_cocottes_ de Offenbach, e dos modernissimos _maestrinos_ da decadencia
se desengonsam em scena, fazendo gestos desmanchados e sublinhando com
sorrisos torpes as suas cantilenas de _café-concerto_, debalde a
procurei pelas frisas, e pelos camarotes, applaudindo as farçadas
impuras, e dando gargalhadas que attrahissem a attenção e os maliciosos
commentarios da platéa.
Nas noites de verão, no Passeio Publico, quando ha musica, fogo de
artificio, muito calor e muito aperto, e as meninas burguezas que ainda
não podem gozar da _villeggiatura_ elegante, passeiam com _toilettes_
claras, na plena expansão da _flirtation_ lisbonense, confesso que
muitas vezes atravessei a multidão, pisado, empurrado, offegante, sem
respeito pelas caudas de seda, de _foulard_, de linho transparente, que
para alli vão desfructar o prazer de se encherem de poeira e de rasgões,
e que debalde procurava reconhecel-a em cada vulto feminino, esbelto,
gracioso, que passava pisando a areia das ruas, com o tacão alto das
estreitas botinas de pellica.
Até comecei a frequentar S. Luiz, a igreja da devoção fidalga, do
arrependimento perfumado de _poudre d'iris_, do mais alto, do mais
distincto e do mais desdenhoso beaterio...
Vi todas as nossas flores da _alta vida_, trajando com discrição
finamente aristocratica, revelando a elegancia que as distingue, no modo
de se ajoelharem, de se persignarem devotamente, de erguerem os olhos
com extasi piedoso, para a imagem alabastrina da Virgem, que parece
erguer-se como um lyrio desabrochado, d'entre as verduras e as brancas
florescencias que a cercam de todos os lados.
Vi-as descalçarem, das suas estreitas luvas de cinco botões, as mãos
esguias, avelludadas, feitas da alvura dos marfins; vi-as curvarem-se
até ao chão, humilhadas, contritas, mas sempre correctas; lerem uma
oração privilegiada, em cada um dos quatro ou seis grossos volumes
devotos que trazem comsigo, beijarem com felina graça as mãos
rechonchudas e macias dos louros abbades francezes, disputarem entre si
com delicadeza, não inteiramente isenta de colera, a sua vez de
confissionario, e de confidencias adocicadas e asceticas; mas nenhuma
d'essas encantadoras filhas de Eva, com os seus gestos miudos, os seus
movimentos ondeantes de serpente, as multiplas seducções da sua
artificial formosura, me deu a idéa boa, sã, carinhosa, como um affago
de mãe, que eu tivera vendo-a, a ella.
Escuso de accrescentar que _ella_ não se encontrava entre essas todas.
Um dia porém,--que bom dia aquelle!--tornei a vel-a em casa de uma amiga
de minha mãe.
Não me pareceu bella, pareceu-me boa, mas de uma bondade em que a
belleza não deixava de entrar, embora como elemento secundario.
Estava com as suas amigas em volta de uma grande mesa de serão. Largára
um pequeno trabalho da agulha, e começara a lêr alto a pedido de todas
as companheiras.
Lia um livro de Michelet, _L'insecte_.
Tinha a voz grave, sonora, musical, como eu sempre imaginei que havia de
ser; a luz coada pelo globo fosco do alto candieiro, banhava de vagos
tons dourados o seu cabello simplesmente penteado, torcido n'um grosso
rolo luminoso sobre a nuca torneada e forte.
Não me lembro bem de como estava vestida, signal de que era tão
despretencioso o seu trajo que não prendia nem demorava a attenção.
Havia de ser por força bastante distincto para lhe não alterar a graça;
bastante singelo para não dar um aspecto de artificio á sua natural e
casta formosura.
Emquanto a ouvia ler, parecia-me comprehender melhor aquella grande alma
luminosa do velho Michelet.
E sentia em mim a vivificante sympathia da natureza, o amor dos
pequeninos, a ternura comprehensiva para tudo que vive, que sente, que
palpita na enorme Creação.
Quando acabou de ler, fechou o livro, e naturalmente, sem languidez, sem
cansaço, pegou de novo no trabalho, e recomeçou a bordar.
Aproveitei o ensejo e sentei-me n'uma cadeira vaga ao seu lado.
Conversámos muito. Em muita cousa, em quasi tudo.
Era um gosto ver de perto a luz tranquilla e doce d'aquelle olhar azul
escuro, reflectido, serio, innocente.
Não baixava os olhos deixando transparecer nas faces rubor intempestivo;
tinha um modo seu de olhar, franco, sincero, de uma limpidez de lago
suisso em que se reflectisse o largo céu da primavera.
De vez em quando ria-se.
Que musica crystallina a do seu riso!
Uma das vezes lembra-me, que seguindo o falso pendor da nossa detestavel
educação de sala, fui sentimental, sem dar por isso, de uma
_sentimentalidade_ piegas, da que produz sempre um certo effeito no
espirito das meninas que _valsam_.
Levantou subitamente a cabeça, como se ficasse um tanto surprehendida,
como se tivesse agourado melhor de mim, á primeira vista.
Depois, não sei o quê, provavelmente a expressão alambicada da minha
cara, desafiou-lhe a vontade de rir, uma vontade de rir irresistivel!
Coitadinha! Que bem educada que ella é!
Suffocou aquella boa hilaridade tão espontanea! Disfarçou perfeitamente
o effeito comico que eu lhe produzira, isto com uma graça, tão cheia de
infantilidade!
Castigou-me melhor assim, do que outra qualquer fingindo um enleio
theatral.
D'alli a nada, a dona da casa, uma senhora de aspecto muito distincto e
muito bondoso, veio pedir-lhe com grande empenho que fosse para o piano.
Levantou-se docilmente, e tocou e cantou emquanto quizeram ouvil-a!
Era a simplicidade, a graça, a mais delicada intuição artistica, isto
acompanhando uma vocação musical deveras notabilissima.
Nem uma só d'aquellas languidas arias italianas, de um sentimentalismo
tão dissolvente e que parecem banhar a alma que as escuta n'um tepido
banho de caricias molles!
Musicas graves e de uma austera melancolia como as dos mestres allemães;
ou musicas graciosas, ligeiras, scintillantes, inoculando no espirito
uma sensação de frescura matutina, de robusta alegria, levando-nos atraz
das suas notas de crystal, pelas pradarias illuminadas da luz das
alvoradas estivas, onde os melros maliciosos assobiam, saltando de ramo
em ramo!
Quando sahi d'alli, d'aquella casa hospitaleira, em que o espirito
parecia dilatar-se affectuosamente, pensei de mim para mim que ella
havia de ser minha mulher!
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...Sabes uma cousa? Temos um filho! Estas palavras a ti não te dizem
nada, a mim banham-me o coração n'uma alegria que em lingua humana se
não póde exprimir.
A deliciosa canção da minha felicidade, canto-a eu em beijos chilreados,
no corpinho roliço e avelludado, no corpinho de leite do meu primeiro
pequenino!
Vivemos em um bairro pouco central, em uma rua muito socegada, onde
passam pouquissimos trens, e onde se não ouve o pregoar rouquenho dos
vendilhões ambulantes.
O nosso orçamento é de uma exiguidade que faz rir, mas não sei porque
minha mulher tem a habilidade de fazer render da maneira mais milagrosa
os nossos modestissimos haveres.
Creio que se ámanhã me visse rico, não podia ser tão feliz.
Se eu fosse rico, havia de ter criados, não é verdade? Criados graves,
solemnes, de olhar sonso, que vivessem da minha vida, que maculassem com
a sua ironia baixa as santas expansões do meu affecto de marido e de
pae, que invejassem a minha felicidade, que calumniassem as minhas
intenções, os meus actos, a minha vida toda!
Ao jantar um ou dous d'aquelles figurões altos, espadaudos, ociosos,
vestidos de preto, haviam de espreitar com olhar guloso cada bocado que
eu mettesse na bôca; teria um cozinheiro gordo, de barrete branco, que
me fizesse molhos indigestos, uma criadinha de quarto buliçosa, e
petulante que se risse do _burguezismo_ pacato dos meus habitos.
Viveria escravo, preso nas malhas de ouro, d'esta grande rede que se
chama a riqueza.
Receberia muitas visitas, muita gente indifferente ou hostil, que viesse
para me bajular, e que se fosse embora para me morder traiçoeiramente
pelas costas.
Uma governante ingleza empavezada, grotesca, um pouco pedante, cortaria
na sua flôr, na querida alma transparente do meu pequeno anjo, os
carinhos, as expansões innocentes, os risos inextinguiveis e sem causa,
tudo que é hoje a nossa alegria!
E depois, habituado ao luxo não sentiria o conchego! Satisfeitos até á
saciedade todos os desejos, não teria nunca a boa, a vivificante
sensação do obstaculo vencido!
E o socego depois do trabalho! E as alegrias da posse, quando o objecto
longo tempo cubiçado, para alcançar o qual se fizeram tantas economias,
se supportaram tantas privaçõesinhas, nos apparece emfim em todo o
prestigioso brilho do impossivel, que de repente se deixa conquistar!
Ai! as minhas alegrias de pobre, que saudades que eu terei d'ellas mais
tarde!
Mas, meu querido A., não comeces tu agora a lamentar-me imaginando-me
novo monge entregue ás austeridades da penitencia voluntariamente
acceita!
Não te disse eu que uma boa mulher que nos ame, e que nos saiba amar, é
um thesouro inestimavel, que o homem desdenha, e que por isso, se tem
feito tão raro?
A minha casa não tem estofos de seda, não tem custosos moveis de
carvalho entalhado, não tem frageis porcellanas de Saxe, de Sevres ou do
Japão, não tem tapetes turcos, nem artisticos Gobelinos.
Mas olha que nem sempre o luxo é o conforto, nem sempre a opulencia é a
graça, nem sempre as cousas caras são as cousas elegantes!
A nossa pequenina casa, toda forrada de papel claro, com as suas
cadeiras de _cretonne_, as suas cortinas muito brancas, e vasos de
plantas em pequenas estantes de madeira, e jarras de flôres na mesa de
jantar, com a luz clara e festiva do sol, a illuminal-a toda, com o
aceio escrupuloso que é o luxo dos pobres, com a tranquilidade doce e
recolhida, que é a poesia dos que se amam e na qual põe a espaços a nota
clara e festiva o riso do nosso filhinho, a nossa casa é como que a
deliciosa encardenação do poema do nosso amor!
Todas as senhoras que eu conheço sahem muito; os maridos voltam á noite
exangues das enfadonhas labutações do dia, com o espirito abatido, com o
corpo cansado e no entanto teem de seguil-as ao baile, ao theatro, a
casa das amigas, de figurarem de comparsas na fastidiosa comedia social,
de se mostrarem debaixo de um aspecto desfavoravel, de realizarem emfim
á risca o lendario typo que o _romantismo_ amarrou ao pelourinho do
ridiculo, o _marido_ macambuzio, o _marido_ desengraçado, o _marido_ sem
espirito, em quanto á roda, fresco, malicioso, cheio de ditos e
anecdotas, com uma rosa na abotoadura, borboleteia o _galan_ que povôa
de perigosas seducções a fantasia de todas as pobres mulheres frageis!
Minha mulher á noite sahe raras vezes, de modo que eu durante o dia, na
atmosphera pesada e asphyxiante do escriptorio, estou sem querer a
scismar no conforto que me espera quando eu voltar.
O jantarinho quente, saboroso, cozinhado pela nossa velha Anna, debaixo
da direcção da minha querida Maria, a toalha muito branca, um ramo de
lilazes no centro, as fructeiras de vidro com as suas pyramides de
fructas, sahindo do ninho fresco e avelludado das folhas verdes, os
talheres muito bem limpos, um grande conchêgo na atmosphera, e em tudo
visiveis o gosto _d'ella_, os cuidados _d'ella_, o affecto _d'ella_
manifestando-se no bem-estar que me envolve e me acaricia!
Depois, á noite, o gabinete com a mesa redonda no centro, o candieiro de
Carcel de luz clara e discreta, a poltrona de marroquim, com os grandes
braços abertos que me convidam, os jornaes do dia, a ultima _Revista_,
um romance novo, e a minha querida mulhersinha, com um vestido que lhe
fica muito bem e que andou ella propria a fazer ás minhas escondidas--a
ladina!--como se eu não tivesse olhos perspicazes que vêem de longe! com
os seus longos cabellos louros penteados d'aquelle modo simples e
puramente artistico, que faz da cabeça de cada estatua grega uma cabeça
encantadora, e sobretudo com o seu sorriso bom, o seu olhar affectuoso e
honesto, a sua voz consoladora que é uma musica, a melhor das musicas
para o meu coração!
Para além do reposteiro entre-aberto, vê-se a alcova, o berço de
cortinados brancos, e á luz branda da lamparina, sobre uma cadeira, um
vestidinho claro, uns pequenos sapatos, umas meiazinhas de côr, umas
cousas para que ninguem repara, e que a mim me fazem ás vezes chorar.
Tenho já perguntado a mim mesmo, que differença existe entre mim e os
outros homens, porque é que elles andam pelo gremio, pelos cafés, pelos
theatros, alguns pelas salas, e porque estou eu tanto em casa, finda que
seja a minha tarefa diaria?
Serei melhor do que os outros maridos?
Não; ella é que é melhor do que as outras mulheres.
A felicidade de que eu gozo devo-a á sua comprehensão tão santa dos
deveres, e ao meu egoismo todo masculino.
Vou para onde me chama maior somma de alegrias e de confortos que posso
conhecer n'este mundo.
Não ha n'isto merito nem dedicação dignos de louvor.
Se á noite a nossa pequena sala se enchesse das amigas de minha mulher,
palradeiras, frivolas, pueris, a discutirem banalidades, é provavel que
eu fugisse para qualquer outra parte.
Se quando chegasse a casa, a visse prompta para sahir, á minha espera
para me fazer envergar uma terrivel casaca muito hostil, que me acenasse
de longe com as suas azas de gafanhoto, se ella me apparecesse toda
occupada de si, da sua _toilette_, dos triumphos que ia ter, e
esquecendo completamente as exigencias mais prosaicas, do meu
temperamento de homem, da minha vida de trabalhador, com certeza que me
chegaria a minha hora de revolta, que o trabalho deixaria de ser o meio
de que eu me servisse para alcançar o bem estar dos meus, e que se
tornaria simplesmente uma tarefa exercida sem alma, sem alento interior,
só para que o mundo me não alcunhasse de ocioso e de zangão da grande
colmêa social.
Dos defeitos d'ella proviriam todos os meus defeitos, dos seus
esquecimentos, todas as minhas faltas.
Já vês quanto ganhei casando-me com esta querida e nobre creatura.
Se me perguntares o que ella sabe, dir-te-hei que sabe tudo, e que a
sciencia toda lhe provém de uma só fonte--o coração.
Comprehende Shakespeare e faz deliciosamente uma _omellete_, toca com o
sentimento mais fino e mais ideal, uma phantasia de Beethoven, e
inventou um systema engenhoso e abreviado de fazer o rol da lavadeira;
adora as flores, os versos, as creanças, os livros, tudo que é bello,
tudo que é bom na natureza, e de manhã, com a sua touquinha de cambraia
branca, o seu avental de merino, um _espanador_ de pennas na mão, pondo
os moveis em harmonia, tocando em todas as cousas, imprimindo em tudo o
cunho da symetria e da ordem, atarefada, sem distracção, sem enfado,
parece uma _spinster_ ingleza atacada da monomania do arranjo.
A brincar com o filho, na rua areada do nosso pequeno jardim, dir-se-hia
a sua irmã mais velha; na hora da atribulação, na hora difficil em que
de um bom conselho depende ás vezes a dignidade de um homem, lembra um
espirito austero, cheio de altivas aspirações estoicas.
O contacto d'ella faz bons os que são maus, faz robustos os que são
fracos!
São estas as mulheres que salvam a honra e a felicidade dos maridos.
Queres um conselho? Procura no mundo outra Maria como é a minha e
casa-te.
CAPITULO XVII
Confidencias maternaes
Minha querida amiga.
Ha quasi quatro mezes que te não escrevo, e supponho que não estarás por
isso mal comigo.
Não sei bem dizer-te como se passam os meus dias, e quando ás onze horas
da noite adormeço, um poucochinho fatigada e deixando sempre para o dia
seguinte parte da tarefa d'aquelle dia, metto a mão na consciencia e
sinto que não commetti o delicto de desperdiçar um só instante.
E talvez que no fim de contas assim não seja.
Ouve-me tu, e julga.
Fez hontem um anno o meu querido _baby_.
É louro, é rosado, tem uma cabelleira revolta e crespa que lembra uma
aureola de anjo, ou uma juba de leão pequenino, tem um corpo roliço,
mimoso, redondinho que parece feito por uma fada muito habilidosa no seu
torno de marfim.
Começa a andar, e os passos d'elle, desastrados e timidos enchem-me a
alma de um susto, de uma inquietação, de uma delicia, de um _não sei
quê_ profundamente novo na minha vida e que eu não encontro palavras que
exprimam bem!
Até aqui parecia-me que _elle_ era _eu_, que fazia parte de mim, que nós
ambos formavamos um todo.
Agora percebo e com uma surpreza que ás vezes chega a ser dolorosa! que
me enganara, e que cada um d'aquelles passinhos hoje tão miudos e tão
vacillantes, ámanhã apressados e firmes, o irá afastando de mim na vida,
se eu o não souber seguir, fazendo-me como elle pequena, como elle
infantil, penetrando intimamente na sua alma e ao mesmo tempo
compenetrando-me bem de todas as doces claridades matutinas que ha
dentro d'aquelle espirito que vae desabrochar.
Não comprehendes bem esta iniciação lenta, que no momento em que o corpo
da mãe e o corpo do filho deixam de ser um só, faz uma só das duas almas
de ambos?
Visto que elle já não póde ser _eu_, é preciso que eu seja _elle_; só
assim lhe poderei ir inoculando na alma e no entendimento, tudo que no
meu entendimento e na minha alma houver de bom; só assim me poderei ir
lentamente transformando sob a influencia regeneradora e purificante
d'aquella immaculada innocencia!
Oh! divina transmissão mutua de virtudes e de forças, que constitue o
laço moral e inquebrantavel que une a mãe ao filho das suas doloridas
entranhas!
Por ora nada tenho que ensinar ao meu louro _bébé_.
Tenho só de escutar o que diz no silencio, aquella pequenina alma em
embryão, e de aprender a ler n'aquelle mysterioso livro que é
indecifravel para todos e que é tão eloquente para mim.
Bébé tem uns grandes olhos; uns dizem que são azues, outros dizem que
não. Por ora não tem côr; ou para melhor dizer ha na sua limpidez de
crystal todos os cambiantes e todos os reflexos. Os olhos de Bébé são
como a alma d'elle, teem a doçura do leite que bebe, teem a suavidade
dos beijos com que o visto noite e dia.
Scisma ás vezes vagamente... longamente... Em que? Não ha ninguem que o
saiba dizer, visto que um coração de mãe o não adivinha. Scisma no céu
d'onde veio? Talvez. Ha mysterios de luz na alma profunda das creanças.
Gosta da claridade dos dias limpidos, das arvores, das côres vivas, e
tambem da opalina tristeza do luar. Gosta dos sons, dos risos, das
caricias, é uma alma que vive em pleno azul.
Nenhuma sombra n'aquella tela transparente onde a mão de sua mãe vae
escrever as primeiras palavras.
Muita gente imagina que ser mãe custa apenas as dôres dilacerantes de
algumas horas, os incommodos mais ou menos crueis d'um certo periodo, e
depois os cuidados de doze ou treze mezes.
Quem pensa assim não sabe o que é ser mãe!
Pois tu não ouviste que elle espera, e que a primeira palavra definida e
clara que ha de vibrar na sua alma, sou eu que hei de dizel-a, é a minha
mão tremula, fraca e inexperiente que ha de tornar-se firme para a
gravar indelevelmente?
E se a voz esmorecer? E se a mão vacillar?
Quem me disse a mim que acertarei? quem me deu forças para encaminhar um
sêr que só de mim ha de receber na terra o santo e a senha?
E depois quando o vejo tão lindo, querendo já esboçar o primeiro
capricho, querendo experimentar a primeira vontade, querendo vencer o
primeiro obstaculo, pergunto a mim mesma se terei valor sufficiente para
lhe fazer perceber que a vida é uma lucta, para se tanto fôr preciso,
ser eu propria que lucte com elle, e que o ensine a ser vencido!
De quantas coragens mais que viris precisa de compor-se a fraqueza
maternal!
.....................................................................
Mas nenhum d'estes vagos pensamentos que eu deixo aqui tão mal expressos
te diz quaes são as occupações em que levo os meus dias!
Meu Deus! e olha que acordo cedo!
Ainda bem a cotovia não deixa ouvir a sua alegre voz matinal, ainda bem
o gallo não atrôa os campos com o seu grito estridulo de combate, que é
um convite impetuoso para o trabalho, já a voz do meu filho me acorda
tambem a mim.
Que penna póde contar as delicias d'aquelle despertar! Os risos, as
negaças, os beijos, e o modo malicioso com que elle deitado nos meus
braços e depois de fartar as exigencias do pequenino estomago, larga o
seio para me sorrir com os beicinhos tintos de leite, e torna de novo a
pegar-lhe para saborear voluptuosamente, lentamente o que já não tem
vontade de engulir com a avidez deliciosamente glutona da infancia.
Vem depois o banho, o banho que é um poema!
Está alli a grande bacia de agua tepida, e emquanto o dispo, elle salta
e ri, e deita-se para traz e namora a transparencia da agua, até ao
instante em que mergulha emfim entre risadas de crystal que me echoam no
coração.
Tu sabes lá os cuidados, as manhas, as idéas engenhosas que é necessario
pôr em pratica para illudir a impaciencia d'estes seres adoraveis! O
banho dura meia hora, e acabo d'alli encharcada, despenteada, cançada,
triumphante.
É uma victoria de todos os dias.
O resto do dia pertence-lhe a elle quasi exclusivamente.
É um tyranno o meu _bébé_.
Tenho de o passear, de lhe dar de comer, porque é preciso que saibas que
o doutor vendo que elle já tem oito dentes--carnivora creatura!--me deu
licença emfim para lhe dar tres vezes ao dia a sua competente papinha,
tenho sobretudo de o entreter porque a imaginação infantil que desperta
tem exigencias de que tu não podes fazer idéa!
É _spleenetico_ como um velho _lord_ o meu seraphim de palmo e meio de
altura.
Dá-se-lhe um brinquedo agora, recebe-o com uma apparencia de enthusiasmo
que illude os inexperientes; d'alli a um instante põe-n'o de parte
desdenhoso, enfastiado, insaciavel...
Quer ver sempre cousas novas, quer que o emballem, e lhe cantem e o
levantem ao ar e o façam rir.
Por'ora trata-se simplesmente de enganar aquella actividade graciosa e
irrequieta, mas quando chegar o momento de a applicar?
Sabes uma cousa? sou felicissima e tenho muito mêdo...
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_Quatro annos depois._
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Cinco annos! Sabes lá! Um homem, positivamente um homem!
É mau.
Deixa lá dizer que são boas as creanças. Olha que é uma perfeita
illusão, minha querida.
Que bem se conhece n'elle já, o bravio animal que todos nós somos!
_Bébé_ é um monstro!
No outro dia levei-o commigo a casa d'uma senhora minha amiga. Pois
imagina que elle matou com a sua espada de pau, a boneca de pellica e
semeas de Julia, uma pequenita de 3 annos, a filha mais nova da dona da
casa!
E como ella chorasse muito humilde, muito medrosa diante d'aquella sanha
terrivel, chegou a ameaçal-a--o desgraçado!--com a mesma espada de pau
que já fizera tamanhos maleficios.
Chorei de pena de o ver tão mau, tão irascivel, tão colerico, e elle o
leão pequenino, ajoelhou-se com as mãosinhas postas aos meus pés, e
gago, cheio de lagrimas, com os grandes olhos espavoridos,
disse-me--perdão mamã!
Ó Magdalena, imagina tu a força de que eu precisei para o não devorar de
beijos! Pois não o fiz!
Mostrei-lhe uma cara seria, magoada, cheia de consternação e não o
abracei em todo o dia.
Ha de ser colerico, já vês.
Quem me ensinará a mim a corrigil-o?
Já sei o que me respondes.--Faze queixa ao pae. O pae que lhe ralhe.
Deus me defenda de tal.
Em primeiro lugar o medo não corrige, humilha; não modifica, rebaixa.
Depois eu não quero recorrer a ninguem para influenciar a alma de meu
filho.
O pae ha de intervir sim senhor, porém mais tarde. Por'ora é elle meu,
só meu.
Toda a creança tem defeitos, e ai d'aquella que os não tem! Arrenego das
_creanças-modêlos_. Transformar esses defeitos--que são indicios
caracteristicos do temperamento da organisação, de qualidades muitas
vezes herdadas--em forças activas e fecundas, eis o grande problema da
educação.
E talvez tu cuides, minha pobre amiga, que as _gracinhas_ de _bébé_
ficam por aqui?
Pois ainda ha mais? exclamas tu assustada.
Sim, ha muito mais. Ha cousas que eu com a ajuda de Deus tenciono
aproveitar e dirigir para o futuro bem d'elle.
Bébé roubou!... imagina!
No outro dia desappareceram-me de cima de uma _etagére_ da saleta umas
bugigangas de marfim que me tinham trazido de Macau; adivinha onde fui
dar com ellas?
No seu quarto dos _bonitos_.
Não estavam escondidas, valha a verdade! estavam impudicamente
espalhadas ao sol, com uma ostentação de cynismo deveras aterradora.