Não posso explicar bem o trabalho que tive para, sem polluir aquella

innocencia sagrada, lhe explicar que n'este mundo ha _meu_ e _teu_, e

que a propriedade é um direito inviolavel.

Como não ha nada mais difficil--para não dizer impossivel--do que

introduzir uma idéa abstracta na cabeça d'uma creança, não imaginas de

quantos artificios e quantas manhas me valí.

Cheguei a _roubar-lhe_ tambem eu propria, parte dos seus _bonitos_.

Então é que era vel-o, sem se atrever a condemnar-me, e no entanto

sentindo revoltados, lá dentro da sua alminha de cinco annos, todos os

instinctos de justiça que sempre mais tarde ou mais cêdo alli tinham de

manifestar-se.

--Tiveste muito pena de te tirarem os teus bonitos?

--Tive muita sim, mamã, respondeu todo sobresaltado e ainda mal

restabelecido do susto.

--Ora ainda bem! O _bébé_ agora nunca mais tira nada a ninguem, ouviu?

--Ah! sim, e ficou-se instantes como que seguindo um trabalho que sem

elle mesmo querer se lhe ia fazendo lá dentro. Ah! sim, é muito feio

tirar ás pessoas o que ellas teem. Bébé nunca mais tira...

No outro dia a Guilhermina, a minha velha aia que tu conheces

perfeitamente, dizia-me consternadissima:

--Ninguem faz idéa de como o menino é mentiroso. Inventa cousas que é de

fazer tremer uma pessoa.

De feito, não ha nada mais prodigioso do que a phantasia de bébé.

Conta os factos mais extraordinarios que nunca se deram, como se tivesse

assistido a elles. Da mais pequenina cousa deduz uma longa historia

falsa. Umas vezes encontrou na rua um homem muito feio que o quiz levar

comsigo; outras vezes mordeu-lhe um bicho, que elle parece ter visto e

que descreve com as côres mais vivas. Quando está um pedaço longe de mim

vem narrar-me assombrosos acontecimentos que se deram com elle, do mesmo

modo quando me deixa instantes, conta á Guilhermina uma infinidade de

pormenores que só existiram na sua imaginação.

Como é que eu hei de conseguir subordinar a um principio de exactidão e

de verdade aquelle espirito iriado e phantastico, para o qual todas as

cousas tomam uma fórma differente da realidade?

Crear uma alma! que missão difficil, que missão esmagadora.

No fim de contas as forças da natureza não são boas nem más; da

applicação d'ellas é que tudo depende.

Do meu anjinho, impetuoso cheio de ambições, de curiosidades, de

irrequieta alegria, de cubiças intuitivas, de energia vital, póde uma

direcção boa fazer um caracter nobre, viril, pertinaz, capaz de todas as

luctas, prompto para todos os combates, investigador, inventivo, cheio

das beneficas curiosidades do bem, e das ambições generosas que levantam

e enobrecem.

E pensar, meu Deus, que mal dirigidas, todas estas qualidades, todas

estas forças, todas estas manifestações de vida intensa, podem leval-o á

perdição, á infamia, ao crime!..

Oh! meu Deus, dae-me vida e entendimento para que só eu amolde e

affeiçôe a querida alma de meu filho!

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O Luiz faz hoje o seu primeiro exame no Lyceu; já se não chama _bébé_,

já não tem aquelles annellados cabellos de ouro que eram o meu orgulho e

as minhas unicas joias, os seus bellos olhos escuros já não tem a doçura

pensativa, o pasmo encantador da alma que se busca e que se ignora; usa

jaquetinha e calças, e hontem dei a uma vizinha pobre uma blusa que era

d'elle, a sua ultima blusa de ha dous annos.

Que tolice! Sabes que lh'a dei a chorar?

O meu Luiz é quasi um homem.

É bom, é meigo, é d'uma deliciosa innocencia, de uma expansão de vida

que assombra!

Não é meditativo, nem poeta; nada d'isso. É d'uma alegria impetuosa;

d'uma actividade sem limites.

Gosta de estudar para me satisfazer a mim, mas tenho a certeza que gosta

de brincar para se satisfazer a si.

Não sabe muito; ao pé dos nossos _sabichõesinhos_ em miniatura, creio

mesmo que passará por um ignorante; mas a verdade é que está apto e

preparado para aprender tudo.

Suppõe tu um lavrador que fizesse as suas sementeiras antes de preparar

a terra com os convenientes adubos, e aqui tens parte dos educadores de

hoje.

No meu filho--perdôa-me este santo orgulho--nenhuma qualidade foi

atrophiada, todas estão no pleno desenvolvimento que lhe é proprio,

n'aquella florescencia opulenta no fim da qual já se antevê sazonado e

saboroso o promettido fructo.

Tem o corpo d'um pequeno atleta. Capaz de resistir ás longas viagens,

aos estudos complicados da sciencia moderna, aos trabalhos complexos do

luctador d'este seculo estranho e poderoso.

Até os seus recreios e distracções foram dirigidos com desvelo.

Desenvolvem-lhe o corpo dia a dia, a natação, a gymnastica, a equitação,

todos os exercicios physicos que tendem a duplicar e desenvolver o vigor

natural do homem, a creal-o mesmo se elle originariamente não existe.

Vivemos muito no campo, durante a sua risonha infancia. O amor e o

conhecimento intimo da natureza, das plantas e dos bichos, das cousas

inanimadas e das cousas mudas, o espectaculo grandioso ou suave dos

campos e das montanhas, dos tempestuosos mares, ou das placidas e fartas

lezirias, entra como um elemento fortalecedor, vivificante, cheio de

ensinamentos praticos na educação das creanças. Nunca uma arvore ensinou

uma acção má; nunca uma flôr ou um ninho de aves crearam um pensamento

abjecto.

Não poz nunca o pé n'um collegio. Não conhece nem as alegrias nem as

lastimas d'essa intimidade que tem decididamente mais resultados

funestos do que vantagens conhecidas.

Aprendi quanto me foi possivel, não para lhe ensinar, mas para estudar

com elle, e comprehender antes d'elle o que era preciso que elle

comprehendesse.

Diante dos seus bellos olhos limpidos e curiosos não consenti nunca que

passassem os abjectos quadros que polluem tanta imaginação infantil.

Não me cancei inutilmente a prégar-lhe sermões de moralidade abstracta;

pratiquei o bem para que elle o praticasse; em minha casa só tem visto

exemplos dignos.

Mais tarde, quando os maus, rindo lugubremente, lhe disserem que o bem

não existe, elle não acreditará n'essa blasphemia porque pensará em mim!

Não é ainda um homem, mas promette vir a sel-o!

Está quasi cumprida a minha tarefa.

Hoje quando elle voltar contente de haver sido premiado--porque estou

certa de que o será--acceitarei ainda os seus beijos como uma

recompensa.

D'aqui ávante é a seu pae que pertence a direcção suprema d'aquelle

espirito que desabrocha para todas as altas curiosidades da vida.

Choro porque as mães são fracas, Magdalena, mas para que choro eu?

Já nada, nada na terra nem mesmo a minha morte nos póde separar.

Todas as virtudes que elle tiver, serão simplesmente o fructo das flores

que eu tenho cuidado com tanto amor, assim como essas flores veem dos

germens que eu semeei cheia de susto, de delicias, de ambições, de louco

anceio!

Fui eu que o conduzi pela mão, ao mesmo tempo tremula e confiante, até

ao limiar da sua pura adolescencia.

Sinto orgulho é verdade, mas tambem sinto saudades!

Saudades do tempo em que o embalava nos meus braços, em que elle só de

mim vivia, como eu vivia só para elle.

Foram as minhas alegrias mais superiores e mais completas.

D'ora ávante é preciso que elle se emancipe um pouco da minha tutella

extremosa, que elle se vá robustecendo ao contacto rude dos homens e das

cousas.

Fui eu que o formei. Sinto que pertencerá ao numero dos fortes, e que

não succumbirá na lucta da vida...

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Como estou velha, minha querida amiga de outros dias!

Lembrei-me tanto de ti, hoje, na igreja onde fui assistir ao casamento

do meu Luiz!

Tem 24 annos, realisou as doces promessas que eu sonhara e sahiu hoje de

casa de seus paes para outra casa que vae ser d'elle.

Tu não sabes a nuvem de tristeza que obumbra a minha alma, não sabes

como todos os egoismos humanos se revoltam em mim, e ameaçam fazer-me

naufragar na sua formidavel tempestade!

Oh! deixa-me desabafar comtigo!

Quem é que ainda revelou ao mundo o martyrio que crucifica as mães!

Foi para outra que eu andei formando aquelle divino thesouro com todas

as riquezas que pude juntar dentro da minha alma!

Tantas noites que velei a pensar, a estudar, a pedir á voz intima da

consciencia que esclarecesse e fortalecesse e guiasse o meu fragil

coração de mulher!

Tantos annos de abnegação profunda, de abnegação sem nome, de todas as

horas, de todos os instantes, esquecida de tudo que não fosse aquella

alma pequenina que andava a crear e a robustecer.

N'esse empenho me fugiu a mocidade. Por elle, pelo meu adorado ingrato

me esqueci de tudo que fôra meu!

E hoje elle partiu; partiu risonho, triumphante, orgulhoso como um rei,

sem se lembrar que onde vira até alli sua mãe, deixava uma triste

condemnada!...

E ha quem falle por ahi em ciumes romanescos, em ciumes ephemeros, em

ciumes d'um instante! Qual ciume poderá comparar-se a este que me está

dilacerando o peito?

Oh! Luiz! oh! meu amor! oh! minha solidão!...

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Na ultima vez que te escrevi estava louca, minha velha amiga.

Nunca está só quem ama, e espera, e crê em Deus, e semeou o bem no seu

caminho.

Veio lembrar-me tudo isso n'essa hora de amarga revolta que passou, o

querido companheiro de toda a minha vida, o meu honesto guia, aquelle

que partilhou commigo todas a sublimes responsabilidades que ha no amor

dos paes.

Já sou avó minha amiga, o meu Luiz é já pae.

Nas alegrias d'elle vejo reflectidas as alegrias extinctas, cujo aroma

vago perfuma a minha alma de uma saudade ineffavel.

Não se esqueceu de mim, o meu querido filho; tem presentes todas as

minhas licções, o laço mysterioso que um dia nos uniu conserva-se

inquebrantavel, e hoje não deixa ainda de vir consultar-me a cada

instante como nos dias em que a sua alma e a minha trocavam

incessantemente confidencias mutuas.

Estou consolada!

Vejo descer a velhice sobre mim como uma noite calma, tranquilla e cheia

de estrellas!

Não é nunca infructifera a obra das mães.

O meu sacrificio, se o foi, será continuado, e desatar-se-ha em flores

bemditas de geração em geração.

Felizes todas as que puderem adormecer como eu no seio de um filho a

quem deram tudo que tinham de melhor, de quem receberam tudo que n'este

momento levanta a minha alma para além da vida terrestre, e me faz

antever o somno tranquillo e doce das consciencias justas.

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FIM.

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DA MESMA AUTHORA

NO PRÉLO

CONTOS E PHANTASIAS, 1 vol.

Lista de erros corrigidos

Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:

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| | Original | Correcção |

+----------+---------------------+----------------------+

|#pág. 59| acquisiçõos | acquisições |

|#pág. 97| Dir-me-hão quo | Dir-me-hão que |

|#pág. 147| _mar dinho_ | _maridinho_ |

|#pág. 161| Girardiu | Girardin |

|#pág. 189| uma lcance | um alcance |

|#pág. 250| grande gestos | grandes gestos |

|#pág. 263| desonvolver | desenvolver |

|#pág. 263| affiige | afflige |

|#pág. 308| exemplo dignos | exemplos dignos |

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Mulheres e creanças: notas sobre educação · 第 13 / 13 段