inocularmos no coração, como que se nos vão lentamente revelando todas
as bellezas incomparaveis d'este mundo moral, de cuja contemplação
andavamos, senão alheiadas, ao menos distrahidas.
Oh! de quantos rasgos bons não é origem para a mãe, o receio de vêr
traduzir-se um espanto accusador nos olhos limpidos de seu filho.
E depois é necessario que todas as educadoras pensem muito n'esta
verdade tão simples e tão lucida.
O exemplo, é que ensina, guia e robustece a alma e educa o espirito.
Que importa que ella pregue e ensine as boas palavras, e a brandura do
caracter, se ella não provar com o seu exemplo de todos os dias a divina
graça d'estas qualidades e d'estes usos?
A creança obedecerá talvez, mas sem convencimento e sem alma!
Para que todas as bençãos de Deus chovam sobre a cabeça das que sabem
ser boas mães, nem esta benção suprema lhes faltou.
Ao contacto divino da infancia, na doce intimidade da innocencia, perdem
defeitos e ganham virtudes.
A educação bem comprehendida é tão util á mãe como á creança.
* * * * *
Imagine-se uma creatura fraca, indolente, tendo sido de pequena
criminosamente amimada, mas ao mesmo tempo possuidora de claro e
perspicaz entendimento.
Tem habitos inveterados de preguiça, tem horas desoladoras de tedio e de
morbida melancolia. O tempo para ella é pesado e longo.
Vive, não _gosando_ as horas porém _matando-as_ como póde.
Não se occupa, não reage contra o seu natural e funesto prostramento,
não tem um fim util e querido para o qual viva.
Um dia esta creatura infeliz é mãe!
Comprehende toda a responsabilidade que lhe cahiu sobre os hombros, e
como no fim de contas é intelligente e boa, quer cumprir dignamente a
sua sagrada missão.
Como é milagrosa e abençoada a influencia que n'este caso a creança
innocente exerce no caracter de sua mãe.
Acabaram-se as longas scismas dolentes, as doentias tristezas, os
inuteis desalentos! É preciso que ella ensine a viver á fragil
creaturinha que Deus confiou aos seus braços.
Quantas d'estas redempções se não devem á infancia! Quantas vezes a mão
inconsciente de um pequeno ser de dous ou tres annos não tem redimido os
erros de seus paes!
* * * * *
Lembra-nos, a proposito d'isto, uma poesia deliciosa que lêmos ha muitos
annos, e cuja idéa é esta.
Duas desgraçadas creaturas, d'estas que a miseria prende ás vezes
mutuamente por ephemeros laços, arrastavam juntas uma vida angustiada e
degradante.
_Ella _sem coragem, sem aceio, sem actividade, sem aquella força que ao
mais negro albergue póde dar a mysteriosa graça dos ninhos; _elle_,
ocioso, cruel, covarde diante da desgraça e diante do trabalho, ébrio ás
vezes, d'aquella selvagem embriaguez da aguardente e do absintho.
Porque se conservaram unidos?
Nem elles proprios o sabiam.
Poder do habito, abjecto marasmo das supremas degradações.
Um dia, n'aquelle antro miseravel, soou o vagido de uma creança.
Não se admirem.
Tambem ás vezes das podridões de uma sepultura desabrocha uma rosa de
maio.
Quando á noite o homem voltou de suas divagações sem rumo, a pobre
mulher prostrada nas palhas apodrecidas da enxerga, perguntou-lhe
espantada:
--Porque me não bates? porque me não ralhas? quem é que suspendeu o
insulto da tua bocca, e os golpes dos teus braços?
E elle, o homem perdido e brutal, respondeu baixinho com um
enternecimento desconhecido na voz rouca:
--_Tenho medo de acordar o pequenino._
--_J'ai peur de réveiller l'enfant._
Oh! creanças, creanças, como isto revela bem o poder divino que é tão
vosso!
* * * * *
Tenho fallado muito ás mães n'este assumpto.
Nunca me cansarei de lhes repetir que se entreguem bem do intimo d'alma
á educação dos seus filhos!
É que não ha creanças más, como não ha homens perversos.
Ha creanças mal educadas e ha homens pervertidos.
Na educação que as creanças recebem dominam ainda perigosos
preconceitos, e dizemos _perigosos_, por que n'este grave assumpto todo
o erro é um perigo.
Apontemos alguns.
Toda a mãe ambiciona possuir um filho modelo.
Quer dizer, um menino muito direito, muito aprumado, que falla como um
livro, que sabe grammatica, maximas moraes, que repete versos classicos,
que nunca faz bulha, que tem gestos desdenhosos e reprehensivos para a
travessura dos outros, que nunca se esquece das lições, que é emfim um
_prodigio_ que todas as mães invejam, e apontam como ideal a seus filhos
menos privilegiados.
Esta classe de creanças póde dizer-se que é a unica verdadeiramente
antipathica.
Evitemos quanto possivel que os nossos filhos sejam _meninos modelos_.
Para evitar este resultado, é preciso não dar excessiva attenção ás
graças naturaes da creança, não a louvar de modo que ella ouça, não a
forçar a estudos precoces, fazel-a brincar, correr dar-lhe plena
liberdade de movimentos e de impulsos.
Se a creança tem demasiada propensão para os estudos mais proprios de
outra edade, cumpre distrahil-a, pôl-a em contacto com a natureza,
ensinal-a a comprehender a alma das cousas.
Nada melhor para desenvolver o espirito e o coração das creanças do que
a vida no campo.
Plantas, arvores, animaes, os alegres trabalhos da lavoura, tudo que
desperta sans curiosidades no entendimento infantil.
Dae ao vosso filhinho um alegrete do jardim para elle tratar, dae-lhe um
animalzinho manso e inoffensivo a que elle se affeiçoe.
* * * * *
Ás vezes quando o nosso filhinho bate com a cabecinha no chão, ou em
qualquer movel da casa, vemos com indifferença a criada que o trata
bater tambem, fingindo-se muito zangada, no objecto que sem culpa nem
consciencia é a causa da magoa que afflige o nosso pequeno amor.
Este velho costume das aias e das mães pouco atiladas, é um erro.
Torna a creança absurdamente vingativa.
D'ahi a bater ou a ter vontade de bater em quem a contraria, não vae
nada.
De cada idéa falsa se faz n'estes cerebros delicados e impressionaveis o
germen de um vicio ou de um defeito.
Quantas mães eu não tenho ouvido dizer: Meu filho é tão teimoso! Meu
filho é tão guloso! Ou tão tagarella, ou tão curioso!--ou tão colerico!
Mães, procurae bem no passado e achareis a semente d'isso que hoje é
planta damninha e venenosa.
* * * * *
Combater a teima, com a teima, a gulodice natural com a abstinencia
forçada, a cólera instinctiva, com os castigos implacaveis, é pessima
tactica.
O meio de levar uma creança a esquecer-se de que teimava, é
distrahir-lhe a attenção para assumpto muito diverso d'aquelle que a
absorvia.
Quando uma creança é exageradamente gulosa, o meio de a emendar é
leval-a a envergonhar-se do seu defeito, a córar d'elle diante de si
propria.
Nas cóleras a que todas as creanças são mais ou menos sujeitas, o
remedio mais efficaz é uma brandura magoada.
Que a mãe deixe ver que os erros de seu filho a não enfurecem, mas a
fazem soffrer muito.
A creança ficará desarmada e moralisada.
Para ella a revelação subita de que foi causa de grande amargura para
aquella a quem mais estremece, corresponde ao despertar da consciencia e
ao pungir do seu primeiro espinho!
Usemos na educação dos meios puramente moraes, e não das degradantes
correcções physicas.
Acordemos por todos os modos imaginaveis o bom senso da creança, e a
impressionabilidade do seu ser moral.
Que ella conheça sempre o mal e o bem, não pelos inconvenientes ou
vantagens que d'estas duas cousas possam provir, mas pelo que ellas
valem, pelo que significam, pelo rebaixamento que uma inclue em si, e
pela essencia superior de que a outra é feita.
III
N'este delicioso e querido assumpto da educação infantil tudo está dito,
e tudo está ainda por dizer.
As regras geraes teem forçosamente de ser modificadas na sua applicação
a casos particulares; nenhuma creança existe no mundo que seja
absolutamente egual a outra creança; é ao espirito da mãe que pertence o
gravissimo e delicado encargo de corrigir, ampliar, alterar, restringir
as regras e os preceitos enunciados pelos educadores e pelos moralistas.
O que é, pois, necessario antes de tudo, é levar as mães a pensarem
profundamente n'estas altas questões, e a estudarem com pertinaz
paciencia o caracter das creanças cujos destinos teem de dirigir.
Conhecemos uma senhora, aliás muito boa e muito dedicada, que, tendo
cinco filhos, os educa a todos pelo mesmo systema.
Resultado inevitavel e fatal:
As creanças são todas deploravelmente educadas.
Ernesto Legouvé, distincto escriptor francez, que tem consagrado grande
parte da sua vida a notaveis estudos sobre a sorte da mulher, e sobre a
educação da creança, publicou ha mezes um bello livro que d'aqui
recommendo a todas as minhas leitoras.
Intitula-se--_Nos filles et nos fils_, e contém uma serie de scenas e
estudos de familia, muito proprios para ampliar e esclarecer o coração e
o entendimento das mães em certos momentos criticos da sua difficil
missão.
Um d'esses trechos, e talvez um dos mais importantes, trata das creanças
e dos criados, da intimidade forçada e muitas vezes perigosa que entre
elles se estabelece, e dos resultados nocivos que d'essas relações
resultam para a educação.
Legouvé leu este trecho na _Academia Franceza_; por aqui se reconhece a
sua importancia, a maneira superior por que foi tratado.
Muitas mães desattendem na educação dos seus filhos a questão gravissima
dos criados.
Deixam que as creanças vivam n'um contacto muito intimo com gente de
tracto grosseiro, de comportamento equivoco, de linguagem eivada de
erros, de conversação baixa e degradante.
Quantas mães eu não tenho ouvido dizer ás suas filhinhas de quatro,
cinco e oito annos:--_Vae lá para dentro; deixa-me conversar?!_
Imaginam ellas que para a creança nenhuma consequencia má póde provir da
sua intimidade com as criadas.
Enganam-se.
Antigamente, quando os domesticos faziam, por assim dizer, parte
integrante da familia, nasciam e morriam na casa, não havia perigo em
que as creanças estivessem junto d'elles e com elles tagarellassem e
brincassem.
O instincto d'essas boas creaturas, afinado na convivencia de pessoas de
educação elevada, fazia-lhes comprehender que as creancinhas eram uns
seres sagrados e queridos, cuja intelligencia se não devia macular nem
de leve, cujos ouvidos tinham de ser escrupulosamente respeitados.
Hoje, infelizmente, como já o dissemos, esse modo de comprehender a vida
de familia, modificou-se completamente.
Os nossos criados entram e sahem com uma rapidez e uma facilidade
incrivel; não criam raizes em parte alguma, e este viver de párias no
meio dos que teem lar e alegrias intimas e familia e tecto seu,
desenvolve-lhes contra os amos uma estranha hostilidade.
Dizem mal por gosto, por necessidade, por um costume de classe.
Precisam de vingar-se, e vingam-se dos maus e dos bons, sem escrupulo e
sem remorso.
De cada casa d'onde sahem trazem os segredos, as anecdotas mais intimas,
os incidentes comicos, os acontecimentos grotescos; e contam tudo isto,
uns aos outros, n'uma grande liberdade de palavras, de apreciações e de
commentarios.
Surprehenderam aqui um drama, alli um ridiculo, conhecem as miserias de
muito interior, os vicios que se fazem pobreza, e a pobreza que se faz
vicio.
Com o amor do pittoresco e do maravilhoso, que ha sempre na alma do
povo, dão um colorido phantastico aos seus contos, que attrahe por força
a curiosidade da creança.
Imaginem-se uns ouvidos de cinco, de seis, de oito ou nove annos a
beberem essa deploravel sciencia!
E não se diga que a creança não entende!
A creança tem o instincto da curiosidade desenvolvido n'um
extraordinario grau!
A creança entende quasi tudo, e d'aquillo que não entende guarda a
memoria até á edade em que o mysterio lhe seja naturalmente explicado.
Não levar nunca para um caminho mau a curiosidade de uma creança, deve
ser um dos maiores cuidados da mãe.
Mas dir-me-hão: as pessoas crescidas conversam por força em mil
assumptos melindrosos; se realmente as creanças percebem, como evitar
que ouçam?
É n'isso positivamente que está o mal.
Na sala de uma senhora que tem filhos e que se compenetra absolutamente
dos seus deveres de mãe, deve haver o maximo escrupulo na escolha das
diversas conversações.
Assim como ha limpeza nas habitações, porque não haverá limpeza nos
espiritos?
Não ha tantos assumptos attrahentes de conversação?
Será absolutamente preciso dizer mal, murmurar, revelar indiscretamente
mysterios alheios?
Não quer isto dizer que a humanidade se limite a um puritanismo de
palavras, que degenerará por força em hypocrisia; mas entre esse excesso
ridiculo e a liberdade absoluta que se usa diante das creanças, creio
que ha um meio termo que seria facil de adoptar.
E depois, seja dito com toda a coragem: ou se é mãe no sentido completo
e absoluto d'esta palavra ou se é mulher do mundo.
Ou nos havemos de consagrar á companhia dos nossos filhos, á sua
educação, ao desenvolvimento gradual das suas delicadas faculdades, á
vigilancia solicita das suas almas e dos seus corpos, ou havemos de dar
aos tenros espiritos de quem somos guias, o deploravel espectaculo das
fraquezas e dos defeitos que tanto lhes desejamos fazer evitar.
* * * * *
Na creanca do sexo feminino a tendencia que mais cedo se desenvolve é a
vaidade.
A pequenita de tres annos já começa a ter orgulho e presumpção no seu
vestidinho bordado, nas suas saias de folhos, no seu chapéu vistoso e
garrido.
Todos se riem da _gracinha_.
--Meu anjinho! Como é presumida! Diz a mãe toda enlevada. E gaba-a
muito.--Estás linda! a minha filha é muito bonita. Fica-lhe tão bem este
vestido!
Mais tarde, d'ahi a quinze annos, quando a creancinha do outro tempo é
um rapariga delambida, arrebicada, cheia de appetites luxuosos, de
ambições extravagantes, sonhando com um noivo _muito rico_ que lhe sacie
todos os seus desejos de riqueza e de pomposa elegancia, quando os
homens serios e honestos olham para ella com desdem, e no seu intimo a
desprezam como uma boneca inutil e frivola, de quem é a culpa, digam-no
sinceramente?
A culpa é de quem favoreceu, em vez de combater, esse pendor funesto,
tão natural á mulher, e que só á custa de muita reflexão ella consegue
vencer.
A culpa é da mãe, que teve orgulho dos defeitos da sua filha, em vez de
lidar por transformal-os em virtudes.
A mulher é vaidosa? Pois bem! se não podemos destruir esse vicio
organico, demos-lhe ao menos um rumo diverso do que elle leva.
Que, em vez de ter vaidade dos seus trapos e dos seus miseraveis
arrebiques, ella tenha vaidade de ser boa, laboriosa, honesta, instruida
e forte.
Façamos comprehender bem ao nosso anjinho de tres annos, que é bem mais
difficil e glorioso ser docil do que ter um vestido novo; que é muito
mais digno de louvor saber ler do que trazer um chapéu de plumas.
Isto não é mais do que indicar o caminho.
Não ha mãe cujo instincto a não advirta de que estamos fallando verdade.
* * * * *
Até a escolha da boneca é uma cousa importante!
Uma boneca esplendidamente vestida, de chapéu com flores, de luvas e
cabellos d'ouro annellados, inspira um certo assombro, e depois uma
certa inveja. Uma boneca de trapos, estupida, inerte e molle causa
desdem e antipathia.
Oh! a primeira boneca! que jubilo supremo que ella não deu a todas nós!
Comparavel á alegria da primeira boneca, só a alegria do primeiro filho!
É a mesma hesitação em lhe tocarmos com medo que ella se _quebre_! o
mesmo susto! a mesma curiosidade! o mesmo enlevo! o mesmo espanto
namorado e feliz!
A mãe intelligente comprehende e sabe aproveitar isto.
A boneca é como a aprendizagem da maternidade!
--Está nua, coitadinha, está nua a tua boneca, Lili. Que frio que ella
deve ter! Que desconforto! Que pena de olhar para ti e de te vêr tão bem
vestida e quente e confortavel. Senta-te aqui ao pé de mim, Lili, vamos
nós fazer o fatinho da tua boneca!
E como o coração é que sempre domina e guia a mulher, eis o coração
fazendo um milagre n'aquella mulhersinha de oito annos, que deixa de ser
a traquinas, a turbulenta, a ociosa creaturinha, e que principia a
conhecer as delicias do trabalho e os santos prazeres do sacrificio.
O sacrificio por uma boneca!
Sim, o sacrificio, e porque não?
Só quem não é mãe e quem nunca foi creança é que escarnecerá da
expressão que empregamos.
Pois não sabem que essa primeira boneca, que se recolhe nua nos braços,
e que se veste, que se calça, que se conchega, que se adormece entre
beijos e affagos, é o primeiro sonho de um coração de mãe?
* * * * *
As amigas das nossas filhas!
Grave e momentoso assumpto, não raro descurado e de cujo esquecimento ou
de cujo desleixo resultam ás vezes damnos irremediaveis.
No collegio é que se travam quasi sempre as primeiras amizades. Ora, nós
para as meninas desadoramos o collegio.
Por muito bom que elle seja, achamol-o sempre pessimo.
Quem é que nos responde pela boa escolha de relações que alli adquirem
nossas filhas?
Quem nos diz que essas creanças todas que alli se reunem, e que entre si
trocam as mais intimas e minuciosas confidencias, só viram bons
exemplos, só conhecem quadros de santa e impeccavel moralidade?
Pois nenhuma d'ellas trará comsigo aquella funesta curiosidade, que
perdeu a nossa primeira mãe?
Todas são innocentes, todas ignoram da vida o que ella tem de baixo ou
de corrosivo?
Quem nos affirma que ellas saberão ser boas e honestas companheiras, que
não lançarão com uma palavra imprudente um germen venenoso, que não
corromperão com precoce perversidade o espirito da creança innocente,
que n'ellas se confiar?
As amigas das nossas filhas são aquellas de quem logo depois de nós
depende a pureza, a candura, a innocencia d'ellas!
É de uma grave imprudencia acceitar para uma filha nossa, sem escolha e
sem criterio, a companhia de outra creança.
Cumpre conhecer bem a mãe, a educação que ella dá aos seus filhos, o
modo porque vivem, o caracter, a moralidade d'essa familia.
E que as mães, n'este ponto, se não prendam com preoccupações de banal
delicadeza. Primeiro que tudo está o futuro das suas filhas.
Se a educação de um rapaz é já difficilima, que será a educação de uma
menina?
Quantos perigos a evitar, quantos obstaculos a temer, quantas
contrariedades em meio do caminho!
Que a mãe procure ser a melhor amiga de sua filha, e que esta não receie
confiar-lhe nem os seus pequeninos segredos infantis, nem as mysteriosas
comoções da sua alma adolescente.
N'esta deploravel educação que hoje se dá e se recebe, a primeira cousa
de que os filhos tratam é de enganar os paes.
De que provém isto? Da mal entendida severidade d'estes.
A indulgencia para as primeiras travessuras prepara naturalmente a
creança para se confiar sem medo ao coração que a sabe entender e lhe
sabe perdoar.
Mas é muito delicado este ponto da missão maternal.
Se o excesso da severidade cria a desconfiança e a mentira, o excesso da
indulgencia cria o cynismo e a desvergonha.
Que difficil não é para um espirito de mãe saber ao mesmo tempo attrahir
a confiança e impôr o respeito!
Levar o filho que peccou a confessar a culpa, não por ter a certeza de
que será facilmente perdoado, mas por lhe exigir a consciencia que não
esconda o seu delicto aos olhos d'aquella que sabe com mão delicada e
firme repôr no caminho direito o ente fragil que se transviou.
No dia em que a mãe tiver alcançado do coração de sua filha ou de seu
filho esta singular conquista de veneração e de amor, póde sentir-se
tranquilla e satisfeita, póde sem medo responder pelo futuro.
* * * * *
Para concluirmos este capitulo que, talvez por muito incorrectamente
desenvolvido enfastiasse as leitoras, sem lograr a ventura de as
convencer, damos em seguida o fragmento de uma carta, que por
circumstancias que seria inutil referir, ha pouco tempo chegou ás nossas
mãos.
Como verão, pertence esse trecho a uma carta que na vespera do seu
casamento foi dirigida á sua filha por uma extremosa mãe.
Explica muito melhor do que nós o podemos fazer o triumpho de um bom
coração maternal.
«Não tive animo de te dizer todas estas cousas frente a frente.
Tive medo de chorar, e tu sabes, meu anjo, que detésto acima de tudo os
enternecimentos intempestivos.
Depois, teria pejo, eu, tua mãe, eu que julgo ter concorrido pelos
cuidados de toda a vida para o excellente exito da minha obra--quer
dizer, da tua educação--teria pejo de te encher de louvores que embora
justos, recahiriam um pouco sobre mim.
Sabes que eu nunca te deixei, que por amor de ti renunciei, e de muito
boa vontade, á companhia dos indifferentes e dos frivolos, que só viriam
destruir ou modificar o effeito de todos os meus esforços, tão
santamente abençoados por Deus!
Com que saudades eu me lembro dos serões de outro tempo, em que tu já
serena, grave e modesta como és hoje, lias ao pé de mim, emquanto os
nossos bons e velhos amigos conversavam em cousas sãs, em cousas
simples, das que não podem ferir os ouvidos de uma menina!
Não te aconselho que renuncies ao mundo por amor dos anjinhos que virão
de certo abençoar e consagrar o teu casamento; mas peço-te que sejas
escrupulosa como eu sempre fui na escolha d'aquelles que admittires na
sagrada intimidade do teu lar.
Procurei sempre evitar em ti todos os excessos, mesmo os excessos bons.
Não te quiz beata, nem _espirito forte_; não desejei que fosses uma
metaphysica, nem um entendimento demasiadamente positivo, nem mulher só
de sala, nem mulher exclusivamente do _ménage_.
O ideal, minha filha, é que de tudo se saiba ser um pouco.
Gostarei que recebas com graça senhoril na tua saleta de todos os dias,
artistica e confortavel, mas não desejarei menos que saibas ensinar a
tua cozinheira, fazer o rol da tua roupa, concertar o fato de teus
filhos, e economisar sem mesquinhez e gastar sem avareza.
Não quiz nunca que tivesses outra amiga, e creio ter feito bem.
Se foi egoismo, Deus não me castigou por elle, porque devi a essa
precaução, por ventura excessiva, ter tido a deliciosa confidencia das
tuas primeiras alegrias e dos teus primeiros sonhos.
Ámanhã já não serás minha, querido encanto; nem já serão os meus beijos
os unicos que a tua pura testa de vinte annos receberá! Mas n'esta
saudade dilacerante que me punge, quantas compensações supremas eu não
encontro!
Entrego-te ao teu noivo, tão candida, tão ignorante do mal como deviam
ser todas as creanças da tua edade, que tivessem mãe, que só n'ellas
pensasse e só por ellas vivesse!
Nunca ouviste pronunciar uma palavra grosseira, nunca ouviste applaudir
um acto injusto, nunca se abaixaram os teus olhos seraphicos a um
espectaculo ignobil.
Eu fui sempre a tua fiel companheira; e, como as vestaes velavam o fogo
sagrado, velei eu pela tua immaculada innocencia!
De que ventura se privam as que preferem o mundo aos seus filhos!
Ignoram as alegrias profundas de ser mãe, como eu fui, como tu serás,
minha joia!
Não ha na tua alma um pensamento, uma idéa, uma saudade, que eu não
conheça, e se ámanhã quizer folhear diante de teu marido o livro radioso
da tua infancia e da tua adolescencia, não haveria n'elle uma só pagina
que eu lhe não podesse repetir de cór.
Respondo pelo passado e respondo pelo futuro. Basta-me essa gloria para
me consolar de todas as minhas saudades!
É bem pezada n'este mundo a cruz das boas mães, mas não te esqueças
nunca, minha filha, que mesmo n'esta hora de tantas lagrimas, eu
confesso bem alto, não ha rosas mais frescas, mais puras e mais
orvalhadas do que as rosas que enfloram e entrelaçam essa cruz!
Só d'aqui a muitos annos comprehenderás a angustia com que te
digo--_adeus_!
Então, sei que has de chorar por mim!»
CAPITULO XVI
Cartas de um marido
Meu caro amigo.
Onde é que fui desencantal-a? perguntas tu com justificado espanto.
E tens razão.
O facto é que nunca a vi, valsando n'um baile á luz quente e abafadiça
do gaz, decotada, cheia de pó de arroz e de suor, abandonando-se n'uma
postura voluptuosa, nos braços de um sujeito esgrouviado, de casaca,
collarinhos de papelão, e olhar que tenta ser magnetisador e
irresistivel, e que depois de tamanhos esforços não consegue ser senão
comico.
Nunca a encontrei cantando n'um concerto duetos apaixonados em beneficio
dos meninos pobres, vendendo n'um bazar sorrisos de dançarina e
_bibelots_ de fancaria em beneficio dos velhinhos aleijados,
representando n'um sarau dramatico, comediazinhas maliciosas em
beneficio dos adultos cegos.