Esse salario entraria como elemento de receita na caixa central.

Este plano, como se vê, não é mais que um plano embryonario, o germen

d'uma idéa que se nos affigura util e praticavel.

Outros melhor do que nós o estudem e desenvolvam, se entenderem que o

merece.

* * * * *

Quanto a nós, acreditamos piamente que só então começariamos a ter

criadas.

As que sahissem do asylo com 20 annos de edade ficariam sujeitas a uma

certa e determinada vigilancia, cujo systema e cujas bases nos não

compete agora explicar.

Com estas garantias de moralidade, e de bom serviço, seriam preferidas a

todas que as não tivessem, e pelo menos fariam uma util concorrencia ás

criadas indisciplinadas e ignorantes que hoje temos.

As casas dignas e honestas teriam criadas cujo comportamento as não

deslustrasse.

As outras ficariam com as que teem hoje.

Não merecem mais.

* * * * *

Nos asylos dos rapazes, seguir-se-hia uma norma egual ou parecida.

Esses como teem campo muito mais vasto para exercerem as suas

actividades complexas, dariam de certo, bem educados e bem dirigidos, um

pequeno contingente para a classe dos criados.

Seria um bem.

Uma criada representa sempre uma necessidade, um criado representa

sempre um luxo!

Para que ha de haver criados de meza ociosos e insolentes, cosinheiros

envenadores e infieis?

Estes serviços tão faceis não podem ser feitos por mulheres?

Logo que este uso se propagasse entre os ricos, deixaria de ser indicio

de pobreza, ou de habitos plebeus.

No fim de contas tudo isto não passa de convenção!

* * * * *

Já que o Estado julga descer occupando-se d'estas _pequeninas_ questões

de moralidade domestica, que a iniciativa individual o substitua.

Ninguem mais do que nós tem applaudido o engrandecimento progressivo, o

rapido desenvolvimento das instituições de caridade.

Não é o dinheiro que falta, porque entre nós quando se falla na miseria,

a caridade nunca faltou; o que falta é uma direcção boa.

A rotina n'isto como em tudo é funestissima.

A nossa caridade official dá pão e vestuario ás creanças, mas que faz em

favor das mulheres?

Dando-lhes uma educação que não está em harmonia com os seus meios

futuros, condemna-as á miseria, á desgraça, quantas vezes á ociosidade e

á ignominia?

A educação deve fazer-se pratica e positiva, deve tornar-se um

preventivo efficaz contra os maus conselhos da pobreza ou da preguiça!

Os que pensarem n'isto farão um bem á familia, e á sociedade.

Creanças

CAPITULO XV

I

São ellas a alegria da familia, como a familia é a suprema ventura dos

felizes, e o supremo consolo dos desgraçados.

Quando apparecem trazem comsigo o sol; tudo se illumina.

Sorriem os labios mais ironicos, marejam-se de lagrimas doces os olhos

mais aridos, estendem-se prodigas de bençães as mãos mais avaras.

Ellas são a graça que se ignora, a fraqueza que nenhum poder assusta, a

innocencia que interroga, a aurora intellectual que desponta e que

diffunde em torno de si uma luz cariciosa e limpida, uma luz que se

reflecte em jubilos no coração das mães.

Tudo na vida é para ellas mysterio, mysterio que as chama e as attrahe,

cujas trevas as não apavoram, em cujos sinistros meandros nem sequer

receiam perder-se.

Em cada um d'aquelles pequeninos cerebros encerra-se em germen tudo que

é no homem pequenez ou grandeza, genio ou mediocridade, força ou

impotencia, virtude, abnegação, esquecimento de si ou egoismo, vicio e

crime.

Onde ha maior mysterio do que a creança?

Debalde a interrogamos; não sabe responder, senão áquelles que pelo

poder da sympathia logram identificar-se com ella.

Recebel-a das mãos de Deus é para a mulher, para a mãe a mais tremenda

das responsabilidades, e desgraçadamente aquella de que tem a

consciencia menos definida e menos clara!

* * * * *

Ser mãe, quem o não é?

A difficuldade e o segredo é saber sel-o.

Na sociedade, tal como ella está constituida e continuará a estar por

largos e dilatados annos, dous entes, um homem e uma mulher, moços

ambos, encontram-se, olham-se, sorriem-se e pensam de si para comsigo

que estão _apaixonados_.

Durante alguns dias, alguns mezes, a que elles em falsa e sentimental

linguagem chamam _seculos_, repetem um ao outro, n'um tom mais ou menos

desafinado os _duettos_ de ternura doentia que os romancistas, os

prosadores e os _maestros_ inventaram para conveniencia sua... dos seus

emprezarios e editores, e para envenenamento do resto da humanidade.

N'este meio tempo, por detraz dos bastidores, os paes, que fingem _não

ver nada_, calculam _in petto_ quaes os prós e os contras pecuniarios do

matrimonio hypothetico.

Se os primeiros levam certa vantagem aos segundos, celebra-se com a

devida pompa o almejado consorcio, e n'essa noite ha mais dois

desconhecidos, dois indifferentes, dois estranhos acorrentados um ao

outro por um laço que devia ser sagrado, e que muitas vezes consegue

sómente ser... dourado!

O marido no outro dia vae para as suas labutações do costume, para a

vida exterior que o reclama e absorve, a mulher fica em casa provando os

vestidos do enxoval, experimentando se lhe fica bem a touca, distinctivo

invejavel das noivas, ensaiando os seus primeiros vôos timidos de

senhora independente, que póde á sua vontade fechar o piano, atirar fóra

o lapis e as tintas, deixar para um canto a costura e o bordado, e

subverter-se sem receio das censuras maternas no _dolce far niente_, que

tanto a namorava em seus dias de educanda submissa.

D'alli a um anno, se é boa, docil, se tem a intuição das cousas

delicadas, se um poderoso instincto de creatura amoravel lhe pede que

espalhe em volta de si a felicidade, concedamos-lhe que já tem tido

tempo de conhecer e apreciar seu marido, que principia a estimal-o, que

se lembra um poucochinho envergonhada dos falsos lyrismos de solteira,

das cartas que lhe escrevia _fazendo estylo_ e copiando phrases dos

grandes apaixonados que a lenda e o romance immortalisam; que tem,

emfim, ainda incompleta, mas já accentuada a noção da verdade e da

justiça que ha de guiar-lhe a vida.

Param, porém, aqui os seus conhecimentos, e um dia, surpreza, encantada,

extactica, chorando de alegria, umas lagrimas verdadeiras, d'estas que

se escoam entre risos de gratidão, percebe que tem nos braços um

pequenino ser, a quem tem direito de chamar filho, porque o gerou no

seio em longos mezes de agonia insondavel.

Que ha de fazer d'elle? Como ha de desenvolver, robustecer, cultivar a

saude d'aquelle entezinho, fragil e indefezo, que lhe solta no regaço os

seus primeiros vagidos, buscando com a boquinha faminta e o instincto

animal, que Deus concede a todos os seres creados, a primeira gotta do

leite materno, que é a sua vida?

Entram as amigas e dizem-lhe em côro:

--Não o cries que perdes a formosura, o viço, a mocidade, tudo o que

prende e captiva teu marido.

--Não o cries, que tens de te despedir dos bailes, das noites

triumphantes em que a valsa nos arrebata nos circulos vertiginosos, em

que as flôres e as finas essencias nos embriagam com o perfume

enervante, em que a musica nos côa nos sentidos as suas caricias

languidas, em que a luz crúa do gaz nos beija as espaduas opalinas, em

que a admiração dos homens nos envolve na audaz provocação dos seus

olhares, em que a inveja das mulheres nos enrosca em espiraes de cobra.

--Não o cries, que terás de perder as noutes, não entre alegrias e

folgares, mas na alcova, onde a medo bruxoleia a luz mortiça da

lamparina, junto de um pequeno berço, ouvindo aquelle choro da infancia,

tão doloroso para os ouvidos maternaes.

Teu marido fugirá de ti; elle, que anda cansado da faina diaria, quer as

noutes tranquillas, os somnos fartos, as placidas madrugadas;

repugnam-lhe os primeiros trabalhos que a creança tem que dar por força

á mãe, que fôr mãe, na accepção plena da palavra.

Não creio que a maior parte das mulheres ouça os funestos e corrosivos

conselhos das amigas falsas; hoje começa a radicar-se em todos os

espiritos a convicção justa e sensata de que só a mãe, quando é robusta,

ou quando é simplesmente sã, deve amamentar o filho.

Entregal-o aos braços mercenarios de mulher estranha é aceitar a mais

tremenda das responsabilidades.

A ama póde communicar no leite os seus vicios, os seus instinctos maus,

as suas doenças ou defeitos de organisação hereditaria, toda a herança

fatal de um passado inteiramente desconhecido para as pessoas que tão

levianamente lhe confiam o que devia ser o mais precioso thesouro da sua

alma.

Abstraiamos, pois, a ama, por não querermos suppôr que se trata aqui de

uma mãe frivola até ao crime, despiedosa até á ferocidade, ou fraca a

ponto de não poder cumprir os deveres da sua missão maternal.

Fica-nos simplesmente a mãe inexperiente e ignorante em face da

recem-nascida creatura, flôr que precisa o mais desvelado cultivo, a

mais complexa das educações.

Não a accusemos ao vel-a aceitar o seu mimoso fardo com tão leviana

confiança, com uma tão plena inconsciencia da grande missão que precisa

de cumprir.

A culpa não é d'ella; n'este ponto ha um criminoso apenas--é o homem.

* * * * *

Abrem-se universidades, lyceus, escolas, seminarios, institutos

scientificos, para educarem no seu seio os jurisconsultos, os medicos,

os sacerdotes, os mathematicos, os commerciantes, os sabios, os cidadãos

do futuro.

Só falta uma escola, a primeira, a mais indispensavel das escolas, a que

facilitaria e tornaria fructiferos os trabalhos das outras: falta a

_escola das mães_!

Ninguem se lembrou ainda de a crear, julgam-na desnecessaria, ou talvez

que a julguem frivola.

--Como é que se ha de ensinar a ser mãe? é só a natureza que instrue a

mulher. Ha mães de quinze annos que sabem mais n'este assumpto do que

velhos pensadores de sessenta. Deixae obrar a natureza, é ella a grande

mestra, a suprema inspiradora!

De accordo, meus senhores; quem é que nunca se lembrou de negar á mãe o

seu divino instincto de protecção e de ternura? Quem ao vel-a segurar

com tão delicado carinho o tenro corpo do filho, acalental-o nos braços,

adivinhar-lhe as necessidades e os desejos até para elle indistinctos,

negará que entre esses dous entes ha uma cadeia mysteriosa, que a

natureza nunca poderá mais desatar?

Mas é necessario que o estudo auxilie o maravilhoso instincto, que elle

ensine á mãe a comprehender no seu triplice aspecto, physico, moral e

intellectual, a educação do ser complexo, que hoje é uma fraqueza que

implora auxilio e ajuda, que ámanhã será uma força util ou funesta,

conforme a direcção que haja recebido desde os mais tenros annos.

* * * * *

_O estudo que comprehende todos os outros estudos, e que deve, portanto,

constituir o ponto culminante da instrucção, é a theoria e a pratica da

educação da infancia._

Estas palavras de Herbert Spencer, o philosopho mais notavel da moderna

Inglaterra, um grande pensador, um chefe de escola, provam de sobejo até

que ponto, aos olhos do homem que medita, avulta hoje o grande problema

da educação.

É um erro imaginar que a creança nasce boa.

Ha n'ella instinctos innatos de natureza selvagem, instinctos

primitivos, que só uma habil cultura modifica, transforma, encaminha ou

desarreiga.

Toda a creança é curiosa: mães aproveitae essa grande força, que conduz

o homem á conquista de todas as grandes descobertas da sciencia e da

arte, e que póde quando entregue a si conduzir a creança ao mais

deploravel e mesquinho dos vicios de caracter, á curiosidade esteril do

ocioso, da _senhora visinha_. A creança tem o instincto do roubo.

Apossa-se do que vê, do que attrahe pelo brilho, do que lhe desafia a

cubiça, a gulodice, o amor da posse.

Leitora, quando o teu pequenino de tres ou quatro annos tiver artes de

te roubar uma joia muito querida, um manjar muito reservado, um

_bibelot_ qualquer, que seja para ti de grande estimação, não chores

desconsolada, lendo n'esse primeiro symptoma sinistras prophecias. Esse

prenuncio de ambição desregrada póde, dirigido com previdente

vigilancia, transformar-se na legitima energia que leva o homem a

desejar a posse das riquezas honestamente adquiridas, a exercer no seu

espirito uma influencia fortificante, a tornal-o pertinaz no caminhar

para um ficto que de longe antevio.

Dirigir toda e qualquer tendencia para um fim elevado e util, combater a

inercia, a preguiça physica e intellectual da creança, empregando

activos reagentes, ir ajudando lenta e gradualmente a evolução natural

do entendimento infantil, abrir-lhe o espirito a todas as curiosidades

sãs, apontar para a natureza inteira como para um livro enorme,

mysterioso, cheio de apaixonado interesse, de peripecias dramaticas, de

imagens vistosas, que elle ha de ir decorando a pouco e pouco,

conduzil-o até ao limiar da adolescencia, puro de coração, immaculado no

corpo, prompto e apto para absorver em si os conhecimentos complexos que

o esperam, robusto, são, energico, confiante, cheio de crença nos

outros, e de crença maior em si, eis a missão das mães. Que de cousas

não são indispensaveis para a saber cumprir!

* * * * *

Uma das cousas que a mulher quasi geralmente ignora é a hygiene pratica,

que ella tanto precisava saber, tendo, como tem, a seu cargo a

distribuição e direcção do alimento da familia.

Do alimento que se ministra á creança depende em grande parte não só a

sua futura saude, mas, o que poucas mulheres sabem,--o seu caracter

futuro!

Dae a uma creança alimentos irritantes, inflammaveis, apimentados;

deixae-a usar sem discernimento de bebidas em que o alcool predomine, e

tereis o temperamento adulterado, o caracter azedo, os habitos baixos,

os gostos perversos, todas as aberrações de um organismo estragado.

Dae-lhe só carne, alimentae-a brutalmente de materias fortemente

azotadas, e fareis d'ella, da meiga e fragil creatura, do pequeno anjo

de cabellos louros e olhos innocentes, um temperamento sanguinario,

selvagem, amigo das luctas bravias, das distracções violentas, dos

exercicios athleticos, que caracterisam as rigorosas raças do norte.

Exemplo: os inglezes, que só domam as revoltas brutaes do temperamento

com a forte disciplina de uma educação que é o supremo milagre do

espirito sobre a materia.

A alimentação fraca produz os organismos inertes, fleugmaticos, sem

impulso, sem fibra, sem energia duravel.

Saber pois, conhecer os diversos attributos que caracterisam a

alimentação do homem, saber combinal-os de modo que todos concorram para

o seu bem-estar physico, e que nenhum produza as graves perturbações

organicas de que podem ser origem, é a sciencia das mães, sciencia para

cujo estudo devem tender todos os seus esforços.

* * * * *

A actividade quasi incessante da creança é um dos meios que mais

efficazmente concorrem para o seu crescimento physico e, por

consequencia, para o seu desenvolvimento intellectual.

As mães, julgando fazer n'isto um grande serviço a seus filhos, combatem

por todos os modos esta actividade, obrigando as creanças a uma

quietação que se transforma em supplicio para os pequeninos corpos

buliçosos, que um impulso involuntario leva a um quasi continuo

movimento.

Não é só com as reprehensões, ás vezes asperas e sempre injustas, não é

só encerrando os pobres seres pequeninos em espaço muito estreito para

os seus desejos, é tambem vestindo-os para obedecer ao despotismo da

moda, e ás exigencias da propria vaidade de um modo que está em pleno

contraste com a idéa que todo o espirito um pouco sensato deve formar

das aspirações e necessidades da infancia!

A creança, que quer e que precisa de correr no espaço amplo, pelas ruas

pedregosas, pelos campos lavrados, pela matta cheia de raizes, traz

quasi sempre uma botina alta, justa, de salto levantado e estreito!

Ella, que aspira aos movimentos livres, que se compraz nos grandes

gestos, que trepa ás arvores, que se roja pelo chão, que atira ao longe

os improvisados projectis que encontra, sente-se cruelmente cingida por

um fato rico, elegante, phantasioso, caro por força, e que tem o defeito

duplo e contradictorio de a entristecer lentamente, inconscientemente

pelas censuras e ralhos de que lhe é motivo incessante--visto que não ha

nada mais avarento do que a prodigalidade e nada mais economico do que a

ostentação--e de a tornar vaidosa pelo habito e pelo gosto de attrahir

as vistas dos frivolos, e a inveja dos pobres, dos pequenos rotos, dos

miseraveis de cinco annos, que ignoram as alegrias bemditas da sua

liberdade indomada!

Mães, arrancae ao vestuario dos vossos filhos tudo que fôr vaidade,

falso luxo, ostentação ridicula!

A graça das creanças consiste na plena expansão da sua vitalidade; o

luxo d'ellas está no doce aroma de infancia que de si exhalam, e que

falla de aceio, de pureza, de carinho materno, que revela--aos que sabem

ver--as matinaes e frescas alegrias do banho, as risadas crystallinas

como perolas que se desfiam, os gritinhos infantis, as fugidas subitas,

todo esse poema, que ninguem traduz, de um bando de pequeninos corpos,

feitos de leite e rosas, com cabelleiras louras por aureola, que uns

braços amorosos amparam, susteem, acariciam, em quanto que um sorriso

meigo e pensativo illumina em clarões de limpidez ideal, uma bocca que

só sabe abençoar, uns olhos de mãe, que nunca desamparam nem desfitam o

tepido ninho das suas doces aves implumes.

II

Por muito tempo todas as attenções do homem se fixaram n'um ponto que se

avistava para além da vida terrestre.

Curava-se sómente da alma considerando a terra morada transitoria, cheia

de males e de miserias, e o corpo ephemero involucro, especie de lodoso

carcere onde o espirito prisioneiro anciava por levantar o vôo para as

altas espheras da eterna bemaventurança.

Este pensamento, que dominava todos os outros e ao qual todos os outros

se subordinavam, é a causa suprema de onde deriva toda a philosophia da

edade média, e que determina o ideal a que tenderam os sonhos de

milhares de gerações, nossas predecessoras na vida.

Foi elle que estabeleceu o medonho antagonismo entre o espirito e a

materia, causa de tantos erros e de tão falsas interpretações; foi elle

que levou o homem perdido e transviado a considerar a natureza como a

sua mais cruel inimiga, como a sua tentação mais perigosa e abominavel.

D'esta guerra anti-humana e anti-natural nenhuma conquista verdadeira

poderia provir.

Era falso o ponto de vista de que o homem partia, falsissimas todas as

deducções que d'esse ponto de vista resultavam.

O corpo era um farrapo miseravel que só merecia desprezo e humilhação;

todo o prazer, ainda o mais natural era um peccado que cumpria expiar

cruelmente; a vida era um periodo curto de passagem e penitencia; a

creança nascida já vinha contaminada do peccado original; a alma, só a

alma precisava dos nossos cuidados, das nossas meditações, do nosso mais

especial e esmerado cultivo!

Quantos erros de educação, de moralidade e de hygiene!

Quantas revoltas medonhas este despotismo espiritual não excitava!

Mas foi por acaso esse tempo de pura espiritualidade?

Pelo contrario!

Nunca os instinctos maus do homem imperaram com mais violencia! Nunca se

materialisaram mais todos os cultos e todas as idéas!

O Deus que todos adoravam em extasis apaixonados, era o Christo

dolorido, cadaverico, crivado de pregos, escorrendo sangue de cada uma

das suas chagas abertas.

A dôr maternal era symbolisada por sete espadas atravessando um coração

dilacerado.

Os fanaticos mostravam á admiração das turbas os estygmas sangrentos das

suas carnes palpitantes.

Os ascetas tinham visões nas quaes o Padre Eterno, o Christo, a Virgem,

os Santos, lhes appareciam sob a fórma humana, com feições diversas e

caracteristicamente accentuadas, fallando na linguagem mais correntia e

mais chã.

A _resurreição da carne_ era um dos pontos fundamentaes do dogma

catholico. O espiritualismo d'essas éras barbaras era muito mais

_material_ do que a sciencia de hoje.

--Para que aperfeiçoarmos e amenisarmos a vida,--diziam do alto dos seus

pulpitos ou nas paginas dos seus tractados as terriveis authoridades

d'essas éras tão hostis para o homem.--Quanto maiores supplicios

houvermos padecido n'este momento rapido, maior quinhão de gloria tem

para nós a eternidade. Sofframos todas as humilhações mais abjectas,

curvemo-nos diante de todas as tyrannias, deixemos que os vermes devorem

o nosso corpo ulcerado, sejamos grandes em face do Senhor, como Job na

sua gloriosa estrumeira. Os que forem ultimos cá em baixo, serão os

primeiros no céu!

E a humanidade, ébria de um sonho de beatitude immortal, perdia a força

para combater, e esperava passivamente a resurreição esplendida que os

illuminados lhe promettiam!

Oh! quanto devemos á robustez de espirito, á fé fecunda e creadora que

moveu alguns homens privilegiados a fazerem-nos sahir d'esse marasmo

estagnador!

Foram esses homens os verdadeiros creadores da sciencia, que hoje

illumina até os mais ignorantes, dos bens que hoje desfructam até os

mais desgraçados.

* * * * *

Um dos problemas resolvidos pelos modernos, e que se não fossem esses

benemeritos de que acima fallamos ficaria para sempre obscuro, é o

problema da educação.

Segundo o ponto de vista da edade média, a mãe não devia attender senão

á alma de seu filho.

Era preciso fazer d'elle um santo, e as mais das vezes só se fazia um

bandido.

E que o alvo a que se tendia era estupido e anti-natural e os meios de

que se usava eram inteiramente contraproducentes.

Hoje a mãe já não tem desculpa nem da sua ignorancia propria, nem da

ignorancia da sua época.

Se não sabe é porque não quer saber.

O homem moderno tem applicado grande parcella da sua prodigiosa

actividade em descobrir os meios mais efficazes de fazer as gerações que

vão seguir-se-lhe melhores do que as gerações que o precederam.

Está pacificada a guerra que se havia travado entre a alma e o corpo.

Mais ainda; hoje comprehende-se perfeitamente que é da saude do corpo

que depende a saude da alma, e que os maus são quasi sempre os enfermos

ou os defeituosos.

O caminho das boas mães está naturalmente traçado.

Não poupar esforços para aperfeiçoar e robustecer o corpinho querido,

dentro do qual está crescendo e desabrochando a flôr maravilhosa, a flôr

delicadissima, que é a alma infantil.

Poucas pessoas comprehendem a fundo qual seja a responsabilidade de ser

mãe.

Não a póde haver mais seria e mais tremenda.

Desde que a creança nasce até ao segundo periodo da sua vida, em que

ella já começa a ser susceptivel de ensino, quantos cuidados multiplos,

engenhosos, delicados e constantes!

Um movimento menos suave, um golpe de ar quando a creança está no banho,

um abafo excessivo ou uma imprudente e rapida mudança de habitos,

qualquer pequena cousa que á primeira vista parece insignificante, póde

ter um alcance enorme no futuro do querido entezinho.

Sabemos de uma creança que ficou cega, porque estabeleceram uma corrente

de ar no quarto em que ella tomava um banho tepido.

Conhecemos uma pobre mulher, que tem padecido toda a vida cruelmente,

que nunca pôde trabalhar, nem ser util a ninguem, porque a tornou

rachitica uma quéda que a fizeram dar brincando com ella em pequena.

Ha muita gente que se diverte estupidamente atirando as creanças ao ar,

fazendo-as dar voltas, abalando-lhes o pequeno cerebro.

Quem póde dizer os resultados fataes para o seu organismo que d'ahi

resultam!

A creança é tudo que ha de mais fragil e de mais delicado.

Pensem bem todas as mães que um erro de hygiene póde ás vezes fazer de

uma indole pacifica uma indole perversa.

A alma e o corpo, os dous irreconciliaveis, inimigos de outro tempo,

estão hoje para todos os olhos tão estreitamente unidos, tão

profundamente identificados, que não ha abalo ou sensação que um

experimente e de que o outro deixe de resentir-se logo.

* * * * *

Pensam muitas mães que o melhor meio de emendarem os erros de seus

filhos, são os ralhos repetidos e os castigos severos.

Engano perfeito!

O unico meio de educação verdadeiramente proficuo é o exemplo.

Que encargo de almas não assume a mulher que quizer ser boa mãe!

A mais doce e a mais tocante relação reciproca que existe entre a mãe e

o filho, é aquella em virtude da qual a mãe educando-se educa, e o filho

sendo ensinado ensina.

Emquanto ensinamos os nossos filhos, a nós proprias nos estamos

illustrando.

Mulheres e creanças: notas sobre educação · 第 10 / 13 段