspirata, o facto positivo e
real é que existe e só vencidos nos ultimos entrincheiramentos os
conspiradores succumbem.
Em 15 de novembro a propaganda republicana estava feita, mas o
Imperio tinha ainda as solidas raizes das clientellas constituidas,
dos interesses creados á sua sombra e a circumstancia, bastante
ponderavel, do velho Imperador disfructar _pessoalmente_ uma certa
estima. Ora, transformar radicalmente este estado de coisas pelo
processo pachorrento e ordeiro do 15 de novembro, é impossivel!
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É o que está succedendo no Brazil e o que por certo continuará a
succeder, até que novo estado de equilibrio produzido pela
concorrencia de novas forças se consolide por fórma a não poder ser
facilmente alterado».[2]
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«A lucta que desde 6 de setembro tem por theatro o territorio da
Republica irmã era necessaria, era mesmo indispensavel á
consolidação das novas instituições.
Sempre o previmos, e n'_A Voz Publica_ manifestamos mais que uma
vez as nossas ideias n'esse sentido. Parecia-nos demasiado pacifica
a transformação de 15 de novembro e logo auguramos á covardia
adhesista dos primeiros momentos largas tropellias em épocas mais
desafogadas e mais livres.
Por muito que uma fórma politica esteja condemnada pela opinião,
por muito odioso que um determinado regimen se tenha tornado pelos
seus actos, pela sua vetustez em face das conquistas do direito
moderno, ha sempre uma larga cohorte de apaniguados que não se
resignam facilmente á sua queda:--é a legião de interesses
vinculados ao antigo estado de cousas cujo centro de gravidade as
revoluções perturbam e deslocam.
Sem principios, sem convicções, sem crenças, sem outro ideial que
não seja a cevadeira, essa gente, muito covarde para reagir com
risco, mas muito gananciosa para se deixar vencer sem protesto,
constitue durante largo periodo um dos mais terriveis obstaculos á
consolidação da nova ordem trazida pelas grandes convulsões
transformadoras e fecundas.
O exterminio d'estes factores regressivos é mais difficil do que a
muitos se se affigura, porque os seus processos de reacção
conseguem dissimular-se habilmente a todas as pesquizas, até o
momento de ferir-se o grande golpe, o golpe decisivo.
Obram pela surpreza, pelo descredito, pela calumnia e pela
diffamação; opéram pelo systema das resistencias passivas, das
insinuações surdas, das meias palavras, cheias de fel e de veneno.
Empregados publicos, entravam o expediente dos negocios e revelam
os segredos profissionaes, atraiçoando a confiança dos seus
superiores;--militares, manteem nas casernas o espirito de
indisciplina e fornecem ao inimigo informações preciosas;
banqueiros, inundam a Europa com noticias falsas, levando o
descredito a toda a parte, aterrando o capital e a propriedade,
assustando o crédor e difficultando as operações.
N'este trabalho de toupeira, tenaz e persistente, por via de regra
insuccedido afinal, é incalculavel o numero de victimas causadas
pelo egoismo deshumano e sordido d'estes caracteres sem senso moral
e sem outro movel que não seja a satisfação de inconfessaveis
appetites.
Uma multidão de illudidos paga com a vida ou com os haveres os
sordidos calculos d'essa gente sem pudor, que não raro consegue
subtrahir-se ao justo castigo de suas proezas, abandonando os seus
apaniguados e auxiliares nas horas de infortunio e provação.
Entretanto, como a acção dos generaes é impossivel sem soldados,
basta que estes sejam dominados para que aquella cesse e se
annulle.
É o que se está passando no Brazil. A Republica soffre n'este
momento a colligação de todos os odios, preconceitos e interesses
do velho regimen que, embora apparentemente conciliados com as
novas instituições, contra ellas põem em acção desde o 15 de
novembro, um trabalho de sapa, cujas manifestações agressivas
vieram agora exteriorisar-se.
Mas por isso mesmo que o sebastianismo põe n'este momento em
pratica todos os seus recursos; mas por isso mesmo que elle sente
que a sua sorte se joga, n'esta suprema cartada;--por isso tambem
mais decisiva e fecunda será a victoria da Democracia,
definitivamente soberana em toda a America.
É difficil a prova porque actualmente passa a Republica irmã, mas é
salutar e necessaria. Preciso se tornava purificar o ambiente
democratico dos velhos miasmas imperialistas e esta missão,
depuradora e hygienica, não se leva a cabo sem lucta, sangue e
sacrificios de toda a ordem».[3]
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Comtudo, desde o principio e durante todo o periodo revolucionario, a
nossa confiança no resultado da lucta manteve-se inabalavel, em parte
por virtude de um certo conhecimento dos homens e das cousas do Brazil,
em parte pela analyse das origens da lucta, em parte talvez arrastados
por esta crença sincera do propagandista democratico no bom exito da sua
causa e na victoria final do Direito.
«O simples bom senso e um conhecimento, embora imperfeito, do
caracter, dos costumes e da indole do povo brazileiro e das
Republicas limitrophes, bastariam para levar os especuladores
impenitentes ao convencimento da absoluta impossibilidade na
realisação do sonho imperialista, lenda que é de hontem e que, no
entanto, parece diluida já nas brumas de um passado longiquo.
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«Novos interesses, nova orientação, novos processos de lucta, mais
livres e mais apaixonados, remodelação completa de velhos e
carunchosos organismos, tudo isto contribue para um desequilibrio
momentaneo, que mais tarde se traduz em eras de exuberante
fecundidade e em largos periodos de paz octaviana
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Mas, collocando a questão no campo verdadeiramente pratico, é
evidente que as mesmas causas que desde 15 de novembro contribuiram
para protelar as resistencias, são precisamente as que hoje tornam
irrisoria qualquer tentativa de restauração imperialista, conclusão
ainda avigorada pela natureza constitucional da nova Republica.
Assim, hoje a Republica no Brazil, decorridos tres annos desde a
sua proclamação, teve tempo de a si vincular solidos interesses,
novos, ardentes, vigorosos, cheios de vida e de seiva, que só
poderiam ser combatidos efficazmente por interesses contrarios,
egualmente importantes, alliados a dedicações serias pelo passado,
hypothese que não se realisa como a todos é patente.
A constituição federal da Republica Brazileira é tambem um estorvo
decisivo a uma restauração imperialista. Além dos interesses
privados a que nos referimos, ha ainda os interesses peculiares aos
diversos Estados que com a liberdade de governar-se e
administrar-se adquiriram o amor da liberdade e o espirito de
independencia, sentimentos difficeis de apagar-se, quando uma vez
se lhe experimentaram os beneficios.
Em terceiro logar, o sebastianismo, representante de uma ideia
morta, nem sequer tem a attenuar-lhe a impotencia uma d'estas
figuras onde se crystallisam ideias e aspirações extinctas, um
principe novo, decorativamente bello, um heroe de romance d'estes
que fazem palpitar o coração das mulheres e vibrar o enthusiasmo as
multidões, civica e intellectualmente atrazadas.
Todas estas razões, posta já de parte a anormalidade de existencia
de uma monarchia em plena democracia americana, seriam bastantes
para levar o desanimo ao mais intransigente sebastianista, se acaso
a intransigencia absoluta fosse alguma vez susceptivel de reflexão.
O maior infortunio que hoje poderia succeder ao Brazil seria a
restauração imperialista. No estado em que esse paiz de encontra, o
resultado era facil de prever:--ou uma tentativa ephemera, ridicula
pela sua pequena duração, ou o desmembramento do Brazil nos Estados
que o constituem.
Por isso pódem aventar-se sobre o Brazil as mais disparatadas
hypotheses, porque, na falta de informações positivas, a liberdade
de phantasia é de lei. Todas absolutamente, menos a do regresso ao
regimen monarchico, porque essa cahe pelo ridiculo».[4]
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«Só á força de violencias e de crueldades seria possivel,
_momentaneamente_, pelo terror, implantar no Rio um novo imperio de
comedia, entre burlesco e sinistro, mixto de Offenbach e de
Cartouche, destinado em curto praso á ignominia da expulsão».[5]
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«Avisinha-se a hora em que, segundo todas as probabilidades,
triumphará a causa da legalidade e da ordem, restabelecendo o
imperio da Constituição, violada pelos que a dizem offendida,
postergada pelos que a dizem trahida.
Hora abençoada será essa para aquelles que muito amam o Brazil e a
integridade das bôas, sãs doutrinas democraticas. Hora abençoada,
repetimos, porque se os cidadãos brazileiros anceiam pela paz da
grande Republica, tambem nós, republicanos portuguezes, a
desejamos, em nome da patria, em nome da nossa causa».[6]
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«É porque ponderando serenamente os acontecimentos, sem as paixões
da especulação que desvirtuam a justeza de vistas indispensavel ao
articulista politico, viu desde logo que, a dar-se uma restauração
monarchica, ella teria uma existencia ephemera, deixando da sua
passagem apenas a memoria de uma convulsão politica e o sangue de
algum novo Maximiliano, immolado ao avido sebastianismo de
desalmados especuladores»[7].
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«De muito longe, d'este cantinho da Europa, não podemos deixar de
sentir por esse honrado velho o (_marechal_) a maior das
sympathias, experimentando ao mesmo tempo uma profunda alegria por
ver que, a despeito das intrigas, das villezas, das calumnias e das
abjecções e villanias postas em pratica pelos sectarios da
corrupção imperialista, é o Direito quem afinal triumpha, é a boa
causa que vence afinal, a peito descoberto, sem fintas, nem
emboscadas, nem traições, os seus incorrigiveis e impenitentes
adversarios!»[8]
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«E o caso não é para menos, porque a série dos fracassos tornou-se
interminavel, assumindo mesmo, não raro, um tom burlesco que não é
precisamente o que mais quadra a realezas e palacianismos, nem com
maior brilho e lustre exorna as monarchias. Custodio batido e
doente, Saldanha em circumstancias criticas, principe do Grão Pará
diluindo as saudades no sport velocipedico, os Estados do Norte
tranquillos, a população adherindo em massa ao governo legal.
Realmente, a perspectiva não é lisongeira, e os Braganças, ao que
parece, terão de limitar a sua esphera de influencia, emquanto Deus
for servido, ao abençoado torrão lusitano, á beira mar
plantado»[9].
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A revolta foi recebida em Portugal, com a maior alegria, pela imprensa
monarchica. _Ab initio_, as folhas da grey appoiaram decididamente o
movimento, como se das suas origens, da sua legitimidade e até dos seus
recursos e trabalhos preparatorios tivessem o mais perfeito
conhecimento, o qual, logicamente e em face das informações
contradictorias que do Brazil nos chegavam, só podia explicar-se por uma
_entente_ previa com alguns dos elementos interessados no movimento
Custodista.
Havia mesmo certas razões para suppol-o. Um mez, approximadamente, antes
da revolta da esquadra, um amigo nosso e dedicado correligionario,
prevenira-nos de que alguma cousa grave ia passar-se, e fundamentava as
suas apprehensões em meias palavras ouvidas a um conhecido
sebastianista, que já de ante-mão ia saboreando a victoria.
A imprensa republicana manteve, no começo, uma prudente reserva,
limitando-se a inserir, quasi sem commentarios, as noticias e
informações que iam chegando, por via postal ou telegraphica. Mais
tarde, porem, logo que a situação se definiu um pouco, collocou-se
abertamente ao lado do governo do marechal.
Nós, áparte talvez uma antiga sympathia pelas cousas do Brazil, que nos
levava a dedicar-lhes particular attenção, possuiamos os mesmos
elementos de informação dos nossos collegas, mas d'esses, logo um bastou
para determinar-nos:--a attitude da imprensa monarchica.
Se esta, dada a sua indole e os seus precedentes, defendia _á outrance_
a causa dos revoltosos, é porque evidentemente a questão, no fundo, era
um simples jogo monarchista, dissimulado sob especiosos pretextos. A
nós, portanto, cumpria-nos desde logo perfilhar a doutrina opposta, ao
lado da qual, por certo, combatiam a moralidade e o direito.
Ainda uma outra circumstancia vinha em nosso auxilio. O partido
republicano historico brazileiro appoiava quasi na integra o governo
legal, e com este estavam tambem o Congresso e o Senado. Como, portanto,
classificar de _dictador_ o marechal Vice-Presidente e o seu governo,
sem perigo de manifesto absurdo?...