Este plano, como se vê, não é mais que um plano embryonario, o germen
d'uma idéa que se nos affigura util e praticavel.
Outros melhor do que nós o estudem e desenvolvam, se entenderem que o
merece.
* * * * *
Quanto a nós, acreditamos piamente que só então começariamos a ter
criadas.
As que sahissem do asylo com 20 annos de edade ficariam sujeitas a uma
certa e determinada vigilancia, cujo systema e cujas bases nos não
compete agora explicar.
Com estas garantias de moralidade, e de bom serviço, seriam preferidas a
todas que as não tivessem, e pelo menos fariam uma util concorrencia ás
criadas indisciplinadas e ignorantes que hoje temos.
As casas dignas e honestas teriam criadas cujo comportamento as não
deslustrasse.
As outras ficariam com as que teem hoje.
Não merecem mais.
* * * * *
Nos asylos dos rapazes, seguir-se-hia uma norma egual ou parecida.
Esses como teem campo muito mais vasto para exercerem as suas
actividades complexas, dariam de certo, bem educados e bem dirigidos, um
pequeno contingente para a classe dos criados.
Seria um bem.
Uma criada representa sempre uma necessidade, um criado representa
sempre um luxo!
Para que ha de haver criados de meza ociosos e insolentes, cosinheiros
envenadores e infieis?
Estes serviços tão faceis não podem ser feitos por mulheres?
Logo que este uso se propagasse entre os ricos, deixaria de ser indicio
de pobreza, ou de habitos plebeus.
No fim de contas tudo isto não passa de convenção!
* * * * *
Já que o Estado julga descer occupando-se d'estas _pequeninas_ questões
de moralidade domestica, que a iniciativa individual o substitua.
Ninguem mais do que nós tem applaudido o engrandecimento progressivo, o
rapido desenvolvimento das instituições de caridade.
Não é o dinheiro que falta, porque entre nós quando se falla na miseria,
a caridade nunca faltou; o que falta é uma direcção boa.
A rotina n'isto como em tudo é funestissima.
A nossa caridade official dá pão e vestuario ás creanças, mas que faz em
favor das mulheres?
Dando-lhes uma educação que não está em harmonia com os seus meios
futuros, condemna-as á miseria, á desgraça, quantas vezes á ociosidade e
á ignominia?
A educação deve fazer-se pratica e positiva, deve tornar-se um
preventivo efficaz contra os maus conselhos da pobreza ou da preguiça!
Os que pensarem n'isto farão um bem á familia, e á sociedade.
Creanças
CAPITULO XV
I
São ellas a alegria da familia, como a familia é a suprema ventura dos
felizes, e o supremo consolo dos desgraçados.
Quando apparecem trazem comsigo o sol; tudo se illumina.
Sorriem os labios mais ironicos, marejam-se de lagrimas doces os olhos
mais aridos, estendem-se prodigas de bençães as mãos mais avaras.
Ellas são a graça que se ignora, a fraqueza que nenhum poder assusta, a
innocencia que interroga, a aurora intellectual que desponta e que
diffunde em torno de si uma luz cariciosa e limpida, uma luz que se
reflecte em jubilos no coração das mães.
Tudo na vida é para ellas mysterio, mysterio que as chama e as attrahe,
cujas trevas as não apavoram, em cujos sinistros meandros nem sequer
receiam perder-se.
Em cada um d'aquelles pequeninos cerebros encerra-se em germen tudo que
é no homem pequenez ou grandeza, genio ou mediocridade, força ou
impotencia, virtude, abnegação, esquecimento de si ou egoismo, vicio e
crime.
Onde ha maior mysterio do que a creança?
Debalde a interrogamos; não sabe responder, senão áquelles que pelo
poder da sympathia logram identificar-se com ella.
Recebel-a das mãos de Deus é para a mulher, para a mãe a mais tremenda
das responsabilidades, e desgraçadamente aquella de que tem a
consciencia menos definida e menos clara!
* * * * *
Ser mãe, quem o não é?
A difficuldade e o segredo é saber sel-o.
Na sociedade, tal como ella está constituida e continuará a estar por
largos e dilatados annos, dous entes, um homem e uma mulher, moços
ambos, encontram-se, olham-se, sorriem-se e pensam de si para comsigo
que estão _apaixonados_.
Durante alguns dias, alguns mezes, a que elles em falsa e sentimental
linguagem chamam _seculos_, repetem um ao outro, n'um tom mais ou menos
desafinado os _duettos_ de ternura doentia que os romancistas, os
prosadores e os _maestros_ inventaram para conveniencia sua... dos seus
emprezarios e editores, e para envenenamento do resto da humanidade.
N'este meio tempo, por detraz dos bastidores, os paes, que fingem _não
ver nada_, calculam _in petto_ quaes os prós e os contras pecuniarios do
matrimonio hypothetico.
Se os primeiros levam certa vantagem aos segundos, celebra-se com a
devida pompa o almejado consorcio, e n'essa noite ha mais dois
desconhecidos, dois indifferentes, dois estranhos acorrentados um ao
outro por um laço que devia ser sagrado, e que muitas vezes consegue
sómente ser... dourado!
O marido no outro dia vae para as suas labutações do costume, para a
vida exterior que o reclama e absorve, a mulher fica em casa provando os
vestidos do enxoval, experimentando se lhe fica bem a touca, distinctivo
invejavel das noivas, ensaiando os seus primeiros vôos timidos de
senhora independente, que póde á sua vontade fechar o piano, atirar fóra
o lapis e as tintas, deixar para um canto a costura e o bordado, e
subverter-se sem receio das censuras maternas no _dolce far niente_, que
tanto a namorava em seus dias de educanda submissa.
D'alli a um anno, se é boa, docil, se tem a intuição das cousas
delicadas, se um poderoso instincto de creatura amoravel lhe pede que
espalhe em volta de si a felicidade, concedamos-lhe que já tem tido
tempo de conhecer e apreciar seu marido, que principia a estimal-o, que
se lembra um poucochinho envergonhada dos falsos lyrismos de solteira,
das cartas que lhe escrevia _fazendo estylo_ e copiando phrases dos
grandes apaixonados que a lenda e o romance immortalisam; que tem,
emfim, ainda incompleta, mas já accentuada a noção da verdade e da
justiça que ha de guiar-lhe a vida.
Param, porém, aqui os seus conhecimentos, e um dia, surpreza, encantada,
extactica, chorando de alegria, umas lagrimas verdadeiras, d'estas que
se escoam entre risos de gratidão, percebe que tem nos braços um
pequenino ser, a quem tem direito de chamar filho, porque o gerou no
seio em longos mezes de agonia insondavel.
Que ha de fazer d'elle? Como ha de desenvolver, robustecer, cultivar a
saude d'aquelle entezinho, fragil e indefezo, que lhe solta no regaço os
seus primeiros vagidos, buscando com a boquinha faminta e o instincto
animal, que Deus concede a todos os seres creados, a primeira gotta do
leite materno, que é a sua vida?
Entram as amigas e dizem-lhe em côro:
--Não o cries que perdes a formosura, o viço, a mocidade, tudo o que
prende e captiva teu marido.
--Não o cries, que tens de te despedir dos bailes, das noites
triumphantes em que a valsa nos arrebata nos circulos vertiginosos, em
que as flôres e as finas essencias nos embriagam com o perfume
enervante, em que a musica nos côa nos sentidos as suas caricias
languidas, em que a luz crúa do gaz nos beija as espaduas opalinas, em
que a admiração dos homens nos envolve na audaz provocação dos seus
olhares, em que a inveja das mulheres nos enrosca em espiraes de cobra.
--Não o cries, que terás de perder as noutes, não entre alegrias e
folgares, mas na alcova, onde a medo bruxoleia a luz mortiça da
lamparina, junto de um pequeno berço, ouvindo aquelle choro da infancia,
tão doloroso para os ouvidos maternaes.
Teu marido fugirá de ti; elle, que anda cansado da faina diaria, quer as
noutes tranquillas, os somnos fartos, as placidas madrugadas;
repugnam-lhe os primeiros trabalhos que a creança tem que dar por força
á mãe, que fôr mãe, na accepção plena da palavra.
Não creio que a maior parte das mulheres ouça os funestos e corrosivos
conselhos das amigas falsas; hoje começa a radicar-se em todos os
espiritos a convicção justa e sensata de que só a mãe, quando é robusta,
ou quando é simplesmente sã, deve amamentar o filho.
Entregal-o aos braços mercenarios de mulher estranha é aceitar a mais
tremenda das responsabilidades.
A ama póde communicar no leite os seus vicios, os seus instinctos maus,
as suas doenças ou defeitos de organisação hereditaria, toda a herança
fatal de um passado inteiramente desconhecido para as pessoas que tão
levianamente lhe confiam o que devia ser o mais precioso thesouro da sua
alma.
Abstraiamos, pois, a ama, por não querermos suppôr que se trata aqui de
uma mãe frivola até ao crime, despiedosa até á ferocidade, ou fraca a
ponto de não poder cumprir os deveres da sua missão maternal.
Fica-nos simplesmente a mãe inexperiente e ignorante em face da
recem-nascida creatura, flôr que precisa o mais desvelado cultivo, a
mais complexa das educações.
Não a accusemos ao vel-a aceitar o seu mimoso fardo com tão leviana
confiança, com uma tão plena inconsciencia da grande missão que precisa
de cumprir.
A culpa não é d'ella; n'este ponto ha um criminoso apenas--é o homem.
* * * * *
Abrem-se universidades, lyceus, escolas, seminarios, institutos
scientificos, para educarem no seu seio os jurisconsultos, os medicos,
os sacerdotes, os mathematicos, os commerciantes, os sabios, os cidadãos
do futuro.
Só falta uma escola, a primeira, a mais indispensavel das escolas, a que
facilitaria e tornaria fructiferos os trabalhos das outras: falta a
_escola das mães_!
Ninguem se lembrou ainda de a crear, julgam-na desnecessaria, ou talvez
que a julguem frivola.
--Como é que se ha de ensinar a ser mãe? é só a natureza que instrue a
mulher. Ha mães de quinze annos que sabem mais n'este assumpto do que
velhos pensadores de sessenta. Deixae obrar a natureza, é ella a grande
mestra, a suprema inspiradora!
De accordo, meus senhores; quem é que nunca se lembrou de negar á mãe o
seu divino instincto de protecção e de ternura? Quem ao vel-a segurar
com tão delicado carinho o tenro corpo do filho, acalental-o nos braços,
adivinhar-lhe as necessidades e os desejos até para elle indistinctos,
negará que entre esses dous entes ha uma cadeia mysteriosa, que a
natureza nunca poderá mais desatar?
Mas é necessario que o estudo auxilie o maravilhoso instincto, que elle
ensine á mãe a comprehender no seu triplice aspecto, physico, moral e
intellectual, a educação do ser complexo, que hoje é uma fraqueza que
implora auxilio e ajuda, que ámanhã será uma força util ou funesta,
conforme a direcção que haja recebido desde os mais tenros annos.
* * * * *
_O estudo que comprehende todos os outros estudos, e que deve, portanto,
constituir o ponto culminante da instrucção, é a theoria e a pratica da
educação da infancia._
Estas palavras de Herbert Spencer, o philosopho mais notavel da moderna
Inglaterra, um grande pensador, um chefe de escola, provam de sobejo até
que ponto, aos olhos do homem que medita, avulta hoje o grande problema
da educação.
É um erro imaginar que a creança nasce boa.
Ha n'ella instinctos innatos de natureza selvagem, instinctos
primitivos, que só uma habil cultura modifica, transforma, encaminha ou
desarreiga.
Toda a creança é curiosa: mães aproveitae essa grande força, que conduz
o homem á conquista de todas as grandes descobertas da sciencia e da
arte, e que póde quando entregue a si conduzir a creança ao mais
deploravel e mesquinho dos vicios de caracter, á curiosidade esteril do
ocioso, da _senhora visinha_. A creança tem o instincto do roubo.
Apossa-se do que vê, do que attrahe pelo brilho, do que lhe desafia a
cubiça, a gulodice, o amor da posse.
Leitora, quando o teu pequenino de tres ou quatro annos tiver artes de
te roubar uma joia muito querida, um manjar muito reservado, um
_bibelot_ qualquer, que seja para ti de grande estimação, não chores
desconsolada, lendo n'esse primeiro symptoma sinistras prophecias. Esse
prenuncio de ambição desregrada póde, dirigido com previdente
vigilancia, transformar-se na legitima energia que leva o homem a
desejar a posse das riquezas honestamente adquiridas, a exercer no seu
espirito uma influencia fortificante, a tornal-o pertinaz no caminhar
para um ficto que de longe antevio.
Dirigir toda e qualquer tendencia para um fim elevado e util, combater a
inercia, a preguiça physica e intellectual da creança, empregando
activos reagentes, ir ajudando lenta e gradualmente a evolução natural
do entendimento infantil, abrir-lhe o espirito a todas as curiosidades
sãs, apontar para a natureza inteira como para um livro enorme,
mysterioso, cheio de apaixonado interesse, de peripecias dramaticas, de
imagens vistosas, que elle ha de ir decorando a pouco e pouco,
conduzil-o até ao limiar da adolescencia, puro de coração, immaculado no
corpo, prompto e apto para absorver em si os conhecimentos complexos que
o esperam, robusto, são, energico, confiante, cheio de crença nos
outros, e de crença maior em si, eis a missão das mães. Que de cousas
não são indispensaveis para a saber cumprir!
* * * * *
Uma das cousas que a mulher quasi geralmente ignora é a hygiene pratica,
que ella tanto precisava saber, tendo, como tem, a seu cargo a
distribuição e direcção do alimento da familia.
Do alimento que se ministra á creança depende em grande parte não só a
sua futura saude, mas, o que poucas mulheres sabem,--o seu caracter
futuro!
Dae a uma creança alimentos irritantes, inflammaveis, apimentados;
deixae-a usar sem discernimento de bebidas em que o alcool predomine, e
tereis o temperamento adulterado, o caracter azedo, os habitos baixos,
os gostos perversos, todas as aberrações de um organismo estragado.
Dae-lhe só carne, alimentae-a brutalmente de materias fortemente
azotadas, e fareis d'ella, da meiga e fragil creatura, do pequeno anjo
de cabellos louros e olhos innocentes, um temperamento sanguinario,
selvagem, amigo das luctas bravias, das distracções violentas, dos
exercicios athleticos, que caracterisam as rigorosas raças do norte.
Exemplo: os inglezes, que só domam as revoltas brutaes do temperamento
com a forte disciplina de uma educação que é o supremo milagre do
espirito sobre a materia.
A alimentação fraca produz os organismos inertes, fleugmaticos, sem
impulso, sem fibra, sem energia duravel.
Saber pois, conhecer os diversos attributos que caracterisam a
alimentação do homem, saber combinal-os de modo que todos concorram para
o seu bem-estar physico, e que nenhum produza as graves perturbações
organicas de que podem ser origem, é a sciencia das mães, sciencia para
cujo estudo devem tender todos os seus esforços.
* * * * *
A actividade quasi incessante da creança é um dos meios que mais
efficazmente concorrem para o seu crescimento physico e, por
consequencia, para o seu desenvolvimento intellectual.
As mães, julgando fazer n'isto um grande serviço a seus filhos, combatem
por todos os modos esta actividade, obrigando as creanças a uma
quietação que se transforma em supplicio para os pequeninos corpos
buliçosos, que um impulso involuntario leva a um quasi continuo
movimento.
Não é só com as reprehensões, ás vezes asperas e sempre injustas, não é
só encerrando os pobres seres pequeninos em espaço muito estreito para
os seus desejos, é tambem vestindo-os para obedecer ao despotismo da
moda, e ás exigencias da propria vaidade de um modo que está em pleno
contraste com a idéa que todo o espirito um pouco sensato deve formar
das aspirações e necessidades da infancia!
A creança, que quer e que precisa de correr no espaço amplo, pelas ruas
pedregosas, pelos campos lavrados, pela matta cheia de raizes, traz
quasi sempre uma botina alta, justa, de salto levantado e estreito!
Ella, que aspira aos movimentos livres, que se compraz nos grandes
gestos, que trepa ás arvores, que se roja pelo chão, que atira ao longe
os improvisados projectis que encontra, sente-se cruelmente cingida por
um fato rico, elegante, phantasioso, caro por força, e que tem o defeito
duplo e contradictorio de a entristecer lentamente, inconscientemente
pelas censuras e ralhos de que lhe é motivo incessante--visto que não ha
nada mais avarento do que a prodigalidade e nada mais economico do que a
ostentação--e de a tornar vaidosa pelo habito e pelo gosto de attrahir
as vistas dos frivolos, e a inveja dos pobres, dos pequenos rotos, dos
miseraveis de cinco annos, que ignoram as alegrias bemditas da sua
liberdade indomada!
Mães, arrancae ao vestuario dos vossos filhos tudo que fôr vaidade,
falso luxo, ostentação ridicula!
A graça das creanças consiste na plena expansão da sua vitalidade; o
luxo d'ellas está no doce aroma de infancia que de si exhalam, e que
falla de aceio, de pureza, de carinho materno, que revela--aos que sabem
ver--as matinaes e frescas alegrias do banho, as risadas crystallinas
como perolas que se desfiam, os gritinhos infantis, as fugidas subitas,
todo esse poema, que ninguem traduz, de um bando de pequeninos corpos,
feitos de leite e rosas, com cabelleiras louras por aureola, que uns
braços amorosos amparam, susteem, acariciam, em quanto que um sorriso
meigo e pensativo illumina em clarões de limpidez ideal, uma bocca que
só sabe abençoar, uns olhos de mãe, que nunca desamparam nem desfitam o
tepido ninho das suas doces aves implumes.
II
Por muito tempo todas as attenções do homem se fixaram n'um ponto que se
avistava para além da vida terrestre.
Curava-se sómente da alma considerando a terra morada transitoria, cheia
de males e de miserias, e o corpo ephemero involucro, especie de lodoso
carcere onde o espirito prisioneiro anciava por levantar o vôo para as
altas espheras da eterna bemaventurança.
Este pensamento, que dominava todos os outros e ao qual todos os outros
se subordinavam, é a causa suprema de onde deriva toda a philosophia da
edade média, e que determina o ideal a que tenderam os sonhos de
milhares de gerações, nossas predecessoras na vida.
Foi elle que estabeleceu o medonho antagonismo entre o espirito e a
materia, causa de tantos erros e de tão falsas interpretações; foi elle
que levou o homem perdido e transviado a considerar a natureza como a
sua mais cruel inimiga, como a sua tentação mais perigosa e abominavel.
D'esta guerra anti-humana e anti-natural nenhuma conquista verdadeira
poderia provir.
Era falso o ponto de vista de que o homem partia, falsissimas todas as
deducções que d'esse ponto de vista resultavam.
O corpo era um farrapo miseravel que só merecia desprezo e humilhação;
todo o prazer, ainda o mais natural era um peccado que cumpria expiar
cruelmente; a vida era um periodo curto de passagem e penitencia; a
creança nascida já vinha contaminada do peccado original; a alma, só a
alma precisava dos nossos cuidados, das nossas meditações, do nosso mais
especial e esmerado cultivo!
Quantos erros de educação, de moralidade e de hygiene!
Quantas revoltas medonhas este despotismo espiritual não excitava!
Mas foi por acaso esse tempo de pura espiritualidade?
Pelo contrario!
Nunca os instinctos maus do homem imperaram com mais violencia! Nunca se
materialisaram mais todos os cultos e todas as idéas!
O Deus que todos adoravam em extasis apaixonados, era o Christo
dolorido, cadaverico, crivado de pregos, escorrendo sangue de cada uma
das suas chagas abertas.
A dôr maternal era symbolisada por sete espadas atravessando um coração
dilacerado.
Os fanaticos mostravam á admiração das turbas os estygmas sangrentos das
suas carnes palpitantes.
Os ascetas tinham visões nas quaes o Padre Eterno, o Christo, a Virgem,
os Santos, lhes appareciam sob a fórma humana, com feições diversas e
caracteristicamente accentuadas, fallando na linguagem mais correntia e
mais chã.
A _resurreição da carne_ era um dos pontos fundamentaes do dogma
catholico. O espiritualismo d'essas éras barbaras era muito mais
_material_ do que a sciencia de hoje.
--Para que aperfeiçoarmos e amenisarmos a vida,--diziam do alto dos seus
pulpitos ou nas paginas dos seus tractados as terriveis authoridades
d'essas éras tão hostis para o homem.--Quanto maiores supplicios
houvermos padecido n'este momento rapido, maior quinhão de gloria tem
para nós a eternidade. Sofframos todas as humilhações mais abjectas,
curvemo-nos diante de todas as tyrannias, deixemos que os vermes devorem
o nosso corpo ulcerado, sejamos grandes em face do Senhor, como Job na
sua gloriosa estrumeira. Os que forem ultimos cá em baixo, serão os
primeiros no céu!
E a humanidade, ébria de um sonho de beatitude immortal, perdia a força
para combater, e esperava passivamente a resurreição esplendida que os
illuminados lhe promettiam!
Oh! quanto devemos á robustez de espirito, á fé fecunda e creadora que
moveu alguns homens privilegiados a fazerem-nos sahir d'esse marasmo
estagnador!
Foram esses homens os verdadeiros creadores da sciencia, que hoje
illumina até os mais ignorantes, dos bens que hoje desfructam até os
mais desgraçados.
* * * * *
Um dos problemas resolvidos pelos modernos, e que se não fossem esses
benemeritos de que acima fallamos ficaria para sempre obscuro, é o
problema da educação.
Segundo o ponto de vista da edade média, a mãe não devia attender senão
á alma de seu filho.
Era preciso fazer d'elle um santo, e as mais das vezes só se fazia um
bandido.
E que o alvo a que se tendia era estupido e anti-natural e os meios de
que se usava eram inteiramente contraproducentes.
Hoje a mãe já não tem desculpa nem da sua ignorancia propria, nem da
ignorancia da sua época.
Se não sabe é porque não quer saber.
O homem moderno tem applicado grande parcella da sua prodigiosa
actividade em descobrir os meios mais efficazes de fazer as gerações que
vão seguir-se-lhe melhores do que as gerações que o precederam.
Está pacificada a guerra que se havia travado entre a alma e o corpo.
Mais ainda; hoje comprehende-se perfeitamente que é da saude do corpo
que depende a saude da alma, e que os maus são quasi sempre os enfermos
ou os defeituosos.
O caminho das boas mães está naturalmente traçado.
Não poupar esforços para aperfeiçoar e robustecer o corpinho querido,
dentro do qual está crescendo e desabrochando a flôr maravilhosa, a flôr
delicadissima, que é a alma infantil.
Poucas pessoas comprehendem a fundo qual seja a responsabilidade de ser
mãe.
Não a póde haver mais seria e mais tremenda.
Desde que a creança nasce até ao segundo periodo da sua vida, em que
ella já começa a ser susceptivel de ensino, quantos cuidados multiplos,
engenhosos, delicados e constantes!
Um movimento menos suave, um golpe de ar quando a creança está no banho,
um abafo excessivo ou uma imprudente e rapida mudança de habitos,
qualquer pequena cousa que á primeira vista parece insignificante, póde
ter um alcance enorme no futuro do querido entezinho.
Sabemos de uma creança que ficou cega, porque estabeleceram uma corrente
de ar no quarto em que ella tomava um banho tepido.
Conhecemos uma pobre mulher, que tem padecido toda a vida cruelmente,
que nunca pôde trabalhar, nem ser util a ninguem, porque a tornou
rachitica uma quéda que a fizeram dar brincando com ella em pequena.
Ha muita gente que se diverte estupidamente atirando as creanças ao ar,
fazendo-as dar voltas, abalando-lhes o pequeno cerebro.
Quem póde dizer os resultados fataes para o seu organismo que d'ahi
resultam!
A creança é tudo que ha de mais fragil e de mais delicado.
Pensem bem todas as mães que um erro de hygiene póde ás vezes fazer de
uma indole pacifica uma indole perversa.
A alma e o corpo, os dous irreconciliaveis, inimigos de outro tempo,
estão hoje para todos os olhos tão estreitamente unidos, tão
profundamente identificados, que não ha abalo ou sensação que um
experimente e de que o outro deixe de resentir-se logo.
* * * * *
Pensam muitas mães que o melhor meio de emendarem os erros de seus
filhos, são os ralhos repetidos e os castigos severos.
Engano perfeito!
O unico meio de educação verdadeiramente proficuo é o exemplo.
Que encargo de almas não assume a mulher que quizer ser boa mãe!
A mais doce e a mais tocante relação reciproca que existe entre a mãe e
o filho, é aquella em virtude da qual a mãe educando-se educa, e o filho
sendo ensinado ensina.
Emquanto ensinamos os nossos filhos, a nós proprias nos estamos
illustrando.