Pensando nas virtudes que elles devem adquirir e no meio de lh'as

inocularmos no coração, como que se nos vão lentamente revelando todas

as bellezas incomparaveis d'este mundo moral, de cuja contemplação

andavamos, senão alheiadas, ao menos distrahidas.

Oh! de quantos rasgos bons não é origem para a mãe, o receio de vêr

traduzir-se um espanto accusador nos olhos limpidos de seu filho.

E depois é necessario que todas as educadoras pensem muito n'esta

verdade tão simples e tão lucida.

O exemplo, é que ensina, guia e robustece a alma e educa o espirito.

Que importa que ella pregue e ensine as boas palavras, e a brandura do

caracter, se ella não provar com o seu exemplo de todos os dias a divina

graça d'estas qualidades e d'estes usos?

A creança obedecerá talvez, mas sem convencimento e sem alma!

Para que todas as bençãos de Deus chovam sobre a cabeça das que sabem

ser boas mães, nem esta benção suprema lhes faltou.

Ao contacto divino da infancia, na doce intimidade da innocencia, perdem

defeitos e ganham virtudes.

A educação bem comprehendida é tão util á mãe como á creança.

* * * * *

Imagine-se uma creatura fraca, indolente, tendo sido de pequena

criminosamente amimada, mas ao mesmo tempo possuidora de claro e

perspicaz entendimento.

Tem habitos inveterados de preguiça, tem horas desoladoras de tedio e de

morbida melancolia. O tempo para ella é pesado e longo.

Vive, não _gosando_ as horas porém _matando-as_ como póde.

Não se occupa, não reage contra o seu natural e funesto prostramento,

não tem um fim util e querido para o qual viva.

Um dia esta creatura infeliz é mãe!

Comprehende toda a responsabilidade que lhe cahiu sobre os hombros, e

como no fim de contas é intelligente e boa, quer cumprir dignamente a

sua sagrada missão.

Como é milagrosa e abençoada a influencia que n'este caso a creança

innocente exerce no caracter de sua mãe.

Acabaram-se as longas scismas dolentes, as doentias tristezas, os

inuteis desalentos! É preciso que ella ensine a viver á fragil

creaturinha que Deus confiou aos seus braços.

Quantas d'estas redempções se não devem á infancia! Quantas vezes a mão

inconsciente de um pequeno ser de dous ou tres annos não tem redimido os

erros de seus paes!

* * * * *

Lembra-nos, a proposito d'isto, uma poesia deliciosa que lêmos ha muitos

annos, e cuja idéa é esta.

Duas desgraçadas creaturas, d'estas que a miseria prende ás vezes

mutuamente por ephemeros laços, arrastavam juntas uma vida angustiada e

degradante.

_Ella _sem coragem, sem aceio, sem actividade, sem aquella força que ao

mais negro albergue póde dar a mysteriosa graça dos ninhos; _elle_,

ocioso, cruel, covarde diante da desgraça e diante do trabalho, ébrio ás

vezes, d'aquella selvagem embriaguez da aguardente e do absintho.

Porque se conservaram unidos?

Nem elles proprios o sabiam.

Poder do habito, abjecto marasmo das supremas degradações.

Um dia, n'aquelle antro miseravel, soou o vagido de uma creança.

Não se admirem.

Tambem ás vezes das podridões de uma sepultura desabrocha uma rosa de

maio.

Quando á noite o homem voltou de suas divagações sem rumo, a pobre

mulher prostrada nas palhas apodrecidas da enxerga, perguntou-lhe

espantada:

--Porque me não bates? porque me não ralhas? quem é que suspendeu o

insulto da tua bocca, e os golpes dos teus braços?

E elle, o homem perdido e brutal, respondeu baixinho com um

enternecimento desconhecido na voz rouca:

--_Tenho medo de acordar o pequenino._

--_J'ai peur de réveiller l'enfant._

Oh! creanças, creanças, como isto revela bem o poder divino que é tão

vosso!

* * * * *

Tenho fallado muito ás mães n'este assumpto.

Nunca me cansarei de lhes repetir que se entreguem bem do intimo d'alma

á educação dos seus filhos!

É que não ha creanças más, como não ha homens perversos.

Ha creanças mal educadas e ha homens pervertidos.

Na educação que as creanças recebem dominam ainda perigosos

preconceitos, e dizemos _perigosos_, por que n'este grave assumpto todo

o erro é um perigo.

Apontemos alguns.

Toda a mãe ambiciona possuir um filho modelo.

Quer dizer, um menino muito direito, muito aprumado, que falla como um

livro, que sabe grammatica, maximas moraes, que repete versos classicos,

que nunca faz bulha, que tem gestos desdenhosos e reprehensivos para a

travessura dos outros, que nunca se esquece das lições, que é emfim um

_prodigio_ que todas as mães invejam, e apontam como ideal a seus filhos

menos privilegiados.

Esta classe de creanças póde dizer-se que é a unica verdadeiramente

antipathica.

Evitemos quanto possivel que os nossos filhos sejam _meninos modelos_.

Para evitar este resultado, é preciso não dar excessiva attenção ás

graças naturaes da creança, não a louvar de modo que ella ouça, não a

forçar a estudos precoces, fazel-a brincar, correr dar-lhe plena

liberdade de movimentos e de impulsos.

Se a creança tem demasiada propensão para os estudos mais proprios de

outra edade, cumpre distrahil-a, pôl-a em contacto com a natureza,

ensinal-a a comprehender a alma das cousas.

Nada melhor para desenvolver o espirito e o coração das creanças do que

a vida no campo.

Plantas, arvores, animaes, os alegres trabalhos da lavoura, tudo que

desperta sans curiosidades no entendimento infantil.

Dae ao vosso filhinho um alegrete do jardim para elle tratar, dae-lhe um

animalzinho manso e inoffensivo a que elle se affeiçoe.

* * * * *

Ás vezes quando o nosso filhinho bate com a cabecinha no chão, ou em

qualquer movel da casa, vemos com indifferença a criada que o trata

bater tambem, fingindo-se muito zangada, no objecto que sem culpa nem

consciencia é a causa da magoa que afflige o nosso pequeno amor.

Este velho costume das aias e das mães pouco atiladas, é um erro.

Torna a creança absurdamente vingativa.

D'ahi a bater ou a ter vontade de bater em quem a contraria, não vae

nada.

De cada idéa falsa se faz n'estes cerebros delicados e impressionaveis o

germen de um vicio ou de um defeito.

Quantas mães eu não tenho ouvido dizer: Meu filho é tão teimoso! Meu

filho é tão guloso! Ou tão tagarella, ou tão curioso!--ou tão colerico!

Mães, procurae bem no passado e achareis a semente d'isso que hoje é

planta damninha e venenosa.

* * * * *

Combater a teima, com a teima, a gulodice natural com a abstinencia

forçada, a cólera instinctiva, com os castigos implacaveis, é pessima

tactica.

O meio de levar uma creança a esquecer-se de que teimava, é

distrahir-lhe a attenção para assumpto muito diverso d'aquelle que a

absorvia.

Quando uma creança é exageradamente gulosa, o meio de a emendar é

leval-a a envergonhar-se do seu defeito, a córar d'elle diante de si

propria.

Nas cóleras a que todas as creanças são mais ou menos sujeitas, o

remedio mais efficaz é uma brandura magoada.

Que a mãe deixe ver que os erros de seu filho a não enfurecem, mas a

fazem soffrer muito.

A creança ficará desarmada e moralisada.

Para ella a revelação subita de que foi causa de grande amargura para

aquella a quem mais estremece, corresponde ao despertar da consciencia e

ao pungir do seu primeiro espinho!

Usemos na educação dos meios puramente moraes, e não das degradantes

correcções physicas.

Acordemos por todos os modos imaginaveis o bom senso da creança, e a

impressionabilidade do seu ser moral.

Que ella conheça sempre o mal e o bem, não pelos inconvenientes ou

vantagens que d'estas duas cousas possam provir, mas pelo que ellas

valem, pelo que significam, pelo rebaixamento que uma inclue em si, e

pela essencia superior de que a outra é feita.

III

N'este delicioso e querido assumpto da educação infantil tudo está dito,

e tudo está ainda por dizer.

As regras geraes teem forçosamente de ser modificadas na sua applicação

a casos particulares; nenhuma creança existe no mundo que seja

absolutamente egual a outra creança; é ao espirito da mãe que pertence o

gravissimo e delicado encargo de corrigir, ampliar, alterar, restringir

as regras e os preceitos enunciados pelos educadores e pelos moralistas.

O que é, pois, necessario antes de tudo, é levar as mães a pensarem

profundamente n'estas altas questões, e a estudarem com pertinaz

paciencia o caracter das creanças cujos destinos teem de dirigir.

Conhecemos uma senhora, aliás muito boa e muito dedicada, que, tendo

cinco filhos, os educa a todos pelo mesmo systema.

Resultado inevitavel e fatal:

As creanças são todas deploravelmente educadas.

Ernesto Legouvé, distincto escriptor francez, que tem consagrado grande

parte da sua vida a notaveis estudos sobre a sorte da mulher, e sobre a

educação da creança, publicou ha mezes um bello livro que d'aqui

recommendo a todas as minhas leitoras.

Intitula-se--_Nos filles et nos fils_, e contém uma serie de scenas e

estudos de familia, muito proprios para ampliar e esclarecer o coração e

o entendimento das mães em certos momentos criticos da sua difficil

missão.

Um d'esses trechos, e talvez um dos mais importantes, trata das creanças

e dos criados, da intimidade forçada e muitas vezes perigosa que entre

elles se estabelece, e dos resultados nocivos que d'essas relações

resultam para a educação.

Legouvé leu este trecho na _Academia Franceza_; por aqui se reconhece a

sua importancia, a maneira superior por que foi tratado.

Muitas mães desattendem na educação dos seus filhos a questão gravissima

dos criados.

Deixam que as creanças vivam n'um contacto muito intimo com gente de

tracto grosseiro, de comportamento equivoco, de linguagem eivada de

erros, de conversação baixa e degradante.

Quantas mães eu não tenho ouvido dizer ás suas filhinhas de quatro,

cinco e oito annos:--_Vae lá para dentro; deixa-me conversar?!_

Imaginam ellas que para a creança nenhuma consequencia má póde provir da

sua intimidade com as criadas.

Enganam-se.

Antigamente, quando os domesticos faziam, por assim dizer, parte

integrante da familia, nasciam e morriam na casa, não havia perigo em

que as creanças estivessem junto d'elles e com elles tagarellassem e

brincassem.

O instincto d'essas boas creaturas, afinado na convivencia de pessoas de

educação elevada, fazia-lhes comprehender que as creancinhas eram uns

seres sagrados e queridos, cuja intelligencia se não devia macular nem

de leve, cujos ouvidos tinham de ser escrupulosamente respeitados.

Hoje, infelizmente, como já o dissemos, esse modo de comprehender a vida

de familia, modificou-se completamente.

Os nossos criados entram e sahem com uma rapidez e uma facilidade

incrivel; não criam raizes em parte alguma, e este viver de párias no

meio dos que teem lar e alegrias intimas e familia e tecto seu,

desenvolve-lhes contra os amos uma estranha hostilidade.

Dizem mal por gosto, por necessidade, por um costume de classe.

Precisam de vingar-se, e vingam-se dos maus e dos bons, sem escrupulo e

sem remorso.

De cada casa d'onde sahem trazem os segredos, as anecdotas mais intimas,

os incidentes comicos, os acontecimentos grotescos; e contam tudo isto,

uns aos outros, n'uma grande liberdade de palavras, de apreciações e de

commentarios.

Surprehenderam aqui um drama, alli um ridiculo, conhecem as miserias de

muito interior, os vicios que se fazem pobreza, e a pobreza que se faz

vicio.

Com o amor do pittoresco e do maravilhoso, que ha sempre na alma do

povo, dão um colorido phantastico aos seus contos, que attrahe por força

a curiosidade da creança.

Imaginem-se uns ouvidos de cinco, de seis, de oito ou nove annos a

beberem essa deploravel sciencia!

E não se diga que a creança não entende!

A creança tem o instincto da curiosidade desenvolvido n'um

extraordinario grau!

A creança entende quasi tudo, e d'aquillo que não entende guarda a

memoria até á edade em que o mysterio lhe seja naturalmente explicado.

Não levar nunca para um caminho mau a curiosidade de uma creança, deve

ser um dos maiores cuidados da mãe.

Mas dir-me-hão: as pessoas crescidas conversam por força em mil

assumptos melindrosos; se realmente as creanças percebem, como evitar

que ouçam?

É n'isso positivamente que está o mal.

Na sala de uma senhora que tem filhos e que se compenetra absolutamente

dos seus deveres de mãe, deve haver o maximo escrupulo na escolha das

diversas conversações.

Assim como ha limpeza nas habitações, porque não haverá limpeza nos

espiritos?

Não ha tantos assumptos attrahentes de conversação?

Será absolutamente preciso dizer mal, murmurar, revelar indiscretamente

mysterios alheios?

Não quer isto dizer que a humanidade se limite a um puritanismo de

palavras, que degenerará por força em hypocrisia; mas entre esse excesso

ridiculo e a liberdade absoluta que se usa diante das creanças, creio

que ha um meio termo que seria facil de adoptar.

E depois, seja dito com toda a coragem: ou se é mãe no sentido completo

e absoluto d'esta palavra ou se é mulher do mundo.

Ou nos havemos de consagrar á companhia dos nossos filhos, á sua

educação, ao desenvolvimento gradual das suas delicadas faculdades, á

vigilancia solicita das suas almas e dos seus corpos, ou havemos de dar

aos tenros espiritos de quem somos guias, o deploravel espectaculo das

fraquezas e dos defeitos que tanto lhes desejamos fazer evitar.

* * * * *

Na creanca do sexo feminino a tendencia que mais cedo se desenvolve é a

vaidade.

A pequenita de tres annos já começa a ter orgulho e presumpção no seu

vestidinho bordado, nas suas saias de folhos, no seu chapéu vistoso e

garrido.

Todos se riem da _gracinha_.

--Meu anjinho! Como é presumida! Diz a mãe toda enlevada. E gaba-a

muito.--Estás linda! a minha filha é muito bonita. Fica-lhe tão bem este

vestido!

Mais tarde, d'ahi a quinze annos, quando a creancinha do outro tempo é

um rapariga delambida, arrebicada, cheia de appetites luxuosos, de

ambições extravagantes, sonhando com um noivo _muito rico_ que lhe sacie

todos os seus desejos de riqueza e de pomposa elegancia, quando os

homens serios e honestos olham para ella com desdem, e no seu intimo a

desprezam como uma boneca inutil e frivola, de quem é a culpa, digam-no

sinceramente?

A culpa é de quem favoreceu, em vez de combater, esse pendor funesto,

tão natural á mulher, e que só á custa de muita reflexão ella consegue

vencer.

A culpa é da mãe, que teve orgulho dos defeitos da sua filha, em vez de

lidar por transformal-os em virtudes.

A mulher é vaidosa? Pois bem! se não podemos destruir esse vicio

organico, demos-lhe ao menos um rumo diverso do que elle leva.

Que, em vez de ter vaidade dos seus trapos e dos seus miseraveis

arrebiques, ella tenha vaidade de ser boa, laboriosa, honesta, instruida

e forte.

Façamos comprehender bem ao nosso anjinho de tres annos, que é bem mais

difficil e glorioso ser docil do que ter um vestido novo; que é muito

mais digno de louvor saber ler do que trazer um chapéu de plumas.

Isto não é mais do que indicar o caminho.

Não ha mãe cujo instincto a não advirta de que estamos fallando verdade.

* * * * *

Até a escolha da boneca é uma cousa importante!

Uma boneca esplendidamente vestida, de chapéu com flores, de luvas e

cabellos d'ouro annellados, inspira um certo assombro, e depois uma

certa inveja. Uma boneca de trapos, estupida, inerte e molle causa

desdem e antipathia.

Oh! a primeira boneca! que jubilo supremo que ella não deu a todas nós!

Comparavel á alegria da primeira boneca, só a alegria do primeiro filho!

É a mesma hesitação em lhe tocarmos com medo que ella se _quebre_! o

mesmo susto! a mesma curiosidade! o mesmo enlevo! o mesmo espanto

namorado e feliz!

A mãe intelligente comprehende e sabe aproveitar isto.

A boneca é como a aprendizagem da maternidade!

--Está nua, coitadinha, está nua a tua boneca, Lili. Que frio que ella

deve ter! Que desconforto! Que pena de olhar para ti e de te vêr tão bem

vestida e quente e confortavel. Senta-te aqui ao pé de mim, Lili, vamos

nós fazer o fatinho da tua boneca!

E como o coração é que sempre domina e guia a mulher, eis o coração

fazendo um milagre n'aquella mulhersinha de oito annos, que deixa de ser

a traquinas, a turbulenta, a ociosa creaturinha, e que principia a

conhecer as delicias do trabalho e os santos prazeres do sacrificio.

O sacrificio por uma boneca!

Sim, o sacrificio, e porque não?

Só quem não é mãe e quem nunca foi creança é que escarnecerá da

expressão que empregamos.

Pois não sabem que essa primeira boneca, que se recolhe nua nos braços,

e que se veste, que se calça, que se conchega, que se adormece entre

beijos e affagos, é o primeiro sonho de um coração de mãe?

* * * * *

As amigas das nossas filhas!

Grave e momentoso assumpto, não raro descurado e de cujo esquecimento ou

de cujo desleixo resultam ás vezes damnos irremediaveis.

No collegio é que se travam quasi sempre as primeiras amizades. Ora, nós

para as meninas desadoramos o collegio.

Por muito bom que elle seja, achamol-o sempre pessimo.

Quem é que nos responde pela boa escolha de relações que alli adquirem

nossas filhas?

Quem nos diz que essas creanças todas que alli se reunem, e que entre si

trocam as mais intimas e minuciosas confidencias, só viram bons

exemplos, só conhecem quadros de santa e impeccavel moralidade?

Pois nenhuma d'ellas trará comsigo aquella funesta curiosidade, que

perdeu a nossa primeira mãe?

Todas são innocentes, todas ignoram da vida o que ella tem de baixo ou

de corrosivo?

Quem nos affirma que ellas saberão ser boas e honestas companheiras, que

não lançarão com uma palavra imprudente um germen venenoso, que não

corromperão com precoce perversidade o espirito da creança innocente,

que n'ellas se confiar?

As amigas das nossas filhas são aquellas de quem logo depois de nós

depende a pureza, a candura, a innocencia d'ellas!

É de uma grave imprudencia acceitar para uma filha nossa, sem escolha e

sem criterio, a companhia de outra creança.

Cumpre conhecer bem a mãe, a educação que ella dá aos seus filhos, o

modo porque vivem, o caracter, a moralidade d'essa familia.

E que as mães, n'este ponto, se não prendam com preoccupações de banal

delicadeza. Primeiro que tudo está o futuro das suas filhas.

Se a educação de um rapaz é já difficilima, que será a educação de uma

menina?

Quantos perigos a evitar, quantos obstaculos a temer, quantas

contrariedades em meio do caminho!

Que a mãe procure ser a melhor amiga de sua filha, e que esta não receie

confiar-lhe nem os seus pequeninos segredos infantis, nem as mysteriosas

comoções da sua alma adolescente.

N'esta deploravel educação que hoje se dá e se recebe, a primeira cousa

de que os filhos tratam é de enganar os paes.

De que provém isto? Da mal entendida severidade d'estes.

A indulgencia para as primeiras travessuras prepara naturalmente a

creança para se confiar sem medo ao coração que a sabe entender e lhe

sabe perdoar.

Mas é muito delicado este ponto da missão maternal.

Se o excesso da severidade cria a desconfiança e a mentira, o excesso da

indulgencia cria o cynismo e a desvergonha.

Que difficil não é para um espirito de mãe saber ao mesmo tempo attrahir

a confiança e impôr o respeito!

Levar o filho que peccou a confessar a culpa, não por ter a certeza de

que será facilmente perdoado, mas por lhe exigir a consciencia que não

esconda o seu delicto aos olhos d'aquella que sabe com mão delicada e

firme repôr no caminho direito o ente fragil que se transviou.

No dia em que a mãe tiver alcançado do coração de sua filha ou de seu

filho esta singular conquista de veneração e de amor, póde sentir-se

tranquilla e satisfeita, póde sem medo responder pelo futuro.

* * * * *

Para concluirmos este capitulo que, talvez por muito incorrectamente

desenvolvido enfastiasse as leitoras, sem lograr a ventura de as

convencer, damos em seguida o fragmento de uma carta, que por

circumstancias que seria inutil referir, ha pouco tempo chegou ás nossas

mãos.

Como verão, pertence esse trecho a uma carta que na vespera do seu

casamento foi dirigida á sua filha por uma extremosa mãe.

Explica muito melhor do que nós o podemos fazer o triumpho de um bom

coração maternal.

«Não tive animo de te dizer todas estas cousas frente a frente.

Tive medo de chorar, e tu sabes, meu anjo, que detésto acima de tudo os

enternecimentos intempestivos.

Depois, teria pejo, eu, tua mãe, eu que julgo ter concorrido pelos

cuidados de toda a vida para o excellente exito da minha obra--quer

dizer, da tua educação--teria pejo de te encher de louvores que embora

justos, recahiriam um pouco sobre mim.

Sabes que eu nunca te deixei, que por amor de ti renunciei, e de muito

boa vontade, á companhia dos indifferentes e dos frivolos, que só viriam

destruir ou modificar o effeito de todos os meus esforços, tão

santamente abençoados por Deus!

Com que saudades eu me lembro dos serões de outro tempo, em que tu já

serena, grave e modesta como és hoje, lias ao pé de mim, emquanto os

nossos bons e velhos amigos conversavam em cousas sãs, em cousas

simples, das que não podem ferir os ouvidos de uma menina!

Não te aconselho que renuncies ao mundo por amor dos anjinhos que virão

de certo abençoar e consagrar o teu casamento; mas peço-te que sejas

escrupulosa como eu sempre fui na escolha d'aquelles que admittires na

sagrada intimidade do teu lar.

Procurei sempre evitar em ti todos os excessos, mesmo os excessos bons.

Não te quiz beata, nem _espirito forte_; não desejei que fosses uma

metaphysica, nem um entendimento demasiadamente positivo, nem mulher só

de sala, nem mulher exclusivamente do _ménage_.

O ideal, minha filha, é que de tudo se saiba ser um pouco.

Gostarei que recebas com graça senhoril na tua saleta de todos os dias,

artistica e confortavel, mas não desejarei menos que saibas ensinar a

tua cozinheira, fazer o rol da tua roupa, concertar o fato de teus

filhos, e economisar sem mesquinhez e gastar sem avareza.

Não quiz nunca que tivesses outra amiga, e creio ter feito bem.

Se foi egoismo, Deus não me castigou por elle, porque devi a essa

precaução, por ventura excessiva, ter tido a deliciosa confidencia das

tuas primeiras alegrias e dos teus primeiros sonhos.

Ámanhã já não serás minha, querido encanto; nem já serão os meus beijos

os unicos que a tua pura testa de vinte annos receberá! Mas n'esta

saudade dilacerante que me punge, quantas compensações supremas eu não

encontro!

Entrego-te ao teu noivo, tão candida, tão ignorante do mal como deviam

ser todas as creanças da tua edade, que tivessem mãe, que só n'ellas

pensasse e só por ellas vivesse!

Nunca ouviste pronunciar uma palavra grosseira, nunca ouviste applaudir

um acto injusto, nunca se abaixaram os teus olhos seraphicos a um

espectaculo ignobil.

Eu fui sempre a tua fiel companheira; e, como as vestaes velavam o fogo

sagrado, velei eu pela tua immaculada innocencia!

De que ventura se privam as que preferem o mundo aos seus filhos!

Ignoram as alegrias profundas de ser mãe, como eu fui, como tu serás,

minha joia!

Não ha na tua alma um pensamento, uma idéa, uma saudade, que eu não

conheça, e se ámanhã quizer folhear diante de teu marido o livro radioso

da tua infancia e da tua adolescencia, não haveria n'elle uma só pagina

que eu lhe não podesse repetir de cór.

Respondo pelo passado e respondo pelo futuro. Basta-me essa gloria para

me consolar de todas as minhas saudades!

É bem pezada n'este mundo a cruz das boas mães, mas não te esqueças

nunca, minha filha, que mesmo n'esta hora de tantas lagrimas, eu

confesso bem alto, não ha rosas mais frescas, mais puras e mais

orvalhadas do que as rosas que enfloram e entrelaçam essa cruz!

Só d'aqui a muitos annos comprehenderás a angustia com que te

digo--_adeus_!

Então, sei que has de chorar por mim!»

CAPITULO XVI

Cartas de um marido

Meu caro amigo.

Onde é que fui desencantal-a? perguntas tu com justificado espanto.

E tens razão.

O facto é que nunca a vi, valsando n'um baile á luz quente e abafadiça

do gaz, decotada, cheia de pó de arroz e de suor, abandonando-se n'uma

postura voluptuosa, nos braços de um sujeito esgrouviado, de casaca,

collarinhos de papelão, e olhar que tenta ser magnetisador e

irresistivel, e que depois de tamanhos esforços não consegue ser senão

comico.

Nunca a encontrei cantando n'um concerto duetos apaixonados em beneficio

dos meninos pobres, vendendo n'um bazar sorrisos de dançarina e

_bibelots_ de fancaria em beneficio dos velhinhos aleijados,

representando n'um sarau dramatico, comediazinhas maliciosas em

beneficio dos adultos cegos.

Mulheres e creanças: notas sobre educação · 第 11 / 13 段